PSICOLOGIA DO TRABALHO, ERGONOMIA E COMUNICAÇÃO
6.1. A Psicologia do Trabalho
Segundo Wisner (l992), o psicólogo já não é nem um cientista nem um artista, ele se tornou um técnico, ou seja, aquele que coopera de maneira aliada com o artista de uma outra disciplina, um médico ou um engenheiro. Segundo ele, a psicologia do trabalho só difere das outras partes da psicologia por seu objeto e não por suas teorias ou seus métodos. Realmente, para seguir convenientemente seu objeto, ela precisa de todos os recursos da psicologia, já que nenhum campo desta última lhe é estranho.
De resto, a psicologia do trabalho não é um lugar de aplicação da psicologia científica, mas sim, fazendo parte do conjunto da psicologia, um lugar de construção da ciência psicológica, ao mesmo tempo que um lugar de inserção dessa ciência na vida social.
Essa concepção da psicologia do trabalho é atualmente a da maior parte dos pesquisadores desse domínio e subjaz a uma aproximação muito sensível entre os pesquisadores e os práticos dessa parte da psicologia, em razão da atenção prestada às realidades complexas e não raro contraditórias da área.
O trabalho como unidade da psicologia, pode ser considerado como um dos lugares de constituição da psicologia fundamental. Estas concepções são quase opostas às idéias que predominavam 25 anos atrás, quando a elaboração no laboratório de testes de psicologia diferencial era seguida de sua aplicação numa população de trabalhadores interessados. A análise correta da formação e do trabalho desses trabalhadores nem sempre era realizada, e às vezes pode-se duvidar do valor da validação dos testes assim estabelecidos.
No período entre l960 e l975 modificaram-se os trabalhos da psicologia diferencial, que foram reorientados para o estudo dos grupos humanos diferentes entre si pela idade, pela cultura, etc. As importantes pesquisas sobre cognição se expressaram na psicologia do trabalho pelo desenvolvimento da análise do trabalho. Foi valendo-se da análise do trabalho que as pesquisas sobre o aprendizado puderam desenvolver-se.
Dentre as ferramentas da análise do trabalho, a observação dos comportamentos numa situação real de trabalho pode ser um campo privilegiado pela psicologia do trabalho considerando o emprego da análise do discurso do trabalhador. Em se tratando do discurso do trabalhador podemos contar ainda com os progressos da psicolingüística. Os laços entre a psicologia do trabalho e a psicolingüística são muitos: estudo das rupturas do discurso descritivo do trabalho ligadas a certas falhas cognitivas, estudo das distorções das comunicações entre dois locutores em virtude das condições acústicas, fonéticas e semânticas, estudo da relação afetiva no trabalho e da angústia por meio de análises mais complexas.
A análise do trabalho que implica um lugar fixo e uma tarefa determinada é completada atualmente pela análise da atividade nos trabalhos complexos, graças à observação das diversas categorias de tarefas, da sua duração, de sua alternância, bem como do estudo das comunicações.
O conceito da psicologia do trabalho tem se modificado e esta tem podido mostrar os laços que existem entre as características do trabalho, as comunicações, a imagem operatória e as exigências da organização. Podemos considerar, portanto, de suma importância que o psicólogo prático do trabalho seja antes de tudo o psicólogo do homem no trabalho, recorrendo ao conjunto da ciência psicológica, sempre que necessário.
As novas formas de organização do trabalho desconsideram aspectos individuais de saúde do sujeito. Todavia a ergonomia considerando a lógica de funcionamento de todos os aspectos que interferem ou existem no ambiente de trabalho, objetivando desenhar novos ambientes, que considerem os fatores imprescindíveis para a adaptação do trabalho ao homem pode contribuir para uma boa qualidade de vida e para a construção de um ser humano mais sadio e feliz.
Segundo Wisner (l994), "o inventário das diferenças entre atividades reais e atividades prescritas é extremamente útil para descobrir tudo que é difícil, ou até impossível de realizar no trabalho prescrito ou que foi mal compreendido".
Isto nos leva a pensar na importância da comunicação como instrumento para minimizar possíveis falhas neste processo. Muitas vezes a tarefa é prescrita na linguagem do planejador, do administrador, e o operador ao realizá-la procede a decodificação da mesma, usando o seu próprio banco de dados (crenças, valores, conhecimento, cultura, experiências de outras tarefas, etc.). Entre o planejamento e a ação muitos desastres podem ocorrer.
Quando falamos em ergonomia, ressaltamos a adaptação do trabalho ao homem. Importante seria que nos déssemos conta e usássemos este pressuposto quando pensamos em linguagem, em comunicação. Poderíamos então, falar e pensar ergonomicamente, adaptando a nossa linguagem ao ser humano trabalhador. Sabemos que o ser humano capta a realidade, e portanto, percebe a comunicação externa através dos sentidos, que funcionam como sensores da percepção e, diante de determinada situação, com base em seus conhecimentos, crenças, valores, cria a representação mental dessa situação. Podemos dizer portanto, que para um determinado contexto, a ação e o resultado, bem como, comportamentos e condutas dependem de como cada pessoa processa a informação no cérebro. Não queremos fazer um retorno a Descartes, comparando o homem a uma máquina, mas sim ressaltar a contribuição de Piaget, com a psicologia cognitiva, que instrumentaliza e facilita o entendimento dos mecanismos que levam a uma determinada conduta. Quando conhecemos estes mecanismos torna-se mais fácil falar sobre "adaptação do trabalho ao homem" e de como varia o conceito de "ergonômico" para as pessoas, partindo do pressuposto de que diferentes pessoas possuem diferentes representações mentais sobre o trabalho e diferentes representações mentais do que é realmente "ergonômico para cada uma delas. Assim como podemos considerar que as pessoas são diferentes do ponto de vista genético, neurológico, social, cultural, educacional, etc, podemos considerar que as pessoas são diferentes também, em suas formas de comunicação, em sua linguagem. Precisamos, portanto, pensar em linguagens e comunicações ergonômicas, ou seja, adaptadas a cada ser humano com quem queremos nos comunicar adequada e ecologicamente.
Quando Wisner (1994), diz que "o homem leva em conta muitas coisas durante a execução de uma tarefa aparentemente simples" ou quando afirma que "o homem é um animal social, possui características fisiológicas e psicológicas, modos relacionais que precisamos nos aprofundar" constatamos a importância do conhecimento e da aplicação da psicologia do trabalho como disciplina imprescindível nas organizações o que respalda também, a proposta para futuros trabalhos, no sentido de investigar sobre a importância da linguagem e da comunicação nas organizações e no cotidiano do ser humano.
Quando se fala em transferência de tecnologia, considera-se muito a adaptação da tecnologia à realidade do país comprador, busca-se estudar e resolver dificuldades de origem geográfica, econômica e antropológica e mais uma vez fica esquecida a grande importância da linguagem, da comunicação como um todo. É necessário considerar que na transferência de uma língua para outra, as mesmas palavras podem mudar de sentido, pois são transferidas com significados culturais diferentes.
Esta é uma das preocupações quando se fala em transferência de tecnologia entre diferentes países. Se considerarmos um mesmo país, o Brasil, por exemplo, esta preocupação desaparece. Por que será? Temos a ilusão que estamos falando uma única língua "o português" e desconsideramos que podemos estar nos comunicando com pessoas que decodificam nossa mensagem de forma diferente do que expressamos, que deletam parte do que falamos, que podem distorcer ou generalizar nossas informações, que vêem, ouvem ou sentem de outras formas, de acordo com seus filtros (valores, crenças, história de vida social, cultural e psicológica).
É necessário que saibamos adaptar a nossa linguagem à linguagem da pessoa com a qual queremos nos comunicar. Precisamos entender a diversidade de linguagens, de representações mentais, considerar o impacto da comunicação não verbal, o impacto dos sons e das palavras em uma comunicação.
Consideramos, portanto, a comunicação uma questão importantíssima a ser tratada dentro da ergonomia do trabalho e para a qual a psicologia do trabalho pode contribuir e oferecer um excelente suporte.
Para Wisner (l994), parte essencial da antropologia cognitiva é lingüística. Nos anos 60, identificavam-se as duas abordagens. Sapir & Worth haviam proposto uma célebre teoria que sugeria reduzir a análise do pensamento à análise do discurso e entender a diversidade étnica a partir das diferentes linguagens. O pensamento não tem o caráter de código formal da linguagem. Ele é multiforme e em muitos casos "a ação fala mais do que as palavras." (Gatewood, l985).
Muitas atividades são difíceis de dizer e muitas palavras não correspondem a nenhuma ação precisa. No entanto, o inventário dos vocabulários específicos do trabalho, quer sejam étnicos, quer sejam profissionais, trazem muitas informações sobre as áreas de conhecimento. Quanto mais vasto e preciso é um vocabulário específico, melhor conhecido é o trabalho correspondente. É compreensível que para nós seja difícil traduzir para o inglês ou para o francês os inúmeros matizes do vocabulário dos cameleiros do Nordeste ou dos pescadores da Barra da Lagoa. Mas qual de nós entende plenamente as palavras de um caçador ou de um pescador, não sendo ele próprio caçador ou pescador? Essa não abrangência entre os vocabulários originais e os vocabulários exigidos pela produção industrial leva à introdução maciça de palavras estrangeiras na língua do país importador, pois essas palavras não têm tradução. Devemos, porém, prestar mais atenção no fato de que na passagem de uma língua para outra, muitas vezes as mesmas palavras mudam de sentido, pois são transferidas com significações culturais diferentes. Assim, a peça de vestuário chamada sweater pelos franceses e pelos brasileiros não evoca para eles nenhuma relação com o suor. Mais próxima de nossos interesses, a expressão "círculo de qualidade" não designa de fato a mesma coisa para os iniciadores americanos e para os grandes usuários japoneses e para os destinatários ulteriores que são os franceses ou os habitantes da Costa do Marfim.
Broadbent (l977), chama atenção para o fato de que as armadilhas não são só semânticas, mas também sintáticas. Assim entendemos melhor dois tipos de pesquisa importantíssimos para zelar pela qualidade dos interpretantes de origem lingüística. Feuerstein (l980), de que sabemos que trabalha especialmente com jovens ou adultos privados de sua própria cultura, sublinha a necessidade de ensinar a esses alunos as palavras que designam os objetos e as ações e de verificar atentamente se a relação biunívoca entre a palavra e o que ela designa existe realmente. Trata-se aí de um aspecto do "enriquecimento instrumental" que tem por objetivo desenvolver as atividades cognitivas pertinentes.
Num domínio essencial para a transferência de tecnologia, o da tradução técnica, Sinaiko (l975), traz uma notável demonstração da relação linear existente entre a qualidade da tradução e a eficiência do trabalho realizado. Ele mostra o fracasso dos programas de computador de tradução, que padecem de erros às vezes enormes nas traduções palavra por palavra. O fato de muitos manuais de utilização e de manutenção, serem mal traduzidos ou não serem traduzidos de modo algum explica o aparecimento de incidentes ou de acidentes, e, sobretudo, a rápida degradação dos sistemas transferidos, em razão de erros de manutenção. São muitos os exemplos concretos de situações catastróficas nas quais para economizar os custos da tradução permite-se aos trabalhadores ou aos administradores a possibilidade forjarem interpretações convenientes.
Será que devemos imaginar que o nível de instrução e a capacidade de leitura de textos técnicos determinam a probabilidade de êxito do pessoal de uma empresa? É muito antiga a afirmação de que é essencial a formação acadêmica, e mais ainda a escrita e a redação científica.
É considerável a parte das dificuldades lingüísticas, da escolarização mais ou menos boa e da facilidade de leitura e escrita. Nos estudos ergonômicos de Sinaiko, se encontra uma vasta produção da etnologia lingüística e sabemos que por muito tempo a antropologia cognitiva se baseou num modelo lingüístico.
Ao realizarmos análises ergonômicas do trabalho podemos incorrer em erros se considerarmos somente nossa linguagem, as nossas representações mentais interferindo ou desconsiderando a linguagem e as representações mentais dos demais seres humanos envolvidos no processo.
Para Wisner (1994), "o ergonomista estuda todos os comportamentos (ação, observação, comunicação) e explora os seus resultados para descrever da melhor forma possível as diversas atividades orientadas para a ação; ele se interessa pouco pela parte do discurso dos trabalhadores que não expliquem diretamente a ação, pois é o trabalho que lhe interessa"
Precisamos, portanto, conhecer mais sobre o "ser humano", como ele funciona, como se relaciona, como se comunica, e pensar em linguagens e comunicações ergonômicas, ou seja, adaptadas a cada ser humano para que possamos nos comunicar adequada e ecologicamente, produzindo assim, mais alegria, prazer, qualidade de vida e, conseqüentemente, maior produtividade.
Quando falamos em comunicação neste nível de qualidade, vem à mente o papel da ergonomia nas organizações.
A ergonomia vem tratando do estudo da adaptação do trabalho ao homem. Entenda-se o trabalho do ponto de vista mais amplo, abrangendo não apenas as máquinas e equipamentos utilizados para transformar os materiais, mas toda a situação em que ocorre o relacionamento entre o homem e o trabalho. Isto envolve, não somente o ambiente físico mas os aspectos organizacionais de como esse trabalho é programado e controlado para atingir os resultados desejados.
A ergonomia para realizar o seu objetivo, estuda diversos aspectos do comportamento humano no trabalho e outros fatores importantes para o projeto de sistemas de trabalho, tais como o homem, a máquina, o ambiente, a informação, a organização e as conseqüências do trabalho.
Podemos definir ergonomia como:
"Estudo do relacionamento entre o homem e o seu trabalho, equipamento e ambiente, e particularmente a aplicação dos conhecimentos de anatomia, fisiologia e psicologia na solução dos problemas surgidos desse relacionamento". (Ergonomics Research Society, Inglaterra.)
Dentre os fatores importantes relacionados com a ergonomia podemos destacar "a informação" que se refere às comunicações existentes entre os elementos de um sistema, a transmissão de informações, o processamento e a tomada de decisões.
A ergonomia tem uma data oficial de nascimento que por incrível que pareça , coincide com o início da valorização da "comunicação" como ferramenta importante e necessária dentro das organizações. Em l2 de julho de l949 nasce a ergonomia. Nesse dia reuniram-se pela primeira vez, na Inglaterra, um grupo de cientistas e pesquisadores interessados em discutir e formalizar e existência desse novo ramo de aplicação interdisciplinar da ciência. Na segunda reunião desse mesmo grupo , ocorrida em l6 de fevereiro de l950,foi proposto o neologismo ergonomia, formado dos termos gregos ergo, que significa trabalho e nomos, que significa regras, leis naturais. Este termo já havia sido usado anteriormente pelo polonês Woitej Yastembowsky (1857) que publicou o artigo "Ensaios de ergonomia ou ciência do trabalho, baseada nas leis objetivas da ciência sobre a natureza", mas foi só a partir da fundação, no início da década de 50, da Ergonomics Research Society, na Inglaterra, que a ergonomia se expandiu no mundo industrializado.
A ergonomia é uma ciência experimental, cujas conclusões dependem de experimentos realizados com seres humanos. Realizar experimentos com seres humanos é mais difícil e complicado do que trabalhar com máquinas e seres irracionais. Nesta relação ergonômica entre homem, trabalho, ambiente, organização, administradores, gerentes é que a comunicação eficaz pode ser uma ferramenta de importância e necessidade vital.
Nesta dissertação, pretendemos apresentar algumas considerações que levem a reflexões sobre a grande importância da comunicação na ergonomia, para a construção de um trabalho que possa levar a redução de erros, acidentes, stress e o conseqüente bem estar do ser humano trabalhador, bem como, um ganho em produtividade para a organização.