4 AMBIENTE DE APRENDIZAGEM APOIADO EM TECNOLOGIA HIPERMÍDIA

4.1 Introdução

Cada vez mais se constata que o mercado procura por profissionais experientes com capacidade de ajustar-se a situações novas, colocando-se em segundo plano o diploma fornecido pelas entidades de ensino tradicionais.

"As características do mercado estão mudando. A produção industrial até então dedicada à produção em série, volta-se para atender pequenos segmentos de mercado e em pequenas quantidades. As crises, o crescimento lento e o mercado seletivo e minoritário gera nas empresas a necessidade de melhorar a qualidade e reduzir gastos com a fabricação e a opção por uma estrutura leve, flexível e ágil, exigindo profissionais com capacidade de atender à contínua mudança nos produtos e nos processos". (Machado, L. R. S,1995)

A situação da educação não é um fato isolado nesse processo. Toda sociedade está sofrendo bruscas transformações, refletidas na rápida absolescência dos conhecimentos. A escola precisa ajustar-se às novas exigências.

Pierre Levy, referindo-se à velocidade da renovação do saber e do saber fazer, cita que que pela primeira vez na história da humanidade, a maior parte dos conhecimentos adquiridos por uma pessoa no início de sua vida profissional, serão obsoletos ao final da sua carreira. Outra observação, estreitamente ligada à primeira, refere-se à nova natureza do trabalho. Cada vez mais trabalhar é aprender, transmitir e produzir conhecimentos.

A formação de profissionais adaptados as bruscas transformações da sociedade exige que alunos e professores sejam flexíveis para se ajustarem à nova dinâmica. As metodologias empregadas no ensino precisam priorizar a construção do conhecimento, única forma de dar ao aluno capacidade de se ajustar às características do mercado de trabalho atual.

Um ambiente de aprendizagem, na nossa concepção, deve permitir com que o aluno construa seus próprios conhecimentos a partir da sua visão empírica. Para que isso seja possível, ele não pode mistificar o conhecimento do professor ou se considerar incapaz de assimilar as informações contidas em um programa em hipermídia.

Como já citamos, esta dissertação propõe a elaboração de programas elaborados em hipermídia com o objetivo de criar um "Ambiente Gerador de Questionamentos". Esse ambiente deve ter característica aberta e pouco estruturada, não deve ter característica de programas de treinamento, mas buscar despertar no aluno o interesse pelo conteúdo sugerido.

Esse software, embora tenha um planejamento que julgamos necessário, por ser esse programa voltado para preparar o profissional para o mercado de trabalho, não pode ter um controle rígido sobre a próxima etapa que o aluno deverá percorrer. Por não apresentar respostas, esse programa remete o questionamento do aluno aos colegas, professores, com o objetivo de rever e fundamentar os conhecimentos de todos os envolvidos no processo de ensino-aprendizagem.

Continuando a fundamentação desse ambiente, trataremos a seguir mais alguns fundamentos teóricos.

4.2 A Contribuição de Paulo Freire

No trabalho de Paulo Freire encontramos subsídios fundamentais que contribuíram decisivamente para a elaboração do "Ambiente Gerador de Questionamentos" com as características que buscamos, conforme tratado do item apresentação desta dissertação, ou seja, ambientes de aprendizagem abertos voltados para a formação profissional de nível secundário.

A seguir, procuraremos mostrar as características desse ambiente, apoiado nos esforços de Paulo Freire.

Freire coloca o aluno no centro das atenções, como colaborador ativo dentro de todo o processo educacional.

Sabemos que isso não é fácil de se aplicar dentro da estrutura atual de ensino onde o conhecimento é apresentado de forma segmentada e desvinculada da vida do aluno, resultando, como já citado na apresentação desta dissertação, em uma formação profissional que restringe sua capacidade de enfrentar novas realidades e ajustar-se à dinâmica do mercado de trabalho atual.

Quando planejamos o AGQ, tencionamos dar uma contribuição nessa questão, lançando mão dos recursos de HCI combinados com conhecimentos de educação e cognição, implementados dentro dos recursos hipermídia disponíveis na tecnologia atual.

Freire diz que o homem é um ser da práxis, podendo atuar e transformar o mundo em que vive. E quando essa vocação ontológica lhe é negada, surge o que chama de homem-objeto.

Para que um produto multimídia possibilite que o aluno seja o condutor do próprio processo de aprendizagem, e que a educação seja libertadora, segundo as idéias de Freire, o programa deverá possuir as seguintes características: 

    1. adaptando a idéia do "relacionamento horizontal entre professores e alunos", o produto multimídia não pode mistificar o conhecimento através das informações que disponibiliza, o que permite dizer que não pode ser sistematizado, segmentado ou apresentado em uma linguagem inadequada ao nível de ilustração do aluno. Para um produto hipermídia, este relacionamento horizontal envolve também a aplicação dos conceitos de interação homem-computador (HCI), explorada no capítulo 2 desta dissertação;
    1. o conteúdo que será tratado no programa multimídia deve resultar do diálogo entre educadores profissionais com experiência técnica na área, empresários, e do aluno que o utilizará. O conteúdo do software deve ser elaborado com a participação dos alunos, através da investigação do universo temático dos educandos e do conjunto dos temas geradores do conteúdo. Os temas de interesse são aqueles que pertencem a sua cultura;
    1. deve permitir o diálogo para que seja possível promover a problematização e tornar possível a tomada de consciência do aluno sobre os temas abordados. Neste trabalho, esta etapa não está sendo atendida dentro do software, devendo portanto ser complementada em sala de aula;
    1. o software não deve previlegiar a quantidade em detrimento da qualidade. Será através da qualidade que o produto multimídia capacitará os alunos a transformarem o mundo.
No capítulo 5 estaremos tratando sobre a forma como implementamos essas idéias aqui apresentadas.

4.3 A aprendizagem

A relação de conhecimento pode ser entendida como sendo a relação de um sujeito cognoscente com um objeto cognoscível. Dessa relação, resulta uma representação mental do sujeito sobre o objeto. Conhecer é uma atividade que exige esforço. A realidade não revela sua ordem diretamente. (Vasconcelos, 1996)

Segundo H. Wallon (apud Vasconcelos, 1996), conhecer é substituir essa mistura de confusão e de dissociação, que é a representação puramente concreta das coisas, pelo mundo de relações.

Celso Vasconcelos apresenta um quadro com as contribuições da psicologia cognitiva e da espistemologia dialética para a construção do conhecimento:

  1. condição necessária para conhecer:
  • O sujeito precisa "querer", sentir necessidade;
  • O sujeito precisa ter estrutura de assimilação para aquele objeto (quadro conceitual correlato); precisa ter certos conhecimentos anteriores relacionados aos novos;
    1. o conhecimento novo se constrói a partir do anterior/prévio/antigo (seja para ampliar ou negar, superando);
    1. o conhecimento conceitual (em particular o científico e o filosófico) é construído a partir da linguagem verbal;
    1. o conhecimento é estabelecido no sujeito por sua ação sobre o objeto;
    1. essa ação pode ser, em termos predominantes, motora, perceptiva ou reflexiva;
    1. dois sujeitos podem estar fazendo a mesma atividade - exemplo: ouvindo o professor, mas com graus de interação com o objeto de estudo bastante diferentes;
    1. o processo de construção do conhecimento no sujeito passa por "momentos": Síncrese, Análise e Síntese. Há um movimento: empírico => abstrato (mediação) => concreto;
    1. o conhecimento não se dá de uma vez (não é linear), mas por aproximações sucessivas (sínteses em níveis cada vez mais elevados).
    2. para poder captar as relações de constituição do objeto, o sujeito precisa analisá-lo, o que significa dizer que deve 'decompô-lo' em suas partes constituintes. No processo de análise, o sujeito precisa ir além da aparência;
    1. diante de situações problematizadoras, o sujeito elabora hipóteses explicativas.

    4.4 A sala de aula

    A autonomia é um dos componentes que estamos buscando através deste trabalho em hipermídia.

    Entendemos por autonomia como sendo um dos elementos importantes para que o aluno assuma o controle da sua formação. Essa autonomia, no nosso modo de entender, não descarta necessáriamente o ambiente da sala de aula.

    A sala de aula a que nos referimos não é necessariamente a tradicional. Esse novo ambiente não precisa ser um ambiente de presença obrigatória, podendo ser um local onde se misture o virtual com o real, onde alunos, professores possam estar virtualmente ou fisicamente presentes.

    A sala do futuro poderá ser um local com características mistas, onde exista uma troca contínua entre professores e alunos.

    Celso Vasconcelos (1996) conceitua a sala de aula como um ambiente onde o professor leciona conteúdos, passa posições políticas, ideológicas, transmite e recebe afetos e valores. A escola é um meio já consagrado onde se cultiva ou dever-se-ia cultivar conhecimentos que proporcionassem atingir tais aspirações.

    Mas o que se constata é que a escola ainda não atingiu os objetivos de transformar a realidade individual e coletiva a que se propõe, através da apropriação por parte dos educandos do conhecimento fundamental acumulado pela humanidade.

    O trabalho com o conhecimento é o processo de apropriação e construção do conhecimento, envolvendo basicamente o que se consagrou chamar por Conteúdo e Metodologia. Através dele, desenvolve-se uma nova concepção do mundo que entra em luta contra as concepções folclóricas.

    Celso Vasconcelos (1996) também coloca que o problema metodológico não é problema de uma escola, curso ou professor; ao contrário, é um problema que perpassa todo o sistema educacional, uma vez que é longa a tradição de um ensino passivo, desvinculado da vida.

    4.5 Aprendizagem no ensino tradicional

    A metodologia que predomina em sala de aula é expositiva, que se caracteriza pela apresentação sistematizada dos conteúdos pelo professor e repassada de forma linear aos alunos.

    As elegantes sínteses materializadas através das equações e enunciados dão origem a um distanciamento entre professor e aluno. Como geralmente o aluno não tem condições de acompanhar e reproduzir todo o processo de construção do conhecimento realizado pelo professor, costuma mistificar a sabedoria do mestre. Dessa forma o aluno fica intimidado a questionar, limitando-se a memorizar os conteúdos e permanecendo passivo no processo.

    Para o professor com uma formação acadêmica linear e segmentada, é normal que tenda a reproduzir esses procedimentos, continuando a dar ênfase na memorização e a perpetuar a postura transmissor do conhecimento.

    A metodologia expositiva, segundo Celso Vasconcelos (1996), tem inspiração teórica na chamada concepção tradicional de educação que, por sua vez, tem suas raízes na concepção clássica (antigüidade) ou escolástica (Idade Média).

    "Na metodologia expositiva o aluno recebe tudo pronto, não problematiza, não é solicitado a fazer relação com aquilo que já conhece ou a questionar a lógica interna do que está recebendo, e acaba se acomodando. A prática tradicional é caracterizada pelo ensino "blá-blá-blante", salivante, sem sentido para o educando, meramente transmissora, passiva, a-crítica, desvinculada da realidade, descontextualizada."(Vasconcelos, 1996)

    Como o aluno não questiona o professor e não questiona o seu próprio entendimento, não amplia ou reformula seus conhecimentos, limitando-se a memorizar a apresentação do professor. Com o educando geralmente preocupado apenas com a avaliação, a comunicação se for possível defini-la assim, fica restrita ao interesse de conhecer como o professor vê a questão, sem a preocupação com a ampliação do próprio conhecimento e sem condições de conectar o que aprendeu com outras situações da vida prática. E isto é inconcebível para um curso técnico, que visa à capacitação de profissionais para a atuação imediata no mercado de trabalho.

    4.6 Aprendizagem aberta

    No processo da construção do conhecimento o sujeito cognoscente percorre um caminho iniciado pela síncrese. Com o desiquilíbrio provocado pelo professor, o aluno entra numa etapa que envolve a análise e síntese, levando-o a um estágio superior de conhecimento.

    J.C.LIBANEO (Democratização da Escola Pública, p.145) apresenta que a construção do conhecimento se dá ao se percorrerem três etapas: Síncrese, Análise e Síntese. "A síncrese corresponde à visão global indeterminada, confusa, fragmentada da realidade; a análise consiste no desdobramento da realidade em seus elementos, a parte como parte do todo; a síntese é o resultado da integração de todos os conhecimentos parciais num todo orgânico e lógico, resultando em novas formas de ação'.

    O aluno quando chega à escola já traz um conhecimento baseado em suas experiências anteriores. Sobre esse conhecimento informal e fragmentado (sincrético) deverá trabalhar o professor com o aluno. Mas esse deverá ser apenas um ponto de partida.

    Quando usamos o conceito "aprendizagem aberta" estamos querendo dizer que , apesar da estrutura educacional que impõe um conteúdo programático e avaliações com o objetivo de quantificar a aprendizagem, é possível atribuir uma maior autonomia ao aluno, na medida em que o professor respeite a individualidade na aprendizagem, colocando-se apenas como um colaborador do processo.

    Para levar o educando a interagir, comunicar-se com o professor e colegas, é necessário que se sinta motivado pelo objeto de estudo. Na metodologia expositiva, considera-se que quem motiva o aluno é o professor, enquanto que na metodologia dialética a motivação é vista como intrínseca ao aluno.

    Na metodologia dialética o professor assume a função de coordenador do processo de aprendizagem. Fica a seu encargo a tarefa de desencadear e de provocar o interesse do aluno. Deverá agir como facilitador das relações e problematizador das situações. Para cumprir com esse propósito o professor precisa conhecer a realidade social do conjunto de alunos. (Vasconcelos, 1996)

    Os questionamentos que o professor e aluno façam dentro deste contexto social, tendo-se como partida o conhecimento sincrético dos alunos, desperta o interesse do sujeito em rever sua posição preliminar, dando início à construção do conhecimento. Esta é fase da análise, onde professor e alunos, através da elaboração das múltiplas relações de significados, cada vez mais ampla e completa, vão se aproximando um pouco mais da realidade.

    O método dialético em sala de aula consiste na construção do conhecimento a partir de informações desconexas, até um pensamento organizado e coerente (op. cit., 1996).

    Do sucesso deste trabalho, depende em muito o conhecimento do professor, da clareza que tenha de onde quer chegar e da carga afetiva envolvida. "Para aprender, a pessoa precisa querer, ou de forma mais precisa, deve sentir necessidade."(op.cit., 1996)

    Segundo Vasconcelos, o educando, em sala de aula, vai construir o seu conhecimento fazendo o percurso da Síncrese para a Síntese pela mediação da análise, uma vez que este é o caminho geral de construção do conhecimento. Para auxiliar ao aluno nesse percurso, o professor precisa usar uma metodologia pedagógica coerente com essa concepção dialética, qual seja, através da Mobilização (despertar o interesse do aluno), Construção e Elaboração e Expressão do conhecimento.

    Esse processo não deve restringir-se apenas para dar partida ao processo de aprendizagem, mas "deve desenvolver no aluno a responsabilidade pela construção autônoma do seu conhecimento. Essa autonomia é uma das importantes metas do trabalho educativo".(Vasconcelos,1996)

    4.7 Hipermídia na sala de aula

    Jan Hawkins (Ver. TB, Rio de Janeiro, 120;1995) apresenta que o Center for Children & Education Development Center, em Nova York, tem realizado pesquisas sobre como as pessoas pensam e aprendem e como as tecnologias podem ajudar nesse processo. Buscam saber como a televisão, o vídeo, os microcomputadores com acesso a bibliotecas, banco de dados, museus via Internet podem ajudar a gerar mudanças na sala de aula. Procurando afastar-se dos métodos tradicionais, onde predomina o discurso do professor, tentam tornar as atividades em sala de aula mais participativas, apresentando problemas complexos para serem resolvidos em pequenos grupos, ao longo de um período.

    O conteúdo programático se acha dentro de um tema central, como um problema ecológico do seu bairro. Assim, os alunos, ao participarem ativamente na solução desse problema, estarão estudando ciências, matemática, literatura e arte. Nesses trabalhos, o professor participa auxiliando e fornecendo recursos e orientação.

    Para Jan Hawkins, são dois os requisitos para que haja uma boa aprendizagem: primeiro, é necessário um ambiente onde os alunos possam realmente enfrentar idéias e realmente interpretar o que estão fazendo e não simplesmente absorver informações; ambiente em que precisem tomar decisões, conversar entre si sobre uma idéia ou um problema de matemática; onde um problema de matemática possa ocupar a sala inteira, em lugar de ser apenas uma série de respostas a problemas. Caso contrário, o conhecimento fica inerte, e o aluno sem condições de realizar ligações com um novo problema.

    Segundo, que haja um bom relacionamento entre colegas de classe, professores, escola e familiares dos estudantes; que o aluno não seja anônimo e sinta a escola como seu lugar. É fundamental que haja sólidos laços de amizade entre os alunos e destes para com o professor. Isso exige que seja pequeno o número de alunos e que o trabalho seja organizado em cada sala de aula de tal modo que todos não façam simultaneamente a mesma coisa, e que os professores possam ajudá-los.