5  ERGONOMIA
 

Em 1959, a recomendação n0 112, da OIT - Organização Internacional do Trabalho, dedica-se aos serviços de Saúde Ocupacional definidos como serviços médicos instalados em um local de trabalho ou suas proximidades, com as seguintes finalidades :

Nessa conceituação de serviços de Saúde Ocupacional, verifica-se a presença do conceito de ergonomia : adaptação do trabalho ao homem.

Em 1960, a OIT - Organização Internacional do Trabalho, define ergonomia como sendo a " aplicação das ciências biológicas conjuntamente com as ciências da engenharia para lograr o ótimo ajustamento do homem ao seu trabalho, e assegurar, simultaneamente, eficiência e bem-estar" ( MIRANDA,1980).

Para LAVILLE ( 1977), a ergonomia é definida como sendo : " o conjunto de conhecimentos a respeito do desempenho do homem em atividade, a fim de aplicá-los à concepção das tarefas, dos instrumentos, das máquinas e dos sistemas de produção".

WISNER (1987), assim se coloca : a ergonomia constitui o conjunto de conhecimentos científicos relativos ao homem e necessários para a concepção de ferramentas, máquinas e dispositivos que possam ser utilizados com o máximo de conforto, segurança e eficácia.

VIDAL( 1994), assim define ergonomia : " é a disciplina que se preocupa com a reestruturação do trabalho, buscando conciliar a atividade produtiva - ditame da subsistência - à vida - ditame da sobrevivência. Neste sentido ela é uma das disciplinas que estuda as pessoas no trabalho e um referencial para uma das dimensões da Engenharia, a Engenharia do Trabalho".

5.1 - AS GERAÇÕES DA ERGONOMIA

A ergonomia, ao longo do tempo, tem evoluído, evidentemente, acompanhando a evolução da organização do trabalho e as inovações tecnológicas.

A ergonomia evoluiu dos esforços do homem em adaptar ferramentas, armas e utensílios às suas necessidades e características. Porém, é a partir da Revolução Industrial, que propiciou o surgimento da fábrica e a intensificação do trabalho, que a ergonomia vai encontrar sua maior aplicação ( TAVEIRA FILHO, 1993).

5.1.1 - A PRIMEIRA GERAÇÃO DA ERGONOMIA : A INTERFACE HOMEM-MÁQUINA

O primeiro estágio histórico da ergonomia estabeleceu-se à partir da II Guerra Mundial, principalmente com o projeto ergonômico de estações de trabalho industriais na Europa e no Japão ( reconstrução do pós guerra), e na indústria aeroespacial dos Estados Unidos.

Rapidamente, a ergonomia se expandiu até alcançar, também, os sistemas de transporte, os produtos de consumo, aspectos de segurança, etc.

Esta primeira geração da ergonomia enfocou o projeto das interfaces HOMEM- MÁQUINA, que incluíram os comandos e controles, displays, arranjos do espaço de trabalho e o ambiente físico do trabalho. A grande maioria das pesquisas enfocava as características físicas perceptuais do homem e a aplicação destes conhecimentos no projeto de máquinas e equipamentos. Por esta razão, este primeiro estágio foi considerado o estágio da ergonomia física e denominado " tecnologia da interface HOMEM- MÁQUINA" ( HENDRICK,1986 ).

Ao se referir ao sistema HOMEM- MÁQUINA de TIFFIN e MCCORMICK, VIDAL (1994), assim se coloca : " neste cenário, dois psicólogos americanos propõem um tratamento sistêmico para a Ergonomia onde todos podem se enxergar: a ergonomia seria a ciência de sistemas homens- máquinas. Sua idéia era de considerar tanto o ser humano quanto as máquinas industriais domínios de disciplinas distintas da ergonomia : as ciências do homem individual e a engenharia de máquinas.

Neste sentido eram problemas que não caberiam na episteme desta disciplina nascente. Esta teoria um domínio bem definido, a zona de relacionamento entre o ser humano e seus objetos e instrumentos de trabalho, não importando a forma ou instância desse relacionamento. Advogando por uma sociedade futurista e acreditando no mito da eliminação do trabalho dito manual, eles colocam...." os anos recentes e particularmente os da Segunda Grande Guerra produziram um crescimento bastante sensível do número de pesquisas aplicadas ao problema da concepção de máquinas visando uma melhor utilização pelo ser humano. O termo americano Engenharia de Fatores Humanos aparece para designar o estudo e a realização das máquinas, dos postos de trabalho e mesmo dos ambientes que possam corresponder às capacidades e limites do homem. A finalidade da Ergonomia[ neste paradigma] é, portanto, de conceber equipamentos, ritmos e ambientes de trabalho que possam facilitar ao processos de informação, de decisão e de execução para obter um rendimento máximo do conjunto do sistema HOMEM- MÄQUINA.

(.....) o modelo de sistema homem-máquina se aplica a um reduzido número de situações de trabalho onde o campo da atividade humana se resume a um conjunto de ações sobre as interfaces de um processo produtivo; no entanto não se presta para descrever atividades onde o objeto de trabalho é parte essencial no desenvolver da atividade( VIDAL, 1994).

5.1.2 - A SEGUNDA GERAÇÃO DA ERGONOMIA: INTERFACE USUÁRIO-SISTEMA

Num segundo momento evolutivo da ergonomia ocorre uma mudança na preocupação central do aspecto do homem, deixa-se de ter como ponto principal os aspectos físicos e perceptuais do trabalho e passa-se para a sua natureza cognitiva, esta alteração se reflete em decorrência de uma presença mais intensiva de sistemas computacionais no meio de trabalho e, consequentemente, o uso de processamento de informação tornou-se uma preocupação central (TAVEIRA FILHO,1993).

As ciências cognitivas(inteligência natural) e a inteligência artificial começaram a ser estudadas, mais ou menos ao mesmo tempo, aos fins dos anos 50. Formalismos, ferramentas e programas são as três áreas de desenvolvimento em inteligência artificial. O casamento da Psicologia Cognitiva com a inteligência artificial permitiu que diversos desses formalismos relativos à representação do conhecimento em mecanismos inerentes ao processo relativo à aquisição desses conhecimentos fossem utilizados como Modelo Teórico para a psicologia ( SANTOS,1991).

Este segundo estágio é considerado, então, o estágio da ergonomia de software e denominado estágio da " tecnologia de interfaces usuário- sistema". Importantes contribuições na melhoria e no desenvolvimento de produtos e sistemas tem sido alcançados com este enfoque, que como primeiro continua a ter grande aplicação atualmente ( HENDRICK,1991a).

5.1.3 - A TERCEIRA GERAÇÃO DA ERGONOMIA : INTERFACE ORGANIZAÇÃO - HOMEM - MÁQUINA

A terceira geração da ergonomia, isto é, a macroergonomia surge devido às constantes mudanças decorrentes da organização do trabalho e pelo desenvolvimento tecnológico, e se caracteriza pela aplicação de conhecimentos sobre pessoas e organizações ao projeto, implementação e uso de tecnologia ( TAVEIRA FILHO,1993).

Para HENDRICK (1987a), a tecnologia da ergonomia é a tecnologia da interface MOMEM-SISTEMA, isto é, enquanto ciência a ergonomia lida com as capacidades humanas e em como esses fatores se relacionam com o projeto das interfaces entre as pessoas e os demais componentes do sistema.

"Esta terceira geração vem em resposta a importantes mudanças que estão afetando o trabalho do homem, particularmente com relação a : 1) tecnologia( o rápido desenvolvimento de novas tecnologia nas indústrias de computadores e das telecomunicações afetará profundamente a organização do trabalho e as interfaces homem-máquina 2) mudanças demográficas( aumento da idade média da população e a extensão da vida produtiva dos trabalhadores levando a um contexto de trabalhadores mais experientes, melhor preparados e profissionalizados, exigindo organizações menos formalizadas e processos de tomada de tomada de decisão mais descentralizados 3) mudanças de valores( trabalhadores atualmente valorizam e esperam ter um maior controle sobre o planejamento e execução do seu trabalho, maior responsabilidade de tomada de decisão e tarefas mais largamente definidas, de forma a permitir maior senso de responsabilidade e realização e 4) aumento da competitividade mundial( a sobrevivência de qualquer grande empresa no futuro dependerá da eficiência de operação e a produção de produtos de qualidade ( HENDRICK,1993b).

Para BROWN JR (1990) : " a macroergonomia entende as organizações como sistemas sócio-técnicos e incorpora conceitos e procedimentos da teoria dos sistemas sócio-técnicos ao campo da ergonomia".

A macroergonomia, portanto, entendendo as organizações como sistemas abertos, em permanente interação com o ambiente e evidentemente, passando por processos de adaptação e, ao mesmo tempo, passíveis de apresentar disfunções organizacionais, que se refletem nas suas performances e muito particularmente, no subsistema social , através da metodologia própria da ergonomia - a análise ergonômica do trabalho - desenvolve a análise do trabalho, e promove o tratamento da interface MÁQUINA - HOMEM - ORGANIZAÇÃO.

5.2 - A ERGONOMIA PARTICIPATIVA

A ergonomia participativa propicia uma perspectiva na macroergonomia.

O termo foi originalmente proposto pelos pesquisadores KAGEYU NORO e ANDREW IMADA, em 1994 e, desde então, tem se firmado como " a nova tecnologia para disseminação da ergonomia" ( NORO, 1991).

Tem sido, também, considerada como a abordagem mais apropriada e mais aplicada dentro do contexto da macroergonomia ( BROWN, 1993).

O processo participativo inclui quatro áreas específicas : declaração de objetivos, tomada de decisões, solução de problemas e planejamento, e condução das mudanças organizacionais ( SASHKIN, 1986).

A participação do trabalhador tem tido uma grande diversidade de significados, formas e motivos no curso do século vinte. Muitos termos diferentes são usados para descrever - ou prescrever - o envolvimento ativo do trabalhador na tomada de decisão no trabalho : participação do trabalhador, democracia industrial, controle dos trabalhadores, auto-gerenciamento, democracia no local de trabalho, co-determinação, envolvimento dos empregados, qualidade de vida no trabalho. Esta diversidade reflete não somente períodos históricos, tradições nacionais ou teorias acadêmicas, mas a realidade do conflito e significado, discutidos sobre a natureza do trabalho, a distribuição do poder e, muito freqüentemente, o futuro da própria sociedade industrial ( SIRIANI, 1987).

Em sua evolução conceitual, verifica-se que a ergonomia, hoje, se constitui numa ferramenta de gestão empresarial. De nada adianta a certificação de processos e produtos, se não se consegue certificar sentimentos, crenças, hábitos, costumes, isto é, certificar o homem. Uma das formas de compatibilizar os sistemas técnico e social, é evidentemente, o que preceitua a ergonomia : a visão antropocêntrica.

O centro das atenções no homem, isto é, a antropocentricidade da Ergonomia, favorece não só mudanças organizacionais, como também alavanca mudanças no conceito de produtividade, este sendo visto à partir da qualidade de vida no trabalho, observando, dentre outros parâmetros : a participação do trabalhador, a liberdade para a criação e a valorização do saber fazer.

5.3 - ANÁLISE ERGONÔMICA DO TRABALHO

SANTOS (1995), propõe para o desenvolvimento da análise ergonômica do trabalho, uma abordagem metodológica, composta de três grandes etapas.

A primeira etapa consiste numa análise das referencias bibliográficas sobre o homem em atividade de trabalho, como também a respeito do objeto do estudo a ser desenvolvido. Deve-se consultar as revistas e periódicos especializados, os livros- textos publicados mais recentemente, assim como relatórios de trabalhos de intervenção realizados em situações próximas ou análogas àquela que será abordada.

A segunda etapa consiste na análise ergonômica do trabalho, propriamente dita, e é constituída de três fases : análise da demanda, análise da tarefa e análise das atividades.

Numa primeira fase é realizada a análise da demanda, cujo objetivo é definir o problema a ser estudado, a partir de uma negociação com os diversos atores sociais( individuais e coletivos) envolvidos. Nesta fase, os primeiros dados da situação de trabalho são levantados, permitindo a formulação das hipóteses de primeiro nível( hipóteses preliminares), a serem consideradas na realização do estudo : tipo de tecnologia utilizada, organização do trabalho implantada, principais características da mão -de -obra disponível, principais aspectos sócio- econômicos da empresa e, enfim, os diversos pontos de vista a respeito do problema formulado pela demanda.

Na terceira fase desta segunda etapa, é realizada a análise das atividades desenvolvidas pelos trabalhadores, face às condições e aos meios que lhe são colocados à disposição. Trata-se da análise dos comportamentos de trabalho : posturas, ações, gestos, comunicações, direção do olhar, movimentos, verbalizações, raciocínios, estratégias, resoluções de problemas, modos operativos, enfim, tudo que pode ser observado ou inferido das condutas dos indivíduos. Os dados assim obtidos poderão ser confrontados com os das fases precedentes, comprovando as hipóteses anteriormente formuladas ou, ainda, permitindo a formulação de novas hipóteses, para a elaboração de um pré-diagnóstico da situação de trabalho analisada.

A terceira etapa consiste na síntese ergonômica do trabalho. Esta etapa é dividida em duas fases : o estabelecimento do diagnóstico da situação de trabalho e a elaboração do caderno de encargos de recomendações ergonômicas.

Na primeira fase, todos os dados levantados na análise ergonômica do trabalho são reagrupados, confrontados uns com os outros, sintetizados e interpretados na forma de sintomas. É, somente neste estágio, que as conclusões podem se tiradas e um diagnóstico estabelecido.

Finalmente, na segunda fase, pode-se elaborar um caderno de encargos de recomendações ergonômicas, baseado em dados ergonômicos normativos gerais e dados ergonômicos específicos da situação de trabalho analisada.

Wisner, coloca que ao desenvolver a análise do trabalho, o ergonomista tem contato com a situação técnica, econômica e social da empresa, como também com o sistema de produção. Todo comportamento é verificado, seja ele um comportamento referente à ação (controle do sistema), observação ou, comunicação (Wisner,1994).

Evidentemente, se previamente, o ergonomista conhecer as disfunções organizacionais provocadas pelo desequilíbrio existente entre os fatores ambientais externos à organização e os fatores internos a esta, tornará a análise do trabalho mais rica e qualificada, pois que terá à sua disposição dados valiosos a respeito da interação desta organização com o ambiente e que serão levantados através do estudo da sua biografia.

O estudo da biografia de uma organização, portanto, como uma fase que antecede à análise ergonômica do trabalho, consubstancia e consolida os conceitos da terceira geração da ergonomia - a macroergonomia - propostos por Hendrick (1987), que incluiu a organização e formação no objeto de estudo da ergonomia.

A detecção das disfunções organizacionais, portanto, que aparece na literatura especializada como um processo de análise organizacional, não deixa de ser, todavia , um procedimento de apoio ao ergonomista, e que qualifica e otimiza a análise ergonômica do trabalho, na medida em que propicia o entendimento mais preciso da interação HOMEM - SISTEMA.