CAPÍTULO V - CONCLUSÃO E RECOMENDAÇÕES

A maioria dos trabalhadores não gosta do trabalho em turnos e noturno, a literatura e o presente estudo de caso confirmam que este tipo de organização temporal do trabalho não é benéfica para a saúde física, psíquica e emocional do trabalhador, criando também, interferências nas estruturas temporais, sociais e familiares, podendo os problemas se acentuarem com a duração da exposição e a idade dos indivíduos submetidos a este sistema de trabalho.

O fato de mais da metade dos trabalhadores do turno da noite preferir permanecer neste horário parece estar mais relacionado com o adicional noturno a que têm direito e com a ausência de supervisão constante e intensa, pois os ajustes na produção são feitos durante os turnos diurnos, do que com a possível tolerância do trabalhador ao turno noturno.

No presente estudo de caso, em média 12,08% dos trabalhadores do 2o turno, 22,33% do 3o turno e 27,5% do 1o turno apresentaram pelo menos um dos sintomas de inadaptação ao trabalho em turnos e noturno, sendo que 16,67% dos trabalhadores do turno da noite e 10,34% dos trabalhadores do turno matutino manifestaram sintomatologia característica da Síndrome de Maladaptação ao Trabalho em Turnos.

Parece evidente que não existe uma solução única e ideal para os sistemas de turnos. O que existe são soluções melhores ou piores para os trabalhadores, dependendo se houver ou não uma preocupação de seguir critérios ergonômicos no estabelecimento da escala de turnos e na análise concreta da situação de trabalho.

Assim, antes de recomendar para uma empresa um novo esquema de sistema ou modelo de turnos de trabalho, a complexidade de variáveis que envolvem o trabalho em turnos e noturno deve ser reconhecida fazendo-se um estudo de larga escala sobre aspectos pessoais, sociais e de saúde.

É necessário que haja cooperação, consulta e concessões entre os parceiros sociais, ou seja, para adequar horários de trabalho e estratégias individuais de superação.

Porém, algumas linhas principais merecem ser consideradas:

  1. limitar o trabalho noturno onde possível;
  2. se isto não for possível, o turno em rotação rápida para diante é a melhor opção, já que o trabalho noturno fixo raramente é uma solução aceitável;
  3. iniciar o turno matutino preferencialmente depois das 6:00 horas; e
  4. permitir pelo menos um dia de descanso, sendo preferível dois, entre mudanças de turno, garantindo sempre que possível que alguns desses dias coincidam com os fins de semana.
Por outro lado, algumas ações não dependem do sistema de turnos adotado e podem ser implementadas:
  1. melhorias no local de trabalho - como praça de alimentação durante as 24 horas, supervisão e níveis de produção que privilegiem as características de cada turno;
  2. disponibilizar melhores cuidados de saúde incluindo exames médicos periódicos direcionados para a problemática do trabalho em turnos e noturno; e
  3. facilitar transporte acessível e instalações de recreio adequadas, já que as mesmas são geralmente ruins nos turnos que incluam períodos noturnos.
Entretanto, mais estudos são necessários para identificar quais aspectos do trabalho em turnos e noturno e de saúde são mais dependentes de características individuais e se acompanhamentos longitudinais poderiam identificar quais desses trabalhadores são "intolerantes" ao trabalho em turnos e noturno e, principalmente, por quais razões.

Finalmente, é preciso determinar a eficiência e a utilidade de certas estratégias como luz brilhante durante o turno da noite para melhorar a adaptação do ritmo circadiano ao trabalho em turnos, como sugerem pesquisas realizadas por Eastman, Stewart, Mahoney et al (1994), uso de agentes terapêuticos como comprimidos de melatonina e mais recentemente o Modafinal para tratar perturbações do sono provocadas pelo trabalho em horários irregulares e a permissão para fazer "sonecas" durante o trabalho.