A Organização Mundial da Saúde conceitua saúde como "o completo estado de bem estar físico, psíquico e social". Poderíamos agregar a este conceito que saúde é qualidade de vida, sendo também, o resultado do total funcionamento do indivíduo em seu ambiente, ou segundo Laville & Volkoff (1993) citado por Falzon (1996): "Saúde é a ausência de estados, como: patologia, deficiência, restrição da vida social e miséria econômica", ou seja, saúde deve ser vista preferencialmente como o resultado de um processo de construção de uma vida saudável ou, ainda, a adoção de práticas adequadas de cuidados médicos, de higiene pessoal, de prevenção contra doenças, de prevenção de acidentes e de equilíbrio das atividades diárias: trabalho, recreação, sono e repouso.
Assim, há várias dimensões da vida do ser humano e da chamada saúde total de uma pessoa: física, social, emocional, intelectual, espiritual e ocupacional, ou seja, o trabalho e as condições em que este trabalho é realizado são fatores preponderantes no estado de saúde integral do indivíduo.
Durante todo o processo de organização industrial, da passagem do sistema artesanal ou familiar para o sistema fabril de produção, as condições de vida no trabalho não receberam a devida atenção.
Na Inglaterra do início do século XVIII eram fatos considerados normais, no rigor das primeiras fábricas, os fiandeiros trabalharem 14 horas por dia à uma temperatura de 26 a 29º C sem terem permissão para buscar água. Da mesma forma, no sistema doméstico de produção, aqui entendido sistema produtivo artesanal, também fazia parte da rotina das pessoas, as longas jornadas de trabalho e a exploração do trabalho infantil - com crianças de 7 a 11 anos de idade trabalhando como aprendizes das 5 horas da manhã até as 20 horas em turnos de 15 horas, para Huberman (1986).
Entretanto, não somente nas fábricas o aspecto da qualidade de vida era relegado a um segundo plano. Registros atestam que nos Estados Unidos na década de 30, o trabalho artesanal realizava-se invariavelmente em casas sujas, superlotadas e com comida insatisfatória. Crianças com menos de 16 anos trabalhavam, em praticamente todas as famílias, executando trabalho doméstico, sendo que metade delas tinha idade inferior a 12 anos, segundo Huberman (1986).
Num mundo em constante mudança, de economia globalizada e de mercados emergentes, modernas tecnologias gestoriais têm oportunizado melhorias consideráveis na forma de como as empresas podem tornar-se altamente competitivas e obter ganhos consideráveis de produtividade. Porém, pouca ou nenhuma atenção é dada à qualidade de vida no trabalho, sendo que normalmente postos de trabalho são, na verdade, postos de tortura, o que não é um privilégio da era moderna, mas sim uma cultura que acompanha todas as fases da introdução do sistema capitalista.
O trabalho inserido dentro do contexto social descortina-se como elemento essencial na construção do indivíduo, embora a vida não se resuma ao trabalho. A mesma não pode ser entendida na sua ausência, e o trabalho fazendo parte da vida do ser humano não pode ser causa de seu sofrimento físico, psíquico e emocional.
Umas das formas de organização temporal do trabalho é a realizada em turnos e noturno, ou seja "o trabalho sendo realizado em diferentes horários ou em horário constante porém incomum (por exemplo, o período noturno permanente). O turno resulta sempre do fato de que a mesma atividade deva ser executada em diferentes períodos do dia e da noite, por vários empregados, em igual jornada" Rutenfranz, Knauth & Fischer (1989).
O trabalho em turnos e noturno é responsável nos países desenvolvidos por cerca de 20% do nível de emprego e, aproximadamente, metade desse trabalho em turnos sendo realizado no turno noturno e o labor noturno não rodiziante correspondendo a 1/3 de todo o trabalho em turnos, segundo Maurice (1975), Tavemier (1978) e Harrington (1994).
Scott & LaDou (1994) afirmam que pelo menos 20 milhões de pessoas nos EUA trabalham em horário não-padronizado, ou seja não compreendido entre às 8:00 e às 18:00 horas, sendo que dois milhões são trabalhadores noturnos, cerca de 3 milhões fazem rotação de turnos que podem incluir trabalho noturno e quase 16% dos trabalhadores em tempo integral são trabalhadores de turnos.
Nos EUA alguns setores têm um percentual bem mais alto de trabalhadores em trabalho em turnos e noturno. Indústrias de capital intensivo e operações de processo contínuo podem ter 50% dos empregados trabalhando em um 2º ou 3º turno. Mais de 1/4 dos operadores de veículos motores em tempo integral é trabalhador de turnos, com cerca da metade em turnos da noite ou em rodízio. Mais de 38% daqueles em ocupações de serviço é trabalhador de turnos, Scott & LaDou (1994).
À medida que a economia dos EUA e de muitos países desenvolvidos e em desenvolvimento, entre eles o Brasil, se torna crescentemente orientada à prestação de serviços e à indústria, o número de trabalhadores designados para horários de trabalho considerados fora do padrão continuará a aumentar.
A organização temporal do trabalho em turnos e noturno traz inegáveis prejuízos para a saúde do trabalhador, tanto no aspecto físico, como psíquico, emocional e social, alguns bastante conhecidos e outros, ainda, necessitando de maior investigação, bem como tarefas que resultem em esforços adicionais, em virtude da organização do trabalho, deixam marcas indeléveis no trabalhador, como as manifestações psicossomáticas.
O trabalho em turnos e noturno, ao provocar redução do estado de vigília, afeta a produtividade e a segurança, custando às companhias americanas, que dependem desta forma organizacional do trabalho, cerca de 70 bilhões de dólares por ano, dados fornecidos por Scott & LaDou (1994).
A configuração da força de trabalho está mudando em diversos países, inclusive nos EUA, tendo em vista que para o próximo século as previsões, com base em tendências, são que a massa trabalhadora será mais idosa e mais feminina, submetendo um maior percentual de trabalhadores a um maior risco de que algum impacto negativo sobre sua saúde ocorra devido aos seus horários de trabalho, segundo Scott & LaDou (1994).
O trabalho em turnos e noturno pode ser causa de uma série de distúrbios, pois 30% dos trabalhadores de turnos se queixam de sintomas de gastrite, das doenças cardiovasculares relacionadas com trabalho 7% delas são atribuídas ao trabalho em turnos e noturno, havendo, também, uma conexão entre pertubação do sono e hipertensão arterial em trabalhadores noturnos, colocando os mesmos sob risco de doença coronariana. Parece haver evidências que a estimativa de vida dos trabalhadores em turnos é 10 % menor que os outros trabalhadores diurnos, Thiis-Evensen (1958), Cipolla Neto, Marques & Menna-Barreto (1988), Knutsson, Akerstedt & Jonsson (1988) e Olsen & Kristensen (1991).
Por outro lado, os problemas e conflitos decorrentes do trabalho em turnos e noturno não se ligam unicamente às mudanças de ritmos biológicos e parâmetros fisiológicos, mas sim, e fortemente, a uma dessincronização familiar e social, como afirmam Koller, Kundi, Haider et al (1990).
O trabalho em turnos e noturno (rodiziante ou não), como parece evidente, pode ser responsável por inúmeros distúrbios fisiológicos e psicossociais, transformando-se em uma das mais perversas formas de organização temporal do trabalho, constituindo seus sintomas imediatos e de longo prazo, numa verdadeira Síndrome de Maladaptação ao Trabalho em Turnos.
As manifestações agudas dentro do primeiro mês de exposição ao sistema de trabalho em turnos e noturno são caracterizadas por insônia, excessiva sonolência durante o trabalho, distúrbios do humor, aumento de acidentes e problemas familiares, sociais e emocionais. Após cinco anos neste sistema de trabalho, o indivíduo passa a apresentar manifestações crônicas ligadas a desordens do sono, doenças cardiovasculares e gastrointestinais, absenteísmo, separação e divórcio, Moore-Ede, Krieger & Darlington (1987).
O trabalhador ao inverter o ciclo sono-vigília em decorrência do trabalho noturno, ou seja dormir durante o dia e trabalhar à noite, induz a uma dessincronização interna dos ritmos biológicos e circadianos, bem como favorece conflitos de ordem social, pois nossa cultura é predominantemente diurna.
As origens destes conflitos e distúrbios podem ser encontradas no fato que o ser humano é fisiologicamente preparado para a rotina diurna, sendo que a mesma é determinada geneticamente e governada por osciladores endógenos e exógenos, tanto ambientais como sociais.
A inadaptabilidade ao trabalho em turnos e, principalmente noturno, gera muitas vezes o uso abusivo de substâncias para dormir e de álcool, bem como fadiga crônica e manifestações de estresse.
A existência do trabalho em turnos e noturno, uma necessidade muitas vezes intrínseca ao próprio processo produtivo ou uma resposta ao aumento da demanda e, embora não havendo, a priori, solução única e ideal para este tipo de sistematização da produção, deve ser uma preocupação constante, para permitir soluções melhores para a organização temporal do trabalho.
O trabalho, inerente à própria condição humana, como fator de equilíbrio, desenvolvimento do ser humano e fonte de prazer, motivação e satisfação, não tem, muitas vezes, conseguido proporcionar à grande massa de trabalhadores oportunidades para seu equilíbrio psíquico e físico.
A atividade profissional deixa traços sobre o organismo ao longo da sua duração. Não se pode, com efeito, conceber a existência de uma evolução com a idade do trabalhador sem relação com as condições nas quais esse organismo vive, ou seja, condições de trabalho as quais o ser humano é submetido durante grande parte de sua vida até o seu abandono por aposentadoria ou por algum tipo de patologia, tanto física como psíquica ou emocional.
Certos traços provocados pelo trabalho são imediatamente identificáveis, tais como acidentes do trabalho ou doenças ditas profissionais, porém outros são mais hipotéticos que prováveis e muitas vezes difíceis de correlacionar porque são inespecíficos. São, segundo Teiger, Laville & Lortie (1981), linhas probabilísticas que necessitam de estudos epidemiológicos que muitas vezes não podem colocar em evidência os efeitos a longo tempo, 5 anos ou mais, das condições de trabalho sobre o ser humano.
Por outro lado, as empresas ao buscar maior produtividade e melhor qualidade dos seus produtos privilegiaram métodos e processos em detrimento do fator humano, deixando de atender às necessidades básicas das pessoas, sendo que esse ambiente refletiu-se no desenvolvimento da organização temporal do trabalho em geral e do trabalho em turnos e noturno em particular.
O presente estudo pretende investigar a Síndrome de Maladaptação ao Trabalho em Turnos e o Trabalho Noturno em uma empresa do setor cerâmico, bem como analisar e comparar a literatura especializada com os dados encontrados na empresa estudada.
A estrutura do presente trabalho divide-se em:
As limitações do presente estudo estão relacionadas com ausência de um Setor Médico na empresa estruturado para a problemática do Trabalho em Turnos e Noturno, prontuários médicos não disponíveis e acesso a informações relevantes, como índices de absenteísmo.