4.4. Carícias (continuação)

Chama-se de carícias (strokes) aos estímulos sociais, uma forma de intercâmbio do organismo com o ambiente. Para Kertész (l987), "são estímulos sociais dirigidos de um ser vivo a outro, o qual por sua vez, reconhece a existência daquele".

Passamos grande parte do nosso tempo buscando ser abraçados, acariciados, elogiados, estimulados e quando isto não é possível atuamos no sentido de sermos agredidos ou consolados, pelo menos. Estas são formas de deter reconhecimento de nossa existência como parte de um todo; seres interdependentes de um meio social. Para sobreviver, portanto, precisamos de carícias.

Quando crianças enfrentamos três condições para receber carícias:

Ficamos portanto programados para receber carícias: "Se" cumprirmos estas condições ou "enquanto" cumprimos estas condições somos acariciados. Se estas condições mudam sem estarmos preparados, nossa sobrevivência está ameaçada.

As carícias podem ser classificadas:

Estes critérios, de classificação das carícias podem ser agrupados e classificados da seguinte forma:

Como carícias adequadas podemos citar:

O conceito de stroke economy de Steiner (1971) traduzido por "economia de carícias" é oriunda de uma série de normas parentais irracionais e preconceituosas que impedem a troca de estímulos sociais construtivos de forma livre e sadia.

Tais preconceitos regulam a cultura, grupos e organizações causando prejuízos nas relações humanas e organizacionais.

Existem cinco normas inadequadas para a economia de carícias:

Existem cinco normas adequadas para a economia de carícias. O uso adequado das normas de carícias provoca mudanças imediatas nos relacionamentos interpessoais mudando, conseqüentemente, o processo de comunicação intra e interpessoal, e melhorando, portanto, a qualidade de vida do ser humano.

O ser humano vive numa busca constante de felicidade. É preciso começar a trocar carícias, a proporcionar prazer, a fazer com o outro todas as coisas boas que a gente tem vontade de fazer e não faz, porque "não fica bem" mostrar bons sentimentos. Em nosso mundo negociante e competitivo, mostrar amor, mostrar afeto, é um mau afeto. Nos ambientes de trabalho, então, nem se fala, precisamos nos tornar frios, distantes, altamente digitais, manter uma postura, manifestações neste sentido, são proibidas! Além de ficar feio, deselegante, impróprio, o outro pode se aproveitar, explorar, cobrar, descobrir nossos pontos fracos. É como esconder o jogo, é como negociar nossos sentimentos e emoções.

Aqui podemos nos reportar a Skinner (1975), apesar de tudo, "só são estáveis os condicionamentos recompensados". E o que dizemos então daqueles baseados na dor?

É importante que saibamos nos reforçar positivamente, carregar nossa bateria de carícias positivas. Estaremos contribuindo para a construção de um novo tipo de convívio social, com uma nova estrutura, com a construção de seres mais felizes, organizações melhores, mais produtivas, um mundo melhor.

Freud, em alguns estudos mostra o que escondemos de ruim e isto nos leva a pensar também, o quanto escondemos de bom, que em muitos ambientes é proibido mostrar: a ternura, o encantamento, o agrado em ver algo ou alguém, o romantismo, a poesia, a brincadeira. Os comportamentos aceitáveis precisam ser sérios, respeitáveis, comedidos, fúnebres, chatos, restritivos, disfarçados, contidos!

Como diz Caetano Veloso, "gente é para brilhar!" Gente é a maior maravilha do universo! Precisamos nos sentir e permitir que os outros se sintam assim.

A estimulação tátil, além de significar algo gostoso, afetuoso e propiciar sensação de proteção e segurança, fornece material para o indivíduo criar sua identidade.

É importante termos em mente que qualquer forma de estímulo leva o indivíduo a perceber-se vivo.

Levine em suas experiências mostrou que qualquer estímulo, ainda que negativo, é melhor do que o abandono.

Segundo Spretz, crianças sem estimulação sensorial desenvolvem um quadro de retardamento mental.

Poucos são os homens que podem resistir durante 48 horas sem qualquer espécie de estímulo.

As pessoas procuram reconhecimento. Precisam de atenção nem que para isto tenham que ficar doentes. As pessoas sem estímulo perdem a motivação para seguir crescendo.

Os seres humanos tem outras fomes, tão importantes como o alimento, necessitam de outros nutrientes para sentirem-se saciados, tem necessidades além de comida e abrigo. O ser humano tem fome de estímulos (necessidade de sensações físicas, e de variar essas sensações para estimular os sentidos: olfato, tato, visão, paladar e audição); fome de contato, o ser humano tem necessidade de estar em contato uns com os outros, a sensação de pertencer à espécie humana; fome de reconhecimento, o ser humano não sobrevive à indiferença, todos necessitam ser reconhecidos, que as pessoas os identifiquem, cumprimentem, valorizem. O reconhecimento da existência motiva a humanidade.

As carícias são importantes porque podem satisfazer essas fomes. Este instrumento quando usado adequadamente melhora a comunicação pessoal e organizacional. Somos responsáveis por criar ambientes onde as pessoas possam trocar carícias verdadeiras.

Carícia (toque, afago, estímulo) é a unidade de reconhecimento humano. Começa no nascimento, com o toque físico. Depois passa para as palavras, olhares, gestos, aceitação. O toque físico é o mais potente meio de reconhecimento. Com o passar dos anos, o toque físico pode ser substituído pelo toque verbal. Uma carícia no rosto, pode ser substituída, por um "Que bom que você veio". "Que bom que você está aqui!". Todos queremos ser reconhecidos, todos necessitamos de carícias. Num ambiente de trabalho, talvez o "toque físico" não seja adequado, não seja permitido mas "o toque" através das palavras pode ser estímulo para melhorar um relacionamento na equipe de trabalho, as palavras tocam fundo. Precisamos tomar cuidado com as palavras que usamos porque poderão transformar-se em carícias positivas ou negativas. Porque não usá-las para estímulos positivos?

"Você é muito importante nesta equipe".
"Seu relatório está muito bom".
"Você escreve muito bem".
"Precisamos de você para atingir os objetivos da empresa".
A carícia é o combustível do comportamento humano. Nossas condutas são induzidas por nossa necessidade de reconhecimento. Muitas vezes profissionais brilhantes desmoronam por falta de reconhecimento, de afeto, de compreensão.
"Seres humanos quando de bem consigo mesmos, amam e trabalham de uma forma sadia e natural".
As carícias de plástico "ou bajulação", são assim chamadas, porque a exemplo das flores de plástico, só tem semelhança com as verdadeiras no seu formato. São enviados pelos populares "puxa-sacos", pessoas que não compreendem a profundidade do encontro humano.

As carícias transcendem o simples bem-estar do momento e nos levam para uma vida plena. Carícia adequada é aquela que não só convida a pessoa a sentir-se bem por um momento mas que oferece à pessoa meios de se desenvolver. Muitas vezes uma carícia negativa é adequada. Muitas pessoas tem dificuldade em aceitar críticas e com isso acabam limitando a manifestação dos outros sobre si. Com a abertura para ouvir o que os outros tem para falar, todos podem ampliar a sua maneira de ser.

"É mais fácil dar um elogio a um empregado que sempre atua bem ou criticar o que sempre chega atrasado?"

Ë comum se dar carícias por comportamentos tóxicos. Quando a pessoa atua produtivamente, percebe que o reconhecimento diminui.

Só sabemos fazer o que foi feito conosco. Só conseguimos tratar bem os demais se fomos bem tratados. Se só fomos ignorados, só sabemos ignorar. Se fomos odiados, só sabemos odiar. Se fomos maltratados, só sabemos maltratar. Como não há como fugir desta engrenagem de aço: ninguém é feliz sozinho. Ou o mundo melhora para todos, ou ele acaba. Amar ao próximo não é mais idealismo "místico" de alguns. Ou aprendemos a nos acariciar, ou liquidaremos com nossa espécie. Ou aprendemos a nos tratar bem - a nos acariciar - ou nos destruiremos.

Energia poderosa na ação comum, na co-operação. Na co-munhão. Na co-moção.
(J. A. Gaiarsa)


 As carícias são a base do relacionamento social. Spritz, citado por Berne (1974), descobriu que crianças privadas de contato físico por tempo prolongado tendem a enfraquecer e podem até morrer em conseqüência desse enfraquecimento.

Podemos perceber isto também em adultos submetidos à privação sensorial, ou sejam, colocados em condições experimentais de silêncio, escuridão, sem estimulação térmica e tátil. Estas pessoas podem apresentar uma psicose passageira ou até mesmo distúrbios mentais temporários. Pessoas condenadas a longos períodos de prisão em solitária, privados de contato social e sensorial apresentam os mesmos distúrbios. Para o ser humano este é um dos maiores castigos. Até certos pais usam como castigo para crianças "vá para seu quarto e fique durante uma hora sozinho, sem falar com ninguém". O isolamento é tido como um castigo.

Considerando o aspecto biológico, sabe-se que a privação emocional e sensorial pode produzir modificações orgânicas. O sistema reticular, parte do sistema nervoso que alimenta o cérebro, se não estimulado suficientemente, pode fazer com que suas células se degenerem. A privação afetiva e sensorial pode levar o ser humano à morte. Para a sobrevivência do organismo, a fome de estímulos e de relacionamento, é tão importante quanto a fome de comida. As forças sociais, privam o ser humano adulto da intimidade física no estilo infantil.

Para se manter a bateria de carícias carregadas é necessário:

Carícias positivas geram carícias positivas. Dar carícias gera mais carícias. Há pessoas que economizam elogios, toques, olhares, etc. Quanto mais a pessoa confia em si, mais ela se entrega e dá carícias tranqüilamente, porque sabe que pode conseguir as carícias que necessita. É importante perceber que as auto-carícias podem estar levando as pessoas a não escutar os outros. É o caso da empresa sem comunicação. As vezes as pessoas ficam olhando para baixo e não percebem os outros. É fundamental predispor-se a não ficar nos disfarces antigos, nas mesmas manipulações de sempre, nos mesmos jogos e sair para um contato autêntico e espontâneo com as pessoas para viver plenamente e com autonomia a própria vida.

Neste instrumento, Carícias, está a essência das relações humanas, facilitando a compreensão de muitas situações interpessoais.

Berne disse: "Se você não é acariciado, sua espinha dorsal seca".

As carícias podem ser internas e externas (como as mencionadas acima). As carícias internas são:
 
CARÍCIAS CRIANÇA ADULTO PAI
Auditivas Música bonita Música interessante Música familiar
Visuais Cores bonitas Cores móveis O quarto da gente
Cinestésicas Tácteis Masturbação Formas inusitadas Ursinho
Cinestésicas Porprioceptivas Movimento Acrobacias Posição fetal
Olfativas Perfume Odor interessante Cheiro do travesseiro
Gustativas Sorvete Caviar Prato da vovó
Cognitivas Fantasia Reflexão Dever

Sem estímulos definhamos e morremos. Por carícias entendemos qualquer tipo de interação com o meio. Da mesma forma que os automóveis são movidos por baterias nós funcionamos movidos pelas carícias. Um modelo de baterias ( + = OK; - = NOK), busca descobrir a cota mínima de carícias necessárias para o nosso carro continuar andando. A quantidade de carícias necessárias varia de pessoa para pessoa. Um ator precisa de muitas. Quando não se têm carícias apela-se para: animais domésticos (quinze gatos, vinte e dois cachorros); profissionais (massagistas, terapeutas); comer (isso explica muita obesidade), fumar, comprar coisas inúteis; auto acariciar-se, etc.

As carícias, para alguns autores, são a base da Análise Transacional. Se quisermos mudar o mundo deveremos desenvolver em nós a capacidade de dar e receber carinho. Ainda hoje, nas escolas de medicina, recomenda-se não tocar os clientes. Se quisermos construir um mundo fraterno devemos ser anti-éticos o bastante para abraçar com força nossos irmãos de caminhada.

4.5. Posição Existencial

Desde muito cedo, cada criança forma um conceito de si mesma. Este conceito poderá ser bom ou mau dependendo de como a criança é tratada na família. O conceito pode ser elaborado com pensamentos (pensar bem ou mal de si mesmo), com imagens (ver-se bem ou mal), com sentimentos (sentir-se bem ou mal, contente, confortável, feliz, desgraçado, deprimido). O conceito de si está relacionado com o conceito que forma de seus familiares mais importantes.

Para Kertész (1987), "posição existencial é a forma como percebemos a nós mesmos em relação às outras pessoas".

Todos nós assumimos uma posição existencial. Decidimos estar bem ou estar mal, independentemente do sol ou da chuva. Um dos privilégios do ser humano é exatamente este, o sublime direito de ficar na fossa. Essas atitudes podem ser sumariadas no quadro abaixo.
 
Tipo de Atitude
Como me Vejo
Como Vejo o Outro
Comentário
Realista
+ -
+ -
Adulto funcionando
Depressiva
-
+
Criança submissa não OK
Paranóide
+
-
Pai crítico - ou Pai crítico- salvando a Criança rebelde -
Maníaca
+
+
Criança livre -, Pai Nutritivo
Niilista
-
-
Criança Adaptada

Quadro 04 – Posição Existencial (Fonte: Kertész, 1987)

Na posição realista percebe-se o lado realmente positivo e negativo de si mesmo e dos outros. É uma posição adotada pelo adulto, sob o comando do qual funcionam também os demais estados de Ego: Pai crítico, Pai nutritivo, Criança livre, submissa e rebelde, todos OK.

É a posição "Eu estou bem"(+), você está bem (+) mas com nossas falhas (-). É adequada a realidade por integrar os aspectos positivos e negativos que todos nós possuímos. Mantém o respeito por si mesmo com uma autocrítica adulta. A criança internaliza este conceito de si mesma quando é respeitada e querida por sua família. Aprende a julgar realisticamente seus familiares, captará o positivo e o negativo deles.

Na depressiva, exagera-se o próprio lado negativo, desqualifica-se o positivo de si mesmo e em troca valoriza-se o positivo dos outros, ignorando seu lado negativo.

A posição depressiva é da criança submissa. NÃO OK. "Eu estou mal (-), você está bem (+). "Esta posição é adotada quando se é perseguido, criticado, humilhado ou superprotegido na infância. Depois de algum tempo a criança chega a conclusão que é inferior ao resto da humanidade. Frases da pessoa depressiva: "Sou culpado". "O que tenho que fazer?" "Não me atrevo a dizer-lhe". "Não mereço que gostem de mim".

Na paranóide faz-se o inverso da depressiva. Posição paranóide: "Eu estou bem (+), você está mal (-)". PC NÃO OK/ perseguindo PN NÃO OK/ salvando, superprotegendo ou algumas vezes a CR NÃO OK. Esta posição se estabelece quando um familiar persegue uma criança e outro a salva. Assim a criança fica ressentida contra o primeiro. Se todos a perseguem ou a salvam, termina ficando na posição depressiva (-/+). Para que se produza a posição paranóide alguém introduz rancor na criança, ou dá-lhe razão sem corresponder à realidade. Assim, ela não aprende a reconhecer suas falhas, ao inverso da posição depressiva onde há autocrítica em excesso. Frases típicas: "Vão me pagar". "Ninguém manda em mim". "Vou arrebentar vocês". "Não se pode confiar em ninguém".

Na maníaca, supervaloriza-se o positivo, o próprio e o alheio. Na posição maníaca: "Eu estou bem (+), você está bem (+)". É exercida pela CL NÃO OK e algumas vezes, PN NÃO OK. Esta posição foi descoberta por Kertész em 1969. É adotada quando só se leva em consideração os aspectos positivos de si mesmo e dos outros. Nesta posição tudo está sempre bem, não há problema algum. É induzido por famílias que desqualificam e negam tudo o que é desconfortável, como se as falhas e os erros pessoais não existissem.

Frases típicas: "Vai sair tudo bem". "O amor tudo vence". "Não fique pensando tanto, vá em frente !" "O mundo é nosso".

Na niilista ou fútil, ressalta-se o pior dos dois lados. "Eu sou um desastre, os outros também".

Através de um outro quadro podemos verificar a implicação dessas posições existenciais nas relações que estabelecemos com o mundo.

QUADRO 05 – Posição Existencial e Relações com o Mundo (Fonte: Kertész, 1987 – modificado)

4.6. Emoções Autênticas e Substitutivas ou Disfarces

Disfarce é uma emoção substitutiva, inadequada, fomentada pelos pais ou seus substitutos, na infância, que entram no lugar da emoção autêntica, ignorada ou proibida por estes. Os disfarces não são adequados em qualidade, intensidade e duração às situações correspondentes. O outro sabe que o disfarce é artificial e exagerado o que acarreta incompreensões e posições existenciais inadequadas.

Os mandatos parentais internalizados regulam a percepção (sentir), assim como a possibilidade de expressar as diferentes emoções. É preferível que seja o Adulto, ajustado ao contexto aqui e agora que regule tudo isto.

O modelo da Análise Transacional afirma que existem cinco emoções autênticas: alegria, ou prazer; afeto, desde a simpatia à paixão; tristeza; medo e raiva.

Estas emoções estão relacionadas com os graus de controle exercidos pelo Estado de Ego Pai do indivíduo, que pode dar as seguintes ordens:
 

Reprima a emoção
Não expresse a emoção
Não se expresse verbalmente
Haja sem controlar suas emoções
Manifeste-se controlado pelo seu adulto
Não sinta o que sente
Não expresse o que sente
Não diga o que sente
Não se controle

 
Emoção Autêntica
Alegria, prazer
Afeto, amor
Tristeza
Raiva
Disfarce mais freqüente
Culpa, ansiedade, falso medo ou tristeza
Inadequação, ansiedade, falsa raiva, ciúmes
Falsa alegria ou raiva, ressentimento, ansiedade
 Falsa alegria ou tristeza, ansiedade, culpa

As emoções estão ligadas às crenças a aos pontos de referência das famílias. Cada família tem suas normas definidas, conscientes ou não sobre quais emoções se pode sentir ou expressar.

As emoções estão situadas no Estado de Ego Criança. O Adulto, não sente. No Pai, estão as emoções alheias - aquela que recebemos da criança deles.

Comportamentos adequados diante das emoções autênticas:
 
Se a criança ou pessoa adulta demonstra ... Os pais ou outros indivíduos adultos ...
... alegria, prazer ... aprovam ou compartilham.
... afeto ... aceitam, retribuem.
... medo ... protegem-no(a)/ auxiliam
... raiva ... permitem sua expressão e analisam o problema que a provocou.
... tristeza ... o/a protegem.

Quadro 06 – Emoções Autênticas e Comportamento (Fonte: Kertész, 1987)

A raiva e a tristeza por estarem impedidas por mandatos parentais internos nos impedem de realizar mudanças na maneira de pensar e fazer.

Se eu tenho medo de sentir e expressar raiva ou tristeza, não poderei mudar, estando bloqueado para outras emoções, tais como: alegria, prazer ou afeto. A falsa raiva e a ansiedade são emoções geradoras do stress.

Os terapeutas Mary e Robert Goulding (1985) ensinam que cada pessoa é responsável por suas emoções, ninguém é capaz de fazer outra pessoa sentir. Os outros não nos fazem ficar com "raiva", nós escolhemos a raiva como resposta ao estímulo de alguém, a raiva é nossa.

Esta noção de que somos responsáveis por nossos próprios sentimentos vai contra nossa literatura, nossas canções e nossa formação. "Você me fez te amar, eu não queria", diz a canção popular. "A situação mundial é preocupante", diz o comentarista. "Você me deixa tão nervosa que não consigo dormir", diz a mãe.

Colecionamos emoções preferidas. Alguns colecionam emoções positivas de bondade, de alegria, de amor. Outros colecionam emoções negativas de vergonha, de medo, de inveja, de orgulho, de ressentimento, de culpa, de raiva ou de "pureza imaculada".

Dorothy Jongeward e Muriel James, apud Oliveira (1984), mostram que já na infância, as pessoas começam a estabelecer suas preferências por esta ou aquela emoção. As crianças não nascem com as emoções já programadas, em relação a objetos e pessoas. Elas aprendem em relação a quem e ao que podem mostrar afeição, em relação a quem e ao que devem sentir-se culpadas, a quem e ao que devem temer, a quem e ao que devem odiar. Embora se aprenda sobre todos os tipos de emoções, cada qual se adapta a uma ou mais emoções "favoritas". Uma criança que ouve continuamente: "Estou envergonhada de você". "Você não tem vergonha?" "Teu comportamento me envergonha", pode aprender a sentir vergonha. Ao colecionar emoções favoritas, as pessoas buscam carícias que lhes proporcionem tais emoções. Para obtê-las manipulam os outros para que as firam, as diminuam, fiquem irritadas com elas, as amedrontem, façam surgir sua emoção de vergonha, culpa, etc. As pessoas trocam emoções como as crianças trocam figurinhas. Uma carícia negativa recebida pode proporcionar uma emoção negativa, que essa pessoa transmite a uma terceira, o que ocasiona uma cadeia de troca de emoções.

O método para se trabalhar sobre as emoções e disfarces consiste em verificar o seguinte: É adequada à situação em: qualidade, intensidade, duração?

A emoção autêntica convida a uma postura semelhante de um observador OK. Quando essas emoções eram expressas na infância, o que se obtinha em retorno? Proteção (autênticas) ou carícias negativas (disfarces).

Uma das crenças mágicas do Pequeno Professor (Adulto da criança) consiste em se acreditar capaz de fazer os outros se sentirem bem ou mal ou que os outros sejam capazes de fazer com que nos sintamos bem ou mal. Na verdade, só nós temos esse poder sobre nós mesmos.

A Teoria da Gênese dos Sintomas Psicossomáticos baseia-se na pressuposição de que ansiedade, hostilidade, depressão (disfarces), acabam por acarretar distúrbios no sistema autônomo, produzindo hiperacidez gástrica (alterações funcionais), úlcera duodenal (orgânicas), etc.

4.7. Jogos Psicológicos

Os Jogos são séries de transações ulteriores, aparentemente racionais, que progridem em direção a um resultado previsível e bem definido. São uma série de transações com armadilhas inconscientes para os jogadores. Reafirmam que a patologia psicológica é quase sempre interpessoal. Os envolvidos atuam em dois níveis: social (consciente, moralmente aceitável) e psicológico (inconsciente, passível de desaprovação). São aprendidos na infância ou na adolescência e se repetem com freqüência.

Existem três maneiras de colocá-los em gráficos: diagrama transacional, a fórmula de Berne e o triângulo dramático.

No diagrama transacional, utiliza-se o gráfico das transações: o Adulto fala com o Adulto ao mesmo tempo que a Criança de um fala com o Pai do outro.

Figura 18 – Diagrama Transacional (Fonte: Berne, 1977)




A Fórmula de Berne:
 

Isca + Fraqueza è Resposta è Mudança è Benefício Final

Lança-se uma isca que pesca uma fraqueza do outro jogador, que muda de Estado de Ego com um aparente benefício final.

Isca: parte oculta, inconsciente do estímulo inicial. Exemplo: uma mulher se veste provocadoramente, com isto, atinge a Criança Livre de um homem (gerente), sem tomar consciência, enquanto o Adulto dela mostra a ele o relatório de vendas do último mês.

Fraqueza: é a parte predisposta do outro (a Criança Livre do gerente, com desejos sexuais).

Resposta: o gerente responde a "isca", "fisgado" em sua fraqueza e focando-a convida-a verbalmente para jantar.

Mudança: no caso a mulher muda repentinamente de Estado de Ego. Neste jogo chamado "violentado", passa para o Pai crítico. Se mostra indignada pela "falta de respeito" do outro, que também muda de Estado de Ego passando para a Criança Submissa.

Benefício Final: para ela, sentir-se indignada "estes homens... são todos iguais". Para ele, sentir-se envergonhado, inadequado. Aqui chamamos de benefício final porque existem, como veremos adiante, outros benefícios durante as diversas fases de um jogo psicológico.

Podemos dizer que os jogos são:

Desonestos: porque embora sendo inconscientes, a pessoa é desonesta consigo mesma, como foram as pessoas com quem aprendeu a "jogar". Aqui, entendendo-se que "desonesto" é o inautêntico.

Conflitantes: nunca resolvem os problemas interpessoais.

Repetitivos: não proporcionam aprendizagem e nem outras opções para as necessidades que pretendem satisfazer.

Dramáticos: tem fortes conteúdos emocionais e mudanças de papéis.

O Triângulo Dramático, é a terceira forma de representar os jogos. Segundo Berne, (1964) são três seus papéis do Triângulo Dramático: o Perseguidor (P), o Salvador (S) e a Vítima (V).

Karpman, (1971) os diagramou em um triângulo.

Figura 19 – Triângulo Dramático (Fonte: Berne, 1977)

Estes papéis são "falsos", são distorções dos papéis reais e autênticos, que também se apresentam na vida real. As pessoas que operam a partir dos papéis do Triângulo Dramático aprenderam a desempenhá-los com seus familiares. Depois de muitas repetições desempenham estes papéis de forma automática e inconsciente.

O Perseguidor (PC/CR) manipula infundindo medo. Dá carícias agressivas. Necessita ser temido, e com isso encobre sua própria insegurança. Isto se reflete até nas profissões escolhidas, pois preferem ser inspetores, policiais, juízes, professores, etc. Não estamos aqui generalizando. Em qualquer profissão podemos encontrar perseguidores, vítimas ou salvadores. Sua postura existencial é OK/NÃO OK. São as pessoas que querem corrigir o mundo. São as que ditam o que é certo e o que é errado. Geralmente, ficam procurando defeitos nos outros, nos lugares, nas situações e às vezes neles mesmos. São pessoas que quando encontram os defeitos começam a criticar: "Ah, eu não te avisei?"; "Eu já sabia que ..."; "Eu te disse que ..."

O Salvador, exercido pelo Estado de Ego PN (Pai Nutritivo), manipula usando a chantagem ou o suborno. Dá carícias de lástima. Precisa que necessitem dele, precisa salvar alguém. São encontrados muitos salvadores nas profissões de médicos, enfermeiros, políticos, advogados, religiosos, etc. Sua posição existencial é a OK/NÃO OK! São como cavalheiros andantes, procurando gente com complicações para cuidar. Muitas vezes, são pessoas que precisam de afeto, mas como não sabem pedir, ou não aprendem aceitar, acabam dando para os outros o que mais precisam. Mas como só aprenderam a cuidar dos outros, acabam geralmente por não dar chance para as vítimas crescerem, pois se isso ocorresse não saberiam o que fazer. Querem cuidar de todo mundo, querem sempre ajudar ao outro em alguma coisa, mas de alguma forma podem acabar desvalorizando a capacidade do outro.

A Vítima, está na Criança Adaptada, Submissa ou Rebelde. Manipula infundindo culpa. Precisa ser "perseguida ou salva". Se é uma vítima falsa tem a posição existencial NÃO OK/OK (vítima neurótica) ou então OK/NÃO OK (perseguidor disfarçado), ou ainda, nos casos mais graves NÃO OK/NÃO OK. São as pessoas que fazem de sua vida uma série de incapacidades. A sua vida é o resultado da ação dos outros. Não conseguem assumir responsabilidade por seus próprios atos. Estão, quase sempre, procurando desculpas por não conseguir mudar suas vidas, e geralmente se sentem impotentes. "Como uma gorda como eu pode arrumar alguém que me ame?" " Tudo acontece comigo". "Que azar! De novo aconteceu comigo!" "Como eu posso trabalhar com um marido desses?"

Podemos dizer que esses papéis são predominantes, têm-se preferência por um deles. A Vítima quando não é ajudada pode transformar-se em Perseguidor. Um Salvador que esforça-se para salvar uma Vítima pode se cansar e transformar-se em Perseguidor ou Vítima. Geralmente, a pessoa começa com um papel e termina com outro. Se um Perseguidor ou Salvador, aprende a cuidar de suas próprias necessidades, a desfrutar a vida a entrar em intimidade, não vai precisar ficar cuidando do mundo ou encontrando defeitos nos outros; se a Vítima aprendeu a assumir responsabilidade por sua felicidade, acreditar em si, em sua capacidade não vai arrumar outros para se manterem em sua vida e reclamar: "não aguento papai todo dia no meu pé".

Quando as pessoas não tem treinamento para resolver suas dificuldades (má comunicação intrapessoal), geralmente, acabam envolvendo uma terceira no conflito (interpessoal) e quando essa terceira pessoa entra, o conflito aumenta (dificuldade de comunicação interpessoal).

Os jogos são importantes instrumentos para se conhecer a si próprio e aos outros pois é possível se trabalhar com comportamentos observáveis, com os sinais do comportamento objetivo, sem a necessidade de se conhecer a fundo os "complicados" movimentos de cada jogo. Através dos jogos as pessoas satisfazem algumas necessidades básicas e vitais. Os jogos, aprendidos na infância, estão fundamentados em experiências significativas. Alguns autores preferem dizer que os jogos produzem "pseudo-benefícios" ao invés de benefícios, dos quais podemos destacar:

Biológico: as carícias dos jogos, apesar de inadequadas, satisfazem em parte a "fome de estímulos" na falta de carícias adequadas. É melhor um empurrão a ser ignorado.

Existencial: confirma a "posição existencial" adotada na infância e proporciona segurança para responder às questões: "Quem sou eu?" "O que faço neste mundo?" e "Quem são os outros, que me rodeiam?"; e reafirma as frases típicas desta posição: "Vão me pagar", "Devo ser o melhor", "Os outros estão na frente"; frases estas peculiares e próprias a cada pessoa, conforme os aprendizados realizados.

Emocional: mantém e repete eventualmente os "disfarces" que nos fazem sentir vivos, quando faltam as emoções autênticas.

Argumental: o argumento de vida ou plano inconsciente, formulado na infância, as mensagens e mandatos parentais são constantemente reafirmados através dos jogos. Exemplo: "Ninguém gosta de mim", "Eu sou má, mereço o que acontece comigo", "Não faço nada certo", "Mamãe tinha razão, sou uma desastrada", etc.

Psicológica interna: os diálogos internos produzem energia e tensão que necessitam e que buscam sua descarga em transações e expressão de sentimentos. Por exemplo, se estes diálogos induzem a culpa intensa, a pessoa procura ser agredida e, com isso sente-se aliviada. Se é raiva acumulada, uma grande explosão irá aliviá-la.

Psicológica externa: chamada "fóbica" pois se refere a temidas situações externas.

Berne (1974), afirma que os jogos evitam a intimidade temida. Neste caso as pessoas temem:

Aqui nos perguntamos: porque evitar coisas tão valiosas e agradáveis? Porque não temos autorização parental, foram ignorados ou proibidos por nossos pais, através de suas palavras ou comportamentos (linguagem verbal e não verbal) e nós "dóceis e obedientes", cedemos a elas, e hoje, muitas vezes sofremos com isso.

Social interna: preenche um espaço de tempo. Satisfaz a fome, a necessidade de estruturação do tempo.

Social externa: permite a continuação dos jogos com "passatempos" derivados dos mesmos. Oferece "o que falar" quando não existirem assuntos interessantes. Por exemplo, a esposa que descobre que foi traída, liga para diversas amigas para queixar-se dele com o passatempo: "Os homens são todos iguais".

4.8. Estruturação do Tempo (continua)