Capítulo 2

O CONTEXTO DA PESQUISA

A construção civil constitui-se num setor altamente pulverizado, onde tanto podem conviver grandes empresas, principalmente no subsetor Construção Pesada(1), até microempresários, grupos familiares ou profissionais autônomos, dedicados a atividades específicas, como serviços de instalações e pinturas ou mesmo à execução de reformas, consertos e serviços de manutenção.

Por outro lado, o setor tem a peculiaridade de se prestar à criação de empresas ou consórcios para a execução de um único produto ou poucas unidades deste, ou, ainda, à formação de grupos de pessoas interessadas na construção de edificações sob a forma de condomínio, as quais desenvolvem em conjunto todas as atividades necessárias, da escolha do terreno ao término do empreendimento, dissolvendo-se após a distribuição das unidades construídas ou o rateio dos resultados gerados com a venda das mesmas.

2.1 O Subsetor Edificações

O subsetor Edificações é extremamente heterogêneo, sendo constituído por empresas dos mais variados portes, conforme pode-se verificar no Censo da Construção de 1985 (IBGE-1989, p.12/13) que apresenta a estratificação das empresas legalmente constituídas, por pessoal ocupado, da qual foram obtidos os dados constantes da Tabela 2.1, relativo a 4.051 empresas e seus 262.017 empregados.

Tabela 2.1 Extratificação do subsetor edificações

Enquanto somente 66 grandes empresas (1,63% do total) tinham mais de 500 empregados e absorviam 96.740 pessoas (36,93% da MO do subsetor), no outro extremo 2.446 microempresas (60,38%) tinham até 19 empregados, o total destes atingindo 21.806 pessoas ou 8,32% da MO total. Em conjunto, as micro e pequenas empresas, que totalizam 88,72% das construtoras pesquisadas, absorviam 30,58% do pessoal ocupado e 27,77% da Receita Operacional, enquanto as médias e grandes que representavam 11,28% das empresas ocupavam 69,42% da MO e absorviam 72,23% da Receita Operacional do setor.

2.2 A Mobilidade das Empresas no Setor

Além da classificação quanto ao porte, existe relativa dificuldade em classificar as empresas de edificações com base em aspectos como área de concentração, forma de atuar ou tipo de edificações. Segundo Silva (1986), a classificação adotada pelas estatísticas decorre do tipo de atividade principal declarada ou de obra predominante em sua produção, sendo possível encontrar empresas que mesclam a atividade voltada para edificações com outros tipos de serviços, em decorrência dos períodos de queda de demanda ou de restrição de crédito.

Apesar de dedicarem-se preferencialmente a um determinado tipo de construção (residencial, comercial ou industrial), tal fato não constitui impedimento para que, nos períodos de escassez de trabalho no seu segmento ou em função de oportunidades de mercado, as construtoras de edificações assumam a execução de prédios com outras finalidades. Na análise do perfil estratégico de empresas de construção civil de pequeno porte, Palácios e Villacreses (1994) constataram que das empresas então analisadas e que atuavam prioritariamente em incorporações, cinco tinham um segmento de mercado secundário (obras públicas, prestação de serviços, obras de terceiros) e somente uma delas concentrava-se exclusivamente na sua especialidade.

De outra parte, as empresas de Construção Pesada tendem a incursionar com freqüência pelo subsetor Edificações, seja quando ocorre crise nos investimentos governamentais, principal demandante de seus serviços, ou quando o processo construtivo adotado ou o porte da obra exige altos investimentos iniciais, o que em princípio limita o acesso às empresas com capital elevado.

Nos bons tempos em que havia grandes investimentos governamentais nós só entrávamos em concorrência pública de obras de construção pesada acima de US$ 10 milhões; depois passamos a aceitar qualquer tipo de obra pública neste patamar, como os CAICs; atualmente porém, para mantermos nossa estrutura funcionando, passamos a concorrer por qualquer obra, pública ou privada, acima do patamar de US$ 1 milhão. Um gerente de qualidade de uma empresa de Construção Pesada.

Esta manifestação não só confirma a influência da falta de investimentos públicos na mobilidade destas empresas, como mostra a vulnerabilidade e pressão redobrada que sofrem as empresas do subsetor Edificações nos períodos de crise, pois às dificuldades do próprio subsetor soma-se o novo tipo e porte de concorrentes que passam a enfrentar.

Enquanto o subsetor Construção Pesada limita o ingresso de novas empresas, devido ao volume de capital que requer, ao porte das obras, aos investimentos em máquinas e equipamentos e à tecnologia relativamente complexa, o subsetor Edificações é bastante vulnerável à entrada de concorrentes, sejam novas construtoras que se constituem nos períodos de crescimento do subsetor, ou empresas de Construção Pesada que passam a atuar em Edificações, conforme Farah (1992).

2.3 As Peculiaridades da Construção de Edificações Tradicional

A evolução da construção de edificações permite dizer que de um lado há o processo tradicional de construção de edificações, onde a utilização da mão de obra e ferramentas manuais é bastante intensa, e de outro lado as edificações industrializadas(2) onde a penetração de equipamentos é maior e a categoria profissional típica é a do colocador-montador-polivalente definida por Bobroff (1989).

Para Lopes (1983), dentre os vários subsetores em que se divide a construção civil, o de edificações é seguramente o de maior complexidade, razão pela qual sobre ele devem voltar-se prioritariamente as atenções, independente de sua finalidade ou dos processos construtivos adotados, quer seja baseado em métodos industrializados ou em métodos considerados tradicionais, onde a maioria dos materiais são preparados no canteiro pelos processos usuais, com a predominância das profissões típicas do subsetor.

Procurando delimitar o campo de ação do presente trabalho e definir a nomenclatura utilizada, daqui em diante Construção Civil compreenderá a totalidade das atividades do setor, enquanto Edificações ou simplesmente subsetor compreenderá a edificação por processo tradicional, caracterizado como aquele onde a penetração de máquinas e equipamentos é menos intensa, com a supremacia das categorias ocupacionais típicas como serventes, pedreiros, armadores, carpinteiros, azulejistas, pintores, etc., voltados para tarefas que exigem perícia e habilidade e que não são passíveis de serem realizadas por máquinas, conforme Moraes (1988).

A forma como se processa o trabalho na construção de edificações tradicional é distinta dos demais setores de atividade que se desenvolvem num espaço próprio por uma série de peculiaridades exaustivamente referidas na bibliografia especializada e condensadas por Dorfmann (1988). Ou seja, apesar da evolução da construção de edificações ao longo do tempo, persistem ainda especificidades que a mantém distinta da indústria fabril, algumas delas função do estágio de desenvolvimento da construção no Brasil, outras porém disseminadas de forma generalizada.

Segundo Dorfmann (ibid.), apesar da edificação poder ser concebida em muitos de seus aspectos como um processo de montagem de um produto complexo a partir de seus componentes menores, o que naturalmente induz à tentativa de organização segundo os padrões da indústria seriada, os canteiros de obra têm-se mostrado bastante resistentes aos esforços feitos no sentido de dar-lhes a forma das linhas de produção ou montagem, apesar de já se observar a introdução de vários elementos pré-fabricados ou pré-montados, como armaduras, formas, lages, vigas e mesmo janelas e portas montadas que são simplesmente colocadas e fixadas nos vãos, com reduzido trabalho posterior de acabamento ou conformação.

2.4 A Repercussão das Peculiaridades Sobre a Mão de Obra

A estrutura de ofícios, ao requerer uma determinada qualificação de trabalhador para cada etapa, sujeita-os à curta permanência em cada obra, ao deslocamento contínuo entre elas e mesmo à rotatividade, impedindo-os de receber preparação adequada, de conhecer detalhes da organização, do próprio trabalho, e até mesmo de integrar-se e desenvolver relações amistosas com seus colegas.

O método tradicional de construção é incorporado e difundido pela própria força de trabalho, pois em qualquer parte do país pode-se contratar profissionais que vão executar seu trabalho de forma muito semelhante, sem necessidade de instruções por parte dos engenheiros, segundo Vargas (1988), o que se por um lado evita custos com a formação do trabalhador e detalhamento dos métodos, por outro cria uma forte barreira para qualquer mudança pontual em uma empresa.

Por outro lado, a prática de utilização de trabalhadores sob vários tipos de vínculos (empregados próprios, de terceiros, autônomos) e formas diferentes de remuneração (por hora, por semana, por empreitada, por tarefa), provocam distorções e por vezes reações e atritos pelas disparidades que acarretam, pela falta de união da equipe, assim como de interesse e engajamento aos objetivos organizacionais.

Ainda mais, a falta de padronização, normalização e freqüentemente de qualidade dos materiais utilizados, além de acarretar prejuízo financeiro e técnico para a empresa e para a qualidade do produto final, pode ser também fator de insatisfação do trabalhador, pela maior dificuldade que encontra e menor produtividade que obtém na execução da tarefa determinada, com a especificação e parâmetros requeridos.

Aliado a isto, diferentemente do que acontece na indústria em geral, onde o trabalho é estruturado e repetitivo, na construção de edificações a variabilidade é predominante quanto a modelos, dimensões, materiais e características construtivas, com baixa padronização e pouca estruturação, o que torna a atividade extremamente dependente do grau de interesse, iniciativa e mobilização do trabalhador.

O mesmo acontece com a qualidade, onde a falta de padrões, de treinamento do pessoal e a dificuldade de controle prévio faz com que sua obtenção dependa mais da adequada orientação, conscientização e mobilização do operário, do que de um controle posterior, que implica em retrabalhos, desperdícios e atrasos.

Acrescente-se ainda que a forma de transmissão de informações, ordens de serviço, especificações, composições de materiais e metas, mesmo verbal na maioria das vezes, deixa reduzido espaço à manifestação, seja para apresentar sugestões ou mesmo para esclarecer eventuais dificuldades e dúvidas, para tanto contribuindo a falta de integração entre a empresa e os trabalhadores, decorrente da elevada rotatividade, da variedade de intervenientes e da constante intervenção de novas equipes.

Verificar-se-á na análise dos resultados da pesquisa que, enquanto algumas características da construção de edificações são extremamente prejudiciais, outras atuam favoravelmente sobre a satisfação dos trabalhadores, contribuindo para facilitar a implantação de programas de qualidade, segundo Heineck e Tristão (1995).

2.5 O Estigma de Atraso

2.5.1 Os Desperdícios de Materiais

Pesquisa realizada por Soibelman (1993) em cinco edificações de Porto Alegre construídas pelo processo tradicional, apurou que as perdas reais médias de alguns insumos básicos (aço, areia, argamassa, cimento, concreto e tijolos) situaram-se entre 0,85 e 8 vezes as perdas usuais admitidas que variam de 5 a 20%, em unidades físicas (massa, volume ou unidade), considerando não só os materiais retirados como entulho, mas também os que ficaram incorporados à construção por problemas de projeto ou falta de geometria. Em algumas das obras pesquisadas o índice de perdas foi superior a 100%, sendo tais incidências atribuídas à fatores que vão da falta de modulação dos projetos e de integração entre eles (exigindo retrabalhos ou espessuras de paredes e revestimentos desiguais para abrigar canalizações), passando pelo mau gerenciamento e atingindo até mesmo o controle de recebimento e armazenagem dos materiais. Para esta situação contribui também o mau arranjo físico dos canteiros que dificulta uma disposição adequada dos materiais, assim como o despreparo e a falta de orientação da MO sobre conferência e parâmetros de aceitação quanto às quantidades entregues, aferição da qualidade e procedimentos relativos à descarga e armazenamento adequado.

Soibelman (ibid.) destaca em seu trabalho a grande variação entre as perdas reais de um insumo específico em diferentes empreendimentos e a alternância de resultados entre os vários empreendimentos para os diferentes materiais, pois algumas empresas eram mais eficientes em algumas etapas e ineficientes em outras, concluindo que deve existir um conjunto ótimo de procedimentos, os quais se corretamente executados podem otimizar o aproveitamento e reduzir substancialmente as perdas globais.

Em relação a custos, Formoso et al. (1993) compararam dados desta pesquisa com os parâmetros de orçamentação estabelecidos pela NBR 12721 (ABNT, 1992)(3) para prédios padrão H12-3Q-Normal, concluindo que as perdas dos materiais referidos, que representam aproximadamente 20% do custo total, haviam contribuído, até o encerramento da pesquisa, para um aumento de 5 a 12% do custo orçado das obras, podendo-se admitir, portanto, que o acréscimo de custo dos empreendimentos, em decorrência das perdas, deve variar entre um mínimo de 25 e um máximo de 60%.

A principal conclusão da pesquisa, no entanto, foi a confirmação de que muitas perdas de materiais são previsíveis e evitáveis, sendo decorrentes principalmente da falta de preocupação com as mesmas, pois sua magnitude não é sequer conhecida pelas próprias empresas, devido à ausência de métodos sistemáticos de levantamento e contabilização. A mudança de atitude dos envolvidos no processo construtivo pode assumir, portanto, importância maior do que eventuais inovações em tecnologia de construção que objetivem a redução do consumo de materiais, conforme Soibelman (ibid.)

2.5.2 A Exploração, a Reprodução e a Produtividade da Mão de Obra

Apesar da construção civil desempenhar importante papel social, não só como executora da estrutura básica para o desenvolvimento do País, mas também por absorver grandes contingentes de MO, funcionando como válvula para regular os problemas de emprego e subemprego nas áreas urbanas, vários são os fatores que contribuem para que apresente acentuados problemas de produtividade. Para Mascaró (1982), os níveis salariais são baixos (um dos menores da indústria), não permitindo que o trabalhador sequer atenda de maneira adequada suas necessidades primárias; as condições de trabalho nos canteiros são precárias, em decorrência não só das peculiaridades da atividade mas também da total falta de planejamento das instalações; as condições de segurança são ruins, tornando a atividade uma das recordistas em acidentes; as condições de higiene em geral são péssimas, assim como a assistência alimentar e de saúde. Por outro lado, a rotatividade elevada prejudica a formação de vínculo do trabalhador com os objetivos e destinos da organização, contribui para o hermetismo que ainda existe entre os diversos níveis e especializações que coexistem na obra e oferece pouca chance de crescimento.

Referindo-se à produtividade da MO(4), Rosso (1974) compara dados de canteiros de obras dinamarqueses, onde após uma série de providências visando aperfeiçoar o processo, era esperada uma redução de 22 hh/m2 para 5 hh/m2, enquanto no Brasil a produtividade média é de 45 hh/m2, o que realça a imperiosa necessidade de se revisar os métodos construtivos e aplicar instrumentos eficazes de racionalização.

Já Picchi (ibid.) considera que 45 hh/m2 é um número bastante otimista para o Brasil, pois obtido através de orçamentos, admitindo que na realidade o alto índice de retrabalho nos canteiros de obras pode elevar este número para 70/80 hh/m2 em média.

Quanto a acidentes, Heineck et al. (1984) consideram importante observar que a construção civil atingiu em 1980 um índice de acidentes duas vezes maior do que as demais atividades econômicas somadas, sendo responsável por 22% das incidências, mesmo ocupando apenas 11% do número de trabalhadores segurados na economia.

Silva (1987) associa a rotatividade de pessoal às próprias características do processo produtivo, do que decorrem implicações como a inviabilização de um processo de treinamento sistemático, a conseqüente impossibilidade de obter ganhos integrais a partir do efeito aprendizagem, a dificuldade para o estabelecimento de políticas de incentivos, motivação e segurança do trabalho adequadas à manutenção de índices de produtividade elevados e, por fim, a elevação dos níveis de absenteísmo.

Porém, as empresas que buscam obter qualidade de seus produtos através da melhoria das condições e da organização do trabalho encontram obstáculos já a partir das primeiras ações, por faltarem dados confiáveis que permitam direcionar adequadamente suas iniciativas. Mesmo informações elementares e relativamente simples de registrar e controlar, como índices de absenteísmo, rotatividade e acidentes, que Campos (1992) considera como dados objetivos para aferir o nível de satisfação dos trabalhadores quanto à situação de trabalho, são praticamente inexistentes.

Conforme constatou Dalcul (1995), as empresas de edificações em geral dispõe somente de um setor de pessoal que, na maioria dos casos, limita-se às atividades rotineiras de recrutar, contratar, registrar, elaborar folhas de pagamento e rescisões de contrato, não exercendo qualquer função relacionada à coleta e análise de dados sociais que permitam estabelecer e implementar planos e programas voltados à integração, treinamento e desenvolvimento dos recursos humanos.

A pouca atenção aos recursos humanos não é porém exclusividade brasileira, pois segundo constataram Albanese et al. (1991), em pesquisa realizada nos EUA sobre as práticas de administração de RH nas empresas de construção, menos de um terço das 783 empresas que responderam à enquete (62% das quais de pequeno porte) dispunham de um Departamento de Recursos Humanos. Analisando os resultados obtidos, Albanese et al. concluíram que RH continua sendo uma função de apoio sub-utilizada, simples mantenedora de registros, cuja contribuição potencial à produtividade não é reconhecida, razão pela qual recomendam que a construção passe a identificar e adotar novas práticas para atrair, treinar, desenvolver e recompensar, única forma de reter pessoal qualificado.

Ao falar-se em Qualidade, Produtividade, Competitividade, Código de Defesa do Consumidor, melhoria da qualidade de vida da população e principalmente das condições e organização do trabalho, constata-se que a construção de edificações é uma das atividades mais carentes de atenção, ainda mais que qualquer iniciativa de melhoria nela introduzida será positiva não só para os empresários e trabalhadores do subsetor, mas também para a população em geral, que deseja melhor qualidade de vida e que será beneficiada com habitações e prédios comerciais e públicos, com custos e prazos de execução menores, menos defeitos e maior durabilidade.

No entanto este processo é lento e gradual, com ganhos pequenos que necessitam ser consolidados, pois dependem de profunda mudança cultural de todos os envolvidos. Burati Jr. et al. (1991), ao analisar resultados de entrevistas sobre a Administração da Qualidade Total (TQM) na indústria da construção, envolvendo 142 pessoas de 19 empresas americanas, concluiu que pode ser alcançada uma melhora significativa na qualidade pelo uso do TQM, porém esta demora cerca de 3 anos para apresentar resultados e ser aceita por toda companhia. Além disto, a abordagem genérica do TQM deve ser adaptada às necessidades específicas da organização, não podendo também ser implantada por um consultor externo, pois a participação da administração é um ingrediente essencial.

2.6 A Construção de Edificações no Brasil nas Décadas Recentes

A crise atualmente enfrentada pela construção civil e particularmente pelo subsetor edificações, decorrente do retraimento da participação estatal tem causas estruturais próprias, algumas delas intrínsecas ao subsetor em diversos países (Casassus-Monterol, 1989), outras, porém, decorrentes do modelo adotado no Brasil nas últimas décadas.

Do lado do capital existem várias justificativas para esta situação. Segundo Vargas (1979), o capital promocional investido no subsetor sempre encontrou, fora da esfera produtiva, a melhor maneira de se apropriar do excedente econômico, não tendo assim necessidade de imobilizar em máquinas e equipamentos ou melhoria do processo de trabalho para aumentar a produtividade. Por outro lado, o contingente de reserva e a desmobilização e desorganização operária ofereceram condições para que a estrutura manufatureira(6) da produção subsistisse e fosse mantida a alta taxa de exploração da MO, sem preocupação com a modernização, com a qualificação dos operários e com a QVT.

Para Silva (1987), no entanto, a estratégia de manutenção de custos fixos no nível mínimo possível e o baixo compromisso com a MO, se por um lado proporciona a necessária flexibilidade para enfrentar períodos de redução da utilização da capacidade instalada, por outro pode também representar um fator de entrave à competitividade, a partir do momento em que a qualidade do produto assume cada vez maior importância no conceito de competitividade e, em especial na construção de edificações tradicional, intensivo em mão de obra, a qualidade depende diretamente do engajamento do trabalhador aos objetivos empresariais.

Reportando-se especificamente à produtividade, Silva (ibid.) focaliza dois aspectos que deveriam concentrar as ações que objetivem aumentar a produtividade: a redução da descontinuidade de trabalho (redução do grau de incerteza que o caracteriza, através do estabelecimento de programas de execução de obras) e a qualificação da MO. Em ambos os casos, o grau de controle das empresas inexistia dada a forte atuação governamental tanto na alocação de verbas para o subsetor quanto, condicionando a estas, na política de emprego que privilegiava a manutenção dos processos produtivos tradicionais, em detrimento do investimento em tecnologia.

2.6.1 As Ações Governamentais e o Sistema Financeiro

A evolução do processo de construção de edificações no Brasil passou por uma fase de relativa estagnação nas últimas décadas, que veio culminar na verdadeira corrida em busca do tempo perdido, que tem-se observado nos últimos anos.

Durante o período de 20 anos em que predominaram as ações do SFH, a busca de melhoria no processo construtivo propriamente dito esteve relegada a plano secundário, já que além da valorização fundiária que garantia a rentabilidade dos capitais promocionais da atividade, tornando desnecessária a preocupação com o processo (Vargas, 1979), o acesso a fontes creditícias que viabilizassem a execução e posterior venda dos empreendimentos também contribuía para a despreocupação com a necessidade de edificar com racionalidade e economia. Este posicionamento foi favorecido pela atuação de sucessivos governos, que, na qualidade de comprador, de normatizador, ou mesmo de principal financiador das atividades do setor, não exigiram e até mesmo desestimularam a modernização.

Para Ferreira (1976), o governo pode atuar sobre a construção civil, ora como elemento catalisador no processo de formação de recursos humanos, ora como financiador de moradias para a população, ora como demandante e comprador de obras, caracterizando-se assim como um esteio básico para o setor. Esta forte participação estatal, principalmente no período 1964/86, se por um lado permitiu certo grau de industrialização das edificações, o que aconteceu na década de 70, por outro deixou-o exposto a grandes flutuações em função das freqüentes alterações na política habitacional e de execução de obras públicas adotada pelos governos.

Sobre esta posição governamental que em parte justifica a relativa estagnação do subsetor edificações, cabe citar Costa (1972), que na condição de presidente do BNH, dizia que a rápida urbanização que caracterizava a dinâmica da evolução demográfica do Brasil colocava em foco o problema da formulação de uma política de emprego capaz de conciliar a necessidade de criar ocupação para a População Economicamente Ativa-PEA e a conveniência de ser mantida a economia funcionando com produtividade ascendente, como meio de se assegurar a melhoria dos padrões de vida e social. O foco era, portanto, a geração ou manutenção dos níveis de emprego, não a produção de habitação.

Para Costa (ibid.) as ações governamentais e empresariais deveriam voltar-se para a redução dos níveis de desperdício e ineficiência nos métodos tradicionais de construção, melhoria do treinamento, estímulo à padronização de materiais, melhoria na organização dos canteiros e outras providências que reduzissem o custo da construção e o preço dos imóveis, aspectos onde muito podia ser realizado, sem necessidade de adoção de técnicas mais modernas que aumentariam o coeficiente de capital, exigiriam projetos de maior escala e dariam menos emprego.

Porém, ainda na década de 70, este posicionamento estatal sofreu uma inflexão, especialmente no que concerne à construção de moradias, já que a execução de grandes conjuntos habitacionais para a população de baixa renda, incrementada no início da década, passou a incorporar novos métodos de produção, voltados para o aumento da produtividade do trabalho, segundo Farah (1988).

A segunda metade da década de 70 configurou mais claramente esta ênfase à modernização do setor, tendo o BNH reorientado sua atuação para o atendimento das camadas de menor poder aquisitivo, estimulando a introdução de inovações que permitissem a diminuição de prazos, a redução de custos e a produção em escala, tendo o papel da construção como absorvedora de MO deixado de servir como argumento contrário à modernização (Farah, ibid.). Esta orientação modernizante foi viabilizada pela intervenção do Estado em alguns dos principais obstáculos ao avanço do subsetor, como a pressão exercida pela propriedade fundiária e os lucros obtidos com a valorização das terras, a eliminação do custo de comercialização que ficou a cargo do poder público, assim como a garantia maciça de recursos e de escala de produção pelo Estado, que viabilizou investimentos em máquinas e equipamentos por parte das empresas. As inovações, segundo Farah (ibid.), concentraram-se, em sua maior parte, na adoção de novos sistemas estruturais, item que não podia ter seu custo reduzido pelo simples despojamento da edificação como acontece com os acabamentos, alternativa adotada por algumas empresas para baratear a habitação sem intervir no processo produtivo e nas relações de trabalho conforme Maricato (1983).

Conforme Farah (ibid.), esta experiência sofreu solução de continuidade no início dos anos 80, com a retração do mercado de habitação social via promoção estatal, dentro da crise generalizada que se abateu sobre o País, que resultou no esvaziamento dos recursos do SFH e obrigou o BNH a reorientar as atividades, até sua extinção.

A redução drástica da participação do governo, decorrente da falência do SFH e da escassez de recursos públicos, se por um lado deixou as empresas desprotegidas, por outro, forçou-as à busca de alternativas que permitissem sua continuidade e crescimento, através de novas estratégias mercadológicas ou do aprimoramento tecnológico e organizacional, o que, no enfoque da evolução do processo construtivo, pode ser altamente salutar.

2.6.2 A Crise dos Anos 90 e as Novas Estratégias

As dificuldades que atingiram o Estado, provocando sua retração como promotor de investimentos na construção, e que redundou na extinção do BNH em 1986, provocou a crise do setor que ainda persiste, o que serve para enfatizar, segundo Lopes (1983), a importância do poder público na atividade. Para Blachere apud Lopes (ibid.), o programa de construção de habitações de um país deveria se fazer, essencialmente, a partir de objetivos de longo prazo, sendo função da vontade política de alojar decentemente a população, da disponibilidade de recursos financeiros, do nível de renda dos usuários e da capacidade técnica e produtiva do subsetor.

Sob este enfoque não se afiguraria promissora a situação das empresas de construção de edificações no Brasil, pois mesmo que se admita a existência de vontade política, não se pode ignorar que a falta de recursos governamentais e o baixo nível de renda da população constituem-se em fatores restritivos, dadas as limitações técnicas e produtivas do subsetor, que, pelos motivos expostos, manteve relativamente elevado o custo das unidades.

Além da extinção do BNH, também a presença das empresas de Construção Pesada no mercado de Edificações, devido à forte redução da capacidade de investimento do governo, principal demandante de sua atividade básica, veio aumentar a concorrência entre as empresas, reduzindo as margens de resultados e por via de conseqüência, obrigando-as à busca de eficiência na utilização de recursos, de qualidade na edificação e de otimização global da atividade construtiva propriamente dita, até então relegada a plano inferior, conforme Cardoso (1993) e Farah (1993).

Ainda mais, as transformações aceleradas que vêm ocorrendo nos últimos anos como a abertura do mercado nacional ao ingresso de produtos e capitais estrangeiros e a maior conscientização e organização da população em geral, e dos trabalhadores em particular, estão estabelecendo novos parâmetros também para o mercado imobiliário, conforme Souza e Merbekian (1993).

Para Amorim (1995), a drástica redução da participação do estado como promotor ou financiador de edificações pela falência do SFH, aliado à dificuldade de obtenção e aos custos absurdamente altos dos empréstimos bancários para produção, levaram as empresas a preferirem executar as obras na medida das disponibilidades financeiras próprias ou dos clientes, evitando o endividamento.

Em função disto as empresas tradicionais do subsetor viram-se forçadas a concentrar suas atividades num segmento restrito da população, composto pelas classes de renda média e alta, as únicas com condições de pagar a médio prazo uma unidade habitacional ou comercial. Uma das conseqüências desta opção, porém, é que nesta faixa de clientes é grande a variabilidade, decorrente de novos hábitos de consumo, sendo crescente a busca de diferenciação, personalização e sofisticação de projetos e produtos, bem como as exigências em termos de qualidade, o que pressiona as diversas áreas da empresa, seja previamente, para detectar as tendências do mercado, ou durante a construção, para administrar as sucessivas solicitações de modificações que vão ocorrendo.

O financiamento da atividade é portanto o principal problema a resolver. Alguns poucos empreendedores capitalizados, para evitar maiores riscos, adotam a alternativa de executar a totalidade da obra com recursos próprios, só comercializando-a no final, o que não só lhes dá total controle sobre o projeto, o processo e o produto, como também permite em princípio obter um preço final mais elevado, considerando uma possível sobrevalorização do imóvel pronto. Esta decisão, porém, deixa a desejar, não só pela incerteza quanto à venda posterior, dada a instabilidade do mercado, a grande concorrência, a falta de financiamento, a carência de recursos próprios dos clientes potenciais e o elevado montante de capital necessário para executar o empreendimento, como também porque, conforme Kallas (1987), estes investidores por vezes não comparam a taxa de retorno obtida, com outras oportunidades que o mercado oferece, razão pela qual podem estar realizando investimentos pouco rentáveis.

Face às dificuldades de obtenção de crédito com taxas adequadas, significativa parcela das empresas do Rio Grande do Sul voltaram-se para a estratégia legalmente permitida no subsetor, que consiste em vender o imóvel na planta - antes mesmo de seu início - ou durante a fase de execução, a preço de custo ou a preço fechado, modalidades instituídas pela Lei 4.591 de 16/12/64, que dispõe sobre o condomínio em edificações e as incorporações imobiliárias.

Qualquer que seja a modalidade, porém, a comercialização de imóveis antes do início ou durante a fase de construção, de maneira mais ou menos intensa, permite ao adquirente interferir ativamente no processo construtivo, propondo alterações que vão interferir na administração e no andamento da obra.

2.6.3 O Aporte de Capitais Determinando o Ritmo da Construção

Qualquer que seja a alternativa adotada, observa-se que o fluxo de ingresso de recursos financeiros determina o ritmo, a partir de um prazo básico, decorrente de fatores técnicos, até um prazo por vezes indefinido, função da capacidade de aporte de recursos próprios do construtor ou dos adquirentes das unidades, repetindo-se a situação vigente na época do BNH onde o Cronograma de Desembolsos também preponderava. Em função desta necessidade de adaptação à disponibilidade de recursos financeiros, resultam prazos de execução por vezes alongados, que nem sempre correspondem aos ideais de eficiência técnica, conforme Amorim (1995). O alongamento dos prazos de entrada de recursos força a diminuição da velocidade de execução do empreendimento como um todo, pois mesmo que cada etapa seja executada num prazo adequado, a descontinuidade entre elas acaba prejudicando o desempenho global, com conseqüente perda de produtividade, agravando ainda mais a elevada variabilidade nos tempos de execução das tarefas, que oscilam em torno de 20% de acordo com Heineck (1989), além do que, tanto a diminuição da velocidade quanto a freqüente interrupção das atividades podem afetar o ânimo e o interesse dos trabalhadores.

Com o acirramento da concorrência, as conseqüentes restrições de mercado e a falta de financiamentos, as empresas atualmente devem ajustar os cronogramas de execução e de aporte de recursos à capacidade de pagamento dos clientes potenciais, deixando de prevalecer a minimização de tempos de execução de projetos baseados nas técnicas de planejamento e controle tipo PERT-CPM(11), que não consideram a limitação de aporte de recursos (Birrel, 1980; Prates, 1990).

2.7 A Evolução da Gestão na Construção de Edificações

A evolução das formas de gestão na construção de edificações no Brasil em parte é similar à observada nos demais setores industriais onde, segundo Rodrigues (1991), as empresas precisam optar entre investir em prédios, tecnologia e mecanização, constituintes do subsistema técnico ou no aperfeiçoamento dos demais fatores produtivos, como a organização do trabalho, a participação, o envolvimento e mobilização dos trabalhadores, que envolve o subsistema social. Quando o investimento em tecnologia não se mostra favorável, pela carência de recursos financeiros, ou é contra-indicado pela instabilidade dos mercados, emerge como alternativa a organização do trabalho e a busca da participação e envolvimento dos trabalhadores.

Para resgatar o interesse do pessoal, Bobroff (1989b) apresenta como alternativa a busca da polivalência em substituição à competência limitada, de maneira que o trabalhador possa exercer maior número de tarefas ao longo da jornada, ampliando novamente o conteúdo do trabalho. Nesta via, segundo Campagnac (1989), o saber técnico não deve ficar circunscrito a um domínio particular e ainda menos a um ofício, devendo integrar um campo mais largo e uma visão ampla da execução, como proposto no Enriquecimento do Trabalho de Frederick Herzberg a ser comentado adiante.

A construção de edificações atuou até o final dos anos 80 no sentido oposto às proposições de Bobroff (ibid.) e Campagnac (ibid.), pois conforme Grandi (1988) e Lima (1987), a indústria da construção vinha sofrendo um processo gradativo de desqualificação profissional. O desenvolvimento tecnológico ocorrido no subsetor contribui em parte para esta perda de qualidade, já que as inovações vêm embutidas nos materiais, simplificando as operações a nível de processo produtivo, de maneira que a habilitação profissional dá lugar à especialização na realização de operações simplificadas, como o montador-colocador que substitui o trabalho do carpinteiro de cobertura descrito por Lima (ibid.).

Conforme Vargas apud Moura (1989) o conceito de organização do trabalho, de planejamento rigoroso das tarefas, originários dos princípios tayloristas adotados pelo setor fabril no início do século, já vem sendo por este abandonado e substituído por técnicas de gerenciamento mais modernas, onde, ao invés de cronometrar as diferentes fases do trabalho, busca-se a motivação e envolvimento do operário, como forma de atingir os objetivos pretendidos. No mesmo sentido Zarifian (1989) afirma que, no caso das edificações, a obtenção de economias de escala relativas se dará não pela tecnologia de produção, mas pela estabilidade, responsabilidade, autonomia, participação e grau de qualificação do coletivo de canteiro, remobilizando e modificando a matriz de atividades herdadas do modelo de ofício.

Dorfmann (ibid.) propõe o reagrupamento dos vários serviços, instaurando uma tendência de progressiva ampliação do domínio dos trabalhadores sobre a totalidade dos processos construtivos, como uma alternativa à sucessão de equipes de trabalho, descontinuidade do ciclo produtivo e do ritmo de produção decorrente. Todo o esforço seria concentrado, então, no sentido de permitir que cada indivíduo passasse a enfeixar em suas mãos parcela cada vez maior do processo construtivo, permanecendo por maior prazo na obra e atenuando a descontinuidade do ritmo de produção que decorre da constante mudança de equipes.

Campinos-Dubernet (1983) considera que na construção de edificações a polivalência de parte do contingente de trabalhadores é duplamente necessária e importante, pois proporciona maximização dos tempos de ocupação e, em decorrência, redução dos tempos improdutivos. Como os processos construtivos caracterizam-se pela grande variabilidade interna da quantidade de trabalho necessário e exigências de encadeamento maiores do que na indústria de montagem, a polivalência contribuiria para reduzir as constantes interrupções das intervenções.

No mesmo sentido Vargas apud Moura (ibid.) diz serem necessárias formas de gerenciamento mais modernas que busquem o engajamento do trabalhador. As diretrizes dessas novas idéias são a fixação da MO (detentora do saber), a maior autonomia do trabalhador, assim como a sua polivalência, o que possibilitaria a eliminação dos tempos improdutivos e das descontinuidades na produção, contribuindo também para a redução da rotatividade, pois quanto maior o número de habilidades do operário, maior também poderia ser o seu tempo de permanência no empreendimento.

Outro resultado positivo para as empresas e para os trabalhadores seria obtido com a redução dos índices de acidentes. Neste sentido o CIAT (1978) recomenda ações sobre o meio organizacional e adoção de um estilo de gestão mais participativo, em especial sobre a organização do tempo, seu ritmo e conteúdo e o grau de participação dos trabalhadores na determinação de sua tarefa e estruturação de seu grupo como forma de reduzir os índices de acidentes de trabalho na construção civil.

Apesar de novos métodos, processos, tecnologias e materiais terem sido incorporados às atividades produtivas no decorrer das últimas décadas, acompanhando o rápido desenvolvimento tecnológico, somente nos anos recentes, e mesmo assim de forma incipiente, vêm sendo introduzidas mudanças nas formas de gerenciamento dos recursos humanos. Na construção de edificações, principalmente nas pequenas empresas, a situação é ainda crítica pois o treinamento de pessoal é deficiente, o seqüenciamento das atividades carece de melhor planejamento, além de ser pouco solicitada e estimulada a participação dos trabalhadores na programação das tarefas, na melhoria das condições de trabalho, na solução de conflitos e na melhoria das comunicações, conforme Fruet e Formoso (1993).

Esta situação precária pode ser justificada, nas pequenas empresas, não só pela estrutura administrativa relativamente reduzida, com a conseqüente falta de pessoal especializado para realizar estas funções, mas também pela formação tecnicista dos engenheiros civis, pouco preparados para o planejamento e a administração. Este, porém, não é um problema exclusivo do Brasil pois, segundo Hopkins (1987) constatou, é cada vez maior o número de matrículas de engenheiros em programas de MBA (Master Business Administration) nos Estados Unidos, exatamente porque a formação destes profissionais, voltada fortemente para conteúdos técnicos, não lhes proporciona treinamento suficiente em planejamento administrativo.

Apesar destas dificuldades constata-se que fatores como qualidade, produtividade, desperdício, retrabalhos e prazos elevados de construção, que resultam em elevação de custos e preços das construções já vêm sendo enfrentados com maior objetividade. Da racionalização de projetos, planejamento das atividades, passando pela normalização de materiais e chegando à reorganização administrativa, treinamento e ações visando fixar a MO, vários são os aspectos sobre os quais algumas empresas, mesmo de pequeno porte, vêm envidando esforços no sentido de entender como atuar (Formoso e Lima, 1994).

Deste conjunto de fatores que influem na qualidade e produtividade da construção, o trabalhador assume papel preponderante, até com mais ênfase do que ocorre em outros setores, dadas as especificidades do mesmo, sua pouca estruturação e a dificuldade da construção tradicional em introduzir inovações tecnológicas em máquinas e equipamentos nos canteiros de obra.

A forma artesanal do processo de construção de edificações, no sentido de que os materiais são preparados, dosados, aplicados e conformados na obra, através de ferramentas manuais, sem uso de equipamentos dotados de autonomação, aliado ao fato de que é inviável a supervisão direta do trabalho de cada um - tanto pelo grande número de subordinados a cada mestre-de-obra, quanto pela dispersão dos mesmos no canteiro - faz com que a obtenção da qualidade dependa não só do saber e habilidade, mas principalmente da participação e envolvimento do operário neste objetivo.

Segundo Toledo (1987) a obtenção da qualidade é estreitamente vinculada à organização do trabalho, apesar de muitas empresas o tratarem como um problema técnico e outras como um problema de controle e intensificação da inspeção, de treinamento e disciplina dos operários. As empresas adeptas do primeiro enfoque, consideram que a satisfação do trabalhador dá uma resposta mais eloqüente, razão pela qual procuram formular programas de motivação e incentivo e de mudanças nos esquemas de organização do trabalho. Numa atividade com características manufatureiras, onde há muita dependência do treinamento, habilidade e interesse da mão de obra, segundo Toledo (ibid.),

Existe estreita correlação entre os resultados da qualidade de conformação(13) obtidos na produção de uma empresa (tais como a porcentagem de defeituosos, as necessidades de retrabalho, etc.) e as características da organização do trabalho que prevalecem na mesma (divisão do trabalho, ritmo de trabalho, conteúdo das tarefas, autonomia, etc.). Ou seja, as formas de organização do trabalho podem contribuir ou obstaculizar a obtenção dos padrões de qualidade esperados.

Com relação à MO as necessidades estão portanto se redefinindo, pois o novo contexto que pressiona as empresas exige do trabalhador um novo tipo de desempenho, orientado para a qualidade do produto, para uma maior produtividade e para a redução das perdas de materiais, segundo Farah (1993), o que depende fundamentalmente do grau de comprometimento do trabalhador com a organização. Assim, ao mesmo tempo que é amplamente aceito que a construção civil pode absorver MO não qualificada, constata-se que a heterogeneidade da atividade apresenta uma grande variedade de situações a serem resolvidas a cada momento, o que sobrecarrega de responsabilidade este pessoal de escassa formação, dificultando o domínio do processo quanto ao planejamento, programação e controle, conforme Silva (1986).

A estratégia de racionalização identificada por Farah (1993) em algumas empresas inclui alterações na organização do trabalho e na gestão da MO, visando tanto a recapacitação e treinamento dos trabalhadores para resgate de parte da qualificação operária (cursos com conteúdos tradicionais, aplicação de novos materiais, uso racional dos recursos, polivalência) quanto o seu engajamento ao processo de mudança, mediante a introdução de um estilo de gestão participativo, que implica em redução de níveis hierárquicos e abertura de canais de informação e discussão com os trabalhadores, em substituição à linha de comando tradicional. Esta estratégia inclui ainda políticas de fixação da MO, de redução da subcontratação, melhoria nas condições de trabalho, nas questões de higiene e segurança e na concessão de benefícios, em contraposição à precariedade dominante no subsetor, tendo por objetivo não só atrair os trabalhadores, mas, principalmente, proporcionar a formação de vínculo com a empresa.

2.8 A Qualidade e a Produtividade

A primeira metade da década de 90 caracterizou o efetivo ingresso do Brasil no mercado internacional, seja pela eliminação das restrições à importação, pela queda das taxas alfandegárias e impostos de importação que inviabilizavam o ingresso de produtos estrangeiros, pela queda de barreiras legais para a atuação de empresas estrangeiras no mercado nacional e, de forma mais abrangente, pela inserção no País dos paradigmas de qualidade e produtividade, aos quais as empresas nacionais terão que se submeter, não só para fazer frente à concorrência de produtos oriundos dos países desenvolvidos, mas, principalmente, para atender às exigências crescentes de consumidores mais esclarecidos.


2.8.1
Os Programas Governamentais

Em 1990 foi lançado o PBQP-Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade (1990), com o objetivo de estabelecer um conjunto ordenado de ações indutoras da modernização industrial e tecnológica, que viesse contribuir para a retomada do desenvolvimento econômico e social, pois o governo brasileiro estava ciente de que apenas a exposição à concorrência não provocaria necessariamente o aumento da eficiência da indústria. O PBQP tem então como objetivo estimular, direcionar e dar suporte as iniciativas nas áreas de qualidade e produtividade, com o objetivo de melhorar o padrão geral das empresas brasileiras (Fleury e Humphrey, 1993), devendo ser focalizado como uma nova filosofia de gestão empresarial que direcione todos os segmentos da empresa, através de um compromisso de dirigentes e empregados, em todas as fases do processo produtivo, para a obtenção de produtos com desempenho, preço e disponibilidade adequados e totalmente orientados para as aspirações do mercado.

Para Fleury e Humphrey (ibid.) as firmas encorajadas a adotar novas práticas no que se refere às relações comerciais, esquemas de produção, treinamento, motivação e gestão dos recursos humanos, devem estar suficientemente conscientes da extensão das implicações e das dificuldades que poderão surgir, sob pena dos novos sistemas produtivos entrarem em pane e estas práticas caírem em descrédito.

Em julho/92 foi lançado o Programa Estadual da Qualidade e Produtividade - Qualidade RS, o qual, a par das iniciativas empreendidas a nível nacional na área da qualidade, tem como objetivo modernizar as estruturas organizacionais da economia gaúcha, tornando-as melhores em qualidade e produtividade, alcançando assim suficiente competitividade para a efetiva participação nos mercados nacional e internacional.

2.8.2 O Programa de Qualidade e Produtividade na Construção Civil-RS

A construção civil do Rio Grande do Sul foi pioneira no lançamento de um programa setorial, o Programa de Qualidade e Produtividade na Construção Civil-PQPCC-RS (1992), o qual resultou dos esforços conjuntos de entidades que congregam profissionais e empresas que atuam no setor, com o objetivo de desenvolver uma nova cultura, criando um ambiente empresarial receptivo ao novo contexto produtivo, com vistas a atingir patamares elevados de competitividade.

Para o PQPCC-RS são várias as causas de dificuldades que limitam o desenvolvimento saudável das atividades da construção, desde a falta de conscientização para a qualidade e produtividade, o baixo grau de sistematização das informações, a carência no desenvolvimento e difusão de tecnologias, a deficiência da formação e atualização profissional, a falta de normalização, controle de qualidade e certificação dos materiais, até a inexistência de sistemas de garantia da qualidade em empresas de construção do RS (Schmitt et al., 1992). A dificuldade na obtenção do produto final desejado, os elevados níveis de desperdício de materiais nos canteiros de obras, a baixa produtividade da MO empregada e o padrão tecnológico inferior ao observado na construção em outros países, são conseqüência natural desta multiplicidade de problemas.

2.8.3 O Projeto Cooperativo Desenvolvido pelo NORIE/UFRGS

Dentro do PQPCC-RS foi firmado o Projeto de Apoio Tecnológico e Gerencial a Empresas de Construção Civil de Pequeno Porte, através do qual o NORIE/UFRGS realizou uma série de atividades para estabelecer um modelo para a gestão da qualidade e produtividade em empresas de construção civil de pequeno porte, reproduzindo experiência cooperativa de desenvolvimento incremental da qualidade realizada pelo Norwegian Building Research Institute da Noruega (Formoso e Lima, 1994).

A primeira etapa do projeto consistiu na sensibilização e motivação dos diretores e gerentes técnicos das empresas selecionadas e treinamento sobre o uso e potencial das ferramentas da qualidade. A participação dos empregados ocorreu inicialmente através dos Comitês da Qualidade formados em cinco empresas do grupo, onde, à semelhança do que ocorre com os Círculos de Controle da Qualidade-CCQ, as proposições iniciais foram concentradas em aspectos relacionados com as condições de trabalho.

Paralelamente ao desenvolvimento das atividades conjuntas, foram realizados vários estudos, pesquisas e projetos de melhoria, relacionados com o escopo desta tese, tais como:

- a pesquisa de Fruet e Formoso (1993), sobre as dificuldades enfrentadas pelos gerentes técnicos, envolvendo 45 empresas de pequeno porte;

- o levantamento efetuado por Soibelman (ibid.) que quantificou as perdas de alguns materiais específicos e diagnosticou suas causas principais;

- a pesquisa de Souza e Formoso (1993) que levantou as estratégias de produção e modernização adotadas por cinco construtoras nacionais de grande porte;

- o sistema de indicadores de qualidade e produtividade para a construção civil, desenvolvido por Lantelme, Oliveira e Formoso (1994) junto com as empresas do projeto;

- o projeto didático desenvolvido por Palácios (1994) juntamente com o pessoal do setor de suprimentos de 3 empresas do projeto;

- a pesquisa de Scardoelli (1995) que levantou as iniciativas de melhoria desenvolvidas pelas empresas de edificação na última década;

- a pesquisa de Villacreses (1994) que analisou as estratégias de subcontratação adotadas por uma amostra de 27 empresas de construção de pequeno porte, numa forma típica de parcerias.

- o estabelecimento de um modelo básico de documentação da qualidade para empresas de construção civil, desenvolvido por Boggio (1994);

- a medição de produtividade em canteiros de obras utilizando a técnica de amostragem do trabalho, realizado por Santos (1994);

- a elaboração e aplicação de um programa de treinamento realizado por Silva (1995) com 41 operários das empresas do projeto;

- a pesquisa sobre qualidade de vida no trabalho (Lima e Heineck, 1994), aqui detalhada, realizada em cinco empresas, sendo quatro integrantes do PQPCC, e que envolveu um total de 176 trabalhadores.

2.9 Síntese conclusiva

Neste capítulo procurou-se contextualizar o subsetor objeto da pesquisa, sem porém entrar em detalhes numéricos já enfatizados por uma série de autores e condensados por Picchi (1993) em seu trabalho sobre sistemas de qualidade.

Verificou-se que o subsetor edificações engloba um pequeno número de grandes empresas que absorvem a maior parte do pessoal e que dispõe de estrutura administrativa e técnica que lhes permite implementar isoladamente seus programas de qualidade. De outra parte, para um grande número de pequenas empresas, sem as mesmas condições organizacionais, a alternativa seria o desenvolvimento de programas conjuntos, baseado na troca de experiências.

Analisando a mobilidade das empresas no setor, demonstra-se a vulnerabilidade das empresas de Edificações, seja devido à pouca capitalização e tecnologia requerida que facilita a entrada de concorrentes, às dificuldades conjunturais que expõe a fragilidade das empresas, assim como a permeabilidade do subsetor Edificações ao ingresso de empresas de Construção Pesada, em geral com maior porte e tecnologicamente mais evoluídas, que passam a atuar em Edificações quando sua atividade básica está em crise.

Foram apresentadas peculiaridades do processo de construção de edificações tradicional, constatando-se que a forma artesanal como o trabalho se desenvolve, torna extremamente importante o engajamento dos trabalhadores nas metas empresariais, para o que é indispensável um nível adequado de satisfação de suas necessidades e anseios.

Procurou-se, também, relacionar o estigma de atraso que cerca a construção de edificações, principalmente nos aspectos relativos a desperdício de materiais e forma de gestão dos recursos humanos, com as próprias deficiências na organização das empresas, com aspectos culturais arraigados e também com a estrutura de ofícios que caracteriza o subsetor, concluindo-se que as deficiências existentes, especialmente as relacionadas com a gestão empresarial, não são exclusivas do Brasil, ao contrário, são identificadas também em países desenvolvidos.

Aborda-se a evolução da construção de edificações nas décadas recentes, basicamente a partir de 1964, início da atuação do SFH e chegando aos anos 90, onde à quebra de paradigmas e novas exigências dos consumidores e trabalhadores, soma-se a crise do setor público que culminou com a falência do Banco Nacional de Habitação, principal impulsionador das atividades do subsetor durante 20 anos.

Verifica-se que face às novas estratégias mercadológicas, de venda dos empreendimentos na planta ou em construção, as empresas dependem agora do aporte de recursos dos adquirentes, ficando à mercê das exigências por eles apresentadas, o que com freqüência provoca transtornos e descontinuidades de trabalho, prejudicando o desempenho e acarretando perdas de produtividade, o que afeta o interesse dos operários.

Analisa-se a evolução da gestão na construção de edificações e as proposições para a requalificação do trabalhador através da polivalência e da adoção de formas de gerenciamento mais modernas que busquem o engajamento e a estabilidade da MO.

Procura-se demonstrar a necessidade de participação e engajamento do trabalhador nos objetivos de qualidade, principalmente em função das características artesanais da atividade, extremamente dependente da habilidade da MO e onde o porte e dimensões do produto dificultam a adoção de procedimentos mais rigorosos de controle.

Apresenta-se o lançamento de programas oficiais de qualidade, a nível federal e estadual e o programa setorial da construção civil do Rio Grande do Sul, descrevendo-se de forma sucinta as atividades desenvolvidas no âmbito do Projeto de Apoio Tecnológico e Gerencial a Empresas de Construção realizado pelo NORIE/UFRGS.