Avaliar a estabilidade de um processo é analisar o comportamento estatístico do processo ao longo de um determinado tempo. Para tanto, os instrumentos básicos utilizados são as cartas de controle. Para análise destas cartas são utilizados padrões de referência, tais como seqüências e tendências de pontos.
Um processo estável ou sob controle, conforme definido no capítulo 2, é aquele que apresenta uma variabilidade estatisticamente estável e uniforme, em termos de média e dispersão, ao longo do tempo. Processos sob estado de controle estatístico apresentam apenas causas comuns de variação. Por outro lado, um processo se apresenta fora do estado de controle estatístico quando seu comportamento é expresso por uma variabilidade estatisticamente instável e não uniforme ao longo do tempo, apresentando causas comuns e especiais de variação.
Como será visto ao longo do texto, esta etapa de avaliação da estabilidade não se constitui apenas de uma avaliação que conduz a uma tomada de decisão: processo estável ou não estável. É acima de tudo uma etapa de investigação das fontes de variação relacionadas a causas especiais, procurando torná-lo sob estado de controle estatístico.
Como o processo é constituído
por um conjunto de fontes de variação (máquina, sistema
de medição, mão-de-obra, matéria-prima, dentre
outros), é importante que para a análise sejam levantadas
todas as fontes que podem ocasionar variação no processo.
Mais uma vez, as informações contidas no Mapa de Processo
são de extrema importância para o planejamento e execução
desta avaliação. O fluxo geral para avaliação
da estabilidade é demonstrado a seguir:
Figura 19 -Procedimento para avaliação da estabilidade de processos
5.2.4.a - Seleção
do recurso estatístico
Para seleção do tipo da carta
de controle a ser utilizada na avaliação da estabilidade
parte-se do princípio que nada se conhece sobre o comportamento
do processo, sobre a sua distribuição e sob suas características.
Logo, 6 tipos básicos de cartas de controle são recomendadas
para a avaliação, a saber:
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| Carta de controle X- AM, se n
= 1.
Carta de controle Carta de controle |
Carta p ou np
Carta c Carta u |
A escolha do tamanho de amostra deve acima
de tudo estar condicionada à realidade de cada processo. A princípio
podem ser seguidas as seguintes regras para escolha das cartas:
Característicos por atributos: o
tipo de informação que se deseja obter determina a escolha
da carta. Se o objetivo é controlar a proporção de
itens defeituosos então utiliza-se a carta "p". Se se deseja controlar
a quantidade de defeitos então se utiliza a carta "c" ou carta "u".
5.2.4.b - Elaboração
do plano de amostragem
As informações contidas no mapa de processo são fundamentais para elaboração do plano de amostragem. Todas as variáveis ou fontes de variação identificadas devem ser consideradas no plano de amostragem.
O plano de amostragem é organizado segundo o conceito da composição dos níveis hierárquicos (WERKEMA, 1998). Os níveis hierárquicos são uma forma de organização das fontes de variação. A formação de níveis hierárquicos segue o princípio da formação de subgrupos racionais, demonstrado no item 5.2.3.c. A principal vantagem da elaboração dos planos de amostragem segundo o principio de níveis hierárquicos é porque esta abordagem permite que o processo seja estabilizado a medida que as causas especiais forem sendo identificadas, como será visto no item "Análise das cartas de controle". Para cartas por atributos esta abordagem não é aplicável. No entanto, também para atributos, os planos de amostragem devem seguir o princípio da formação de subgrupos racionais.
Vamos a um exemplo hipotético: suponha
que um processo de injeção de alumínio seja composto
pelas seguintes fontes de variação:
O plano de amostragem exemplificado na
figura 6 apresenta 4 níveis hierárquicos. Suponha que o tamanho
da amostra seja igual a 5 e que foi selecionada a carta
para análise. Os dados devem ser coletados a partir do nível
hierárquico inferior. A confecção de cartas de controle
também deve começar por estes níveis hierárquicos.
O quadro resumo, descrito a seguir, apresenta as principais variações
possíveis de ser detectadas em cada nível hierárquico:
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| Carta 1 | 1 e 2 | Carta R - amplitude entre cavidades
Carta Xbarra - média das cavidades
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Entre de cavidades (ou dentro
de horas)
Entre horas |
| Carta 2 | 3 e 4 | Carta R - amplitude entre as médias
das horas num mesmo dia
Carta Xbarra - médias das horas num mesmo dia |
Entre dias
Entre fornecedores |
5.2.4.c – Período
de coleta de dados
Basicamente o período de coleta
de dados para avaliação da estabilidade é peculiar
para cada processo. Alguns autores sugerem um mínimo de 25 amostras
coletadas. Esta regra geral, a princípio, nem sempre é possível
de ser estabelecida. De acordo com Fair este procedimento era adequado
no passado quando poucas variações de produtos eram produzidos
e
os processos de fabricação, por conseqüência,
não eram tão complexos (FAIR e WISE , 1998, P. 66-71). Logo,
uma abordagem prática indica que 2 princípios determinam
o período mínimo necessário para coleta de dados:
Observações finais sobre a coleta de dados
Todos os cuidados especiais para evitar a coleta de dados falsos ou errados, descritos no item 5.2.3.b – Métodos de coletas de dados, devem ser seguidos.
Este período de coleta de dados para avaliação da estabilidade do processo deve servir também como período de preparação das pessoas com o ambiente de controle de processos. Para tanto um treinamento sobre o processo de tomada de ações corretivas deve ser realizado. As causas prováveis, bem como ações tomadas devem ser anotadas, preferencialmente num diário de bordo.
Os dados, inicialmente, devem ser registrados
em cartas de controle sem os respectivos limites de controle (afinal, neste
ponto, ainda não se conhece o comportamento do processo). Quando
necessário deve ser dada atenção especial à
identificação de peças: número da estação,
dispositivo de fixação, etc. Outras informações
consideradas relevantes devem também ser anotadas, preferencialmente
num diário de bordo. Estas informações devem abranger
as alterações de rotina no processo, tais como mudança
de matéria-prima, troca de operador, alteração nas
regulagens, ferramentas, etc. As cartas de controle, ditas preliminares,
devem ter o layout adequado para que estas anotações
sejam realizadas. Elas são úteis na análise dos dados.
5.2.4.d - Análise das cartas de controle
Um algoritmo básico para análise
de cartas de controle é sugerido por Werkema (1995b, p. 209-212).
Basicamente devem ser seguidos os seguintes passos:
1 - Com os dados coletados segundo o Plano
de Amostragem devem ser construídos limites de controle experimentais.
2 - Se todos os pontos estiverem dentro
dos limites de controle e nenhuma configuração não
aleatória estiver presente pode-se concluir que o processo está
sob estado de controle estatístico. Neste caso os limites de controle
experimentais são considerados adequados e pode-se passar a etapa
de "Avaliação da capacidade do processo".
3 - Se existirem pontos fora dos limites
de controle e/ou alguma configuração não aleatória
estiver presente pode-se concluir que o processo está fora de estado
de controle estatístico. Então deve-se para cada ponto fora
dos limites, ou para cada sequência de pontos que represente uma
combinação não aleatória, investigar as causas
especiais responsáveis pelos mesmos. Estes pontos devem, então,
ser eliminados da amostragem e novos limites experimentais devem ser calculados.
Os pontos não eliminados devem ser plotados nos gráficos
novamente e a análise deve ser reiniciada pelo item 2. Este ciclodeve
ser realizado até que se conclua que o processo está fora
ou sob controle estatístico.
A eliminação dos pontos relativos a causas especiais, em geral conduz a faixas de controle mais estreitas delimitadas pelos limites experimentais, podendo na prática conduzir a uma situação que não represente mais a realidade do processo. Além disso, o número de pontos pode ser reduzido drasticamente, de forma que a análise da estabilidade do processo não seja mais adequada com os pontos que restaram. Neste caso a melhor alternativa é que novos dados sejam coletados.
Na prática, é comum que os processos se encontrem inicialmente fora de controle estatístico. No entanto, tanto a identificação de configurações não aleatórias quanto a identificação das respectivas causas especiais pode ser uma tarefa difícil. Decorre daí que muitas vezes estas causas não são identificadas. A razão é simples: a identificação de padrões não aleatórios bem como a investigação dependem do conhecimento que se tem sobre o processo. E este é um processo interativo, isto é, quanto maior o conhecimento do processo maior a chance de detecção e eliminação de causas, mas também quanto mais se identificam padrões não aleatórios e se investigam as causas especiais, mais se conhece sobre o processo, e maiores são as chances de estabilização do processo. Mas o que fazer quando as causas especiais não são identificadas? Werkema (1995b, p. 209-212) sugere duas alternativas para amenizar esta dificuldade:
1 - que os pontos sejam simplesmente eliminados e novos limites experimentais de controle sejam calculados.
2 - manter os pontos considerando que o processo sob estado de controle, estatístico.
Na realidade as duas alternativas são "perigosas" sob o ponto de vista estatístico. Contudo, se há apenas um ou dois pontos fora dos limites pode ser que a distorção não seja muito significativa. No entanto, a melhor alternativa continua sendo a coleta de novos dados, conforme demonstra o fluxo descrito na figura 18. Note que a avaliação da estabilidade pode durar um longo tempo. Enquanto o processo não se estabiliza os limites experimentais das cartas de controle devem ser continuamente revistos. A decisão final pela implantação da carta de controle somente deve ser realizada após a avaliação da capacidade do processo. Entretanto, não se deve passar para a etapa de avaliação da capacidade até que o processo seja considerado sob o estado de controle estatístico.
É importante ressaltar que é bastante comum que alguns pontos coletados sejam relativos a dados errados porque, em geral, o período relativo à coleta de dados para avaliação da estabilidade seja também um período em que as pessoas estão aprendendo a coletar dados, sendo bastante comum a ocorrência de erros. Deve-se atentar para desconsiderar estes pontos da análise, pois caso contrário pode conduzir a conclusões erradas.
Para o caso de características por
variáveis a análise sempre deve ser iniciada com a carta
R ou S, isto porquê esta exprime a variação dentro
da amostra. Se a carta R ou S estiver fora de controle a carta
ou
carta X não deve ser analisada até que as causas especiais
sejam identificadas. Os pontos tanto da carta R ou S, quanto os equivalentes
da carta
ou carta X devem
ser eliminados para que a análise prossiga, seguindo o algoritmo
apresentado anteriormente.
Para o exemplo da injetora de alumínio
a análise deveria ser realizada da seguinte forma: se a carta R,
número 1, apresentar-se fora do estado de controle estatístico
é porque existem variações decorrentes de causas especiais
entre cavidades. A análise deve ser interrompida até que
estas sejam detectadas. Uma vez estas sendo eliminadas a carta
,
número 1, deve ser analisada. O raciocínio deve ser estendido
para análise das demais cartas.
Configurações não
aleatórias
Os padrões ou critérios de referência relativos as configurações não aleatórias foram estabelecidos para facilitar a detecção de variações relativas a causas especiais. Estes foram elaborados a partir das propriedades da distribuição normal. Muitos livros de CEP trazem estes padrões descritos, tendo sido os mesmos elaborados a partir de regras estatísticas relativamente simples. Alguns padrões similares dispostos na literatura apresentam pequenas diferenças entre si. Alguns softwares comerciais destinados a análise de cartas de controle trazem embutidos a opção de verificação de combinações não aleatórias. Um desses é o MINITAB(1998), fornecido pela Minitab Inc.
Werkema (1995, P. 218-222) apresenta alguns
desses padrões:
Pontos fora dos limites de controle
Figura 21 – Pontos fora dos limites de controle, adaptado de (WERKEMA, 1995b, P. 218-222)
Muito provavelmente é a representação
mais evidente da falta de controle estatístico de um processo. As
causas especiais relacionadas a esta configuração podem estar
associadas a dados errados gerados por procedimentos incorretos de coleta
de dados e/ou instrumentos descalibrados. Na carta X, se o valor de R,
utilizado para cálculo dos limites, for muito pequeno, muitos pontos
fora podem também ser observados. É muito importante estar
atento para este tipo de análise, pois uma distorção
na carta R pode levar a conclusões erradas.
Seqüência
Figura 22 – Seqüência, adaptado de (WERKEMA, 1995b, P. 218-222)
São tipos de configurações
mais difíceis de serem detectadas do que as representadas por pontos
fora dos limites de controle. A seqüência geralmente indica
uma mudança no nível do processo, demandando a revisão
dos limites de controle e incorporação definitiva ao processo
se as causas especiais relacionadas as mesmas forem "boas". Se não
forem "boas" para o processo as causas devem ser identificadas e removidas.
Muitas vezes, as seqüências estão relacionadas a mudanças
significativas no processo, tais como mudança de matéria-prima,
mudanças na máquina, alterações nos procedimentos
operacionais dentre outras. O principal padrão de seqüência
é quando sete ou mais pontos seqüenciais aparecem em apenas
um dos lados, abaixo ou acima, da linha média;
Periodicidade
Figura 23 – Periodicidade (WERKEMA, 1995b, p. 218-222)
Assim como as seqüências a periodicidade
é uma configuração detectável a longo prazo.
A curva que representa o processo apresenta ume tendência alternada,
para cima e para baixo. Geralmente estão associadas a variações
temporais tais como sazonalidade da matéria-prima e rotatividade
de operadores. São configurações típicas de
processos auto-correlacionados que serão discutidas no item 5.2.4.e.
Tendências
Figura 24 - Tendência (WERKEMA, 1995b, P. 218-222)
São também configurações
detectáveis a longo prazo, podendo também estar associadas
a processos auto-correlacionados. Sete ou mais pontos, ascendentes ou descendentes,
já configuram uma tendência. Desgaste de ferramentas e mudanças
nas condições ambientais, tais como temperatura, umidade
e pressão são exemplos típicos de causas associadas
a tendências.
Aproximação dos limites
de
controle
Figura 25 – Aproximação dos limites de controle, adaptado de (WERKEMA, 1995, P. 218-222)
São configurações
caracterizadas por 2 ou mais pontos fora dos limites 2 sigmas da carta
de controle. Estes limites, geralmente denominados de limites de advertência,
são principalmente indicados para os processos cujos limites de
controle estejam próximos aos limites de especificação.
No entanto, ao se introduzir esta prática deve-se prestar atenção
para verificar se a presença de 2 limites de controle para cada
lado da carta não se torne uma fonte de confusão para o operador
que utilizará a carta como meio de controle do processo. A configuração
representada na parte b da figura anterior, em que raramente existem pontos
próximos a linha média, é típica de processos
em que há superposição de distribuições.
Hora são coletados dados de uma distribuição, hora
são coletados de outra. As aproximações dos limites
de controle são típicas também de super ajustes no
processo. Isto é bastante comum quando os operadores tendem a ajustar
o processo freqüentemente, na tentativa de responder às variações
do processo, devido às causas comuns e não às especiais.
Aproximação da linha média
Figura 26 – Aproximação da linha média, adaptado de (WERKEMA, 1995, P. 218-222)
O diagnóstico, geralmente, não
é a proximidade da linha média, mas afastamento dos limites
de controle. São configurações típicas em que
há mistura de subgrupos e/ou os dados são coletados em níveis
hierárquicos mais elevados do que deveriam ser coletados. Este tipo
de configuração é "perigosa", pois apesar de aparentemente
representar uma estabilidade, na realidade representa possíveis
instabilidades do processo. No entanto, uma dica importante para detecção
deste tipo de configuração pode ser extraída da carta
R: se a amostra é proveniente de populações distintas,
os valores de R podem ser elevados, o que faz com que os limites de controle
da carta
sejam bastante
abertos.
Estas configurações são
válidas para todas as cartas de controle convencionais, ou seja,
-
R,
– S, carta p, carta
np, carta c e carta u. Uma exceção é feita às
cartas X-Am em que a única configuração válida
para análise da carta Am é a existência de pontos fora
dos limites de controle, pois os pontos nesta carta guardam uma correlação
entre si.
Muitas vezes, dependendo das características
dos processos, estes padrões não se aplicam na integra, necessitando
ser adequados à realidade dos mesmos. Pode ser que para um determinado
processo sete pontos consecutivos seja natural do processo. Logo, é
importante levar em consideração as características
intrínsecas durante a avaliação da estabilidade para
que conclusões erradas acerca da estabilidade do processo não
sejam obtidas. Uma das empresas visitadas, situada na cidade de Taubaté
- SP, criou procedimentos que apresentam regras de exceções
para utilização dos padrões de referência.
5.2.4.e – Avaliação
da autocorrelação
Conforme dito no capítulo 2 se os
dados que representam o processo forem auto-correlacionados pode ser que
muitas causas especiais, detectadas durante a avaliação da
estabilidade, sejam apenas falsos alarmes. Quando isto ocorre as cartas
de controle convencionais de Shewhart não devem ser aplicadas diretamente
tanto para a análise da estabilidade quanto para o controle de processos
(MONTGOMERY, 1991, p. 341 - 350). Em outras palavras, esses modelos de
carta de controle são apropriados a processos cujas observações
sejam independentes e normalmente distribuídas. Como estas cartas
são robustas a normalidade do processo, isto é, podem ser
aplicadas mesmo que as observações do processo não
sejam normalmente distribuídas, a principal dessas hipóteses
é a independência entre os dados. Infelizmente, esta hipótese
não é satisfeita para alguns processos.
Como o objeto de estudo deste trabalho
é a aplicação das cartas convencionais, sempre que
for detectado a presença de dados autocorrelacionados a metodologia
estatística de avaliação da estabilidade apresentada
nesta parte do trabalho perde a sua validade, isto é, toda a proposta
de procedimento de implantação do CEP abordado até
este ponto não é apropriado. Logo, é necessário
realizar o estudo de autocorrelação dos dados que representam
o processo em conjunto a análise de estabilidade, para que seja
possível se decidir pela continuidade ou não da implantação
do CEP segundo este modelo .
Método de avaliação
da auto-correlação
Montgomery (1991, p.343-344) propõe
um método de avaliação da auto-correlação
entre dados. Para um processo com média m
e desvio padrão s
, uma característica da qualidade "Xt" pode ser expressa
por:
Xt = m
+ e
t
para
t
= 1,2,......
onde:
t – tempo no instante 1,2,....
e
t -
é
normalmente distribuído com média zero e desvio padrão
s
.
O processo será auto-correlacionado
se os valores de e
t
forem interdependentes, ao passo que se os mesmos forem independentes,
o processo pode ser considerado não auto-correlacionado. A correlação
de uma série temporal pode ser medida pela função
de autocorrelação:
r
k
= cov(Xt, Xt-k) / V(X) , para k = 0,1,2,...
onde:
cov(Xt, Xt-k) – covariância das observações em k períodos de tempo (ou lags)
V(X) – variância das observações,
assumida como constante.
A expressão anterior pode então
ser estimada por:
r
k
= S (Xt
–
) (Xt-k –
)
/S (Xt
–
)2,
para k = 0,1,2,...
Como regra geral para se estimar r
k
sempre
se usa poucos valores de k, em geral, k £
n/4, onde n é o número total de observações.
Na prática, muitos softwares
realizam este cálculo. Um desses, o MINITAB (1998, p. 7.37-7.39),
chega a fornecer a função de auto-correlação,
na forma gráfica, com intervalos de confiança. Além
disso, ele realiza um teste de hipóteses para as auto- correlações
tendo como hipótese nula que todas as auto-correlações
até a defasagem (lag) de ordem k são iguais a zero.
5.2.4.f – Exemplos
de avaliação da estabilidade
Exemplo 1- avaliação da estabilidade
em um processo de fabricação de motores elétricos
Este primeiro exemplo procura ilustrar
como a realização da etapa de avaliação da
estabilidade do processo, mais especificamente a revisão periódica
dos limites de controle, é essencial para a prática efetiva
do controle de processo. Este é um caso real ocorrido durante a
implantação de uma carta de controle em uma das empresas
visitadas.
Descrição do processo
Em um dos processos de fabricação
de motor elétrico decidiu-se pela implantação de uma
carta de controle por atributos (carta p) na característica "presença
de fio fora de ranhura". O macrofluxo produtivo do processo é demonstrado
na figura a seguir:
Figura 27 – Fluxograma do processo de fabricação do motor elétrico
A linha tracejada na figura delimita os processos produtivos sob autoridade da empresa, representados pelas etapas 2 e 3. Este tipo de defeito, que ocasiona a falha do produto final, é gerado na etapa 2 - seção motor. Nesta seção existe um ponto de inspeção no processo destinado a detectar a presença de fio fora de ranhura. Na etapa 3, seção montagem existe um painel que executa testes elétricos no produto final. A experiência demonstrava que quando os índices de rejeição aumentavam significativamente na seção motor, algumas peças defeituosas não eram detectadas, sendo então enviadas a seção montagem, pois o painel de testes desta seção acusava a presença de "fio fora de ranhura". Este fato de aumento da presença de defeitos no cliente interno é decorrente da baixa eficácia da inspeção visual 100%. Sabia-se também que quando os índices aumentavam era porque algum distúrbio no processo, passível de correção, ocorria. Logo, os objetivos da implantação da carta de controle eram a princípio:
Foi enviado ao processo cliente um lote
de motores defeituosos. O problema foi detectado entre as 13:30 h e 14:30
h do dia 08 de julho. Logo, devido a existência de estoque entre
processos, os motores foram produzidos entre as 06:00h e 08:00 h do mesmo
dia. Os dados referentes ao período de produção estão
dispostos a seguir:
Tabela 3 – Dados referentes ao defeito "fio fora de ranhura"
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O chefe da seção motor questionou
junto a equipe técnica porque o problema não foi detectado
dentro da sua seção. Teria a carta de controle indicado uma
provável anomalia no processo? A equipe técnica disponibilizou
a carta de controle para análise:
Figura 28 – Carta p para fio fora de ranhura (MINITAB, 1998)
As amostras relativas aos horários
de produção dos motores defeituosos são as correspondentes
ao números 28,29, e 30. A única causa especial é relativa
a amostra 25, sendo representada pelo número 1, que significa a
existência de um ponto de controle acima dos limites 3 sigmas. Em
relação as amostras 28,29 e 30, a principio, a carta de controle
não indica a existência de causas especiais, pois não
existem nem pontos fora dos limites ou nem configurações
não aleatórias. O chefe então questionou a eficácia
da carta de controle.
Análise do problema
A carta de controle tinha sido implantada recentemente. A etapa de estabilização do processo não tinha sido realizada. Logo, muitas causas especiais deveriam estar atuando no processo. Se o valor de "p" não era estável então os limites de controle poderiam não estar representando a realidade do processo, pois o cálculo destes dependem do valor da fração de defeituosos "p". Uma nova investigação permitiu identificar que os limites de controle foram estabelecidos com base em uma amostra padrão de 25 observações e não foram mais revisados. Logo, o procedimento mais correto seria realizar a revisão dos mesmos periodicamente até que fossem eliminadas todas as causas especiais que atuavam sobre o processo.
Uma análise da carta de controle
anterior indicava a existência de duas nuvens de pontos. Estas, na
carta de controle, eram representadas pelas observações de
número 5,7,24,25,26,28 e 29. Estas amostras indicavam que os índices
de rejeição estavam muito acima da linha média, apresentando
valores próximos superiores a 3% . A experiência demonstrava
que valores de rejeição dessa magnitude poderiam estar relacionados
a ocorrência de causas especiais. Logo, para uma situação
em que o processo fosse estável o limite superior de controle deveria
ser próximo a um índice de rejeição de 3%.
Os limites foram então recalculados sem as respectivas amostras:
Figura 29 – Carta p com limites de controle revisados para fio fora de, ranhura (MINITAB 1998)
Como pode ser observado, na figura anterior, 4 causas especiais foram então identificadas. Os números 1 e 2 indicam, respectivamente:
Exemplo 2: análise do banho de fosfato
Este segundo exemplo é relativo a um processo químico cujo característico de interesse é a acidez total de um banho. Neste exemplo temos um caso típico em que é controlada uma característica de qualidade do processo e não do produto. O principal objetivo deste exemplo é demonstrar como o uso das cartas de controle convencionais não são adequadas para analisar a estabilidade de processos auto-correlacionados.
As cartas utilizadas para o controle do processo são X-Am (valores individuais - amplitudes móveis). As amostras individuais são coletadas a cada 4 horas, aproximadamente. A análise da estabilidade realizada na época em que os dados foram coletados não foi conclusiva, justamente porquê se utilizou modelos de Shewhart e os dados dos processos não são independentes. Contudo, decidiu-se manter a carta para controle, pois a mesma indica quando é necessário alterar parâmetros do banho químico. Como será mostrado ao longo deste exemplo, outros modelos de carta de controle apropriados ao tratamento de dados auto-correlacionados, deveriam ter sido utilizadas.
Os setenta e dois dados, dispostos na tabela
5, são relativos a uma semana de operação do processo:
Tabela 4- Dados coletados para a avaliação da estabilidade de um processo químico.
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Como cada subgrupo é composto por
uma única observação selecionou-se a carta X-Am (individuais
– amplitude móvel) para análise dos dados:
Figura 30 – Carta X-Am para acidez total (MINITAB 1998)
Análise das cartas
As cartas de Shewhart indicam existir diversas
condições de instabilidade. Os números 1, 2 e 6, que
representam a possível presença de causas especiais, significam
respectivamente:
2 – Nove ou mais pontos seqüenciais de um mesmo lado (abaixo ou acima da linha média);
6 - Quatro entre cinco pontos distantes
mais de 1 sigma da linha média em qualquer um dos lados.
Uma investigação destes pontos
na carta X indicou que os mesmos eram relativos troca à do refinador
do banho. No entanto, esta é uma condição necessária
ao processo e portanto, apesar da carta X indicar condições
de instabilidade do processo, pode ser que estes dados não sejam
independentes e neste caso as cartas de Shewhart não são
as melhores ferramentas para se analisar a estabilidade do processo. Em
outras palavras, os pontos fora dos limites indicados nas cartas X-Am podem,
na realidade, não representar um processo fora de controle estatístico.
Logo, é necessário investigar se os dados são auto-correlacionados.
Para tanto, realizou-se uma análise da auto-correlação
dos dados, conforme é demonstrada a seguir.
Análise da autocorrelação
A análise da autocorrelação
foi realizada no software MINITAB (1998, p. 7.37- 7.39).. O mesmo possui
uma rotina específica para cálculo da auto-correlação.
O número de lags selecionados foi 14 (nº lags £
nº subgrupos / 4). A figura abaixo apresenta o gráfico da função
de auto-correlação:
Figura 31 - Função de autocorrelação para acidez total (MINITAB 1998)
Na tabela disposta logo abaixo do gráfico
anterior, o termo "corr" é a característica de interesse.
Como pode ser observado, as autocorrelações para os lags
1, 3 e 4 parecem ser significativas. Contudo, realizou-se um teste de hipóteses
para testar a significância destas autocorrelações.
Teste de hipóteses
O Minitab possui também uma rotina
específica para o teste de hipóteses aplicado ao estudo das
correlações. O teste abordado é o Ljung-Box Q (LBQ
test) para os 4 primeiros lags, em que:
H0: as autocorrelações até o lag n. 4 são iguais a zero
H1: as autocorrelações
até o lag n. 4 são diferentes de zero
Para estes valores o software determinou
um valor de:
Valorp = 0.0199816
Como valorp é menor que 0,05 pode-se rejeitar a hipótese Ho. Em outras palavras, pode-se dizer que existe correlação a um nível de significância de 5%.
Logo, para este caso específico,
as cartas de controle de Shewhart não são as melhores técnicas
estatísticas tanto para se analisar a estabilidade quanto para controlar
o processo. Portanto, outros mecanismos de análise, que não
são objetos dessa dissertação, deveriam ser utilizados.
Como já citado anteriormente, literaturas específicas tratam
da aplicação de cartas de controle para processos autocorrelacionados,
tais como Statistical Quality Control (MONTGOMERY, 1991) e Time
Series Analysis: Forecasting and Control (BOX and JENKINS, 1976).