4.1 Panorama Educacional em Santa Catarina
O governo federal enviou em 1995 para as unidades escolares, vários equipamentos de informática e de telemática para uso educacional através do Projeto "Kit Tecnológico". Em Santa Catarina, 1.061 escolas públicas do estado com mais de 100 alunos receberam Kits TV Escola (antena parabólica, aparelhos de TV , videocassete e suporte para vídeo e TV), para receber programas de capacitação de professores e programas para uso em sala de aula, como também material pedagógico de apoio através de revistas e fitas VHS. Receberam o Kit 265 escolas com menos de 100 alunos, totalizando 1.326 escolas que receberam o Kit TV escola completo. Um número de 379 escolas por enquanto já receberam aparelho de TV, videocassete e suporte, sem antena parabólica. Escolas com mais de 250 alunos estão recebendo laboratórios de informática, com sala equipadas com computadores.
No entanto, a oferta dos novos equipamentos não se apresentava como condição suficiente para estimular o seu uso por parte dos professores. A chegada dos equipamentos provocou, inclusive, o acirramento de posições em muitos professores que, pela falta de preparo adequado, chegaram a supor que seriam substituídos pelos equipamentos. Era freqüente a reação dos professores no sentido de condenar o uso das novas tecnologias em sala de aula, com argumentos variando desde o receio da perda da função por parte do professor, até a falta de conhecimentos operacionais e didáticos para o uso dos novos equipamentos. O resultado desse cenário era que, apesar dos índices estatísticos positivos quanto a distribuição dos equipamentos, os indicadores de uso eram precários e essa constatação apontava para uma necessidade urgente de providências para orientar os professores quanto ao uso das novas tecnologias, sob o risco de invalidar todo o investimento feito nos equipamentos e de ampliar de um modo crescente o distanciamento entre qualidade e ensino público no Brasil.
Para atingir o universo de professores da rede pública do estado para essa capacitação exigia-se um projeto capaz de atender a todos os professores , utilizando para recepção das aulas os Kits TV Escola já distribuídos pelo Governo Federal. Assim, ao mesmo tempo, os professores da rede estadual estariam utilizando efetivamente os equipamentos recebidos e, através deles, participando de um programa orientado para o uso educacional desses recursos, com perspectiva de uma política educacional com inovação tecnológica para a modernização da prática pedagógica do 1o. e do 2o. graus no sistema de ensino público de Santa Catarina.
4.2 Aspectos da Teleconferência
Diante desse cenário, o laboratório de Ensino a distância da UFSC apresentou um projeto para a Secretaria da Educação ( Tecnologias de Comunicação e Informação aplicadas à Educação, junho/96), formulando um plano de ação para desenvolver um programa orientado para os motivos do não uso dos recursos tecnológicos disponíveis através da educação a distância. Objetivava a formação e a capacitação dos professores da rede pública do estado para o uso das novas tecnologias em sala de aula através da educação a distância pela técnica de Teleconferência. Foi denominado de I Ciclo Catarinense de Teleconferências sobre Tecnologia e Educação. Este ciclo foi produzido pela necessidade de inserir os professores no ambiente tecnológico, para conhecer e debater sobre a fundamentação e adequação entre conteúdo e mídia, como também de utilizar o investimento em tecnologia que o Governo Federal tem feito chegar até as escolas da rede pública. Foi escolhida a modalidade de ensino a distância através da técnica de teleconferência que se adequava àquela situação.
A primeira teleconferência de alcance nacional produzida pelo Laboratório de Ensino a Distância foi sobre o uso de novas tecnologias no ensino da engenharia, inaugurando o programa REENGE ( Reengenharia do Ensino de Engenharia) em transmissões por satélite. Realizada ao final de março de 1996, a teleconferência mostrou, ao vivo, a interação em estúdios da UFSC em Florianópolis, e da UFRN, em Natal. O sinal foi transmitido pelo satélite Brasil Sat B-1, com captação em todo o país.
A Teleconferência consiste na geração via satélite da apresentação de expositores com a possibilidade de interação da audiência através de chamadas telefônicas e fax e e-mail. A transmissão pode ser feita por sinal aberto ou codificado para recepção por antena parabólica ou emissora de sinal aberto.
Através de antena parabólica e aparelhos de TV convencionais,
a modalidade de teleconferência permite alcance simultâneo
em todo o território brasileiro, através da utilização
de canais do satélite Brasilsat B-1. As transmissões devem
ser feitas a partir de um estúdio de TV, que envia o sinal da programação
até a estação mais próxima da EMBRATEL (Empresa
Brasileira de Telecomunicações), que joga o sinal para o
satélite, de onde é refletido. Os usuários (receptores)
das teleconferências podem interagir ao vivo, com o estúdio
gerador, encaminhando perguntas ou comentários por e-mail, fax ou
telefone. A Figura4 mostra o sistema de Teleconferência.
Figura 4 : Sistema de Teleconferência
Na Figura 4 é mostrada a técnica da teleconferência, que consiste na geração por satélite de sessão "ao vivo" de apresentação de um ou mais expositores, com horário e tema pré-determinados. A transmissão pode ocorrer por sinal aberto ou codificado, a recepção por antena parabólica, dependendo do canal utilizado para a geração. O conferencista fica em um estúdio de televisão e fala "ao vivo" para a audiência, que recebe a imagem em um aparelho de TV comum conectado a uma antena parabólica sintonizada em um canal pré-determinado. É possível agregar imagens pré-produzidas em vídeo, computador, etc., como se fosse um programa de televisão.
4.3 Objetivos e descrição do ciclo
A Secretaria de Educação e do Desporto (SED) do Estado de Santa Catarina tinha em seu cenário educacional de1996 diversos perfis de usuários quanto ao uso do Kit TV Escola.
O Laboratório de Ensino a Distância da UFSC, ao elaborar o projeto do Ciclo das Teleconferências para a SED, trabalhou com o conceito de qualidade, ou seja, tinham o produto, mas não era utilizado. O formato final do projeto incentivou o produto adequado ao uso ao despertar para a possibilidade e a concretização de ensino a distância como formação de professores e para o despertar da tecnologia e o seu uso, como também a aproximação da UFSC com as escolas (a sociedade). A iniciativa de aproximação entre a UFSC a SED, deve-se também pela criação da Rede Catarinense de Tecnologia, aproximando universidades, objetivando reduzir barreiras e distâncias.
O desenvolvimento do ciclo deu-se através da produção e transmissão de dez (10) aulas por teleconferência, cada uma com duas (02) horas de duração, de agosto a outubro/96. A geração foi a partir de estúdio na cidade de Florianópolis e a transmissão pelo satélite Brasilsat. A recepção foi organizada em 1.326 escolas públicas, equipadas com o Kit TV Escola. Nas unidades escolares, os professores organizaram grupos de até dez (10) profissionais da educação (entre professores e especialistas (supervisores e orientadores educacionais), totalizando 7.750 pessoas. As escolas organizaram ficha de freqüência, para um acompanhamento do número de professores que estavam assistindo "ao vivo" as teleconferências.
O desenvolvimento do I Ciclo Catarinense de Teleconferências sobre Tecnologia e Educação abordou as seguintes temáticas, representada pela Tabela a seguir:
Tabela 12: Temáticas do I Ciclo Catarinenese de Teleconferências
| DATA | TEMÁTICA |
| 02/08/96 | Tecnologia e Educação |
| 09/08/96 | TV Escola e a Capacitação de Professores |
| 13/08/96 | O Professor do Futuro |
| 22/08/96 | O Professor Frente as Novas Tecnologias de Comunicação |
| 30/08/96 | Do quadro Negro à Realidade Virtual |
| 02/09/96 | O Uso Educacional do Computador |
| 11/09/96 | Ensino a distância e Produção do Conhecimento |
| 18/09/96 | O Uso da Internet na Escola |
| 27/09/96 | O Papel da TV na Sala de Aula |
| 01/10/96 | Educação e Novas Tecnologias de Comunicação |
Transmissões realizadas pelo satélite Brasilsat B-1, freqüências 3.910 e 3.930
A Tabela 12 mostra as temáticas propostas para a apresentação do ciclo de formação de professores quanto ao uso das novas tecnologias. O I Ciclo Catarinense de Teleconferências sobre Tecnologia e Educação teve a seguinte estrutura: Apresentação dos conferencistas (2 professores da Universidade Federal de Santa Catarina e 2 professores da Secretaria do Estado da Educação e do Desporto como Debatedores). O debate de cada conferência incluía a apresentação de uma matéria, envolvendo a participação das escolas públicas do estado sobre a temática daquele dia com duração de 05 (cinco) minutos. Por exemplo: A matéria da temática : "Do Quadro Negro à Realidade Virtual" fez um relato desde as escritas em paredes de pirâmides do Egito até chegar as cenas do simulador no laboratório de realidade virtual. As matérias apresentaram reportagens especiais mostrando situações reais do uso pedagógico das tecnologias apresentadas, enfatizando as vantagens proporcionadas e as dificuldades encontradas. Todas as matérias envolviam a participação das escolas do estado, através de cenas e reportagens com alunos e professores sobre o uso das tecnologias no decorrer dos tempos.
Na primeira teleconferência (Tecnologia e Educação) - foram debatidas as questões da tecnologia e seu uso, como também a criação da Rede Catarinense de Ciência e Tecnologia - Programa de Ensino a distância, que vem interligando universidades e fundamentalmente no programa de teleconferência, aproximando universidade e escolas, cumprindo assim o papel com a sociedade. Nesta teleconferência, os professores das 1.326 escolas, puderam interagir sobre a proposta da necessidade de capacitação tecnológica através da educação a distância.
A segunda teleconferência (TV Escola e a Capacitação dos Professores) - mostrou como os professores efetivamente vêm utilizando os meios tecnológicos existentes e possibilidades de futuro. Questões como o uso da tecnologia para crianças em idade escolar e programa para crianças deficientes, bem como a valorização do professor, em detrimento da substituição do professor, foram questões amplamente debatidas.
A terceira teleconferência (O Professor do Futuro) - questionou-se sobre a tecnologia e a valorização do homem, onde a capacitação contínua é necessária para que o professor do futuro não seja um analfabeto do futuro; ele deve ser capaz de ler as imagens geradas pelos meios tecnológicos.
A quarta teleconferência (A Arte do Professor e a Comunicação) - colocou o uso da criatividade para motivar as aulas, onde as novas tecnologias deverão estar ligadas ao currículo, dentro de uma proposta curricular clara a uma estratégia pedagógica. Técnica é o suporte e exige conteúdo. A quinta teleconferência (Do Quadro Negro à Realidade Virtual) - resgatou os meios audio-visuais, onde o importante é preencher o vazio que há entre o quadro negro e a realidade virtual, superando práticas antigas e ultrapassadas. A mudança deve ser não apenas na mudança de tecnologia, mas na mudança de postura. O papel do educador agora é assumir todas as posições: mediador, facilitador, fazer tudo; menos se omitir, pois o futuro da educação é uma aposta na tecnologia.
A sexta teleconferência (O Uso Educacional do Computador) - mostrou que a escola não deve ser transformada em escola de informática. O mais importante é que o computador esteja integrado às atividades da escola. A sala de informática é uma complementação da sala de aula. A sétima teleconferência (Ensino a distância e Produção do Conhecimento) - estruturou a discussão sob o foco da construção do conhecimento e da motivação, pois aprender a receber o conhecimento é fundamental. Toda informação da tecnologia pode ser produzida na interação do processo pedagógico e ser capaz de elaborar a possibilidade de ação.
A oitava teleconferência (O Uso da Internet na Escola) - colocou que o professor terá que assumir um novo papel e buscar novas soluções. É necessário percepção e interação. A Internet criou uma teoria de múltiplos conhecimentos.
A nona teleconferência (O Papel da TV na sala de aula) - mostrou que deve haver uma interrelação entre a escola e a cultura de massa. A tecnologia entra para a melhoria da educação. O que se espera da escola é que ela forme um cidadão crítico, trabalhando com os meios tecnológicos e partindo da informação para a formação.
A décima teleconferência (Educação e Novas Tecnologias da Comunicação) mostrou que a tecnologia é um meio e um processo irreversível. Não podemos voltar atrás, nem ficar de fora. Deve haver uma formação contínua. Primeiro, preparar bem os professores, depois levar para a sala de aula, para não formar analfabetos tecnológicos. Há necessidade agora de alfabetização digital.
Durante as conferências chegavam em média 30 perguntas do estado de Santa Catarina, como também de outros estados. O número maior de perguntas e comentários durante as conferências foi na Temática: Do Quadro Negro à Realidade Virtual, que recebeu 53 questões, interagindo através do telefone ou fax durante 120 minutos (02 horas). As questões eram agrupadas pela equipe pedagógica do Laboratório de Ensino a distância, de maneira que todas fossem debatidas.
A metodologia da teleconferência é comparada por Moore (1997) igual à uma pirâmide, pois os professores tem a possibilidade de construir o seu conhecimento e testar seus conhecimentos de cima para baixo e de professor para professor. A metodologia centrou não somente na informação, como também na formulação de perguntas dos professores, pois se cada grupo de professores formulavam cada vez mais perguntas para cada teleconferência que era transmitida, eles mesmos podiam testar seus conhecimentos. "Se o indivíduo tem necessidade de perguntar depois de uma aula, é porque ele aprendeu", segundo Moore (1997), em palestra no I Workshop de Avaliação Multimídia em Florianópolis/SC. Isto quer dizer que os grupos de professores reunidos geograficamente transformaram a informação recebida em conhecimento produzido. A informação é a metade do processo educacional. É apenas um dos lados. O conhecimento era produzido constantemente, a medida em que o programa recebia de maneira crescente as perguntas e os comentários.
Pode-se concluir que a metodologia utilizada para a modalidade de teleconferência pressupõe a filosofia de Freire, onde os pressupostos da Teoria Dialógica como a colaboração; união; organização e síntese cultural puderam ser vivenciados a partir do momento em que os professores se organizaram em suas respectivas unidades escolares, de cada região do estado de Santa Catarina, para assistirem "ao vivo" as teleconferências e interagirem através da formulação de perguntas ou comentários. Utilizando a modalidade de ensino a distância, como um meio de comunicação e informação sobre o uso das novas tecnologias em sala de aula; pode-se dizer que os pressupostos da "teoria dialógica" foram considerados. O texto produzido pelos professores sobre Tecnologia e Educação remete-se à síntese cultural.
Este capítulo descreve a modalidade de ensino a distância através da teleconferência no programa intitulado I Ciclo Catarinense de Teleconferências; onde os pressupostos tecnológicos estão intimamente ligados aos pressupostos filosóficos. Transmitir determinada informação implica transformar essa informação para a formação do usuário.
4.3.1 O Modelo pedagógico do ciclo de teleconferências
O ensino a distância, através das teleconferências sobre Tecnologia e Educação ocorridas em Santa Catarina, trabalhou com as diferentes concepções de aprendizagem descritas no capítulo anterior.
Os professores palestrantes desta modalidade de teleconferência eram do Centro Tecnológico e do Centro de Educação da UFSC e os debatedores eram da Secretaria de Estado da Educação e do Desporto. A secretaria de educação trabalha com os pressupostos filosóficos e metodológicos da pedagogia histórico-cultural, portanto a participação desses professores tinham uma concepção do tipo construtivista. Os professores do Centro de Educação tinham diferentes modelos de aprendizagem e portanto se colocavam com o modelo que mais se adequava à situação. Os professores do Centro Tecnológico tinham diferentes posturas de ensino, desde a conservadora até a construtivista; porém muito mais inovadora quanto a questão tecnológica.
Pode-se dizer que o desenvolvimento do I Ciclo Catarinense de Teleconferências
sobre Tecnologia e Educação deu-se portanto na colaboração,
à medida que os profissionais debatiam e construiam novas estruturas
de conhecimento. Deu-se também na união e na organização,
já que os professores estavam nas unidades escolares participando,
elaborando perguntas e enviando para o programa, a fim de darem contribuições
significativas para o desenvolvimento do conhecimento. A síntese
cultural veio da elaboração dos textos pelos professores
sobre a realização do ciclo. Portanto, apresentou características
da teoria dialógica de Freire.