CAPÍTULO 3
A QUESTÃO DOS SISTEMAS DE CUSTOS E A ATUAL VISÃO DOS CUSTOS AMBIENTAIS


Retomando a visão do capítulo anterior, a questão ambiental, sobretudo a questão de preservação do meio ambiente, vem se tornando mais um diferencial competitivo no quadro de mudanças das últimas décadas no cenário empresarial.

As organizações deverão, gradativamente, incorporar a variável ambiental na prospecção dos seus cenários e na tomada de decisões, além de manter uma postura responsável de respeito à questão ambiental. Para tanto, surge a necessidade de avaliar os fatores ambientais, visando a sobrevivência das empresas, a médio e longo prazos.

Dentro da proposta deste trabalho - identificar os custos relacionados ao meio ambiente (sob a ótica empresarial) - este capítulo tem como intuito: apresentar aspectos relacionados aos atuais sistemas de custos, salientar a relevância da determinação adequada dos custos, entre outros aspectos, para auxiliar no processo de tomada de decisões da empresa e abordar a atual visão do que se considera hoje como custos ambientais.

3.1 A CONTABILIDADE E A PROBLEMÁTICA DA GESTÃO DOS CUSTOS

A contabilidade surgiu com a necessidade humana de quantificar riquezas, até o momento sem nenhum valor agregado. Limitada, inicialmente, a acumular valores, acompanhou a evolução do homem adaptando-se, primeiramente, à realidade da era mercantilista, em que o elemento fundamental da época - os estoques - demandavam controles apurados e demonstrações dos resultados obtidos (Ribeiro, 1992 ; Leone, 1985).

O surgimento de oficinas, trabalhos artesanais domésticos, pequenas indústrias, energia a vapor, primeiras estradas de ferro e a evolução das máquinas, consolidaram o início da Era Industrial, estimulando-se assim os constantes avanços tecnológicos experimentados pelo mundo (Ribeiro, 1992).

A partir deste estágio, o processo produtivo passou a exigir a incorporação de novos valores à matéria-prima, até então comercializada em seu estado natural. Ao custo do produto passou-se a agregar além do custo da matéria-prima e dos materiais auxiliares, mão-de-obra, aluguel do espaço utilizado e a depreciação das máquinas, tornando o processo de obtenção da receita mais complexo (Leone, 1985).

Sendo assim, a contabilidade de custos aprimorou-se ao longo dos séculos, incorporando práticas, em seguida princípios, postulados e convenções, para fazer face à evolução da sociedade e suas novas tecnologias. Deste modo, a determinação dos custos de uma organização tornou-se um poderoso instrumento nas mãos de administradores, para o eficiente desempenho de suas funções.

Ribeiro (1992, p. 44) afirma, ainda, que a "contabilidade evoluiu o bastante para identificar, mensurar, registrar e tornar público todos os eventos de relevância envolvidos no desenvolvimento das atividades de uma empresa, com isso fornecendo fundamentos para a escolha mais acertada entre as alternativas possíveis em relação à alocação de recursos escassos e, em seguida, oferecendo elementos para avaliação dos recursos consumidos comparativamente aos rendimentos obtidos".

Segundo Leone (1985), a contabilidade de custos engloba técnicas para o registro, organização, análise e interpretação dos dados relacionados à produção, ou à prestação de serviços. Desta forma, a contabilidade de custos, quando acumula os custos e os organiza em informações relevantes, pretende atingir três objetivos principais: a determinação do lucro, o controle das operações e a tomada de decisões.

Porém, apesar da evolução inegável da contabilidade de custos, esta não vem acompanhando, de maneira satisfatória, as modificações que estão ocorrendo no meio empresarial nos últimos anos.

Alguns autores creditam esta falha aos sistemas de custos. Bornia (1995, p. 3), por exemplo, afirma que "apesar da grande magnitude destas mudanças, não houve respostas à altura por parte dos sistemas de informações gerenciais, e particularmente dos sistemas de custos, no sentido de se adaptarem à nova realidade e proverem informações altamente necessárias para o bom gerenciamento da empresa moderna, tais como medidas de desempenho que indiquem quais atividades estão sendo eficientes, quais são perdas para a empresa e os locais onde devem ser focalizadas as atenções".

Antes, porém, de enfatizar as falhas dos sistemas de custos, faz-se necessário um maior detalhamento sobre os mesmos.

3.1.1 Os Atuais Sistemas de Custos

Segundo Bornia (1995, p. 16), "o objetivo básico dos sistemas de custos é determinar os custos dos produtos para avaliação de estoques, permitindo, deste modo, a determinação do resultado da empresa pela contabilidade financeira". Segundo o mesmo autor, outros objetivos são auxílio ao controle e auxílio à tomada de decisões.

Os sistemas de custos são compostos normalmente por uma filosofia ou princípio de custeio e um método de alocação de custos, devendo o método adotado pela empresa adequar-se tanto à filosofia de custeio quanto às estratégias administrativas da organização. Portanto, os sistemas de custos comportam-se de maneira diferenciada de acordo com a realidade empresarial.

Bornia (1995, p. 19) afirma que "os princípios de custeio são filosofias básicas a serem seguidas pelos sistemas de custos, de acordo com o objetivo e/ou período de tempo no qual se realiza a análise". Para o autor são três os princípios de custeio conhecidos: o direto (ou variável), o total (ou integral) e o por absorção. Estes três princípios diferenciam-se em relação à apropriação dos custos fixos. Selig (1993) apresenta ainda uma quarta filosofia denominada absorção-meta.

O custeio direto ou custeio variável não considera os custos fixos como parte dos custos produtivos. Esta filosofia de custeio baseia-se no fato de que os custos fixos não sofrerão alterações devido ao volume produzido e portanto não devem fazer parte do custo dos produtos.

A filosofia de custeio total considera os custos fixos relacionados com a produção como parte integrante dos custos dos produtos. Todos os custos fixos e variáveis do período são alocados aos produtos baseados no volume de produção. Este é o sistema aceito pela legislação para efeitos de avaliação de estoques.

No custeio por absorção, os custos fixos também são computados como custos dos produtos, porém, custos fixos relacionados com a capacidade da empresa não usada (ociosidade) ou mal usada (ineficiência), são lançados como perdas do período. Desta forma, as diferentes perdas são isoladas e não creditadas aos produtos. (Bornia, 1995)

A quarta filosofia apresentada, denominada absorção-meta, utiliza o conceito de gerenciamento de custos para atingir metas pré-estabelecidas. Partindo-se do princípio de que o mercado é agente determinante de preços e portanto a maximização de lucros é o resultado do gerenciamento e estratégias de custos, então custo passa a ser um objetivo a ser alcançado, ou seja uma meta. (Selig, 1993)

Além das filosofias apresentadas, outro aspecto fundamental dos sistemas de custos são os métodos para alocar os custos aos produtos fabricados.

Entre os principais métodos tradicionais utilizados pode-se destacar o método custo-padrão que segundo Selig (1993) visa estabelecer medidas de comparação que permitam efetuar o controle e o acompanhamento da eficiência da utilização dos meios de produção em geral e de seus custos associados em particular. O princípio básico consiste na análise de quanto tempo (horas, minutos) cada produto necessita para ser fabricado em cada operação.

Outro método bastante utilizado é o de centros de custos (RKW), que consiste basicamente de duas fases: na primeira, divide-se a empresa em centros de custos e distribuem-se todos os itens de custos a serem alocados aos produtos nestes centros, através de bases de rateio, conseguindo-se, desta forma, os custos totais do período para cada centro de custos; na segunda fase, os custos são alocados dos centros produtivos, ou seja, aqueles que trabalham diretamente com a produção, aos produtos. (Bornia, 1995)

Além destes dois métodos tradicionais são conhecidos outros dois que vêm obtendo resultados mais satisfatórios no âmbito empresarial por se tratarem de métodos mais adequados à nova realidade.

O primeiro método, UEP's (Unidade de Esforço de Produção), simplifica a atividade de medição da produção: produtos diferentes serão contabilizados por um único parâmetro, permitindo que se tenha um valor global e sintético da empresa. A unidade de esforço padrão será, então, o real denominador comum de todas as atividades da empresa. (Selig, 1993)

O segundo deles é o método ABC que baseia-se na análise dos processos do negócio, detectando as atividades que agregam valor ao produto e relacionando (através de chamados cost-drivers) a estas atividades a parcela respectiva dos custos envolvidos. Quanto mais perto se chega de relacionar os custos às suas causas, mais úteis serão as informações contábeis para orientar as decisões gerenciais da empresa. (Selig, 1993)

3.1.2 A Problemática dos atuais Sistemas de Custos

Para efeito de análise, cabe salientar inicialmente alguns pontos críticos, ou problemas existentes, em relação aos atuais sistemas de custeio, para em seguida abordar a problemática destes sistemas associados à questão ambiental.

Segundo Selig (1993), os atuais sistemas de custos repassam muitas vezes custos ao produto final que não os pertence. A nova tendência mundial, não permite mais que estes sistemas sejam meros acumuladores de valor, apenas com fins contábeis. Necessita-se, a partir de agora, de ferramentas gerenciais de controle que sejam fiéis à realidade.

Segundo o Guia Ernst & Young (Ostrenga, 1993) os atuais sistemas contábeis de informação de custos são deficientes por não refletirem a verdadeira dinâmica da empresa, pois não há sincronismo entre as informações contidas nos relatórios gerenciais e as mudanças nas atividades relacionadas.

Para Nakagawa (1993), a perda de relevância dos sistemas tradicionais de custeio está no fato de que não só distorcem os custos dos produtos, como não permitem adequada gestão e mensuração estratégica das atividades relacionadas com a fabricação destes produtos.

Porter (1992, p. 56), acrescenta, ainda, que não existe compreensão satisfatória sobre o comportamento dos custos nas empresas. Afirma, também, que as análises de custos desconsideram o impacto de outras atividades como marketing, serviços e outras, sobre a posição dos custos relativos, assim como não reconhecem "os elos entre atividades que podem afetar o custo, apresentando dificuldades para avaliar posições dos custos dos concorrentes". O autor conclui dizendo que "a ausência de uma metodologia sistemática para a análise do custo na maioria das empresas é a base destes problemas".

Kaplan (1993, p. 32) afirma, ainda, que "o fundamento intelectual dos sistemas de contabilidade gerencial na maioria das organizações atuais ficou ultrapassado com as tendências contemporâneas de competição global, revolução organizacional e tecnologias de fabricação". Conclui que, diante da necessidade, "as organizações inovadoras estão desenvolvendo e experimentando novas abordagens de medida e controle de custos e avaliação de desempenho".

Sempre na mesma linha, Galloway (1988) comenta que, embora se utilize comumente a linguagem de custos, como uma linguagem universal de auxílio à determinação da performance da empresa e decisões do dia-a-dia, os "conceitos sobre custos utilizados não se desenvolveram tão rapidamente quanto o resto do pensamento sobre manufatura" (Galloway, 1988, p. 34). O autor credita este atraso ao fato de se continuar com conceitos antigos de alocação direta e indireta de custos, em lugar de se buscar um novo entendimento sobre os verdadeiros relacionamentos entre tempos de resposta da manufatura, inventários, qualidade e lucro, decorrentes dos novos processos de manufatura avançada ora em uso.

Kopittke (1995, p. 5) esclarece que "no momento se enfatiza a necessidade das atividades produtivas se desenvolverem em conformidade às normas estabelecidas e parâmetros consensuais, no que diz respeito aos programas de qualidade e produtividade, metodologias de gestão participativa, e ambiental, em perfeita sintonia com o ecossistema". O autor continua sua colocação, acrescentando que frente a este novo quadro, "torna-se cada vez mais indispensável a existência de sistemas de custos eficazes e comprometidos com a qualidade das informações geradas, que deverão ser capazes de sustentar todo o processo decisório de uma organização".

Percebe-se, então, como fator comum a todas as posições acima relatadas, a mudança do ambiente empresarial das últimas décadas e a falta de sistemas gerenciais de custos, que apresentem informações confiáveis e espelhem aspectos importantes do processo produtivo da empresa.

Em suma, a problemática dos sistemas de custos tradicionais está baseada em dois aspectos: o primeiro deles, na inadequada alocação dos custos tangíveis, ou seja, os sistemas tradicionais não diferenciam as atividades que agregam valor das que não-agregam valor aos produtos, nem tampouco identificam e avaliam adequadamente as perdas existentes nos processos, fazendo com que as respostas obtidas, através destes sistemas, não sejam tão adequadas ou representativas; o segundo aspecto, diz respeito a não-incorporação dos custos intangíveis, onde se insere os custos ambientais.

Os atuais sistemas de custos não consideram e/ou internalizam os chamados custos ambientais. Estes custos hoje são analisados como custos externos às empresas, muito mais relacionados aos custos sociais, e portanto, não fazem parte da alçada dos atuais sistemas de custos.

O tópico seguinte deste capítulo tem como finalidade apresentar mais detalhadamente a visão do que se considera hoje como custo ambiental.

3.2 OS CUSTOS AMBIENTAIS

O termo custo ambiental é um termo, ainda hoje, de difícil conceituação, pois a literatura não apresenta uma definição clara e objetiva do que se considera como um custo ambiental. A primeira dificuldade que se encontra ao se trabalhar com os custos ambientais é o próprio fato de serem estes, em sua maioria, custos intangíveis.

A maioria dos autores que vem trabalhando com o termo custo ambiental trata este custo como uma externalidade. São exemplos Benakouche, Motta, Margulis, Pearce, entre outros.

Motta (1991) considera "externalidade"6 como sendo um custo externo, ou seja, aquele custo que muito possivelmente não é incorporado aos custos do produto. Haddad (1991, p. 13) acrescenta, ainda, que as externalidades existem "quando as relações de produção ou de utilidade de uma empresa ou indivíduo incluem algumas variáveis, cujos valores são escolhidos por outros, sem levar em conta o bem-estar do afetado e, além disso, os causadores dos efeitos não pagam nem recebem nada pela sua atividade".

Nesta visão de custo ambiental tratado como uma "externalidade", pode-se considerar dois aspectos distintos: o custo ambiental sob o aspecto da utilização do "bem comum" e o custo ambiental sob o aspecto do custo social. Em ambos os casos há um ponto comum: tais custos não entram nos cálculos do custo do produto, por isso são tratados como custos externos.

3.2.1. Custo Ambiental sob o aspecto da utilização do "Bem Comum"

Esta primeira abordagem de custo ambiental sob a ótica de "externalidade" pode ser considerada a mais polêmica de todas, pois baseia-se na necessidade de considerar o meio ambiente sem proprietários, como um bem comum a todos. Analisando-se este fato isoladamente, não há polêmica alguma, pois o meio ambiente realmente é um bem coletivo, a todos pertence e todos - direta ou indiretamente - dele usufruem. Porém, a polêmica está no fato de que ao usar indevidamente este bem um custo está sendo gerado.

Apresenta-se um exemplo com intuito de ilustrar melhor a questão. Quando uma fábrica utiliza água em seu processo produtivo (como procura ilustrar a figura 3.1, a seguir) retirando-a diretamente do leito do rio, está gerando um custo ambiental, pois não está pagando por esta água. Desta forma, além de deixar de pagar pelo serviço de transporte tradicional desta água, está também utilizando-se de um bem que não pertence somente à fabrica ou aos seus proprietários.

Figura 3.1 - Representação da visão de custo ambiental sob o aspecto da utilização do "Bem Comum".

Motta (1991, p. 13) salienta que a grande dificuldade no trato deste tipo de custo ambiental está na necessidade em se valorar bens até o momento tidos como intangíveis, pois como afirma o autor "a maioria dos serviços ambientais em risco não é transacionada no mercado e, portanto, não tem preço. O fato de não ter preço não significa que não tenha valor econômico". Atribuir valor a bens que não são transacionados é um feito de extrema dificuldade e complexidade.

Pode-se constatar que ao considerar o custo ambiental sob o aspecto de "bem comum", lida-se com variáveis complexas, ainda pouco claras e que merecem um estudo mais detalhado.

3.2.2 Custo Ambiental sob o aspecto do Custo Social

A segunda abordagem a ser discutida, o custo ambiental visto como um custo social, tem semelhança com a abordagem anterior por ser considerado também como uma "externalidade", mas possui uma diferença básica. Neste caso, qualquer processo que, por algum motivo, esteja provocando danos ou alterações maléficas ao meio ambiente e não esteja arcando diretamente com isto, está gerando um custo ambiental à sociedade como um todo, ou um custo social.

O custo social na linguagem econômica expressa os sacrifícios impostos à sociedade para que o processo produtivo se concretize. A população é onerada pelo custo monetário do produto em si enquanto bem de consumo, assim como pelos encargos decorrentes dos resíduos expelidos sobre a natureza. Ribeiro (1992)

Beams e Fertig (1974, p. 23) definem custos sociais como "os recursos mensuráveis usados ou destruídos na condução das atividades da empresa e pagos por outros".

Kapp (1975, p. 13) entende que "os custos ou perdas sociais afetam a saúde da população, eliminam ou deterioram o valor das propriedades e causam o esgotamento prematuro dos recursos naturais...".

Discutindo um pouco mais a colocação de Kapp, ao analisar um exemplo de uma fábrica que lance no ar partículas sólidas ou fuligens (como procura ilustrar a figura 3.2 , a seguir), como conseqüência de um processo produtivo poluente, pode-se identificar mais claramente os danos causados à sociedade ou os custos sociais impostos. Considerando ainda que esta fábrica esteja localizada numa zona urbana, ou próxima dela, a emissão destas partículas atingirá casas da redondeza, sujando telhados, calhas, caixas d'água e gerando um custo ao proprietário destas casas, pago muito possivelmente, pelo próprio proprietário e não pela fábrica que gera a poluição. Esta emissão pode também provocar danos à saúde dos moradores e dos próprios funcionários, gerando desta forma um custo social.

Figura 3.2 - Representação da visão de custo ambiental sob o aspecto do Custo Social.

Este tipo de acontecimento é muito comum devido ao fato do custo social não ser internalizado e repassado ao produto. Logo, individualmente para a empresa, não parece ser viável financeiramente a instalação de filtros para cessar ou diminuir a geração deste custo ambiental, pois ela não quantifica, nem tampouco incorpora, as "perdas ambientais".

Os custos não agregados ao valor do produto são considerados por Kapp (1975) como "economia de custos impagos", à medida que não são contabilizados como gastos da empresa, sendo suportados pela comunidade como um todo.

Em muitos casos, os custos sociais decorrentes dos dejetos provenientes das atividades produtivas têm origem na minimização dos custos internos de produção em prol de uma maior margem de lucro. Assim ocorrendo, os produtos são colocados no mercado por um preço menor do que seu valor real, tendo em vista seu baixo custo. (Ribeiro, 1992)

3.2.3 Análise Comparativa das duas abordagens de Custo Ambiental apresentadas

Considerando as duas abordagens de custo ambiental anteriormente descritas, algumas observações importantes podem ser feitas.

Tanto o custo ambiental analisado como "bem comum", quanto o custo ambiental analisado como custo social, possuem em comum o fato de serem custos que não entram nos cálculos do custo do produto e são tratados como "externalidades".

Possivelmente, o fator mais importante numa busca eficaz do desenvolvimento sustentável seja a internalização destes custos - definidos aqui como custos ambientais - e a determinação do valor real do produto, arcando com todos os danos causados ao meio ambiente e, conseqüentemente, à sociedade.

Em suma, os preços das matérias-primas e produtos deverão refletir adequadamente os custos sociais, assim como deve ser possível estipular preços para os bens comuns (ar, água, recursos do solo), indevidamente utilizados até mesmo como receptáculos gratuitos para resíduos da sociedade. Caso isto não ocorra, os recursos tenderão a ser usados de maneira ineficiente e a poluição ambiental tenderá a aumentar. (Schmidheiny, 1992)

Logo, a identificação e obtenção dos custos ambientais têm dois objetivos claros e complementares entre si. O primeiro deles, a prévia e necessária explicitação do problema, ou seja, a conscientização de quanto está se gastando, qual o custo embutido na degradação do meio ambiente. Como decorrência, a empresa individualmente poderá conduzir ações, ou o governo poderá estabelecer políticas visando reverter o quadro. O segundo objetivo diz respeito à incorporação desses valores aos custos dos produtos, que vale a pena salientar, poderá, ou não, ser feita.

3.3 O PAPEL DOS MECANISMOS ECONÔMICOS

Constatando-se que a internalização desses custos é importante e auxilia na falha existente para determinação do valor real do produto - que muitas vezes desconsidera os aspectos ambientais - surgem na década de 80 alguns mecanismos econômicos, também conhecidos como mecanismos de controle, que têm por objetivo auxiliar na internalização destes dois tipos de custos vistos anteriormente: o custo ambiental visto como "bem comum" e como custo social.

Libanori (1991, p. 22) afirma que há pelo menos três razões econômicas para utilização destes mecanismos:

Há uma série de mecanismos econômicos já considerados em diversos países como Estados Unidos, Alemanha, Holanda, entre outros. Tratar-se-á, porém, neste trabalho, somente dos mecanismos que atendem ao Polluter Pays Principle, conhecido no Brasil por Princípio Poluidor Pagador.

Este princípio, segundo Carrion (1992, p. 38), "parte da concepção básica de que quem polui deve ressarcir a sociedade pela poluição provocada, com o objetivo simultâneo de desestimulá-lo a tal prática. Se não se evita a poluição, evita-se pelo menos, que se mascarem os custos de produção e que toda a sociedade venha a pagar os estragos provocados por uma determinada faixa de seus membros".

A decisão de se considerar, para efeito de análise, somente os mecanismos que atendem ao Princípio Poluidor Pagador, apoia-se no fato de que os mecanismos econômicos que não atendem a este princípio, como os mecanismos de benefícios (mecanismos de financiamentos, depreciação acelerada de equipamentos, entre outros), apesar de válidos por incentivarem políticas de preservação ambiental, não têm por objetivo internalizar totalmente os custos ambientais gerados, mas sim buscar formas alternativas para que as empresas se preocupem com a preservação do meio ambiente.

Já no caso dos mecanismos econômicos que atendem ao Princípio Poluidor Pagador, como os mecanismos de taxações e de mercado, o intuito principal é o de tentar internalizar estes custos e tornar o preço do produto mais próximo da realidade. Os dois mecanismos destacados são:

- Mecanismo de Taxação: O ponto de partida para o mecanismo de taxação é a constatação de que os custos ambientais não são espontaneamente alocados pelos agentes poluidores ao preço do produto. Deste modo, os adeptos da utilização deste mecanismo defendem a aplicação de taxas aos processos produtivos poluidores, de modo que estes passem a incorporar os custos ambientais existentes, incentivando assim uma mudança de comportamento dos agentes poluidores, para que estes passem a considerar processos produtivos não poluidores. (Libanori, 1991)

- Mecanismos de Mercado: No caso dos mecanismos de mercado, pode-se citar como o mais conhecido e utilizado o mecanismo de concessão de créditos. Este mecanismo tem como intuito permitir às empresas exibirem uma performance ambiental e lucrarem com isto. Atua com a concessão de créditos de poluição para processos que estejam aquém dos parâmetros fixados pelo órgão regulador. Considerando que nenhuma empresa deva ultrapassar as emissões permitidas, a menos que esteja disposta a arcar com as punições previstas, caberá ao poluidor comprar os créditos obtidos pelo fabricante ou prestador de serviços que tenha desempenho ambiental acima do estipulado. (Libanori, 1991)

Estes dois mecanismos auxiliam, se bem empregados, na internalização dos custos ambientais tratados como externalidades, como é o caso dos custos ambientais sob o aspecto do "bem comum" e sob o aspecto do custo social. Porém, cabe salientar, que apesar de válidos estes mecanismos econômicos discutem apenas a necessidade de internalizar os custos ambientais nos produtos, desconsiderando a necessidade de uma prévia explicitação de quanto se gasta, qual o verdadeiro custo da degradação do meio ambiente. Percebe-se, portanto, que há ainda muito o que ser feito nesta área de estudo, principalmente considerando-se o fato de que mensurar aspectos relacionados à natureza, tidos como intangíveis, é algo sem dúvida bastante complexo.

3.4 CONCLUSÕES DO CAPÍTULO

Em relação aos atuais sistemas de custos, pode-se constatar que estes não acompanharam, de forma satisfatória, as mudanças do ambiente empresarial das últimas décadas, nem tampouco vêm considerando de forma adequada as variáveis ambientais e os custos ambientais.

A problemática dos atuais sistemas de custos baseia-se em dois aspectos: o primeiro na inadequada alocação dos custos tangíveis, e o segundo aspecto na não-incorporação dos custos intangíveis, onde se insere os custos ambientais.

A atual visão dos custos ambientais, ou seja, o que a bibliografia apresenta, considera estes custos como aspectos externos à empresa, custos externos. Logo, com a mudança do ambiente empresarial e a variável ambiental surgindo como mais um diferencial competitivo a ser considerado pelas empresas, a visão de custo ambiental não pode ser considerada somente como uma "externalidade".

A identificação e obtenção dos custos ambientais vêm se colocando como relevante no auxílio de uma gestão de custos adequada à empresa, bem como na alocação dos custos ambientais ao produto, obtendo-se assim um valor mais representativo do mesmo.

Não se pode esquecer que a internalização dos custos ambientais é de extrema importância, porém, ainda mais importante é a explicitação de quanto se gasta, qual o custo ambiental existente na degradação do meio ambiente.

Logo, a identificação e obtenção dos custos ambientais, agora não mais somente sob a ótica externa, mas também sob a ótica empresarial, faz-se necessária e de grande utilidade.

O capítulo seguinte tem por objetivo apresentar uma nova abordagem dos custos ambientais, buscando definí-los e identificá-los sob a ótica empresarial. Esta nova abordagem baseia-se, principalmente, nos modelo de Custos da Qualidade já existentes e apresentados a seguir.


6 O termo aqui apresentado, "externalidade", pretende demonstrar que a abordagem adotada na literatura considera, hoje, custo ambiental como um fator externo à empresa, muito mais relacionado à sociedade e aos custos sociais. Esta nota se faz necessária pelo fato de que posteriormente, na apresentação do modelo de Custos da Qualidade de Feigenbaum, o termo externalidade, ou custos de falhas externas, também é abordado, porém com uma outra conotação.