A Cerâmica Portobello S. A. possui no mercado interno 15 filiais e 22 show rooms localizados nos principais centros consumidores. No mercado externo, para onde 30% da produção é destinada, a empresa possui uma rede de representantes em mais de 50 países e filiais nos Estados Unidos, América Central e Caribe, Argentina e Chile.
A empresa foi fundada em 1977 e está localizada no município de Tijucas - SC, às margens da BR 101, edificada em uma área de 155 mil m2, próxima as jazidas de matérias-primas e de portos estratégicos para o escoamento da produção para o Brasil e exterior. A Cerâmica Portobello S. A. produz 1,5 milhões de m2/mês, sendo que seu portfólio inclui revestimentos cerâmicos para pisos, paredes externas e internas e peças especiais como cantoneiras e rodapés, num total de mais de 1.000 produtos, situando-se entre os maiores fabricantes do mundo.
Todo o processo de produção da empresa está certificado pela ISO 9002.
A Cerâmica Portobello S. A. possui 4 unidades fabris autônomas, com 667 trabalhadores em sistemas de turnos, assim distribuídos:
FÁBRICA |
1o TURNO | 2o TURNO | 3o TURNO |
| I | 76 | 82 | 78 |
| II/III | 120 | 136 | 109 |
| IV | 29 | 19 | 18 |
| TOTAL | 225 | 237 | 205 |
Os trabalhadores usufruem de 11 benefícios, entre eles, assistência médica, vale-farmácia, assistência odontológica, associação desportiva, auxílio a dependentes deficientes, auxílio creche, vale-transporte, vale-refeição, seguro de vida em grupo, ticket restaurante e vale-supermercado, sendo aproximadamente, 2.400 pessoas beneficiadas entre funcionários e familiares.
A empresa oferece café da manhã e almoço para os trabalhadores do turno matutino, não sendo oferecido jantar e lanche para os trabalhadores dos demais turnos. O local do refeitório permanece aberto durante as 24 horas para lanches ou outras refeições que os trabalhadores queiram realizar, porém com pessoal para atendimento apenas no horário comercial.
O trabalhador tem a liberdade de escolher o horário de lanche; a pausa não deve ultrapassar meia hora.
A empresa possui um médico do trabalho apenas em período parcial (vespertino); o trabalhador quando precisa de assistência médica fora desse horário é encaminhado ao hospital da cidade. O ambulatório com uma auxiliar de enfermagem está aberto durante o horário comercial.
Não há uma sistematização dos exames periódicos voltados para a problemática do trabalho em turnos e noturno, seus prejuízos a saúde do trabalhador e para a Síndrome de Maladaptação ao Trabalho em Turnos.
A Cerâmica Portobello S. A. utiliza vários tipos de argilas e minerais, sendo 80% das matérias-primas oriundas de jazidas próprias. Dois tipos de massas são utilizadas na linha de produção: os produtos grés, com baixo índice de absorção de água e indicados para pisos de alta resistência, e também monoporosa, uma das mais modernas tecnologias do setor e indicada para produtos de revestimento.
O ciclo produtivo se divide em 3 etapas principais:
A empresa Portobello S. A. executa a produção em turnos fixos ou não rodiziantes, sendo as 24 horas do dia divididas em três turnos com número semelhante de trabalhadores por equipe no sistema 6x2, ou seja, 6 dias de trabalho por 2 de descanso, usufruindo os trabalhadores um sábado e domingo seguidos, aproximadamente, a cada 42 dias. Do total de trabalhadores em cada equipe 1/3 está sempre em seus períodos de descanso semanal, sendo que as unidades fabris adotam o sistema de férias coletivas.
O sistema de turnos da empresa tem o seguinte horário:
1o Turno - das 05:00 às 13:30 horas
2o Turno - das 13:30 às 22:00 horas
3o Turno - das 22:00 às 05:00 horas
4.2 METODOLOGIA PARA LEVANTAMENTO DE DADOS
No presente estudo foram utilizados para coleta de dados dois protocolos, sendo um chamado "Carta do Cotidiano" e outro "Inquérito Sócio/Sanitário".
O protocolo denominado "Carta do Cotidiano" foi adaptado de Teiger, Laville & Lortie (1985) e Patrício (1996), refere-se à técnica de levantamento de dados qualitativos. Dependendo de como são interpretados os dados coletados, pode-se gerar também análises quantitativas, (Anexo I).
O protocolo "Carta do Cotidiano", ao utilizar uma abordagem multidimensional, considera o cotidiano do trabalhador na rua, em casa, no trabalho, na escola, no lazer, ou seja, nas situações do dia-a-dia. Durante uma semana são anotadas as horas de dormir e de acordar estimadas, o tempo passado na cama sem dormir, as horas das refeições e a importância destas.
Nessa abordagem multidimensional solicita-se que o pesquisado anote o que fez desde que acordou do sono até o momento de dormir, ou mesmo, seus sonhos, abordando aspectos quanti-qualitativos do dia-a-dia.
O protocolo "Carta do Cotidiano" é um questionário sistemático mostrando as avaliações subjetivas sob o estado psicofisiológico do trabalhador e as indicações sobre a organização temporal de sua vida extraprofissional. A flexibilidade na diversidade de análise que o instrumento possibilita, torna-o, na opinião de Teiger, Laville & Lortie (1985) e Patrício (1996), bastante apropriado para aquelas situações que necessitam o conhecimento de todo um processo de viver do indivíduo, quer seja em situações do seu dia-a-dia, quer seja no trabalho, ou seja o seu cotidiano.
Cotidiano para Patrício (1996), "Refere-se, pois, ao dia-a-dia; àqueles momentos do processo de viver que se repetem, que são comuns na vida das pessoas; é aquele ritmo diário numa variedade de relações interpessoais e consigo mesmo que fazem a vida acontecer todos os dias, incluindo suas questões de saúde-doença, de prazer e dor, de felicidade e insatisfações".
O protocolo "Carta do Cotidiano" compõe-se de um quadro com os seguintes itens: dias da semana (segunda a domingo), períodos do dia (manhã, tarde e noite) e observações. Nele o pesquisado anota exatamente os acontecimentos ou fatos que sente que mais lhe chamam a atenção, não importando estar relacionado a algum evento em especial, mostrando valores objetivos e subjetivos do indivíduo no seu cotidiano.
O protocolo "Inquérito Sócio/Sanitário", adaptado de Moreno (1993), foi utilizado objetivando pesquisar as manifestações sentidas, ou não, passadas ou presentes, provocadas pelo trabalho em turnos e noturno e traçar o perfil sócio-econômico dos entrevistados, (Anexo II).
Segundo Moreno (1993), é possível obter depoimentos confiáveis dos trabalhadores e que espelhem sua adaptação ao trabalho em turnos e noturno ou o impacto deste sistema de organização temporal do trabalho sobre a vida das pessoas.
Para tanto, é necessário que o instrumento a ser utilizado seja apropriado. O questionário utilizado por Moreno (1993) teve sua consistência adequadamente validada.
O protocolo do presente estudo está dividido em duas partes: uma destinada ao perfil do pesquisado quanto a aspectos sociais e pessoais e, outra, relacionada propriamente com as manifestações psicossociais e fisiopatológicas do trabalho em turnos e noturno.
Os protocolos foram pré-testados em condições reais de trabalho.
A direção da empresa limitou a aplicação dos instrumentos de coleta de dados à unidade fabril autônoma quatro, uma empresa do setor cerâmico pertencente ao Grupo Portobello S. A., sendo que os mesmos foram aplicados em todos os trabalhadores em sistema de turnos e noturno, totalizando 66 pessoas.
O protocolo "Inquérito Sócio/Sanitário foi aplicado em reuniões realizadas com os trabalhadores de cada turno, onde eram dadas explicações sobre os objetivos do trabalho e prestados os esclarecimentos que se fizessem necessários. O protocolo "Carta do Cotidiano" foi distribuído em reuniões em cada turno, com orientações prévias, e permanecia com os indivíduos pesquisados durante uma semana, após o que foram recolhidos.
Inicialmente foi identificado o perfil dos trabalhadores em turnos e noturno onde varáveis como sexo, idade número de filhos, estado civil, etc. foram pesquisadas.
Os trabalhadores pesquisados foram agrupados por turno, sendo que os percentuais encontrados estão distribuídos conforme demonstrado no
Em relação ao tempo total de exercício de trabalho noturno a pesquisa encontrou 49% trabalhando de 1 a 4 anos, 31% exercendo trabalho noturno de 5 a 9 anos; com menos de 1 ano 16% e com mais de dez anos 4%.
Pelos percentuais encontrados é lícito supor que a maioria dos indivíduos não permanece por um período muito longo no turno noturno, abandonando-o conforme envelhecem, o que estaria de acordo com o que afirma Härmã, Takola, Akerstedt et al (1994), onde a idade aumenta os efeitos adversos sobre a saúde dos trabalhadores em turnos e noturno. Um mecanismo neste processo podem ser as mudanças na ritimicidade circadiana, já que a idade diminuiria a amplitude de diversos ritmos circadianos, incluindo o ritmo da melatonina da glândula pineal, aumentando a tendência para desincronização interna. Para os autores a idade crítica estaria entre 40 e 50 anos.
Quanto ao número de mulheres por turno a pesquisa revelou não haver diferenças significativas. O que ocorre é um número maior de homens trabalhando em turnos, 93,10%, 94,74% e 94,44% para o 1o, 2o e 3o respectivamente.
As significativas diferenças percentuais encontradas entre homens e mulheres trabalhando em turnos parece independer do setor produtivo pois estes valores estão de acordo com os achados de Axelsson, Rylander & Molin (1988) citados por Scott & LaDou (1994), que encontraram apenas 4% de mulheres empregadas em hospital sendo trabalhadoras do turno noturno e algumas delas trabalhavam à noite ocasionalmente.
As distribuições percentuais por faixa etária e por turno encontram-se no Gráfico II. Observa-se, no 1o e 2o turnos, uma forte concentração de trabalhadores na faixa etária entre 20 e 24 anos e nas compreendidas entre 25 e 39 anos.
No turno noturno 77,54% dos entrevistados estão na faixa etária compreendida entre 25 e 39 anos, período este de maior produtividade do trabalhador. Identificou-se uma queda bastante acentuada na faixa etária seguinte, entre 40 e 44 anos, ou seja 8,16%, indo a zero nas duas faixas etárias seguintes, o que reforça evidências de que o trabalhador noturno, depois de alguns anos, conforme envelhece, abandona o turno noturno, o que é confirmado por Tavemier (1978).
Ao serem questionados quanto ao estado civil a maioria dos entrevistados revelou ser casado, independente do turno.
O turno noturno apresentou uma diferença percentual mais significativa entre casados e solteiros, 66,67% e 27,78% respectivamente. Sendo que este turno evidenciou, ainda, o percentual mais significativo de divórcios, 5,56%, contra 3,45% no 1o turno e zero no 2o turno, o que está de acordo com Moore-Ede, Krieger & Darlington (1987), Koller, Kundi, Haider et al (1990), Gadbois (1990) Scott & LaDou (1994), pois esses autores afirmam haver um maior número de divórcios entre os trabalhadores do turno noturno.
Os demais valores encontrados estão dispostos no Gráfico III.
Quanto ao tempo de divorciado no 1o turno, 100% dos entrevistados estavam divorciados em torno de um ano e no 3o turno em torno de 4 anos.
Outro aspecto pesquisado para identificar o perfil dos trabalhadores em turnos e noturno foi o número de filhos. A maioria dos trabalhadores pesquisados não possui filhos, sendo que no 2o turno são mais da metade, 52,63%. Ao se somar os percentuais de trabalhadores sem filhos ou com um filho, aproximadamente 2/3 não tem filhos ou possuem apenas um filho.
No turno noturno encontra-se o maior percentual de trabalhadores com filhos, 61,11%. Assim, encontramos no 3o turno um maior percentual de trabalhadores com família constituída, ou seja, casados e com filhos.
Os demais percentuais são encontrados no Gráfico IV, por turno.
O que parece evidente pelos percentuais encontrados é que, de maneira geral, os trabalhadores do turno noturno apresentam menor grau de escolaridade, o que poderia ser um indicativo que indivíduos com melhor escolaridade não se submeteriam a um sistema de trabalho que implique em desordens fisiológicas e psicopatológicas constantes.
Após se identificar o perfil dos trabalhadores em turnos e noturno foram avaliados anseios, desejos, qualidade do sono, relações sociais, saúde, aspectos psicossociais, etc. frente a esse modelo de organização temporal do trabalho.
Inicialmente procurou-se averiguar distúrbios do sono, pesquisando a quantidade de horas dormidas, bem como a qualidade do sono.
Percentuais encontrados relativos à quantidade de horas dormidas demonstram que, de maneira geral, no 1o turno e no turno noturno os trabalhadores têm um menor número de horas de sono, principalmente no turno matutino, onde 82,76% dos indivíduos dormem apenas de 4 a 6 horas. No turno noturno, 77,78% responderam que dormiam de 4 a 6 horas.
Os demais percentuais podem ser encontrados no Gráfico VI.
Os valores encontrados estão de acordo com Fischer (1981), Ferreira (1987), Rutenfranz, Knauth & Fischer (1989) e Harrington (1994) que afirmam que os trabalhadores de turnos e noturno têm um menor número de horas de sono e que não é compensado, ou seja o resultado é um prejuízo que se acumula ao longo do período de turnos.
O horário de dormir foi investigado para análise da qualidade do sono. Observa-se que enquanto 93,10% dos trabalhadores do 1o turno mantêm um horário convencional noturno de dormir, embora 6,90% durmam em horário segmentado, os trabalhadores do turno noturno possuem horários irregulares de sono, inclusive com períodos de sono interrompidos por períodos de vigília, sendo que pouco mais da metade dormem um só período pela manhã, 56,25%, o que contribuiria para que esses trabalhadores tenham uma menor qualidade do sono, tendo afetada a fase dois e o Sono Paradoxal. A estrutura interna do sono fica alterada, sendo que o prejuízo se acumula ao longo dos dias, trazendo a um débito constante de sono. O Gráfico VII expõe os percentuais encontrados.
Outro fator importante relativo à qualidade do sono são os ruídos e suas fontes que perturbam o repouso do trabalhador em turnos e noturno.
Os trabalhadores do 1o turno, 24,14% e do 3o turno, 22,22% são os que mais problemas têm com ruídos durante o sono.
O percentual encontrado para o 1o turno, 24,14% é consideravelmente superior aos valores apresentados por Rutenfranz, Knauth & Fischer (1989), entre 4 a 7%.
A origem dos ruídos que perturbam o sono dos trabalhadores foi outro fator pesquisado.
Para 100% dos trabalhadores do 2o turno os barulhos considerados urbanos, ou seja do cotidiano, como buzinas, gritos, animais, etc. são as causas de pertubação do sono. O que poderia explicar o percentual relativamente elevado, 15,79%, de trabalhadores desse turno que são incomodados por ruídos durante o sono, seria presumir que residam em zonas com alguma atividade noturna, pois 75% dos trabalhadores do 1o turno também indicaram o barulho urbano como fonte de ruídos que impedem um melhor sono.
De maneira geral as fontes de ruído, como causa de perturbação do sono, estão de acordo com Rutenfranz, Knauth & Fischer (1989). É necessário, contudo, ressaltar que o ambiente em que o trabalhador está inserido deve ser analisado caso a caso para que eventuais ruídos possam ser evitados como causa de distúrbios de sono para um grupo profissional já submetido a outras injúrias que influenciam no ciclo do sono.
Um fato relevante, quanto às causas de ruído durante o sono foi relatado por 40% dos trabalhadores do turno noturno que têm seu sono perturbado pelo ruído produzido por um equipamento existente na própria fábrica que faz a aspiração de partículas, semelhante a um exaustor que os mesmos chamam de "ventosa" e que, embora morem distante do local de trabalho, seu som permanece no subconsciente mesmo durante o sono, impedindo-os de dormirem com tranqüilidade.
As demais fontes de ruído encontram-se no
Questionou-se ainda, com a finalidade de ter uma maior consistência em relação à qualidade do sono, como os entrevistados classificariam seu sono.
Embora classificação extrema como muito ruim não tenha nenhuma intenção de escolha, de maneira geral os trabalhadores pesquisados informaram julgar seu sono mais ou menos ou bom, excetuando-se os do 1o turno onde 51,72% classificaram seu sono como mais ou menos, o que se explica pelo fato desses trabalhadores terem a parte final do mesmo interrompida em virtude do horário precoce de entrada do 1o turno, 5:00 horas, obrigando-os a acordarem normalmente em torno das 4:00 horas.
Os demais percentuais relativos à qualidade do sono encontram-se no Gráfico IX.
Os valores encontrados estão de acordo com Foret (1984), Ferreira (1987) e Harrington (1994) que afirmam que trabalhadores em turnos e noturno tem a qualidade de seu sono prejudicada, principalmente no 1o turno.
Os valores da auto-avaliação em relação à qualidade do sono foram os mesmos encontrados por Fischer, Berwerth, Bruni et al (1993), para quem os trabalhadores do 3o turno apresentam piores percentuais que os trabalhadores diurnos. Os valores encontrados para os trabalhadores do 1o turno se contrapõem aos encontrados pelos autores, que afirmam ter os trabalhadores do 1o turno qualidade de sono semelhante aos diurnos.
Acredita-se que os valores discordantes encontrados devam-se ao horário do sistema de turnos. Nas duas empresas pesquisadas pelos autores o horário do 1o turno é das 8:00 às 16:00 horas, o 2o turno das 16:00 às 24:00 horas e o turno noturno das 24:00 às 8:00, ou seja o trabalhador do turno da manhã acorda em horário semelhante aos trabalhadores não turnistas não havendo assim, a princípio, prejuízo na quantidade e qualidade do sono.
Por outro lado, encontram-se percentuais parcialmente discordantes com os observados por Ferreira (1985), pois para a autora 10% não dormem bem após o turno matutino, 7,5% não dormem bem após o turno vespertino e 50% dos trabalhadores informaram que não dormem bem após o turno noturno.
O percentual significativamente superior para o turno noturno pode estar relacionado ao fato de os trabalhadores pesquisados por Ferreira (1985) serem submetidos a um sistema de turnos alternantes.
Para se construir um melhor perfil sobre a qualidade e quantidade de sono dos trabalhadores em turnos e noturno da empresa pesquisada, questionou-se a existência de sonolência durante o trabalho e insônia e/ou dificuldade para dormir,
Com relação à sonolência durante o horário de trabalho, observa-se que trabalhadores do turno da manhã e noturno apresentam queixas significativas de sonolência, principalmente no 1o turno onde 44,83% externam esse tipo de distúrbio.
Os valores elevados encontrados parecem lógicos, pois a sonolência está relacionada à necessidade de se repor débitos de sono, Fischer, Berwerth, Bruni et al (1993) citando Gillberg (1985), fato este que ocorre com os trabalhadores do 1o e 3o turnos pesquisados, conforme análises anteriores.
Os percentuais encontrados para os trabalhadores dos turnos matutino e noturno que têm insônia e/ou dificuldade para dormir, a princípio parecem ter consistência se confrontados com o fato de que 6,90% dos trabalhadores do 1o turno e 37,5% dos trabalhadores do 3o turno dormem em horários segmentados, ou seja períodos de sono alternados por períodos de vigília, o que poderia ser causa de insônia e/ou dificuldade para dormir.
Entretanto, a insônia é um indicativo de não ajustamento do trabalhador em turnos e noturno, constituindo-se em um dos sintomas iniciais da Síndrome de Maladaptação ao Trabalho em Turnos, Moore-Ede, Krieger & Darlington (1987).
Ao se pesquisar sobre hipertensão arterial um dado significativo é o percentual de trabalhadores com essa patologia, sendo que 16,67% dos trabalhadores do turno noturno apresentam esta sintomatologia, o que está bem acima dos 7% encontrados por Castro (1995) em trabalhadores diurnos de uma determinada empresa e os 12,1% observados por Dantas & Teixeira (1990) de hipertensão arterial entre trabalhadores de turnos ininterruptos de revezamento, embora os percentuais dos turnos matutino e vespertino, 3,45% e 5,26% respectivamente, sejam menores que os 10,3% encontrados por esses últimos autores para trabalhadores diurnos.
Deve-se levar em consideração que este é o percentual dos que efetivamente têm conhecimento da alteração, pois os números reais podem ser bem maiores, o que tornaria esta população representativa de indivíduos submetidos a situações de risco de terem distúrbios de pressão arterial.
Os percentuais encontrados para os outros turnos estão abaixo do estimado para a população em geral.
Foram pesquisados ocorrências de trabalhadores com distúrbios cardíacos, sendo encontrado 11,11% de indivíduos do turno noturno que apresentavam este tipo de patologia, sendo que nos demais turnos não foram relatados casos dessas enfermidades. O fato de não encontrar-se ocorrências de trabalhadores com distúrbios cardíacos nos turnos matutino e vespertino pode estar relacionado com o percentual elevado de trabalhadores mais jovens neste turnos, principalmente no turno vespertino com 63,36% na faixa etária de 20 à 24 anos.
Os percentuais encontrados são confirmados por Scott & LaDou (1994) que relatando estudo retrospectivo sueco de 334 casos e 882 controles constatou que homens com uma história de infarto de miocárdio eram significativamente mais prováveis de serem trabalhadores de turnos e noturno do que os controles, tendo sido comparados por sexo e idade.
Para Alfredsson, Sperz & Theorrell (1985) citados por Scott & LaDou (1994) e Tamkins (1996), notou-se haver uma associação entre trabalho em turnos e noturno e um aumentado risco de doença cardíaca isquêmica, independente do hábito de fumar e da idade.
Os trabalhadores pesquisados foram, também, questionados se possuíam algum sintoma de azia e/ou gastrite, úlcera, constipação intestinal e inapetência. Os percentuais encontrados estão dispostos no
O percentual de trabalhadores que externaram manifestações de gastrite e/ou azia são elevados em todos os turnos, sendo mais significativos no 1o e 3o turnos, com 34,48% e 31,25% respectivamente, pois atingem em torno de 1/3 da população pesquisada nesses turnos.
Por outro lado, distúrbios gastrointestinais, como azia e gastrite, não são comuns no indivíduo normal e, quando não há causa visível, servem de pano de fundo para doenças psicossomáticas, como fadiga crônica e estresse.
Segundo Fischer, Lieber & Brown (1992) trabalhadores de turnos e noturno apresentam uma maior incidência de problemas gastrointestinais. Para os autores, citando Tarquini, Cecchetin & Cariddi (1986), foi observado que o trabalho em turnos pode provocar uma mudança importante no sistema de secreção da acidopepsina e da gastrina causando dificuldades na digestão de certos alimentos ingeridos em determinados períodos do dia.
Com relação à manifestação de úlcera, tanto no 2o como no 3o turnos os percentuais encontrados são significativos, 11,11% e 10,53% respectivamente. Estes valores estão acima dos encontrados na população em geral, situado em torno de 5 a 10%, Coelho (1998).
Para Fischer, Lieber & Brown (1992) citando Rutenfranz et alii (1980), o trabalho em turno e noturno deve ser incluído como fator de risco para o surgimento da úlcera duodenal.
Observa-se que os trabalhadores pesquisados também apresentaram valores significativos de constipação intestinal, principalmente no 2o (26,32%) e 1o (13,79%) turnos, contribuindo para criar um quadro de desordem gastrointestinal constante. Constipação intestinal é considerado distúrbio relacionado com horários irregulares das refeições e encontrado com freqüência em trabalhadores em turnos e noturno, Bittencourt & Ritz (1987).
Os trabalhadores em turnos e noturnos pesquisados apresentaram percentuais relevantes para manifestações de inapetência, principalmente para o turno matutino, 24,14% e para o turno noturno, 22,22%, o que está de acordo com Fischer, Lieber & Brown (1992), citando Costa, Apostoli, Andrea & Gaffuri (1981), para os quais trabalhadores em turnos e noturnos, se comparados com seus colegas diurnos, têm maior manifestações de falta de apetite.
Rutenfranz, Knauth & Fischer (1989) citando Rutenfranz
et alii (1980) e Knauth (1983), encontraram percentuais significantes
de distúrbios de apetite em trabalhadores em turnos e noturnos,
Tabela I, o que confirma os valores observados no presente trabalho:
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Percentuais |
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Pelos elevados percentuais apresentados é lícito supor que o sistema de trabalho em turnos e noturno é causa de cansaço excessivo, principalmente no turno matutino onde 65,52% dos entrevistados reclamaram de cansaço excessivo em decorrência da organização em turnos, pois precisam acordar muito cedo não tendo, assim, um período de sono adequado.
Para Florez-Lozano (1980) o cansaço permanente pode ser um dos sintomas que indicam a presença da fadiga que age não só nos músculos como também sobre o conjunto do organismo e cérebro e, portanto, também sobre a dinâmica psicológica do indivíduo.
Para se verificar se os trabalhadores entrevistados associavam seus transtornos fisiológicos com o sistema de trabalho perguntou-se se os mesmos percebiam uma relação entre saúde prejudicada e trabalho em turnos e noturno.
No Gráfico XII encontramos os percentuais condensados referente à opinião dos entrevistados.
Observou-se que os trabalhadores do 1o e 2o turnos são os que mais associam saúde prejudicada e horário de trabalho, pois se for levado em consideração os percentuais das opções concordo totalmente e concordo até certo ponto, 65,51% dos trabalhadores do turno da manhã e 57,89% do turno da tarde acreditam nessa relação.
Em trabalho de Taylor (1983) citado por Bittencourt & Ritz (1987), 48% dos trabalhadores entrevistados consideravam sua saúde afetada pelo trabalho em turnos e noturno e muitos deles estavam convencidos que sua esperança de vida era menor que a dos trabalhadores diurnos.
O percentual mais baixo, 38,83%, próximo dos observados por Taylor (1983), foi encontrado entre os trabalhadores do turno noturno e pode ser atribuído a um menor nível de escolaridade entre esses indivíduos.
Os trabalhadores foram questionados, ainda, se utilizam algum medicamento para dormir e/ou permanecer acordado durante o trabalho, pois o uso regular de pílulas para dormir é considerado quase patognomônico da intolerância ao trabalho em turnos e noturno, ou seja, de Síndrome de Maladaptação ao Trabalho em Turnos, Moore-Ede, Sulzman & Fuller (1982), Moore-Ede, Krieger & Darlington (1987) e Scott & LaDou (1994) citando Colligan, Frock & Tasto (1980) e Reinberg et al (1989).
O baixo percentual encontrado a respeito do consumo de medicamentos para dormir, 5,56% e somente em trabalhadores do 3o turno, talvez não reflita a realidade merecendo, portanto, algum outro tipo de abordagem, pois está em confronto direto com o que é corrente na literatura especializada e que coloca o consumo de medicamentos para dormir como atitude não tão incomum, e não estando de acordo com o observado por DeLucia, Planeta, Simões et alii (1988). Os autores encontraram 11% de consumo de ansiolíticos entre os trabalhadores do turno noturno, sendo que as queixas mais freqüentes eram irritação nervosa e distúrbios de sono.
O baixo consumo de medicamentos para dormir, contrapõem-se aos elevados percentuais encontrados de casos de trabalhadores que manifestaram sentir insônia, 24,14% e 16,67% para os 1o e 3o turnos, respectivamente.
Com relação ao percentual de 3,45% de trabalhadores do 1o turno que consomem algum tipo de medicamento para permanecer acordado durante o trabalho parece haver uma razão lógica , pois os mesmos têm um horário de acordar bastante precoce. Porém esse baixo percentual e o fato de não se encontrar este hábito entre os trabalhadores do turno noturno deve-se ao tipo de abordagem não ter sido adequada, já que elevados percentuais de trabalhadores 44,83% e 18,75%, respectivamente para os turnos matutino e turno, afirmaram sentir sonolência excessiva durante seu trabalho.
Foi solicitado que os entrevistados informassem se sentiam dor de cabeça freqüentemente. 13,39%, 10,53% e 18,75% dos trabalhadores do 1o, 2o e 3o turnos, respectivamente, relatam sentir cefaléias freqüentes. Como se observa em todos os turnos, há um percentual significativo de trabalhadores com esses sintomas. O aparecimento dessa sintomatologia, segundo Fischer, Lieber & Brown (1992) citando Cippola-Neto (1988), pode estar relacionado com a dessincronização da ritimicidade circadiana. Por outro lado, cefaléias constantes são o primeiro sintoma de doenças psicossomáticas, Bittencourt & Ritz (1987).
Algumas questões foram pesquisadas para se identificar o relacionamento social vivenciado pelos entrevistados com familiares em geral, esposa (o), namorada (o) ou companheira (o) e com os próprios companheiros de turno, bem como se os mesmos acreditavam que a vida social e de lazer era prejudicada pelo esquema de trabalho em turnos.
Mais de 2/3 dos entrevistados, independente do turno, concordam totalmente ou concordam até certo ponto que o trabalho em turnos prejudica o relacionamento com familiares e esposa (o), namorada (o) ou companheira (o), vida social e de lazer e que a relação com os companheiros é boa ou ótima exceto para os trabalhadores do turno noturno onde 61,11% acha ser boa e 33,33% mais ou menos.
Estudos de Nachreiner et alii (1985) citados por Koller, Kundi, Haider et al (1990) demonstraram que os trabalhadores em turnos e noturno dispõem substancialmente de menos lazer em momentos favoráveis à vida familiar e social. Evidentemente isto acarreta problemas, principalmente em famílias com filhos pequenos.
Para Koller, Kundi, Haider et al (1990) no decorrer da permanência no trabalho em turnos e noturno o trabalhador expressa uma diminuição da satisfação não só com o trabalho mas no que diz respeito à vida, tal fato ocorre, talvez, pelo valor cada vez maior atribuído à vida fora do trabalho, fazendo com que o trabalhador em turnos, por ter um vida familiar e social prejudicada, se sinta cada vez menos valorizado.
Segundo Scott & LaDou (1994), 43% dos trabalhadores noturnos viam uma influência negativa do trabalho sobre a vida familiar e 50% achavam que ele interferia com suas vidas sociais.
Foram investigados o nível de satisfação dos trabalhadores quanto ao esquema de turnos utilizado pela empresa. Assim, horário de entrada, número de dias consecutivos de trabalho e de descanso foram abordados. De maneira geral os trabalhadores acham bom o horário de entrada, excetuando os trabalhadores do 1o turno que desejariam ter um horário um pouco mais tarde de entrada. O sistema de turnos 6x2, ou seja, seis dias trabalhados por dois de descanso, parece sofrer algumas críticas, pois a maioria dos trabalhadores, independente do turno, julga mais ou menos o sistema adotado.
Para a quase totalidade dos autores pesquisados, é preferível, em geral, usar turnos em rotação rápida, isto é 2, 3 ou 4 noites e não mais que cinco noites sucessivas, o que evitaria mudanças no sistema circadiano e com pelo menos dois dias de folga, que devem ser oferecidos após a última noite trabalhada para que possa haver tempo adequado para recuperar o sono. Essas considerações contrariam o sistema adotado na Empresa que é o de turnos sem rotação e com seis noites consecutivas trabalhadas.
A pesquisa procurou identificar a existência de um segundo emprego entre os trabalhadores pesquisados. Em todos os turnos foram encontrados indivíduos que possuem um outro tipo de trabalho, além daquele exercido na empresa. Este fato é mais significativo entre os trabalhadores do turno noturno, 11,11% e no turno vespertino, 10,53%. De maneira geral as atividades exercidas são de pedreiro, eletricista, ambulante, pintor, etc.
Estudo de Finn (1980) citado por Scott & LaDou (1994), encontrou quase 25% dos trabalhadores noturnos com segundo emprego. Para os autores, o fato da existência de um segundo emprego é relevante em virtude de não estar bem determinado o quanto isto acrescenta à fadiga do trabalhador.
Após a análise dos dados encontrados parece evidente que trabalhadores em turnos e noturno da empresa pesquisada apresentam percentuais significativos de sintomas característicos da inabilidade do organismo humano para se adaptar a este sistema de organização temporal do trabalho.
Pelo menos, em média, 12,08% dos trabalhadores do 2o turno, 22,33% do 3o turno e 27,5% do 1o turno apresentam pelo menos um desses sintomas, o que está de acordo com Rutenfranz, Knauth & Fischer (1989), citando Harrington (1978), que afirmam que em virtude do trabalho em turnos e noturno, com certeza pelo menos um ou alguns desses sintomas se fazem ou farão sentir no trabalhador em turnos, o que fará com que 20 a 30% dos trabalhadores recusem qualquer possibilidade de exercerem trabalho em turnos e noturno.
Quanto à Síndrome de Maladaptação ao Trabalho em Turnos, Gráfico XIII, os percentuais encontrados 16,67% para os trabalhadores do turno noturno e 10,34% para os trabalhadores do turno matutino são confirmados pelos trabalhos de Scott & LaDou (1994) que afirmam que esta síndrome, ou seja seus sintomas em conjunto, afetam entre 5 a 20% das pessoas submetidas ao trabalho em turnos e noturno e de Moore-Ede, Krieger & Darlington (1987) que encontraram pelo menos 5% dos trabalhadores com essa sintomatologia. No presente estudo foram considerados os trabalhadores que apresentavam pelo menos 50% dos sintomas em conjunto como portadores de Síndrome de Maladaptação ao Trabalho em Turnos.
Questionada a possibilidade de deixarem o turno noturno, 57,14% responderam que não deixariam o terceiro turno se pudessem e 42,86% afirmaram que gostariam de mudar de turno se houvesse possibilidade. O fato de mais da metade dos trabalhadores do turno da noite preferirem permanecer neste horário parece estar mais relacionado com o adicional noturno a que têm direito, com a ausência de supervisão efetiva e pelo pouco tempo que trabalham neste turno - 65% com menos de quatro anos neste turno - do que com a satisfação que o trabalho noturno pode proporcionar.
Finalmente, ao se analisar o número de acidentes por turno nas 4 unidades fabris verificou-se que o turno noturno é o que proporcionalmente apresenta menor número de acidentes, seguido do turno matutino e por último o turno vespertino, o que está parcialmente de acordo com Fischer (1985).
Há para cada caso melhores opções possíveis e as soluções surgem quando a situação concreta de trabalho é analisada e são conhecidas as vantagens e desvantagens de cada sistema de turnos.
Assim, baseado em critérios anteriormente já discutidos, recomenda-se: