A Análise Transacional é uma filosofia humanística que pode ser resumida na frase "Eu estou OK e você está OK". É uma teoria da psicologia individual e social. Consiste num conjunto de técnicas destinadas a ajudar as pessoas a compreender e modificar seus sentimentos e comportamentos. É também uma filosofia de vida, uma tomada de posição quanto ao ser humano. Um conjunto de técnicas de mudanças positivas. Se constitui em um modelo prático e útil para se modelar as relações entre "organismos" porque é fácil de aprender; permite que as pessoas se comuniquem numa linguagem fácil e compreensível; possibilita uma melhor compreensão de si mesmo, dos outros e das transações; permite melhor integração social; permite um tipo de auto avaliação sem maiores riscos e é um método para analisar não apenas pessoas mas também roteiros de vida.
A Análise Transacional (AT) é uma teoria do desenvolvimento do comportamento nada complexa. É chamada de Análise Transacional por tratar do relacionamento humano como sendo composto, basicamente, de "transações", uma palavra de amplo uso no campo comercial e organizacional; "transação" implica na troca de bens e serviços entre duas ou mais pessoas. Na AT a "transação" tem essa conotação, pela qual "eu lhe dou alguma coisa, e você me dá alguma coisa em troca".
Em AT, uma "transação" é na verdade, qualquer "movimento ou ação que uma pessoa empreende no seu relacionamento com os outros, provocando outro movimento ou ação de volta".
A teoria fundamental da AT foi escrita por Eric Berne, psiquiatra canadense (1910-1970). Os tijolos que constróem a AT são os estados de ego que são, de acordo com Berne, (1961), as posições psicológicas tomadas pelo indivíduo e que são fenomenologicamente observáveis.
Os instrumentos que são utilizados pelos especialistas em Análise Transacional, são os seguintes:
Numa análise de primeira ordem os componentes estruturais da personalidade, segundo o modelo da AT são: Estado de Ego Pai; Estado de Ego Adulto; Estado de Ego Criança. Alguns autores preferem uma terminologia diferente. Chamam de exteropsique ao identificador-(Pai), de neopsique ao processador de dados-(Adulto) e de arqueopsique à Criança.
Figura 04 – Esquema da Personalidade (Fonte: Fialho)
O que move a criança é o que lhe dá prazer aos sentidos ou o que lhe traz prazer pelas ações. É a criança sensório motora de Piaget se manifestando mesmo em velhotes de noventa anos. Um pai é, ao mais das vezes, um moralista sisudo, torcendo o nariz toda vez que a criança faz uma travessura. O Adulto processa as informações internas e externas. Não pensa, computa! A forma como a pessoa vai agir dependerá do Estado de Ego que estiver no comando.
A criança diz "Eu quero!"; o pai diz "Eu devo!"; e um adulto bem construído toma as decisões, explicando-as carinhosamente à criança e justificando-as com rigor ao pai.
O adulto transmite informação do ambiente ou do próprio organismo para a criança que experimenta sentimentos.
Para o Estado Ego Criança, teríamos:
Uma pessoa está em sua "criança"quando pensa, sente, fala ou age como fazia em sua infância. Por exemplo, se um funcionário se inibe, se assusta, diante de um gerente autocrático, autoritário, não passa a ser uma criança, mas está inibido, assustado, como se estivesse diante de uma figura ameaçadora de sua infância. Este gerente "fisga" a criança assustada.
Segundo Kertész, (1987) a criança é o primeiro Estado de Ego a existir. Por volta dos 2 anos se distingüe o esboço do adulto e logo após, o Pai. A criança é componente biológico da personalidade. A aprendizagem é aliada da criança. Seu pensamento é mágico, crédulo, sugestionável, detém a curiosidade, a criatividade, a intuição, a telepatia. Nele está o conceito "sentido" da vida. Transmite muitas mensagens não verbais com o tom da voz, gestos, a cor da pele, a respiração, de poderosos efeitos na comunicação. Através dela podemos chegar à criança dos outros.
Criança da Criança (C1)
Chamada também de primeira criança ou criança somática, (0 a 8 anos), se caracteriza pela intuição, criatividade artística e científica, curiosidade, pensamento mágico, não lógico, que captaria totalidades e perceberia diferenças sutis. É a fonte de sentimentos não censurados, de necessidades e todas as gravações em fita de experiências passadas (amamentação, masturbação). No caso de "seres coletivos", seria a memória da organização arquivada do ponto de vista emocional (sua experiência passada, suas glórias, sua criação, missão original, etc).
Adulto da Criança ( o Pequeno Professor)
Se caracteriza por sua impressionante capacidade de percepção (dos 3 meses ao fim da vida). Sabe porque sente, tem empatia e intuição que se manifestam na forma de curiosidade e criatividade. É a sede do raciocínio indutivo e criativo. Nas organizações, por exemplo, estariam representadas pelas soluções não convencionais que, esgotadas todas as alternativas lógicas, resolveram problemas reais da organização.
O Pai da Criança (Elétrodo)
Grava os nãos que recebe. Pode ser dividido em dois, um que imita e outro que grava as mensagens. Quem é mandão, pomposo, é o Pai da Criança.
Figura 05 – Análise Estrutural de Segunda Ordem (Fonte: Fialho)
Para o Estado de Ego Adulto teríamos:
Todos os estados de ego são como computadores mas o "Adulto" o é por excelência. É lógico, tranqüilo, sem emoções, baseia-se em dados da realidade, o que convém e o que não convém. O hemisfério esquerdo opera como o racional, o lógico, faz os cálculos, traços característicos do adulto. O hemisfério direito, processa as imagens, os sonhos, a captação global, o criativo, o artístico. Esta é a criança. A criança compõe a música, o adulto escreve.
O Adulto recebe informações internas e externas a ele, analisa-as, compara-as, digitaliza-as, de acordo com seu banco de dados e toma decisões. O adulto escolhe o que "convém", o Pai, "o que deve fazer" e a Criança "o que gosta de fazer".
O Estado de Ego Adulto é, portanto, a parte que pensa, armazena e retira dados e se comporta de um modo não emocional.
Acontecem muitos diálogos internos entre o Pai, o Adulto e a Criança. É muito freqüente a influência do Pai na Criança, tanto positiva quanto negativamente sem que isso passe à consciência do adulto.
Segundo Kertész (1987), é um reservatório ou depósito de normas, valores, preceitos e modelos de conduta. Tem como fontes principais abastecedoras o pai e a mãe ou seus substitutos (familiares, professores, amigos, figuras de autoridade e importância na infância). Personagens da história ou da própria televisão podem também ser gravadas.
Ao Estado de Ego Pai estão associadas as normas, regras do jogo e valores (o que é desejável, valioso, moralmente aceitável), servem de guia e orientação.
A política de crédito num banco, por exemplo é estabelecida pelo Pai da empresa. O Adulto dos empregados opera em cada caso, seguindo estas normas.
Quando as pessoas possuem um Adulto bem desenvolvido, em comunicação livre com o Pai interno, qualquer juízo de valor ou norma pode ser revisada ou até mudada.
As mensagens parentais podem ser verbais e não verbais (imagens, olhares, gestos, posturas). São formadas, portanto, pelas incorporações dos verdadeiros pais e figuras parentais, mais aquilo que o indivíduo aprendeu e aceitou de atitudes parentais vindas de qualquer fonte. As pessoas se comportam exteriormente de modos similares aos dessas figuras parentais e também dão a si mesmas, em suas mentes, mensagens parentais sobre comportamento, pensamentos e sensações, mensagens que tomaram de outras pessoas, bem como mensagens inventadas quando não havia pais.
O Pai do Pai: tradição, credos, rituais, moral, autoridade.
O Adulto do Pai: mensagens racionais que incorporamos de outras pessoas.
A Criança do Pai: que incorpora a criança de nossos pais (que era a dos nossos avós, bisavós, etc), suas alegrias, medos, comportamentos irracionais, etc.
O critério adotado pela Criança para que novas informações venham compor o seu Estado de Ego Pai se sustentam em: vulnerabilidade do eu, poder da figura parental e credibilidade da figura parental. Cada geração se transplantando para a seguinte num repetir sem fim.
A análise da estrutura parental permite detectar a transmissão das "psicopatias" culturais. O roubo entre os ciganos, a caça à cabeças no Amazonas, etc podem ter todos a mesma estrutura. Daí a importância de estudarmos a história. Afinal, incorporamos esses padrões ao nosso comportamento.
As Patologias Estruturais são a Exclusão; quando só se usa um determinado ego (80% do tempo) e a Contaminação; quando o Adulto acredita que os preconceitos do Pai ou a magia da Criança sejam verdadeiras.
Contaminação: É a intrusão de informação que procede do pai ou da criança, e que interfere no adulto, faz com que o adulto não acredite que tal informação não é real e que no entanto não a verifique.
Exclusão: É o emprego rígido e constante de um dos estados de Ego. Os outros permanecem excluídos, como se não existissem.
O pai constante e exclusor exclui o adulto e a criança. Critica constantemente, faz sermão, se ocupa em ajudar e proteger.
Adulto exclusor, exclui o pai e a criança, responde de maneira fria e irracional, ao invés de defender valores, interessar-se pelo bem estar alheio, ou demonstrar emoções. Podemos citar aqui como exemplos: alguns engenheiros, matemáticos, etc.
Criança exclusora, exclui o pai e o adulto. Diante de certas eventualidades se retrai, briga, comporta-se como uma criança pequena.
Pai e adulto exclusores, excluem a criança. São as pessoas que controlam, trabalham, mas não se divertem, não gostam de nada, nem mostram emoções.
Pai e criança exclusores, excluem o adulto. Dificuldade para entrar em contato com a realidade, pensar por si, logicamente. Apresentam respostas rígidas e estereotipadas, critica os demais.
Adulto e criança exclusores, excluem o pai. Fazem o que lhes convém (adulto) e o que gostam (criança) sem ajustar-se a valores superiores ou normas de convivência.
É bom lembrar que os estados de ego excluídos permanecem disponíveis. Não são utilizados em função de nossa educação, ou seja, de nosso mapa mental.
4.2. Análise Funcional da Personalidade
É assim chamada por analisar como funcionam, como se manifestam os Estados de Ego, para "fora" quando falamos ou atuamos.
Transmitimos nossas mensagens através de sinais verbais e corporais. Estas mensagens podem ser congruentes ou incongruentes; simultâneas ou sucessivas. Consideramos que o comportamento possa se expressar de doze formas diferentes;
Sinais do Comportamento Verbal (linguagem):
Quando os sinais da conduta observada coincidem com a mensagem estamos em congruência, estamos congruentes com a mensagem que queremos transmitir. Quando estes sinais conduzem à mensagens diferentes dizemos que estamos incongruentes. Muitas vezes transmitimos uma mensagem verbalmente e outra através do corpo.
Isto demonstra que nossas partes internas, nossos Estados de Ego discordam de alguma forma e o demonstram através da incongruência de sinais.
Esta pode manifestar-se: Simultaneamente, quando dois ou mais sinais de comportamento transmitem diferentes informações ao mesmo tempo. Se em uma reunião, digo que podem prosseguir que estou calmo, mas, ao mesmo tempo fico roendo as unhas, agitando as pernas, batendo a caneta, etc. Quando passo a a notícia triste e fico rindo. Sucessiva, quando há lapso de tempo entre os dois comportamentos incongruentes. Por exemplo, preciso demitir uma pessoa que não vem atendendo as necessidades da empresa e o faço no meu Estado de Ego adulto, depois me chateio, fico aborrecido e deprimido.
Berne (1961), define os estados do ego associando-os às transações pelo conteúdo das mensagens, da seguinte forma:
As Patologias Funcionais que podemos associar a esses comportamentos são:
Os Estados de Ego podem ser representados graficamente através de egogramas. Um egograma é portanto uma representação gráfica dos estados de ego empregados, tanto quando o indivíduo ou organização estão funcionando OK como NOK.
Os Estados de Ego estabelecem comunicação entre si. Esta comunicação acontece, geralmente, entre os Estados de Ego Pai e Criança e são captados pelo Adulto. A esta comunicação dá-se o nome de "diálogos internos". Estes se repetem, várias vezes ao dia, inclusive durante o sono. Podem estar OK ou NÃO OK reforçando o bem estar ou a patologia psíquica. Através do diálogo interno nos apoiamos ou nos punimos, nos rebaixamos, nos assustamos.
Quando falamos em comunicação é importante que se tenha consciência destes diálogos internos que constituem a nossa comunicação intrapessoal, pois, antes de nos comunicarmos bem com os outros é importante, que saibamos nos comunicar conosco mesmos, que saibamos usar nossos diálogos internos a nosso favor. A compreensão dos diálogos internos facilita a compreensão de certos comportamentos aparentemente incompreensíveis.
É importante que se saiba definir o uso OK dos Estados de Ego, bem como a percentagem de tempo em que usamos corretamente os componentes funcionais do Ego. Definimos, Catexia como os estados de energia psíquica associados aos diferentes Estados de Ego e que pode ser passiva (potencial) ou ativa (cinética ou livre). A ativa pode fluir de um Estado de Ego para outro. O Ego que estiver mais energizado é o que se manifesta.
Dentro deste enfoque temos, a cada momento:
Para Kertész (1987), transações são trocas de estímulos e respostas entre os estados de Ego específicos de diferentes pessoas.
Em português, neste caso, a palavra
mais comum usada é "interação". Em AT usa-se
a palavra "trans-ação", ou seja, uma ação
(estímulo) e uma reação (resposta). Não havendo
resposta, não existe transação. A falta de uma resposta
não é uma resposta para a AT. Não responder é
uma opção ante um estímulo dado. É impossível
não comunicar-se, a não resposta, também, comunica,
mas para que haja uma transação, deve haver uma resposta
observável ou gradual: verbal, gestual, escrita. O esquema de Berne,
com os três Estados de Ego, permite, uma melhor compreensão
das comunicações interpessoais; sua diagramação,
análise e a escolha da melhor resposta em cada situação.
Não importa o que se comunique (qual seja o conteúdo da comunicação),
mas as "estações" (os Estados de Ego) que transmitem
as mensagens. Assim, um mesmo conteúdo pode ser transmitido pelo
Pai, Adulto e Criança, podendo ser recebido por qualquer destes
estados de Ego do destinatário.
As Transações, são as formas pelas quais o organismo se "liga" ao meio ambiente, podem ser:
Observemos ainda que, dentro de uma situação de comunicação como a transação verbal, cada um dos participantes reconstrói uma percepção, de forma significativa para si, a partir de um sinal relativamente gasto pelo tempo o qual não é, nem de longe, suficiente para especificar inteiramente esta percepção.
Deriva-se, deste fato, que uma incerteza intrínseca caracteriza a comunicação, anterior mesmo a uma suposta identidade entre mensagens emitidas e recebidas, validada pela medição das perdas ou das distorções provenientes do processo de transferência. Este fato deve ser acrescentado à Teoria das Transações de Berne.
Para Fialho (1996), uma compreensão científica da comunicação requer o concurso das ciências cognitivas que se constituem em uma maneira de descrever a construção dos estados cognitivos dos organismos em interação constitutiva com os outros organismos. Esta conceitualização cognitiva, construtivista, da comunicação, concerne a todos os organismos vivos (acoplamento estrutural), e compreende os agentes psicológicos ("conhecimento comum").
Cada transação pode ser estudada separadamente ajudando-nos a perceber como o indivíduo se relaciona com o meio onde vive. Alguns exemplos de Transações cruzadas são:
Transferência
O estímulo pretende estabelecer uma comunicação Adulto de quem fala com Adulto de quem ouve (AA) mas através de um diálogo interno o receptor entende como se o Pai do comunicante se estivesse dirigindo a sua Criança (P-C) e responde com a sua criança para o Pai do transmissor (C-P).
Figura 12 – Transferência (Fonte: Fialho)
Marido (Funcionando como Adulto) "Olha lá que mulher bonita".
Mulher (Conversa interna) - "Você não devia comer tanto".
Mulher - "Você não perde uma oportunidade para me lembrar de como estou gorda".
Contratransferência
Diálogo Interno entende como C-P e responde PC-C ou PN-C.
Figura 13 – Contratransferência (Fonte: Fialho)
Marido (Funcionando como Adulto) "Olha lá que mulher bonita".
Mulher (Conversa interna) - "Velho assanhado".
Mulher - "Você devia ter mais juízo".
Desumanizada
Estímulo = C - P; Diálogo
Interno entende como AA e responde AA.
Figura 14 – Transação Desumanizada (Fonte: Fialho)
Marido (Funcionando como criança) "Olha lá que mulher bonita".
Mulher (Conversa interna) - "Realmente".
Mulher - "Realmente".
Exasperante
Estímulo = P - C; Diálogo Interno entende como AA e responde AA;
Figura 15 – Transação Exasperante (Fonte: Fialho)
Marido (Funcionando como pai) "Uma mulher bonita assim não devia usar mini saia".
Mulher (Conversa interna) - "Se a mulher é bonita é lógico procurar realçar isso".
Mulher - "Acho que devia sim".
Queixa Mútua
C-P; C-P;
Figura 16 – Transação Queixa Mútua (Fonte: Fialho)
Marido: "Tenho dor de cabeça"
Mulher: "A mim me doem os rins".
Transação do Infinito
P-C; P-C.
Figura 17 – Transação do Infinito (Fonte: Fialho)
Marido: "Você não devia comer tanto"
Mulher: "E você deveria parar de beber".
Transações fechadas são transações complementares estereotipadas entre estados do Ego não OK de dois ou mais indivíduos, nas quais ambas as partes estão fisgadas mutuamente sem saber como sair da mesma. Estão envolvidas pela repetição e pelo componente emocional, sem perceber alternativas próprias, apesar dos inconvenientes que sofrem mutuamente.
As três regras de comunicação são: