ANÁLISE DE SOFTWARE EDUCACIONAL

Luiz Carlos Neitzel – Mestrando

Maria José Dozza Subtil – Doutoranda

Rita de Cássia Guarezi Gomes – Mestranda

Rinaldo Irineu De Souza – Mestrando

Sharon Ellen dos Anjos – Mestranda


 



O objetivo deste trabalho é proporcionar uma reflexão sobre análise de software educacional no que se refere ao modelo de avaliação prévia por "checklist" e à problemática da análise da pertinência educacional. Também estaremos apresentando o resultado da análise, realizada pela equipe do Software de Autoria: EVEREST, requisito de avaliação da disciplina Mídia e Conhecimento, ministrada pela professora Dulce Márcia Cruz.
 

1. INTRODUÇÃO

Falar em qualidade de tecnologia educacional significa refletir sobre qualidade de um projeto que ofereça suportes teóricos didáticos e pedagógicos a essas tecnologias.

Os recursos tecnológicos podem contribuir para a melhoria da qualidade do ensino desde que desenvolvam o pensamento, a capacidade de criação, de criticidade e interatividade dos alunos. Para que isso ocorra é necessário a mediação do professor e da equipe técnico pedagógica na concepção de uma proposta consistente e bem fundamentada quanto às relações de ensino/aprendizagem, que supõe a produção do conhecimento envolvendo sujeitos/objetos técnicos e conhecimento. Nesse sentido nenhuma tecnologia é autosuficiente.

Integrar a utilização do software educacional no processo de ensino/aprendizagem requer a consideração de alguns aspectos:

Para VALENTE (1997), na utilização do software educacional é necessário ter clara a abordagem educacional a partir da qual ele será utilizado e qual o papel do computador nesse contexto. Isso implica encarar a aprendizagem a partir de dois pólos: a promoção do ensino ou a construção do conhecimento.
 
 

Na primeira visão o professor se empenha na preparação e transmissão do conhecimento e se o aluno memoriza e devolve o conteúdo o sucesso do ensino está garantido. Nesse sentido o computador assume o papel de auxiliar de instrução. Geralmente os softwares que implementam essa abordagem são os tutoriais, os softwares de exercício e prática e os jogos.
 
 

Para o autor, os sofwares que promovem o ensino existentes no mercado demonstram que o trabalho do professor pode ser substituído pelo computador e talvez com mais eficiência. No entanto ele afirma que essa abordagem educacional não dá conta de produzir sujeitos preparados para sobreviver no mundo complexo em que vivemos
 
 

Com relação à segunda abordagem, o mesmo autor vai afirmar que o computador pode ser encarado como auxiliar no processo de construção do conhecimento, isto é, uma máquina a ser ensinada onde o aluno é quem passa as informações para o computador, é ele quem "ensina". Cita como exemplo: as linguagens de programação, como BASIC, Pascal, LOGO, os aplicativos, os softwares para construção de multimídia, etc. Nessa dimensão há todo um processo que supõe a interação aluno/computador através da mediação do professor.
 
 

O uso dos softwares no processo educacional requer uma abordagem dialética, que incorpore, supere a técnica e avance nas discussões sobre a tecnologia educacional. Nesse sentido é importante negar a mera informatização do ensino numa visão mercadológica e afirmar a possibilidade do uso inteligente, interativo e criativo do computador considerando sempre a importância da mediação do professor nesse processo.
 
 

2. ANÁLISE DE SOFTWARE
 
 
 
 

2.1. Softwares
 
 

São programas desenvolvidos afim de atender as necessidades dos usuários (planilhas de cálculos, editores de texto, aplicativos gráficos, jogos...)
 
 

2.2. Software Educacional
 
 

"É todo aquele que possa ser usado para algum objetivo educacional, pedagogicamente defensável por professores e alunos, qualquer que seja a natureza e a finalidade para a qual tenha sido criado. Entretanto para que um software seja utilizado com finalidade educacional, qualidade, interface e pertinência pedagógica necessitam ser avaliados".(LUCENA)
 
 
 
 

2.3 Classificação das Modalidades de Software na Educação
 
 
 
 

Entendemos que a forma de classificação das modalidades do software é realizada de acordo com a concepção pedagógica que norteia o trabalho com os computadores. A seguir veremos algumas citações de alguns autores sobre o assunto:
 
 

Taylor – O computador em Educação pode ser usado como:

Kemmis – a utilização do computador em educação está voltada para quatro paradigmas:

Valente – Há duas modalidades de uso do computador no ambiente escolar:

Lucena – A utilização dada ao computador é baseada em teorias psicopedagógicas:

Segundo Lucena, dependendo da teoria pode-se utilizar o software como:
 
 
 
 
 
 

2.4 – Categorias de Software Educacionais
 
 
 
 

Há várias categorias de software, que podem ser classificados dentro das concepções de uso do computador acima citadas. Relacionamos algumas:
 
 

Software de Informação (referência) – Programas que apenas transmitem informações sobre determinado tema ou temas. Ex. Enciclopédias eletrônicas
 
 

Software Tutorial: Programas que ensinam procedimentos para se realizar alguma tarefa ou trabalhar com algum programa no computador. Ex. ajuda do Windows.
 
 

Software Exercício e Prática: Programas que trabalham exercícios de instrução programada ou exercícios para o desenvolvimento de habilidades específicas, através da repetição, associação simples, múltipla escolha. Ex. muitos dos softwares educativos no mercado.
 
 

Jogos Educacionais: São programas que envolvem conteúdos pedagógicos em forma de jogos. Ex. dominós.
 
 

Simulação: Programas que apresentam situações semelhantes à vida real e os alunos podem participar, testar e decidir. Ex. sim city
 
 

Solução de Problemas: Programas que propõem problemas para serem solucionados pelos alunos. Não há uma resposta correta. O aluno descobre um processo para encontrar a solução. Ex. LOGO

Aplicativos: Programas que realizam tarefas determinadas, mas que não se limitam a uma operação. Ex. editores de texto.
 
 

Correio Eletrônico: Programas que permitem a troca de mensagens eletrônicas entre usuários conectados a uma rede de computadores. Ex. Eudora.
 
 

Navegadores: Programas que permitem a navegação hipertextual através de sites da WWW. Ex. Netscape communicator.
 
 

Software de Autoria: São programas que codificam o que o usuário quer realizar, podendo o mesmo criar outros programas, apresentações, aulas, etc. com possibilidades de criações multimídia. Ex. Everest.
 
 

2.3 – Critérios para avaliação de software
 
 
 
 

Cada dia a avaliação da mídia torna-se mais necessária. O crescimento da oferta de software exige uma seleção séria dos mesmos quanto sua qualidade.
 
 

"Qualidade é uma condição essencial de qualquer software, sendo uma preocupação básica da Engenharia de Software identificar os requisitos de qualidade e estabelecer os mecanismos para controlar o processo de desenvolvimento do software, de forma a garantir a qualidade do produto". (STHAL, 1988)
 
 
Muitos são os métodos aplicativos na avaliação de softwares, mas normalmente são utilizadas listas de critérios numericamente diferenciados por pesos (checklists) que apresentam suas vantagens e desvantagens:
 
 

Vantagens:

Desvantagens:

SQUIRES (1996), levanta alguns problemas na avaliação de softwares educacionais. Diz que esta avaliação deve levar em consideração a capacidade de utilização do software, assim como a aprendizagem e, de maneira fundamental, a integração de relações entre capacidade de utilização e aprendizagem. Critica os checklists, pois não levam em conta essa integração. Na maioria deles a integração da capacidade de utilização e dos assuntos ligados à educação não é considerada. Este tipo de avaliação é realizado no momento da compra do software, antes de sua real utilização no processo educacional, chamada de avaliação prévia, o que dificulta aos avaliadores considerar a forma através da qual esta integração acontece.
 
 

Outro problema é a falta de treinamento dos professores para entender a capacidade de utilização do software. Na maioria das vezes os mesmos não têm oportunidade de experimentar o software antes, como gostariam. A decisão da compra pode até ser influenciada por propagandas de revistas ou descrições na embalagem do produto.

Os próprios checklist são complexos, sem fundamentos e um tanto arbitrários dificultando a avaliação para o usuário simples.
 
 

Parece-nos portanto, que o entendimento da melhor forma de utilização do software na educação, ter clara a concepção de aprendizagem que estará norteando seu uso, torna-se fundamental para a análise de qualquer software que queira ser utilizado na educação. Assim como itens bem definidos e claros podem auxiliar os professores a terem maiores chances de acertos na escolha dos softwares.
 
 

Segundo Lucena, ao analisar o método Rocha1, opina que um especialista em educação (usuário simples), encontra dificuldades ao tentar como no caso deste método, utilizar todos os objetivos, fatores, subfatores e critérios estabelecidos. Após vários estudos chegou-se a conclusão de que havia necessidade de simplificação, mais prática e menos teórica para auxiliar professores na tarefa de avaliar qual o melhor e mais adequado software a ser adotado de acordo com seu planejamento curricular.
 
 

Squires, propõe que na avaliação prévia seja analisado se o software é consistente, previsível, confiável, compreensível e fornece ajuda apropriada se algo der errado, ou seja, se o mesmo suporta a aprendizagem, levando em conta a maneira como os alunos aprendem, fornecendo boa capacidade de utilização, permitindo a interação de forma intuitiva e natural (QUALIDADE TÉCNICA, INTERFACE, PERTINÊNCIA EDUCACIONAL).
 
 

Diante destas considerações levantamos alguns critérios pedagógicos e técnicos, que consideramos atender as orientações da melhor forma de avaliação prévia de um software educativo.

Aspectos Pedagógicos:
 
 
 
 

  1. O software é aberto, permitindo o processo ativo da produção, criação?
  2. Facilita uma concepção de educação voltada para a construção do conhecimento de forma interativa?
  3. Instiga a curiosidade, atenção e busca independente de informações;
  4. Possibilita o hipertexto?
  5. Permite a utilização da multimídia (som, texto, imagem e vídeo...) na criação de projetos?
  6. Favorece a interdisciplinaridade?
  7. Leva a busca de informações em diferentes fontes de pesquisa?
  8. Possibilita o registro e a consulta de ações, permitindo a depuração?
  9. É desafiador o levantamento de hipóteses, reflexão e troca?
  10. Está livre de preconceitos?
  11. facilita o trabalho cooperativo?
  12. Apresenta diferentes níveis de dificuldades?
  13. Proporciona o feedback imediato, que auxilie a compreensão do erro?

 
 

Aspectos Técnicos:
 
 

  1. Acesso fácil ao fabricante, com possibilidade de atualização?
  2. Traz manual e tutorias?
  3. Apresenta ajuda on line?
  4. É auto executável?
  5. Executa em diferentes marcas, modelos e configurações de equipamentos?
  6. Opera e reconhece diferentes tipos de arquivos ( de sons, imagens, textos...) ?
  7. Possibilita a integração com outros softwares?
  8. Converte os arquivos para Internet?
  9. Tem acesso direto a Internet?
  10. A Interface é amigável?
  11. É de fácil utilização para um usuário novato?

 
 

3- PRODUTO EM ANÁLISE:
 
 

3.1. Especificações:
 
 

Nome: Everest

Categoria: Software de Autoria

Empresa: Complex Informática Ltda. Florianópolis/SC

Ano de lançamento: 1993 – versão: 1.0

A partir do lançamento o software vem sendo reavaliado constantemente em consideração às análises de seus usuários. Destas reavaliações a Complex chega a versão 4.0 neste ano de1999.
 
 
 
 

4. ANÁLISE:
 
 
 
 

Após análise a equipe apresenta o resultado em ficha e descritiva fazendo inicialmente a seguinte consideração sobre o produto:

O software é aberto de boa qualidade técnica, boa interface e pertinência educacional. Se bem orientado pelo professor é capaz de gerar um rico ambiente de aprendizagem, pois o software permite a interação, busca de informações em variadas fontes de pesquisa, levando o aluno a criação, reflexão e depuração. No entanto apesar de ser classificado por critérios em forma de checklist como um software dentro de uma concepção de educação não instrucionista e sim construcionista, o mesmo não garante que isso vá ocorrer, sendo que a utilização dada ao mesmo é que irá determinar sua eficácia na construção do conhecimento.
 
 

Ficha de Análise Pedagógica


 



 
 
 

Aspectos

 

Critérios

AA
BB
CC
DD
EE
Pedagógicos
 
 
 
 

 

01 – O software é aberto, permitindo o processo ativo da produção, criação? XX
02 – Facilita uma concepção de educação voltada para construção do conhecimento de forma interativa? XX
03 – Instiga a curiosidade, atenção e busca independente de informações? XX
04 – Possibilita o hipertexto? X XX
05 – Permite a utilização da multimídia (som, texto, imagem, vídeo...) na criação de projetos? XX
06 – Favorece a interdisciplinaridade? XX
07 – Leva a busca de informações em diferentes fontes de pesquisa? XX
08 – Possibilita o registro e a consulta de ações, permitindo a depuração? XX
09 – É desafiador, oportunizando o levantamento de hipóteses, reflexão e troca? XX
10 – Esta livre de preconceitos? XX
11 – Facilita o trabalho cooperativo? XX
12 – Apresenta diferentes níveis de dificuldades? XX
13 – Proporciona o feedback imediato, que auxilie na compreensão do erro? XX

 
 

Ficha de Análise Técnica


 



 
 
 

Aspectos

 

Critérios

AA
BB
CC
DD
EE
Técnicos
  1. Acesso fácil ao fabricante, com possibilidade de atualização?
XX        
  • Traz manual e tutorias?
  • X        
  • Apresenta ajuda on line?
  • X        
  • Gera executável ?
  •          
  • Executa em diferentes configurações de equipamentos?
  • X        
  • Opera e reconhece diferentes tipos de arquivos (de sons, imagens, textos...)? 
  •   X      
  • Possibilita a integração com outros softwares?
  •       X  
  • Converte os arquivos para Internet?
  • X        
  • Tem acesso direto a internet?
  •   X      
  • A Interface é amigável?
  •   X      
  • É de fácil utilização para um usuário novato?
  •     X    

     

    LEGENDA:

    A – Ótimo

    B – Bom

    C – Satisfatório

    D – Regular

    E – Não aplicável

    Após esta análise, cabe considerar alguns aspectos que concernem especificamente ao pedagógico.
     
     

    As características técnicas do Software de Autoria Everest, possibilitam a construção do conhecimento numa abordagem interativa, interdisciplinar e coletiva.
     
     

    Em primeiro lugar porque pressupõe a elaboração prévia de um projeto, pesquisa, coleta e depuração de informações, organização de arquivos, para a partir disso construir o produto.
     
     

    Em segundo lugar na criação do produto vai se estabelecer uma relação prazerosa com o programa, despertando o interesse, a curiosidade e a criatividade do aluno, uma vez que o mesmo permite a utilização da multimídia. Esta relação está intimamente ligada a uma nova forma de apreensão do mundo. Segundo FERRES (1996), a educação para uma geração audiovisual requer uma abordagem em "estéreo", isto é, considerando as diferentes linguagens e canais em lugar da apropriação "mono" (um só canal) do conhecimento.
     
     

    Em terceiro lugar rompem-se os limites entre o ensinar e o aprender, quando o professor/alunos, alunos/alunos saem de um processo individual, seja de ensinar, seja de aprender, para a construção coletiva de um conhecimento significativo.
     
     

    No entanto, queremos ressaltar que para utilizar o uso desta ferramenta com todas as possibilidades que ela oferece, faz-se necessário repensar as condições objetivas da escola hoje. Isso significa dizer que além de considerar os aspectos financeiros envolvidos, é preciso estabelecer formas de trabalho que levem em conta esta nova dinâmica na construção do conhecimento.
     
     
     
     

    4. CONSIDERAÇÕES
     
     
     
     


     
     

    5. BIBLIOGRAFIA
     
     

    BAUMGARTNER,Peter. Método e Prática de Avaliação de Software. O caso do Prêmio Acadêmico Europeu de Software. Artigo Internet: http://www.uni-klu.ac.at - 1996.

    CAMPUS, Gilda Helena Bernardino. Avaliação da Qualidade de Software Educacional. UFRJ. Setembro, 1996.

    DOCUMENTO FINAL - Encontro das regiões norte e centro-oeste sobre a apreciação e uso de software educacional. Caldas Novas - GO - 30/10/98

    MEC/PROINFO - Encontro Região Sul - Uso e aplicação do software. Jaraguá do Sul -SC, 22/01/1999.

    LUCENA, Marisa. Critérios para Avaliação do Software Educacional. Artigo Internet.

    SQUIRES, David et all PREECE, Jenny. Capacidade de Utilização e Aprendizagem: Avaliação do Potencial do Software Educacional. Artigo Intenet: http://www.vax.sbu.ac.uk. 1996.

    FERRÉS, Joan. Vídeo e Educação. 2ª ed. Campinas: Papirus, 1996.

    VALENTE, J. A. O uso inteligente do computador na educação. Revista Pátio. Ano I nº 1, Mai/Jul 1997, p. 19-21

    __Análise de Diferentes Tipos de Softwares Usados na Educação – NIED_ Campinas/SP. 1998.