Ergonomia, ecologia e paisagismo
para a qualidade do ambiente de trabalho
Os esforços do homem em adaptar ferramentas, armas e utensílios às suas necessidades e características marcam o advento da ergonomia. Na Odisséia de Homero, Ulisses foi reconhecido por ser o único capaz de vergar o arco que fora construído especificamente para ele. É a partir da revolução industrial, porém, com o surgimento da "fábrica", que a ergonomia começará a ser estudada como ciência.
Segundo Iida (1990), "A Ergonomia é o estudo da adaptação do trabalho ao homem". O autor considera que a ergonomia abrange não apenas as máquinas e instrumentos utilizados pelo trabalhador, mas também "toda a situação em que ocorre o relacionamento entre o homem e seu trabalho, inclusive o ambiente físico".
Descreve que: "para realizar o seu objetivo, a ergonomia estuda, entre outros aspectos, as características do ambiente físico que envolve o homem durante o trabalho, como a temperatura, ruídos, vibrações, luz, cores, gases, etc."
Maurice de Montmollin define e faz considerações às duas principais correntes da ergonomia. A corrente mais antiga (e mais americana) considera a ergonomia como a "utilização das ciências para melhorar as condições do trabalho humano". A segunda corrente, mais recente e mais européia, considera a ergonomia como "o estudo específico do trabalho humano".
Segundo ele, as duas ergonomias são complementares, e um mesmo ergonomista pode utilizar seus conhecimentos sobre o homem para resolver questões de projeto de uma máquina para ser utilizada pelo trabalhador, bem como para modificar a organização do seu trabalho, através de uma análise das atividades destes trabalhadores.
Diz ainda que as ergonomias estudam as características da máquina humana, principalmente :
Coloca ainda que os estudos referentes aos postos de trabalho ficaram, durante anos, restritos e limitados à análise das dimensões destes postos. A partir dos trabalhos de Fischer em 1989, na França, foi dado um grande impulso nos estudos destes ambientes.
Perspectivas interessantes mostraram que o espaço de trabalho é uma forma privilegiada de abordar a relação entre os comportamentos no trabalho e os problemas de organização.
Fischer apresentou duas abordagens possíveis. A primeira, mais clássica, considera o espaço como "um conjunto de espaços", que a organização deve distribuir, entre serviços e os operadores. Esta abordagem é qualificada de funcional na medida em que visa uma otimização das dimensões espaciais para os problemas de segurança, produtividade, conforto, etc. A segunda é uma abordagem mais simbólica. Considera o espaço como uma questão social, carregado de uma grande carga emocional, definindo níveis de status e de poder.
Esta classificação permite identificar a natureza e o grau de importância que a empresa destina à organização e os reais significados destes espaços de trabalho, para a produção e para o homem. Depois de muita pesquisa e estudos sobre os espaços de produção, a ergonomia aparece propondo numerosas recomendações sobre as dimensões dos postos de trabalho. Os espaços administrativos são também objetos de interesse, principalmente os espaços destinados aos trabalhos de informática, que aproximam os postos de trabalho administrativos aos de produção.
Os espaços de circulação e espaços de lazer foram considerados durante muito tempo como espaços de "turbulência ou de perturbação", onde seria preciso assegurar uma fiscalização mais efetiva sobre seus usuários.
Nesta perspectiva, Fischer propõe uma análise sob três ângulos. Em primeiro lugar, a arquitetura dos locais de trabalho tem uma função de "caracterizar" a imagem da empresa (as chaminés da indústria, os muros de segurança, a concepção dos acessos, ilustram esta função semiótica), e determina os comportamentos e as atitudes no trabalho. As intervenções são, portanto, possíveis no sentido de intensificar ou retificar uma imagem. Já a análise simbólica privilegia o caráter de "território" do espaço de trabalho. Aparece, desta forma a função social do espaço: áreas restritas ou áreas liberadas, de ação "clandestina", onde os limites não são sempre definidos. Numa visão macro desta função social do espaço, nós podemos enfim analisá-la como uma forma simbólica do poder: mudar-se para o último andar do prédio, ou ocupar uma grande área física, ou ainda obter um escritório mais próximo do big boss, está freqüentemente associado a um cargo de maior importância. Uma função de autoridade vem sempre acompanhada de um remanejamento do espaço de trabalho, que vem significar (inconscientemente) a chegada de um novo poder.
Espaço, se é, portanto, uma característica técnica de situações de trabalho, aparece então fortemente carregado de significados sociais e psicológicos, aos quais será necessário ser tratado com bastante atenção.
Nosso objeto de estudo é a qualidade dos ambientes de trabalho. Estamos relacionando, numa abordagem holística, as características ligadas à influência do meio ambiente e as características psicofisiológicas do trabalhador.
"Os conhecimentos científicos desenvolvidos a partir da neurofisiologia, da teoria da informação, da semiologia, da psicologia da gestalt e da percepção e, mais recentemente, da psicolinguística permitem avaliar de forma extremamente objetiva as exigências sensoriais. Do ponto de vista didático, divide-se a avaliação das exigências sensoriais em duas categorias: a categoria referente às fontes de informações e a categoria referente aos órgãos sensoriais" (Fialho, 1995).
Nosso estudo limita-se à categoria referente aos órgãos sensoriais. Segundo Machado, (in Del Rio, 1996), os sentidos podem ser: sentidos comuns (visão, audição, tato, olfato, paladar) ou sentidos especiais, como o sentido das formas, de harmonia, de equilíbrio, de espaço e de lugar.
Os acontecimentos que nos chegam diretamente, por meio dos sentidos, ocupam apenas uma parte de nosso repertório de conhecimentos. Os outros, os das informações adquiridas de maneira indireta, nos são transmitidos por meio de pessoas, escolas, livros, meios de comunicação, por palavras escritas ou verbais.
Podemos relacionar quatro sentidos comuns a quatro fatores básicos, que, segundo os preceitos ergonômicos (Iida, 1990), interferem na qualidade do meio ambiente e conseqüentemente na saúde física e mental do trabalhador:
Os sentidos oferecem diferentes meios de comunicação entre o mundo e aquele que percebe. Podem-se distinguir duas formas básicas de percepção: autocêntrica (ou centrada no sujeito) e alocêntrica (ou centrada no objeto) (Schachtel, 1959).
A primeira trata daquilo que as pessoas percebem, numa combinação de sensação e de nível de prazer, enquanto que a segunda centra-se na objetivação, na compreensão e na direcionalidade da atenção. Daí a diferença entre os sentidos, já que o paladar, o olfato, o tato, a temperatura e o sentido proprioceptivo são autocêntricos, enquanto que a visão e, em menor proporção, o sentido auditivo são alocêntricos. A distinção é relativa, não absoluta, e o sentido auditivo compartilha características dos demais sistemas: é alocêntrico em relação à fala e autocêntrico em relação ao tom, música e som em geral; inclusive na visão existe autocentricidade com respeito a cor, luz e forma.
Os sentidos autocêntricos são mais físicos, com um forte vínculo com o prazer e o conforto, Através deles, o comportamento tende a controlar-se desde o meio ambiente e não através do conhecimento. Os sentidos alocêntricos são mais intelectuais e espirituais e, nas culturas ocidentais, chegam a ser dominantes, com uma atrofia dos autocêntricos. As percepções autocêntricas são muito mais difíceis de usar em comunicação, pelo que as experiências olfativas, térmicas, do paladar e, inclusive, acústicas são mais difíceis de compartilhar do que as palavras e as formas. Por exemplo, não existem claras correlações entre as experiências autocêntricas e o meio ambiente.
Com exceção do gosto (paladar), o uso dos outros sentidos pode ser emocionalmente importante para o projeto do ambiente de trabalho. O corpo, está imerso no meio ambiente e responde ao seu significado, seu som, seu cheiro, sua textura, sua temperatura e também sua visão.
Em que ambiente construímos nossas vidas? Como o meio nos afeta? O que conhecemos de nossas necessidades como homens civilizados? A agressividade dos ambientes em que vivemos grande parte da vida, nas grandes cidades, nas fábricas, no trânsito, nos torna homens satisfeitos? O que, afinal, consideramos importante? Como podemos explicar a consciência ecológica e o respeito à vida dos chamados selvagens? (referidos no item. 2.4 deste trabalho). Com tantas questões, muitas vezes piegas, mas sem dúvida essenciais para a saúde dos homens, escolhemos aqui conhecer um pouco mais sobre as questões da qualidade do ambiente no qual escolhemos viver.
O ambiente "real" que escolhemos ou construímos para morar, trabalhar e viver a vida reflete, sem dúvida, um pouco da nossa imaginação do "ideal". Sempre que possível, consciente ou não, simbolizamos em nossas escolhas o nosso "ambiente ideal", reflexo de nossa cultura, crenças e experiências de vida. Esquecemos, muitas vezes, de nossas raízes, de nossa origem, parte integrante de um sistema natural. Mas vivemos a frustração deste esquecimento. Quando olhamos as megalópolis de hoje, com seus trânsitos infernais, ruídos, fumaça e desrespeito pelo homem não podemos entender como chegamos a este ponto! Claro, todos conhecemos, cada vez mais, através da mídia, principalmente, o que é saudável para a mente e para o corpo. Mas o corre-corre dos nossos dias não nos dá tempo para pensar sobre onde estamos indo.
O meio ambiente deve ajustar-se aos critérios de qualidade ambiental e ao nível imaginativo dos seus possíveis usuários.
Cada grupo tem a sua imagem do que é um ambiente de qualidade. Por exemplo, existem claras diferenças de cor e de forma. Isto cria dificuldades evidentes, já que usuários e projetistas ou grupos de usuários diversos podem falar de meios de alta qualidade com conteúdos e imagens muito variados (Stagner, 1970).
Todo projeto deve ajustar-se a uma imagem prévia (Werthman, 1968; Eichler & Kaplan, 1967; Rapoport, 1972). Para alguns, a moradia é um refúgio climático; para outros, é antes de mais nada, um símbolo de status social (Pahl, 1988). Para estes últimos, o projeto deve, em primeiro lugar, colocar ênfase no aspecto visual do espaço, mantendo esteticamente as diferenças de estilo de vida, pois esperam ser julgados a partir das suas moradias.
Por outro lado, os elementos do meio ambiente mudam de duas maneiras diferentes, segundo as pessoas que os considerem. Em primeiro lugar, existem diferenças de uso. Em segundo, ainda que o uso seja o mesmo, o significado e o valor implicados podem ser muito diferentes.
A avaliação da qualidade do ambiente é mais uma questão relacionada com uma resposta global e afetiva das pessoas do que com uma interpretação detalhada; é algo mais relacionado com as funções latentes que com as funções manifestas, estando influenciadas muito fortemente pelas imagens ideais.
Existem duas interpretações do conceito de qualidade ambiental:
A preferência e a avaliação ambientais podem ser analisadas de muitas maneiras: através de questionários, do diferencial semântico, da observação, dos estudos sobre a imigração, interpretando culturas e relacionando-as com seu meio. Também pode-se estudá-la através de livros, canções, pinturas, anúncios, etc.
"Todos nós buscamos um meio que satisfaça nossas necessidades básicas: abrigo no qual vivemos e morremos; locais que nos propiciem prazer; lugares que marcaram nosso passado e aos quais está ligado nosso futuro. Os indivíduos, não importa sua posição ou papel social, exigem possuir ou criar suas próprias paisagens" (Bley, in Del Rio, 1996).
As decisões das pessoas se desenvolvem dentro do seu nível de consciência espacial, ou seja, a partir nos lugares dos quais tenham obtido uma experiência ativa, a um nível direto dependendo de um comportamento espacial prévio, e a um nível indireto segundo sua rede social de informação, sempre acontecem com a presença de prejuízos e filtros. Todas estas considerações são aplicáveis a qualquer decisão ambiental, sendo que, ao se projetar novas cidades, bairros, edifícios e espaços diversos, a preferência ambiental deve ser um dos fatores essenciais a considerar (Rapoport, 1989).
Entendemos o meio ambiente humano como o resultado das interações das sociedades humanas, e a avaliação deste ambiente como o resultado da preferência pessoal, determinada pelas suas "verdades".
A crescente corrida em busca do aumento de produtividade das empresas, decorrente da grande competitividade do mercado atual, vem exigindo cada vez mais esforços do trabalhador moderno. Para se adaptar a estas novas exigências, as empresas brasileiras vêm passando por grandes transformações, aumentando cada vez mais a carga mental dos seus trabalhadores e reduzindo seu tempo ocioso. Em sua carga diária de trabalho, o homem fica confinado (pelo menos 9 horas, no caso de indústrias), na grande maioria dos casos em ambientes áridos, sem contato com a natureza.
Em função da nossa realidade capitalista, que valoriza acima de tudo o lucro final imediato, as áreas verdes, de uma forma geral, vêm se destacando como grandes mártires. Pouco se tem plantado, se compararmos com as extensas áreas de vegetação natural que continuam sendo devastadas em todas as partes do planeta, em detrimento do próprio homem.
A importância sempre maior que os "problemas ambientais" vêm apresentando nessas últimas décadas aumentou a necessidade de adquirirmos maiores conhecimentos sobre as relações complexas que regulamentam as conexões do homem com seu ambiente físico.
A construção de áreas verdes ou a conservação da vegetação existente no terreno, no momento da instalação de uma nova empresa, devem ser vistas como benefícios futuros para todos os seres vivos. A importância destas áreas deve ser considerada no momento do planejamento de tais empresas, de forma que possamos tirar partido de todas as possibilidades ecológicas e ergonômicas do uso da vegetação.
Odum (1986) considera em seu estudo que uma proporção de 3:1 ou 5:1 entre ambientes naturais e artificiais são indicadores de suficiência de ambientes de manutenção de vida. Esta proporção deve ser analisada mais profundamente e também possui suas limitações tendo em vista os seguintes aspectos: nível de energia do sistema urbano (a energia dos sistemas urbano-industriais é bem maior que do sistema natural, demandando uma maior área de sistema natural, por exemplo); a dependência das nações mais povoadas de recursos naturais externos, para fornecer alimentos e bens de serviços gerais de manutenção da vida; capacidade de manutenção do ambiente natural pode variar por ordem de grandeza (área desértica tem potencial diferente de um lago não-poluído) (Soares, 1996).
Estes aspectos devem ser incluídos na proposta de planejamento do ambiente, objetivando uma interação dos ambientes naturais com as áreas industriais, usinas, fábricas, residências, entre outros.
"Mesmo os modelos mais simples demonstram claramente que sistemas de alta energia, tais como as cidades, requerem uma abundante sustentação da vida pela natureza. Se não forem preservadas grandes áreas de ambiente natural de forma a fornecer a entrada necessária da natureza, então a qualidade de vida na cidade diminuirá, e a cidade não poderá mais competir economicamente com outras cidades que possuam uma entrada abundante de sustentação da vida (Odum, 1986).
Através também de suas cores, seus aromas e suas infinitas formas, as plantas modelam os ambientes, tornando-os mais harmônicos e agradáveis (Chijiiwa, apud Marx, 1987).
Portanto, a questão das áreas verdes, além de seu caráter biofísico (como um sistema de sustentação da vida), e a partir de um dimensionamento físico mais real, e ainda com uma proporção mais interativa do meio urbanizado com o meio natural, contribui para a melhoria da qualidade do ambiente e conseqüentemente para uma melhor qualidade da vida (Soares, 1996).
4.4. Paisagismo ergonômico
para a melhoria da qualidade do ambiente de trabalho
Os arquitetos estão diariamente envolvidos com as "preferências" dos clientes. Estas preferências variam na mesma intensidade de suas convicções, de que a sua escolha é a melhor, é a mais bonita e a mais "legal". Assim cada pessoa tem o seu gosto, e acredita que o seu "é o bom".
Portanto, como diz a sabedoria popular, "gosto não se discute". Cabe a nós, profissionais, pesquisar e descobrir qual é o "bom gosto" do cliente, definir suas preferências e criar "ambientes de qualidade".
"Qualidade de vida" tem sido uma busca constante no nosso dia-a-dia, inclusive nos ambientes de trabalho. Por que as pessoas associam uma rua arborizada e limpa a um ambiente agradável onde vivem pessoas que "moram bem"? (Rappoport, 1972).
Por que colocamos plantas em nossas vidas, ou ainda por que montamos um pequeno jardim em nossas casas, mesmo que o espaço disponível seja apenas uma "nesguinha de terreno"?
Quanto mais "chic" for o escritório ou a loja, maior e mais bonita será a palmeira bem plantada em um enorme vaso de barro, colocado no espaço mais visível do público. Será que as plantas atraem?
Por que a "Johnsons & Johnsons", aquela empresa que vende produtos "de confiança" (como cotonetes e bandaid), esmera-se na manutenção dos jardins de sua fábrica, visíveis sempre perfeitos e limpos por todas as milhares de pessoas que passam diariamente na rodovia Pres. Dutra (trecho Rio-São Paulo)? Será que a natureza bem tratada está associada com higiene, limpeza, confiança?
Interpretando todas estas questões, consideramos que os ambientes de trabalho devem sugerir interação entre o homem e a natureza. Esta condição é muito rara; o que mais encontramos são ambientes enclausurados em andares de edifícios, ou construídos em espaços completamente áridos.
Estudando o uso de vegetais em áreas internas e em áreas externas, descobrimos que sua função transcende a estética. Os vegetais funcionam de diversas formas melhorando a qualidade dos ambientes e da vida das pessoas, mesmo quando a intenção de seu uso é apenas estética.
Assim, a questão ambiental passa por todo este conhecimento como um quesito-base a ser desenvolvido - o da qualidade de vida dos homens e de todos os seres vivos, garantindo a possibilidade de sobrevida para todos.
O paisagismo é ergonômico quando é projetado em função das necessidades do homem.
4.4.1. A saúde física e psicológica do homem no ambiente de trabalho
A busca desenfreada de "progresso", associada ao aumento da densidade populacional, contribuem a cada dia para que a vida se torne menos natural nas grandes cidades, onde os fatores determinantes da manutenção da salubridade ambiental, muitas vezes, não são considerados (Sanchotene, 1985).
A paisagem definida por uma razão estética não é luxo nem desperdício, mas necessidade absoluta para a vida humana, sem o que a própria civilização perderia sua razão ética (Marx, 1987).
A paixão e a coragem de Burle Marx em fazer tal afirmação nos dá, sem dúvida nenhuma, um impulso novo para desenvolvermos o trabalho do paisagista eco-ergonômico com uma visão holística da questão "ambiente" e "qualidade de vida".
A vida em comunidade deve e tem que ser humanizada, pois, ao lado de outros bens sociais tão necessários, o verde também se destaca como um padrão de civilização. Em um país cujos recursos naturais estão cada vez mais ameaçados, todo e qualquer esforço em preservá-los é uma demonstração de bom senso.
Inspirados mais uma vez em Burle Marx, podemos afirmar que um dos efeitos benéficos mais importantes da vegetação em ambientes de trabalho diz respeito à satisfação psicológica do ser humano. Caminhar sob árvores, sobre gramados, e entre flores, satisfaz o desejo, muitas vezes inconsciente, do "contato com o verde", do elo com a natureza. Remonta ao passado da humanidade, afinal o homem viveu milhares de anos perfeitamente adaptado à vida junto à natureza (Tompkins apud Lorenzi, 1992).
A satisfação psicológica do ser humano tem características pessoais, individuais, e nem sempre objetivas. É comum encontrarmos vasinhos de flores nas mesas de trabalho das secretárias de empresas, por exemplo. É comum também ouvirmos que trabalhar em ambientes onde existam plantas ou jardins é "mais gostoso".
Comprovou-se que a percepção ambiental influencia a própria saúde do homem, cujas evidências foram muito bem resumidas no artigo da psicóloga Ruth Parsons apud Del Rio (1995). Ela mostra que, por um lado, há processos pscicológicos ligados a fatores afetivos e preferências ambientais: paisagens e ambientes naturais, por exemplo, têm efeitos positivos sob a fadiga mental. Sugere-se até que certos tipos de arranjos ambientais despertam respostas emocionais inatas, herdadas de nossa própria evolução genética. Por outro lado, ela discute evidências neuropsicológicas que ligam os estímulos perceptivos a processos fisiológicos, como as respostas ao sistema imunológico.
A contribuição dos ambientes na saúde física dos trabalhadores, a médio prazo, tem sido comprovada por médicos e psicólogos, através da medição de batimentos cardíacos e da pressão arterial.
Podemos afirmar, portanto: é possível criar ambientes saudáveis, internos ou externos, com a implantação de áreas verdes.
Qual o significado real para o homem do contato com a natureza? As plantas e flores são mesmo calmantes? Todos nós já ouvimos alguém dizer que um passeio no jardim é muito relaxante. Cuidar das plantas nem se fala; "é terapêutico", diz o senso comum (Alves, 1933). Mas será que o exercício da jardinagem é apenas, mais uma forma de terapia ocupacional? Quais os "mistérios" que ainda não desvendamos sobre as "forças" da natureza sobre a mente humana? A beleza de forma e colorido das flores são sem dúvida nenhuma, por si só, foco de atração aos nossos corações.
Mesmo que funcione como ornamento por alguns poucos dias, insistimos em comprar ou plantar flores em nossas casas. Acompanhar o desenvolvimento de um vasinho de violetas naturais é muito mais "atraente" para enfeitar as mesas de trabalho do que qualquer outro objeto inanimado.
Por que conviver com o belo faz bem a nossa alma? Ajuda a harmonizar as mentes? No dia 4 de setembro de 1966, foi publicado na edição nacional, da Folha de São Paulo uma reportagem muito especial, com o seguinte título:
"Os americanos descobrem nova arma contra o crime: jardins de flores."
Nascida em Los Angeles e agora aplicada em Nova York, a idéia está no elenco de projetos comunitários que conseguem reverter a violência entre jovens. A queda da delinqüência juvenil é um dos fenômenos mais festejados no país, onde a criminalidade virou tema central da sucessão presidencial, no ano passado.
A idéia é simples e genial. O bairro escolhe terrenos abandonados, muitas vezes usados por gangues e traficantes. Ali, criam um jardim-laboratório, onde jovens, quase todos desempregados e péssimos alunos, aprendem a cultivar flores.
Os jardins têm múltiplas conseqüências: afastam as gangues e transmitem a sensação de ordem ao bairro, revitalizado com áreas de lazer.
Ao mesmo tempo, propiciam salário e uma profissão aos jovens, que passam de ameaça à segurança para respeitáveis cidadãos que embelezam o bairro.
Essa transição, segundo Gilbert Dimenstein, autor da reportagem, "tem um toque mágico para a auto-estima dos adolescentes: as sementes fazem deles jardineiros de si próprios".
Ora, a redução da delinqüência juvenil é, sem dúvida, uma boa razão para se plantar flores. Mas é interessante também pesquisarmos mais um pouco o significado das coisas. "Os jardins transmitem a sensação de ordem ao bairro."
Numa visão holística do problema "ambiente', confirmamos então que as "sensações", apesar de subjetivas, são uma resposta verdadeira do ser humano aos estímulos recebidos, inclusive na experimentação do ambiente.
O contato com a natureza também transmite "sensações" de diversos tipos. Não conhecemos profundamente as energias causadoras destas sensações (chamadas de energias telúricas), mas já é possível medir, com o auxílio de aparelhos eletromagnéticos, a intensidade de tais energias.
Sabe-se que as energias existem de 3 formas (Vieira, 1990):
Ambientes de trabalho onde a carga de exigência
mental e o nível de tensão são muito altos geram uma
energia carregada de íons positivos (Donsbach, 1981), que são
comprovadamente nocivos à saúde dos homens. Este campo energético
pode ser modificado com a contribuição das plantas, que atraem
íons negativos (benéficos à saúde do homem).
4.4.3. Os íons negativos e a vegetação
Eymour M. Farber, M.D., vice-chanceler da escola de medicina da Universidade da Califórnia em São Francisco, manteve um ionizador de ar no hospital, ao lado de sua cama, enquanto se recuperava de uma cirurgia de abdome, na primavera de 1980. Ele declarou que a sua rápida recuperação foi decorrente de ter sido exposto aos íons negativos.
John Marino, um conhecido ciclista norte-americano, recentemente equipou sua bicicleta com um ionizador de ar carregado por uma bateria, e conseguiu quebrar o recorde do circuito ciclístico para o percurso Califórnia-Nova Iorque.
Várias empresas, tais como a Philco, a General Eletric e a Westinghouse, estão investindo milhares de dólares em pesquisas, para criar um aparelho controlador de íons nos sistemas de condicionamento de ar.
Os íons estão flutuando no ar a nossa volta, todo o tempo (Donsbach, 1981). Existem tanto íons negativos quanto íons positivos. As mudanças na concentração ou na polaridade destas moléculas podem acarretar extraordinários efeitos sobre as plantas e animais. A ciência comprova que a mudança na concentração destes íons pode provocar problemas de saúde, tanto físicos como mentais.
Os íons do ar são muito importantes para nós, porque podem causar mudanças em nossos sentimentos. Uma grande proporção de íons negativos no ar gera sensações de entusiasmo e ânimo. Muitos íons positivos nos ambientes podem causar depressão, angústia, letargia, dores de cabeça e stress.
Ambientes internos com condicionamento de ar e tapetes sintéticos no piso estão sempre carregados com íons positivos. Iluminação fluorescente, materiais plásticos, televisores, vídeos, etc. também são emissores destes íons que prejudicam a nossa saúde. Quando os barômetros indicam uma tempestade de vento a caminho, devemos nos proteger, pois a atmosfera certamente está carregada de "posions" (íons positivos). Por isso, nestes dias, dizemos com freqüência que "hoje o ar está carregado".
As pessoas que trabalham em ambientes externos, junto a áreas verdes, levam vantagem sobre as que trabalham em ambientes confinados. As plantas têm a capacidade de atrair para si íons saudáveis, os íons negativos. As florestas e as montanhas são verdadeiras fontes de "negions" (íons negativos). Os pinheiros e as árvores em contato com o campo elétrico da atmosfera são geradores de íons negativos.
O Dr. Ph.D. Kurt W. Donsbach, especialista em nutrição, recomenda que, para criarmos ambientes saudáveis, devemos usar materiais naturais, como madeira, pedra, e todos os encontrados na natureza. Diz ainda: "cerquem-se de plantas naturais". Segundo ele, plantas em crescimento e viçosas (principalmente as pontudas como samambaias, etc.) estão sempre carregadas de íons negativos (Donsbach, 1981).
A eco-ergonomia (Fialho; Dos Santos, 1995) é uma conseqüência natural do desenvolvimento da ergonomia, a partir de um tecnocentrismo inicial, baseado na antropometria e daí evoluindo para um antropocentrismo, com os resultados de Hendrick (1987) e Wisner (1994), até incorporar o meio ambiente, numa visão bio-centrada.
Dentro da abordagem eco-ergonômica, o ambiente não é considerado como um simples dado exterior ao qual o organismo deve se adaptar. É erro concebê-lo como um nicho ecológico não especificável, independente da estratégia desenvolvida pelo organismo para o habitar. Dizendo de outra forma, "nicho" e "organismo" são constituídos. Por conseguinte, ao qualificar o domínio de viabilidade do organismo como seu domínio cognitivo, deparamo-nos, sem dificuldades, com uma ontologia em que a separabilidade do objeto e do sujeito não é possível de ser efetuada. O homem se integra ao espaço em que habita, influencia e é influenciado por ele.
O cognitivismo, parte indispensável ao raciocínio eco-ergonômico, pretende explicar o porquê de comportamentos, criando mecanismos capazes de prever a sua dinâmica.
Os elementos arquiteturais deveriam ser suficientemente flexíveis para acompanhar essa dinâmica. Quando se concebe um ambiente, projeta-se uma obra que deve se adaptar às mudanças temporais, às quais coisas e pessoas estão irremediavelmente sujeitas.