A construção civil
constitui-se num setor altamente pulverizado, onde tanto podem
conviver grandes empresas, principalmente no subsetor Construção
Pesada(1),
até microempresários, grupos familiares ou profissionais
autônomos, dedicados a atividades específicas, como
serviços de instalações e pinturas ou mesmo
à execução de reformas, consertos e serviços
de manutenção.
Por outro lado, o setor tem a peculiaridade
de se prestar à criação de empresas ou consórcios
para a execução de um único produto ou poucas
unidades deste, ou, ainda, à formação de
grupos de pessoas interessadas na construção de
edificações sob a forma de condomínio, as
quais desenvolvem em conjunto todas as atividades necessárias,
da escolha do terreno ao término do empreendimento, dissolvendo-se
após a distribuição das unidades construídas
ou o rateio dos resultados gerados com a venda das mesmas.
2.1 O Subsetor
Edificações
O subsetor Edificações
é extremamente heterogêneo, sendo constituído
por empresas dos mais variados portes, conforme pode-se verificar
no Censo da Construção de 1985 (IBGE-1989, p.12/13)
que apresenta a estratificação das empresas legalmente
constituídas, por pessoal ocupado, da qual foram obtidos
os dados constantes da Tabela 2.1, relativo a 4.051 empresas e
seus 262.017 empregados.
Tabela 2.1
Extratificação do subsetor
edificações
Enquanto somente
66 grandes empresas
(1,63% do total) tinham mais de 500 empregados e absorviam 96.740
pessoas (36,93% da MO do subsetor), no outro extremo 2.446 microempresas
(60,38%) tinham até 19 empregados, o total destes atingindo
21.806 pessoas ou 8,32% da MO total. Em conjunto, as micro e pequenas
empresas, que totalizam 88,72% das construtoras pesquisadas, absorviam
30,58% do pessoal ocupado e 27,77% da Receita Operacional, enquanto
as médias e grandes que representavam 11,28% das empresas
ocupavam 69,42% da MO e absorviam 72,23% da Receita Operacional
do setor.
2.2 A Mobilidade das Empresas
no Setor
Além da classificação
quanto ao porte, existe relativa dificuldade em classificar as
empresas de edificações com base em aspectos como
área de concentração, forma de atuar ou tipo
de edificações. Segundo Silva (1986), a classificação
adotada pelas estatísticas decorre do tipo de atividade
principal declarada ou de obra predominante em sua produção,
sendo possível encontrar empresas que mesclam a atividade
voltada para edificações com outros tipos de serviços,
em decorrência dos períodos de queda de demanda ou
de restrição de crédito.
Apesar de dedicarem-se preferencialmente
a um determinado tipo de construção (residencial,
comercial ou industrial), tal fato não constitui impedimento
para que, nos períodos de escassez de trabalho no seu segmento
ou em função de oportunidades de mercado, as construtoras
de edificações assumam a execução
de prédios com outras finalidades. Na análise do
perfil estratégico de empresas de construção
civil de pequeno porte, Palácios e Villacreses (1994) constataram
que das empresas então analisadas e que atuavam prioritariamente
em incorporações, cinco tinham um segmento de mercado
secundário (obras públicas, prestação
de serviços, obras de terceiros) e somente uma delas concentrava-se
exclusivamente na sua especialidade.
De outra parte, as empresas de
Construção
Pesada tendem a incursionar com freqüência pelo subsetor
Edificações, seja quando ocorre crise nos investimentos
governamentais, principal demandante de seus serviços,
ou quando o processo construtivo adotado ou o porte da obra exige
altos investimentos iniciais, o que em princípio limita
o acesso às empresas com capital elevado.
Nos bons tempos em que havia
grandes investimentos governamentais nós só entrávamos
em concorrência pública de obras de construção
pesada acima de US$ 10 milhões; depois passamos a aceitar
qualquer tipo de obra pública neste patamar, como os CAICs;
atualmente porém, para mantermos nossa estrutura funcionando,
passamos a concorrer por qualquer obra, pública ou privada,
acima do patamar de US$ 1 milhão.
Um
gerente de qualidade de uma empresa de Construção
Pesada.
Esta manifestação
não só confirma a influência da falta de investimentos
públicos na mobilidade destas empresas, como mostra a vulnerabilidade
e pressão redobrada que sofrem as empresas do subsetor
Edificações nos períodos de crise, pois às
dificuldades do próprio subsetor soma-se o novo tipo e
porte de concorrentes que passam a enfrentar.
Enquanto o subsetor Construção
Pesada limita o ingresso de novas empresas, devido ao volume de
capital que requer, ao porte das obras, aos investimentos em máquinas
e equipamentos e à tecnologia relativamente complexa, o
subsetor Edificações é bastante vulnerável
à entrada de concorrentes, sejam novas construtoras que
se constituem nos períodos de crescimento do subsetor,
ou empresas de Construção Pesada que passam a atuar
em Edificações, conforme Farah (1992).
2.3 As Peculiaridades da
Construção
de Edificações Tradicional
A evolução da construção
de edificações permite dizer que de um lado há
o processo tradicional de construção de edificações,
onde a utilização da mão de obra e ferramentas
manuais é bastante intensa, e de outro lado as edificações
industrializadas(2)
onde a penetração de equipamentos é maior
e a categoria profissional típica é a do
colocador-montador-polivalente
definida por Bobroff (1989).
Para Lopes (1983), dentre os vários
subsetores em que se divide a construção civil,
o de edificações é seguramente o de maior
complexidade, razão pela qual sobre ele devem voltar-se
prioritariamente as atenções, independente de sua
finalidade ou dos processos construtivos adotados, quer seja baseado
em métodos industrializados ou em métodos considerados
tradicionais, onde a maioria dos materiais são preparados
no canteiro pelos processos usuais, com a predominância
das profissões típicas do subsetor.
Procurando delimitar o campo de ação do presente trabalho e definir a nomenclatura utilizada, daqui em diante Construção Civil compreenderá a totalidade das atividades do setor, enquanto Edificações ou simplesmente subsetor compreenderá a edificação por processo tradicional, caracterizado como aquele onde a penetração de máquinas e equipamentos é menos intensa, com a supremacia das categorias ocupacionais típicas como serventes, pedreiros, armadores, carpinteiros, azulejistas, pintores, etc., voltados para tarefas que exigem perícia e habilidade e que não são passíveis de serem realizadas por máquinas, conforme Moraes (1988).
A forma como se processa o trabalho
na construção de edificações tradicional
é distinta dos demais setores de atividade que se desenvolvem
num espaço próprio por uma série de peculiaridades
exaustivamente referidas na bibliografia especializada e condensadas
por Dorfmann (1988). Ou seja, apesar da evolução
da construção de edificações ao longo
do tempo, persistem ainda especificidades que a mantém
distinta da indústria fabril, algumas delas função
do estágio de desenvolvimento da construção
no Brasil, outras porém disseminadas de forma generalizada.
Segundo Dorfmann (ibid.), apesar
da edificação poder ser concebida em muitos de seus
aspectos como um processo de montagem de um produto complexo
a partir de seus componentes menores, o que naturalmente induz
à tentativa de organização segundo os padrões
da indústria seriada, os canteiros de obra têm-se
mostrado bastante resistentes aos esforços feitos no sentido
de dar-lhes a forma das linhas de produção ou montagem,
apesar de já se observar a introdução de
vários elementos pré-fabricados ou pré-montados,
como armaduras, formas, lages, vigas e mesmo janelas e portas
montadas que são simplesmente colocadas e fixadas nos vãos,
com reduzido trabalho posterior de acabamento ou conformação.
2.4 A Repercussão
das Peculiaridades
Sobre a Mão de Obra
A estrutura de ofícios, ao
requerer uma determinada qualificação de trabalhador
para cada etapa, sujeita-os à curta permanência em
cada obra, ao deslocamento contínuo entre elas e mesmo
à rotatividade, impedindo-os de receber preparação
adequada, de conhecer detalhes da organização,
do próprio trabalho, e até mesmo de integrar-se
e desenvolver relações amistosas com seus colegas.
O método tradicional de
construção
é incorporado e difundido pela própria força
de trabalho, pois em qualquer parte do país pode-se contratar
profissionais que vão executar seu trabalho de forma muito
semelhante, sem necessidade de instruções por parte
dos engenheiros, segundo Vargas (1988), o que se por um lado evita
custos com a formação do trabalhador e detalhamento
dos métodos, por outro cria uma forte barreira para qualquer
mudança pontual em uma empresa.
Por outro lado, a prática
de utilização de trabalhadores sob vários
tipos de vínculos (empregados próprios, de terceiros,
autônomos) e formas diferentes de remuneração
(por hora, por semana, por empreitada, por tarefa), provocam
distorções
e por vezes reações e atritos pelas disparidades
que acarretam, pela falta de união da equipe, assim como
de interesse e engajamento aos objetivos organizacionais.
Ainda mais, a falta de padronização,
normalização e freqüentemente de qualidade
dos materiais utilizados, além de acarretar prejuízo
financeiro e técnico para a empresa e para a qualidade
do produto final, pode ser também fator de insatisfação
do trabalhador, pela maior dificuldade que encontra e menor produtividade
que obtém na execução da tarefa determinada,
com a especificação e parâmetros requeridos.
Aliado a isto, diferentemente do
que acontece na indústria em geral, onde o trabalho é
estruturado e repetitivo, na construção de edificações
a variabilidade é predominante quanto a modelos, dimensões,
materiais e características construtivas, com baixa
padronização
e pouca estruturação, o que torna a atividade extremamente
dependente do grau de interesse, iniciativa e mobilização
do trabalhador.
O mesmo acontece com a qualidade,
onde a falta de padrões, de treinamento do pessoal e a
dificuldade de controle prévio faz com que sua obtenção
dependa mais da adequada orientação, conscientização
e mobilização do operário, do que de um controle
posterior, que implica em retrabalhos, desperdícios e atrasos.
Acrescente-se ainda que a forma
de transmissão de informações, ordens de
serviço, especificações, composições
de materiais e metas, mesmo verbal na maioria das vezes, deixa
reduzido espaço à manifestação, seja
para apresentar sugestões ou mesmo para esclarecer eventuais
dificuldades e dúvidas, para tanto contribuindo a falta
de integração entre a empresa e os trabalhadores,
decorrente da elevada rotatividade, da variedade de intervenientes
e da constante intervenção de novas equipes.
Verificar-se-á na análise
dos resultados da pesquisa que, enquanto algumas características
da construção de edificações são
extremamente prejudiciais, outras atuam favoravelmente sobre a
satisfação dos trabalhadores, contribuindo para
facilitar a implantação de programas de qualidade,
segundo Heineck e Tristão (1995).
2.5 O Estigma de Atraso
2.5.1 Os Desperdícios de
Materiais
Pesquisa realizada por Soibelman
(1993) em cinco edificações de Porto Alegre construídas
pelo processo tradicional, apurou que as perdas reais médias
de alguns insumos básicos (aço, areia, argamassa,
cimento, concreto e tijolos) situaram-se entre 0,85 e 8 vezes
as perdas usuais admitidas que variam de 5 a 20%, em unidades
físicas (massa, volume ou unidade), considerando não
só os materiais retirados como entulho, mas também
os que ficaram incorporados à construção
por problemas de projeto ou falta de geometria. Em algumas das
obras pesquisadas o índice de perdas foi superior a 100%,
sendo tais incidências atribuídas à fatores
que vão da falta de modulação dos projetos
e de integração entre eles (exigindo retrabalhos
ou espessuras de paredes e revestimentos desiguais para abrigar
canalizações), passando pelo mau gerenciamento e
atingindo até mesmo o controle de recebimento e armazenagem
dos materiais. Para esta situação contribui também
o mau arranjo físico dos canteiros que dificulta uma
disposição
adequada dos materiais, assim como o despreparo e a falta de
orientação
da MO sobre conferência e parâmetros de aceitação
quanto às quantidades entregues, aferição
da qualidade e procedimentos relativos à descarga e armazenamento
adequado.
Soibelman (ibid.) destaca em seu
trabalho a grande variação entre as perdas reais
de um insumo específico em diferentes empreendimentos e
a alternância de resultados entre os vários empreendimentos
para os diferentes materiais, pois algumas empresas eram mais
eficientes em algumas etapas e ineficientes em outras, concluindo
que deve existir um conjunto ótimo de procedimentos, os
quais se corretamente executados podem otimizar o aproveitamento
e reduzir substancialmente as perdas globais.
Em relação a custos,
Formoso et al. (1993) compararam dados desta pesquisa com os parâmetros
de orçamentação estabelecidos pela NBR 12721
(ABNT,
1992)(3)
para prédios padrão H12-3Q-Normal, concluindo que
as perdas dos materiais referidos, que representam aproximadamente
20% do custo total, haviam contribuído, até o encerramento
da pesquisa, para um aumento de 5 a 12% do custo orçado
das obras, podendo-se admitir, portanto, que o acréscimo
de custo dos empreendimentos, em decorrência das perdas,
deve variar entre um mínimo de 25 e um máximo de
60%.
A principal conclusão da
pesquisa, no entanto, foi a confirmação de que muitas
perdas de materiais são previsíveis e evitáveis,
sendo decorrentes principalmente da falta de preocupação
com as mesmas, pois sua magnitude não é sequer conhecida
pelas próprias empresas, devido à ausência
de métodos sistemáticos de levantamento e
contabilização.
A mudança de atitude dos envolvidos no processo construtivo
pode assumir, portanto, importância maior do que eventuais
inovações em tecnologia de construção
que objetivem a redução do consumo de materiais,
conforme Soibelman (ibid.)
2.5.2 A Exploração,
a Reprodução e a Produtividade da Mão de
Obra
Apesar da construção
civil desempenhar importante papel social, não só
como executora da estrutura básica para o desenvolvimento
do País, mas também por absorver grandes contingentes
de MO, funcionando como válvula para regular os problemas
de emprego e subemprego nas áreas urbanas, vários
são os fatores que contribuem para que apresente acentuados
problemas de produtividade. Para Mascaró (1982), os níveis
salariais são baixos (um dos menores da indústria),
não permitindo que o trabalhador sequer atenda de maneira
adequada suas necessidades primárias; as condições
de trabalho nos canteiros são precárias, em decorrência
não só das peculiaridades da atividade mas também
da total falta de planejamento das instalações;
as condições de segurança são ruins,
tornando a atividade uma das recordistas em acidentes; as condições
de higiene em geral são péssimas, assim como a assistência
alimentar e de saúde. Por outro lado, a rotatividade elevada
prejudica a formação de vínculo do trabalhador
com os objetivos e destinos da organização, contribui
para o hermetismo que ainda existe entre os diversos níveis
e especializações que coexistem na obra e oferece
pouca chance de crescimento.
Referindo-se à produtividade
da
MO(4),
Rosso (1974) compara dados de canteiros de obras dinamarqueses,
onde após uma série de providências visando
aperfeiçoar o processo, era esperada uma redução
de 22 hh/m2 para 5 hh/m2, enquanto no Brasil a produtividade média
é de 45 hh/m2, o que realça a imperiosa necessidade
de se revisar os métodos construtivos e aplicar instrumentos
eficazes de racionalização.
Já Picchi (ibid.) considera
que 45 hh/m2 é um número bastante otimista para
o Brasil, pois obtido através de orçamentos, admitindo
que na realidade o alto índice de retrabalho nos canteiros
de obras pode elevar este número para 70/80 hh/m2 em média.
Quanto a acidentes, Heineck et al.
(1984) consideram importante observar que a construção
civil atingiu em 1980 um índice de acidentes duas vezes
maior do que as demais atividades econômicas somadas, sendo
responsável por 22% das incidências, mesmo ocupando
apenas 11% do número de trabalhadores segurados na economia.
Silva (1987) associa a rotatividade
de pessoal às próprias características do
processo produtivo, do que decorrem implicações
como a inviabilização de um processo de treinamento
sistemático, a conseqüente impossibilidade de obter
ganhos integrais a partir do efeito aprendizagem, a dificuldade
para o estabelecimento de políticas de incentivos, motivação
e segurança do trabalho adequadas à manutenção
de índices de produtividade elevados e, por fim, a elevação
dos níveis de absenteísmo.
Porém, as empresas que buscam obter qualidade de seus produtos através da melhoria das condições e da organização do trabalho encontram obstáculos já a partir das primeiras ações, por faltarem dados confiáveis que permitam direcionar adequadamente suas iniciativas. Mesmo informações elementares e relativamente simples de registrar e controlar, como índices de absenteísmo, rotatividade e acidentes, que Campos (1992) considera como dados objetivos para aferir o nível de satisfação dos trabalhadores quanto à situação de trabalho, são praticamente inexistentes.
Conforme constatou Dalcul (1995),
as empresas de edificações em geral dispõe
somente de um setor de pessoal que, na maioria dos casos, limita-se
às atividades rotineiras de recrutar, contratar, registrar,
elaborar folhas de pagamento e rescisões de contrato, não
exercendo qualquer função relacionada à coleta
e análise de dados sociais que permitam estabelecer e implementar
planos e programas voltados à integração,
treinamento e desenvolvimento dos recursos humanos.
A pouca atenção aos
recursos humanos não é porém exclusividade
brasileira, pois segundo constataram Albanese et al. (1991), em
pesquisa realizada nos EUA sobre as práticas de administração
de RH nas empresas de construção, menos de um terço
das 783 empresas que responderam à enquete (62% das quais
de pequeno porte) dispunham de um Departamento de Recursos Humanos.
Analisando os resultados obtidos, Albanese et al. concluíram
que RH continua sendo uma função de apoio sub-utilizada,
simples mantenedora de registros, cuja contribuição
potencial à produtividade não é reconhecida,
razão pela qual recomendam que a construção
passe a identificar e adotar novas práticas para atrair,
treinar, desenvolver e recompensar, única forma de reter
pessoal qualificado.
Ao falar-se em Qualidade, Produtividade,
Competitividade, Código de Defesa do
Consumidor,
melhoria da qualidade de vida da população e principalmente
das condições e organização do trabalho,
constata-se que a construção de edificações
é uma das atividades mais carentes de atenção,
ainda mais que qualquer iniciativa de melhoria nela introduzida
será positiva não só para os empresários
e trabalhadores do subsetor, mas também para a população
em geral, que deseja melhor qualidade de vida e que será
beneficiada com habitações e prédios comerciais
e públicos, com custos e prazos de execução
menores, menos defeitos e maior durabilidade.
No entanto este processo é
lento e gradual, com ganhos pequenos que necessitam ser consolidados,
pois dependem de profunda mudança cultural de todos os
envolvidos. Burati Jr. et al. (1991), ao analisar resultados de
entrevistas sobre a Administração da Qualidade Total
(TQM) na indústria da construção, envolvendo
142 pessoas de 19 empresas americanas, concluiu que pode ser alcançada
uma melhora significativa na qualidade pelo uso do TQM, porém
esta demora cerca de 3 anos para apresentar resultados e ser aceita
por toda companhia. Além disto, a abordagem genérica
do TQM deve ser adaptada às necessidades específicas
da organização, não podendo também
ser implantada por um consultor externo, pois a participação
da administração é um ingrediente essencial.
2.6 A Construção
de Edificações no Brasil nas Décadas Recentes
A crise atualmente enfrentada pela
construção civil e particularmente pelo subsetor
edificações, decorrente do retraimento da participação
estatal tem causas estruturais próprias, algumas delas
intrínsecas ao subsetor em diversos países (Casassus-Monterol,
1989), outras, porém, decorrentes do modelo adotado no
Brasil nas últimas décadas.
Do lado do capital existem várias
justificativas para esta situação. Segundo Vargas
(1979), o capital promocional investido no subsetor sempre encontrou,
fora da esfera produtiva, a melhor maneira de se apropriar do
excedente econômico, não tendo assim necessidade
de imobilizar em máquinas e equipamentos ou melhoria do
processo de trabalho para aumentar a produtividade. Por outro
lado, o contingente de reserva e a desmobilização
e desorganização operária ofereceram condições
para que a estrutura
manufatureira(6)
da produção subsistisse e fosse mantida a alta taxa
de exploração da MO, sem preocupação
com a modernização, com a qualificação
dos operários e com a QVT.
Para Silva (1987), no entanto, a
estratégia de manutenção de custos fixos
no nível mínimo possível e o baixo compromisso
com a MO, se por um lado proporciona a necessária
flexibilidade
para enfrentar períodos de redução da utilização
da capacidade instalada, por outro pode também representar
um fator de entrave à competitividade, a partir do momento
em que a qualidade do produto assume cada vez maior importância
no conceito de competitividade e, em especial na construção
de edificações tradicional, intensivo em mão
de obra, a qualidade depende diretamente do engajamento do trabalhador
aos objetivos empresariais.
Reportando-se especificamente à
produtividade, Silva (ibid.) focaliza dois aspectos que deveriam
concentrar as ações que objetivem aumentar a produtividade:
a redução da descontinuidade de trabalho (redução
do grau de incerteza que o caracteriza, através do estabelecimento
de programas de execução de obras) e a qualificação
da MO. Em ambos os casos, o grau de controle das empresas inexistia
dada a forte atuação governamental tanto na alocação
de verbas para o subsetor quanto, condicionando a estas, na política
de emprego que privilegiava a manutenção dos processos
produtivos tradicionais, em detrimento do investimento em tecnologia.
2.6.1 As Ações
Governamentais
e o Sistema Financeiro
A
evolução do processo de construção
de edificações no Brasil passou por uma fase
de relativa estagnação nas últimas décadas,
que veio culminar na verdadeira corrida em busca do tempo perdido,
que tem-se observado nos últimos anos.
Durante o período de 20 anos
em que predominaram as ações do SFH, a busca de
melhoria no processo construtivo propriamente dito esteve relegada
a plano secundário, já que além da valorização
fundiária que garantia a rentabilidade dos capitais promocionais
da atividade, tornando desnecessária a preocupação
com o processo (Vargas, 1979), o acesso a fontes creditícias
que viabilizassem a execução e posterior venda dos
empreendimentos também contribuía para a despreocupação
com a necessidade de edificar com racionalidade e economia. Este
posicionamento foi favorecido pela atuação de sucessivos
governos, que, na qualidade de comprador, de normatizador, ou
mesmo de principal financiador das atividades do setor, não
exigiram e até mesmo desestimularam a modernização.
Para Ferreira (1976), o governo
pode atuar sobre a construção civil, ora como elemento
catalisador no processo de formação de recursos
humanos, ora como financiador de moradias para a população,
ora como demandante e comprador de obras, caracterizando-se assim
como um esteio básico para o setor. Esta forte participação
estatal, principalmente no período 1964/86, se por um lado
permitiu certo grau de industrialização das
edificações,
o que aconteceu na década de 70, por outro deixou-o exposto
a grandes flutuações em função das
freqüentes alterações na política habitacional
e de execução de obras públicas adotada pelos
governos.
Sobre esta posição
governamental que em parte justifica a relativa estagnação
do subsetor edificações, cabe citar Costa (1972),
que na condição de presidente do BNH, dizia que
a rápida urbanização que caracterizava a
dinâmica da evolução demográfica do
Brasil colocava em foco o problema da formulação
de uma política de emprego capaz de conciliar a necessidade
de criar ocupação para a População
Economicamente Ativa-PEA e a conveniência de ser mantida
a economia funcionando com produtividade ascendente, como meio
de se assegurar a melhoria dos padrões de vida e social.
O foco era, portanto, a geração ou manutenção
dos níveis de emprego, não a produção
de habitação.
Para Costa (ibid.) as ações
governamentais e empresariais deveriam voltar-se para a redução
dos níveis de desperdício e ineficiência nos
métodos tradicionais de construção, melhoria
do treinamento, estímulo à padronização
de materiais, melhoria na organização dos canteiros
e outras providências que reduzissem o custo da construção
e o preço dos imóveis, aspectos onde muito podia
ser realizado, sem necessidade de adoção de técnicas
mais modernas que aumentariam o coeficiente de capital, exigiriam
projetos de maior escala e dariam menos emprego.
Porém, ainda na década
de 70, este posicionamento estatal sofreu uma inflexão,
especialmente no que concerne à construção
de moradias, já que a execução de grandes
conjuntos habitacionais para a população de baixa
renda, incrementada no início da década, passou
a incorporar novos métodos de produção, voltados
para o aumento da produtividade do trabalho, segundo Farah (1988).
A segunda metade da década
de 70 configurou mais claramente esta ênfase à
modernização
do setor, tendo o BNH reorientado sua atuação para
o atendimento das camadas de menor poder aquisitivo, estimulando
a introdução de inovações que permitissem
a diminuição de prazos, a redução
de custos e a produção em escala, tendo o papel
da construção como absorvedora de MO deixado de
servir como argumento contrário à modernização
(Farah, ibid.). Esta orientação modernizante foi
viabilizada pela intervenção do Estado em alguns
dos principais obstáculos ao avanço do subsetor,
como a pressão exercida pela propriedade fundiária
e os lucros obtidos com a valorização das
terras,
a eliminação do custo de
comercialização
que ficou a cargo do poder público, assim como a garantia
maciça de recursos e de escala de produção
pelo Estado, que viabilizou investimentos em máquinas e
equipamentos por parte das empresas. As inovações,
segundo Farah (ibid.), concentraram-se, em sua maior parte, na
adoção de novos sistemas estruturais, item que não
podia ter seu custo reduzido pelo simples despojamento da edificação
como acontece com os acabamentos, alternativa adotada por algumas
empresas para baratear a habitação sem intervir
no processo produtivo e nas relações de
trabalho
conforme Maricato (1983).
Conforme Farah (ibid.), esta experiência
sofreu solução de continuidade no início
dos anos 80, com a retração do mercado de habitação
social via promoção estatal, dentro da crise generalizada
que se abateu sobre o País, que resultou no esvaziamento
dos recursos do SFH e obrigou o BNH a reorientar as atividades,
até sua extinção.
A redução drástica
da participação do governo, decorrente da falência
do SFH e da escassez de recursos públicos, se por um lado
deixou as empresas desprotegidas, por outro, forçou-as
à busca de alternativas que permitissem sua continuidade
e crescimento, através de novas estratégias mercadológicas
ou do aprimoramento tecnológico e organizacional, o que,
no enfoque da evolução do processo construtivo,
pode ser altamente salutar.
2.6.2 A Crise dos Anos
90 e as
Novas Estratégias
As dificuldades que atingiram o
Estado, provocando sua retração como promotor de
investimentos na construção, e que redundou na extinção
do BNH em 1986, provocou a crise do setor que ainda persiste,
o que serve para enfatizar, segundo Lopes (1983), a importância
do poder público na atividade. Para Blachere apud Lopes
(ibid.), o programa de construção de habitações
de um país deveria se fazer, essencialmente, a partir de
objetivos de longo prazo, sendo função da vontade
política de alojar decentemente a população,
da disponibilidade de recursos financeiros, do nível de
renda dos usuários e da capacidade técnica e produtiva
do subsetor.
Sob este enfoque não se afiguraria
promissora a situação das empresas de construção
de edificações no Brasil, pois mesmo que se admita
a existência de vontade política, não se pode
ignorar que a falta de recursos governamentais e o baixo nível
de renda da população constituem-se em fatores restritivos,
dadas as limitações técnicas e produtivas
do subsetor, que, pelos motivos expostos, manteve relativamente
elevado o custo das unidades.
Além da extinção
do BNH, também a presença das empresas de Construção
Pesada no mercado de Edificações, devido à
forte redução da capacidade de investimento do governo,
principal demandante de sua atividade básica, veio aumentar
a concorrência entre as empresas, reduzindo as margens de
resultados e por via de conseqüência, obrigando-as
à busca de eficiência na utilização
de recursos, de qualidade na edificação e de otimização
global da atividade construtiva propriamente dita, até
então relegada a plano inferior, conforme Cardoso (1993)
e Farah (1993).
Ainda mais, as transformações
aceleradas que vêm ocorrendo nos últimos anos como
a abertura do mercado nacional ao ingresso de produtos e capitais
estrangeiros e a maior conscientização e organização
da população em geral, e dos trabalhadores em particular,
estão estabelecendo novos parâmetros também
para o mercado imobiliário, conforme Souza e Merbekian
(1993).
Para Amorim (1995), a drástica
redução da participação do estado
como promotor ou financiador de edificações pela
falência do SFH, aliado à dificuldade de obtenção
e aos custos absurdamente altos dos empréstimos bancários
para produção, levaram as empresas a preferirem
executar as obras na medida das disponibilidades financeiras próprias
ou dos clientes, evitando o endividamento.
Em função disto as
empresas tradicionais do subsetor viram-se forçadas a concentrar
suas atividades num segmento restrito da população,
composto pelas classes de renda média e alta, as únicas
com condições de pagar a médio prazo uma
unidade habitacional ou comercial. Uma das conseqüências
desta opção, porém, é que nesta faixa
de clientes é grande a variabilidade, decorrente de novos
hábitos de consumo, sendo crescente a busca de diferenciação,
personalização e sofisticação de projetos
e produtos, bem como as exigências em termos de qualidade,
o que pressiona as diversas áreas da empresa, seja previamente,
para detectar as tendências do mercado, ou durante a
construção,
para administrar as sucessivas solicitações de
modificações
que vão ocorrendo.
O financiamento da atividade é
portanto o principal problema a resolver. Alguns poucos empreendedores
capitalizados, para evitar maiores riscos, adotam a alternativa
de executar a totalidade da obra com recursos próprios,
só comercializando-a no final, o que não só
lhes dá total controle sobre o projeto, o processo e o
produto, como também permite em princípio obter
um preço final mais elevado, considerando uma possível
sobrevalorização do imóvel pronto. Esta decisão,
porém, deixa a desejar, não só pela incerteza
quanto à venda posterior, dada a instabilidade do mercado,
a grande concorrência, a falta de financiamento, a carência
de recursos próprios dos clientes potenciais e o elevado
montante de capital necessário para executar o empreendimento,
como também porque, conforme Kallas (1987), estes investidores
por vezes não comparam a taxa de retorno obtida, com outras
oportunidades que o mercado oferece, razão pela qual podem
estar realizando investimentos pouco rentáveis.
Face às dificuldades de obtenção
de crédito com taxas adequadas, significativa parcela das
empresas do Rio Grande do Sul voltaram-se para a estratégia
legalmente permitida no subsetor, que consiste em vender o imóvel
na planta - antes mesmo de seu início - ou durante a fase
de execução, a preço de custo ou a preço
fechado, modalidades instituídas pela Lei 4.591 de 16/12/64,
que dispõe sobre o condomínio em edificações
e as incorporações imobiliárias.
Qualquer que seja a modalidade,
porém, a comercialização de imóveis
antes do início ou durante a fase de construção,
de maneira mais ou menos intensa, permite ao adquirente interferir
ativamente no processo construtivo, propondo alterações
que vão interferir na administração e no
andamento da obra.
2.6.3 O Aporte de Capitais
Determinando
o Ritmo da Construção
Qualquer que seja a alternativa
adotada, observa-se que o fluxo de ingresso de recursos financeiros
determina o ritmo, a partir de um prazo básico, decorrente
de fatores técnicos, até um prazo por vezes indefinido,
função da capacidade de aporte de recursos próprios
do construtor ou dos adquirentes das unidades, repetindo-se a
situação vigente na época do BNH onde o Cronograma
de Desembolsos também preponderava. Em função
desta necessidade de adaptação à disponibilidade
de recursos financeiros, resultam prazos de execução
por vezes alongados, que nem sempre correspondem aos ideais de
eficiência técnica, conforme Amorim (1995). O alongamento
dos prazos de entrada de recursos força a diminuição
da velocidade de execução do empreendimento como
um todo, pois mesmo que cada etapa seja executada num prazo adequado,
a descontinuidade entre elas acaba prejudicando o desempenho global,
com conseqüente perda de produtividade, agravando ainda mais
a elevada variabilidade nos tempos de execução das
tarefas, que oscilam em torno de 20% de acordo com Heineck (1989),
além do que, tanto a diminuição da velocidade
quanto a freqüente interrupção das atividades
podem afetar o ânimo e o interesse dos trabalhadores.
Com o acirramento da concorrência,
as conseqüentes restrições de mercado e a falta
de financiamentos, as empresas atualmente devem ajustar os cronogramas
de execução e de aporte de recursos à capacidade
de pagamento dos clientes potenciais, deixando de prevalecer a
minimização de tempos de execução
de projetos baseados nas técnicas de planejamento e controle
tipo
PERT-CPM(11),
que não consideram a limitação de aporte
de recursos (Birrel, 1980; Prates, 1990).
2.7 A Evolução
da
Gestão na Construção de Edificações
A evolução das formas
de gestão na construção de edificações
no Brasil em parte é similar à observada nos demais
setores industriais onde, segundo Rodrigues (1991), as empresas
precisam optar entre investir em prédios, tecnologia e
mecanização, constituintes do subsistema técnico
ou no aperfeiçoamento dos demais fatores produtivos, como
a organização do trabalho, a participação,
o envolvimento e mobilização dos trabalhadores,
que envolve o subsistema social. Quando o investimento em tecnologia
não se mostra favorável, pela carência de
recursos financeiros, ou é contra-indicado pela instabilidade
dos mercados, emerge como alternativa a organização
do trabalho e a busca da participação e envolvimento
dos trabalhadores.
Para resgatar o interesse do pessoal,
Bobroff (1989b) apresenta como alternativa a busca da polivalência
em substituição à competência limitada,
de maneira que o trabalhador possa exercer maior número
de tarefas ao longo da jornada, ampliando novamente o conteúdo
do trabalho. Nesta via, segundo Campagnac (1989), o saber técnico
não deve ficar circunscrito a um domínio particular
e ainda menos a um ofício, devendo integrar um campo mais
largo e uma visão ampla da execução, como
proposto no Enriquecimento do Trabalho de Frederick Herzberg a
ser comentado adiante.
A construção de
edificações
atuou até o final dos anos 80 no sentido oposto às
proposições de Bobroff (ibid.) e Campagnac (ibid.),
pois conforme Grandi (1988) e Lima (1987), a indústria
da construção vinha sofrendo um processo gradativo
de desqualificação profissional. O desenvolvimento
tecnológico ocorrido no subsetor contribui em parte para
esta perda de qualidade, já que as inovações
vêm embutidas nos materiais, simplificando as operações
a nível de processo produtivo, de maneira que a habilitação
profissional dá lugar à especialização
na realização de operações simplificadas,
como o montador-colocador que substitui o trabalho do carpinteiro
de cobertura descrito por Lima (ibid.).
Conforme Vargas apud Moura (1989)
o conceito de organização do trabalho, de planejamento
rigoroso das tarefas, originários dos princípios
tayloristas adotados pelo setor fabril no início do século,
já vem sendo por este abandonado e substituído por
técnicas de gerenciamento mais modernas, onde, ao invés
de cronometrar as diferentes fases do trabalho, busca-se a motivação
e envolvimento do operário, como forma de atingir os objetivos
pretendidos. No mesmo sentido Zarifian (1989) afirma que, no caso
das edificações, a obtenção de economias
de escala relativas se dará não pela tecnologia
de produção, mas pela estabilidade, responsabilidade,
autonomia, participação e grau de qualificação
do coletivo de canteiro, remobilizando e modificando a matriz
de atividades herdadas do modelo de ofício.
Dorfmann (ibid.) propõe o
reagrupamento dos vários serviços, instaurando uma
tendência de progressiva ampliação do domínio
dos trabalhadores sobre a totalidade dos processos construtivos,
como uma alternativa à sucessão de equipes de trabalho,
descontinuidade do ciclo produtivo e do ritmo de produção
decorrente. Todo o esforço seria concentrado, então,
no sentido de permitir que cada indivíduo passasse a enfeixar
em suas mãos parcela cada vez maior do processo construtivo,
permanecendo por maior prazo na obra e atenuando a descontinuidade
do ritmo de produção que decorre da constante mudança
de equipes.
Campinos-Dubernet (1983) considera
que na construção de edificações a
polivalência de parte do contingente de trabalhadores é
duplamente necessária e importante, pois proporciona
maximização
dos tempos de ocupação e, em decorrência,
redução dos tempos improdutivos. Como os processos
construtivos caracterizam-se pela grande variabilidade interna
da quantidade de trabalho necessário e exigências
de encadeamento maiores do que na indústria de montagem,
a polivalência contribuiria para reduzir as constantes
interrupções
das intervenções.
No mesmo sentido Vargas apud Moura
(ibid.) diz serem necessárias formas de gerenciamento mais
modernas que busquem o engajamento do trabalhador. As diretrizes
dessas novas idéias são a fixação
da MO (detentora do saber), a maior autonomia do trabalhador,
assim como a sua polivalência, o que possibilitaria a
eliminação
dos tempos improdutivos e das descontinuidades na produção,
contribuindo também para a redução da rotatividade,
pois quanto maior o número de habilidades do operário,
maior também poderia ser o seu tempo de permanência
no empreendimento.
Outro resultado positivo para as
empresas e para os trabalhadores seria obtido com a redução
dos índices de acidentes. Neste sentido o CIAT (1978) recomenda
ações sobre o meio organizacional e adoção
de um estilo de gestão mais participativo, em especial
sobre a organização do tempo, seu ritmo e conteúdo
e o grau de participação dos trabalhadores na
determinação
de sua tarefa e estruturação de seu grupo como forma
de reduzir os índices de acidentes de trabalho na construção
civil.
Apesar de novos métodos,
processos, tecnologias e materiais terem sido incorporados às
atividades produtivas no decorrer das últimas décadas,
acompanhando o rápido desenvolvimento tecnológico,
somente nos anos recentes, e mesmo assim de forma incipiente,
vêm sendo introduzidas mudanças nas formas de gerenciamento
dos recursos humanos. Na construção de edificações,
principalmente nas pequenas empresas, a situação
é ainda crítica pois o treinamento de pessoal é
deficiente, o seqüenciamento das atividades carece de melhor
planejamento, além de ser pouco solicitada e estimulada
a participação dos trabalhadores na programação
das tarefas, na melhoria das condições de trabalho,
na solução de conflitos e na melhoria das comunicações,
conforme Fruet e Formoso (1993).
Esta situação precária
pode ser justificada, nas pequenas empresas, não só
pela estrutura administrativa relativamente reduzida, com a conseqüente
falta de pessoal especializado para realizar estas funções,
mas também pela formação tecnicista dos engenheiros
civis, pouco preparados para o planejamento e a administração.
Este, porém, não é um problema exclusivo
do Brasil pois, segundo Hopkins (1987) constatou, é cada
vez maior o número de matrículas de engenheiros
em programas de MBA (Master Business Administration) nos Estados
Unidos, exatamente porque a formação destes profissionais,
voltada fortemente para conteúdos técnicos, não
lhes proporciona treinamento suficiente em planejamento administrativo.
Apesar destas dificuldades constata-se
que fatores como qualidade, produtividade, desperdício,
retrabalhos e prazos elevados de construção, que
resultam em elevação de custos e preços das
construções já vêm sendo enfrentados
com maior objetividade. Da racionalização de projetos,
planejamento das atividades, passando pela normalização
de materiais e chegando à reorganização administrativa,
treinamento e ações visando fixar a MO, vários
são os aspectos sobre os quais algumas empresas, mesmo
de pequeno porte, vêm envidando esforços no sentido
de entender como atuar (Formoso e Lima, 1994).
Deste conjunto de fatores que influem
na qualidade e produtividade da construção, o trabalhador
assume papel preponderante, até com mais ênfase do
que ocorre em outros setores, dadas as especificidades do mesmo,
sua pouca estruturação e a dificuldade da construção
tradicional em introduzir inovações tecnológicas
em máquinas e equipamentos nos canteiros de obra.
A forma artesanal do processo de
construção de edificações, no sentido
de que os materiais são preparados, dosados, aplicados
e conformados na obra, através de ferramentas manuais,
sem uso de equipamentos dotados de
autonomação,
aliado ao fato de que é inviável a supervisão
direta do trabalho de cada um - tanto pelo grande número
de subordinados a cada mestre-de-obra, quanto pela dispersão
dos mesmos no canteiro - faz com que a obtenção
da qualidade dependa não só do saber e habilidade,
mas principalmente da participação e envolvimento
do operário neste objetivo.
Segundo Toledo (1987) a obtenção
da qualidade é estreitamente vinculada à organização
do trabalho, apesar de muitas empresas o tratarem como um problema
técnico e outras como um problema de controle e intensificação
da inspeção, de treinamento e disciplina dos operários.
As empresas adeptas do primeiro enfoque, consideram que a satisfação
do trabalhador dá uma resposta mais eloqüente, razão
pela qual procuram formular programas de motivação
e incentivo e de mudanças nos esquemas de organização
do trabalho. Numa atividade com características manufatureiras,
onde há muita dependência do treinamento, habilidade
e interesse da mão de obra, segundo Toledo (ibid.),
Existe estreita correlação
entre os resultados da qualidade de
conformação(13)
obtidos na produção de uma empresa (tais como a
porcentagem de defeituosos, as necessidades de retrabalho, etc.)
e as características da organização do trabalho
que prevalecem na mesma (divisão do trabalho, ritmo de
trabalho, conteúdo das tarefas, autonomia, etc.). Ou seja,
as formas de organização do trabalho podem contribuir
ou obstaculizar a obtenção dos padrões de
qualidade esperados.
Com relação à
MO as necessidades estão portanto se redefinindo, pois
o novo contexto que pressiona as empresas exige do trabalhador
um novo tipo de desempenho, orientado para a qualidade do produto,
para uma maior produtividade e para a redução das
perdas de materiais, segundo Farah (1993), o que depende fundamentalmente
do grau de comprometimento do trabalhador com a organização.
Assim, ao mesmo tempo que é amplamente aceito que a construção
civil pode absorver MO não qualificada, constata-se que
a heterogeneidade da atividade apresenta uma grande variedade
de situações a serem resolvidas a cada momento,
o que sobrecarrega de responsabilidade este pessoal de escassa
formação, dificultando o domínio do processo
quanto ao planejamento, programação e controle,
conforme Silva (1986).
A estratégia de racionalização
identificada por Farah (1993) em algumas empresas inclui alterações
na organização do trabalho e na gestão da
MO, visando tanto a recapacitação e treinamento
dos trabalhadores para resgate de parte da qualificação
operária (cursos com conteúdos tradicionais, aplicação
de novos materiais, uso racional dos recursos, polivalência)
quanto o seu engajamento ao processo de mudança, mediante
a introdução de um estilo de gestão participativo,
que implica em redução de níveis hierárquicos
e abertura de canais de informação e discussão
com os trabalhadores, em substituição à linha
de comando tradicional. Esta estratégia inclui ainda políticas
de fixação da MO, de redução da
subcontratação,
melhoria nas condições de trabalho, nas questões
de higiene e segurança e na concessão de benefícios,
em contraposição à precariedade dominante
no subsetor, tendo por objetivo não só atrair os
trabalhadores, mas, principalmente, proporcionar a formação
de vínculo com a empresa.
2.8 A Qualidade e a
Produtividade
A primeira metade da década
de 90 caracterizou o efetivo ingresso do Brasil no mercado internacional,
seja pela eliminação das restrições
à importação, pela queda das taxas alfandegárias
e impostos de importação que inviabilizavam o ingresso
de produtos estrangeiros, pela queda de barreiras legais para
a atuação de empresas estrangeiras no mercado nacional
e, de forma mais abrangente, pela inserção no País
dos paradigmas de qualidade e produtividade, aos quais as empresas
nacionais terão que se submeter, não só para
fazer frente à concorrência de produtos oriundos
dos países desenvolvidos, mas, principalmente, para atender
às exigências crescentes de consumidores mais esclarecidos.
2.8.1 Os Programas
Governamentais
Em 1990 foi lançado o PBQP-Programa
Brasileiro da Qualidade e Produtividade (1990), com o objetivo
de estabelecer um conjunto ordenado de ações indutoras
da modernização industrial e tecnológica,
que viesse contribuir para a retomada do desenvolvimento econômico
e social, pois o governo brasileiro estava ciente de que apenas
a exposição à concorrência não
provocaria necessariamente o aumento da eficiência da indústria.
O PBQP tem então como objetivo estimular, direcionar e
dar suporte as iniciativas nas áreas de qualidade e produtividade,
com o objetivo de melhorar o padrão geral das empresas
brasileiras (Fleury e Humphrey, 1993), devendo ser focalizado
como uma nova filosofia de gestão empresarial que direcione
todos os segmentos da empresa, através de um compromisso
de dirigentes e empregados, em todas as fases do processo produtivo,
para a obtenção de produtos com desempenho, preço
e disponibilidade adequados e totalmente orientados para as
aspirações
do mercado.
Para Fleury e Humphrey (ibid.) as
firmas encorajadas a adotar novas práticas no que se refere
às relações comerciais, esquemas de produção,
treinamento, motivação e gestão dos recursos
humanos, devem estar suficientemente conscientes da extensão
das implicações e das dificuldades que poderão
surgir, sob pena dos novos sistemas produtivos entrarem em pane
e estas práticas caírem em descrédito.
Em julho/92 foi lançado o
Programa Estadual da Qualidade e Produtividade - Qualidade RS,
o qual, a par das iniciativas empreendidas a nível nacional
na área da qualidade, tem como objetivo modernizar as estruturas
organizacionais da economia gaúcha, tornando-as melhores
em qualidade e produtividade, alcançando assim suficiente
competitividade para a efetiva participação nos
mercados nacional e internacional.
2.8.2 O Programa de Qualidade
e Produtividade na Construção Civil-RS
A construção civil
do Rio Grande do Sul foi pioneira no lançamento de um programa
setorial, o Programa de Qualidade e Produtividade na Construção
Civil-PQPCC-RS (1992), o qual resultou dos esforços conjuntos
de entidades que congregam profissionais e empresas que atuam
no setor, com o objetivo de desenvolver uma nova cultura, criando
um ambiente empresarial receptivo ao novo contexto produtivo,
com vistas a atingir patamares elevados de competitividade.
Para o PQPCC-RS são várias
as causas de dificuldades que limitam o desenvolvimento saudável
das atividades da construção, desde a falta de
conscientização
para a qualidade e produtividade, o baixo grau de sistematização
das informações, a carência no desenvolvimento
e difusão de tecnologias, a deficiência da formação
e atualização profissional, a falta de normalização,
controle de qualidade e certificação dos materiais,
até a inexistência de sistemas de garantia da qualidade
em empresas de construção do RS (Schmitt et al.,
1992). A dificuldade na obtenção do produto final
desejado, os elevados níveis de desperdício de materiais
nos canteiros de obras, a baixa produtividade da MO empregada
e o padrão tecnológico inferior ao observado na
construção em outros países, são
conseqüência natural desta multiplicidade de problemas.
2.8.3 O Projeto Cooperativo
Desenvolvido
pelo NORIE/UFRGS
Dentro do PQPCC-RS foi firmado o
Projeto de Apoio Tecnológico e Gerencial a Empresas de
Construção Civil de Pequeno Porte, através
do qual o NORIE/UFRGS realizou uma série de atividades
para estabelecer um modelo para a gestão da qualidade e
produtividade em empresas de construção civil de
pequeno porte, reproduzindo experiência cooperativa de desenvolvimento
incremental da qualidade realizada pelo Norwegian Building Research
Institute da Noruega (Formoso e Lima, 1994).
A primeira etapa do projeto consistiu
na sensibilização e motivação dos
diretores e gerentes técnicos das empresas selecionadas
e treinamento sobre o uso e potencial das ferramentas da qualidade.
A participação dos empregados ocorreu inicialmente
através dos Comitês da
Qualidade
formados em cinco empresas do grupo, onde, à semelhança
do que ocorre com os Círculos de Controle da
Qualidade-CCQ,
as proposições iniciais foram concentradas em aspectos
relacionados com as condições de trabalho.
Paralelamente ao desenvolvimento
das atividades conjuntas, foram realizados vários estudos,
pesquisas e projetos de melhoria, relacionados com o escopo desta
tese, tais como:
- a pesquisa de Fruet e Formoso
(1993), sobre as dificuldades enfrentadas pelos gerentes técnicos,
envolvendo 45 empresas de pequeno porte;
- o levantamento efetuado por Soibelman (ibid.) que quantificou as perdas de alguns materiais específicos e diagnosticou suas causas principais;
- a pesquisa de Souza e Formoso (1993) que levantou as estratégias de produção e modernização adotadas por cinco construtoras nacionais de grande porte;
- o sistema de indicadores de qualidade e produtividade para a construção civil, desenvolvido por Lantelme, Oliveira e Formoso (1994) junto com as empresas do projeto;
- o projeto didático desenvolvido por Palácios (1994) juntamente com o pessoal do setor de suprimentos de 3 empresas do projeto;
- a pesquisa de Scardoelli (1995) que levantou as iniciativas de melhoria desenvolvidas pelas empresas de edificação na última década;
- a pesquisa de Villacreses (1994) que analisou as estratégias de subcontratação adotadas por uma amostra de 27 empresas de construção de pequeno porte, numa forma típica de parcerias.
- o estabelecimento de um modelo básico de documentação da qualidade para empresas de construção civil, desenvolvido por Boggio (1994);
- a medição de produtividade em canteiros de obras utilizando a técnica de amostragem do trabalho, realizado por Santos (1994);
- a elaboração e aplicação de um programa de treinamento realizado por Silva (1995) com 41 operários das empresas do projeto;
- a pesquisa sobre qualidade de
vida no trabalho (Lima e Heineck, 1994), aqui detalhada, realizada
em cinco empresas, sendo quatro integrantes do PQPCC, e que envolveu
um total de 176 trabalhadores.
2.9 Síntese conclusiva
Neste capítulo procurou-se
contextualizar o subsetor objeto da pesquisa, sem porém
entrar em detalhes numéricos já enfatizados por
uma série de autores e condensados por Picchi (1993) em
seu trabalho sobre sistemas de qualidade.
Verificou-se que o subsetor edificações
engloba um pequeno número de grandes empresas que absorvem
a maior parte do pessoal e que dispõe de estrutura administrativa
e técnica que lhes permite implementar isoladamente seus
programas de qualidade. De outra parte, para um grande número
de pequenas empresas, sem as mesmas condições organizacionais,
a alternativa seria o desenvolvimento de programas conjuntos,
baseado na troca de experiências.
Analisando a mobilidade das empresas
no setor, demonstra-se a vulnerabilidade das empresas de Edificações,
seja devido à pouca capitalização e tecnologia
requerida que facilita a entrada de concorrentes, às dificuldades
conjunturais que expõe a fragilidade das empresas, assim
como a permeabilidade do subsetor Edificações ao
ingresso de empresas de Construção Pesada, em geral
com maior porte e tecnologicamente mais evoluídas, que
passam a atuar em Edificações quando sua atividade
básica está em crise.
Foram apresentadas peculiaridades
do processo de construção de edificações
tradicional, constatando-se que a forma artesanal como o trabalho
se desenvolve, torna extremamente importante o engajamento dos
trabalhadores nas metas empresariais, para o que é indispensável
um nível adequado de satisfação de suas necessidades
e anseios.
Procurou-se, também, relacionar
o estigma de atraso que cerca a construção de
edificações,
principalmente nos aspectos relativos a desperdício de
materiais e forma de gestão dos recursos humanos, com as
próprias deficiências na organização
das empresas, com aspectos culturais arraigados e também
com a estrutura de ofícios que caracteriza o subsetor,
concluindo-se que as deficiências existentes, especialmente
as relacionadas com a gestão empresarial, não são
exclusivas do Brasil, ao contrário, são identificadas
também em países desenvolvidos.
Aborda-se a evolução
da construção de edificações nas décadas
recentes, basicamente a partir de 1964, início da atuação
do SFH e chegando aos anos 90, onde à quebra de paradigmas
e novas exigências dos consumidores e trabalhadores, soma-se
a crise do setor público que culminou com a falência
do Banco Nacional de Habitação, principal impulsionador
das atividades do subsetor durante 20 anos.
Verifica-se que face às novas
estratégias mercadológicas, de venda dos empreendimentos
na planta ou em construção, as empresas dependem
agora do aporte de recursos dos adquirentes, ficando à
mercê das exigências por eles apresentadas, o que
com freqüência provoca transtornos e descontinuidades
de trabalho, prejudicando o desempenho e acarretando perdas de
produtividade, o que afeta o interesse dos operários.
Analisa-se a evolução
da gestão na construção de edificações
e as proposições para a requalificação
do trabalhador através da polivalência e da adoção
de formas de gerenciamento mais modernas que busquem o engajamento
e a estabilidade da MO.
Procura-se demonstrar a necessidade
de participação e engajamento do trabalhador nos
objetivos de qualidade, principalmente em função
das características artesanais da atividade, extremamente
dependente da habilidade da MO e onde o porte e dimensões
do produto dificultam a adoção de procedimentos
mais rigorosos de controle.
Apresenta-se o lançamento
de programas oficiais de qualidade, a nível federal e estadual
e o programa setorial da construção civil do Rio
Grande do Sul, descrevendo-se de forma sucinta as atividades
desenvolvidas no âmbito do Projeto de Apoio Tecnológico
e Gerencial a Empresas de Construção realizado pelo
NORIE/UFRGS.