7. CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES
A pesquisa que ora se finaliza teve o propósito de desvendar as relações educação-saúde-trabalho, através do discurso (falas) de Trabalhadores da Construção Civil e Professores Universitários e de como eles comprendem essas relações.
Para que a experiência em questão fosse possível foi-se investigando, através dos dados relatados, de que maneira era identificada e compreendida, por eles, essas relações.
Com o uso de instrumentos metodológicos, a partir da Enfermagem através do referêncial teórico de Betty Neuman e dos estudos bibliográficos foi possível a identificação e análise dessas relações, ainda que uma perspectiva simplificada. A medida que iam se decompondo cada um dos resultados, esses se tornavam mais claros, demonstrando que o referêncial teórico e sua aplicabilidade é bastante útil e aplicável no esclarecimento de situações relativas aos estados de saúde do trabalhador. É seguro afirmar que pode ser introduzido como importante instrumento para a Saúde Ocupacional.
Do exposto, o conhecimento de um novo marco, juntamente às contribuições conceituais de carácter geral, capacitou m movimento por caminhos reflexivos e rápidos na elucidação dos resultados, o que propiciou o melhor entendimento e agilizou o tratamento dos dados.
Os discursos revelaram como esse trabalhadores pensam e sentem a relação entre saúde-trabalho-educação e como estabelecem significados representacionas das manifestações em seu corpo.
Uma das maiores dificuldades encontradas foi aprender a participar, sem interferir nas falas, sem conduzí-las, manipulá-las ou condená-las, (o termo manipular, aqui introduzido tem o sentido claro de desejar traduzir as respostas) visto que, enquanto profissional da área de saúde, muitas das definições relatadas sobre o viver saudável no trabalho, contrapunham o saber teórico-prático e o construto acadêmico.
O ímpeto de ensinar e contradizer os fatos relatados, exigiu esforço e dedicação absoluta durante a realização dessa pesquisa, componente importante da trajetória de um pesquisador.
Aos poucos surgiu a avaliação do quão valioso foi o efeito causador desses discursos, pois permitiram comprender as mais diversas formas dos trabalhadores (re)conhecerem essas relações e as múltiplas faces do estar apto ou inapto para o trabalho.
Foram evidenciadas implicações consistentes, no âmbito do reconhecimento no corpo, o ser biológico, porém deixando transparecer que nem sempre ele é só biológico e que, muitas vezes, ele é social e outras, político.
É importante ressaltar que as relações educação-saúde-trabalho são claras, elas estão presentes no dia a dia laborial dos trabalhadores. Nas situações relatadas: em estar doente, em ter boa aparência, em estar sadio, em estar apto e\ou inapto, em ter condição econômica satisfatória, em ter prazer\desprazer, enfim situações relativas ao homem e ao mundo ao qual ele vive.
Os enfrentamentos relatados, através da compreensão dos sentimentos, das situações envolvidas, perpassam nas aspirações projetadas ao longo de suas experiências com e no trabalho. Entretanto, nem todos as percebem em suas atividades, porém têm inconscientemente sentido os resultados dessas relações.
Na abordagem do discurso percebe-se que os trabalhadores de classes tão diferenciadas, têm um modo também diferenciado de perceber. Junto aos Professores Universitários, a abordagem é mais acadêmica acerca da percepção e convivência com essa relação, mas não foi convincente, pois relataram com certa dificuldade o reconhecimento dos aspectos que envolve essa relação, a exemplo: confundir patologias vivênciadas pelo seu corpo, com sinais e avisos biológicos às situações de trabalho.
Já para os Trabalhadores da Construção Civil, essa relação é abordada como existente, porém, os depoimentos são fragmentados e multifacetados, todavia bastante compreensível, visto que os parâmetros dessa compreensão, vem embasados em saberes populares. O que ficou claro é que nos dois grupos a relação saúde-trabalho apareceu mais nitidamente por aspectos opostos, ou seja, através da relação doença-trabalho.
Os trabalhadores, à sua maneira, identificaram as reações do corpo e as pressões em relação às atividades do trabalho, tanto no âmbito psico-afetivo, quanto no âmbito fisico. Entre uma fala e outra, tentou-se buscar conhecimentos acerca da prevenção de acidentes de trabalho e sobre as doenças profissionais, porém não foi clarificado por eles, ou seja, a grande maioria não identificou as formas dessa prevenção relativas à sua profissão.
Em nenhum momento conseguiram relativizar a relação educação-saúde em suas atividades de trabalho, quanto aos cuidados preventivos de promoção à saúde no trabalho. O reconhecimento pareceu ser parcial, porém presentes, mesmo que essa relação pudesse ser vivenciada concretamente, o que indica a necessidade de intervenção profissional no sentido de aumentar o potencial informacional dos trabalhadores.
Os Trabalhadores da Construção Civil entrevistados são profissionais autônomos, têm o controle de suas atividades, tais como: horários, dias e semanas de trabalho, salários, etc...Os resultados de sua produção são controlados na grande maioria por eles mesmos. Mesmo assim, percebeu-se nas situações de trabalho, as dificuldades propiciadas pelo conhecimento empírico de sua profissão, por suas crenças (certa\errada), na inserção de sua representação social do que seja ser trabalhador, ter um trabalho e por conseguinte uma profissão.
Para uns, é executar o trabalho "dignamente" (valores morais), para outros, a preferência é não tecer considerações a respeito (valor social). O discurso sobre a visão do valor social do trabalho permeia o sentido de não estar desempregado, portanto ser útil para a familia e para a sociedade.
Entretanto, percebeu-se que esses trabalhadores deixam claro que anseiam por adquirir conhecimentos que aperfeiçõem seus métodos e desempenhos nas atividades de trabalho. Têm o conhecimento biológico fragmentado de seu corpo, mas sabem que cuidar desse corpo é sinônimo de saúde e, por consequência, melhores condições para o trabalho.
A seu modo, percebem as situações de enfrentamento e quando não se apercebem delas, reconhecem as denúncias de seu corpo biológico e, através de seu discurso, desenvolvem um modo peculiar e pessoal em relatá-los.
Anseiam em serem produtivos, em construir um futuro baseado em sua ótica de conhecimento de seu mundo de trabalho.
Os Professores Universitários, trabalhadores com vínculo empregatício institucional público, com regras e legislação específica de seus empregadores, também têm de certa forma o controle de seu trabalho, específicadamente ao que se refere à atividade desenvolvida, um pouco similar aos Trabalhadores da Construção Civil, embora tendo os resultados de sua produção "controlados" pelos Centros de Ensino onde estão lotados.
Percebeu-se que as dificuldades de trabalho, dependem do desprazer da profissão. Para alguns é tão marcante que pensam em abandonar a profissão, através de aposentadorias, ao nosso ver precoce (faixa etária). Porém não foi avaliado o passado profissional nessa relação. O discurso do presente indicou o sentir-se bem ou mal, nas situações de trabalho frisando a expectativas de papéis, valorização pessoal e relização total.
Em suas abordagens, mesmo obtendo maior grau de escolaridade que os Trabalhadores da Construção Civil, desconhecem e\ou negam, as implicações de sua atividades laboriais em seu corpo biológico, e, para a grande maioria esse corpo é social, o "status quo", implícito nos discursos.
Na essência das situações de enfrentamento, não são diferenciados dos Trabalhadores da Construção Civil, porém o modo de abordagem, sim. Suas representações socias\mentais são diferenciadas ,mas nas entrelinhas do discurso percebeu-se que se falara a mesma coisa, com vocabulário diferente.
O valor social do trabalho, também compreende a inserção do mercado de trabalho, porém com roupagem aparentemente "politizada", esta, bem diversificada em várias correntes, ao qual o presente estudo respeitou, porém não avaliou.
Os Professores Universitários tem o conhecimento biológico fragmentado de seu corpo, e a maioria não dá a devida importância aos avisos biológicos desse corpo. Reconhecem a importância do viver saudável no trabalho, entretanto não agilizam formas para esse viver no seu dia dia laborial.
Referindo-se às relações educação-saúde-trabalho, o discurso dos Professores Universitärios sobre o viver na sociedade, aparece numa forma politizada revelando a importância, do trabalho enquanto componente social da vida..
Retomando, os trabalhadores de classes tão distintas apresentam maneiras individuais de vivenciar seu trabalho, mas sentindo as mesmas coisas em ambientes tão diversos. Comprovam que quando nos tornamos trabalhadores, inseridos nesse contexto, nossas reações são heterogêneas, ou seja, são essencialmente individuais ainda que homogênea quanto a origem dos problemas mais comuns, de modoque pode se dizer as condições de trabalho foram homogenizadas para trabalhadores diferenciados..
Os trabalhadores carecem, de maneira geral, de maiores informações à respeito de suas atividades de trabalho, anseiam por métodos educativos para o trabalho e para a saúde, afim de melhorar sua qualidade de vida. Urge que se promova, a niveis institucionais e governamentais, as estratégias que cheguem até o trabalhador, no sentido amplo da promoção da saúde no trabalho.
Enfim, o presente trabalho de dissertação de mestrado abre um leque para novas pesquisas, tanto no Campo da Ergonomia, como no Campo da Enfermagem. Do exposto, apresento algumas recomendações que se seguem:
* Continuação de estudos teóricos\práticos em relação a novas técnicas metodológicas no processo de trabalho-educação-saúde.
* Aprofundamento da análise sobre processos de ensino de formação profissional aos trabalhadores que vão exercer o cuidado da promoção à saúde, de modo que incluam a preocupação com o trabalho em sua ação assistencial..
* Inclusão da Ergonomia como disciplina no Curso de Graduação de Enfermagem.
* Inclusão da Saúde Ocupacional como disciplina no Curso de Mestrado em Ergonomia.
* Elaboração de outros estudos que busquem:
- relação de afeto com o trabalho;
- otimização de técnicas ergonômicas para a saúde do trabalhador;
- processo de trabalho interdisciplinar e participativo;
- relação da saúde com a Ergonomia.
E, pretendo continuar no mundo da pesquisa, para que, em futuro bem próximo, possa estar pronta a juntar-me a outros pesquisadores a fim de traçar referências metodológicas que venham somar-se na contribuição da prevenção, promoção e manutenção da Saúde do trabalhador brasileiro.