1 INTRODUÇÃO

A queda nos preços das tecnologias de comunicação, o avanço da informática, a globalização da economia e a facilidade de acesso ao conhecimento tanto no âmbito local quanto global, vem alterando de forma significativa e acelerada as relações entre os países, as empresas, a comunidade científica e as instituições em geral.

Os reflexos da incorporação destas tecnologias no cotidiano de um universo cada vez maior de pessoas em diferentes cenários e com diversas expectativas vem modificando as relações de poder dentro dos grupos, entre as instituições e criando uma diversidade de aplicações que eram impensáveis até há pouco tempo.

Esta sociedade, onde os paradigmas não são mais estanques, se desenrola em um movimento contínuo, apesar de desigual. A diversidade da qualidade de vida e acesso à tecnologia vai do neolítico à realidade virtual, sendo que estes ambientes convivem ao mesmo tempo a poucos quilômetros de distância um do outro.

A competitividade acirrada, que é outra característica da globalização, requer constante atualização e reciclagem dos trabalhadores e pesquisadores. Uma das conseqüências deste cenário é uma nova dimensão na área do conhecimento. O uso das "novas tecnologias" a serviço da educação permite que um universo cada vez maior de pessoas tenha acesso à informações a uma velocidade que se aproxima do instantâneo.

Lévy (1995, p. 54) descreve com objetividade "as pessoas não apenas são levadas a mudar várias vezes de profissão em sua vida, como também, no interior da mesma "profissão", os conhecimentos têm um ciclo de renovação cada vez mais curto". Visser (1997) aborda o mesmo tema afirmando

Bates mencionava em 1993 a necessidade de educação e treinamento ao longo da vida profissional, devido à rapidez das mudanças no trabalho e na sociedade em geral. Miller chama de empowered student o que ele previa, em 1992, que fosse o aluno do início do próximo século no qual os estudantes controlam o tempo, lugar e ritmo de estudo. A comunicação com colegas e professores será facilitada e o estudante terá mais autonomia sobre o conteúdo e seqüência do material a ser estudado.

A demanda por conhecimento e atualização deve continuar em ritmo cada vez mais acelerado, mesmo considerando-se diferentes necessidades e velocidades em vários contextos e em diversas áreas de conhecimento. A tendência geral é o aumento do consumo de informações.

O cenário de busca constante de atualização e tecnologia que possibilite aumentar sempre a quantidade e velocidade das fontes de informação convive com ilhas de analfabetismo, com cerca de 1 milhão de pessoas iletradas no planeta e mais de 130 milhões de crianças em idade escolar fora das salas de aula (Visser, 1997).

O sistema educacional tradicional não conseguia atender satisfatoriamente (salvo em contextos com alta renda e estabilidade) a demanda por educação mesmo antes da globalização. Com o aumento do número de anos e períodos que os alunos precisam permanecer estudando para competirem no mercado de trabalho, é difícil supor que a estrutura de educação presencial esteja apta a atender à todos que buscarem seus serviços.

O Brasil apresenta enorme diversidade de estágios de desenvolvimento e necessidades na área da Educação; Barcia (1996) aponta a Educação a Distância como uma alternativa viável para a melhoria em qualidade e aumento da quantidade de atendimento na educação do país.

Viabilizar a modalidade de Educação a Distância - ED - no Brasil, onde a diversidade de contextos e experiências fracassadas criaram uma imagem de descrédito e resistência, implica em trabalho meticuloso de pesquisa e avaliação das iniciativas, na busca da estruturação de modelos que sejam adequados à realidade brasileira e que consolidem a ED enquanto prática educativa.
 

1.1 Objetivos

O objetivo geral deste trabalho é a elaboração de um modelo de avaliação que seja abrangente para considerar o processo da construção e aplicação de um curso de educação a distância como um todo, incluindo o maior número possível de variáveis que influenciam o nível de adequação ao público envolvido, a identificação dos benefícios alcançados com o programa e dos pontos de ajuste necessários.

O objetivo específico foi a criação de um modelo que seja flexível, permitindo aplicação em vários cursos, proporcionando uma abordagem uniforme e, portanto, passível de comparações, aos vários formatos possíveis de cursos a distância. Além disso, o modelo deve proporcionar informações sólidas e confiáveis, que permita sua utilização como ferramenta de apoio a decisão para investimentos financeiros significativos e procedimentos a longo prazo. O modelo deve ser de fácil aplicação e abranger um número expressivo de variáveis, dada a complexidade da atividade. As variáveis são interdependentes e a possibilidade de distinguir pontos onde são necessários pequenos ajustes e pontos onde mudanças mais profundas são essenciais também é fundamental.

O modelo de avaliação é centrado no curso e identifica a adequação das mídias e da estratégia pedagógica ao diagnóstico inicial, os procedimentos de recepção e o nível de satisfação com o design e a estética do curso.
 

1.2 Origem do Trabalho

A origem desta pesquisa a nível de dissertação é conseqüência do trabalho desenvolvido pelo Laboratório de Ensino a Distância (LED) do Programa Pós-Graduação da Engenharia de Produção (PPGEP) da Universidade Federal de Santa Catarina, que desde 1995 vem desenvolvendo uma linha de pesquisa enfocada nos cursos de mestrado, capacitação e atualização para vários públicos e utilizando diversas tecnologias (mídia e conhecimento).

Os acadêmicos envolvidos no Laboratório e nos projetos utilizam os cursos para estudos de caso tanto para o desenvolvimento de teses e dissertações, pois um dos objetivos do programa é refinar a fundamentação teórica e acadêmica necessária para a área de concentração de Mídia e Conhecimento:

Dentre os vários cursos produzidos pelo LED no ano de 1997, destacou-se o curso de capacitação em Contabilidade de Empresas modulado para o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), pelo atendimento de 2.500 alunos em 527 cidades em todos os estados do Brasil. Sendo implementado entre julho e agosto de 1997. O IBGE gentilmente concordou sobre a utilização dos dados para efetivar o estudo de caso.
 

1.3 Apresentação do Tema

A Educação a Distância não é uma prática recente no contexto internacional, existindo hoje instituições conceituadas com milhares de alunos a distância, em cursos de graduação e mestrado utilizando diversas mídias e estruturas (Moore e Kearsley, 1996).

No Brasil, desde a fundação do Instituto Rádio Monitor, em 1939, várias experiências foram iniciadas conforme mencionado por Nunes (1992), mas nenhuma consolidou um sistema de ensino baseado nesta modalidade. A maioria dos cursos teve uma intervenção governamental acentuada, trazendo os componentes ideológicos dos regimes vigentes (Alonso, 1996). Entretanto, chama a atenção um traço constante: a descontinuidade dos projetos, principalmente os governamentais (Nunes, 1992).
 

1.4 Importância

As iniciativas em Educação a Distância no Brasil têm poucos relatos de histórico e avaliação. O Laboratório de Ensino a Distância do PPGEP tem se preocupado em registrar e avaliar os cursos que produz e esta dissertação é parte desta estratégia. O conhecimento acadêmico é utilizado na modelagem dos cursos, que por sua vez são acompanhados e avaliados, originando artigos, teses e dissertações, estabelecendo um ciclo de pesquisa e aplicação dos conhecimentos.

Em se tratando de uma área recente no Brasil, a importância de rigoroso acompanhamento e avaliação são necessários tanto para o aprimoramento das técnicas e metodologias utilizadas, como também para a consolidação e credibilidade da própria Educação a Distância no Brasil.

O modelo de avaliação apresentado pode e sugere-se que seja aplicado à outros cursos, eis a preocupação pertinente na construção de uma estrutura flexível que permita a utilização por outras iniciativas, colaborando para um trabalho que sirva de referência para novas pesquisas a serem desenvolvidas na área de Mídia e Conhecimento - Educação a Distância.
 

1.5 Estrutura

Esta dissertação está estruturada em 6 capítulos. No primeiro capítulo encontra-se a Introdução do tema. No segundo capítulo, considerada a primeira parte da revisão bibliográfica referente aos aspectos históricos internacional e brasileiro, os conceitos e definições de líderes e instituições na área do ensino a distância, considerando as principais universidades que utilizam Ensino a Distância e seu modus operandi, cursos e alunos envolvidos, dimensionando a importância da área no cenário mundial. Finalizando sobre a situação da Legislação brasileira que aborda a educação a distância.

No capítulo 3 a revisão está centrada nas questões operacionais características da Educação a Distância, como um curso é estruturado, qual o diagnóstico pertinente, quais as mídias e as estratégias pedagógicas utilizadas, chegando à análise do planejamento, da produção de materiais, da implementação e da avaliação propriamente dita.

No capítulo 4 é apresentado o modelo de avaliação, que é a diretriz principal deste trabalho, justificando a proposta com a análise dos objetivos gerais da avaliação na Educação a Distância, as várias escolas pedagógicas, as mídias utilizadas, os processos e os critérios existentes.

O quinto capítulo refere-se a aplicação do modelo proposto. Estando estruturado primeiramente a descrição do curso, a seguir o enfoque metodológico e operacional da pesquisa, e em seguida a aplicação do modelo no curso Contabilidade de Empresas, partindo do diagnóstico, análise e apresentação dos resultados da avaliação de cada item específico e síntese do geral.

No sexto capítulo estão as conclusões e recomendações da pesquisa, e finalizando no capítulo 7 estão as fontes bibliográficas utilizadas nesta dissertação.