PARTE I - INTRODUÇÃO


Capítulo 1 - DEFINIÇÃO DO TRABALHO

1.1) O NOVO AMBIENTE COMPETITIVO
O ambiente onde as empresas encontram-se inseridas está continuamente se modificando. Acompanhando-se no tempo a direção destas mudanças, verifica-se claramente que a competição tende a ficar cada vez mais acirrada. A diminuição de barreiras alfandegárias e a criação de grandes mercados de livre comércio, como o NAFTA, o MERCOSUL e o Mercado Comum Europeu, indica que a concorrência tende a ocorrer a nível mundial e que reservas de mer cado caminham para a extinção.

No Brasil, onde a industrialização foi alavancada em grande parte pela criação de reservas de mercado, aliada à abundância de matérias-primas e ao baixo custo da mão-de-obra, este fenômeno também pode ser observado. A participação no MERCOSUL e a diminuição de barreiras à entrada de vários produtos importados no mercado interno está tomando a competição cada vez mais forte.

O aumento da concorrência vem provocando profundas transformações nos sistemas produtivos das empresas. A tendência destas modificações pode ser obtida procedendo-se a uma comparação entre o sistema produtivo de uma empresa moderna e o de uma empresa tradicional.

A produção típica da empresa tradicional era composta por poucos artigos, feitos em grandes lotes, com alto volume de produção. Na empresa moderna, há a necessidade de grande flexibilidade na produção, isto é, cada vez mais é preciso fabricar produtos com muitos modelos, feitos em prazos mais curtos, com vidas úteis menores, devendo ser entregues em menos tempo ao cliente. Estas exigências fazem com que a produção deva ser efetuada em lotes pequenos, com alta qualidade.

Enquanto a empresa tradicional não necessitava o aprimoramento contínuo da eficiência pois o mercado com menos concorrência absorvia as ineficiências e suportava preços razoavelmente altos, uma das principais preocupações da empresa moderna é a busca incessante pela melhoria da produtividade e eficiência. Desta forma, a produção da empresa moderna deve ser feita de maneira a evitar ao máximo ineficiências decorrentes de má qualida de, trabalhos improdutivos, etc. As atividades que não colaboram efetivamente à agregação de valor ao produto devem ser reduzidas sistemática e continuamente, da mesma maneira que não se pode tolerar qualquer tipo de perda no processo produtivo.
 

1.2) OS SISTEMAS DE GESTÃO E DE CONTROLE
Para enfrentar esta situação que se apresenta, é necessário que os sistemas de gestão (planejamento) e de informações gerenciais (controle e avaliação) adaptem-se ao novo ambiente, desenvolvendo-se novos princípios e métodos apropriados ao novo contexto. A integração entre os sistemas de planejamento e controle é essencial para o bom desempenho da empresa. A figura 1 mostra o relacionamento entre os sistemas de gerenciamento e control e, indicando que o sistema de controle deve se adaptar às necessidades geradas pelo sistema de gerenciamento.

Figura l - Estrutura geral dos sistemas de gestão e de controle de processos.

Os sistemas de gestão desenvolveram-se acentuadamente já há algum tempo, com novos princípios (JIT, TQC, etc) e métodos (Kanban, NW, ... ), e estão praticamente consolidados na maior parte das empresas. Porém, apesar da grande magnitude destas mudanças, não houve resposta à altura por parte dos sistemas de informações gerenciais (controle e avaliação), e particularmente dos sistemas de custos, no sentido de se adaptarem à nova rea lidade e provirem informações altamente necessárias para o bom gerencianento da empresa moderna, tais como medidas de desempenho que indiquem quais atividades estão sendo eficientes, quais são perdas para a empresa e os locais onde devem ser focalizadas as atenções.

O principal problema na adaptação dos sistemas de custeio à nova lógica de produção é que usualmente se procura adaptar as técnicas de rateio dos custos sem antes haver reflexão sobre as mudanças ocorridas no próprio princípio de administração da produção. Sem esta modificação no princípio, não se criam metas ou estratégias que orientem o desenvolvimento da empresa e não se discutem as informações necessárias ao suporte do processo de transformação ao nível da administração da produção. Só após tal reflexão é que se deve pensar em melhorias nos métodos de custeio, sempre com a intenção de operacionalizar eficientemente a estratégia escolhida (Kliemann e Antunes Jr., 1990).

De fato, a resposta dos sistemas de informações gerenciais, principalmente sistemas de custos, a este novo ambiente de produção veio com o desenvolvimento e aperfeiçoamento de novos métodos, só que normalmente sem a anterior discussão sobre as necessidades do novo princípio de produção da empresa moderna. Desta maneira, observa-se que informações necessárias para a administração da produção da empresa neste contexto não são discutidas pelos usuários destes sistemas, havendo pura e simplesmente um aperfeiçoamento de técnicas de rateio e distribuição de custos, o que gera basicamente as mesmas informações dos sistemas anteriores, não auxiliando realmente a melhoria da produção.

Por exemplo, uma nova técnica de custeio que surgiu a fim de enfrentar este novo ambiente foi o custeio por atividades (ABC), o qual aperfeiçoou a obtenção de informações de custos, acumulando-as em atividades e não apenas em processos ou funções. Porém, em muitos casos, este método é utilizado apenas para melhorar a alocação dos custos aos produtos, não fornecendo subsídio para o novo sistema de gestão que se apresenta, já que não se mudou o princípio do sistema de custeio. Uma primeira contribuição a isto identificou a necessidade de se separarem as atividades que agregam daquelas que não agregam valor aos produtos, de forma a direcionar ações corretivas e de melhoria.
 

1.3) A NECESSIDADE DA MENSURAÇÃO DAS PERDAS
Das informações necessárias para o efetivo auxílio ao controle e avaliação da empresa moderna, sem dúvida a mensuração das perdas e das atividades que não agregam valor aos

produtos é das mais importantes, não sendo discutida em sua plenitude pelos usuários dos "novos" sistemas de custos. Com tal informação, é possível visualizar-se o montante despendido no sistema produtivo que não colabora para a fabricação dos produtos, tendo-se condições de priorizar e dirigir esforços de melhoria aos locais onde existe maior potencial de retorno.

Todas as empresas (inclusive de serviços) estão sendo obrigadas a se adaptarem à nova realidade do mercado e a se aperfeiçoarem de forma contínua e eficiente. Uma das principais tarefas da gerência da empresa moderna é, então, a detecção e eliminação das perdas ocorridas durante suas atividades, já que a presente concorrência exige especialização e competência nas atividades da empresa, se esta quiser manter-se no mercad o. Neste sentido, um sistema que permita a sistemática identificação e quantificação das perdas de uma empresa é, sem dúvida, útil para auxiliar o processo de análise e melhoria da eficiência interna dos processos produtivos, tomando-se poderosa ferramenta de apoio gerencial.
 

1.4) OBJETIVOS
O objetivo geral deste trabalho é propor um sistema para a identificação e mensuração das perdas de uma empresa, baseado na utilização de sistemas de custos, de forma a auxiliar o processo de análise e melhoria da eficiência interna dos processos produtivos.

O atingimento desta meta desdobra-se nos seguintes objetivos específicos:

a) Definição das perdas associadas ao processo e separação entre atividades que agregam e não agregam valor aos produtos.

b) Compreensão dos novos princípios e técnicas de controle e custeio utilizadas no novo contexto competitivo onde as empresas encontram-se inseridas.

c) Estudo de sistemas de custeio que permitam a mensuração destas perdas.

d) Proposta de metodologias para a mensuração das mesmas.

e) Determinação de índices com o intuito de facilitar o uso dos resultados obtidos.
 

1.5) JUSTIFICATIVA
Os sistemas normalmente utilizados para a medida da excelência do trabalho da empresa são baseados no uso tradicional da contabilidade de custos, a qual apresenta deficiências quando inserida em ambientes modernos de produção, não apresentando bons subsídios para a determinação do desempenho e muito menos indicando os locais onde aperfeiçoamentos são mais relevantes. Os novos sistemas desenvolvidos para superar estas deficiências geralmente não propiciam informações importantes para a empresa moderna, sendo basicamente discutidas novas formas de rateio dos custos indiretos aos produtos. Deste modo, apresentam os mesmos problemas dos tradicionais quando usados sem critério, no que se refere à identificação das perdas da empresa.

Assim, com certeza, uma metodologia de mensuração do desempenho que sinalize onde se fazem mais necessárias ações de melhoria, eliminando as distorções da contabilidade de custos tradicional, é importante auxilio às ações da gerência. Tais informações podem ser obtidas pela discussão e mensuração das perdas incorridas no processo produtivo, objetivo deste trabalho.
 

1.6) ESTRUTURA
A parte I é composta pelos capítulos 1, 2 e 3, e trata da introdução ao problema e apresentação da metodologia tradicional.
No capítulo 1, são apresentados os objetivos do trabalho, sua estrutura, importância e a metodologia empregada.
No capítulo 2, são apresentadas algumas características da empresa moderna e discute-se especificamente sobre as perdas no processo produtivo, segundo a visão de Taichi Ohno e Shigeo Shingo.
No capítulo 3, apresentam-se conceitos básicos de contabilidade de custos e dos sistemas de custos tradicionais, bem como algumas deficiências apresentadas por estes sistemas quando inseridos em um contexto de fabricação classe universal.

A parte II, formada pelos capítulos 4, 5, 6, 7 e 8, apresenta os principais métodos existentes dedicados a trabalhar em ambientes modernos de manufatura, suas características e adaptabilidade à empresa moderna.
Os métodos estudados ( capítulo 4 , capítulo 5 , capítulo 6 e capítulo 7 ) são o custeio por atividades (activity based costing - ABC), o método da unidade de esforço de produção (UEP), a contabilidade da teoria das restrições (theory of constraints - TOC ), representada pela throughput accounting, e a contabilidade japonesa (iapwese accounting).
O capítulo 8 resume as principais características dos princípios e metodologias estudados.

A parte III engloba os capítulos 9 a 14. O capítulo 9 apresenta o sistema proposto.
No capítulo 10 e no capítulo 11 , propõem-se metodologias para a mensuração das perdas da empresa, de forma a auxiliá-la em seu processo de melhorias contínuas, através da utilização da estrutura do custeio por atividades e do método da UEP.
O capítulo 12 apresenta índices para facilitar a análise dos resultados e o capítulo 13 expõe experiên cias práticas com o sistema proposto.

Finalmente, o capítulo 14 mostra as conclusões e recomendações para futuros trabalhos.
 

1.7) MÉTODO DE TRABALHO
Primeiramente, foi efetuado um estudo teórico sobre as necessidades e características das empresas modernas, concentrando-se nas perdas ocorridas no processo produtivo.

Em seguida, abordaram-se os sistemas existentes em empresas tradicionais, procurando-se levantar suas deficiências frente as atuais necessidades da mensuração de desempenho, sendo pesquisados os principais métodos empregados atualmente, analisando-se suas deficiências e potencialidades no que se refere ao tema desejado.

Com isto, adquiriu-se suporte para se propor uma sistemática de mensuração das perdas e ineficiências que atenda as necessidades da empresa do futuro, destacando seus pontos fortes e fracos e auxiliando-a a concentrar esforços em setores importantes.

Foram realizados estudos de casos em empresas, onde se obtiveram dados práticos para o ajuste do modelo proposto.
 

1.8) LIMITES
a) Os procedimentos propostos foram elaborados pensando-se em empresas com produção intermitente. Seu emprego em empresas trabalhando com produção contínua necessita que alterações sejam feitas.

b) Neste trabalho, foram estudados os métodos do custo padrão, dos centros de custos, da unidade de esforço de produção, o custeio por atividades, a contabilidade japonesa e a teoria das restrições. Para o sistema apresentado, foram empregados o método da unidade de esforço de produção e o custeio por atividades.

c) A abordagem sobre as perdas deu-se segundo a visão de Shigeo Shingo e Taichi Ohno, de

acordo com o Sistema Toyota de Produção,

d) Não se pretendeu criar um sistema de informações gerenciais completo. Assim, foram propostos procedimentos e índices, para a quantificação das perdas. Os formulários de entrada e saída não foram fixados, devendo ser particularizados para cada caso específico.

e) A sistemática proposta não foi completamente validada nos estudos de caso efetuados.