
CAPÍTULO
3 - FUNDAMENTOS DA PSICOLOGIA COGNITIVA DO TRABALHO
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3.1 Considerações gerais sobre os
comportamentos do homem no trabalho
O objeto da psicologia do trabalho é o
estudo dos comportamentos do homem na realização de suas atividades de labor.
Introduziremos, neste capítulo, a necessidade de referenciarmos as contribuições
fundamentais dadas pela teoria psicológica a este estudo.
Em psicologia, o termo atividade se alinha
conceitualmente às diferentes abordagens que procuram explicar a natureza do
comportamento e sua previsibilidade social. A busca pela elaboração de modelos que
permitam compreender os comportamentos do homem, de um lado, como um sistema de recepção
e tratamento da informação, e de outro lado, como um sistema de transformação de
energia, produziram diferentes formulações sobre o desempenho das pessoas naquilo que
elas fazem ou se proponham a fazer.
A visão de "homem" movido por
determinantes internas (solicitações) ou submetido à condicionantes externas (cargas de
trabalho), originou, na psicologia do trabalho, concepções que contemplam ambas as
definições. Na verdade, o trabalho pode ser visto como um subsistema menor das coisas
que fazemos para aliviar nossas tensões, mas também pode representar a atividade
principal de realização objetiva do ser humano. De uma forma ou de outra, o trabalho é
incorporado subjetivamente no nosso modo de perceber e fazer as coisas que necessitamos.
Além disso, podemos dizer que a diferença
entre o trabalho formal (tarefa) e o trabalho real (atividade), elemento fundamental do
estudo do comportamento do homem no trabalho, permite definir níveis da análise das
atividades de trabalho, que podem servir à teoria psicológica geral.
Segundo esta ótica, analisaremos três
grandes campos interdependentes, relativos ao estudo das atividades de trabalho:
- As comunicações: para agir é necessário efetuar trocas
de informações sobre o estado da situação na qual nos encontramos;
- As regulações: toda ação consiste em reduzir a
diferença entre um estado desejado de uma determinada situação e o estado atual no qual
nos encontramos;
- As competências: as modalidades e as possibilidades de
reduzir esta diferença dependem diretamente das habilidades cognitivas e
sensório-motoras que o sujeito dispõe.
3.2 - Os níveis de análise dos
comportamentos do homem no trabalho
Em um primeiro nível de análise, os
comportamentos do homem no trabalho podem ser definidos como modos operativos,
desenvolvidos pelo sujeito para reduzir a distância entre o trabalho formal e o trabalho
real. Esta distinção, no entanto, não explica os mecanismos e os processos utilizados
para reduzir esta distância.
Todavia, é necessário, num segundo nível
de análise, assinalar as diferentes componentes desses comportamentos que constituem o
trabalho real. No entanto, esta apresentação em termos de componentes dos comportamentos
do homem no trabalho, não leva em consideração o aspecto essencial, ou seja, a
dinâmica decorrente da interação entre os diversos elementos. Por isso, nós
apresentaremos, num terceiro nível de análise, um modelo que tenta restituir essa
dinâmica dos comportamentos do homem no trabalho.
3.2.1 Do trabalho formal ao trabalho
real
A partir da distinção dos diferentes
tipos de tarefas e dos diferentes circuitos de regulação, pode-se mostrar que os
comportamentos do homem no trabalho podem ser analisados segundo um modelo clássico,
tradicional, relativo a estrutura geral das atividades do homem no trabalho. Esta
distinção faz surgir três níveis de análise para os comportamentos do homem no
trabalho que são esquematizadas na figura 3.1:
Trabalho humano |
Diferentes Tipos de Tarefas |
Modelo Geral de Comportamento |
Trabalho formal |
Tarefa prescrita |
Situação de trabalho:
prescrição |
Trabalho mental |
Tarefa Induzida /Tarefa atualizada |
Atividade mental: raciocínios e inferências |
Trabalho real |
Tarefa realizada |
Respostas:
ação |
Figura 3.1 - Os diferentes
níveis da tarefa
Lembremos que nem todas estas respostas
estão dirigidas, diretamente, pelo trabalho que se realiza. Os comportamentos
"colaterais", que são um tipo de respostas "parasitas", traduzem, às
vezes, o aumento de conflitos ou tensões no trabalho e são de importância capital para
a análise do mesmo.
Esta diferenciação de níveis tem
consequências importantes para a análise dos comportamentos do homem no trabalho. O que
é central não é o que é mais visível. A tarefa induzida e a tarefa atualizada só
podem ser deduzidas, e elas o serão a partir das diferenças constatadas entre o que o
sujeito deve fazer (tarefa prescrita), e o que ele realmente faz (tarefa realizada).
De fato, a pesquisa científica clássica,
que exige a observação de algo que seja "observável", não é suficiente para
que possamos deduzir, a partir das entradas (situação de trabalho) e das saídas
(comportamentos observáveis), o trabalho mental. Assim, necessitamos de modelos que nos
permitam orientar a observação dessas diferenças e interpretá-las.
3.2.2 As componentes do
comportamento do homem no trabalho
Compreender essas "diferenças",
supõe possuir uma concepção de atividade do trabalho. Para isto nos basearemos,
inicialmente, nos trabalhos de Faverge (1972), que distingue quatro componentes
fundamentais no desenvolvimento das atividades do homem no trabalho: motora,
informacional, regulatória e intelectual.
Segundo este autor, trabalhar consiste em:
- Realizar gestos (atividade motora);
- Detectar informações sobre o objeto de trabalho (ou
através de uma interface), tratar essas informações, e responder sobre o objeto (ou
através de uma interface), isto é, assegurar uma comunicação entre o homem e o objeto
de trabalho (atividade informacional);
- Manter uma variável em um valor de norma ou controlar para
que ela não se desvie desse valor (atividade regulatória);
- Colocar em ação formas de pensamento, utilizar
algorítimos ou heurísticas, usar técnicas e estratégias, tomar decisões (atividade
intelectual).
Para algumas atividades profissionais, a
distinção destes quatro níveis é evidenciada sem maiores problemas. Por exemplo, o
trabalho de um médico cirurgião ou de um carpinteiro artesão comporta estas quatro
componentes. Todavia, para algumas profissões em que exista uma forte oposição trabalho
manual x trabalho intelectual, normalmente, nos polarizamos em uma destas componentes e
desprezamos as outras. Por exemplo, se analisarmos a atividade de um jornalista,
privilegiaremos os aspectos de comunicações, processos de pensamento.
As atividades gestuais, ainda que sejam
menos importantes quando se pensa em atividades mentais, podem ser um dos pontos chaves na
solução dos problemas provocados por este tipo de atividade. Numerosos estudos mostram
que a manipulação dos instrumentos em profissões associadas ao estudo ou a compreensão
de textos, podem ter, nos gestos que se realizam, a origem das dificuldades encontradas.
Inversamente, a análise dos trabalhos
ditos "manuais", que se centraliza nos aspectos gestuais, também não podem ser
plenamente compreendidos sem o concurso do intelectual. O essencial situa-se ao nível da
detecção das informações e da regulação das atividades de trabalho.
Um belo exemplo é dado por Ombredane e
Faverge (1955), sobre o trabalho do pedreiro colocando tijolos. Na fase de aprendizagem
desta profissão, insiste-se sobre a manipulação da colher, do tijolo, da argamassa.
Todos os tipos de instruções e indicações são fornecidas sobre a posição da colher
de pedreiro, sobre o posicionamento dos tijolos, sobre a maneira de aplicar a argamassa.
Faverge observa que, mesmo respeitando escrupulosamente estas instruções, o aprendiz tem
tendência em cometer erros no trabalho realizado, parecendo não compreender as regras.
Os tijolos não ficam bem alinhados, a superfície da parede não fica plana e assim por
diante. Para corrigir estes erros, Faverge mostra que a solução não consiste em efetuar
melhor os gestos, como pensa o senso comum, "no início é normal eles ficarem um
pouco desajeitados", mas sim descobrir referências visuais e buscar informações
que permitirão assentar corretamente o tijolo. Em outros termos, a habilidade do pedreiro
repousa na sua "visada", que é a habilidade que ele desenvolve para nivelar o
assentamento dos tijolos. Qualquer que seja a situação de trabalho analisada, é
necessário buscar o significado e a importância dessas quatro componentes na atividade
do sujeito observado.
A evolução tecnológica tem permitido o
aparecimento de um considerável número de novos dispositivos técnicos, produzidos em
vários países. Se na análise das atividades de trabalho, relativas ao uso desses
dispositivos, nos centralizarmos unicamente sobre os gestos, como por exemplo de um
operador de máquinas com comandos numéricos automatizados, ficamos com dificuldades para
definir os parâmetros que ele deve controlar para a produção correta de uma peça.
Todavia, sem negar o caráter
particularmente inovador das pesquisas de Faverge, que marcaram fortemente a psicologia do
trabalho, esta distinção apresenta dois inconvenientes. O primeiro, diz respeito a sua
relativa discrição sobre os processos de pensamento. Isto se explica pelo fato de que
Faverge efetuou suas pesquisas antes do avanço das ciências cognitivas. O segundo, diz
respeito ao fato que Faverge distinguiu quatro componentes, mas não detalhou praticamente
nada como estes quatro níveis se articulam.
3.2.3. A dinâmica dos comportamentos do
homem no trabalho
Rasmussen (1981), propôs um modelo para
analisar a dinâmica dos comportamentos do homem no trabalho, de um sujeito operando um
dispositivo técnico.
Este modelo apresenta as seguintes
vantagens:
- Continuidade: o modelo apresenta uma continuidade cognitiva
em relação aos modelos anteriores utilizados em psicologia do trabalho;
- Clareza: o modelo apresenta uma clareza graças a um
formalismo simples e conceitos claramente definidos;
- Operacionalidade: o modelo é suficientemente flexível para
considerar uma grande diversidade de situações de trabalho.
Pelas razões expostas, houve uma grande
difusão deste modelo na comunidade científica de ergonomia, da qual encontraremos
exemplos de utilização em Leplat (1985), e na obra de Hoc (1988), com uma formalização
para os sistemas de apoio nos processos de tomada de decisão, e na obra de Falzon (1989),
apoiando o estudo das linguagens técnicas utilizadas pelos sujeitos em situações de
trabalho específicas.
O modelo pode ser caracterizado por meio
dos seguintes aspectos essenciais:
- Apresenta uma formalização das diferentes fases no
tratamento das situações de trabalho;
- Distingue, à partir de possíveis saídas de cada uma das
fases-chaves, três grandes tipos de comportamentos;
- Associa, à um destes comportamentos, uma categorização
das informações prestadas pelo sujeito.
Na análise, como na planificação,
Rasmussen distingue o tratamento do resultado. Para ir do sinal à ação, o sujeito pode
usar "atalhos" (habilidades, regras) ou percorrer o conjunto do circuito
(conhecimentos).
3.2.3.1 As fases da atividade:
Duas grandes fases, contendo várias
etapas, podem ser distinguidas. A primeira é uma fase de "análise" que conduz
à um diagnóstico da situação. Esta fase compreende a ativação, observação,
categorização, interpretação e diagnóstico. A partir do diagnóstico, inicia-se a
segunda fase, que consiste na "planificação da ação", que compreende a
avaliação, a definição da tarefa, a definição dos procedimentos, conduzindo à
execução do trabalho.
Fase I Análise da situação
- Ativação: um sinal atrai a atenção do sujeito e o conduz
a orientar seus sentidos em direção à origem deste sinal, o que o leva a um estado de
alerta.
- Observação: a partir deste estado de alerta, o sujeito vai
coletar dados sobre o dispositivo técnico controlado, os sistemas de apresentação de
informação e de apoio à decisão, e sobre o meio ambiente de trabalho.
- Categorização: o sujeito dispõe assim de um conjunto de
dados que vai lhe permitir decodificar e coordenar a situação até construir uma
representação mental quanto ao "estado do sistema".
- Interpretação: esta fase consiste em determinar as causas
e as conseqüências associadas ao estado do sistema.
- Diagnóstico: é o conjunto de soluções possíveis a serem
tomadas para agir sobre as causas, modificando as conseqüências que o estado do sistema
possa ter sobre a produção.
Fase II Planificação da ação
- Avaliação: em função das características da situação
(ambientais, organizacionais e técnicas), o sujeito avaliará as diferentes soluções e
escolherá a melhor estratégia, aquela que melhor satisfaça o conjunto de critérios
contraditórios (critérios de saúde e critérios de produtividade).
- Definição da tarefa: o sujeito vai, dentro do cenário
estabelecido por essa estratégia, fixar objetivos e determinar os meios para
alcançá-los. Encontramos aqui o conceito de "tarefa atualizada".
- Definição do procedimento: definidos os objetivos e os
meios para alcançá-los, são estabelecidos dois tipos de procedimentos. Alguns já são
pré-construídos, outros serão elaborados para se fazer face a especificidade da
situação. Qualquer que seja o tipo de procedimento, eles consistem em uma seqüência
ordenada de operações a serem efetuadas. Esta fase de planificação, desencadeia-se na
"execução" dos procedimentos, quer dizer, na realização da tarefa.
3.2.3.2. Os tipos de comportamentos do
homem no trabalho:
Rasmussen distingue três tipos de
comportamentos:
- Os comportamentos baseados em habilidades (skills):
essencialmente sensório-motores, que são acionados automaticamente por situações
rotineiras e se desenvolvem segundo um modelo interno não consciente e adquirido
previamente;
- Os comportamentos baseados em regras (rules): que são
sequências de ações controladas por regras interiorizadas por aprendizagem. Essas
regras apresentam um certo grau de variabilidade.
- Os comportamentoss baseados em conhecimentos (knowledge):
que aparecem nas novas situações, para as quais não existem regras pré-construídas.
As habilidades são pouco sensíveis às
condicionantes do meio ambiente e permitem reações rápidas, podendo se desenrolar
paralelamente com outras atividades. Podem, certamente, originar uma ação que seja
resposta inadequada ao estado do sistema.
Um susto ao volante de um veículo gera uma
reação do motorista de pisar mais fundo no acelerador o que, dependendo do que estiver a
frente, pode ser um desastre. Por outro lado, a experiência permite que se dirija um
carro, ou se reaja a uma situação de emergência, quase que de forma inconsciente.
Os comportamentos baseados em regras são
seqüências de ações controladas por normas memorizadas por meio da aprendizagem.
Contrariamente às anteriores, estes comportamentos supõem uma execução e, uma
coordenação das mesmas, pois correspondem a situações familiares, mas que tem um certo
grau de variabilidade.
A interpretação desses comportamentos
varia segundo os autores. Para alguns (Valax, 1986), o controle da seqüência da ação
é automático e inconsciente, pois existe, por parte do sujeito, a interiorização de
procedimentos complexos. Para outros (Falzon, 1989) o sujeito é susceptível de
verbalizar esses tipos de comportamentos, o que permitirá uma explicitação das regras:
ele tem "consciência do que faz". Veremos, na seqüência, que esta oposição
pode ser proveitosa no plano da pesquisa em ergonomia cognitiva.
Os comportamentos baseados em conhecimentos
(knowledge) aparecem em situações novas para as quais não existem regras
pré-construídas. Esses tipos de comportamentos correspondem ao percurso do conjunto de
etapas descritas pelo esquema de Rasmussen. Elas estão mais ligadas aos esquemas do
sujeito do que à própria tarefa. Uma mesma tarefa pode ser familiar para um sujeito
experiente e totalmente nova para um aprendiz.
A linearidade de um esquema não significa
que a atividade também seja linear, o sujeito pode proceder ajustamentos sobre as
diferentes etapas, completar dados, rever sua categorização, rever suas escolhas de
estratégias, procedimentos.
3.2.3.3. Os diferentes tipos de
informações
A última característica do modelo de
Rasmussen é que ele associa, a cada um dos comportamentos, uma significado particular
quanto as informações tratadas:
- As habilidades (destreza) são ativadas por
"sinais";
- As regras são ativadas por "signos";
- Os conhecimentos são ativados por "símbolos".
Esta distinção emprega os termos
utilizados em lingüística, ao qual retomaremos no parágrafo consagrado aos problemas da
terminologia empregada nas comunicações. Para complementar as concepções de Faverge e
de Rasmussen, ressaltamos três pontos chaves do comportamento do homem no trabalho: as
comunicações, as regulações e as competências intelectuais. Cada uma destas
componentes não devem ser dissociadas das duas outras, na análise das atividades de
trabalho.
3.3 As comunicações
A psicologia do trabalho consagrou
numerosos trabalhos ao problema das comunicações (De Montmollin,1983). Isto supõe que,
num primeiro momento seja delimitado o campo relativo as comunicações dentro do trabalho
e que sejam, num segundo momento, determinados os níveis de aproximação das
comunicações.
3.3.1 A problemática das
comunicações de trabalho
3.3.1.1 Definições
O campo coberto pela noção de
comunicação não está claramente definido. Uma das tentativas mais interessantes para
delimitá-lo é aquela de Van Cranach (1973), que distingue as informações, as
interações e as comunicações propriamente ditas.
A informação é um dado pertinente que um
sujeito, ou uma máquina, deduz da observação de um outro sujeito, ou de uma outra
máquina. O efeito do tratamento das informações, pode se traduzir por uma modificação
no comportamento dos sujeitos, ou das máquinas. Quando isto acontecer, chamamos então
interação, para designar a influência de um determinado elemento, um sujeito ou uma
máquina, sob um outro, quaisquer que sejam os meios utilizados para exercer esta
influência.
A comunicação é uma situação
particular de interação e que se define pela utilização de códigos previamente
elaborados:
- Informação: qualquer dado que sirva como um sinal, que
chame nossa atenção;
- Interação: quando o homem ou a máquina, devido a
informação recebida, alteram o seu comportamento;
- Comunicação: quando a interação se dá por meio de
códigos previamente elaborados.
Os códigos são normas compartilhadas por
um grupo, cuja aquisição é necessária para comunicar-se. Um primeiro tipo de problema
diz respeito a natureza dos códigos que pode ser muito variado. Os códigos não são
todos verbais e lingüisticos. Podem existir outros códigos que utilizam o canal
auditivo, como o código morse. O canal visual pode também utilizar outros códigos além
dos lingüisticos, como os gestos. Na marinha e na aeronáutica, nos transportes, temos a
cor e os gráficos. A inclinação do corpo, a posição de lotus, etc. Existem até
códigos "tácteis" usados para curtir peles, ou "olfativos", para os
que trabalham com perfumaria, além dos que utilizam repertórios normalizados, Recorrer
à lingüistica para analisar estes códigos é, portanto, difícil, na medida em que esta
disciplina se preocupa, essencialmente, com as linguagens ditas "naturais".
A lingüística e a semiologia se
interessam pelas linguagens, que são os mais importantes dos códigos e, portanto, serão
úteis à psicologia do trabalho na compreensão das comunicações que se estabelecem no
ambiente de trabalho. Por outro lado, nesse ambiente, os desenvolvimentos técnicos
fizeram com que a linguagem "natural" fosse substituída por um conjunto de
outros códigos. Nos diálogos com as máquinas, por exemplo, empregamos displays,
painéis de sinalização e de comandos, dentre outros. Nas comunicações à distância,
como no rádio, telefone e nas mensagem em terminais de vídeo, outros fatores devem ser
considerados.
Um segundo tipo de problema, refere-se ao
caráter de normalização, que não significa que os códigos sejam necessariamente
explícitos. Tanto ao nível da aprendizagem como ao nível de sua utilização, os
códigos podem ser explícitos conscientemente (códigos secretos) ou não (os códigos
são tão interiorizados que lhes explicamos para os iniciantes que devem aprender por
meio de impregnação).
Veremos que, em situações de
transferências de tecnologias, esses códigos implícitos apresentam numerosos problemas
para os sujeitos de uma determinada cultura. Devemos ensinar esses códigos aos sujeitos
que não tiveram impregnação cultural.
3.3.2 Comunicações homem -
máquina ou homem - homem?
Dentro de uma situação de trabalho, as
comunicações foram, durante muito tempo, consideradas somente sob o ângulo da
comunicação homem - máquina, o que apresentava um duplo inconveniente:
- Em primeiro lugar, isto causou uma centralização nos
códigos técnicos e sobretudo no caráter físico dos códigos: legibilidade,
acessibilidade, limiar de percepção. Todavia os problemas de inteligibilidade e de
interpretação das mensagens, são também importantes para os comportamentos do homem no
trabalho, o que implica na necessidade de análises psicolingüísticas, o que foi
bastante raro em psicologia do trabalho até os anos 80.
- Por outro lado, o desenvolvimento da informática, fez com
que os códigos técnicos sejam, cada vez mais substituídos por linguagens
"naturais", tornam este nível limite de análise ainda mais obsoleto.
A questão agora, é de saber em quais
condições a linguagem "natural" pode substituir as linguagens técnicas ou,
dito de outra maneira, através do que uma linguagem natural torna-se uma linguagem
técnica?
O segundo inconveniente da análise
clássica (tradicional) das comunicações homem - máquina era a de centrar-se sobre uma
dimensão intra-individual. Sob a influência da evolução técnica, que faz com que as
máquinas e os homens estejam cada vez mais interconectados, a necessidade de abordar as
comunicações homem - homem é, cada vez mais, solicitada à psicologia do trabalho. Esta
preocupação sempre existiu. Por exemplo, trabalhos que centralizam-se nas funções
cognitivas dos líderes tentaram referir-se as características da competência
comunicacional (Barge & Hirakawa, 1939).
Porém, privilegiando o aspecto
"atividade", trabalhar a dimensão inter-individual é mais importante, pois os
comportamentos do homem no trabalho supõe, segundo a distinção de Savoyant (1977), uma
"cooperação" dos sujeitos entre si e uma "co-ação", quer dizer,
uma coordenação de ações.
4.3.3 A função das comunicações
no trabalho
Seguindo-se uma velha distinção, diremos
que as comunicações preenchem dois grandes tipos de função no trabalho:
- A primeira é motivacional, permite, de um lado, a melhoria
das relações sociais e, de outro lado, a emergência de soluções técnicas, na medida
em que os sujeitos possam expressar-se em relação a atividade. No entanto, esses tipos
de comunicações não possuem, como único objetivo, mobilizar os sujeitos. Segundo
algumas experiências que as áreas de qualidade realizaram, as comunicações mantém,
também, relações diretas com a atividade de produção. V. De Keyser (1983), mostra que
a pobreza das comunicações sociais, fato que é comum em alguns postos de trabalho e
setores das organizações, isolam os sujeitos, sem deixá-los, assim, mais eficazes,
conduzindo à uma perda de confiança no sistema.
- A segunda função das comunicações é a de ser
operacional, quer dizer, assegurar o fluxo das informações necessárias para que se
estabeleçam a interação das operações exigidas à produção. Numerosas
categorizações de comunicações existem, centradas sejam sobre o conteúdo do trabalho,
ou sobre estes aspectos coletivos.
Savoyant & Leplat associam estes dois
aspectos levando em consideração a dimensão coletiva do trabalho, sempre colocando em
evidência o papel dos sujeitos sobre a organização. Estes autores definem cinco tipos
de comunicações:
- As comunicações de orientação geral, anteriores à
execução efetiva da ação;
- As comunicações do tipo comentários de sua própria
atividade, em que os sujeitos verbalizam, no decorrer da realização da ação, alguns
elementos relativos a sua própria atividade. Estas tem por objetivo, fornecer aos outros
sujeitos, elementos necessários para uma realização coordenada das operações;
- As comunicações de direcionamento, em que o sujeito define
elementos da atividade de um outro sujeito;
- As comunicações de acionamento das operações, que
definem os momentos de execução das operações;
- As comunicações de controle, que são empregadas para
verificar a compatibilidade das ações e das operações.
Winograd (1988), propôs uma
categorização bem parecida, mas com um caráter mais geral. Ele distingue as
comunicações de "execução", de "clarificação", de
"confrontação das soluções" e de "orientação". O problema
proposto permite abranger os aspectos relativos ao papel das comunicações no trabalho.
Servirá de guia para toda análise do trabalho. No entanto, não trata do que faz a
especificidade das comunicações em relação as informações e em relação as
interações, a estrutura do código e as linguagens utilizadas.
3.3.2 Estrutura dos suportes de
comunicação de trabalho
De fato, é necessário dispor de
instrumentos que permitam ao engenheiro de produção analisar estes suportes de
comunicação. Estudaremos aqui algumas referências simples que permitirão resolver
questões importantes para a atividade do sujeito. Por exemplo: "um desenho é bem
melhor que muitas explicações"; ou que tipo de relação mantém a linguagem
"padronizada", porém formal, com a atividade real do sujeito? Dois níveis de
análise são necessárias, um "semiológico", centrado nas unidades elementares
da linguagem natural ou técnica e outro "psicolinguístico", centrado ao nível
pragmático do uso da língua.
3.3.2.1 Sistema de sinais
Se as comunicações baseiam-se em
códigos, então, três tipos de abordagens são possíveis:
1. Abordagem semiológica: segundo Saussure (1916), o signo
é uma convenção que liga o significante ao significado. Os signos são categorizados em
função do grau de arbitrariedade:
- Os signos: não lembram nenhuma das características do
significado;
- Os ícones: apresentam uma semelhança física com o
significado;
- Os índices: são sinais levantados diretamente do
significado.
2. Abordagem funcional: pode-se categorizar os sinais
utilizados tendo em vista a função que exercem na atividade de trabalho:
1. Os Sinais: habilidades;
2. Os Signos: regras;
3. Os Símbolos: copnhecimentos.
Abordagem em função da experiência: a
primeira consequência da experiência do sujeito consiste em uma substituição gradativa
dos sinais, oficialmente previstos pela organização, por sinais informais, oficiosos. Os
indícios detectados diretamente sobre o meio ambiente de trabalho são exemplos desta
substituição, fruto da experiência. Uma segunda consequência é a respeito da
variação na natureza dos sinais utilizados. No início da aprendizagem o sujeito utiliza
informações verbais, que repete mentalmente e que são prejudicadas quando interrompido.
Num segundo momento, o sujeito é capaz de responder questões, mas não pode trabalhar de
olhos vendados, porque ele se utiliza de informações visuais. Enfim, na última fase, o
sujeito pode agir de olhos vendados porque ele se utiliza de informações proprioceptivas
que liberam a visão para detectar outras informações.
1) Abordagem semiológica: do significante
ao significado:
Os sinais são categorizados em função do
grau de arbitrariedade da relação entre o significante e o significado. Os sinais são
arbitrários pois o significante não lembra nenhuma característica do significado. A
linguagem natural é baseada em sinais - símbolos (por exemplo as palavras árvore,
bobina). Todavia, o arbitrário do sinal se encontra nos sinais que não são
lingüisticos, no senso estrito. Encontramos numerosos exemplos de códigos arbitrários
no trabalho, como os códigos gráficos, de cores, relativos ao movimento de um cursor ou
de uma agulha ou ponteiro. Os estereótipos ergonômicos que já vimos, são um exemplo
desta codificação convencional. No trabalho, os sinais podem associar figuras (sinais)
lingüisticas e gráficos, como, por exemplo, a placa de "PARE" no código de
trânsito.
Os ícones apresentam uma semelhança
física com o objeto ao qual se referem. Podemos distinguir, neste nível, ícones no
senso estrito, como uma representação do objeto (por exemplo: o desenho de um carro em
uma placa de código de trânsito, uma vasilha de óleo para indicar um líquido
lubrificante) e dos símbolos, que são uma representação do objeto, mas que servem-se
de convenções arbitrárias (por exemplo: cartas, diagramas, esquemas de circuitos).
Os índices são sinais levantados
preliminarmente em uma situação de trabalho, pois eles correspondem a um prolongamento
direto do objeto (por exemplo: a cor do metal indicando sua temperatura; a imagem do
desfile de árvores indicando a velocidade de um trem). Os índices são pessoais e
construídos a partir da experiência do sujeito. Deste ponto de vista, não podem ser
considerados como códigos compartilhados, pelo menos oficialmente. Os índices merecem,
no entanto, a atenção da psicologia do trabalho, pois veremos que constituem a base de
um grande número de "saber-fazer".
A categorização dos sinais segundo a
perspectiva de Saussure é, portanto, útil, pois permite questionar um certo número de
problemas que dizem respeito a concepção dos instrumentos de trabalho. Numerosos
estudos, por exemplo, tentaram comparar a eficácia relativa destes diferentes códigos.
Infelizmente, os resultados são contraditórios. Se os ícones necessitam de
aprendizagens menos difíceis que os sinais, apresentam um grau de generalidade menor e,
dificilmente, permitem elaborar sintaxes complexas. Mas, fundamentalmente, o que foi
proposto por Saussure, revela-se insuficiente do ponto de vista do engenheiro projetista,
pois despreza a atividade do sujeito com os códigos.
Constatamos que, desde os anos 80, há um
grande interesse pelos trabalhos de Pierce que introduziu ao trabalho de Saussure, no
final do século XIX, os termos "representação", "objeto" e
"interpretação". O objeto real, imaginável ou inconcebível, corresponde ao
significado (uma bobina, uma vela: elementos mecânicos). A representação, imagem sonora
ou visual de uma palavra, corresponde ao significado (bobina). O interpretante é uma
imagem mental associada ou não a um termo e que fará corresponder, ou representar, o
objeto (bobina = peça do motor receptáculo do fio).
Morris (1955), devido ao interesse pelos
trabalhos de Pierce, propôs uma leitura interessante da noção do interpretante, que
considera o sujeito como "intérprete", assegurando a mediação entre a
representação e o objeto. Os lingüistas contestaram esta interpretação que atribui o
processo de significado ao sujeito e não à um sinal (ou figura) lingüistico, mas, esta
concepção parece fecunda para o psicologia do trabalho, pois fornece um
"status" mais sólido às tentativas de categorização funcional dos sinais.
Estes sinais, portanto, não vão mais ser
analisados em função de suas características físicas mas, sim, em função do uso que
o sujeito faz deles.
2) Abordagem funcional
Podemos categorizar os sinais utilizados
levando-se em conta à função que eles preenchem na atividade de trabalho.
Diferenciaremos assim os "descritores" dos "prescritores"
(Weill-Fassina, 1979). Os primeiros, fornecem informações sobre o estado da situação
de trabalho e sobre suas variações, mas não indicam as ações a serem executadas para
tratar, lidar, com esses estados. Os segundos, em compensação, indicam, sob a forma de
senhas (instruções) e de regras mais ou menos imperativas, as ações a serem
executadas. Esta categorização, útil por colocar em ordem os sinais que o sujeito
encontra, é muito centrada nos aspectos formais do trabalho e não considera a atividade
mental do sujeito.
De um ponto de vista funcional, porém,
integrando o funcionamento do sujeito, lembremos da categorização de Rasmussen (1989)
que associa a cada um dos três comportamentos (habilidades, regras e conhecimentos),
três tipos de informações (sinal, signo e símbolo).
Um sujeito que encara pela primeira vez um
problema de "lonas de freio gastas", trata o piscar do alarme do painel do
carro, como um símbolo e mobiliza conhecimentos. Um motorista experiente indentificará
imediatamente esta informação se ela ocorrer e, neste caso, o alarme será tratado como
um sinal.
Este exemplo mostra que o tipo de
informação detectada anteriormente, está relacionada a sua utilização e a
experiência do sujeito. Esta perspectiva é reforçada pela consideração de trabalhos
mais antigos que mostram que o "status dos sinais", utilizados no trabalho,
estão relacionados a evolução da competência do sujeito.
3) Abordagem em função da experiência
Uma primeira conseqüência da experiência
do sujeito é a gradativa substituição de sinais oficialmente previstos na concepção
da situação de trabalho por sinais informais ou oficiosos. Os índices levantados
diretamente sobre o ambiente de trabalho são um exemplo desta substituição, que é
fruto da experiência. Estes processos ainda são freqüentes, mesmo em situações
tecnologicamente mais avançadas, que tendem à eliminá-los, cada vez mais, levando ao
desaparecimento da destreza, da habilidade manual e do saber-fazer dos sujeitos. Da mesma
forma, abrange domínios extensos. Em uma situação de formação, por exemplo, o
professor pode perguntar: "Vocês compreenderam"?, e receber sinais oficiais
positivos e, ao mesmo tempo, perceber sinais informais (posturas, mímicas), que, às
vezes, contradizem o que a voz afirma. Só a experiência lhe permitirá decodificar
(interpretar) estas contradições. Estes sinais são pouco conhecidos e possuem uma
aprendizagem de difícil formalização, o que não significa que devam ser desprezados.
Um segundo tipo de substituição diz
respeito à variação na natureza dos sinais utilizados. Trabalhos muito antigos de
Lancu, citados por Faverge (1972), colocam em evidência três etapas na recepção de
informações. No início da aprendizagem, utilizamos informações verbais que repetimos
mentalmente, fazendo com que se falarmos com o sujeito, ele interrompa sua atividade. Num
segundo momento, o sujeito é capaz de responder às questões mas não pode trabalhar com
os olhos fechados, pois utiliza informações visuais (olhar sua alavanca de marcha, seu
teclado, sua tela, suas mãos e seus pés). Enfim, na última fase da aprendizagem, o
sujeito pode agir com os olhos fechados pois ele utiliza informações proprioceptivas.
Receptores de informações situados ao nível ósteomuscular liberam a visão para que
esta possa captar outras informações existentes na situação de trabalho. O motorista
presta atenção unicamente na estrada, o digitador o texto a ser digitado e a dançarina
dança com os olhos fechados.
Se é difícil formalizar sinais
proprioceptivos, que são internos ao sujeito, em compensação é inútil sobrecarregar o
sujeito com informações verbais ou visuais, para as quais ele pode efetuar
substituições. É necessário privilegiar, na formação, os sinais proprioceptivos,
interditando, assim, verbalizações mentais (enviar mensagens sonoras ao aprendiz) de um
lado, e de outro lado, incentivar a tomada de informações visuais ("olhe a
estrada", "observe sua posição", "a postura da cabeça da
dançarina"). Se tiramos, assim, os canais auditivos e visuais desta tomada de
informações permitiremos antecipações e avaliações sobre outros aspectos da tarefa.
Esta análise do papel ativo do sujeito não se limita aos aspectos semiológicos,
influencia, também, ao nível da dinâmica da comunicação.
Outra questão é a do diálogo homem -
máquina, decorrente da evolução tecnológica. Existe uma disputa entre os que defendem
e os que são contra o uso de linguagem natural. Winograd (1984), sistematizou as
ambiguidades da linguagem natural e suas consequências no campo da informática:
TIPOS DE AMBIGUIDADES EXEMPLOS
1. Lexical A pesca está boa?
2. Estrutural A pequena quebra o vidro.
3. Estrutural profunda Paul faz comer as
galinhas.
4. Semântica Davi quer casar uma
norueguesa.
5. Pragmática Ela deixou cair o prato
sobre a mesa e quebrou.
Alguns desses elementos, dentro de um
contexto, permitirão ao homem compreender esta frase, quer dizer, escolher entre duas
interpretações possíveis, ao passo que, para uma máquina, compreender, ou decifrar
tais ambiguidades, exigirá numerosas linhas de programas. Estabelecer um diálogo, em
linguagem natural, entre um homem e uma máquina, supõe, portanto, que seja resolvido o
caráter ambíguo de um grande número de proposições.
A utilização de uma linguagem natural nas
interações homem - máquina se revela, portanto, difícil, pois necessita programas de
computador muito complexos. Por outro lado, numerosas experiências (citadas por Falzon
1989), mostram que a linguagem natural não é, forçosamente, mais eficaz do que as
linguagens técnicas codificadas e que sujeitos, tendo que escolher entre uma linguagem
técnica e uma linguagem natural, não escolheriam, forçosamente, a natural. Por exemplo,
na utilização do tratamento de texto os sujeitos em certas condições retornam
rapidamente aos códigos das máquinas depois de já terem recorrido aos comandos em
linguagem natural.
Observações simples se opõem a estes
argumentos que são contra a utilização da linguagem natural. A população que utiliza
equipamentos de informática, está cada vez mais numerosa. Portanto, será lógico
utilizar, para essas interações, uma linguagem mais conhecida, mesmo se esta apresenta
inconvenientes. O exemplo dos programadores e analistas de sistemas, especialistas em um
determinado tipo de linguagem, demonstra o quanto é complexo passar para outros, que não
dominam estes formalismos, estas informações.
Enfim, é necessário considerar que todo
instrumento é apenas um meio para se cumprir as tarefas. É portanto, desejável que o
sujeito não perca um tempo considerável, só para aprender a falar com sua máquina,
sobretudo se mudamos seguidamente a linguagem dessa máquina (a evolução é rápida
nesse campo) e ele deva reaprender, a cada vez que surja uma nova linguagem de comando.
Para sair do dilema, linguagem técnica ou
natural, a tendência é recorrer à linguagens restritas que são dialetos derivados da
linguagem natural. Esta posição se apoia no fato que existe uma tendência natural à
restringir a linguagem desde que sejamos especialistas em um determinado campo.
Em todas as profissões existem gírias que
são deformações da linguagem natural. O engenheiro usa as gambiarras, o mesmo acontece
em atividades antigas como a construção e a marcenaria, ou na linguagem do pedreiro ou
do carpinteiro.
Estas linguagens não tem como objetivo um
esoterismo. Elas foram construídas, progressivamente, pela experiência profissional, com
vistas a uma maior eficácia. Esta dupla característica, conduziu Falzon (1989) a
designá-las como linguagens operativas, por analogia às imagens operativas definidas por
Ochanine (1978).
As vantagens dessas linguagens restritas,
derivadas da linguagem natural, são inegáveis. Tomando emprestado o vocabulário
natural, que é de aprendizagem mais fácil e agradável, é possível, assim,
transferências de uma aprendizagem à outra, criticando as estruturas sintáxicas da
língua, evitando erros de interpretação. Seu caráter restrito, enfim, diminuirá os
custos em termos de programação.
A questão que se coloca, então, é aquela
das modalidades de restrição impostas por essas linguagens. Uma primeira tendência
consistiu em definir as restrições a serem impostas a linguagem natural para torná-la
mais aceitável por parte dos sujeitos.
Toda uma corrente de pesquisa, dentro da
ergonomia (Valentim & Lucangsang, 1987), produziu regras para deixar essas linguagens
de interface mais homogêneas, compatíveis entre si, com um nível otimizado de
informações, com o objetivo de ser ao mesmo tempo compreensível e de fácil
utilização pelo sujeito.
Este esforço de normalização é
interessante. No entanto, esta perspectiva é muito formal e não se apóia na atividade
real dos sujeitos que restringem, naturalmente, a sua linguagem.
Como assinala Falzon, "ao invés de
estudar as restrições específicas da linguagem natural, por que não estudar as
restrições naturais da linguagem específica já utilizada pelos sujeitos?" Isto
permitirá dispor de vocabulários e sintaxes apropriados à tarefa real, no caso da
informatização, e de formular, sobre um plano mais geral, recomendações realistas
sobre a concepção das linguagens restritas.
Falzon não propõe leis sobre a
adaptação linguagem natural em situações específicas, mas alguns pontos chaves
emergem de seus trabalhos sobre as linguagens operativas. Sobre o plano lexical, o tamanho
do vocabulário deve ser reduzido, não necessariamente os mais frequentes da linguagem.
Por outro lado, alguns termos específicos devem ser criados.
Exemplos desses vocabulários, particulares
à um determinado corpo profissional, existem em abundância. Um gato, segundo um morador
de uma favela, não é, necessariamente, um mamífero doméstico mas, bem diferente, uma
ligação clandestina de energia.
Sobre o plano sintático, as restrições
compreendem o número de regras e sua complexidade. Elas são menos numerosas e mais
simples do que aquelas da gramática natural. Essas regras variam de uma linguagem
operativa à outra, podendo haver a criação de regras específicas.
A educação que possibilita a compreensão
dessas gramáticas, consiste em um problema árduo, demandando pesquisas
interdisciplinares como especialistas de linguística e de psicologia.
Sobre o plano semântico, as restrições
objetivam fazer desaparecer as ambiguidades da linguagem natural assinaladas por Winograd
(1984) e que, a linguagem natural elimina pelo contexto do texto ou, da conversação.
Um tratamento pelo contexto torna-se
difícil, pois as restrições decorrentes desta análise se traduz pelo uso de léxicos
monosêmicos unívocos, seja pela criação de léxicos específicos, com o objetivo de
evitar as ambiguidades da língua. Um físico não dirá bobina, mas solenóide para
distinguir um tipo particular de bobina. Aplicação, em matemática, circunscreve um
campo conceitual bem mais preciso que o existente nas linguagens correntes.
As restrições semânticas decorrem
também da orientação fixada pela tarefa, e da representação que o sujeito faz da
mesma. Esses elementos definem um universo restrito para as interpretações possíveis da
mensagem, que exerce o mesmo papel que o contexto da linguagem natural.
Sobre o plano pragmático, o que deve ser
feito em função do que é dito, as restrições ocorrem em função de um conjunto de
regras de uso e de referências convencionais de um contexto particular. Por exemplo, o
empregado do serviço de informações do aeroporto saberá decodificar a mensagem
"eu quero ir ao Rio de Janeiro", não como uma declaração, mas como um pedido
de horários, de fornecimento de passagens, etc Essas regras são chamadas de contrato de
comunicação (Ghiglione, 1936), e visam permitir uma coordenação espontânea e eficaz
das conversações correntes, na medida em que estas se baseiem sobre uma representação
compartilhada da situação.
Concluindo, as linguagens apresentadas não
são nem amostras, nem um sub conjunto da linguagem natural mas, um sistema construído
por deformações da mesma com o acréscimo de elementos particularmente eficazes para a
compreensão das mensagens que fluem nas atividades de trabalho.
A análise dessas linguagens permitirá que
se construam linguagens de interação homem - máquina bem mais adaptadas e, além disso,
possibilitará a compreensão dos elementos determinantes colocados em jogo na regulação
e na resolução de problemas no decorrer das atividades de trabalho.
3.3 As regulações
A abordagem da atividade do sujeito em
termos de regulação, foi, durante muito tempo privilegiada pela psicologia do trabalho.
Segundo esta concepção, o sujeito é considerado como um regulador do sistema.
A regulação foi definida por Piaget como
"o controle reativo que mantém o equilíbrio relativo de uma estrutura organizada
...". Uma primeira questão consiste em se perguntar em quais elementos do sistema é
mantido o equilíbrio? Uma segunda questão, considerando este equilíbrio como um
processo, será necessário perguntar qual a dimensão temporal das regulações? E, numa
terceira questão, categorizaremos as regulações.
3.3.1. A natureza das regulações
O sujeito, no desenvolvimento de uma
atividade de trabalho, preenche uma dupla função, a de comparador - regulador, no
sistema trabalho.
3.3.1.1. O desvio e a norma
A função comparador é aquela que permite
ao homem avaliar o desvio entre o estado esperado (ou desejado) e o estado observado do
sistema num determinado momento. Coloca-se então, o problema dos valores dos desvios
admitidos pelo sujeito. Estes, são determinados, de uma parte, pela percepção da
situação e, de outra parte, pela definição das normas pelas quais serão avaliados os
desempenhos do sistema.
Essas normas podem se diferenciar em
função do nível da tarefa (prescrita ou induzida). Em alguns grupos, existem normas
implícitas de produção que é aconselhável não ultrapassar por excesso de zelo. Em
outros casos, em particular devido a pressão quando se ligam alguns elementos à questão
salário, as normas podem ser super avaliadas. Nesses dois casos, existe um jogo social
que conduz a negociações, explicitas ou não, sobre o valor destas normas. Em outras
situações, uma competição, às vezes entre sujeitos, às vezes no sistema técnico, se
instala, e faz subir muito o valor destas normas.
De Keyser (1983), mostra como os
trabalhadores de uma siderúrgica tentam "vencer" o computador. Segundo ela,
"o aperfeiçoamento de estratégias observadas, a destreza, a tensão quase que
eufórica na hora em que o sujeito consegue imobilizar o computador, e pegá-lo em
flagrante delito de ignorância, testemunha uma competição a fim de afirmar sua
identidade e reforçar a coesão do grupo".
As normas não são, portanto, elementos
objetivos, resultam de representações individuais e coletivas. Quanto às regulações
que se estabelecem pelo desvio das normas, inscrevendo-se num jogo social, elas não
serão individuais, mas coletivas.
3.3.1.2 O intensivo e o cognitivo
A função regulador pode ser considerada
em dois níveis. O sujeito pode ser considerado como um regulador do sistema
sócio-técnico, istoé, recuperando os desvios em relação às normas. Podemos
considerá-lo, ainda, como regulador de sua própria atividade, quer dizer, modificando
seu procedimento de trabalho a fim de diminuir sua carga de trabalho, seu stress.
Leplat (1975), distinguiu dois circuitos de
regulação: um circuito cognitivo, que se centraliza sobre o desvio entre os objetivos
visados e os resultados obtidos, e um circuito intensivo que trata da carga de trabalho.
Nesse quadro dois tipos de regulação são possíveis para o circuito cognitivo:
1. Um circuito cognitivo: Regulação
funcional: pequeno desvio
Regulação estrutural: grande desvio
2. Um circuito intensivo: Relativo à carga de trabalho
Uma regulação funcional do desvio entre
os objetivos e os resultados é reduzido sem mudança de método de trabalho. Uma
regulação estrutural é colocada em jogo quando os desvios são importantes: ela se
traduz por tentativas de modificações dos objetivos, por mudanças de métodos de
trabalho.
Se essas tentativas de redução dos
desvios não der certo, a carga de trabalho, o stress, podem aumentar. Neste caso, um
segundo circuito de regulação pode ser ativado. O stress foi incluído, aqui, de uma
maneira geral. Todos os efeitos de trabalho sobre o homem podem se acentuar caso não se
tenha sucesso.
Se os efeitos do trabalho ficarem abaixo de
um limite aceitável, o sujeito poderá intensificar sua produção sem mudar de métodos.
Mas se os efeitos ultrapassarem os limites aceitáveis, como é o caso da figura de
regulação estrutural, então o sujeito mudará de método para recolocar estes efeito
abaixo do limite.
É necessário notar que, para os objetivos
de produção, o limite aceitável não é um dado objetivo. Os sujeitos podem aceitar
agressões que seus organismos não suportarão e que, futuramente, poderão acarretar
perturbações distintas na saúde do sujeito.
3.3.1.3. Prevenção ou produção
Esta distinção, estabelecida por Faverge
(1972), consiste na idéia de que o sujeito deve, num sistema de produção, preencher uma
dupla tarefa. Ele deve, em primeiro lugar, atingir os níveis de produção determinados
e, simultaneamente, manter um bom estado de funcionamento e de segurança das
instalações nas quais atua.
As estratégias desenvolvidas para manter
este nível de produção determinam uma regulação de produção. Todo desvio, toda
diferença, entre uma situação considerada normal e um estado degradado do sistema, ao
nível da instalação, determina uma regulação de prevenção.
Numerosos exemplos no campo da segurança,
são dados por autores a fim de ilustrar esta oposição. Faverge, em um estudo sobre os
trabalhadores de uma mina de carvão, mostra as contradições entre a regulação de
produção (cortar = produzir o máximo de carvão) e a regulação da prevenção.
Cellier (1980), em uma tese de doutorado
sobre a regulação entre a função de produção e a função de prevenção, mostrou
que os agricultores manifestam estes dois tipos de regulação e, que, numerosos acidentes
acontecem devido ao fato que a função produção é sempre privilegiada, custe o que
custar.
No entanto, estes exemplos não parecem
demonstrar que existam diferenças entre esses dois tipos de regulações e as
anteriormente citadas, regulação cognitiva e regulação intensiva. Poderemos considerar
que a regulação de prevenção e a regulação intensiva determinam os mesmos processos
e que não correspondem a coisas distintas.
O sujeito que não perde o seu tempo para
colocar o óleo lubrificante, pois senão atrasará a sua produção, correrá o risco de
queimar o motor. O motorista que não troca as pastilhas do freio para não perder a hora
marcada, são exemplos da não regulação de produção em detrimento da regulação do
sistema.
Estas distinções sobre a natureza,
particularmente complexa, da regulação, são úteis para a análise da atividade de
trabalho. Elas devem ser consideradas como instrumento de classificação, e não como
realidades separadas desta atividade.
3.3.2 A dimensão temporal das
regulações
As distinções anteriores fazem emergir a
relevância da dimensão temporal. Alguns trabalhos tentaram sistematizar esta dimensão
temporal.
3.3.2.1 Intimação ou parada?
Uma primeira distinção coloca em
evidência a importância da consideração do tempo nas regulações. Quando as
regulações são funcionais, quando tratam de pequenos desvios, não causarão mudanças
do modo operativo e, neste caso, a importância da dimensão temporal será reduzida. Em
compensação, nas regulações estruturais, quando temos desvios maiores, e é
necessário mudanças do modo operativo, planejar a dimensão temporal tornar-se-á
essencial.
Sem fazer referência, explicitamente, a
esta dimensão temporal, Faverge (1990), percebeu este problema, distinguindo uma
regulação de intimação de uma regulação por parada. Modificando levemente as
definições de Faverge, podemos fazer aparecer esta dimensão temporal.
Nas regulações de intimação, o sujeito
mantém a produção próximo da norma, por meio de micro ajustamentos. Nas regulações
por paradas, os desvios em relação à norma podem atingir um valor tal que só serão
corrigidos drasticamente.
3.3.2.2 Assíncrona ou síncrona
De Keyser (1983) formalizou a intervenção
da dimensão temporal na regulação, distinguindo uma regulação assíncrona de uma
regulação síncrona. A primeira consiste em uma distribuição desigual da produção
sobre a jornada de trabalho. Alguns períodos serão carregados para permitir uma
recuperação da produção, e outros serão relativamente mais tranquilos.
Sujeitos que devem se levantar muito cedo
devido a determinados aspectos da produção, por exemplo, preparação e tempo para
colocar em funcionamento as instalações, podem aproveitar as fases de repouso, durante a
jornada de trabalho, para recuperar eventuais desvios.
A regulação síncrona baseia-se na
pluralidade das estratégias que o sujeito pode dispor, dentre as quais, num determinado
instante, ele poderá escolher, para atingir a norma de produção, sempre mantendo um
nível de segurança aceitável.
Exemplos de regulações em diversos
setores e atividades:
De Keyser dá como exemplo de regulação
sincrônicas as modificações dos modos operativos do controlador da navegação aérea
quando o número de aviões a aterrizar aumenta.
3.3.2.3 Antecipação ou
retroação:
=Partindo-se da distinção empírica entre
dois tipos de regulações, funcional e estrutural, de um lado e das considerações sobre
a regulação e controle de atividades, de outro lado , podemos distinguir, pela
planificação, dois tipos de funções:
- A retroação: que intervém depois da execução. Se um
desvio é produzido, o sujeito aumenta sua produtividade na fase seguinte, para poder
alcançar o objetivo previsto. Estas regulações são de ordem funcional;
- A antecipação: corresponde à regulação propriamente
dita. Consiste em receber os planos da atividade e corrigi-los se os resultados não
estão conforme o plano. Estas regulações são de ordem estrutural.
Para passarmos da questão da regulação
para os problemas da competência é necessário, para facilitar esta transição, algumas
indicações sobre os processos de regulação.
3.3.3 Os processos dentro das
regulações
Podemos levantar três grandes tipos de
problemas à propósito dos processos de regulação:
3.3.3.1 Controle, autonomia e
compromisso:
- regulação de controle: corresponde, segundo Reynaud
(1988), à uma regulação baseada em regras que surgem da hierarquia. Situa-se ao nível
de tarefa prescrita e pressupõe um funcionamento explícito e formal dos sujeitos.
- regulação autônoma: é baseada em regras produzidas pelos
próprios sujeitos dentro da organização. Situa-se nos níveis informais da tarefa.
- regulação de compromisso: é baseada em regras que são
objeto de negociação mais ou menos formal e explícita, e faz retornar ao problema do
poder dentro da organização.
3.3.3.2 Regulação intra-individual
e regulação inter-individual:
Se todo mundo concorda com a necessidade de
considerar a dimensão coletiva do trabalho, quer dizer, fazer reinar um bom entendimento
entre os sujeitos, dentro de uma determinada organização, então, de forma análoga à
distinção entre comunicações sociais e comunicações operacionais, podemos falar de
uma regulação social e de uma regulação operacional.
Em seqüência ao impulso dado pelos
estudos de Savoyant (1977), os trabalhos de Navarro (1984, 1991), que associam as
formalizações sobre a resolução de problemas com a regulação da carga de trabalho,
nos permite distinguir quatro grandes tipos de processos de regulação, em caso de sobre
carga.
- Regulação por supressão de tarefas secundárias: o
abandono dessas tarefas secundárias pode causar repercussões sobre outras tarefas
asseguradas por outros sujeitos;
- Regulação por acúmulo de tarefas: quando um sujeito
atinge um alto nível de competência, ele é capaz de fazer várias coisas ao mesmo
tempo, até ajudar um colega;
- Regulação por transporte: quando sua própria produção
permite ao sujeito adiar algumas tarefas, que podem deixar "deficiente" as
equipes que esperam por esta produção;
- Regulação por transferência: um sujeito que está super
atarefado dá um parte de sua tarefa para um colega que não esteja muito carregado.
Trata-se de uma verdadeira cooperação.
Esta tipologia torna-se descritiva. As
condições de encadeamento destas regulações, e os mecanismos colocados em jogo,
continuam como um problema complexo que se dirige para a competência e conhecimentos dos
sujeitos.
3.4 As competências
Este campo é muito amplo e, com a
emergência da psicologia cognitiva, não se pode resumir, em apenas um parágrafo, a
concepção do funcionamento intelectual do homem no trabalho. O objetivo aqui, será de
fornecer algumas referências escolhidas, em função de sua operacionalidade, já
demonstrada no estudo das atividades do homem no trabalho.
A escolha do modelo de Rasmussen, que
estrutura este capítulo é um exemplo. Pode não ser o mais válido ou o mais
sofisticado, mas é o modelo que melhor convém para considerarmos as atividades
cognitivas do homem no trabalho.
Deste ponto de vista, a competência dos
sujeitos será considerada como um conjunto de recursos disponíveis para fazer face à
uma nova situação no desenvolvimento de uma atividade de trabalho. Estes recursos são
constituídos por conhecimentos estocados em memória e por meios da ativação e de
coordenação desses conhecimentos.
A noção de competência é, portanto,
colocada no seu senso clássico (as potencialidades do sujeito), sendo oposta à noção
de performance"que é a tradução total ou parcial da competência de uma
determinada tarefa.
3.4.1 A natureza dos conhecimentos
Lembramos a distinção feita por Richard
(1990), entre as "representações circunstanciais da imagem construída num dado
momento da situação de trabalho" e os "conhecimentos", regras
permanentes, estocadas na memória do sujeito. Neste sentido, falaremos de conhecimentos,
distinguindo diferentes tipos.
3.4.1.1 Os conhecimentos gerais:
Estes conhecimentos não são específicos
a uma determinada tarefa, em um dado momento. O teorema de Pitágoras, cujo conhecimento
geral especifica que "o quadrado da hipotenusa é igual a soma dos quadrados dos
catetos", não permite ao carpinteiro resolver diretamente o problema de
ortogonalidade entre o forro e a aresta do telhado. É necessário notar que a
especificação não depende do conhecimento em si, mas da tarefa. A vantagem desses
conhecimentos é que eles podem ser aplicados em várias situações. O teorema de
Pitágoras permite resolver problemas de mecânica, ótica, arquitetura , etc.
3.4.1.2 Os conhecimentos operativos:
São conhecimentos específicos à um tipo
de trabalho. Resultam do armazenamento na memória de longo termo de traços e
características de situações que já encontramos anteriormente. A representação
circunstancial da situação já encontrada várias vezes tona-se em uma estrutura
permanente que será aplicada assim que a situação acontecer novamente.
Não se trata de uma memória episódica,
no sentido em que não nos lembramos de um acontecimento, mas sim de uma memorização
operativa, no sentido em que são elaboradas regras que serão ativadas em situações
específicas. Esses conhecimentos podem ser (ou não) uma instância particular de
conhecimentos gerais, mas sem que o sujeito tenha, forçosamente, consciência disso.
Ochanine (1978), propondo o conceito de
imagens operativas, prescreveu os traços essenciais desses conhecimentos. Eles se
caracterizam, em primeiro lugar, pelo sua concisão, que corresponde a uma seleção de
traços pertinentes em relação aos objetivos usados numa tarefa particular e, em segundo
lugar, por deformações funcionais, que consistem em uma acentuação dos elementos
salientes e pertinentes para a ação e, ao mesmo tempo, uma ocultação dos elementos
inúteis.
Ochanine mostra, a título de exemplo, a
maneira pela qual os médicos, a fim de diagnosticar certos distúrbios, constróem uma
imagem mental deformada da glândula tireóide que não corresponde nem à sua anatomia,
nem às esquematizações formais. Eles obtêm esta imagem operativa por meio de
modelagem.
3.4.1.3 - Os conhecimentos rotineiros:
Falzon (1989), apoiando-se sobre a noção
de habilidade de Rasmussen (1983), propõe isolar uma classe particular de conhecimentos
operativos, que ele designa sob o termo de conhecimentos rotineiros na medida em que se
caracterizam por uma grande repetitividade. Quando um sujeito mobiliza frequentemente um
conhecimento operativo em uma situação onde as características variam pouco,
constrói-se um verdadeiro automatismo. Para Falzon, estes conhecimentos rotineiros podem
ser o resultado de um processo de petrificaçao de um estado particular, de um esquema
operativo.
3.4.1.4 Automatismo e inconsciência
A distinção entre três formas de
conhecimento é interessante, mas coloca dois tipos de problemas. O primeiro é de ordem
terminológica. Os conhecimentos rotineiros (as habilidades) e operativos (as regras) são
inconscientes, não controláveis ou automáticos. O termo inconsciente tem um status
particular em psicologia, significa que o sujeito não tem acesso direto à significação
de seu comportamento. Segundo esta perspectiva, conhecimentos operativos podem ser
inconscientes, no sentido em que o sujeito é incapaz, de um lado, de ter um acesso direto
aos mesmos e, de outro lado, determinar em que condições estes podem nos ajudam a tomar
decisões. Porém, outros conhecimentos operativos (exemplo: se chove, então: 1. pegar o
guarda chuva; 2. Sair e 3. Abrir o guarda-chuva) podem ser conscientes e automáticos.
Com o desenvolvimento da inteligência
artificial e dos sistemas especialistas, verificou-se que a aquisição dos conhecimentos
é um problema difícil, cuja solução está condicionada, não por soluções técnicas,
mas por uma conceitualização dos conhecimentos.
3.4.2 A memória nos comportamentos
do homem no trabalho
A memória, considerada como um lugar de
estocagem das representações e dos conhecimentos, constitui um domínio importante da
atividade do sujeito. A compreensão dos processos e dos mecanismos envolvidos é
importante para a psicologia do trabalho. Avaliar as capacidades mnésicas de um sujeito
no momento de sua adaptação ao trabalho e das estratégias para recuperação de
informação, pode ser extremamente importante em algumas situações. Distinguiremos
vários tipos de memória, antes de consideramos a forma pela qual a psicologia do
trabalho delas se utiliza.
3.4.2.1 Os diferentes tipos de
memória:
- Os registros sensoriais: os registros sensoriais
caracterizam-se pela conservação de informações por um dos órgãos dos sentidos
durante alguns décimos de segundos. A informação percebida não é transformada e é
totalmente volátil. Corresponde ao nível da "ativação" segundo o modelo de
Rasmussen. Não se trata, no entanto, de memória no sentido estrito, pois não existe nem
estocagem, nem tratamento.
- As duas memórias: distinguiremos dois tipos de memória: a
memória de curto termo (M.C.T.) e a memória de longo termo (M.L.T.). A M.C.T. designa o
conjunto dos processos que permitem conservar uma informação durante o tempo necessário
para a execução de uma ação. Na M.L.T., são estocados o conjunto de acontecimentos e
conhecimentos que um sujeito acumulou no decorrer do tempo. Se a diferença temporal
aparece claramente entre as duas memórias, em compensação, a diferença de natureza é
menos evidente, pois algumas informações da M.C.T. se encontram na M.L.T. A noção de
memória de trabalho (Baddeley & Hidch, 1974) pode substituir a de M.C.T. pois traduz
melhor o fato de que existem dois processos dentro desta memória, um de estocagem e outro
de tratamento.
3.4.2.2 - A memória de trabalho:
A memória de trabalho tem capacidade de
estocagem limitada. O número de unidades retidas, assim como o seu tempo de
conservação, depende, por um lado, do significado das unidades a memorizar e, de outro
lado, de uma atividade de auto-repetição que permite conservar as informações. Para o
projeto de mensagens em um terminal de vídeo, alarmes, suportes de informações
temporários, necessitamos respeitar as seguintes regras:
- não ultrapassar um grande número de informações;
- não dissociar (no tempo), a detecção de uma mensagem, do
momento em que ela deve ser tratada;
- evitar (no caso de forte solicitação da memória)
recobrir, ocultar tarefas que possam bloquear o processador central de repetição mental.
Quanto à estrutura das mensagens, estas
devem considerar o efeito de ordem das unidades a serem memorizadas. As unidades colocadas
no início e no final de mensagem são bem mais retidas do que as unidades colocadas no
meio.
3.4.2.3 Diferentes tipos de memória
de longo termo:
A memória de longo termo pode ser
caracterizada em função de diferentes modos de representação da realidade: uma
primeira distinção opõe uma memória procedural a uma memória proposicional ou
declarativa (Anderson, 1983).
A primeira é constituída pelo conjunto de
nossos conhecimentos sobre a maneira de cumprir nossas atividades, sobre nossa maneira de
fazer. A memória procedural, cujos mecanismos são difíceis de compreender, foi objeto
de poucas investigações.
A memória proposicional é constituída
pelo conjunto dos conhecimentos que nós possuímos sobre o estado do mundo (os fatos, as
casas, os seres). Corresponde aos conhecimentos gerais, sobre o qual já falamos
anteriormente. A memória proposicional está subdividida em dois grandes sistemas: a
memória episódica e a memória semântica (Tuluing, 1976). Dentro da primeira estão
estocadas as lembranças, acontecimentos pessoais, que estão organizados em função de
suas relações temporais e contextuais com outros acontecimentos.
A memória semântica é mais geral e mais
abstrata, contendo conceitos que formam estruturas organizadas em rede. Esta memória é
considerada como contendo informações essenciais na utilização das linguagens.
Segundo Tuluing, os dois sistemas de
memória funcionam diferentemente, por exemplo, o esquecimento é mais importante dentro
da memória episódica (um acontecimento procura o outro) ao passo que o conteúdo da
memória semântica é bem mais estável, mesmo se esta se enriquece continuamente.
No entanto, os dois sistemas estão em
forte interação: os acontecimentos são percebidos através do filtro dos conceitos e o
lembrar-se de um acontecimento marcante, reforçará a retenção de um conceito.
Codificação e recuperação: a
organização e a estruturação da memória estão em função de dois processos: a
codificação, que transforma uma informação em um traço mnésico, e a recuperação
que permite ir procurar e identificar as propriedades de um objeto semelhante àqueles
existentes na M.L.T.
Uma segunda fase consiste em um processo de
organização, baseada em uma codificação relacional, reagrupando os traços memorizados
em uma rede, já constituída na M.L.T. Esta organização conta com redes hierárquicas,
no sentido em que se organizam do geral para o particular, passando por classes
intermediárias ligadas por relações de inclusão.
Estas redes semânticas da M.L.T. não são
reprodução de taxionomias formais. Elas resultam de relações que se articulam com a
atividade do sujeito. A figura 4.5, ilustra a diferença que poderá existir entre uma
classificação de animais de um zoológico (próxima de uma taxionomia formal) e aquela
que um agricultor usaria.
As redes semânticas fundadas sobre as
relações funcionais (como é o caso do exemplo) ou sobre relações perceptivas (cor,
forma, tamanho), apresentam numerosos problemas sobre a atividade do sujeito. Se a
organização do material a ser memorizado facilita a codificação relacional é
ilusório, então, acreditar que a apresentação do material sob forma de taxionomia
formal, seja uma solução.
Um segundo problema consiste na distinção
entre relações perceptivas e relações funcionais. As primeiras não conduzem a um
nível menor de competência pois critérios perceptivos podem ser funcionais (Exemplo:
nos trabalhos de controle os critérios perceptivos são, funcionalmente, muito eficazes).
A recuperação das informações que
permite ir buscar e identificar as propriedades de um objeto, causará uma interação
entre o reconhecimento, objeto presente, ou a lembrança, objetivo ausente.
A codificação exerce um papel fundamental
na recuperação, determinando assim as atividades de trabalho. Sugerimos uma ligação
entre os tipos de codificação e a recuperação. O reconhecimento parece pertencer a uma
codificação perceptiva, ao passo que, para a lembrança, os dois tipos de codificação
seriam igualmente necessárias.
3.4.2.4 - A memória operacional:
Não devemos assimilá-la à noção de
memória de trabalho. A memória operacional é uma memória específica à realização
de uma tarefa ou de uma subtarefa particular. Ela tem, portanto, uma duração de vida
transitória ligada à duração desta tarefa. Quando esta termina, ela se volatiliza.
A memória operacional que fez assimilar à
memória de trabalho foi, de um lado, a brevidade de sua duração e, de outro lado, a
natureza fugaz dos dados que ela trata. A memória operacional constitui um quadro mais
amplo do que a memória de trabalho.
3.4.3 Heurística e racicínio
Se dentro de um grande número de
situações, os comportamentos do homem no trabalho são baseados em habilidades ou em
regras, o sujeito deve, às vezes, elaborar procedimentos para resolver problemas não
habituais, incomuns, na produção. Com a evolução dos sistemas técnicos de produção,
esta demanda pelo raciocínio do sujeito, será cada vez mais frequente.
3.4.3.1 Problemática geral:
Para considerar os comportamentos baseados
em regras algorítimicas, a descrição da atividade do sujeito em termos de memorização
e conhecimento é suficiente, em compensação, a compreensão dos comportamentos baseados
em heurísticas, se mostra bem mais complexo.
O modelo de Rasmussem é insuficiente, pois
não diz praticamente nada sobre os mecanismos de busca, de elaboração e validação das
hipóteses utilizados pelo sujeito. Para abordar esta questão, a ergonomia pode se apoiar
nos modelos do raciocínio humano produzidos pela psicologia cognitiva.
Como vimos, alguns autores utilizam a
teoria operatória de Piaget para considerar a atividade do sujeito. Alguns exemplos de
estudo tratam da regulagem de osciloscópios, ou da resolução de problemas de geometria.
Os trabalhos sobre raciocínio em
situação de trabalho, oscilam entre a adaptação dos modelos teóricos e a produção
de modelos específicos à disciplina:
- Existe um grande número de pesquisas que podem ser
classificadas como artificiais. A situação de trabalho é simulada, quando não é
caricaturizada;
- As regras produzidas pela psicologia do trabalho são sempre
ameaçadas pela contingência de situações diferentes daquelas em que elas foram
elaboradas.
A ultrapassagem dessas contradições só
será possível se nos apoiarmos sobre a idéia geral de que o sujeito humano é um
sistema de recepção e de tratamento de informação, cujo desempenho possui
limitações. Esta problemática é compatível com as concepções gerais do papel do
sujeito e também é operacional, pois nos permite reter concepções sobre a estrutura
dos conhecimentos que participam desta atividade de filtragem das informações e das
hipóteses.
3.4.3.2 - A estrutura dos conhecimentos:
A estrutura dos conhecimentos podem ser
formalizadas com a ajuda de dois tipos de modelos:
- Os modelos proposicionais, que definem conceitos e suas
relações, considerando a visão de mundo do sujeito;
- Os modelos esquemáticos, que fazem referência as noções
de esquemas, permitindo, assim , compreender a filtragem da informação como base nas
inferências do sujeito.
Estudaremos o segundo modelo, pois Valax
mostrou a utilidade do mesmo para a análise dos comportamentos do homem no trabalho.
A diferença essencial dos conhecimentos
advém do fato que eles foram formalizados dentro de diferentes campos disciplinares. De
uma maneira geral esses conhecimentos são construções mentais que permitem, à partir
de um reduzido número de informações, elaborar hipóteses sobre a situação vivenciada
pelo sujeito.
Uma vez elaboradas, estas hipóteses guiam
os trabalhadores na busca de informações sobre os pontos que resultam no reforço da
hipótese, ou na sua rejeição . Nesse último caso uma nova construção mental é
iniciada.
Esta generalização do esquema é devido a
sua organização em blocos de unidade aglomeradas, que definem os limites dos valores
aceitáveis para cada situação. Estas unidades aglomeradas, constituem blocos de
conhecimentos estocados em memória e independentes uns dos outros. O sujeito possui,
assim, uma grande variedade de esquemas. O agricultor, por exemplo, terá esquemas
cooperativos.
Neste sentido, os esquemas são diferentes
dos conceitos, pois, eles definem relações nas redes semânticas. Se os elementos
constitutivos de um esquema são também ligados entre si, suas relações não são
então conceituais, mas pragmáticos e estatísticos .
Restaurante é um esquema quando, definido
por um cenário, associa pragmaticamente vários elementos, ao passo que é um conceito
quando definido por um certo número de propriedades físicas e funcionais, situando-se em
uma rede semântica.
Os esquemas são especificados pelos
valores limites e, pelas suas inte-relações. Neste sentido, essas diferentes unidade
são ditas valores constantes do esquema. Desses valores restritos decorre um primeiro
aspecto interpretativo dos esquemas.
Se, numa situação de trabalho, um valor
observado está fora dos limites, (por exemplo, todos os convidados tem menos de 20 anos),
ou se não existe correlações sobre certas variáveis (por exemplo os convidados tem
mais de 20 anos mas são 11h30) então o esquema (restaurante) é rejeitado e um outro
esquema é ativado (cantina ou restaurante universitário).
O segundo aspecto dos esquemas é que eles
permitem inferir variáveis ausentes, atribuindo a estas valores correspondentes aos
valores restritos, (por exemplo, o preço, as modalidades de escolha, os possíveis
clientes).
Eventualmente o esquema pode conduzir a
busca de novas variáveis e valores. Esta busca poderá ser acentuada pela existência de
sub-esquemas, quer dizer, pelo entrosamento dos esquemas entre si. (por exemplo,
restaurante universitário, cantina, "fast-food", podem ser sub-esquemas de
restaurante).
Os esquemas permitem ao sujeito compreender
a situação e formalizar hipóteses, fazer inferências. Eles participam, portanto, do
raciocínio e do modo de funcionamento. Parecem Ter um duplo filtro: seleção de
informações sobre a situação de trabalho, seleção e ativação dos blocos de
unidades armazenados na memória interna:
- Os "scripts": tratam de especificações dos
acontecimentos dos esquemas. Shank & Abelson (1977), consideram que a um esquema
(restaurante) podem corresponder scripts pessoais, segundo o papel que cada um, na
situação considerada (cozinheiro, garçon, cliente). As diferenças de scripts podem ser
a origem das dificuldades (por exemplo, quando pensamos no esquema operação e, no script
do cirurgião, dos anestesistas...). Distinguimos também scripts instrumentais, que
correspondem a uma seqüência invariante de operações (por exemplo, receita de cozinha,
o procedimento para fazer funcionar um microcomputador). Os scripts não são diferentes
estruturalmente dos esquemas e apresentam o mesmo papel de duplo filtro. Confrontado com
uma situação, um sujeito detecta informações que ativam um script que possibilita a
produção de hipóteses, conduzindo a seleção de novas informações que reforçam o
script e permitem a seqüência da investigação.
- Os "frames": os frames se parecem, também, com os
esquemas, mas distinguem-se destes sobre dois pontos que assinalam uma maior abstração.
Designam construções mentais adquiridas por experiências e que agrupam conhecimentos de
diversas origens. (por exemplo, o diagnóstico médico se assemelha a um frame, enquanto a
consulta seria mais um tipo de esquema). Em segundo lugar, os frames distinguem-se dos
esquemas, pelo fato que podem manter relações estreitas entre si. Porém, tanto os
frames como os esquemas, permitem a produção de hipóteses por meio da procura de
informações e, no caso de não validade, dão lugar a atuação de novos frames.
3.4.3.3 - A filtragem cognitiva em
situação de trabalho:
A operacionalização destas noções, para
considerarmos a atividade do sujeito nas situações de trabalho, nos ajuda a analisar
problemas de confiabilidade, ou seja, a análise dos erros cometidos pelos sujeitos.
Um primeiro tipo de erro pode originar-se
de um defeito, seja de ativação (ex. um esquema é ativado no lugar de um outro), seja
no desenvolvimento da ação. Por exemplo, esquecer de desenvolver um esquema.
Chamamos um médico para uma emergência.
Ele se precipita e percebe que está a caminho do hospital, um trajeto ao qual está
habituado e não aquele que o leva ao seu doente. Ele já viu este doente mas, na
correria, esqueceu a ficha.
Um segundo tipo de análise comporta a
natureza dos julgamentos efetuados pelo sujeito ao acionar os mecanismos de raciocínio.
Reason (l989), propôs uma conceituação
que prolonga o modelo de Rasmussen e completa os modelos esquemáticos. Ele distingue dois
filtros, um do tipo semântico (similary matching) e outro do tipo estatístico (frequency
gambling).
- Os filtros semânticos: a comparação por similaridade
(similar). O sujeito extrai da situação de trabalho um conjunto de informações que lhe
permitem estabelecer o estado do sistema em que se encontra, a representação. Este
estado é, em seguida, comparado aos conhecimentos estocados na memória, os esquemas. A
relação dialética entre as amostras de informações e a ativação de esquemas, podem
ser a origem de dois tipos de erros. Na ativação do esquema nos "enganamos" na
adequação do estado ao esquema. Nas amostras de informações que extraímos da
situação de trabalho, só percebemos as informações que estão de acordo com o
esquema. Um educador (E) confrontado com um adolescente (A) que lhe coloca pequenos
problemas, observa que (A) "fica vermelho, baixa os olhos.." (E) pensa;
"Não é possível, ele mente.!" e (E) se lança em investigações para
compreender porque ele mente. Num determinado momento, um outro adolescente abre a porta e
diz, fulano "foi eu quem ..." e (E) pensa: (A) está inocente, e muda sua
maneira de questioná-lo.
- O filtro estatístico: (especulação sobre a freqüência).
A idéia subjacente ao filtro estatístico é que o sujeito faz amostras das informações
em função do conhecimento da estrutura estatística do ambiente (meio, arredores) que
ele interiorizou. Iosif ( l968) e Crossman (l974), citado por De Keyser (l990), mostraram,
a partir de estudos sobre sujeitos utilizando quadros sinópticos, que a freqüência e a
regularidade dos acontecimentos aparecendo sobre estes quadros, condicionam a seleção
das informações. Partes da instalação freqüentemente perturbadas, serão seguidamente
verificadas a partir de tomadas de informações do ambiente. Em compensação, uma
informação que aparece regularmente, mas não com freqüência, será menos verificada
no ambiente exterior. O sujeito baseia-se, então, em esquemas interiorizados. Iosif
acrescenta que um "coeficiente pessoal de prudência" afeta a natureza deste
filtro estatístico. No prolongamento desses trabalhos, Reason considera que a
especulação sobre a freqüência, consiste em privilegiar a hipótese que tem mais
chance de se realizar. Por exemplo, um sujeito de sala de controle não verifica mais
certos alarmes se a probabilidade de estes estarem ligados a um acontecimento grave for
pequena. Este tipo de filtragem causa um risco de erro, no caso em que o sujeito não
presta atenção ao alarme e que um acontecimento pouco provável se produza.
A distinção destes dois mecanismos
responde mais à necessidade de compreendê-los do que ao que acontece na prática. Na
realidade das situações de trabalho, eles são fortemente associados, sendo difícil
precisar qual foi acionado.
3.4.4 Experiência e competência
Pode parecer paradoxal abordar a noção de
experiência sob o tema da competência. Se observarmos a experiência como um conjunto de
mecanismos mobilizados por um sujeito, a fim de alcançar um alto nível de performance,
então a análise da noção de experiência em relação com a competência parece
justificada.
Nesta perspectiva três tipos de análise
são possíveis. Em primeiro lugar os especialistas são considerados como pessoas que,
particularmente, apresentam êxito. O exame de suas características, permite responder à
questão da ligação entre a estruturação dos conhecimentos e a competência, objeto
deste parágrafo.
Em segundo lugar, é legitimo se perguntar
sobre a estocagem e a conservação dos conhecimentos pelos especialistas. A maior parte
dos trabalhos sobre a experiência marcam uma forte relação entre o desempenho e a
organização mnésica.
Enfim, de maneira mais conjuntural, o
interesse pela experiência, nas situações de trabalho, se manifesta cada vez mais, não
somente nas situações tratadas pela inteligência artificial (IA) e pelos sistemas
especialistas mas, também, na questão da recuperação do saber dos
profissionais"que se aposentam ou que são substituídos por sistemas automatizados.
A partir dos trabalhos de Caverni (l988),
Chi, Glaser e Farr, (l988), podemos destacar três características essenciais da
experiência numa perspectiva psicológica.
3.4.4.1 A experiência como base para a
competência:
Esta característica que constitui a
essência da experiência revela três aspectos. A eficácia maior do especialista se
traduz por uma maior rapidez e um número menor de erros na execução de tarefas em
relação aos novatos.
Na execução de uma tarefa simples como a
digitação, a velocidade resulta de uma motivação na prática diária intensiva que
permita a aquisição de habilidades automáticas, movimentos mais rápidos dos dedos,
mudanças nas tomadas de informações, e que libera as capacidades mnésicas para outras
tarefas. O digitador se torna especialista quando pode fazer várias coisas de uma só vez
(Gerter, l988).
Nas tarefas mais complexas, a explicação
de maior rapidez é devido ao fato de que a procura, a pesquisa de soluções, é menos
intensiva num especialista que possui modelos pré-construídos do que nos novatos. Por
exemplo, os motoristas de táxi, encontram mais rapidamente uma rua desconhecida, pois
possuem esquemas para fazer face a tal dificuldade. De maneira mais geral, os
especialistas são mais lentos nas fases iniciais de resolução de problemas, porém mais
rápidos no conjunto da tarefa.
A competência é limitada. O especialista
destaca-se no seu próprio domínio, mas não está seguro que possa transferir sua
competência para outros setores da produção. Essas análises adotam pontos de vista
interessantes, porém restritivos.
Os segundos tentam analisar, dentro de uma
perspectiva mais sistêmica, os resultados das comportamentos do homem no trabalho em suas
inter-relações com as exigências e as atividades do sujeito. É o caso das pesquisas
sobre a segurança e confiabilidade de sistemas de produção complexos.