Enfrentando o Problema da Consciência

(Tradução parcial do Capítulo 1: pg 3 à 11)

David J. Chalmers

Introdução

A consciência tem colocado muitos problemas desconcertantes para as ciências da mente. Não existe nada que nós conheçamos mais intimamente do que a experiência consciente, mas não existe nada mais difícil de explicar. Todos os tipos de fenômenos mentais tem sido tratados pela investigação científica nos últimos anos, mas a consciência resiste obstinadamente. Muitos tem tentado explicá-los, mas as explicações não tem atingido completamente o alvo. Alguns tem sido levados a supor que o problema é intratável, e nenhuma boa explicação pode ser dada.

Para fazer progressos com o problema da consciência, nós temos que enfrentá-lo diretamente. Neste papel, eu inicialmente isolei a parte mais pesada do problema, separando-a das mais tratáveis, apresentando o porque é tão difícil explicá-la. Eu critico alguns trabalhos recentes que usam métodos redutivos para dirigir-se à consciência, e argumento que tais métodos inevitavelmente fracassam na compreensão da maior parte do problema. As vezes este fracasso é reconhecido, e a porta para um progresso adicional é aberta. Na segunda metade do texto, eu argumento que se nós nos movermos para um novo tipo de explicação não redutivo, uma explicação naturalista pode ser alcançada. Eu apresento minha própria indicação para tal compreensão: uma teoria não redutiva baseada nos princípios da coerência estrutural e na invariância organizacional juntamente com um aspecto duplo da teoria da informação.

Os problema fáceis e os problemas difíceis

Não existe um só problema na consciência. ‘Consciência’ é um termo ambíguo, referindo-se a vários diferentes fenômenos. Cada um destes fenômenos necessita ser explicado, mas alguns são mais fáceis de explicar do que outros. Para iniciar, é útil dividir os problemas associados à consciência em problemas fáceis e difíceis. Os problemas fáceis são aqueles diretamente suscetíveis aos métodos padronizados das ciências cognitivas, onde o fenômeno é explicado em termos de mecanismos neurais ou computacionais. Os problemas difíceis são os que resistem a estes métodos.

Os problemas fáceis da consciência incluem explicações para os seguintes fenômenos:

Todos estes fenômenos são associados com a noção de consciência. Por exemplo, alguns dizem que um estado mental é consciente quando ele é verbalmente comunicável, ou quando é internamente acessível. Algumas vezes um sistema é dito estar consciente de alguma informação quando ele é capaz de reagir com base naquela informação, ou, mais fortemente, quando ele atende àquela informação ou quando ele pode integrar aquela informação tirando partido dela no sofisticado controle do comportamento. Nós algumas vezes dizemos que uma ação é consciente precisamente quando ela é deliberada. Freqüentemente, nós dizemos que um organismo está consciente como outra forma de dizer que ele está acordado (atento).

Não existe nenhuma questão real sobre se estes fenômenos podem ser explicados cientificamente. Todos eles são extraordinariamente vulneráveis a uma explicação em termos de mecanismos neurais ou computacionais. Para explicar o acesso e a comunicação, por exemplo, nós necessitamos somente de mecanismos pelos quais as informações sobre nossos estados internos são recuperadas e tornadas disponíveis para uma interação verbal. Para explicar a integração de informação, nós precisamos somente apresentar os mecanismos pelos quais a informação é mantida junta para utilização posterior em outros processos. Para um discurso sobre o sono e a vigília, uma abordagem neurofisiológica apropriada sobre o processo responsável pelo comportamento contrastante dos organismos nestes estados será suficiente. Em cada caso, um modelo cognitivo ou neurofisiológico apropriado pode claramente fazer o trabalho exploratório.

Se estes fenômenos fossem todos os existentes sobre a consciência, a consciência não seria um grande problema. Entretanto, se nós não estamos ainda nem próximos de uma boa explicação para esses fenômenos, nós temos uma idéia clara de como nós devemos agir para explicá-los. Por isto que chamamos estes problemas de problemas fáceis. Claro que "fácil" é um termo relativo. Detalhá-los poderá levar provavelmente um século ou dois de pesquisa empírica difícil. Mesmo assim, existem muitas razões para acreditar que os métodos das ciências cognitivas e da neurociência serão bem sucedidos.

O Problema realmente difícil da consciência é o problema da experiência. Quando nós pensamos e percebemos existe um processamento de informação, mas existe também um aspecto subjetivo. Tal como Nagel (1974) colocou, alguma coisa nisto parece ser um organismo consciente. Este aspecto subjetivo é a experiência. Quando nós vemos, por exemplo, nós experienciamos sensações visuais: a qualidade sentida do vermelho, a experiência da luz e do escuro, a qualidade da profundidade em um campo visual. Outras experiências trabalham com a percepção em diferentes modalidades: o som de um clarinete, o odor de flores. E existem sensações corporais, de dores a orgasmos, ; imagens mentais que são evocadas internamente; a qualidade sentida da emoção e a experiência de uma sucessão de pensamentos conscientes. O que unifica todos esses estados é que existe alguma coisa neles que é parecida. Todos eles são estados da experiência (states of experience).

É inegável que alguns animais são sujeitos a experiências. Mas a questão de como esses sistemas são sujeitos de experiência causa perplexidade. Porque quando nossos sistemas cognitivos desencadeiam um processo de informação visual ou auditivo, nós temos uma experiência visual ou auditiva: a qualidade do azul profundo ou a sensação de uma nota musical específica ? Como nós podemos explicar que existe alguma coisa nisto parecida com brincar com uma imagem mental ou experienciar uma emoção? É amplamente aceito que a experiência tem origem em uma base física, mas nós não temos uma boa explicação do porquê e como ela se origina. Porque deveria um processamento físico dar origem a uma rica vida interior no final das contas? Está visto que não existe razão objetiva para que seja assim, mas ainda assim, é.

Se qualquer problema é qualificado como um problema da consciência, ele é. Neste entendimento central de "consciência", um organismo é consciente se existe algo nele que o faça comparável ou semelhante com este organismo, e um estado mental é consciente se existe alguma coisa que pareça estar neste estado.. Alguns termos como "consciência fenomênica" e "qualia" também serão usados aqui, mas eu acho mais natural falar de "experiência consciente" ou simplesmente "experiência". Outro modo útil de evitar confusão (usado por Newell 1990, Chalmers, 1996) é reservar o termo "consciência (consciousness)" para o fenômeno da experiência usando o termo menos carregado "percepção (awareness)" para fenômenos mais evidentes descritos anteriormente. Se esta é uma convenção fosse amplamente adotada, a comunicação seria muito mais fácil; do jeito que as coisas estão, aqueles que falam de "consciência" estão freqüentemente informando outra.

A ambigüidade do termo "consciência" é freqüentemente explorada tanto por cientistas como por filósofos escrevendo sobre o assunto. É freqüente ver artigos sobre consciência vir precedido por uma invocação sobre o mistério da consciência, apontando estranha intangibilidade e inefabilidade da subjetividade, e preocupando-se com o fato de que até agora nós não temos nenhuma teoria para o fenômeno. Aqui, fica claro que o problema é pesado - o problema da experiência. Na segunda metade do artigo o tom se torna mais otimista e a teoria do próprio autor é apresentada. Em um exame, essa teoria vem a se tornar a teoria de um dos fenômenos mais evidentes - a comunicação, o acesso à introspecção ou outro qualquer. No final, o autor declara que a consciência se tornou um problema capaz de ser tratado após seu esforço, mas o leitor se torna vítima de um blefe. O problema difícil permanece intocado.

Explicação funcional

Porque os problemas fáceis são fáceis e os problemas difíceis são difíceis? Os problemas fáceis são fáceis precisamente por eles envolverem a explicação de habilidades e funções cognitivas. Para explicar uma função cognitiva. Para explicar uma função cognitiva, nós só precisamos especificar um mecanismo que execute aquela função. Os métodos das ciências cognitivas são mais convenientes para este tipo de explicação, e assim elas são mais apropriadas para os problemas fáceis da consciência. Em contraste, os problemas difíceis são difíceis precisamente porque eles não são problemas sobre a performance de funções. O problema persiste mesmo quando a performance de todas as funções relevantes é explicada. (Aqui, função não é usada no sentido estreito de alguma coisa que um sistema esta designado para fazer, mas no sentido mais amplo de qualquer papel causal na produção do comportamento que um sistema pode desempenhar).

Para explicar a comunicação (reportability), por exemplo, é somente explicar como um sistema pode exercer a função de produção de descrição sobre seus estados internos. Para explicar o acesso interno, nós precisamos explicar como um sistema pode ser afetado por seus estados internos e usa essas informações em outros processos. Para explicar a integração e controle nós precisamos explicar um sistema de processamento central pode utilizar conteúdos informativos ao mesmo tempo e usá-los na facilitação de vários comportamentos. Estes são todos problemas sobre a explicação de funções.

Como explicar a performance de uma função? Pela especificação de um mecanismo que desempenhe a função. Aqui, as modelagens neurofisiológica e cognitiva são perfeitas para a tarefa. Se nós queremos uma explicação detalhada em baixo-nível, nós podemos especificar o mecanismo neural que é responsável pela função. Se nós quisermos uma explicação mais abstrata, nós podemos especificar um mecanismo em termos computacionais. De qualquer forma, uma explicação plena e satisfatória resultará. Se nós especificamos o mecanismo neural ou computacional que desempenha a função da comunicação verbal, o objetivo de nosso trabalho em explicar a reportabilidade está concluído.

De uma forma o ponto é trivial. É um fato conceitual sobre estes fenômenos de que suas explicações somente envolvem a explicação de várias funções caso os fenômenos sejam funcionalmente definíveis. Tudo isto significa que para a reportabilidade se transformar em um sistema o sistema tem que ter a capacidade para comunicar verbalmente as informações internas. Isso tudo significa que para um sistema estar alerta ele deve estar receptivo apropriadamente para informações do ambiente e ser capaz de usar tais informações para dirigir o comportamento de um modo apropriado. Para ver que este tipo de coisas são fatos conceituais, note que alguém que diz "você explicou a performance da função de comunicação verbal, mas você não explicou a reportabilidade (comunicação?)", comete um equívoco conceitual sobre a reportabilidade. Tudo o que poderia possivelmente ser tomado para explicar a reportabilidade é uma explanação de como as funções relevantes são executadas; o mesmo vale para outros fenômenos em questão.

Em todas as ciências de alto-nível, as explicações redutivas trabalham desta maneira. Para explicar o gene, por exemplo, nós necessitamos especificar o mecanismo que armazena e transmite a informação hereditária de uma geração para a próxima. É aceito que o DNA desempenha esta função; uma vez que nos explicamos como a função é executada, nós explicamos o gene. Para explicar a vida, nós temos que em última instância explicar como um sistema pode reproduzir-se, adaptar-se ao ambiente, metabolizar e assim por diante. Todas essas são questões sobre a performance de funções, e são adequadas a explicações reducionistas. O mesmo ocorre com muitos problemas nas ciências cognitivas. Para explicar o aprendizado, nós temos que explicar o modo pelo qual um sistema de capacidades de comportamento é modificado à luz das informações do ambiente, e o modo pelo qual novas informações podem produzir a adaptação de um sistema de ações para o seu ambiente. Se nós demonstramos como um mecanismo neural ou computacional faz o trabalho, nós explicamos o aprendizado. Nós podemos dizer o mesmo para outros fenômenos cognitivos, tais como a percepção, a memória e a linguagem. Algumas vezes as funções relevantes necessitam ser caracterizadas de forma muito sutil, mas fica claro que o grau ou extensão em que a ciência cognitiva explica os fenômenos é feita pela explicação da performance de funções.

Quando isto vem para a experiência consciente, este tipo de explicações fracassa. O que faz o problema difícil e talvez único é o que esta por trás dos problemas sobre a performance de funções. Para ver isso, note que mesmo quando nós estamos explicando a performance de todas as funções cognitivas e de comportamento na vizinhança da experiência - discriminação da percepção, categorização, acesso interno, expressão verbal - ainda permanecem uma questão não respondida: Porque a performance destas funções está acompanhada pela experienciação? Uma explanação simples das funções deixa a questão em aberto.

Não existe nenhuma questão análoga adicional na explicação dos genes, da vida ou do aprendizado. Se alguém diz "I posso ver que você explicou como o DNA guarda e transmite as informações hereditárias de uma geração para a próxima, mas você não explicou como ele (o DNA, suponho) é um gene, então eles estão fazendo um erro conceitual. Tudo isso significa que ser um gene é ser uma entidade que exerce a relevante função de armazenamento e transmissão. Mas se alguém diz "Eu posso ver que você explicou como a informação é discriminada, integrada e expressa, mas você não explicou como isto é experienciado", eles não estão fazendo um erro conceitual. Esta é uma questão não trivial adicional.

Esta questão adicional é a questão chave no problema da consciência. Por que todas essas informações não são processadas "no escuro", livres de qualquer sentimento interior? Por que quando ondas eletromagnéticas atingem nossa retina e são discriminadas e categorizadas pelo sistema visual, esta discriminação e categorização é experienciada como uma sensação de situação vivida? Nós sabemos que a experiência consciente emerge quando essas funções são exercitadas, mas o fato de como emergem é o mistério central. Existe um abismo explanatório (um termo assumido de Levine 1983) entre as funções e a experiência, e nós precisamos de uma ponte para cruzá-lo. Uma mera contabilidade das funções nos mantém no mesmo lado do abismo, assim o material para a ponte deve ser achado em algum lugar.

Não estamos dizendo que sem experiência não há função. Talvez isto jogue um importante papel cognitivo. Mas para qualquer que seja o papel que queiramos jogar, existirá mais para a explicação da experiência do que a simples explicação de função. Talvez nós devamos fazer aparecer que no curso de uma explicação de uma função, nós nos encontramos com a chave interior que permite uma explicação da experiência. Se isso acontece, então a descoberta será uma compensação explanatória extra. Não existe nenhuma função coletiva tal que nós possamos dizer que a explicação de tal função automaticamente explicará a experiência.

Para explicar a experiência, nós precisamos de novas abordagens. Os métodos explanatórios usuais das ciências cognitivas e neurociências não é suficiente,. Esses métodos tem sido desenvolvidos precisamente para explicar a performance das funções cognitivas, e tem feito um bom trabalho. Mas estes método estão, eles estão apenas equipados para explicar a performance de funções. Quando eles se encontram com um problema difícil, as abordagens padrão não tem nada a dizer.

Alguns estudos de caso

Nos últimos anos, um número de trabalhos tem assumido os problemas da consciência com o instrumental da ciência cognitiva e da neurociência. Isto parece sugerir que a análise acima é falsa, mas de fato um exame mais próximo dos trabalhos relevantes só nos indicam a necessidade de análise com apoio adicional. Quando nós investigamos quais aspectos da consciência estes estudos objetivam e quais aspectos eles pretendem explicar, nós achamos que o objetivo último da explicação é sempre um dos problemas fáceis. Eu irei ilustrar isso com dois exemplos representativos.

O primeiro é a "teoria neurobiológica da consciência" delineada por Crick e Kock (1990; ver também Crick 1994). Essa teoria se centra em certas oscilações neurais de 35-75 hertz no cortex cerebral; Crick e Kock sugerem a hipótese de que estas ondas são a base da consciência. Isto em parte porque estas oscilações estão correlacionadas com coma consciência em inúmeras modalidades diferentes - com o sistema visual e olfatório, por exemplo - e também por que eles sugerem um mecanismo pelo qual as ligações de conteúdos informativos pode ser levado a cabo. A ligação (binding) é o processo através do qual pedaços de informações representadas separadamente sobre uma entidade isolada são organizados juntos para serem usados para posterior processamento, como quando informação sobre a cor e a forma de um objeto percebido é integrado de sítios visuais separados. Segundo outros (por exemplo, Eckhorn et al. 1988), Crich e Cock sugerem a hipótese de que a ligação é conseguida pelas oscilações sincronizadas de grupos neuronais representantes dos conteúdos relevantes. Quando dois pedaços de informação são colocados juntos, os grupos neurais relevantes oscilarão com a mesma freqüência e fase.

Os detalhes de como esta ligação pode ser acionada são ainda pobremente conhecidas, mas se supõe que elas podem ser resolvidas. O que esta teoria pode explicar? Claramente ela deve explicar a ligação de conteúdos informacionais, e talvez ela leve a uma ainda contabilidade mais geral da integração de informações no cérebro. Crick e Cook também sugerem que essas oscilações ativam o mecanismo da memória de trabalho, e isto deve ser levado em conta quanto a outros tipos de memória a distância. A teoria pode eventualmente levar a uma contabilidade geral de como a informação percebida é agrupada e armazenada na memória para ser usada em processamentos posteriores.

Como teoria pode ser válida, mas ela não poderia nos falar nada sobre porque os conteúdos relevantes são experienciados. Crick e Cock sugerem que essas oscilações são correlatos da experiência. Esta pretensão é defensável - as ligações também não tomam parte no processamento de informações inconscientes? - mas mesmo que isso seja aceitável a questão explanatória permanece: Porque as oscilações fazem surgir/participam da experiência? A única base para uma conecção explanatória é o papel desempenhado na ligação e armazenamento, mas a pergunta de porque ligação e armazenamento devem por si mesmas ser acompanhadas pela experiência nunca é feita. Se nós não sabemos porque ligação e armazenamento fazem surgir a experiência, contar uma história sobre oscilações não irá nos ajudar. Por outro lado, se nós sabemos porque ligação e armazenamento fazem surgir a experiência, os detalhes neurofisiológicos seriam apenas a decoração do bolo. A teoria de Crick e Kock ganham força por assumir uma conexão entre ligação e experiência, mas não fazem nada para explicar o vínculo.

Eu não penso que Crick e Kock ultimamente estejam se interessando por problemas difíceis, enquanto alguns estão interpretando de outra forma. Uma entrevista publicada com Kock dá uma idéia clara das limitações da ambição dessa teoria:

"Bem, vamos primeiro esquecer os aspectos realmente difíceis como os sentimentos subjetivos que para eles nós não temos uma solução científica. O estado subjetivo de brincar, da dor, do prazer, de ver azul, de cheirar uma rosa - podem ser vistas como um salto gigantesco entre o nível materialista, da explicação de moléculas e neurônios, e o nível subjetivo. Vamos enfocar coisas que são fáceis de estudar - como a consciência visual. Você estava agora me falando, mas você não estava olhando para mim e sim para o café na sua frente, então você estava ciente dele. Você pode dizer "Isto é um copo e existe algum líquido nele". Se eu o der prá você, você moverá o braço e o pegará - você responderá de uma maneira que faz sentido. É isso que eu chamo consciência". (O que é consciência, "Discover" Novembro 1992, p. 96.)

O segundo exemplo é uma abordagem ao nível da psicologia cognitiva. É a teoria da consciência do espaço de trabalho global de Baars apresentado no seu livro Uma Teoria Cognitiva da Consciência. De acordo com essa teoria, os conteúdos da consciência estão contidos em um espaço de trabalho global, um processador central usado para mediar a comunicação entre um hóspede de processadores especializados inconscientes. Quando estes processadores inconscientes necessitam transmitir informações para o resto do sistema, eles fazem pelo envio estas informações para o espaço de trabalho, o qual age como um quadro negro comunal para o resto do sistema, acessível para todos os outros processadores.

Baars usou este modelo para endereçar vários aspectos da cognição humana, e para explicar inúmeros contrastes entre o funcionamento cognitivo consciente e inconsciente. Ultimamente, entretanto, é a teoria da acessibilidade cognitiva, explicando como é que uma certa informação é amplamente acessível dentro de um sistema , tanto como a teoria da integração informacional e reportabilidade. A teoria demonstra esperança como teoria da consciência, o correlato funcional da experiência consciente, mas uma explicação da experiência por si mesma não é oferecida.

Alguém pode supor que de acordo com esta teoria, que os conteúdos da experiência são precisamente os conteúdos do espaço de trabalho. Mas mesmo se fosse assim, nada internamente à teoria explica porque a informação dentro do espaço de trabalho global é experienciada. O melhor que a teoria pode fazer é dizer que a informação é experienciada porque ela é globalmente acessível. Mas agora a questão se apresenta em uma forma diferente: porque a acessibilidade global leva à experiência consciente? Como sempre, esta (bridging) questão não tem resposta.

Quase todos os trabalhos que tem uma abordagem cognitiva ou neurocientífica para a consciência nos últimos anos pode ser submetido a crítica similar. O modelo de "Darwinismo neural" de Edelman (1989), por exemplo, encaminha questões sobre a consciência da percepção o próprio conceito (self-concept), mas não diz nada sobre porque ela deve ser também experienciada. O modelo dos "múltiplos rascunhos" de Denett (1991) é amplamente dirigido para explicar a reportabilidade de certos conteúdos mentais. A teoria do "nível intermediário" de Jackendoff (1987) promove um levantamento de alguns processos computacionais que envolvem a consciência, mas Jackendoff enfatiza que a questão de como este "projeto" se dá na experiência consciente permanece misterioso.

Pesquisadores usando esses métodos são freqüentemente pouco explícitos sobre suas atitudes para o problema da experiência consciente, apesar de que algumas vezes eles demonstram um padrão claro. Mesmo entre aqueles que são claros sobre isto, as atitudes diferem amplamente. Colocando este tipo de trabalhos com respeito ao problema da experiência consciente, algumas diferentes estratégias são disponíveis. Seria mais útil se estas escolhas estratégicas fossem mais freqüentemente explicitadas.

A primeira estratégia é simplesmente explicar algo mais. Alguns pesquisadores explicitam que o problema da consciência é muito difícil para agora, e talvez se coloque fora do domínio da ciência como um todo. Estes pesquisadores preferem escolher o encaminhamento de um dos problemas mais tratáveis tais como o da reportabilidade ou do próprio conceito (self-concept). Apesar de eu haver chamado estes problemas de "problemas fáceis", eles estão em meio a muitos interessantes problemas não resolvidos na ciência cognitiva, de forma que este trabalho certamente vale a pena. O ruim que pode se dizer dessa escolha é que o contexto da pesquisa sobre a consciência é relativamente sem ambição, e o trabalho pode ser algumas vezes mal interpretado.

A segunda escolha é tomar uma linha mais pesada e negar o fenômeno. (Variações desta abordagem foram feitas por Allport 1988, Dennett 1991 e Wilkes 1988.) De acordo com esta linha, uma vez que você explicou funções tais como a acessibilidade, reportabilidade ou outra parecida, não existe nenhum outro fenômeno chamado "experiência" para explicar. Alguns explicitamente negam o fenômeno, levantando por exemplo que o que não é externamente verificável não pode ser real. Outros alcançam o mesmo efeito assumindo que a experiência existe, mas somente se nós igualarmos "experiência" com alguma coisa parecida com a capacidade de discriminar e reportar. Estas abordagens levam a uma teoria simplificada, mas principalmente insatisfatória. A experiência é o aspecto mais central e manifesto das nossas vidas mentais, e talvez seja a chave (key explanandum) para as ciências da mente. Por conta desse fato de ser um explicando (explanandum), a experiência não pode ser descartada como o espírito vital quando uma nova teoria vem a tona. Muito pelo contrário, ela é um fato central que qualquer teoria da consciência deve explicar. Uma teoria que nega o fenômeno "resolve" o problema pelo escamoteamento da questão.

Uma terceira opção, alguns pesquisadores gritam para a explicação da experiência em seu sentido pleno. Estes pesquisadores ( diferentemente dos acima) desejam tomar a experiência muito seriamente; eles delineiam seus modelos funcionais ou teorias e proclamam que eles todas a qualidades subjetivas da experiência (por exemplo, Flohr 1992, Humphrey 1992). O passo relevante na explanação é usualmente passado rapidamente, contudo e usualmente terminam num passe de mágica. Após a apresentação de alguns detalhes do processo de informação, a experiência subitamente entra no filme, mas é mantido obscuro como esse fenômeno pode subitamente produzir a experiência. Talvez isto é simplesmente tomado como dado, mas então nós temos uma explicação incompleta e uma versão da quinta estratégia abaixo.

A quarta, mais promissora abordagem apela para esses métodos para explicar a estrutura da experiência. Por exemplo, é argumentável que uma apresentação das discriminações feitas pelo sistema visual pode apontar as relações estruturais entre diferentes experiências para cores, tão bem quanto para a estrutura geométrica do campo visual (ver por exemplo, Clark 1992 e Hardin 1992). Em geral, certos fatos sobre estruturas achados em processos corresponderão a explicação de fatos sobre a estrutura da experiência. (Eu falarei mais sobre isso mais tarde). Isto é útil para muitos propósitos, mas ele não nos diz nada sobre porque deve existir a experiência em primeiro lugar.

A quinta e razoável estratégia é isolar o substrato da experiência. Depois de tudo, quase sempre cada um assume que a experiência emerge de uma forma ou de outra dos processos cerebrais, e faz sentido identificar o tipo de processo do qual ele emerge. Crik e Koch colocaram seu trabalho na direção do isolamento do correlato neural da consciência, por exemplo, e Edelman (1989) e Jackendoff (1987) fazem afirmações semelhantes. A justificação dessas afirmações requer uma cuidadosa análise teórica, especialmente como a experiência não é diretamente observável em contextos experimentais, mas quando aplicada judiciosamente esta estratégia pode iluminar indiretamente o problema da experiência. Sem sombra de dúvida, esta estratégia é incompleta. Para uma teoria satisfatória, nós necessitamos conhecer mais do que os processos que fazem aparecer a experiência; nós necessitamos uma explicação de como e porquê. Uma teoria plena da consciência deve ser construída como uma ponte explicativa.

O ingrediente extra

Nós temos visto que existem razões sistemáticas sobre o porque os métodos usuais da ciência cognitiva e neurociência falham para apresentar a experiência consciente. Eles são simplesmente os tipos errados de métodos; nada do que eles nos dão podem produzir uma explicação Para dar conta da experiência consciente nós precisamos de um ingrediente extra na explicação. Isso abre um desafio para aqueles que estão seriamente preocupados com os problemas difíceis da consciência. O que é esse ingrediente extra e porque ele pode dar conta da experiência consciente?

Não existe escassez desses ingredientes extra. Alguns propõe uma injeção de caos e de dinâmica não-linear. Alguns pensam que a chave está em processamento não-algorítmico. Alguns apelam para futuras descobertas em neurofisiologia. Alguns ainda supõe que a chave do mistério se esconde ao nível da mecânica quântica. É fácil ver porque todas estas sugestões são apresentadas. Nenhum dos velhos métodos funciona, então a solução deve estar com algo novo. Desafortunadamente, estas sugestões todas sofrem dos mesmos velhos problemas.

O processamento não-algorítmico , por exemplo, é apresentado por Penrose (1989, 1994) por conta do papel que ele pode jogar no processo consciente de insight matemático. Os argumentos sobre a matemática são controversos mas mesmo que eles tenham sucesso e dêem conta do processamento não algorítmico do cérebro humano, ainda será apenas uma explicação das funções envolvidas no raciocínio matemático e assemelhados. Para um processamento não algorítmico ocorrer tal qual um processamento algorítmico, a questão não fica respondida: porque esse processo dá origem à experiência? Respondendo esta questão, não existe nenhum papel especial para um processamento não algorítmico.

O mesmo ocorre com a dinâmica caótica e não-linear. Elas podem promover uma explicação nobre das dinâmicas do funcionamento cognitivo, um pouco diferente do que o que foi até agora dado pelos métodos padrões das ciências cognitivas. Mas da dinâmica nós só conseguimos mais dinâmica. A questão sobre a experiência aqui permanece tão misteriosa como sempre. O ponto de vista se mantém no caso de novas descobertas em neurofisiologia. Estas novas descobertas podem nos ajudar a fazer um progresso significativo no entendimento das funções cerebrais, mas para qualquer processo neural que nós isolarmos, a mesma questão irá sempre aparecer. É difícil imaginar o que um proponente da nova neuro fisiologia espera que aconteça além e acima da explicação de qualquer função cognitiva. Isto não é como se subitamente nós descobríssemos um fenomenal brilho dentro de um neurônio!

Talvez o mais popular "ingrediente extra" de todos seja a mecânica quântica (por exemplo Hameroff 1994). A atratividade das teorias quânticas da consciência pode ser a ponta de lança de uma Lei da Minimização do Mistério: a consciência é misteriosa e a mecânica quântica é misteriosa, assim talvez dois mistérios tenham uma fonte comum. Entretanto, as teorias quânticas da consciência sofrem das mesmas dificuldades que as teorias neurais ou computacionais. Os fenômenos quânticos tem algumas propriedades funcionais bem definidas, como o não-determinismo e a não-localização. É natural especular que essas funções podem desempenhar algum papel na explicação de algumas funções cognitivas tais como a da escolha aleatória e a de integração da informação, e esta hipótese não pode ser descartada a priori. Mas quando ela é tomada para explicar a experiência, os processos quânticos estão no mesmo barco das demais. A questão de como esses processos fazem surgir a experiência permanece inteiramente não respondida.

(uma atração especial das teorias quânticas é o fato de que em algumas interpretações das mecânicas quânticas, a consciência desempenha papel ativo no colapso da "função" de onda quântica. Tais interpretações são controversas, mas em qualquer caso elas oferecem a esperança de explicar a consciência em termos de processos quânticos. Além disso, essas teorias assumem a existência da consciência, e a utilizam para explicar os processos quânticos. Na melhor das hipóteses, essas teorias nos falam alguma coisa sobre o papel físico que a consciência pode desempenhar. Elas não nos falam nada sobre como ela surge.

No final do dia, a mesma crítica aplicada a qualquer relato puramente físico sobre a consciência. Para qualquer processo físico nós especificamos a existência de uma questão não respondida: por que este processo faz surgir a experiência? Dado qualquer um desses processos, é conceitualmente coerente que ele possa ser instanciado na ausência da experiência. A isto não segue nenhum mero relato do processo físico que nos conta porque a experiência surge. A emergência da experiência vai além do que pode ser derivado das teorias físicas.

Explicações puramente físicas são adequadas para uma explicação de estruturas físicas, explicando estruturas macroscópicas em termos de seus constituintes e detalhes microscópicos; isto produz uma explicação satisfatória da performance de funções, dá conta dessas funções em termos dos mecanismos físicos que as representam. Isto porque um relato físico pode vincular fatos sobre estruturas e funções: uma vez que os detalhes internos do arranjo físico estão dados, as propriedades funcionais e estruturais se colocam como conseqüência automática. Mas a estrutura e a dinâmica dos processos físicos apresentam apenas mais estrutura e dinâmica, assim estruturas e funções são tudo que nós podemos esperar desse processo de explicação. Os fatos sobre a experiência não podem ser conseqüência automática de qualquer relato físico, assim como é conceitualmente aceitável que qualquer processo pode existir sem a experiência. A experiência pode surgir do físico, mas não está submetida inteiramente pelo físico.

A moral de tudo isso é que você não pode explicar a experiência consciente de forma barata. É um fato destacado que os métodos redutivos - métodos que explicam os fenômenos de alto nível através de processos físicos mais básicos - funcionam bem em muitos domínios. De fato, pode-se explicar muitos fenômenos físicos e biológicos de forma vulgar, em que esses fenômenos são vistos como conseqüência automática de processos mais fundamentais. Isto seria maravilhoso se os métodos redutivos pudessem explicar a experiência também; eu esperei por longo tempo que isso se desse. Desafortunadamente, existem razões sistemáticas sobre o porque esses métodos costumam falhar. Os métodos redutivos são bem sucedidos em muitos domínios porque o que necessita explicação nesses domínios são estruturas e funções, e este é o tipo de coisas que um relato físico pode vincular. Quando eles se defrontam com além e acima da explicação de estruturas e funções, esses métodos são impotentes.

Isto pode ser visto como reminiscência do postulado vitalista de que nenhum relato físico poderia explicar a vida, mas os casos não são análogos. O que dirigiu o ceticismo vitalista foi a dúvida sobre se os mecanismos físicos poderiam desempenhar as notáveis funções associadas com a vida, tais como o complexo comportamento adaptativo e a reprodução. A pretensão conceitual da explicação de funções é o que é necessário foi implicitamente aceita, mas na falta de conhecimentos detalhados dos mecanismos bioquímicos, os vitalistas duvidaram se qualquer processo físico poderia fazer a tarefa e apresentaram a hipótese do espírito vital como uma explicação alternativa. Uma vez que está posto que os processos físicos podem desempenhar relevantes funções, as dúvidas vitalistas se desvaneceram.

Com a experiência, por outro lado, a explicação física das funções não é a questão. A chave é que a explicação de funções não é suficiente para a explicação da experiência. Este ponto conceitual básico não é somente algo que adicionalmente será afetado por investigações neurocientíficas. De forma similar, a experiência não é análoga ao elán vital. O espírito vital foi apresentado como hipótese explicativa para explicar as funções relevantes, e pode posteriormente ser descartada quando estas funções foram explicadas sem ela. A experiência não é uma hipótese explanatória mas um explanandum em sua própria certeza, e assim não é candidata a esse tipo de eliminação.

É tentador assinalar que todo tipo de fenômeno quebra-cabeças tem eventualmente se colocado para ser explicado em termos físicos. Mas cada um desses problemas foram sobre o comportamento observável dos objetos físicos, reduzindo-se a problemas de explicação de estruturas e funções. Por conta disso, esses fenômenos tem sempre sido o tipo de coisas que um relato físico pode explicar, mesmo que alguns pontos tenham boas razões para suspeitar que nenhuma dessas explicações estariam disponíveis. A tentadora indução em relação a esses casos falha no caso da consciência, já que não é um problema sobre estruturas e funções físicas. O problema da consciência está colocado de um modo inteiramente diferente. Uma análise do problema nos mostra que a experiência consciente não é o tipo de coisa que um relatório exclusivamente redutivo tenha sucesso em explicar.

A explanação não redutível

Neste ponto, somos tentados a desistir, tendo em conta que nunca teremos uma teoria da experiência consciente. McGinn (1989), por exemplo, argumentou que o problema é muito difícil para nossas mentes limitadas; nós somos "cognitivamente fechados" com respeito ao fenômeno. Outros têm argumentado que a experiência consciente reside totalmente fora do domínio de teoria científica.

Eu penso que esse pessimismo é prematuro. Este não é o lugar para desistir; é o lugar onde as coisas ficam interessantes. Quando métodos simples de explanação são excluídos, nós necessitamos investigar as alternativas. Posto que a explanação redutível falha, a explanação não redutível é a escolha lógica.

Embora um considerável número de fenômenos tem sido inteiramente explicáveis em termos de entidades mais simples de que dos próprios, isso não é universal. Na física, ocasionalmente acontece de que uma entidade deve ser tomada como "fundamental". Entidades fundamentais não são explicadas em termos de qualquer coisa simples. Em lugar disso, alguém as toma como básicas, e faz uma teoria de como elas relacionam a tudo mais no mundo. Por exemplo, no século XIX aconteceu de que processos eletromagnéticos não podiam ser explicados em termos da totalidade do mecânico que as previas teorias físicas recorriam, então Maxwell e outros introduziram a carga eletromagnética e as forças eletromagnéticas como novos componentes fundamentais da teoria física. Para explicar o eletromagnetismo, a ontologia da física teve que ser expandida. Foram necessárias novas propriedades básicas para dar uma avaliação satisfatória do fenômeno.

Outros aspetos que a teoria física tomo como fundamental inclui massa e o tempo-espaço. Nenhuma tentativa foi feita para explicar essas características em termos de algo mais simples. Mas isso não exclui a possibilidade de uma teoria da massa ou do tempo-espaço. Há uma teoria intricada de como essas características são relacionadas e como se relacionam com as regras básicas. Esses princípios básicos são usados para explicar muitos fenômenos familiares em relação a massa, espaço e tempo a um nível mais elevado.

Eu acredito que uma teoria de consciência deve tomar a experiência como fundamental. Nós sabemos que a teoria da consciência precisa da adição de alguma coisa fundamental à nossa ontologia, como tudo na teoria física é compatível com a ausência da consciência. Pode ser que acrescentemos alguma característica não física inteiramente nova, a partir da qual a experiência pode ser derivada, mas é difícil de averiguar como deve ser essa característica. Provavelmente, nós tomaremos a experiência em si mesma como uma característica fundamental do mundo, ao lado da massa, cargo e tempo-espaço. Se tomarmos a experiência como fundamental, então nós podemos entrar no negócio de formar uma teoria da experiência.

Onde existe uma propriedade fundamental, existem regras fundamentais. Uma teoria não redutível da experiência detalhará novos princípios à estrutura das leis básicas da natureza. Esses princípios básicos carregaram definitivamente a responsabilidade explanatória em uma teoria da consciência. Do mesmo modo como explicamos fenômenos de alto nível envolvendo massa em termos de princípios mais básicos envolvendo massa e outras entidades, devemos explicar o fenômeno familiar envolvendo experiência em termos de princípios mais básicos envolvendo outras entidades.

Em particular, uma teoria não redutível da experiência especificará princípios básicos dizendo para nós como a experiência depende das características físicas do mundo. Esses princípios psico-físicos não interferirão com leis físicas, como parece que leis físicas já formam um sistema fechado. Mais propriamente, eles (aqueles princípios psico-físicos) serão um suplemento para uma teoria física. Uma teoria física fornece uma teoria de processos físicos, e uma teoria psico-física diz como esses processos dão surgimento à experiência. Já sabemos que a experiência depende de processos mas também sabemos que essa dependência não pode ser derivada exclusivamente das leis físicas. Os novos princípios postulados por uma teoria não redutível nos dão o ingrediente extra que necessitamos para construir uma ponte explanatória.

Naturalmente, aceitando a experiência como fundamental, existe a dúvida de que a nossa pesquisa não nos conta porque existe a experiência em primeiro lugar. Mas, isso é o mesmo para qualquer teoria fundamental. Na física, nada nos explica porque existe a matéria, mas não nós descartamos as teorias da matéria como conseqüência. Certas características do mundo têm que ser aceitadas como fundamentais por qualquer teoria científica. Uma teoria da matéria pode ainda explicar muitos fatos sobre a matéria, mostrando como aqueles fatos são conseqüências das leis básicas. O mesmo vai para uma teoria da experiência.

Essa posição se qualifica como uma variedade do dualismo, já que postula propriedades básicas sobre e acima das propriedades invocadas pela física. Mas, é uma versão inocente do dualismo, inteiramente compatível com a perspectiva científica do mundo. Essa explicação não contradiz nenhum elemento da teoria física; nós simplesmente temos que agregar mais princípios de ligação para explicar como a experiência surgiu de processos físicos. Não existe nada particularmente espiritual ou místico sobre essa teoria – sua forma geral é como aquela de uma teoria física, como umas entidades fundamentais conectadas por leis fundamentais. Ela expande levemente a ontologia, mas Maxwell fez a mesma coisa. A estrutura geral dessa posição é inteiramente naturalística, permitindo finalmente que o universo é essencialmente uma rede de entidades básicas que obedecem leis simples, e também aceitando a possível existência de uma teoria fundada nos princípios de tais leis. Se essa posição tiver nome, uma boa escolha seria dualismo naturalístico. Se essa perspectiva esta certa, então, de algum modo, a teoria da consciência será mais parecida a uma teoria na física de que a uma teoria na biologia. A teoria biológica não tem princípios que são fundamentais desse modo, assim que, uma teoria biológica tem uma complexidade e desordem, o qual contraste com a elegância e simpleza duma teoria física. As leis fundamentais da natureza formam parte do equipamento do mundo, e teorias físicas nos explica que esse equipamento básico é muito simples. Se uma teoria de consciência também envolve princípios fundamentais, deveríamos esperar a mesma simpleza. Os princípios de elegância , simpleza e beleza que conduzem os físicos a buscar uma teoria fundamental, também aplicarão a uma teoria de consciência.

(Alguns filósofos argumentam que apesar da brecha conceptual entre processos físicos e a experiência, não existe necessariamente uma brecha metafísica, assim que a experiência pode de algum modo, ser físico [Hill1991, Levine 1983, Loar 1990]. Em geral, esse argumento é apoiado por uma apelação à noção de necessidade a posteriori [Kripke 1980]. Eu acredito que essa posição ou é fundada sobre um entendimento errado da necessidade a posteriori, ou precisa de uma necessidade distinta, na qual não temos motivos para acreditar [Para ver detalhes: Chalmers 1996, Lewis e Jackson 1994]. De todos modos, essa posição ainda concede uma brecha explanatória entre processos físicos e experiência. Por exemplo, os princípios ligando o físico com o experiencial não derivarão das leis da física, assim que tais princípios têm que ser aceitados com explanatoriamente fundamental. Como conseqüência, a estrutura explanatória da teoria da consciência será parecida ao que eu já descrevi.)

Na direção de uma teoria da consciência

Não é muito cedo para começar a formar uma teoria. Nós estamos já numa posição de entender certos fatos chaves sobre o relacionamento entre os processos físicos e a experiência e sobre as regularidades que os conectam. Uma vez que a explanação redutível é determinada, nós podemos começar a avaliar os fatos para que eles possam desempenhar seus próprios papeis como peças iniciais numa teoria não redutível da consciência, e como restrições das leis básicas que constituem uma teoria definitiva.

Existe um problema obvio que aflige o desenvolvimento de uma teoria da consciência; a falta de dados objetivos. Experiência consciente não é diretamente observável num contexto experimental; então nós não podemos gerar informação sobre o relacionamento entre processos físicos e experiência a vontade. Entretanto, nós todos temos acesso a uma fonte rica de dados em nosso próprio caso. Muitas regularidades importantes entre a experiência e o processamento podem ser inferidas de considerações sobre nossos próprias experiências. Existem também boas fontes diretas de dados de casos observáveis, como quando alguém confia num relatório verbal de um tema como uma indicação de experiência. Esses métodos têm suas limitações, mas temos mais do que dados suficientes para formar uma teoria viável.

A analise filosófica é também útil para aproveitar ao máximo dos dados que temos. Esse tipo de analise pode render um número de princípios relacionando a consciência e a cognição, desse modo limitando o formato de uma teoria definitiva. O método de experimentação do pensamento pode também render informação importante, como veremos. Finalmente, o fato de que estamos buscando uma teoria "fundamental" significa que podemos apelar para tais restrições não empíricas como a simplicidade, homogeneidade e coisas afins para o desenvolvimento de uma teoria. Devemos tentar sistematizar a informação que temos, para aproveitar dela ao máximo usando análise cuidadosa e então fazer a inferência à mais simples teoria que explique os dados enquanto permanece um candidato viável para ser parte do equipamento fundamental do mundo.

Tais teorias sempre retêm um elemento de especulação que não esta presente em outras teorias científicas, por causa da impossibilidade de testes experimentais intersubjetivos conclusivos. Nós podemos certamente formar teorias compatíveis com os dados que temos e avalia-las, comparando-as umas com as outras. Mesmo na ausência de observação intersubjetiva, existem numerosos critérios disponíveis para a avaliação de tais teorias: simplicidade, coerência interna, coerência com teorias de outros domínios, a habilidade de reproduzir as propriedades de experiência que são familiares de nosso próprio caso, e mesmo um ajustamento certo com os ditames do bom senso. Talvez existam indeterminações significativas restantes mesmo quando todas essas restrições forem aplicadas, mas podemos ao menos desenvolver candidatos plausíveis. Somente quando forem desenvolvidos teorias candidatas nós estaremos aptos a avalia-las.

Uma teoria não redutível da consciência consistirá em princípios psico-físicos, princípios conectando as propriedades dos processos físicos às propriedades de experiência. Nós podemos pensar nessas experiências como encapsulando a maneira na qual a experiência surge do físico. Finalmente, esses princípios devem nos dizer que tipos de sistemas físicos terão experiências associadas, e para esses sistemas que as possuem, eles devem nos dizer que tipos de propriedades físicas são relevantes para a emergência da experiência, e que tipos de experiência deveríamos esperar como ganho de um dado sistema físico. Esse é um dever pesado, mas não há razão por não começarmos.

No que segue, eu apresento meus candidatos para os princípios psico-físicos, que poderiam ser usados para uma teoria da consciência. Os primeiros dois deles são princípios não básicos, conexões sistemáticos entre o processamento e a experiência, a um nível relativamente alto. Esses princípios podem desempenhar um papel significante no desenvolvimento y restrição de uma teoria de consciência, mas não são considerados significantemente fundamental para qualificar como verdadeiras leis fundamentais. O princípio final é o meu candidato para um princípio básico que pode formar a base de uma teoria fundamental de consciência. Esse princípio final é particularmente especulativo, mas é o tipo de especulação que requerido se nós quisermos ter uma teoria satisfatória da consciência. Eu posso somente apresentar um resume breve desses princípios; eu os defendo de maneira mais detalhada em Chalmers (1996).

O princípio da coerência estrutural

Esse é um princípio da coerência entre a estrutura da consciência e a estrutura do conhecimento. Recorde que o conhecimento foi usado antes para referir aos vários fenômenos funcionais associados com a consciência. Estou usando essa palavra, conhecimento, agora para referir a um processo específico na área cognitiva de experiência. Em particular, os conteúdos do conhecimento devem ser entendidos como aqueles conteúdos informacionais que são acessíveis aos sistemas centrais, e influenciam de maneira geral, o controle de comportamento. Para resumir, podemos pensar no conhecimento como disponibilidade direta para o controle frontal. Para recapitular, os conteúdos de conhecimento são os conteúdos diretamente acessíveis e possivelmente reportáveis, ao menos num sistema que usa linguagem.

Conhecimento é uma noção puramente funcional, mas contudo, ele é intimamente ligada à experiência consciente. Em casos familiares, os dois sempre são encontrados juntos. Onde existe a experiência consciente, existe alguma informação correspondente no sistema cognitivo que esta disponível para o controle de comportamento, e também disponível para um relatório verbal. Ao contrário, parece que quando a informação esta disponível para o relatório e para controle global, existe uma experiência consciente correspondente. Deste modo, existe uma correspondência direta entre a consciência e o conhecimento.

A correspondência pode ser profundada. Um fato central da experiência é que tem uma estrutura complexa. O campo visual, por exemplo, tem uma geometria complexa. Existem relações de similaridades e diferencias entre experiências, e relações em coisas como intensidade relativa. A experiência de qualquer sujeito, pode ser caracterizada e analisado, em parte, em termos dessas propriedades estruturais: relações de similaridade e diferencia, localizações percebidas, intensidade relativa, estrutura geométrica, etc. Outro fato central de todos esses elementos, é que existe um elemento correspondente na estrutura que processa a informação para conhecimento.

Por exemplo, as sensações de cor. Para cada distinção entre experiências de cor, existe uma distinção correspondente do processamento. Os diferentes cores fenomenais que nós experimentamos formam um espaço tridimensional complexo, com variações de nuança, saturação e intensidade. As propriedades desse espaço podem ser retiradas de considerações do processamento de informação: a avaliação dos sistemas visuais mostra que ondas de luz são discriminadas e analisadas junto com três diferentes eixos, e é essa informação tridimensional que é relevante ao processamento de informação mais tarde. A estrutura tridimensional do espaço fenômeno de cor, portanto, corresponde diretamente à estrutura do conhecimento visual. Isto é precisamente o que se esperava, já que cada distinção de cor corresponde a alguma informação observável e também a alguma distinção representada na estrutura do processamento.

Para esclarecer, a estrutura geométrica do campo visual é diretamente refletida numa estrutura que pode ser retirada do processamento visual. Toda relação geométrica corresponde a alguma coisa que pode ser processada e é, portanto, representada cognitivamente. Se tivermos somente o processamento de informação no sistema visual e cognitivo de uma agente, não poderíamos observar diretamente as experiências visuais daquele agente, mas poderíamos inferir as propriedades estruturais daquelas experiências.

Em geral, qualquer informação conscientamente experimentada também será cognitivamente representada. A estrutura delicada do campo visual corresponderá a alguma estrutura delicada no processamento visual. O mesmo para experiências doutras modalidades, mesmo para experiências não sensórias. Imagens internas mentais têm propriedades geométricas representadas no processamento. Até emoções têm propriedades estruturais, como por exemplo intensidade relativa, que correspondem diretamente à propriedade estrutural do processamento; onde existe maior intensidade, maior é o efeito sobre o processamento mais tarde. Em geral, precisamente porque as propriedades estruturais de experiências são acessíveis e observáveis, aquelas propriedades serão diretamente representadas na estrutura do conhecimento.

Esse isomorfismo entre as estruturas da consciência e o conhecimento que constitui o princípio de coerência estrutural. Esse princípio reflete o fato central de que mesmo que os processos cognitivos teoricamente não possuem fatos sobre a experiência consciente, consciência e cognição não andam separadas mas têm uma relação íntima.

Esse princípio tem limitações. Nos permite recuperar propriedades estruturais da experiência de propriedades que processam informação, mas não todas as propriedades da experiência são propriedades estruturais. Existem propriedades da experiência, como a natureza autêntica do cor vermelho, que não podem ser capturadas inteiramente pela descrição estrutural. Os cenários de espectros invertidos, onde experiências de vermelho e verde são invertidas mas as propriedades estruturais ficam iguais, mostram que propriedades estruturais limita a experiência sem esgotá-la. Não obstante, o fato de que nós sentimos compelidos a não alterar propriedades estruturais quando imaginarmos experiências invertidas entre sistemas funcionalmente identicais, mostra a importância do papel do princípio da coerência estrutural para nossa concepção da vida mental. Não é um princípio logicamente necessário, já que podemos imaginar todo o processamento de informação ocorrendo sem experiência nenhuma, mas tem uma forte e familiar influencia sobre a conexão psico-física.

O princípio da coerência estrutural permite indiretamente, uma explanação útil da experiência em termos processos físicos. Por exemplo, podemos usar fatos sobre o processamento cerebral de informação visual para explicar indiretamente a estrutura de cor-espaço. A informação relacionada com o processamento cerebral pode explicar a estrutura do conhecimento; se aproveitarmos do princípio de coerência, a estrutura da experiência também será explicada. Investigação empírica deve melhorar o nosso entendimento da estrutura do conhecimento de um morcego, iluminando informação sobre a pergunta vexante de Nagel, como é a vida do morcego. Esse princípio oferece uma interpretação natural de estudos já existentes sobre a explanação de consciência (Clark 1992 e Hardin 1992 sobres cores, e Atkins 1993, sobre Morcegos, por exemplo). Esse princípio é tão conhecido que quase todo mundo tem usado ele como a base principal das suas explanações cognitivas de consciência.

A coerência entre a consciência e o conhecimento também permite a interpretação natural de estudos no campo de neurociência, isolando o correlato cerebral de consciência. Várias hipóteses foram feitas sobre esse tema. Por exemplo, Crick e Krock (1990) sugerem que 40-Hz oscilações podem ser o mais direto correlato físico da consciência, enquanto Libet (1993) sugere que a atividade cerebral temporalmente estendida é essencial. Se aceitarmos o princípio da coerência, o correlato físico mais direto da consciência tem que ser o conhecimento: O processo que faz informação disponível para o controle global. As diferentes hipóteses específicas podem ser interpretadas como sugestões empíricas sobre como deve ser realizado o conhecimento. Por exemplo, Crick e Krock sugerem que 40-Hz oscilações representam uma ferramenta que facilita a integração de informação à memória, para que mais tarde essa informação esteja disponível para outros processos cerebrais. Desse modo, é natural supor que a atividade cerebral temporamente estendida de Libet é precisamente pertinente porque somente esse tipo de atividade logra disponibilidade global. O mesmo aplica para outros correlatos sugeridos como tal do "espaço de trabalho global" de Baars (1988), "representações de alta qualidade" de Farah (1994), e "o selecionador de informação para sistemas ativos"de Shallice (1972). Todo isto pode ser visto como uma variedade de hipóteses sobre os mecanismos de conhecimento: os mecanismos que desempenham a função de fazer informação diretamente disponível para o controle global.

Já que existe coerência entre a consciência e o conhecimento, é lógico que um mecanismo de conhecimento será em si um correlato da experiência consciente. A questão de qual dos mecanismos do cérebro governa a disponibilidade global é uma questão empírica; talvez existam vários tipos de tais mecanismos. Se aceitarmos o princípio de coerência, temos motivo para acreditar que os processos que explicam o conhecimento serão, ao mesmo tempo, a base da consciência.

O princípio da invariância organizacional

Esse princípio estabelece que qualquer par de sistemas com a mesma delicada organização funcional teria idênticas experiências qualitativas. Se os padrões causais da organização cerebral forem duplicados em silício, por exemplo, com um chip para cada neurônio e com os mesmos padrões de interação, apareceriam as mesmas experiências. De acordo com esse princípio, o que interessa para o surgimento da experiência não são as características físicas da experiência, mas o padrão abstrato de interação causal entre seus componentes. Esse princípio, naturalmente, é polêmico. Algumas pessoas (Scafle, 1980), por exemplo, pensam que a consciência está ligada a uma biologia específica que um isomorfo de silício de um ser humano não precisa ser consciente. Entretanto, eu acredito que se pode dar apoio significativo ao princípio pela análise de experimentos pensantes. Em síntese, suponha (com a intenção de um reductio ad absurdum) que o princípio é falso e que podem haver dois sistemas funcionalmente isomórficos com diferentes experiências. Talvez, somente um dos sistemas seja conscientes, ou talvez ambos são, mas têm experiências diferentes. Para esclarecer um pouco, vamos dizer que um dos sistemas é feito de neurônios e o outro de silício, e que um experimenta vermelho e o outro azul. Os dois sistemas têm a mesma organização, então nós vamos imaginar um se transformando no outro gradualmente, talvez substituindo um neurônio cada vez com os chips de silício com a mesma função local. Nós então obtemos um espectro de casos intermediários, cada um com a mesma organização, mas com uma composição física e com experiências ligeiramente diferentes. Ao longo desse espectro devem existir os dois sistemas A e B, entre os quais substituímos menos que um décimo do sistema, mas cujas experiências diferem. Esses dois sistemas são fisicamente idênticos, exceto um pequeno circuito neural que, no A, foi substituído por um circuito de silício do B. O passo mais importante no experimento pensante é pegar o circuito neural relevante no A e instalar ao longo dele um circuito causal isomórfico de silício com um interruptor entre eles. O que vai acontecer quando ele for ligado? Por hipótese as experiências conscientes do sistema mudarão; do vermelho para o azul, digamos, como ilustração. Isso acontece pelo fato de que o sistema após a mudança é uma versão do B, enquanto antes da mudança era somente ª

Dadas as suposições, entretanto, não há como o sistema notar as mudanças. Suas organizações causais permanecem constantes, para que todos os estados funcionais e disposições comportamentais sejam fixados. Para o sistema nada de anormal aconteceu. Só que não há lugar para o pensamento, "Hmm! Alguma coisa estranha aconteceu!" Em geral, a estrutura de tal pensamento tem que ser refletida no processamento, mas a estrutura desse processamento fica constante. Se houver tal pensamento ele deve ficar completamente livre do sistema e seria totalmente incapaz de afetar o processamento mais tarde. (Se mais tarde afeitar o processamento, os sistemas seriam funcionalmente distintos, ao contrário da hipótese). Talvez liguemos o interruptor várias vezes para que experiências do vermelho e do azul dancem em frente do olho interno do sistema. De acordo com a hipótese, o sistema não pode nunca perceber essa qualia dançante. Isto foi feito para ser um redutio da suposição original. Um dos fatos centrais dessa experiência é que quando as experiências mudam significativamente, e nós estamos atentos a elas, nós podemos notar a mudança; caso contrário, nós poderíamos ser levados para a possibilidade séptica de que as nossas experiências sempre dançam em frente dos nossos olhos. Esta hipótese tem a mesma credibilidade da conjectura de que o mundo foi criado cinco minutos atrás: talvez seja logicamente coerente mas não é plausível. Dada a suposição extremamente plausível de que mudanças na experiência correspondem a mudanças do processamento, nós somos levados à conclusão de que a hipótese original é impossível, e que qualquer par de sistemas funcionalmente isomórficos devem ter o mesmo tipo de experiência. Em termos técnicos, as hipóteses filosóficas de "qualia ausente" e "qualia invertida" são ao mesmo tempo logicamente possíveis e empiricamente e nomologicamente impossíveis.

(Algumas pessoas duvidam a possibilidade de existir um isomorfo de silício por motivos técnicos. A questão ainda esta aberta. O princípio da invariância afirma que se um isomorfo é possível, então ele terá o mesmo tipo de experiência consciente).

Há mais a ser dito, mas isso nos da uma idéia básica. Novamente, este experimento do pensamento procede de fatos familiares sobre a coerência entre consciência e processamento cognitivo para render uma forte conclusão sobre a relação entre as estruturas físicas e a experiência. Se o argumento for aceitado, sabemos que as únicas propriedades físicas diretamente relevantes ao surgimento da experiência são as propriedades organizacionais. Isso funciona como uma restrição adicional sobre a teoria da consciência.

A teoria do duplo aspecto da informação

Os dois princípios precedentes são não-básicos. Eles são noções elevadas de conhecimento e organização, e portanto, não constituem as leis fundamentais de uma teoria da consciência. Entretanto, eles funcionam com restrições fortes. O que é necessário ainda são princípios básicos que encaixam essas restrições e que podem, finalmente, explicá-las.

O princípio básico que eu sugiro , envolve a noção da informação. Eu entendo a informação mais ou menos da mesma maneira em que Shannon a entendeu (1948). Onde existe a informação, existem estados de informação embutidos num espaço de informação. Um espaço de informação tem uma estrutura básica de relações de diferença entre seus elementos, caracterizando as diferenças e similaridades desses elementos, possivelmente de maneira complexa. Um espaço de informação é um objeto abstrato, mas segundo Shannon nós podemos ver a informação fisicamente realizada quando existe um espaço de estados físicos distintos, a diferença entre as quais podem ser transmitidas por algum caminho causal. Os estados que são transmitidos podem ser vistos como eles próprios construindo um espaço de informação. Tomando emprestado uma frase de Bateson (1972), informação física é uma diferença que faz a diferença.

O princípio do duplo-aspeto origina da idéia de que existe um isomorfismo direto entre certos espaços de informação fisicamente realizados e certos espaços de informação fenomenológicos (experienciais). Usando o mesmo tipo de observações que já usamos para o princípio da coerência estrutural, podemos notar que as diferenças entre estados fenomenais têm a mesma estrutura que corresponde diretamente às diferenças embutidas em processos físicos; em particular, àquelas diferenças importantes que influenciam certos caminhos causais implicadas na disponibilidade e controle global. Aquela onda pode encontrar o mesmo espaço de informação abstrato envolto em processamento físico e experiência consciente.

Isso nos leva para uma hipótese natural: que informação (ao menos alguns tipos de informação) tem dois aspetos básicos, o físico e o fenomenal. Isto tem a importância de um princípio básico que poderia explicar o surgimento da experiência do físico. A experiência surge como um aspeto fundamental da informação, enquanto outra parte é encontrada no processamento físico.

Esse princípio é apoiado por um número de considerações que vou recapitular brevemente. Primeiro, a consideração do tipo de mudanças físicas que correspondem a mudanças na experiência consciente sugere que tais mudanças não são sempre relevantes por causa dos seus papeis na constituição de mudanças informacionais - as diferenças dentro de um espaço abstrato de estados divididos precisamente de acordo com as suas diferenças causais ao longo de certos caminhos causais. Segundo, se o princípio da invariância organizacional é estável, então nós precisamos encontrar alguma propriedade organizacional fundamental a ser ligada à experiência, e informação é uma propriedade organizacional par excellence. Terceiro, esse princípio oferece alguma esperança para explicar o princípio da coerência estrutural em termos da estrutura dentro do espaço de informação. Quarto, a analise da explanação cognitiva das nossas opiniões e afirmações sobre a experiência consciente – opiniões funcionalmente explicáveis, mas não obstante, profundamente amarradas à experiência em si – sugere que a explanação é centralmente ligada aos estados informacionais embutidos no processamento cognitivo. É lógico que uma teoria fundamentada em informação permite uma coerência profunda entre a explanação da experiência e a explanação de nossos julgamentos e afirmações sobre ela.

Wheeler (1990) sugeriu que a informação é fundamental à física do universo. Segundo essa ideologia de peças, as leis da física podem ser consideradas em termos de informação, postulando diferentes estados que estimulam diferentes efeitos sem realmente dizer o que são esses estados. É somente a sua posição em um espaço de informação que vale. Se for assim, a informação é uma opção natural para também desempenhar um papel numa teoria fundamental da consciência. Nós somos levados a uma concepção do mundo, na qual a informação é fundamental, e que tem dois aspetos básicos, correspondendo aos elementos físicos e fenomenais do mundo.

Naturalmente, o princípio do duplo-aspeto, é extremamente especulativo e indeterminado, o que deixa um número de questões sem resposta. Uma questão óbvia é que toda a informação tem um aspeto fenomenal. Uma possibilidade é que a teoria fundamental precise de mais restrições, indicando exatamente que tipo de informação tem esse aspeto fenomenal. A outra possibilidade é que não exista tal restrição. Se não existe, então a experiência é muito mais ampla do que podíamos ter imaginado. A princípio, isso é contraintuitivo, mas eu acredito que essa afirmação tem uma elegância e plausibilidade. Onde há um processamento simples de informação, há uma experiência complexa. Um rato tem uma estrutura de processamento de informação mais simples de que um ser humano e tem uma experiência correspondentemente mais simples; talvez um termostato, uma estrutura de processamento de informação maximamente simples. Na verdade, se a experiência é uma propriedade fundamental, seria surpreendente para ela surgir somente de vez em quando; a maioria das propriedades fundamentais são mais uniformemente disseminadas. De todos os modos, essa questão esta muito aberta, mas eu acredito que a afirmação não é tão implausível como é pensada.

Uma vez encontrada uma ligação entre a informação e a experiência, a porta abrirá para a maior especulação metafísica relativa à natureza do mundo. Por exemplo, é dito que a física se caracteriza por suas entidades básicas somente em termos das suas relações a outras entidades (extrínsicamente), as quais são caracterizadas extrínsicamente por elas mesmas. A natureza intrínseca das entidades físicas são esquecidas. Algumas pessoas argumentam que não existem tais propriedades intrínsecas, mas então o mundo seria caracterizado por um puro fluxo causal (um fluxo puro de informação), sem propriedades para a relação da causalidade. Se alguém admite que propriedades intrínsecas existem, uma dada especulação natural é que as propriedades do físico – as propriedades que relatam definitivamente a causalidade – são elas próprias propriedades fenomenais. Podemos dizer que as propriedades fenomenais são o elemento interno da informação. Isso pode responder a uma preocupação sobre a relevância causal da experiência – uma preocupação natural, dado que o domínio físico está casualmente fechado e que a experiência é suplementar ao físico. Essa perspectiva da informação nos permite entender como a experiência poderia ter um tipo de relevância causal, já que é uma manifestação intrínseca do físico. Provavelmente seria melhor ignorar essa especulação metafísica para desenvolver uma teoria científica, mas ela é muito útil para responder a vários assuntos filosóficos.

Conclusão

A teoria que apresentei é especulativa, mas é uma teoria plausível. Eu suspeito que os princípios de coerência estrutural e invariância organizacional serão a base de qualquer teoria satisfatória da consciência; a força da teoria do duplo aspecto da informação é menos certo. Em realidade, é mais uma idéia de uma teoria. Para melhorar essa teoria, é preciso ampliar e afiar vários aspetos para que ela seja mais forte. Reflexões sobre o que é ou não é plausível, sobre onde ela funciona ou falha, somente podem resultar em uma teoria mais precisa.

A maioria das teorias existentes da consciência ou nega o fenômeno, explica outra coisa, ou eleva o problema a um eterno mistério. Eu espero ter mostrado que é possível atacar esse problema com seriedade. Para avançar ainda mais, precisamos de mais pesquisa, teorias refinadas e uma análise mais cuidadosa. Um problema difícil é um problema difícil, mas não quer dizer que tem que permanecer sem solução. Os argumentos deste trabalho são apresentados em grande profundidade no meu livro "A mente consciente".