Capítulo 2
Arquitetura de paisagens e ecologia
 

Água, solo, fauna e flora compõem os bens naturais mais preciosos que possui a terra: local onde reside e do qual também faz parte o homem. Por esta razão, seu planejamento, proteção, desenho e intervenção devem objetivar a composição ideal do ambiente humano. A natureza (descrita como a situação que não foi alterada pelo esforço humano) se converte em paisagem quando nos referimos aos seus componentes naturais, suas peculiaridades fisiográficas e ambientais; também se transforma, alterando suas características próprias de acordo com as influências históricas, culturais e tecnológicas do homem, refletindo, por conseqüência, pelos sistemas climáticos, naturais e sociais, a materialização de um momento da sociedade (Degreas, in Del Rio, 1996).

2.1. Conceito de paisagismo

Para esclarecermos o conceito de "paisagismo", recorremos ao dicionário para entender a palavra "paisagem". Segundo Aurélio Buarque de Holanda, paisagem "é o espaço de terreno que se abrange num lance de vista". Antenor Nascentes a define como "a extensão de país a qual se oferece um golpe de vista de conjunto".

Notamos que nas definições de "paisagem" encontradas existe uma referência comum: o sentido da visão seria a representação de tudo aquilo que abarcamos com olhar. Não é termo seletivo ou restritivo. Não encerra tampouco nenhum julgamento de valor. Se considerarmos isto verdade, temos que admitir que o ambiente urbano, assim como os ambientes industriais, são tanto paisagem quanto o natural. E o ambiente degradado também o é, da mesma forma que aquele que se preservou com suas feições originais, ou que se reconstituiu segundo as necessidades humanas.

Observamos ainda que a paisagem não é estática, pois seus elementos constituintes são passíveis de transformações próprias, como também se alteram mutuamente.

Mas, embora o termo "paisagem" não informe nada acerca de suas características, é evidente que qualquer vista tem para o observador uma série de elementos que a definem e que a diferenciam de outras infinitas paisagens. A morfologia do terreno, a flora, a fauna, os recursos hídricos locais e a ação antrópica são elementos que, ao constituírem a paisagem, ao mesmo tempo a caracterizam de forma inconfundível (Marx, 1987).

Burle Marx conclui ainda que: "A sistematização consciente ou intuitiva desses elementos é que permite ao homem evocar, por exemplo, a 'terra natal' em contraposição a todas as outras que vier a conhecer. É devido a isso ainda que se pode criar o conceito de macropaisagem ou domínio paisagístico, formulado pelos geógrafos, correspondendo não mais a um domínio visual, mas a uma unidade maior, caracterizada por suas feições morfoclimáticas típicas e seus principais quadros de vegetação."

O paisagismo é filosoficamente uma ciência multidisciplinar que estuda as paisagens naturais e que interfere nestas paisagens, embasada nos conhecimentos da Biologia, Agronomia e Ecologia, e instrumentada com as técnicas da Morfologia, Fisiologia, Taxonomia e Patologia Vegetal, assim como Horticultura e Climatologia (Winters, 1992).

Roberto Burle Marx escreveu em 1991: "Criar jardins, e paisagens, é uma arte maravilhosa, possivelmente uma das mais antigas manifestações da arte. A Bíblia registra e descreve um paraíso onde havia equilíbrio entre as plantas, os animais, e o homem. Infelizmente o homem procurou dominar a natureza e perdeu seu paraíso. Com o conhecimento que hoje possuímos da ecologia e da importância de nos relacionarmos com as árvores e as plantas, procuramos reconquistar aquele paraíso perdido e corrigir os erros das gerações passadas."

A conceituação do problema "jardim" deve ser visto como sinônimo de adequação do meio ecológico às exigências naturais da civilização (Marx, 1987).

O paisagismo é essencialmente uma manifestação artística do homem. Utilizando-se da grande riqueza plástica e da diversidade das formas, cores e texturas dos vegetais, o homem modifica ambientes externos e internos. A composição harmoniosa do uso da vegetação integra-se aos demais elementos da natureza e aos elementos introduzidos pelo próprio homem, compondo os espaços, e fazendo deles verdadeiras obras de arte, vivas.

Podemos considerar então que o paisagismo é uma ciência e uma arte, que tem por finalidade ordenar todo o espaço exterior em relação ao homem, para o benefício do próprio homem.

2.2. Paisagismo de grandes áreas

Chama-se de paisagismo de grandes áreas a arte de modificar ou de recuperar paisagens de grandes dimensões. Estas grandes áreas oferecem ao paisagista um elevado grau de liberdade na escolha de soluções e no desenvolvimento de novas idéias.

Nestas áreas, trabalhamos com escalas de grandes proporções, onde as árvores, arbustos e palmeiras, plantados em conjunto ou mesmo isolados, têm papel fundamental. As herbáceas, ou plantas de menor porte, aparecem sempre plantadas em conjuntos de uma mesma espécie e/ou combinadas com outros conjuntos de outras espécies.

O local disponível para o plantio e as funções desejadas serão os fatores decisórios na escolha do porte e da quantidade das espécies a plantar.

São três as possibilidades de paisagismo de grandes áreas:

O paisagista de grandes áreas não tem somente a função de criar jardins. Muito mais do que isto, tem sobre sua responsabilidade a tarefa de garantir a vida à espécie humana e aos animais, através de contribuições práticas para restabelecer o equilíbrio rompido com a natureza.

Através do recurso da criação de bosques, cortinas e maciços vegetais, com vegetação arbórea, arbustiva e herbáceas, nativa da região, plantada em áreas anteriormente degradadas, conseguimos criar uma paisagem harmônica e viva. Permitimos assim o desenvolvimento da fauna local (insetos, pássaros e pequenos animais) e garantimos, como conseqüência, a perenidade da flora plantada, porque abriga desta maneira os seus agentes polinizadores e os seus defensores naturais.

A grande variação das formas, texturas e densidades da vegetação, das tonalidades do verde, do colorido de suas folhas, flores e frutos, pode criar, quando corretamente escolhidas, harmonia entre o ambiente plantado e as estruturas criadas pelo homem.

Consideramos como parâmetro para o nosso trabalho com paisagismo de grandes áreas qualquer local onde possa ser plantada uma quantidade igual ou superior a 100 árvores.

2.2.1. Funções paisagísticas das plantas arbóreas e das plantas arbustivas.

Segundo Salviati (in Del Rio, 1996), plantas arbóreas são aquelas com altura acima de 5 ou 6 metros, caule autoportante, único na base, repartindo-se acima do nível do solo. Subdividem-se em árvores, palmeiras e coníferas.

As plantas arbustivas têm altura de até 5 ou 6 metros, caule em geral subdividido junto ao nível do solo, resistentes ao menos parcialmente.
 

As árvores, palmeiras, coníferas e arbustos formam a categoria de elementos de composição essencialmente vertical. Funcionam como marcos verticais, muito embora, evidentemente, também participam das composições horizontais, principalmente no caso dos arbustos.

Suas principais funções são as seguintes:

 
Figura 2.2.1 - Árvore como principal elemento paisagístico - Bairro de Porto Alegre, RS
Foto do autor, 1985

Podemos citar como exemplo de árvores ornamentais utilizadas em paisagismo as seguintes espécies:

O fedegoso (Cassia macranthera), a paineira (Chorisia speciosa), o jacarandá mimoso (Jacaranda mimosifolia), a corticeira (Erythrina cristagali), o ipê amarelo (Tabebuia ochracea), a quaresmeira (Tibouchina granulosa) (Lorenzi, 1992).

De palmeiras:

A palmeira açaí (Euterpe oleradea), o coqueiro da Bahia (Syagrus oleracea), a (Ptychosperma macarthurii), o (Arecastrum romanzoffianum) (Graf, 1981).

De arbustos:

A quaresmeira pequena (Tibouchina heteromalla), a afelandra (Aphelandra raiadita), a espirradeira (Nerium oleander), o jasmim manga (Plumeria alba) (Graf, 1981).

De conífera:

O pinheiro do Paraná (Araucaria angustifolia).

Lúcio Costa observou certa vez que constituía "um dos preceitos

da urbanização moderna o contraste entre a rigidez, a simetria, a disciplina da arquitetura e a imprecisão, a assimetria, o imprevisto da vegetação" (Costa apud Motta,1983).

2.2.2. Funções paisagísticas das plantas herbáceas

As herbáceas são plantas de pequeno porte, de caule não definido, com altura raramente acima de 1 metro, também chamadas de forrações ou pisos vegetais.

As forrações são, como o próprio nome indica, plantas rasteiras adequadas à formação de tapetes vegetais, recobrindo áreas mais ou menos extensas de terreno, sem chegar a constituir massa vegetal (Salvati apud Del Rio, 1996).

Suas principais funções são as seguintes:

Como exemplos de espécies herbáceas para uso em áreas sombreadas podemos citar:

Os antúrios (Anthurium andreanum), as calatéias (Calathea makoyana), as samambaias (Nephrolepi exaltata), o comigo-ninguém-pode (Dieffenbachia amoena), as heras (Hedera helix), os ficus (Ficus pumila), as helicônias (Heliconia bihai), os filodendros (Philodendron domesticum) e os espatifilos (Spathiphyllum clevelandii).

Para o uso em áreas ensolaradas podemos citar as seguintes espécies de herbáceas:

As gramas em geral, o camarão (Beloperone guttata), os clorófitos (Chlorophytum comosum), as pervincas (Catharanthus roseus), os hemerocalis (Hemerocallis flava), os agapantos (Agapanthus africanus), as íris (Iris japonica) e as wedélias (Wedelia paludosa).
 

Figura 2.2.2 - Manchas de herbáceas - proj. Arq. Roberto Burle Marx
Fonte: Revista Projeto n.o 146
 
2.3. Ecologia e paisagem brasileira

A palavra "ecologia" deriva do grego oikos, com o sentido de casa, e de logos, que significa "estudo". Assim ecologia significa estudar a casa, incluindo todos os organismos que nela habitam e todos os processos funcionais que a tornam habitável. De acordo com o Novo Dicionário Aurélio, a ecologia "estuda as relações entre os seres vivos e o meio ambiente em que vivem, bem como as suas recíprocas influências" (Coelho, 1996).

Ora, o paisagismo funciona criando, ou recuperando a paisagem natural do ambiente onde vivemos, de forma a atender as funções definidas pelo homem, mesmo quando estas funções forem de caráter apenas estéticas. Podemos considerar, portanto, o paisagismo como um instrumento ecológico em todas as suas formas.

A ecologia vem, há muitos anos, funcionando como instrumento de sobrevivência na história da humanidade. As sociedades mais primitivas precisavam conhecer as forças da natureza, os vegetais e animais que as cercavam, para garantia da sua própria espécie. Para muitos pesquisadores, o início da civilização é marcado pelo uso do fogo e de outros mediadores capazes de modificar o ambiente (Coelho, 1996).

Devido aos avanços tecnológicos, o distanciamento do ambiente natural, como fonte capaz de suprir nossas dependências, se acentua, fazendo com que esqueçamos que a nossa dependência da natureza ainda continua.

"As plantas arbóreas nativas do território brasileiro estão intimamente ligadas à história e ao desenvolvimento econômico e social do nosso país, [...] O Brasil possui a flora arbórea mais diversificada do mundo. A falta de direcionamento técnico e conscientização ecológica na exploração de nossos recursos florestais tem acarretado prejuízos irreparáveis" (Lorenzi, 1992).

O nosso país registra passagens de grandes prejuízos ecológicos na sua história, desde o período do seu descobrimento. Quando os primeiros colonos europeus desembarcaram nas costas do Brasil, descobriram que as florestas naturais eram um tesouro muito rico, pela quantidade e pela grande variedade de suas espécies. Considerando a exuberância da nossa natureza, o brasileiro a encarou como um recurso inesgotável, eterno. Assim iniciou-se o processo de exploração dos nossos recursos naturais.

A extração da madeira para a exportação tornou-se a base de seu desenvolvimento econômico. O país foi na realidade batizado devido à riqueza de árvores pau-brasil, de madeira vermelha utilizada para tintura (Caesalpinia echinata). A palavra "brésil" era usada durante a Idade Média na Europa para descrever uma espécie de madeira de tinturaria importada do Oriente, a Caesalpinia sappan, e os portugueses a usavam para designar as árvores brasileiras de características semelhantes referindo-se conseqüentemente ao próprio país como "Brésil" ou "Brasil". A extração das árvores de pau-brasil é um período que ficou conhecido com o "ciclo do pau-brasil".

As plantações de café e a extração da borracha de espécie nativa de árvore brasileira, a Hevea brasiliensis, produziram, respectivamente, seus próprios ciclos, substituindo os já decadentes ciclos do ouro e diamante e da cana-de-açúcar.

As riquezas brasileiras, portanto, sempre foram sustentadas às custas da extração e esgotamento das suas reservas naturais ou dos seus solos, uma vez produtivos (Eliovson, 1991).

2.4. Consciência ecológica

"Nunca penso no futuro, Ele chega bastante cedo".
Albert Einstein

O avanço tecnológico, sem dúvida, permitiu grandes conquistas ao homem moderno. Trouxe muito conforto, com os condicionadores de ar, por exemplo, mantendo temperaturas ambientes aprazíveis em qualquer época do ano. Diminuiu distâncias com os meios de transporte cada dia mais rápidos e eficientes, e ainda, facilitou muito a vida dos homens em geral, com a preparação e acondicionamento de sua alimentação, para garantir sua sobrevivência em épocas de entre-safras.

Porém, o grande paradoxo da sociedade moderna é que as nações industrializadas conseguiram o sucesso desvinculando temporariamente o homem da natureza, através da exploração de combustíveis fósseis finitos, que estão sendo esgotados com rapidez. Contudo, a civilização ainda depende do ambiente natural, não apenas para energia e materiais, mas também para processos vitais à manutenção da vida, tais como os ciclos do ar e da água. As leis básicas da natureza não se revogaram, apenas suas feições e relações quantitativas foram mudando, à medida que a população mundial e seu prodigioso consumo de energia aumentaram a nossa capacidade de alterar o ambiente. Em conseqüência, a nossa sobrevivência depende do conhecimento e da ação inteligente para preservar e melhorar a qualidade ambiental por meio de uma tecnologia harmoniosa e não-prejudicial (Odum apud Coelho, 1996).

A preocupação com a preservação das florestas, e as primeiras denúncias de exploração da natureza feita pelo homem, apareceram como movimentos mundiais de consciência ambiental, nos anos de 1968 e 1979, motivados pelos movimentos sociais e pela crise do petróleo. Parecia que, de repente, todo mundo estava preocupado com poluição, áreas naturais, crescimento populacional e consumo de alimentos e energia, assuntos prediletos também da imprensa popular (Coelho, 1996).

A expressão "consciência ecológica", rotineiramente encontrada em estudos científicos, tem sido mais popularizada em manifestos populares, que apelam para a necessidade de alterações de atitudes do homem em relação à natureza, o que significa, para alguns estudiosos, "uma forma de pensar" (Lago, 1991).

Kenneth Burke, um crítico literário, comentando as tendências do desenvolvimento científico, profetizou em 1937: "Há uma ciência que, em tempo, merecerá a devida atenção: a ecologia".

O cientista norte-americano Barry Commoner, grande ativista da sua época, desceu das torres de marfim das universidades direto para as arenas de debate público. Com suas idéias naturalistas, formulou as 3 leis da Ecologia: A primeira delas é a da Interdependência e diz que "todas as coisas estão relacionadas entre si". A segunda fala do "desenvolvimento limitado". E a terceira, emprestada da economia, sustenta que "não há almoço grátis na natureza".

Em 1854, o chefe índio Seattle escreveu ao então presidente dos Estados Unidos, Franklin Pierce, "o grande chefe branco de Washington", que pretendia comprar uma imensa faixa territorial de sua tribo, prometendo em troca uma "reserva":

Estes trechos da carta do chefe índio Seattle vem bem nos mostrar a distância que tomamos das nossas questões básicas de sobrevivência. Não falamos aqui exclusivamente de problemas ambientais. Não é só a sobrevivência do planeta que pretendemos enfocar. Dos problemas ambientais, já temos falado, mas e o homem? Fazemos parte deste sistema, fazemos parte da terra. E nossas vidas, como temos vivido? Quanto mais civilizados nos tornamos, mais difícil fica conseguir viver com "qualidade".

Há muito estamos pagando o preço pela desvinculação dos seres humanos com a natureza. A degradação do ambiente onde vivemos contribui diariamente para a diminuição da qualidade dos ambientes e da vida. Nossa paisagem torna-se cada vez mais cinza e menos saudável. Esquecemos todos os dias de que não sobreviveremos se continuarmos a poluir nossos rios ou destruir nossas árvores.

2.5. Ecologia no projeto de paisagismo

Segundo Burle Marx (1987), existem duas formas de paisagens:

Esta última corresponde a todas as interferências impostas pela necessidade do homem, objeto de nossos estudos enquanto paisagistas, ecologistas e ergonomistas.

A tarefa do paisagista adquire uma complexidade cada vez maior. Só com a ajuda dos botânicos, ecologistas e outros técnicos, pode o paisagista interpretar corretamente a paisagem natural, para pensar harmoniosamente em como conceber e executar a paisagem construída.

É obrigação do paisagista ecologista conservar certas espécies ameaçadas, tentando garantir para o futuro a sobrevivência da expressão de beleza que representam e da importância científica que têm.

Esta busca de espécies requer um conhecimento de natureza fitogeográfica e uma certa familiaridade com as nossas matas e outras formações naturais onde vamos buscá-las. Na mata, as plantas estão adaptadas a diferentes níveis: existem as de sub-bosque, as plantas de meia altura, as árvores copadas e as epífitas. A biologia dessas matas está longe de ser conhecida (Marx, 1987). Sobre elas há milhares de aspectos a estudar. Mas, para garantir esta possibilidade, o paisagista há que combater a destruição das e procurar refazê-las sempre que possível.

Como vimos anteriormente, o Brasil tem uma triste tradição, que permanece até hoje: um perigoso processo de destruição das nossas reservas naturais. Mas ainda há muita coisa que não pode ser destruída.

A União Internacional de Conservação da Natureza (IUCN) e o Fundo Mundial para a Vida Selvagem (WWF) reconhecem a Floresta Atlântica, por exemplo, como uma das florestas tropicais mais ameaçadas em todo o mundo. Efetivamente, as áreas florestais remanescentes estão isoladas, são escassas e estão sob constante risco de destruição total. No passado, a Floresta Atlântica brasileira cobria, continuamente, mais de 350.000 km2. Hoje esta floresta está pulverizada e a soma total das suas parcelas dispersas não alcança mais que 10.000 km2 (ou seja, menos de 3% da área primitiva) (Pereira, 1984).

Um estudo acurado das leis ambientais e florestais no Brasil pode revelar que o país é pródigo em leis de preservação, ou pelo menos não existe falta de leis (Swioklo apud Gonçalves, 1982), ainda que elas sejam redundantes e deficientes em alguns casos.

A primeira lei de caráter ecológico e ambientalista foi a Lei n.o 23.793, de 23 de janeiro de 1934, revogada em 15 de setembro de 1965 pela Lei n.o 4.771 e alterada em 18 de julho de 1989 pela Lei n.o 7.803, atualmente em vigor e conhecida como Código Florestal. O Código Florestal versa sobre a preservação de florestas (art. 1.o) e, indiretamente, indica as características paisagísticas e as áreas com aptidão para as áreas verdes e de lazer nos municípios. Os outros artigos deste Código especificam os locais onde a vegetação natural deve ser preservada e reconhece as florestas como instrumento de preservação, considerando-as "de utilidade às terras que revestem".

É essencial optarmos por trabalhar com espécies nativas, da região em questão, para garantirmos um nicho ecológico nas nossas paisagens construídas.

A utilização de espécies nativas no desenvolvimento dos projetos de paisagismo de grandes áreas é importante pelo seu aspecto preservacionista. Lorenzi disse: "A flora nativa, há milhares de anos interagindo com o ambiente, passou por rigoroso processo de seleção natural que gerou espécies geneticamente resistentes e adaptadas ao nosso meio. Já as espécies introduzidas de outros países, denominadas de 'espécies exóticas', não sofreram tal processo e, em hipótese alguma, são substituto ideal para a vegetação nativa em todas as funções que desempenham no ecossistema."

O paisagista, no Brasil, goza de liberdade de construir jardins baseados numa realidade florística de riqueza transbordante. Respeitando as exigências da compatibilidade ecológica e estética, ele pode criar associações artificiais de uma expressividade enorme. Fazer paisagem artificial não é negar nem imitar servilmente a natureza. É saber transpor e saber associar, com base num critério seletivo, pessoal, os resultados de uma observação morosa intensa e prolongada (Marx, 1987).

Embora possamos dispor de um contingente de aproximadamente 5.000 espécies arbóreas, dentro de um conjunto florístico avaliado em 50.000 espécies diferentes, nossos jardins apresentam, sobretudo, a flora domesticada cosmopolita, e, em nossas ruas a arborização é, muitas vezes, feita com espécies exóticas, como plátanos, ligustros, etc. "Repudio esse conceito de paisagismo e tenho lutado contra certas maneiras de urbanização, em que a paisagem natural é totalmente destruída para, em seguida, ser feita uma composição vegetal com plantas divorciadas da realidade paisagística local" (Marx, 1987).

Quanto maior for a diversidade de espécies vegetais, maior será a possibilidade de instalação definitiva de uma fauna mais diversificada (Sanchotene, 1985).

É importante ressaltar, como um dos aspectos mais benéficos no paisagismo de grandes áreas, a diversidade de espécies de árvores e arbustos.

Podemos concluir, portanto, que, quanto maior for o número de espécies no ecossistema, e principalmente de espécies nativas, maior será sua capacidade de resistir às adversidades climáticas. Maior também será sua capacidade de absorver os impactos negativos, como a poluição, e menor a probabilidade da disseminação de pragas e doenças. Conseguimos, desta forma, um microsistema vivo e saudável, composto por diferentes espécies de seres vivos interdependentes

É vital incluir, nas áreas plantadas ou recuperadas, pelo menos 50% de espécies nativas da nossa flora.

Vale ressaltar, também, que as zonas urbanas e alguns pólos industriais (por exemplo o Pólo do Sul) e seus arredores apresentam maior número de espécies de seres vivos do que as áreas agrícolas e as reflorestadas. Perdem, apenas, para as áreas naturais (Cestaro, 1985). Portanto, podemos acreditar que é possível recriar meio ambientes vivos e saudáveis, mesmo em zonas industriais.

Podemos classificar as espécies nativas de porte arbóreo e arbustivo em dois grupos:

ex.: O açoita cavalo (Luhea divarigata), o angico (Piptademia rigida), a bracatinga (Mimosa bracaatinga), a canafístula (Pelthophorum dubium), a cabreuva (Myrocarpus frondosos). ex.: A aroeira-periquita (Schinus molle), o araticum (Rollinia emarginata), a embaúba (Cecropia catarinesis), a guaçatunga (Banara parviflora), a canela-fogo (Cryptocarpa aschersoniana), a massaranduba (Persea venosa).

As espécies nativas frutíferas, além de servir de abrigo à fauna, também funcionam como alimento, especialmente para as aves.

O projeto de paisagismo é ecológico quando respeita as características e as necessidades do meio ambiente.

Figura 2.5 - Paisagem construída - Projeto do Arq. Roberto Burle Marx
Fonte: Os jardins de Burle Marx, 1991

2.6. Paisagem sustentável: única saída
 

Confusa ou não, a idéia central de sustentabilidade como uma característica de um processo que pode se manter indefinidamente, faz sentido. O título pode mudar, mas a idéia essencial se mantém.

Sustentabilidade emerge como uma inevitável resposta, a dinâmica e crescente dissonante tensão, entre natureza e tecnologia na sociedade contemporânea. Em sua essência, sustentabilidade vem a ser uma "idéia" com a qual nós pretendemos permitir a nós mesmos mais uma vez, nos tornarmos parte da natureza, subordinados às leis do universo. O conceito de sustentabilidade está começando a encontrar um filtro para separar alternativas tecnológicas, e escolher apenas aquelas que respeitam e preservam valores ambientais e sociais. Se pudéssemos demonstrar fisicamente que certos sistemas de vida humana resultam em viver em harmonia com a natureza, preservando o planeta como em uma parceria, aí então poderíamos alegar de forma justa que criamos um sistema de paisagem sustentável (Thayer, 1994).

É na paisagem, onde o freqüente conflito entre a natureza e a tecnologia é mais facilmente percebido, é na paisagem também que qualquer tentativa de solução deste conflito pode ser testada e posta à prova. Até os nossos dias, uma paisagem sustentável é uma visão promissora, embora que ainda um pouco vaga. Esta visão pode clarear o foco da nossa compreensão, de que esta é uma responsabilidade multidimensional para um complexo conflito cultural.

Talvez essa abordagem possa ambicionar um pouco mais, o próprio re-projeto do nosso habitat comum, a Terra, cada vez mais carente do verde, encaixotado nos mantos escuros de asfalto, e carente do sol, incapaz de filtrar-se pelas copas geométricas dos edifícios gigantescos. "O design possui a chave para transformar a uniformidade fria e insensível da Aldeia Global no calor particularizado da Aldeia Humana" (Manu, 1995).

O paisagismo ecológico aparece aqui, então como mais um instrumento a ser utilizado para alcançarmos uma paisagem sustentável, nossa única saída para conseguir viver em harmonia com o planeta que nos abriga e sustenta.