5.1 - A
Caracterização
das Empresas
As pesquisas foram realizadas nas
empresas abaixo caracterizadas, das quais as quatro primeiras
(A a D) estavam participando do Projeto de Apoio Tecnológico
e Gerencial a Empresas de Construção Civil de Pequeno
Porte, desenvolvido pelo NORIE/UFRGS e a última (Empresa
E) estava promovendo iniciativas visando à qualidade, porém
atuando isoladamente.
Empresa A: Tem sede própria
em Porto Alegre-RS, 9 anos de atividade, dedicada preferencialmente
a obras de incorporação, tendo construído
ou em execução 5.000 m2 no ano de 1991; por ocasião
da pesquisa tinha três incorporações em execução
em Porto Alegre, em vendas pelo regime de preço fechado
e uma obra de terceiros em construção em Santa Catarina;
trabalha basicamente com MO de terceiros, para o que dispõe
de um empreiteiro de MO exclusivo; tem porém empregados
próprios nas funções fundamentais (mestres-de-obra)
ou nas relacionadas com controles em geral e com a segurança
da obra (almoxarifes, apontadores e vigias).
Empresa B:
Tem
sede própria em Porto Alegre-RS, 36 anos de atividade,
dedicada somente a construção predial própria,
tendo construído ou em execução 16.000 m2
no ano de 1991; por ocasião da pesquisa tinha uma incorporação
comercial em execução em Porto Alegre, em vendas
pelo regime de preço fechado e estava iniciando a implantação
do canteiro de obras de um prédio residencial; trabalha
com MO própria e subempreitada, utilizando também
os serviços de locação de pessoal temporário;
seus empregados próprios ocupam funções consideradas
fundamentais, como mestres-de-obra, almoxarifes, apontadores,
operador de grua e vigias.
Empresa C:
Tem
sede própria em Porto Alegre-RS, 10 anos de atividade,
dedicada tanto a construção predial própria
(incorporações) como para terceiros (inclusive obras
públicas), tendo construído ou em construção
7.000 m2 no ano de 1991; por ocasião da pesquisa executava
três prédios em Porto Alegre, sendo dois comerciais
(contratada como empreiteira para execução da totalidade
dos serviços) e um público (contratada para executar
a preparação de formas, armaduras e concretagem
da estrutura); trabalha somente com MO de terceiros, através
de um empreiteiro, porém, para a execução
do prédio público, foi obrigada contratualmente
a admitir empregados próprios.
Empresa D:
Tem
sede própria e área de atuação em
cidade de porte médio do interior do Rio Grande do Sul,
10 anos de atividade, dedicada somente a incorporações,
tendo construído ou em construção 10.000
m2 no ano de 1991; por ocasião da pesquisa tinha três
prédios residenciais em execução, em vendas
pelo regime de preço fechado e estava iniciando a implantação
do canteiro de obras de um prédio comercial; instalou uma
fábrica de componentes junto a seu escritório, onde
são preparadas as formas, armaduras e kits hidráulicos
dos prédios que constrói, além dos painéis
para tapumes e galpões; trabalha basicamente com MO própria.
Empresa E:
Tem
sede própria em Florianópolis-SC, 26 anos de atividade,
dedicada tanto a construção de prédios próprios
como a obras públicas; por ocasião da pesquisa tinha
uma incorporação residencial em construção
na cidade, com 3.000 m2, em vendas pelo regime de preço
fechado e estava gestionando a obtenção de financiamento
para a construção de conjunto de prédios
populares; na época da pesquisa de campo trabalhava só
com MO própria.
5.2 As Variáveis de
Segmentação
da Amostra
5.2.1 A Segmentação
por Empresa e Profissão
A amostra foi constituída
de 176 trabalhadores (profissionais, serventes, mestres, contramestres,
almoxarifes e apontadores), em atividade nos onze canteiros de
obra e num almoxarifado das empresas caracterizadas. Os empreendimentos
encontravam-se em diferentes estágios de execução,
alguns nas fundações, outros nas fases de execução
de estruturas, de alvenarias ou de revestimentos e outros ainda
na fase de arremates finais.
De acordo com os dados da Tabela
5.1 verifica-se que do total de operários em atividade,
na média, 76% eram empregados próprios das empresas
da amostra e somente 24% de subempreiteiras, o que pode ser um
indicativo de que os empresários estão cientes de
que a obtenção da qualidade depende de uma maior
integração da MO. Neste sentido, Scardoelli (1995)
ao realizar levantamento em empresas de edificações
que estavam implantando melhorias, apurou a proporção
de 1/3 de pessoal de terceiros e 2/3 de pessoal próprio,
obtendo ainda informações dos empresários
de que o ideal seria 30 e 70% respectivamente, ou seja, nítida
predominância de pessoal próprio, com os subcontratados
executando as atividades mais especializadas, ou de duração
muito curta, que inviabilizam a manutenção de pessoal
efetivo. Esta proporção, inversa à constatada
na pesquisa de Villacreses (1994) com empresas de construção
de edificações em geral, indica que as empresas
que estão promovendo ações voltadas à
qualidade tendem a manter proporção significativamente
maior de empregados próprios.
Ressalte-se, desde já, com vistas aos resultados dos critérios e dimensões, que na empresa C o pessoal próprio havia sido admitido recentemente, com vistas exclusivamente à execução de uma obra pública, praticamente sem chances de continuidade de emprego e sem ter recebido informações sobre o programa de qualidade. Na empresa A, ao contrário, o pessoal de terceiros já trabalha há bastante tempo com o mesmo empreiteiro, o qual atende exclusivamente esta construtora, numa forma de parceria.
Participaram da seleção
da amostra todos os operários em atividade nas empresas,
quer fossem empregados próprios, de subempreiteiros ou
autônomos. Dos selecionados 60% eram profissionais, 27%
serventes, 8% mestres e contramestres e 5% apontadores e almoxarifes,
o que não corresponde à real proporção
das categorias, visto que procurou-se entrevistar todos os ocupantes
de cargo de supervisão e controle e somente uma amostra
dos profissionais e serventes, quando este contingente era muito
numeroso. Além disto, a empresa C, na obra pública,
participava somente com os serviços de carpinteiros e ferreiros,
o que pode ser considerado atípico na construção.
Esta participação maior de profissionais, pessoal
em geral mais experiente e quiçá mais crítico
à precariedade da situação de trabalho, pode
inclusive ter influenciado os resultados finais da pesquisa.
5.2.2 A
Caracterização
da Amostra
a) Idade
Do total de trabalhadores entrevistados
20% (35) tinha menos de 25 anos de idade, 14% (24) entre 25 e
30 anos, 17% (30) entre 30 e 35 anos, 19% (33) entre 35 e 40 anos
e 10% (18) em cada uma das demais faixas (40/45, 45/50 e acima
de 50 anos).
O desgaste do trabalhador decorrente
do esforço realizado no trabalho e a própria perda
de capacidade ou de características físicas importantes
para a atividade em função da idade, como força
muscular, agilidade, elasticidade, rapidez e mesmo a capacidade
de equilíbrio em locais elevados (Iida, 1990, Grandjean,
1983) fazem com que a idade média da população
seja relativamente baixa, no caso, 71% da amostra tinha menos
de 40 anos. Para uma faixa etária produtiva entre 20 e
55 anos, verifica-se, porém, que não há uma
concentração tão acentuada de pessoal mais
jovem, pois para 51% com até 35 anos, há 49% na
faixa de 36 anos em diante, a mediana se situando, portanto, próxima
dos 35 anos.
b) Tempo de serviço na
construção de edificações
A tabulação dos dados
da pesquisa indicou que 12% (21 operários) tinham até
2 anos de trabalho no subsetor, 17% (30) entre 2 e 5 anos, 15%
(26) entre 5 e 10 anos, 19% (34) entre 10 e 15 anos, 19% (34)
entre 15 e 20 anos e os restantes 18% (31 operários) tinham
mais de 20 anos de trabalho na construção. A análise
destes dados mostra que é relativamente elevado o nível
de experiência dos trabalhadores (a mediana situa-se acima
dos 11 anos de atividade no setor), pois 56% deles atuam em obras
a mais de 10 anos, contra somente 29% com menos de 5 anos de atividade.
c) Tempo de emprego
A tabulação dos dados
obtidos revela que 33% (58 operários) tinham até
3 meses de trabalho e um total de 49% (86) tinham até 6
meses de atividade na empresa. Dos demais trabalhadores, 12% tinham
entre 6 e 12 meses, 20% entre 1 e 2 anos, 12% entre 2 e 5 anos
e somente 7% (12) atuavam a mais de 5 anos na mesma empresa, sendo
que destes, 6 eram mestres-de-obra. Verifica-se que a mediana
situa-se próxima aos 6 meses de emprego, o que confirma
a grande rotatividade que caracteriza o subsetor.
Assim, apesar da maioria dos operários
atuar a mais de 10 anos na construção de edificações,
é baixo o percentual daqueles que conseguem se fixar numa
mesma empresa, em geral rodando de uma para outra, seja motivada
pelos trabalhadores, na busca constante de melhor salário,
ou por razões empresariais, como a não aprovação
no período de experiência, a descontinuidade das
obras ou das atividades relativas à profissão do
indivíduo.
d) Origem da mão de obra
A origem da MO apresentada na Tabela
5.2, mostra que enquanto em Porto Alegre a maior parcela dos trabalhadores
(97%) é originária do próprio estado, principalmente
do campo e cidades menores, o mesmo já não acontece
em Florianópolis, onde predominam operários oriundos
de outros estados. Na empresa D, situada em cidade de porte médio
do interior do RS, constata-se a predominância de trabalhadores
nativos, pois 88% são de origem local ou de pequenas cidades
próximas, com incidência reduzida de pessoal originário
do campo ou de outros estados. Ou seja, o Rio Grande do Sul, ao
contrário de Santa Catarina, caracteriza-se pela não
importação de MO.
Tabela 5.2 - Origem da
mão-de-obra
Em qualquer dos grupos, constata-se
que o pessoal da própria cidade é sempre minoria,
o que caracteriza a construção de edificações
como atividade absorvedora de mão de obra migrante, em
geral despreparada para exercer atividades na cidade.
e) Razões da migração
Conforme os dados da Tabela 5.3,
as razões principais da migração para Porto
Alegre foram a procura de emprego e de melhoria nas condições
de vida, caracterizando as dificuldades existentes no meio rural,
decorrentes principalmente da extinção dos minifúndios
e da mecanização da agricultura, que reduziram as
alternativas de trabalho. Por outro lado, tanto para Florianópolis
como para a cidade do interior do RS, constata-se que expressivo
percentual migrou ainda menor de idade, levado pela família.
f) Ocupação no
local de origem
Dentre aqueles que ao migrarem já
exerciam alguma atividade produtiva, a maior parcela, nos três
grupos considerados, trabalhava no campo, conforme os dados da
Tabela 5.4, o que caracteriza a ênfase dada pelos governos,
de usar a construção de edificações
como absorvedora da mão de obra que migra do campo em decorrência
da mecanização da agricultura, conforme Costa (1972).
g) Razões para ingresso
na construção
Se for considerado como positivo
para a construção o ingresso por gostar, trazido
por algum parente, ou pelo melhor salário, constata-se
que 70 operários (40% da amostra) enquadram-se nesta situação,
indicando que a construção de edificações
de certa forma exercia alguma atratividade na época em
que ingressaram no subsetor.
Em contrapartida, 106 operários
(60%) estão situados no outro segmento de resposta, que
pode ser considerada negativa, pois inclui ingresso por falta
de estudo ou pela facilidade de entrar e aprender sem necessidade
de estudar. Ou seja, para a maioria dos trabalhadores que ingressam,
o trabalho na construção de edificações
tradicional é pouco exigente, não só em termos
de escolaridade básica como de formação profissional
do indivíduo (esta formação se dá
'on the job' conforme Vargas, 1988), o que cria uma dificuldade
adicional na implantação da filosofia da qualidade,
que em geral não prescinde de formação fundamental
e treinamento abundante.
De certa maneira os baixos níveis
salariais e as precárias condições de trabalho
são impedimentos para o ingresso no subsetor de pessoal
com mais escolaridade, interesse, iniciativa e capacidade de
produção,
num círculo vicioso difícil de ser rompido.
h) Grau de instrução
A precariedade da formação
escolar dos trabalhadores em edificações, obtida
através de resposta direta dos entrevistados, é
mostrada na Tabela 5.6, onde se verifica que 51% dos operários
têm até o quarto ano e somente 13% completaram as
oito séries do primeiro grau.
Do total de entrevistados somente
2 (1,1%) estavam estudando (para concluir o segundo grau) e assim
mesmo, com o firme propósito de conseguir um trabalho melhor,
fora da construção, como fizeram questão
de ressaltar. Além disto, dos 9 que cursaram um ou mais
anos do 2o grau, 7 exercem atividades de controle (almoxarife
ou apontador) e 2 são serventes (os que ainda estudam).
Como alguns trabalhadores eventualmente
podem ter sonegado informações para não admitir
suas deficiências de escolaridade, pode-se admitir uma situação
ainda pior que a retratada.
i) Estado civil
Do total de trabalhadores entrevistados
74% (131) tinham família constituída, 19% (34) eram
solteiros, 5% (8) eram separados ou desquitados e 2% (3) eram
viúvos.
Dentre os casados, em 56% das situações
a atividade na construção civil era a única
fonte de rendimento da família, enquanto para os 44% restantes
haviam mais pessoas participando na composição
da renda familiar, seja a esposa ou filhos.
j) Prole
A Tabela 5.7 mostra que 69% dos
trabalhadores entrevistados têm até 2 filhos. Considerando
que a mediana da idade dos trabalhadores situa-se próxima
aos 35 anos, pode-se admitir a existência de algum tipo
de controle quanto ao número de filhos, pois somente 12%
dos trabalhadores os tinham em número relativamente elevado
(mais de 4 filhos). Se forem considerados somente os 142 trabalhadores
da pesquisa que tinham ou tiveram família constituída,
a média é de 2,52 filhos, porém, para a amostra
total (176 entrevistados) esta média cai para 2,03 filhos.
No entanto, considerando o cônjuge dos que têm família constituída, verifica-se que um total de 665 pessoas dependem total ou parcialmente da atividade dos 176 trabalhadores entrevistados, o que representa uma média de 3,78 pessoas por posto de trabalho, sem considerar o fato de alguns terem ainda a seu encargo o sustento de algum parente (mãe, pai ou irmãos).
l) Moradia
Sem entrar no mérito das características, tamanho da habitação e infra-estrutura existente, verifica-se pelos dados da Tabela 5.8 a nítida predominância de operários que moram em casa própria, em muitos casos construídas nas denominadas áreas verdes (terras públicas ocupadas a muitos anos).
O percentual geral de 70%, relativamente
elevado considerando os níveis salariais pagos pela construção
civil, pode ser devido à própria habilitação
profissional, já que o trabalhador detém os conhecimentos
básicos para, ao longo dos anos, nas horas disponíveis,
construir e ampliar sua moradia, auxiliado por familiares, colegas
e amigos.
Comparando-se as Tabelas 5.2 e 5.8
pode-se deduzir que Florianópolis, onde 78% dos operários
são originários de outras cidades ou estados, aparentemente
oferece melhores condições para o trabalhador obter
sua casa própria, o que contrasta com a cidade do interior
do RS onde o percentual de proprietários é menor
e, consequentemente, é maior o percentual de inquilinos.
m) Tempo de transporte diário
Os dados gerais da tabela 5.9 mostram
que a maioria dos trabalhadores (66%) dispende até 2 horas
com transporte diário nos dois sentidos, enquanto os 34%
restantes consomem um tempo ainda maior, reduzindo ainda mais
a disponibilidade diária para descanso, família
e lazer.
Porém, observando especificamente
a situação de Porto Alegre, constata-se que o tempo
dispendido pelos trabalhadores nesta cidade é significativamente
maior, visto que o contingente mais expressivo (55%) dispende
2 ou mais horas/dia com transporte. Em contrapartida, na cidade
do interior do RS, até pelo próprio porte desta,
a grande maioria dos trabalhadores dispende até uma hora
por dia com deslocamento, dispondo portanto de mais tempo para
a família e outras atividades.
n) Número de meios de
transporte diário
Assim como o tempo de deslocamento,
observa-se pela Tabela 5.10 que em Porto Alegre é expressivo
o percentual de trabalhadores que utiliza quatro ou mais meios
de transporte/dia, contrastando com a situação de
Florianópolis e da cidade do interior do RS onde nenhum
trabalhador utiliza mais de dois e, ao contrário, especialmente
nesta última, há expressivo contingente que não
utiliza qualquer meio de transporte coletivo.
5.3 As Iniciativas de Melhorias
5.3.1 A Resposta das Empresas
O Inventário de Melhorias (Anexo A) foi apresentado às cinco empresas para que cada uma assinalasse, individualmente, quais as que tinham ou estavam implementando. As respostas, consolidadas no Anexo A, revelam significativas diferenças entre as empresas, pois enquanto algumas agem com maior velocidade na implantação das melhorias em geral, outras destacam-se pela ênfase na introdução de determinados itens.
Comparando-se o número de
melhorias, sem entrar no mérito da qualidade, abrangência,
profundidade ou importância relativa de cada uma delas,
constata-se pela Tabela 5.11 que enquanto as empresas D e E, que
trabalham exclusivamente com pessoal próprio, introduziram
respectivamente 56 e 50% dos itens listados, a empresa C introduziu
somente 14% dos itens, ficando as demais nas posições
intermediárias.
Observa-se também que o aspecto
Segurança do trabalho foi um dos que mereceu maior atenção,
o que poderia ser indicativo de avanço na preocupação
dos empresários com a integridade física de seus
trabalhadores, não fosse pela constatação
de que a maioria dos ítens listados consiste de exigência
legal (EPIs certificados, sistema de primeiros socorros, bandejas
salva-vidas ou vedação de vãos).
Constata-se igualmente que enquanto as empresas A e D atuaram de forma mais homogênea, introduzindo modificações em praticamente todos os aspectos (de 29% a 70% dos ítens na empresa A e de 39 a 80% dos ítens na D), a empresa E concentrou-se fortemente em aspectos relacionados com a dignificação da MO (principalmente segurança do trabalho e mecanismos de participação) e comunicações, em detrimento dos demais.
5.3.2 A Verificação
do Pesquisador
a) Estímulos à
mão de obra.
A precariedade do ambiente de trabalho
nas obras em geral, o conformismo do próprio operário
com a situação, até por sua condição
pessoal de vida, de cultura e mesmo de moradia, faz com que qualquer
pequena melhoria nos aspectos que envolvem a situação
de trabalho seja considerada digna de citação pelas
empresas. Na realidade, porém, apesar de alguns progressos
constatados nas empresas da amostra, em comparação
com a generalidade do subsetor, cabe ressaltar que:
- os refeitórios não
foram construídos em locais limpos e arejados, pois alguns
situam-se próximos ao local de preparo de argamassas ou
a depósitos de materiais (empresa D), enquanto outros estão
em subsolos úmidos (empresas A e E), deixando a desejar
quanto à higiene e conforto, facilitando a proliferação
de insetos e de animais nocivos e desta forma pondo em risco a
própria saúde do trabalhador;
- na empresa E era fornecido café
da manhã, porém em horário estipulado pela
empresa (às 10h), o que desagradava a muitos operários
que preferiam tomá-lo no início da manhã,
dispondo-se até mesmo a trocá-lo pelo intervalo
de descanso; a empresa neste caso deixava de capitalizar integralmente
um benefício que estava concedendo, por não dispor-se
a ouvir os beneficiários diretos;
- a cesta básica (rancho)
era fornecida pelas empresas como forma de premiação
aos operários assíduos, ou seja, só quem
não tinha falta no período é que recebia
o benefício, o que impedia a empresa de beneficiar-se do
PAT-Programa de Alimentação do Trabalhador (1993)
que veda esta ou qualquer outra forma de condição
(Art.8o da Portaria 1.156 de 17/7/93); cabe observar
que outras empresas do próprio subsetor edificações
já concedem rancho sem estabelecer condições,
pois levam em conta a necessidade que o trabalhador tem de repor
suas energias e levar algum alimento adicional para a família;
- somente na obra da empresa B o
banheiro era mantido limpo, porém só havia dois
chuveiros quentes para 30 trabalhadores, os quais inclusive situavam-se
no mesmo ambiente da bacia sanitária, restringindo o uso
simultâneo dos utensílios, principalmente pelos operários
mais retraídos;
-
somente
na empresa D havia banheiro volante nos andares; nas demais os
banheiros situavam-se no pavimento térreo e, na obra pública
da empresa C, a 130m da escada de acesso ao prédio em
construção,
o que obrigava os operários a um deslocamento e perda de
tempo considerável para satisfazer suas necessidades;
-
a
empresa C dispunha de alojamento para os operários originários
de outras cidades, porém suas condições eram
deficientes, havendo até empregados afastados em decorrência
de acidente ocorrido no próprio alojamento;
- a proporção de chuveiros
elétricos era insuficiente, na melhor das hipóteses
de 1 para 15 operários e como o horário de trabalho
era único, muitos trabalhadores deixavam de banhar-se ao
final do expediente para não perder o ônibus, enquanto
outros antecipavam o banho para o horário do lanche da
tarde ou para o próprio horário de trabalho, procurando
resguardar-se nas horas restantes da jornada;
- somente a empresa E dispunha de
atividade de lazer para os operários distraírem-se
no intervalo de almoço e descanso (aparelho de televisão,
mesa de ping-pong, jogo de dominó); na empresa C as atividades
de lazer eram restritas ao horário noturno, para uso do
pessoal do interior que ocupava o alojamento;
- o transporte dos operários consistia, em todas as empresas da amostra, no simples fornecimento de Vale Transporte, mesmo quando a situação favorecia outro tipo de alternativa para reduzir o tempo de locomoção e conseqüente cansaço e desgaste dos trabalhadores, como era o caso da empresa B onde um grupo de trabalhadores composto de mestre-de-obra, contramestre e quatro empregados antigos, vizinhos e residentes num município próximo, utilizava 6 veículos ao longo do dia (3 em cada sentido), dispendendo em torno de 5 horas/dia com transporte;
- o auxílio farmácia
oferecido pela empresa D, consistia em convênio para fornecimento
de medicamentos cujo custo era descontado integralmente do operário
no final do mês; no entanto, por falta de acompanhamento
e controle, a farmácia conveniada praticava os preços
mais elevados da região, o que terminava por prejudicar
o trabalhador, anulando o benefício que a empresa pretendia
conceder;
- somente as empresas D e E dispunham
de sala de aula no canteiro instaladas nos próprios refeitórios;
enquanto a empresa D a utilizava para dar treinamento ao pessoal,
principalmente quanto ao aprendizado de novas habilitações
(polivalência), na empresa E a finalidade básica
era a realização de reuniões da Equipe de
Qualidade e Produtividade;
- em nenhuma das empresas havia
manual de recepção dos operários, os quais
ao ingressar iam direto para os locais de trabalho, sem receber
informações suficientes sequer sobre a obra; somente
nas empresas D e E os trabalhadores compareciam ao escritório
por ocasião da admissão, recebendo algumas informações
básicas sobre as normas de trabalho, direitos e deveres;
- nenhuma empresa efetuava entrevista
de demissão, fonte de informação considerável
para detectar problemas que envolvem a situação
de trabalho, por permitir obter informações sobre
as causas dos pedidos de demissão, sendo também
a forma adequada para prestar esclarecimentos a quem está
sendo demitido, o que contribui para reduzir a animosidade do
operário e prepará-lo para um futuro retorno, o
que ocorre com freqüência no subsetor.
b) Segurança no trabalho
Observou-se nas obras das empresas
pesquisadas a preocupação com a proteção
do prédio e seu entorno, com o isolamento do próprio
canteiro, com a colocação de telas de proteção,
com a execução de tapumes que vedem o acesso a pessoas
estranhas, com a execução de corrimãos nas
escadas, com o fechamento ou isolamento dos buracos das lajes
e caixa de elevadores, devido tanto à evolução
da consciência do meio empresarial, como à ação
mais incisiva da fiscalização e à
conscientização
dos operários quanto ao perigo a que estão expostos
se negligenciarem estes cuidados e também ao direito que
têm de pleitear um ambiente de trabalho mais seguro.
Constatou-se, porém, que
só existiam bandejas salva-vidas de fácil montagem
na empresa E, sendo esta também a única empresa
que realizava cursos motivacionais sobre segurança. Por
outro lado a empresa C atendia a legislação somente
nos aspectos mais elementares como o fornecimento de EPI (basicamente
luvas para ferreiros e capacetes), a manutenção
de caixa de medicamentos para primeiros socorros e a fixação
de cartazes sobre segurança;
Já a empresa B, ciente que em muitos casos os próprios trabalhadores rejeitam o uso de EPI, por negligência ou por considerá-los incômodos, oferecia um copo de leite a cada intervalo de lanche para todos que estivessem usando os equipamentos, o que além de contribuir para o cumprimento da legislação e conscientização do trabalhador, era também uma forma de proporcionar alimentação mais saudável ao pessoal; por esta última razão o benefício terminou se generalizando, independente do cumprimento da obrigação, dada a dificuldade de controle por parte da empresa;
c) Melhorias nas comunicações
internas
Apesar de fundamental para qualquer
atividade e mais ainda na construção de edificações,
por sua extrema variabilidade, pode-se considerar que o processo
de comunicações é precário na maior
parte das empresas. Apesar disto poucas ações foram
introduzidas visando melhorar o fluxo de informações
sobre os diferentes aspectos que interferem na situação
de trabalho e na correta execução das tarefas.
Somente nas empresas D e E havia
ramal telefônico no canteiro de obra; nas demais o engenheiro
responsável fazia a ligação da obra com o
escritório e eventualmente com os fornecedores; também
na maior parte das empresas não havia uma rotina definida
para o recrutamento, seleção e contratação
de trabalhadores, ficando a cargo de cada obra ou mestre definir
a forma e os requisitos necessários; somente a empresa
E usa o recurso da diagramação para assinalar a
quantidade exata de materiais em cada local e etapa, a identificação
do tipo de acabamento e altura de piso pronto, vãos das
aberturas e posição das instalações
em cada parede, meios de orientação que podem reduzir
substancialmente a incidência de erros na atividade diária
do operário.
d) Melhorias na organização
do canteiro
Verificou-se que a maior parte das
melhorias itemizadas relativas à organização
do canteiro havia sido introduzida em somente 40% das obras. Algumas
exceções são o uso do tapume como outdoor,
as caixas de distribuição de energia nos andares,
as prumadas de suprimento elétrico adotadas por quatro
empresas e a programação semanal dos serviços.
No entanto, em nenhuma delas havia túnel de entrada dos
clientes com segurança, uso de balança para conferir
as quantidades de materiais ou locais para separação
de lixo por tipo e natureza; até mesmo o controle de qualidade
de recebimento dos materiais era precário, apesar de assinalado
por quatro empresas. A substituição do mestre-de-obra
por técnico em edificação também inexistia,
seja pela tradição do subsetor ou pela escassez
destes profissionais.
Somente em duas empresas havia boxes
separados para agregados com piso cimentado, apesar desta melhoria
contribuir de forma decisiva para a redução de desperdício,
conforme Soibelman (1993). O mesmo acontecia com os instrumentos
para aferição da qualidade, pois na maior parte
dos casos não haviam procedimentos definidos e a verificação
era somente visual. Também as caixas para medida de agregados
e equipamentos de limpeza foram introduzidas nas obras somente
por duas das empresas.
e) Melhorias nos materiais
Os tijolos especiais com canaleta
para passagem dos dutos eram utilizados somente por uma empresa,
assim como a pré-fabricação de vergas, a
pré-pintura de portas e janelas, a montagem prévia
dos kits hidráulicos e a pré-classificação
dos tijolos.
Verificou-se, no entanto, que a
pré-montagem de formas e armaduras e a ferragem prévia
das aberturas já são práticas disseminadas
no subsetor, sendo implementadas por quatro empresas (80%) do
grupo pesquisado, apesar desta pré-fabricação,
em alguns casos, ocorrer no próprio canteiro de obra.
f) Melhorias em ferramentas
e máquinas especiais
A reduzida relação
de melhorias introduzidas pelas empresas pesquisadas, em termos
de inovação em máquinas e ferramentas especiais,
deixa transparente que as práticas de trabalho no subsetor
são ainda bastante artesanais, dependentes da habilidade
e perícia do trabalhador, confirmando sob este prisma ser
efetivamente um artesanato de luxo, conforme o denominou Vargas
(1983), no sentido de que, apesar de essencial à população,
continua a ser produzido de forma unitária e não
industrializada.
Pelas respostas das empresas, constata-se
ainda que mesmo estes pequenos avanços são introduzidos
e assimilados pelo subsetor com muita lentidão, seja porque
os operários têm uma sistemática de trabalho
arraigada, que passa de um para o outro durante o aprendizado
(Vargas, 1988) e que é difícil de ser mudada, seja
porque os engenheiros têm dificuldade em demonstrar as vantagens
da utilização de uma nova ferramenta ou modificação
do processo, até porque não o dominam inteiramente,
ou ainda porque a coletividade envolvida - empresa e trabalhadores
- não está suficientemente conscientizada dos benefícios
que poderão advir destas mudanças.
A verificação pelo
pesquisador das duas únicas melhorias assinaladas pelas
cinco empresas é ilustrativa desta situação
de atraso. Na empresa B a quantidade de réguas de alumínio
(ferramenta já bastante difundida e utilizada no subsetor)
era insuficiente, havendo apenas duas unidades para cinco pedreiros
de revestimento que trabalhavam em pavimentos diferentes, o que
ocasionava paradas, deslocamentos e esperas por um item que tem
boa durabilidade e cujo custo equivale a meio dia de trabalho
de um profissional. Numa obra da empresa C, onde haviam 46 carpinteiros
em atividade de preparação e montagem de formas,
a serra elétrica da central de formas ficou lacrada durante
três dias, por não dispor de coifa de proteção,
complemento obrigatório por lei.
Observou-se ainda que várias
das iniciativas relativas a ferramentas e máquinas eram
ainda pouco conhecidas (central de cortes, mão-francesa
projetada para fora da obra, requadros para marcar posição
de louças, escantilhão metálico, etc.), mesmo
por empresas participantes de programa de qualidade, em princípio
mais evoluídas e abertas à inovação,
o que demonstra a falta de divulgação das mesmas
pelos seus idealizadores, inventores ou fabricantes. Sob este
enfoque assume importância o levantamento efetuado por Scardoelli
(1995), cujo conteúdo foi divulgado pelo NORIE/UFRGS ainda
em 1994 (Scardoelli et al., 1994), visando exatamente disseminar
de forma mais rápida a utilização destas
melhorias.
g) Melhorias na movimentação
de materiais e transportes internos
As diferentes formas, estado físico,
volume e peso dos materiais utilizados na produção
de edificações fazem com que o planejamento racional
de sua movimentação e dos deslocamentos internos
seja vital, tanto para a produtividade, como para a segurança
dos materiais e pessoas envolvidas no empreendimento. A necessidade
de deslocamento vertical e, em muitos casos, a própria
topografia dos terrenos, exige não só a utilização
de equipamentos de transporte apropriados para aliviar a carga
humana, como a adoção de outros tipos de melhorias
que venham contribuir e facilitar a realização destas
atividades.
Da análise das respostas
das empresas à itemização constata-se porém
que mesmo melhorias relativamente simples e de baixo custo, como
portão de entrada com trilhos e roldanas para abertura
rápida, uso de recipientes plásticos para armazenagem
e transporte de pequenas conexões hidráulicas, uso
de carrinhos porta-pallets ou uso de masseiras adaptadas para
o transporte de argamassa, ainda são pouco utilizadas no
subsetor. O próprio pré-adensamento do solo e a
execução prévia de contrapisos, que contribuem
de maneira decisiva para facilitar o transporte, aumentar a produtividade,
reduzir acidentes e desperdícios de materiais (Soibelman,
ibid.), foram introduzidas por poucas empresas.
h) Melhorias na participação
da mão de obra
A importância da participação
da MO na programação, controle, levantamento, discussão
e análise de problemas já foi referida ao longo
do texto como fundamental para que os objetivos de qualidade sejam
alcançados.
No entanto, observa-se que mesmo
as empresas reconhecendo para efeito externo a necessidade de
envolver os trabalhadores no processo de melhoria, na prática
isto nem sempre ocorre, muitas vezes por deficiência do
próprio empresário, em geral engenheiro civil com
pouco preparo para desempenhar funções administrativas
(Hopkins, ibid.). As décadas de predomínio do distanciamento,
de um processo de comunicação autoritário,
num único sentido, a grande diferença de nível
cultural e a inibição daí decorrente, a própria
dificuldade do trabalhador em assimilar de imediato a forma participativa
de trabalhar, aliado à sua natural desconfiança
quanto aos reais objetivos, são fatores que contribuem
para dificultar ou até mesmo impedir este avanço.
Pela análise das respostas
à itemização apresentada verificou-se que
mesmo na empresa E, que assinalou a introdução em
seu canteiro de obra de praticamente todas as iniciativas relativas
à participação da MO, a situação
não era muito diferente da relatada:
- não havia estímulo
concreto à polivalência através de cursos
ou treinamento sistemático; o plano de cargos e salários
de acordo com a multifuncionalidade do operário, se havia,
não era praticado, haja vista a demissão de profissionais
que estava ocorrendo durante a semana das entrevistas exatamente
porque a empresa pretendia utilizar as várias habilitações
dos operários, mas não admitia pagar qualquer adicional;
- o quadro de presença e
astral dos operários não era atualizado diariamente,
por desconhecimento destes quanto aos objetivos, importância
e até de como utilizá-los;
- apesar de ter divulgado enfaticamente
a realização de programa de integração
para novos empregados, a empresa já havia desistido desta
inovação, justificando pela instabilidade da MO
e pela constatação de que muitos trabalhadores participavam
do programa, recebiam o salário correspondente e pouco
depois desligavam-se da empresa, elevando os custos financeiros
e administrativos.
A empresa C, única a citar
o envolvimento dos operários na discussão e definição
dos prêmios por tarefa, estava encontrando dificuldades
em administrar algumas situações conflitantes, seja
pela falta de hábito em atuar desta forma ou até
mesmo pela falta de indicadores da indústria da construção
que determinem a produtividade do profissional por tarefa, operação
ou atividade, em geral decorrente dos materiais e das características
do projeto, os quais têm grande variabilidade;
- tendo acordado um valor relativamente
elevado para uma tarefa, o que propiciou altos ganhos aos carpinteiros
nas primeiras semanas, estava encontrando dificuldade para justificar
e administrar o descontentamento subsequente, quando o ganho financeiro
dos operários se reduziu face à maior dificuldade
ou complexidade dos trabalhos;
- o mesmo acontecia entre os ferreiros,
neste caso porque só os que concluíam a montagem
das armaduras nas formas é que recebiam premiação,
enquanto a equipe de corte, dobra e pré-montagem recebia
salário fixo.
5.4 A Abordagem Subjetiva:
O Nível
de Satisfação dos Trabalhadores
Os dados obtidos através
da entrevista com os trabalhadores são analisados sob um
enfoque qualitativo, destacando as verbalizações
quanto à cada situação, assim como as sugestões
apresentadas. No entanto, para estabelecer um parâmetro
de comparação entre as diversas empresas, buscando
associar as iniciativas de melhorias implementadas, com o nível
de satisfação dos operários sobre a QVT,
foram calculadas as médias dos critérios e das respectivas
dimensões para cada uma das empresas, às quais procurou-se
associar a manifestação dos entrevistados, interpretando-as
face à bibliografia referida e literatura adicional sobre
o tema.
Os coeficientes de variação,
também calculados, permitem verificar o grau de dispersão
das respostas, ou seja, se o nível de satisfação
dos trabalhadores apresenta homogeneidade ou, ao contrário,
se existe muita discrepância.
Como a escala adotada varia de 0
(Total Insatisfação) a 5 (Total Satisfação),
o valor médio 2,50 representa uma posição
de neutralidade por parte do trabalhador para o critério
ou dimensão considerada.
Justifica-se o uso de média
para tratamento de escalas ordinais pelo fato desta medida de
tendência central permitir uma melhor interpretação
e comparação entre as várias empresas e acusar
qualquer alteração nos valores extremos, o que não
acontece tão nitidamente com a mediana, que seria a rigor
a medida mais correta. Neste sentido, Boyd et al. (1989) dizem
que
"Parece ser pequena a
perda na exatidão e existir ganhos apreciáveis na
interpretação se dados ordinais são tratados
como dados
intervalares."
Justificativa semelhante é
apresentada por Selltiz et al. (1974), para quem
"... embora poucas das
medidas usadas ultrapassem as escalas ordinais, provavelmente
existe pouco erro em aplicar-lhes estatísticas que, a rigor,
são adequadas para escalas de intervalo."
5.4.1 - O Nível
de Satisfação
Quanto aos Critérios
Considerando os valores apurados
na Tabela 5.12 e Gráfico 5.1 observa-se que globalmente
a empresa D (média 3,86 e CV 25%) é a melhor situada,
seguida das empresas E e A, nas quais não só as
médias são mais altas, como também os coeficientes
de variação são menores, indicando que o
nível de satisfação distribui-se de maneira
mais homogênea.
No outro extremo aparecem as empresas
B e C, as quais além de apresentarem médias relativamente
mais baixas, indicando menor grau de satisfação,
têm também os coeficientes de variação
mais elevados que indicam sensíveis divergências
de opiniões.
Pode-se a priori admitir que o maior
número de melhorias adotadas pelas empresas D, E e A, pode
ter repercutido direta e positivamente sobre o nível de
satisfação dos trabalhadores, conforme se verá
na abordagem de cada critério individualmente e nas suas
respectivas dimensões, corroboradas pelas verbalizações
dos trabalhadores.
Verifica-se também que além
do critério Compensação Justa e Adequada,
eventualmente mais difícil de ser atendido face aos aspectos
conjunturais e à alegada baixa produtividade dos operários,
existem outros sobre os quais as empresas podem atuar mais incisivamente
visando melhorar a QVT, os quais, ao contrário daquele,
não implicam diretamente em acréscimo de despesas
ou custos. É o caso de Chances de Crescimento e Segurança
Permanente (empresas A, B e C), Programação do Serviço
(empresa A), Constitucionalismo, Comunicações, Uso
e Desenvolvimento de Capacidade e Condições de Trabalho
(empresa C).
5.4.2 O Critério
Condições
de Trabalho
As médias do critério
Condições de Trabalho apresentados na Tabela 5.13
e Gráfico 5.2 indicam que nas empresas A, B, D e E os operários
percebem uma situação global mais satisfatória
do que na empresa C, traduzindo desta forma o resultado positivo
das melhorias introduzidas pelas primeiras.
Também aqui observa-se que
as empresas D e E, que apresentam médias mais elevadas
na maior parte das dimensões, têm igualmente coeficientes
de variação menores, o que indica maior homogeneidade
nas opiniões.
Analisando cada dimensão
do critério isoladamente, observa-se que mesmo a empresa
C apresenta situações bastante favoráveis,
como Qualidade dos materiais, da mesma forma que, no sentido oposto,
empresas globalmente melhor situadas deixam a desejar em alguns
aspectos, como as empresa A e B, com médias baixas para
Higiene das instalações de uso pessoal.
a) Higiene das instalações
de uso pessoal
Apesar dos operários de um
modo geral terem se mostrado satisfeitos com as melhorias introduzidas
pelas empresas, várias foram as manifestações
de inconformidade com detalhes que denotam na maioria dos casos
a falta de consistência ou de continuidade das medidas iniciais,
pois segundo eles:
- as instalações sanitárias
apesar de mais adequadas, continuam higienicamente precárias
pois não são conservadas limpas, seja por falta
de orientação e esclarecimento do pessoal ou de
designação de um responsável pela limpeza,
além do que são incompletas ou insuficientes em
número, em alguns casos por falta de detalhes ou cuidados
elementares e de baixo custo;
- a proporção de chuveiros
quentes é mínima, de tal forma que o operário
que quiser banhar-se terá que sujeitar-se a perder o ônibus
e atrasar-se; em algumas situações os chuveiros
estão juntos com a bacia sanitária, o que constrange
alguns operários quanto ao uso simultâneo destes
equipamentos;
- em outros casos há pouca
pressão da água ou mau dimensionamento da instalação
elétrica para os chuveiros, impedindo o uso concomitante
dos mesmos, o que termina por invalidar os esforços da
empresa para introduzir a melhoria;
- a localização das
instalações sanitárias em algumas obras é
inadequada, pois há casos em que o operário após
descer do prédio em construção tem que transitar
por aproximadamente 130m dentro do canteiro de obras, passando
por cima de materiais e por locais embarrados; nesta obra da empresa
C o vestiário e o alojamento estavam na outra extremidade
do terreno, distantes em torno de 200m dos sanitários e
chuveiros;
- os alojamentos da empresa C têm
dormitórios muito pequenos para o número de trabalhadores
que os utilizam (apesar das dimensões do terreno permitirem
construções maiores), com ventilação
escassa e beliches fracos e sem proteção lateral.
Apesar do reconhecimento de alguns
operários quanto à falta de cooperação
do próprio pessoal, verifica-se que entre as melhorias
introduzidas algumas careceram de um planejamento adequado ou
foram posteriormente negligenciadas, anulando ou reduzindo os
efeitos positivos sobre a higiene, saúde, hábitos
e moral dos trabalhadores, que as empresas pretendiam atingir
com a adoção das medidas. Desde a falta de uma ligação
plástica para a caixa de descarga e de um chuveiro elétrico
adicional (na empresa A); de uma separação física
entre sanitários e chuveiros (empresa B); ou entre refeitório
e local de preparação de materiais (empresa D),
várias são as providências adicionais de baixo
custo que poderiam ser adotadas, com resultados imediatos sobre
o moral e a satisfação dos empregados.
b) Limpeza, ordem e arrumação
De maneira geral os trabalhadores
demonstram satisfação com os aspectos relativos
a limpeza, organização e arrumação
dos canteiros. Verifica-se porém que esta manifestação
de satisfação decorre principalmente da longa convivência
que tiveram com obras mal planejadas, desorganizadas e cheias
de entulho, o que induz a atribuir grande valor às iniciativas
promovidas pelas empresas, mesmo que tímidas em alguns
casos.
c) Segurança individual
Os trabalhadores entrevistados manifestaram
insatisfação com vários aspectos relacionados
com a segurança individual, apesar de reconhecerem que
a situação em geral já está melhor,
quando comparada com a de alguns anos atrás:
- os cintos de segurança
colocados à disposição dos carpinteiros são
inadequados (empresa D), pois os mesmos ficam presos pela cintura,
arriscando-se a sofrer lesões sérias já que
estão sujeitos a trabalhar em alturas que podem chegar
a 9,00m, situação que acontece quando as bandejas
de proteção atendem estritamente à legislação.
A eficácia da proteção oferecida pelos EPIs
está longe de ser sempre evidente segundo afirma Wisner
(ibid.), ao abordar exatamente a segurança oferecida pelos
cintos, que em alguns casos se revelam mais perigosos que a própria
ausência do equipamento, até porque proporcionam
uma falsa segurança;
- a falta de protetor para o rosto
e mãos de quem opera a serra circular, causa freqüente
de acidentes na construção civil e que numa das
obras da empresa C provocou a interdição temporária
da serra pelos fiscais da Delegacia do Trabalho;
- a falta de luvas suficientes para
os ferreiros e pedreiros da empresa C que as consomem em grande
quantidade, dada a corrosividade e abrasividade dos materiais.
Contra o pensamento corrente de
que o trabalhador da construção é afoito,
destemido e despreocupado com sua integridade física, observou-se
na pesquisa que a consciência coletiva já está
mais desenvolvida quanto à necessidade e importância
do uso dos EPIs. No entanto, persiste entre os operários
queixas isoladas quanto à obrigatoriedade de uso permanente
destes equipamentos, principalmente porque sua qualidade em alguns
casos deixa a desejar, dificultando a movimentação
do operário e a própria realização
da tarefa. Não tendo sido acompanhados de um estudo ergonômico
adequado, por vezes os EPIs não são compatíveis
com o ritmo de trabalho exigido, colocando o trabalhador num dilema
entre exigências de produção de um lado e
recomendações de segurança de outro, conforme
Wisner (ibid.).
d) Segurança coletiva
Apesar das manifestações
de relativa satisfação quanto a esta dimensão,
ainda persistem queixas, concentradas nas bandejas salva-vidas
mal feitas, por vezes construídas com sobras de material
e que não acompanham a elevação dos andares,
o que põe em risco a integridade física principalmente
dos carpinteiros. Ressalte-se, porém, que as empresas cumpriam
a Norma Regulamentadora 18 da Portaria 3.214 (1991) que, ao tratar
sobre tapumes, galerias e plataformas de proteção,
exige basicamente a instalação de uma plataforma
a cada três pavimentos (aproximadamente 9,00m), visando
limitar a altura da queda e reduzir a possibilidade de danos pessoais
mais graves.
e) Esforço e desgaste
Na dimensão esforço
e desgaste foram captadas opiniões discrepantes (elevados
coeficientes de variação), principalmente nas empresas
B e C, as quais no entanto justificam-se face à diversidade
de características dos respondentes (idade, tipo físico,
tempo de serviço na construção, aspectos
nutricionais), ou ao tipo de trabalho que realizam.
Problemas na coluna por causa da
altura variável das paredes, pilhas de materiais, andaimes
e caixas de argamassa foram citados tanto pelos pedreiros (o que
vem ao encontro dos resultados da pesquisa realizada por Paniágua,
1995), quanto pelos carpinteiros e ferreiros, que com relativa
freqüência têm que trabalhar agachados.
A exposição às
intempéries foi também associada ao desgaste do
trabalhador, que tanto pode estar trabalhando com sol a pino numa
ocasião, como sujeito a frio, chuva e umidade em outra.
O fato de trabalhar ao ar livre, não confinado, citado
como vantagem e até mesmo como razão para gostar
da construção civil, tem porém este efeito
negativo de exposição às condições
climáticas nem sempre favoráveis. Neste sentido,
conforme Wisner (ibid.), as características do ambiente
físico podem não agir de maneira direta sobre a
atividade física ou de trabalho, mas tornam a situação
fatigante ou incômoda ao longo de sucessivas jornadas.
Para outros trabalhadores, que demonstraram
satisfação quanto à dimensão, uma
das vantagens da construção é exatamente
a de poder trabalhar com calma, sem afobação, para
agüentar o serviço pois "na construção
o trabalhador é que faz o ritmo e pode descansar
quando sente necessidade". Neste sentido a construção
de edificações é nitidamente diferente da
atividade fabril, onde o operador é controlado de perto
pelo supervisor ou por elementos externos, como a velocidade dos
equipamentos ou da linha de montagem, conforme Dejours (1992).
Aqui fica transparente a reconhecida
dependência da empresa de construção em relação
ao trabalhador, seja pela falta de domínio do trabalho,
de conhecimento de sua produtividade e ritmos operatórios
associados à grande variabilidade de situações,
como também pela dificuldade e custos associados a um controle
mais efetivo, o que vem enfatizar a importância do comprometimento
do trabalhador para que os objetivos empresariais sejam alcançados.
Neste sentido, apesar de admitir a existência de relação
entre a eficiência na construção e o grau
de controle no canteiro, Danladi e Horner (1981) consideram que
o custo marginal de maior controle pode ser maior que o resultado
econômico marginal da melhoria na eficiência, além
do que aumentos adicionais no controle podem resultar em excessiva
interferência no ciclo de trabalho e por conseguinte provocar
redução da própria eficiência que se
pretende melhorar.
Os mestres-de-obra manifestaram-se
quanto ao esforço mental que têm que fazer para distribuir,
explicar, controlar e acompanhar o trabalho da equipe, pois o
número de subordinados que têm que coordenar e dirigir
é bastante elevado quando comparado com a maioria das demais
atividades. Admitindo-se o número citado por Miranda (1978),
para o qual nos níveis inferiores cada chefia deve ter
em torno de sete subordinados, verifica-se que na construção
de edificações esta quantidade é facilmente
ultrapassada(1),
o que pode ser uma justificativa para a incidência de problemas
de qualidade, de baixa produtividade e mesmo de desmotivação
dos trabalhadores que têm dificuldade para esclarecer dúvidas,
além de não receberem a devida atenção
e feedback do seu superior.
O excesso de subordinados é
também agravado pela próprio porte do produto
edificação,
que obriga o mestre-de-obra a longos percursos e a constantes
subidas e descidas para distribuir e acompanhar o trabalho da
equipe, contrariamente ao que acontece no trabalho fabril ou administrativo
que ocorre em geral num espaço limitado e aberto, tendo
a chefia condições de acompanhar visualmente a atuação
dos subordinados, a partir de seu próprio posto de trabalho.
f) A Igualdade na Distribuição
de Tarefas
Existe alguma insatisfação
entre os trabalhadores pelas desigualdades que percebem na obra.
Para alguns entrevistados, os que fazem o serviço pesado
com mais rapidez, sempre recebem novos trabalhos cansativos, enquanto
para os incapazes ou negligentes sempre dão tarefas fáceis;
outros operários argumentam que aqueles que conhecem e
produzem mais sempre recebem os serviços mais difíceis,
pois o mestre-de-obra sabe que os outros não farão
direito.
O pensamento dominante é
de que quem realmente trabalha, sempre recebe mais serviço
para fazer, o que se para os tarefeiros é importante no
sentido de que podem realizar mais e ganhar mais, para os horistas
ao contrário, além de desgastante, é uma
situação de injustiça que deveria ser melhor
administrada por quem, segundo os próprios entrevistados,
tem a obrigação de enxergar o que está acontecendo
na obra. A falta de tempo ou de preparo do mestre-de-obra para
administrar estas situações são aspectos
que necessitam de solução, pois em geral eles tendem
a distribuir o trabalho para quem realmente o fará criando
menos problemas, justificando Tolovi Jr.(1994), para quem, "se
você quer que algo seja feito, peça a alguém
ocupado."
Tanto para um trabalhador mais comprometido
com a organização, quanto para aquele que tem uma
visão mais instrumental do trabalho, a manutenção
pela empresa de operários desinteressados gera um ambiente
de insatisfação que pode resultar na ruptura do
comprometimento com as metas organizacionais no caso dos primeiros
ou mesmo em afastamento dos melhores profissionais, no caso dos
demais. Se no trabalho em equipe o próprio coletivo de
trabalhadores pode assumir a incumbência de equalizar ou
contornar estas situações, no sistema hierárquico
tradicional esta é uma atribuição clara das
chefias.
Percebendo a dificuldade decorrente
da falta de afinidade entre as equipes, a empresa D minimizou
o problema utilizando somente operários próprios,
e adotando um sistema uniforme de remuneração comum
a todas as categorias, o que pode justificar a elevada média
(4,33) e baixo coeficiente de variação (16%) que
atingiu nesta dimensão.
g) A Disponibilidade de Materiais
A manifestação de
insatisfação dos trabalhadores concentra-se principalmente
na falta de programação do suprimento interno, pois
muitas vezes mesmo havendo material na obra, falta no local de
uso ou aplicação, o que tanto pode ser motivado
por atraso ou deficiência do servente, pela sobrecarga dos
equipamentos de preparação ou transporte, ou mesmo
por deficiência da programação dos serviços
e composição das equipes.
Para alguns trabalhadores, no entanto,
a falta de materiais só prejudica quem está por
empreitada ou quando o mestre-de-obra quer exigir prazo; caso
contrário, até é bom porque dá oportunidade
de descansar.
h) A Qualidade dos Materiais
Para os entrevistados a baixa qualidade
dos materiais é mais acentuada no início de uma
obra, pois em geral as empresas procuram aproveitar o que sobrou
da obra anterior, principalmente madeiramento para tapumes, vedações
e formas, o que além de provocar atraso na execução
destes serviços, também causa insatisfação
pela dificuldade de manuseio.
Apesar da falta de normalização
dos materiais, seja quanto à qualidade, composição
ou dimensões das peças e ainda das dificuldades
de preparação, corte ou aplicação,
a maioria dos trabalhadores considera esta realidade intrínseca
e natural na construção civil. Porém, quando
a empresa A começou a exigir melhor qualidade dos serviços,
alguns de seus profissionais alegaram exatamente a má qualidade
dos materiais que recebiam: num caso a falta de uniformidade dos
tijolos (até 25 mm de diferença na largura) e noutro
a má qualidade da madeira compensada para formas (descolavam
em seguida).
Confrontando estas verbalizações
com o nível de satisfação expresso pelas
médias obtidas, pode-se concluir que o material colocado
à disposição era considerado adequado para
executar o trabalho com padrão de qualidade habitual, porém,
para poder exigir melhor qualidade, as empresas deveriam adquirir
materiais com mais uniformidade e homogeneidade, oferecendo aos
operários condições adequadas para atingir
o novo padrão.
i) Acesso Rápido a Ferramentas
e Equipamentos
Os entrevistados em geral manifestaram-se
satisfeitos com a disponibilidade e o acesso às ferramentas
e máquinas fornecidas pelas empresas, apesar de insuficientes
em alguns casos, como as réguas de alumínio na empresa
B.
Na obra pública da empresa
C, organizada em cinco setores (planta baixa com formato em cruz),
com uma equipe de carpinteiro e outra de ferreiro para cada setor,
a insatisfação decorria do atendimento prioritário
da grua à equipe mais atrasada. A orientação
do operador da grua, visando atender ao interesse da empresa de
concretar todo o pavimento de uma só vez, vinha de encontro
ao sistema de premiação, o que os trabalhadores
percebiam como uma forma de limitar as chances de ganhos das equipes
mais rápidas e produtivas. Enquanto na opinião do
pessoal a empresa estava de alguma forma prejudicando-os deliberadamente,
o diretor imaginava que estes, na realidade, estavam encontrando
dificuldade para assimilar a redução de ganhos decorrente
da maior complexidade do trabalho.
j) As Inovações
em Métodos, Processos e Ferramentas
Os entrevistados em geral mostraram
satisfação quanto às inovações
introduzidas nos canteiros de obra, as quais vieram contribuir
para aliviar e facilitar a execução dos trabalhos,
tais como:
- a grua adotada pelas empresas
B e C porque possibilita o transporte dos materiais com grande
rapidez, colocando-os no local desejado do pavimento e com isto
aliviando o trabalho dos serventes responsáveis pelo suprimento;
- o carro para transporte de tijolos
adquirido pela empresa A, porque permite acomodar e transportar
com segurança grande quantidade de tijolos, sem necessidade
de esforço demasiado. Porém, como o carro não
passa nos vãos das portas, a quantidade de tijolos a ser
utilizada em cada parede devia ser adequadamente dimensionada
e transportada antes do início das alvenarias internas,
o que a empresa não fazia, gerando a necessidade de transporte
manual para completar o que faltasse ou retirar o excedente;
- a modulação das
estruturas, a pré-fabricação e modulação
dos painéis das formas e o sistema de escoramento adotado
pela empresa A foram comentadas favoravelmente por quase todos
os carpinteiros, pois o serviço rendia para a empresa e
também para eles, pois estavam ganhando mais. A empresa
neste caso introduziu a melhoria visando a rapidez do trabalho
e o aproveitamento dos materiais, mas permitiu que também
os trabalhadores extraíssem benefício da mesma,
o que facilitou sua aceitação pelo pessoal.
5.4.3 O Critério
Compensação
Justa e Adequada
Os trabalhadores manifestam relativa
neutralidade quanto à Compensação Justa e
Adequada, considerado o critério como um todo, conforme
mostra a Tabela 5.14 e o Gráfico 5.3, pois enquanto nas
empresas A, D e E os trabalhadores demonstram alguma satisfação,
nas empresas B e C, ao contrário, as médias caracterizam
pouca insatisfação.
Além disto, os elevados coeficientes
de variação encontrados nas empresas B e C demonstram
que as opiniões são bastante divergentes, existindo
trabalhadores muito insatisfeitos convivendo com outros muito
satisfeitos com este critério. Ao contrário, na
empresa D, que só trabalha com pessoal próprio e
adota uma sistemática única de remuneração,
os coeficientes de variação relativamente mais moderados
apontam para uma certa homogeneidade das opiniões.
Analisando-se isoladamente cada
uma das dimensões constata-se que Equilíbrio entre
Salário e Trabalho é o indicador que provoca maior
insatisfação em todas as empresas (principalmente
na B e C), decorrente dos níveis salariais em geral baixos.
a) Equilíbrio entre salário
e trabalho.
Para muitos profissionais e serventes
o salário é tão ruim que só estão
na construção porque não têm chance
noutra atividade devido à baixa escolaridade, pois o salário
é pouco para muito esforço e desgaste físico;
já os mestres-de-obra consideram que ganham muito pouco
pela responsabilidade que assumem.
"Os prazos de construção
são longos porque o salário é curto. Eles
pensam que estão economizando, mas uma obra como esta dava
para fazer com a metade do pessoal, sem atrasar, se eles estivessem
satisfeitos. O que tiram do trabalhador terminam perdendo porque
o operário trabalha descontente, produz pouco ou faz mal
feito." Ferreiro
da empresa B com 20 anos de profissão.
Algumas manifestações
de insatisfação focalizaram a questão da
isonomia salarial, aspecto legal que as empresas devem atender,
mas que os mais produtivos consideram injusto, sob o enfoque de
que quem produz mais deve ganhar melhor. Neste sentido, consideram
que o mestre-de-obra deveria ver quais os que realmente produzem
e procurar melhorar o salário destes operários.
No entanto, estas foram opiniões isoladas já que
em todas as empresas a dimensão equilíbrio salarial
interno foi a que apresentou resultado mais favorável dentre
as que compõe o critério.
O trabalhador não vê
também correspondência entre o baixo salário
que recebe na sua atividade e a importância e durabilidade
do produto que fabrica, pois
"Uns poucos operários
constróem um prédio em pouco tempo, ganhando uma
miséria, para várias famílias morarem o resto
da vida." Carpinteiro
da empresa A.
b) Equilíbrio salarial
com o mercado.
Na comparação com
o mercado de trabalho em geral, a maioria dos entrevistados levou
em conta seu nível de escolaridade para concluir que em
relação às atividades a que teriam acesso,
as condições salariais da construção
não estão muito defasadas, oscilando somente em
função do mês do reajuste salarial (na ocasião
da pesquisa, os níveis de inflação elevados
e as datas de reajuste de cada categoria provocavam diferenças
significativas conforme o mês considerado).
Alguns operários ao compararem
o esforço que realizam e o desgaste físico que sofrem,
com outras categorias de trabalhadores também pouco qualificados,
concluíram que a situação lhes é totalmente
desfavorável, pois tanto lixeiro, como gari ou cobrador
de ônibus percebem salários mais elevados, alguns
com condições de trabalho mais cômodas e menos
desgastantes. Um ferreiro da empresa B, com vinte anos de profissão,
comparou seu salário com o de sua filha que empacotava
mercadorias num supermercado, concluindo que a construção
civil está pagando muito pouco. Estas manifestações
vem ao encontro de Guiot (ibid.), sobre as diferentes funções
da remuneração, que pode ser considerada de acordo
com vários enfoques, não somente em termos de poder
de compra.
Os baixos salários pagos
fazem com que as empresas de construção sujeitem-se
a admitir indivíduos com pouco conhecimento da profissão
e que ainda acarretam problemas para o ambiente de trabalho, ao
contratar pessoas desinteressadas, que ingressam somente por falta
de outra alternativa de emprego.
"Pagando pouco qualquer
um entra, se passar na calçada e olhar para a obra eles
contratam porque precisam de mais gente, mas o pessoal não
trabalha porque não sabe nada, o salário é
pouco e alguns ainda vêm fazer arruaça."
Pedreiro
da empresa B.
c) Equidade externa dos benefícios.
A concessão de benefícios
adicionais é uma prática já disseminada por
vários setores de atividade, seja através de incentivos
fiscais concedidos pelo Governo (como o PAT e o Vale-Transporte),
ou eventualmente instituídos e assumidos espontaneamente
pelas empresas como forma indireta de complementação
salarial, evitando a incidência de encargos sociais. Apesar
de algum atraso em relação a outros setores ou até
a construtoras de grande porte, também as pequenas empresas
de edificações já vêm concedendo benefícios,
não só como forma de capacitar-se para atrair e
manter bons profissionais, mas também como forma de atender
algumas necessidades específicas do pessoal. Porém
a pouca experiência dos empresários nestas questões
e, na maior parte das empresas, a inexistência de uma área
ou departamento de recursos humanos (Albanese et al. 1991; Dalcul,
1995) com domínio e atribuições sobre o assunto,
conduz a situações em que por vezes o benefício
concedido, mesmo não atendendo de forma satisfatória
aos beneficiários diretos, continua sendo mantido indefinidamente.
Assim como não são feitas pesquisas para determinar
o que os empregados consideram prioritário, também
não são realizados levantamentos sistemáticos
para avaliar a adequação e qualidade dos benefícios
concedidos. Quando as reclamações surgem, em geral
a primeira reação do empresário é
lamentar a ingratidão do empregado ou mesmo cancelar o
benefício, sem procurar averiguar as causas da insatisfação.
Apesar da satisfação
nas empresas A, D e E, mesmo nestas existem queixas sobre vários
aspectos, as quais demonstram, principalmente, a falta de um canal
de comunicação entre administração
e trabalhadores, mesmo quando o objetivo é proporcionar
melhorias.
"O almoço num
dia chega às 11h e no outro dia à 1h da tarde; deveriam
substituir o almoço por rancho porque nem todos gostam
da mesma comida." Carpinteiro
da empresa A.
"O convênio-médico
é péssimo, pois só serve para controlar os
atestados dos empregados, enquanto a farmácia da empresa
é a mais cara da região."
Servente
da empresa D.
"O café devia
ser servido no início da manhã e não às
10h, pois fica muito perto do almoço."
Servente
da empresa E.
Tais manifestações
não invalidam os esforços que as empresas vêm
realizando para agregar melhorias, indicando, porém, que
é importante aprimorá-las, verificando as falhas
existentes e procurando determinar o que atende de maneira mais
satisfatória ao conjunto de trabalhadores. Mostram também
a multiplicidade de pontos de vista, conforme as necessidades,
anseios, interesses ou características de cada indivíduo
e, principalmente, a complexidade que existe no tratamento das
questões relacionadas com o ser humano, as quais exigem
redobrado preparo dos administradores.
O descaso com a avaliação
sistemática faz com que as empresas assumam encargos financeiros
e administrativos para conceder benefícios, sem contudo
atingir os objetivos pretendidos, deixando de auferir os resultados
esperados, na forma de trabalhadores mais satisfeitos, melhor
alimentados, mais aliviados dos problemas familiares e, como decorrência,
também mais produtivos.
d) Equilíbrio salarial
interno
Por vezes mais importante do que
o salário recebido e sua capacidade de compra, é
a relação deste salário com o percebido pelos
colegas e mesmo com os sinais de progresso do patrão, como
foi verbalizado por muitos operários:
"Algumas categorias deveriam
ganhar melhor porque têm mais responsabilidade e assumem
mais risco que outras."
Operador
de grua.
"Faço serviço
de profissional A mas ganho como profissional C porque não
tive chance de progredir."
Pedreiro
da empresa D.
"Todos pegam junto mas
só alguns recebem prêmios."
Ferreiro
da empresa C.
"O salário não
está adequado ao que cada um produz, pois o servente é
quem ganha menos, mas tem que atender a todos; devia ganhar quase
igual ao profissional."
Servente
da empresa B.
Destas manifestações
afloram diversas causas de insatisfação dos trabalhadores,
não estritamente dependente do valor absoluto de seu salário.
Se para quem elabora um plano de cargos e salários as diferentes
proporções são aparentemente lógicas
e normais, para quem os recebe podem ser inaceitáveis,
principalmente se estiver situado nos níveis inferiores
da escala, o que enfatiza mais uma vez a necessidade de uma
administração
preparada para resolver adequadamente estes conflitos.
Em alguns aspectos foge da alçada
do empresário a decisão sobre relações
entre salários, pois são determinados por acordos
entre sindicatos ou têm legislação específica.
Noutros casos porém, como a falta de um critério
objetivo para promoções, como aconteceu na empresa
D que instituiu a polivalência (com acréscimo de
remuneração), os operários percebem a existência
de arbitrariedade do mestre-de-obra e do próprio engenheiro
para decidir quem deveria ser promovido. Na empresa A a insatisfação
de um trabalhador mais antigo decorria da constatação
de que o patrão, antes também pobre, ostentava enriquecimento
pois mora numa mansão e troca de carro a cada seis
meses enquanto eu continuo andando de ônibus
e morando na mesma vila.
5.4.4 O Critério
Uso e
Desenvolvimento de Capacidades
Pelos resultados da Tabela 5.15
verifica-se que nas empresas A, D e E os operários percebem
com maior satisfação a possibilidade de uso e desenvolvimento
de capacidades.
Apesar da relativa satisfação
quanto ao critério, porém, verifica-se que a falta
de feedback caracteriza a maioria das empresas, pois em quatro
delas (B, C, D e E) esta dimensão é considerada
a menos favorável, com médias entre 2,50 e 2,90
e coeficientes de variação elevados, que indicam
grande discrepância nas opiniões.
Tabela 5.15 - O Uso e Desenvolvimento
de Capacidades
O Gráfico 5.4 permite uma
melhor visualização da posição das
empresas relativamente às dimensões do critério,
destacando-se a empresa C que apresentou os piores indicadores,
em função não só da forma como o trabalho
estava sendo executado, como também do tamanho das equipes
e do grande distanciamento observado entre os operários
e a administração.
a) Autonomia e autocontrole
A análise das respostas obtidas
mostra que o longo período em que o operário da
construção civil teve que se submeter a padrões
de comando extremamente autoritários, sem autonomia mesmo
para as pequenas decisões, deixou seqüelas, caracterizadas
pela apatia e relativo desinteresse da maioria em ter autocontrole
sobre seu trabalho.
Apesar disto alguns trabalhadores
anseiam por esta possibilidade, pois percebem que não só
rendem mais quando podem decidir e resolver os problemas que vão
surgindo, como principalmente se consideram mais valorizados,
mais independentes para realizar o serviço, interpretando
esta autonomia como uma demonstração de confiança
do patrão na sua conduta e capacidade. Já o enfoque
de outro grupo é de que o mestre-de-obra fica muito distante,
pois os prédios são muito grandes e eles têm
muitos subordinados e problemas para atender, motivos pelos quais
é bom quando o trabalhador pode ir resolvendo os problemas
e dificuldades que vão aparecendo.
Para os mais cépticos, dependentes
ou inseguros, porém, esta autonomia só funciona
com bons profissionais, com aqueles que estão realmente
interessados, pois para a maioria ainda é necessário
que o mestre-de-obra tome todas as decisões e apresente
solução para cada problema que surge.
b) Polivalência e variedade
do trabalho
Também a dimensão
polivalência e variedade de trabalho encontra respostas
antagônicas dos operários, justificadas em parte
pelas características individuais, mas decorrente também
da maneira como se processa a construção de edificações
e das várias formas de remuneração adotadas
pelas empresas.
Os trabalhadores favoráveis à polivalência, consideram que é bom saber mais, pois assim surgem mais oportunidades de trabalho, além do que o operário pode permanecer mais tempo no mesmo emprego, sugerindo mesmo que as empresas deveriam treinar mais, dar mais ofícios para o operário, para não precisar demitir tanto. Outros ainda vêm a polivalência como uma possibilidade de variar bastante de trabalho no canteiro, diminuindo a monotonia.
No entanto existem aqueles que preferem se especializar num único ofício, pois assim conseguem produzir mais, ter mais velocidade e também ganhar mais quando estão por tarefa ou há premiação por etapa. Outro grupo manifestou-se contrário à polivalência por gostar da profissão escolhida e não querer mudar, assumindo importância a questão relativa à identidade profissional, da qual não pretendem abdicar.
O posicionamento restritivo à
polivalência é justificado por Wisner (ibid.), ao
considerar que o tempo e a dificuldade de aprendizagem são
difíceis de estimar porque dependem de uma série
de fatores, sobretudo quando se trata de um operário pouco
qualificado. Para Dejours (ibid.), o medo aumenta com a ignorância,
razão pela qual o trabalhador submetido à polivalência
aumenta a tensão nervosa, pois mesmo conhecendo muitos
detalhes do novo ofício, acumula ainda zonas de ignorância,
razão pela qual tende a conformar-se com a divisão
do trabalho, que reduz as responsabilidades e as variáveis
desconhecidas, ainda mais que, ao tornar-se polivalente, acaba
descobrindo que as outras funções são tão
incertas e inseguras como a sua.
c) Programação parcial da atividade
Parte dos trabalhadores admite que
o mestre é que deve mandar, pois ele ganha exatamente para
isto. Segundo estas manifestações os operários
não sabem nem por onde começar um serviço
e não teriam condições de assumir a programação.
Já para os trabalhadores mais independentes, maduros e propensos a assumir desafios, quem vai fazer é que sabe a feição, o jeito melhor e deveria poder programar o serviço, decidir qual a melhor maneira de fazer e por onde começar. Estas manifestações vem ao encontro da realidade de muitos operários (profissionais e mesmo serventes), que assumem a execução individual de pequenas obras ou serviços e conseguem levá-las a bom termo, sem necessitar de engenheiro ou mestre-de-obra para dirigi-los.
d) Complexidade das tarefas
O regime de trabalho em que se encontram
(contratado, autônomo, tarefeiro) e a forma de remuneração
adotada pela empresa foram fatores preponderantes na resposta
dos trabalhadores a esta dimensão.
Quando estão por tarefa,
a preferência manifestada é por trabalhos mais simples,
que permitam obter mais produção e consequentemente
proporcionem uma maior remuneração. No entanto,
quando estão no regime de salário fixo (por hora
ou semana), muitos preferem um trabalho mais complexo,
" ... mais complicado,
para forçar a cabeça, aprender mais e esquecer os
problemas lá de fora."
Carpinteiro da empresa A.
Para os mestres-de-obra a atividade
diária já é na sua totalidade bastante complexa,
envolvendo a parte técnica, o conhecimento profundo da
obra, e também a parte humana, o tratamento das pessoas,
o saber fazer com que as pessoas atuem a favor dos objetivos organizacionais.
"Tem que conhecer tudo de obra e ter um temperamento todo especial. Deve ser duro com uns mas leve com outros, pois alguns gostam de tratamento duro, outros não. A especialidade do mestre-de-obra está em saber tratar cada trabalhador do jeito que ele prefere." Mestre-de-obra da empresa C com 70 anos de idade e 30 de profissão.
Esta verbalização
vem ao encontro do que afirmam Hersey e Blanchard (ibid.), para
quem a atividade de supervisão de primeiro nível
exige habilidade técnica e bom domínio dos serviços
realizados pelos subordinados, além de uma bem desenvolvida
capacidade e discernimento para lidar com as pessoas, conforme
o nível de maturidade de cada uma delas.
e) Apoio do superior imediato
Os trabalhadores admitem que, quando
percebem que têm autonomia e tomam decisões para
resolver os pequenos problemas que surgem, em geral o mestre-de-obra
apoia e concorda com o que fizeram. A própria delegação
proporcionada pelo mestre para a solução de alguns
problemas já é interpretada como um sinal de confiança
no operário.
Porém, para alguns, raramente
existe esta liberdade pois a chefia tende a querer decidir tudo
para não perder o controle e o poder de decisão,
o que pode se constituir numa das principais barreiras ao desenvolvimento
de programas participativos, pois os escalões intermediários
tendem a oferecer resistência pela perda de sua autoridade
e domínio sobre a obra e a equipe.
f) Retroinformação/feedback
Na análise das respostas
obtidas na entrevista observa-se nitidamente que a falta de
Retroinformação
é reconhecida não só como uma das causas
principais da perpetuação de problemas e falhas,
mas sobretudo do desinteresse e desestímulo dos trabalhadores
para a realização de um bom trabalho, já
que normalmente não vêm qualquer manifestação
de reconhecimento pelo esforço e dedicação.
"Saber como a gente está
indo é importante mas falta na obra, pois o operário
nunca sabe se está agradando e fica muito inseguro no emprego;
a firma deveria usar de franqueza, pois assim a gente podia se
corrigir." Apontador
da empresa A em final de contrato de experiência.
"Para o trabalhador o elogio é tão importante quanto o salário e já que ele ganha pouco pelo menos deveriam incentivar mais, pois dá muito mais disposição para vir trabalhar." Pedreiro da empresa B.
"Assim como reclamam
do trabalho mal feito, deveriam também reconhecer quando
o serviço está bem feito, pois o sujeito fica mais
entusiasmado e também dá mais responsabilidade para
continuar fazendo certo."
Pedreiro da empresa E.
Apesar da construção
de edificações caracterizar-se pela elevada rotatividade
da MO, para muitos operários sempre há a expectativa
de firmar-se numa empresa, ter alguma estabilidade de emprego,
o que lhe dará tranqüilidade para, mesmo com os baixos
salários, administrar melhor a situação familiar
e o que é mais importante, considerar-se como cidadão
que pode assumir um compromisso ou fazer uma compra a crédito.
Em geral a retroinformação existe só na hora da crítica (feedback negativo), sem explorar seu potencial como estimulador da atividade profissional ou mesmo pessoal. Mesmo neste caso, deixa normalmente de ser aproveitada como fonte de ensinamento, pois a crítica não vem seguida de orientação adequada, que permitiria ao trabalhador corrigir-se na oportunidade seguinte.
"Só tem avaliação
no final do semestre, na época da promoção,
antes ninguém diz nada. Se falassem, pelo menos ajudariam
a corrigir as falhas e resolver os problemas que acontecem todos
os dias." Carpinteiro
da empresa E.
Observa-se que as empresas em geral
ignoram o potencial do feedback imediato, seja para a correção
de falhas, evitando que os erros se perpetuem, seja como fonte
de estímulo para que uma atuação positiva
tenha continuidade.
"O mestre-de-obra não
elogia para não arrumar concorrente pois o elogio levanta
o moral do operário, o que pode ser ruim para o mestre;
ele evita até que o operário chegue perto do engenheiro,
mostre serviço e faça sombra para ele."
Ferreiro
da empresa C.
Esta verbalização
caracteriza não só a disputa de interesses existente
nas obras, afinal um mestre-de-obra percebe de duas a quatro vezes
o salário de um profissional, mas também o receio
do mestre em perder poder, autoridade e importância na hierarquia.
Revela ainda o escasso preparo das chefias em geral para tratar
com os subordinados e utilizar os meios e instrumentos de que
dispõe para que estes produzam de acordo com os objetivos
organizacionais.
"Se o trabalhador
for elogiado, se larga, entorta; tem que apertar cada vez mais
para o pessoal continuar produzindo, senão ficam
folgados."
Mestre-de-obra da empresa C com 30 anos de profissão.
Constata-se que a retroinformação,
mesmo reconhecida como fator importante não só para
a correção de falhas, mas também por contribuir
para o aprimoramento contínuo, funcionando como fonte de
estímulo e motivação do trabalhador, raramente
está presente na situação de trabalho, apesar
de não representar qualquer custo para a empresa, exceto
o de preparar suas chefias adequadamente.
5.4.5 O Critério
Chances
de Crescimento e Segurança Permanente
Este critério apresenta as
empresas D e E como as melhores situadas, conforme a Tabela 5.16,
enquanto a C permanece na posição oposta, o que
pode ser relacionado com as escassas iniciativas de melhorias
adotadas.
Segundo os operários das
empresas A, B e C, em cada uma delas há pelo menos uma
dimensão desfavorável. O fato das empresas D e E
atingirem uma média elevada para o critério como
um todo, com grande homogeneidade em todas as dimensões
(principalmente na empresa D), indica que a amplitude das melhorias
relativas à política de pessoal está atingindo
os objetivos pretendidos.
a) Garantia de emprego
A instabilidade do emprego e a alta
rotatividade do subsetor que caracteriza as décadas recentes,
permite que as empresas mantenham alto grau de flexibilidade em
termos de recursos humanos, situação que os demais
setores estão agora procurando atingir, seja sob a forma
e denominação tradicional de subcontratação,
seja modernamente através de terceirização
e parcerias.
Esta flexibilidade que as empresas
mantêm e que lhes permite enfrentar com maior segurança
as oscilações do mercado, adaptando-se e retraindo-se
conforme a conjuntura, tem seu lado ruim pelas sensíveis
diferenças em termos salariais, pelo tipo e característica
do trabalho que cada grupo executa, pela falta de coesão
do pessoal e de comprometimento com as metas da organização,
assim como pela insegurança do trabalhador que atua nestas
condições.
A terceirização praticada
nos demais setores de atividade está voltada, na maioria
dos casos e de acordo com a própria definição
do termo, para as atividades-meio das empresas (p.ex. serviços
de vigilância, zeladoria, recepção, digitação),
em geral com pouca repercussão nos seus objetivos finais
e composta por pessoas com níveis salariais inferiores,
apesar da contribuição que cada um dá aos
objetivos empresariais (cria-se uma subclasse, com salários
mais baixos e nenhuma garantia de emprego). Na construção
de edificações ao contrário, a prática
da subcontratação envolve a própria atividade-fim,
porém, nenhum dos grupos tem qualquer segurança
de emprego, pois a rotatividade é uma constante.
"Na construção
nunca tem garantia, é um drama porque dorme empregado e
acorda desempregado; o trabalhador nesta situação
não pode assumir compromisso como todo mundo, nem mesmo
fazer uma prestação para comprar um presente para
o filho." Pedreiro
da empresa B.
A certeza de continuidade de emprego
assume importância não só em épocas
de crise, pois é fator de tranqüilidade para o trabalhador,
do qual depende o seu sustento e o de sua família. Se a
empresa usa a rotatividade como política de gestão
de pessoal, para precaver-se contra as incertezas - como ainda
ocorre mesmo nas empresas participantes de programas de qualidade
(Tabela 5.17) - naturalmente não poderá pretender
dedicação e comprometimento dos empregados com seus
objetivos, segundo Chanlat (1992).
No sentido contrário, a empresa
que procura manter certa estabilidade da equipe de trabalho, ao
longo do tempo tem condições de atrair e fixar os
empregados melhores, mais assíduos e dedicados, conforme
Lima (1989) e Womack et al. (1992). A divulgação,
entre os empregados, dos novos empreendimentos ou da contratação
de novas obras pode ser uma forma de transmitir tranqüilidade
e confiança ao pessoal quanto à continuidade do
trabalho, prática adotada pela empresa D, onde os operários
eram informados sobre as futuras obras a serem executadas.
b) Chances de carreira e crescimento
profissional
Mesmo admitindo-se que o progresso
individual depende do interesse da própria pessoa, não
há dúvida também que, na situação
dos operários da construção civil, as empresas
precisam não só oferecer oportunidades, como incentivá-los
e prepará-los, principalmente quando a chance implica em
aprimorar o nível de escolaridade ou, na passagem de função
subordinada para cargo de comando, onde a habilidade em lidar
com as pessoas passa a assumir importância igual ou maior
do que a própria habilidade técnica (Hersey e Blanchard,
ibid.).
As carreiras típicas da
construção,
a relativa estanqueidade das profissões e até mesmo
a relação por vezes exagerada de subordinados para
cada posto de mestre-de-obra, faz com que a maior parte dos trabalhadores
veja pouca chance de progredir, de crescer profissionalmente,
em geral somente de servente para oficial, um único degrau
ascencional que tende a desanimar os profissionais.
Devem ser observadas também
as características pessoais, já que alguns indivíduos
não têm interesse em exercer outra atividade, estão
satisfeitos com a sua situação, gostam da profissão
escolhida e das tarefas que executam e por vezes têm até
mesmo receio da mudança, do desconhecido, segundo Dejours
(ibid.).
c) Gestão participativa
A prática da gestão participativa como meio para atingir-se a melhoria da qualidade é um processo lento e gradual (Tolovi Jr, ibid.) mesmo em setores de atividade mais avançados nas questões afetas às relações de trabalho. As características da construção civil e principalmente a forma de gestão autoritária e da submissão passiva dos trabalhadores vigente ao longo de décadas, dificultam até mesmo o entendimento do que vem a ser isto, o que a empresa pretende, como vão agir, o que vão dizer, onde se viu operário dando palpite sobre o trabalho.
A dificuldade fica ressaltada pelo
fato de 23% dos profissionais e 62% dos serventes não terem
respondido esta questão, simplesmente por não compreenderem
seu significado e de que maneira o operário participaria
da programação dos serviços ou da divisão
das tarefas. No aspecto de divulgação desta forma
de administrar e organizar o trabalho, observou-se que os operários
da empresa D eram os mais esclarecidos pois 88% manifestaram entender
o significado da pergunta. Já na empresa C, 42% dos entrevistados
desconheciam qualquer modificação que estivesse
sendo implementada.
Analisando as respostas apresentadas,
constata-se a diversidade de opiniões, tanto dos que acham
que o empregado não tem condições de participar,
não tem preparo adequado, sendo este um problema da direção,
quanto dos que consideram que a gestão participativa só
funciona se o pessoal for responsável, quanto ainda a dos
que admitem que esta forma de dirigir, na realidade, é
que fará o pessoal interessar-se pela obra, com o que todos
teriam vantagem.
"A empresa ganha porque
o operário está todo dia na obra, sabe dos problemas
e tem condições de dar opinião para resolvê-los
e o operário ganha porque tem chance de mostrar toda a
sua experiência e conhecimento, de aprender e progredir,
de se sentir valorizado."
Carpinteiro
da empresa D.
No entanto, este processo deve ser
contínuo e as medidas consistentes, sob pena da gestão
participativa cair no descrédito como aconteceu na empresa
E onde, segundo os próprios operários, a Equipe
de Qualidade e Produtividade foi desmontada com as demissões
que ocorreram e tudo que fizeram foi perdido. Neste caso, a adoção
de um estilo de gestão participativo não foi acompanhada
de mudança da política de emprego, o que cria dificuldade
para o engajamento e a colaboração daqueles que
permanecem.
d) Igualdade de participação
Perceber que há igualdade
em todos os sentidos, inclusive nas chances de participar é
importante para todos os envolvidos, mesmo para os que estão
cientes de que apesar da igualdade de oportunidades, nem todos
participam igualmente, por falta de capacidade, de inteligência
ou interesse.
"É natural que
os mais experientes, os mais antigos e os mais falantes participem
mais porque conhecem mais os colegas, o serviço e os problemas
da obra e têm facilidade para dizer o que pensam; os outros,
além de não conhecerem o serviço, também
não sabem falar e muitos são acomodados."
Um
mestre-de-obra da empresa D.
Desta forma, mesmo que haja chances
iguais de participação é natural que, com
o passar do tempo, alguns sejam mais procurados que os outros
para participar de reuniões e dar sugestões sobre
o trabalho. Surge então a necessidade das empresas não
só estimularem todo o pessoal, como também dar-lhes
treinamento adequado em técnicas de identificação
de problemas (fluxogramas, folha de verificação,
técnica de grupo, diagrama de Pareto, brainstorming)
e nas ferramentas da qualidade de mais fácil utilização
(lista de verificação, diagrama de dispersão,
cartas de controle, diagrama de causa e efeito), conforme Brassard
(1992) e Tolovi Jr (ibid.), além de adotarem medidas mais
elementares mas que significam muitas vezes um passo importante
na deflagração do processo, como visitas a outras
empresas, caixas de sugestões ou o programa 5S, segundo
Campos (ibid.).
5.4.6 O Critério
Integração
Social na Empresa
Neste critério observa-se,
conforme os dados da Tabela 5.18 que a empresa E, é considerada
como a menos satisfatória segundo seus trabalhadores, devido
principalmente ao distanciamento do patrão, pessoa completamente
desconhecida, segundo a manifestação de alguns trabalhadores.
Verifica-se, no entanto, que este distanciamento da direção
das empresas em relação aos trabalhadores é
ainda relativamente generalizado na construção (esta
dimensão foi a que obteve a menor média em todas
as empresas), poucos se dando conta de sua importância para
os empregados.
Na empresa D, no entanto, os próprios
operários enfatizaram a presença praticamente diária
do diretor da empresa na obra e o contato que mantém com
os operários, do que resulta ganhos sensíveis em
termos de satisfação para o trabalhador, conforme
atesta a boa média das respostas.
a) Forma de tratamento do superior
Numa situação como
a da construção de edificações, a
forma de tratamento do superior assume grande importância,
pois ele é o primeiro e por vezes o único referencial
do empregado em relação à empresa e ao próprio
trabalho que deve realizar.
"O mestre-de-obra deve
procurar fazer um ambiente de camaradagem, porque aí todos
colaboram; não deve humilhar os trabalhadores como alguns
gostam de fazer." Um
servente da empresa C.
"O mestre-de-obra devia
ser mais qualificado para saber que o operário rende mais
quando está satisfeito com a forma de tratamento, mesmo
com o salário que ganha."
Um
pedreiro da empresa B.
Para alguns operários existem
mestres-de-obra que realmente não são bons, principalmente
quando eles não puderam escolher os trabalhadores e formar
sua equipe. A verbalização de um mestre-de-obra
confirma esta opinião, pois para ele,
"O mestre não
pode chegar quando a equipe já está formada, ele
tem que formar a sua turma, escolher quem vai trabalhar na obra;
é ruim quando começa numa obra onde a turma foi
formada por outro."
Mestre-de-obra da empresa
C.
A participação decisiva
do mestre-de-obra na escolha do subordinado é uma das
vantagens da construção em relação
ao que ocorre em outros setores de atividade, onde a chefia por
vezes conhece o trabalhador somente após a contratação.
No entanto, esta participação do mestre deveria
ser respaldada por setor especializado, o que não ocorre,
principalmente nas empresas de pequeno porte que em geral sequer
dispõem de estrutura adequada, conforme Dálcul (1995).
b) Relacionamento com o patrão
A atenção do patrão,
que tanto pode ser o proprietário da obra ou o diretor
da empresa, é dimensão de grande importância,
segundo os operários. Constata-se que o conhecido ditado
de que engenheiro não fala com operário
está sendo paulatinamente colocado por terra, pois já
se observa uma maior abertura e aproximação dos
primeiros, o que é positivo para o moral do empregado,
conforme se deduz das manifestações do pessoal,
sensíveis à atenção que recebem do
patrão.
"É a primeira
firma em que vejo o operário ser tratado como gente, assim
o serviço anda mais rápido, pois o pessoal fica
mais satisfeito. O patrão está todo dia na obra,
costuma cumprimentar e as vezes até conversa um pouco."
Pedreiro da empresa
D.
Por vezes a simples presença
do patrão na obra é percebida pelo operário
como sinal da importância que este atribui ao próprio
empreendimento, o que também repercute positivamente sobre
o moral do trabalhador. Hinze e Panullo (1978) constataram, através
de pesquisa realizada na construção civil americana,
uma relação inversa entre o índice de acidentes
e a freqüência das visitas do presidente da empresa
à obra.
c) Relacionamento com os colegas
O ambiente entre os colegas de trabalho
na construção de edificações é
outra dimensão importante para a satisfação
do indivíduo como ser social, que necessita ter um bom
relacionamento, principalmente porque permanece na obra pelo menos
10 horas por dia, 5 dias por semana.
Verifica-se, pelas médias
obtidas nas cinco empresas pesquisadas que, apesar do curto tempo
de convivência, devido à rotatividade elevada nos
canteiros de obra, à própria heterogeneidade das
equipes que tendem a dificultar o entrosamento e a formação
de um espírito de camaradagem, os trabalhadores estão
bastante satisfeitos com esta dimensão, além do
que os baixos coeficientes de variação indicam que
esta satisfação é generalizada.
d) Igualdade de tratamento
Os trabalhadores reconhecem como
natural a existência de diferenças, dado o tipo de
relacionamento existente entre as pessoas, na forma de tempo em
que trabalham junto, relações de amizade, parentesco
ou vizinhança, o que torna praticamente inviável
a igualdade total e absoluta.
"Não existe
igualdade de tratamento em lugar nenhum, é normal que se
trate melhor os mais antigos, os que trabalham junto a muito tempo,
os que têm o mesmo temperamento, que são vizinhos
ou parentes, pois até os filhos a gente trata diferente."
Carpinteiro da empresa
B.
5.4.7 O Critério
Constitucionalismo
De acordo com as médias e
coeficientes de variação apresentados na Tabela
5.19, excetuada a empresa C, o nível de satisfação
é favorável para as três dimensões
do critério, havendo também relativa homogeneidade
entre os pesquisados.
a) Cumprimento de obrigações
O nível de escolaridade relativamente
baixo faz com os trabalhadores sejam muito desconfiados e tenham
receio de ser explorados pelos que têm mais estudo, até
porque é reconhecido que o subsetor convive ainda com empresas
que com freqüência lesam os empregados. Assim sendo,
para que o ambiente seja satisfatório e estimulante para
o empregado, não basta tão somente cumprir a
legislação,
mas também ter clareza nos documentos, ter transparência
absoluta e dar esclarecimentos freqüentes e abundantes sobre
todas as dúvidas que porventura surjam no cotidiano do
trabalhador.
Pagar tudo que é devido, em dia, em local abrigado da intempérie, no horário de trabalho, entregando um envelope adequadamente preenchido e auto-explicativo, com pessoa disponível para dar todas as informações sobre os cálculo e descontos é o mínimo que se pode esperar de uma empresa organizada. Ao contrário, pagar fora do horário, atrasar pagamento de reajustes ou de benefícios, deixar diferenças pendentes ou atrasar o pagamento dos prêmios, representa para muitos operários uma falta de consideração com quem trabalha duro toda semana, conforme as manifestações dos entrevistados:
- numa das obras da empresa C o
empreiteiro colhia as assinaturas para depois comunicar que tinha
esquecido as fichas de Vale-Transporte e que as entregaria na
semana seguinte (estava atrasado há duas semanas). A construtora
sabia das irregularidades cometidas pelo empreiteiro, tanto que,
a partir de determinado momento, dispôs-se a colocar um
empregado administrativo próprio no escritório do
empreiteiro para auxiliar e principalmente controlar os cálculos,
os pagamentos e o recolhimento dos encargos;
- na obra pública em que
a empresa C atuava com pessoal próprio, a insatisfação
decorria das três semanas de atraso no pagamento dos prêmios
por tarefa e na mudança do critério para fornecimento
da janta, segundo os entrevistados, sem qualquer explicação;
- na empresa B o envelope da semana
anterior havia sido preenchido somente com o nome do empregado,
sem qualquer especificação quanto aos valores creditados
e descontos efetuados, sob a alegação de que houve
falta de tempo para preenchê-los, mesmo o pagamento tendo
ocorrido após o horário normal de trabalho.
"Eles pensam que estão
levando alguma vantagem, mas na segunda-feira ninguém trabalhou
direito, a maioria falando pelos cantos e querendo explicação
sobre o que tinha recebido e sobre o atraso no pagamento que deu
problema para todo o pessoal que mora
longe."
Um pedreiro da empresa B.
- na empresa D, considerada a mais
avançada nas questões relativas à participação
do trabalhador, havia queixas veladas quanto ao não pagamento
de prêmios por antecipação de prazos, conforme
havia sido combinado. Porém, mesmo com a abertura dada,
o pessoal não reclamava diretamente, manifestando-se de
forma latente o receio de represálias ou punições,
em parte contrariando a opinião verbalizada de que havia
liberdade para manifestação e discordância.
Conforme um engenheiro da empresa os cálculos e o pagamento
estavam corretos pois não tinha havido aumento real de
produtividade - foram consumidas as horas padrão previstas
e a antecipação do prazo decorrera simplesmente
do deslocamento de empregados de outras obras para aquela, aumentando
o tamanho da equipe. No entanto, como esta explicação
não foi dada a todo o grupo, mas somente ao mestre-de-obra
(que não a transmitiu com clareza ao pessoal), os operários
consideravam que a empresa estava lesando-os deliberadamente,
deixando de cumprir o tratado, gerando um ambiente de insatisfação,
que poderia até mesmo inviabilizar futuras propostas de
prêmio por tarefa.
b) Liberdade de manifestação
Pelos depoimentos dos empregados
da empresa D, verifica-se o quanto é difícil reverter
o conceito cristalizado de relações autoritárias
de trabalho, pois muitos empregados permanecem desconfiados, pelos
prejuízos que já sofreram em outras ocasiões,
mesmo quando os empresários manifestam-se imbuídos
de boas intenções.
"A firma reforça
isto nas reuniões, mas poucos falam, pois continuam com
medo de se queimar. Falta união da turma, quem reclama
fica sozinho, um não apoia a reclamação do
outro." Um
profissional da empresa D.
O escalão intermediário (mestre-de-obra e contramestre) constitui-se em barreira a ser ultrapassada, pois o enfoque participativo acarreta sensível perda do poder de decisão destes profissionais, que deixam de ter o papel central da obra, perdendo parte da autoridade. Mesmo que paulatina, uma mudança desta natureza é difícil de ser aceita, principalmente pelos mestres-de-obra mais antigos, que galgaram este cargo exatamente porque sabiam se impor sobre os demais trabalhadores. A idade média dos mestres-de-obra em geral (na pesquisa 7 tinham mais de 45 anos, 2 entre 35 e 45 anos e somente 1 tinha menos de 30 anos), o longo tempo de serviço e experiência na construção (5 tinham mais de 20 anos de serviço, 3 tinham entre 15 e 20 anos e somente 2 tinham menos de 15 anos de experiência no subsetor) e as posições arraigadas sobre a maneira mais adequada de dirigir uma turma de operários, indicam a dificuldade que existe para atingir um estilo de gestão participativo, no qual é indispensável a liberdade de manifestação e discordância sem receio de represálias.
A forma tradicional de preparação
do pessoal intermediário, além do longo tempo necessário
- segundo Vargas (1979) o preparo de um mestre-de-obra demanda
em torno de 20 anos - que impede a renovação e
substituição rápida destes profissionais,
constitui-se num dos entraves à evolução
do subsetor (Scardoelli, 1995), fazendo com que a contratação
de técnicos em edificação em lugar do mestre-de-obra
ou a redefinição do papel deste, tentada por algumas
empresas, sejam considerados avanços significativos.
Os próprios operários
não querem nem se reunir para tomar posição,
escolher um representante ou formar um grupo, porque têm
receio de perder o emprego e desconfiam da sinceridade de propósitos,
até porque algumas práticas predatórias ainda
continuam sendo utilizadas, mesmo nas empresas mais evoluídas,
pois resquícios de autoritarismo afloram eventualmente,
como a mesa de leitura de plantas bem alta para que o mestre-de-obra
não possa sentar e ficar parado (manifestação
de um engenheiro da empresa A), a decisão de suprimir unilateralmente
a janta dos que não estão alojados na obra mas fazem
serão habitual (empresa C), ou a discordância do
mestre geral em fornecer almoço ao invés de rancho,
pois este era usado coercitivamente para garantir a assiduidade.
c) Regras preestabelecidas e
divulgadas
Algumas frases extraídas
das entrevistas realizadas, ressaltam a insegurança do
trabalhador sobre como se conduzir frente aos mais variados aspectos
da situação de trabalho, enfatizando a importância
de um manual de admissão e de um processo de integração
do trabalhador, onde sejam transmitidas todas as informações
necessárias para que o mesmo possa situar-se e conduzir-se
adequadamente em relação aos colegas, às
chefias, aos procedimentos administrativos, à limpeza da
obra, aos hábitos de higiene, às normas de segurança,
aos horários, ao uso e conservação dos equipamentos
da empresa, assim como aos cuidados e respeito à vizinhança.
"O operário não
recebe explicação, faz certo porque aprendeu assim,
tudo o que sabe é pela experiência, levando tombo,
pois aqui não informaram nada; deveriam fazer reunião
mais seguida para orientar ou corrigir."
Um
pedreiro da empresa B.
Aprender pela experiência,
apesar de válido em muitos casos, é um processo
relativamente lento, com o agravante na construção
de edificações de propiciar a ocorrência de
acidentes, o que significa risco de danos não só
ao patrimônio da empresa, quanto, principalmente, aos trabalhadores
e à terceiros, os quais poderiam ser minimizados se houvesse
orientação prévia.
5.4.8 O Critério
Comunicações
Observa-se através das médias
apresentadas na Tabela 5.20 que, à exceção
dos operários da empresa C, os demais percebem com bastante
satisfação este critério (médias elevadas
e coeficientes de variação reduzidos). Estes indicadores
positivos são acentuados especialmente nas dimensões
Orientação sobre serviços, Formais de transmissão
de informações e Normas e padrões conhecidos
quanto aos métodos, processos e qualidade exigida no trabalho.
Já a dimensão Inovações
na forma de dirigir aparentemente não vem sendo disseminada
com a mesma intensidade, justificando a média obtida, que
indica uma satisfação moderada. Nesta dimensão
a empresa C destaca-se pelo índice acentuadamente negativo,
pois os trabalhadores além de não terem recebido
qualquer comunicação sobre tais mudanças,
também não as percebem nos canteiros de obra. O
fato da MO própria ter sido contratada a poucos meses e
também do empreiteiro e seu pessoal não terem sido
engajados no programa de qualidade pode ter contribuído
para esta média. Constatou-se, porém, que a postura
diretiva dos sócios/engenheiros da empresa ainda é
nítidamente autocrática, o que justifica o nível
de satisfação desfavorável dos trabalhadores.
a) Orientação sobre
serviços
Algumas observações
dos entrevistados quanto à esta dimensão indicam,
que apesar das médias favoráveis, persistem dificuldades
inerentes às próprias especificidades da construção
de edificações.
A superposição de
chefias, umas passando sobre as outras, contrariando o princípio
da unidade de comando é um problema que o trabalhador tem
dificuldade de assimilar, pois a necessidade de seguir as instruções
ou obedecer a um, deixando de atender ou mesmo contrariando a
outro, acaba por gerar situações de conflito para
qualquer indivíduo, principalmente os mais simples, inexperientes
e menos esclarecidos.
"Quando mais de um manda,
dá complicação, nem escuto; só hoje
já recebi ordem para fazer três serviços diferentes,
mas não consegui terminar nenhum e olha que recém
são 10 h da manhã."
Ferreiro
da empresa C.
Assim como mudam os operários,
as chefias com alguma freqüência também são
substituídas, forçando o subordinado a adaptar-se
a um novo estilo de comando, a uma nova maneira de conduzir os
trabalhos, de orientar, de informar, de controlar e de expressar-se
(Meseguer, 1988; Wisner, ibid.), o que é agravado pela
falta de uma cultura técnica unificada e difundida (Bonin,
1993), que faz com que também as rotinas, os padrões
e as exigências de qualidade e produtividade se modifiquem.
"Já tive quatro
contramestres nos três meses em que estou nesta obra; quando
me acostumo com um ele vai embora."
Carpinteiro
da empresa C.
b) Formas de transmissão
Para uma parcela dos entrevistados
as formas de transmissão de informação são
adequadas e perfeitamente assimiladas; outros porém consideram
que não há muita explicação, o que
vale é a prática, o conhecimento que cada um tem
do serviço.
"O pessoal consegue entender,
pois o mestre vai, mostra, marca ou começa o serviço;
quem é do ramo sempre entende."
Servente
da empresa B.
Apesar da manifestação
quanto à adequação das formas de transmissão
de informações e o aparente entendimento destas,
pode-se admitir que um percentual elevado de defeitos, de demolições
e de retrabalhos são devidos exatamente à má
comunicação por parte da chefia, à dificuldade
de compreensão por parte do operário e à
falta de checagem das informações, ou seja, à
ocorrência de ruídos no processo de comunicação,
conforme Meseguer (ibid.).
c) Normas e padrões conhecidos
A existência de normas e padrões
é fundamental para a obtenção da qualidade.
Se o trabalho não está definido, se os padrões
não são conhecidos, se não há parâmetros
estabelecidos, não há como aferir se um serviço
ou produto tem qualidade.
Quando não há divulgação
sobre as normas de qualidade, padrões e tolerâncias
e cada engenheiro ou mestre-de-obra exige o serviço de
uma forma diferente, sem antecipar como quer, torna-se praticamente
impossível para o trabalhador satisfazer as exigências.
A normalização, quando existe, tende a ficar restrita
aos engenheiros e ao pessoal do escritório, constituindo
o registro da cultura técnica da empresa (Bonin, ibid.),
na forma de manuais ou normas de procedimento, que no entanto
não chegam de forma acessível ao canteiro de obras,
às pessoas que têm a incumbência de executar
o serviço.
"Eu nem sei como a firma
quer que faça a amarração das paredes nos
pilares para não rachar."
Um
pedreiro da empresa B.
Esta frase sintetiza o problema
do operário quando a empresa não tem uma cultura
técnica manualizada, não registra ou não
divulga suas normas e padrões, deixando a critério
de cada mestre-de-obra ou engenheiro definir como deve ser executado
o trabalho, os quais por vezes ainda falham no processo de
comunicação.
d) Inovações na
forma de dirigir
Nas empresas da pesquisa, participantes
de programas de qualidade e produtividade a mais de 12 meses,
o fato da média da dimensão Inovações
na forma de dirigir ser a mais baixa do critério atesta
a dificuldade e lentidão que caracteriza a implantação
destes programas, já a partir da própria difusão
das intenções da direção aos demais
escalões. O processo de sensibilização,
conscientização
e treinamento da cúpula e posteriormente de transmissão
de conhecimentos e assimilação pelo pessoal administrativo
e técnico, por si só já demanda um grande
intervalo de tempo. Além disto, na construção
de edificações a disseminação aos
operários é agravada pela segregação
espacial e relativa estanqueidade entre escritório e canteiros
de obras, o que dificulta a troca de informações
rotineiras, como existe na maioria das demais atividades.
"Devem informar melhor o que querem, o que o operário tem que fazer, pois só ouvi falar quando fizeram um churrasco e teve discurso do engenheiro." Um carpinteiro da empresa A.
Esta realidade dificulta a difusão
e conseqüente assimilação paulatina das mudanças
pelo pessoal das obras, o que, no caso das empresas pesquisadas,
ocorreu de maneira repentina, quando foram lançados os
programas de qualidade nos canteiros.
5.4.9 O Critério
Programação
dos Serviços
De acordo com os resultados apresentados
na Tabela 5.21 e Gráfico 5.9 verifica-se que os operários
das diversas empresas percebem com alguma satisfação
a forma como os serviços vêm sendo programados, contribuindo
para evitar em parte os constantes desmanches, retrabalhos e
interrupções
das tarefas. A homogeneidade dá-se tanto entre as empresas
quanto entre as próprias dimensões do critério,
sem diferenças significativas.
Constatou-se porém que algumas
empresas têm atenuado o impacto de ocorrências insatisfatórias
sobre os operários, não propriamente através
de uma melhor programação, mas sim apontando os
adquirentes dos imóveis em construção como
responsáveis pelas freqüentes modificações,
apesar de que isto decorre muitas vezes da falta de planejamento
da própria empresa e de diálogo entre as partes.
a) Desmanche e retrabalhos
O desmanche e os retrabalhos além
das repercussões diretas em termos de desperdícios
de materiais e de horas de trabalho, têm um componente indireto
que permanece latente e pode solapar todo o processo de implantação
de programas de qualidade, onde um dos principais objetivos consiste
exatamente na redução de perdas, já que a
ocorrência freqüente de desmanches, além de
gerar insatisfação nos trabalhadores, é percebida
como incompetência ou negligência de quem deve projetar,
planejar e programar adequadamente os serviços.
"A obra não tem
geometria, o setor central ficou menor do que devia e está
torto por que veio errado desde o desenho."
Carpinteiro
da empresa C.
A empresa que utiliza profissionais
autônomos ou MO de empreiteiros, enfrenta dificuldade
até mesmo para comprometer este pessoal com seus objetivos
e com o próprio programa de qualidade e redução
de desperdícios, já que estes trabalhadores por
vezes podem até extrair vantagem (maior quantidade de trabalho)
quando ocorre a necessidade de desmanchar e refazer.
"Quando estou por empreitada
não me importo em desmanchar, pois o salário vem
igual e o problema é da empresa."
Pedreiro
da empresa A.
Esta pode ser uma das razões
para o fato de diretores de empresas engajadas em programas de
qualidade considerarem como ideal um percentual de MO própria
mais elevado (em torno de 70%) segundo Scardoelli (1995), pois
este contingente estaria em princípio mais interessado
e comprometido com o sucesso da empresa e do programa.
b) Sequenciamento
A má programação
dos serviços e do suprimento de materiais tem como
conseqüência
direta não só as horas paradas daquelas equipes
que ficam impossibilitadas de executar sua tarefa, mas repercutem
também no trabalho das equipes antecedentes, que por vezes
são pressionadas a concluir seus serviços de forma
apressada para liberar o local. Além disto, por vezes a
reprogramação dos serviços de maneira improvisada,
sem uma adequada análise de todos os fatores, acaba criando
novos e maiores problemas, que vão repercutir mais adiante.
c) Interrupções
de tarefas
A interrupção de tarefas
é também outra característica intrínseca
à construção de edificações
que afetam sobremaneira o grau de satisfação dos
trabalhadores, pois muitos não gostam de deixar serviço
incompleto ou detestam mudar de obra com freqüência,
como costuma ocorrer quando trabalham com empreiteiros.
"Quem trabalhava com
o empreiteiro Fulano de Tal conhecia toda a cidade, pois ele passava
o dia levando o pessoal de uma obra para outra; tinha dias em
que a gente trabalhava em três construções
diferentes."
Carpinteiro
da empresa C.
Se para alguns trabalhadores a
interrupção
de tarefas é encarada com naturalidade, aceitando que o
mestre-de-obra é quem manda e o operário deve obedecer,
de outra parte muitos manifestaram descontentamento exatamente
porque nunca conseguem terminar um serviço, sempre fica
um pouco para completar mais adiante.
Esta situação é
freqüente principalmente para o trabalhador vinculado a pequenos
empreiteiros que em geral têm vários serviços
simultâneos em andamento e uma equipe pequena que vai sendo
deslocada de uma obra para outra, visando atender as necessidades
mais imediatas dos contratantes.
5.5 Relação
entre
as Iniciativas de Melhorias e o Nível de Satisfação
Procurou-se demonstrar através
da média de cada critério e de suas respectivas
dimensões, que o grau de implementação de
iniciativas de melhorias em cada uma das empresas, influiu diretamente
no nível de satisfação dos trabalhadores
sobre as condições de trabalho.
O gráfico 5.10, onde tem-se
a porcentagem de melhorias implementadas em cada uma das empresas
e a satisfação geral dos entrevistados (extraída
da tabela 5.12), também na forma de porcentagem (0% = totalmente
insatisfeito; 50% = neutralidade; 100% = totalmente satisfeito),
vem confirmar a hipótese formulada, ou seja, o nível
de satisfação dos trabalhadores das empresas de
construção de edificações depende
das melhorias introduzidas nos vários aspectos que envolvem
a situação de trabalho. Mesmo não havendo
proporcionalidade entre as melhorias e a satisfação
global, verifica-se que as empresas D e E, que mais investiram
em melhorias, são exatamente aquelas em que os operários
manifestam maior satisfação. A falta de proporcionalidade
justifica-se não só pelo impacto e ganhos mais significativos
em geral proporcionados pelas melhorias iniciais, como também
pelo aspecto, já ressalvado, de que tanto as iniciativas
como os critérios e dimensões têm pesos e
significados diferentes.
Se fossem traçados gráficos
para cada critério, associando as melhorias correspondentes
e o nível de satisfação dos trabalhadores,
chegar-se-ia a conclusão análoga à constatada
acima, haja vista as médias consignadas em cada uma das
empresas. As verbalizações dos trabalhadores apresentadas
ao longo do texto enfatizam esta relação, pois enquanto
os da empresa D e E fizeram vários comentários positivos
e poucos reparos à situação geral, os da
empresa C, ao contrário, foram os que mais inconformidade
manifestaram.
5.6 As
Verbalizações
Espontâneas
No Bloco C do Roteiro de Entrevista
sobre QVT foram formuladas três perguntas adicionais, com
respostas abertas, através das quais procurou-se aprofundar
a avaliação do nível global de satisfação
do trabalhador com a atividade, captar a coerência com as
respostas anteriores, assim como obter novas evidências
que pudessem corroborar ou não os resultados até
então obtidos.
5.6.1 Recomeçaria
ou traria
seu filho para a construção civil? Por que?
Esta pergunta foi respondida positivamente
por 56% dos entrevistados e negativamente por 40%, ficando os
demais indefinidos. Apesar das dificuldades existentes, é
significativo constatar-se que a maior parte dos operários
estaria disposta até mesmo a encaminhar seus filhos para
a construção de edificações. Ainda
assim, o percentual de insatisfeitos, de pessoas arrependidas
de ter ingressado ou mesmo de continuar na construção,
é bastante elevado, indicando ser necessário um
prolongado trabalho para reverter a situação, sob
pena de acentuar-se a participação de pessoas desgostosas
e desinteressadas, que ingressam no subsetor somente por falta
de opções.
Muitas das características
da construção de edificações, consideradas
positivas, foram citadas pelos trabalhadores como razão
de ingresso ou permanência no subsetor; outras porém,
consideradas negativas, foram destacadas como motivo de inconformidade
e frustração por terem ingressado na construção,
na qual só permanecem pela baixa escolaridade ou pela idade
mais avançada que lhes restringe o mercado de trabalho.
a) Características positivas
Entre as características
positivas, os trabalhadores que manifestaram-se globalmente satisfeitos
por atuar na construção de edificações,
destacam:
-
variedade de serviço:
na obra o operário executa uma grande variedade de serviços
que mudam durante o dia ou de um dia para o outro, de maneira
que ele não fica sempre fazendo a mesma coisa, como acontece
nas fábricas;
- tem chances de crescer
apesar da baixa escolaridade: a construção
oferece oportunidade de progredir, mesmo sem estudo e sem necessidade
de voltar a estudar;
- pode ver o resultado
do seu trabalho: o trabalhador fica satisfeito quando passa
por um prédio que ajudou a construir, pois pode admirar
ou mostrar para os parentes, filhos e amigos o trabalho realizado
em épocas passadas.
"Eu comecei de pedreiro
em Porto Alegre, fazendo aquela fachada de tijolo à vista
da
Mesbla."(3)
Um mestre de obra.
- sempre estão
acontecendo coisas novas: a grande variabilidade da construção
de edificações praticamente elimina a monotonia
que caracteriza a maioria dos demais setores de atividade pois
o serviço é tão variado que o operário
sempre está fazendo alguma coisa diferente, tendo ainda
que imaginar soluções para os problemas que vão
surgindo, o que, segundo os próprios trabalhadores, ajuda
a passar o tempo;
- trabalha à vontade,
sem camisa, de bermuda: o que aparentemente é uma situação
precária, que desmerece o subsetor, constitui-se para muitos
trabalhadores em vantagem da construção em relação
a setores que obrigam a usar uniforme ou interferem com a aparência
e vestimenta, situações que o operário da
construção em geral rejeita;
- tem salário e horário
fixo e folga certa no fim de semana: mesmo com pouco estudo
tem um emprego com salário e horário fixo e pode
ir vivendo sem passar fome, o que não acontecia no campo
ou em outras atividades na cidade, onde por vezes não há
salário estipulado, nem horário ou folgas predeterminadas;
- pagamento semanal:
recebe todo final de semana, sem precisar pedir vales para o patrão
como acontece nos empregos em que o pagamento é mensal.
A tradição do subsetor de pagar semanalmente, como
acontece no Rio Grande do Sul, constitui-se portanto numa vantagem
em relação a outras atividades;
- pode fazer pequenos serviços
nos finais de semana: as atividades da construção
são necessárias e importantes para toda a população,
que freqüentemente demanda serviços dos operários,
o que ajuda no orçamento familiar e, nas épocas
de desemprego, pode ser a única fonte de renda do operário;
além disto, tem condições de construir, melhorar
ou ampliar a própria casa. Algumas empresários inclusive
toleram faltas periódicas dos operários, quando
estes têm trabalhos a realizar como autônomos, pois
assim vão aumentar seus ganhos e atenuar suas dificuldades
financeiras, sem pressionar a empresa.
b) Características negativas
Entre as características
negativas os trabalhadores destacaram:
- o serviço é
pesado e muito desgastante: o trabalho é contínuo
e o horário é ruim obrigando o operário a
levantar de madrugada e voltar para casa tarde da noite;
- há muito desgaste
pela exposição ao tempo: apesar das vantagens
de trabalhar ao ar livre, manifestada pelos que gostam da atividade,
a exposição às intempéries, em especial
na região sul do País, tornam a atividade insalubre,
desagradando alguns operários;
- é muito inseguro,
há muito perigo nas obras: há possibilidade
de queda de altura porque inexistem proteções adequadas;
de choque elétrico decorrente de instalações
precárias; de queda de objeto na cabeça; de batidas
nos andaimes ou outras obstruções existentes na
construção; de furo no pé pelo descaso com
a limpeza e arrumação do canteiro de obra; de corte
nas mãos, principalmente na serra elétrica;
- não tem emprego
nem futuro: a construção não dá
nenhuma garantia ao operário, que encontra muita dificuldade
para conseguir um emprego fixo; a constante mudança vai
'sujando a carteira', o que acarreta cada vez mais dificuldade
para o operário encontrar outro trabalho (a verificação
da carteira é uma etapa das etapas mais importantes, por
vezes a única, do processo de admissão);
- profissão rejeitada:
alguns operários sentem-se discriminados por trabalhar
na construção, pois mesmo vizinhos e amigos os tratam
por termos que consideram pejorativos como 'arigó
de obra' ou 'bóia-fria'; o
fato de ter que acordar a mulher de madrugada para preparar a
marmita, com o desgaste daí decorrente, também contribui
para esta manifestação de desagrado;
-
muita
mudança de serviço e
obra:
a mudança de obra é freqüente mormente para
os que trabalham com empreiteiros, o que obriga o operário
a constantes mudanças de itinerário, de companheiros
e mesmo de tipo de serviço, pois nesta condição
raramente pode escolher trabalho. As mudanças ao longo
da jornada, deixando serviços incompletos, é aspecto
que desagrada muitos trabalhadores;
- salário muito
baixo: a profissão é pouco valorizada e o operário
mal consegue sobreviver com o que recebe no emprego; constrói
para os ricos mas ganha uma miséria;
- falta de interesse da empresa
em aperfeiçoar e treinar os operários; as chances
de progredir são poucas, havendo ainda necessidade de agradar
o mestre-de-obra ou algum profissional para ganhar uma oportunidade;
os próprios mestres-de-obra são despreparados.
5.6.2 Qual a principal
lembrança
do melhor e do pior emprego na construção?
Procurou-se avaliar através
desta pergunta o nível de satisfação dos
operários quanto às características mais
marcantes das situações de trabalho vivenciadas,
relativamente ao melhor e ao pior emprego na construção
civil. Enquanto 141 trabalhadores destacaram uma característica
que marcou o seu melhor emprego, somente 92 operários lembraram-se
do aspecto negativo que caracterizou o pior emprego.
O Quadro 5.1 contém as respostas
dos entrevistados, agrupadas em dois níveis, a partir do
enfoque da Hierarquia das Necessidades de Maslow, o primeiro abrangendo
aspectos que caracterizam necessidades fisiológicas e de
segurança e o segundo englobando as necessidades de nível
mais elevado (sociais e de ego ou estima).
Apesar das manifestações
sobre o melhor emprego concentrarem-se em aspectos relativos a
necessidades fisiológicas e de segurança, em detrimento
de necessidades sociais e de estima, pode-se considerar também
que, enquanto um total de 43 trabalhadores citaram salário,
muita hora extra e cumprimento do combinado (aqui vinculado à
segurança do trabalhador quanto ao recebimento dos seus
direitos), igual número concentrou-se em aspectos relacionados
às necessidades sociais e de estima (bom tratamento, oportunidade
de aprender e muita amizade com colegas).
5.6.3 O que deve ser feito
para
melhorar as condições de trabalho?
Quanto a sugestões de melhorias
a serem introduzidas para proporcionar mais satisfação,
verificou-se que muitas verbalizações referem-se
a aspectos relativos às Necessidades Fisiológicas
e de Segurança (Hierarquia de Maslow), aqui caracterizadas
pelos critérios Condições de Trabalho e
Compensação
Justa e Adequada, o que constitui um indicativo claro das deficiências
primárias da construção. No entanto, várias
foram também as verbalizações referentes
aos critérios Comunicações e Chances de Crescimento
e Segurança Permanente, mostrando a relativa precariedade
dos mesmos na construção de edificações.
As manifestações dos
operários, consolidadas por empresa, constituem por si
só um roteiro de medidas que deveriam ser adotadas para
melhorar a QVT, razão pela qual, significativo número
foram incluídas no conjunto de intervenções
propostas na síntese conclusiva.
5.7 Síntese conclusiva
O capítulo apresenta e analisa
os resultados da pesquisa de campo realizada nas cinco empresas,
com uma amostra de trabalhadores típicos da construção
tradicional, empregados próprios ou não destas empresas.
A distribuição de
freqüência aponta uma grande maioria de pessoal efetivo
(76%), o que é positivo para a implantação
de programas de qualidade, caso os operários tivessem chance
de permanecer e assimilar a nova cultura, o que na realidade não
ocorre, pois demonstra-se que a rotatividade continua acentuada.
Os dados demográficos enfatizam
a baixa escolaridade da MO, razão básica para muitos
operários terem ingressado no subsetor e, conforme as
verbalizações,
a pouca disposição destes para estudar regularmente,
o que constitui-se em sério entrave para as empresas que
participam de programas de qualidade, que em geral exigem melhor
formação escolar e treinamento abundante.
Verificou-se que o subsetor continua
a absorver MO despreparada, originária do campo. Constatou-se
outrossim que em Florianópolis há nítida
predominância de operários oriundos de outros Estados,
ao contrário do que ocorre em Porto Alegre e na cidade
do interior do Rio Grande do Sul.
Apresenta-se também dados
relativos à situação familiar, verificando-se,
quanto à moradia, a nítida predominância de
proprietários, o que pode ser relacionado com o
conhecimento profissional do indivíduo, que facilita a
obtenção da casa própria. Por outro lado,
apesar do baixo nível de escolaridade e da mediana da idade
situar-se numa faixa ainda extremamente prolífica (35 anos),
pode-se considerar moderada a média de 2 filhos por trabalhador.
No entanto, comparado com o salário relativamente baixo
vigente na construção, constata-se ser elevado o
número médio de 3,78 dependentes por posto de trabalho
ocupado.
São apresentadas as iniciativas
de melhorias implementadas pelas empresas, assim como a constatação
e observações do pesquisador quanto à sua
profundidade e continuidade. Verifica-se a grande disparidade
quanto ao número e tipo de ações adotadas,
constatando-se que uma das empresas concentrou-se em determinados
aspectos como segurança do trabalho, participação
da MO e comunicações internas.
Os oito critérios e suas
respectivas dimensões são apresentados na forma
de tabelas e gráficos, procurando-se relacionar o nível
de satisfação dos trabalhadores com as melhorias
implementadas pelas respectivas empresas, ilustradas tanto pelas
verbalizações positivas quanto pelas ressalvas dos
interessados diretos quanto à sua adequação
e consistência.
Demonstra-se ao final que o nível
de satisfação do pessoal depende efetivamente das
melhorias implementadas, já que os operários das
empresas que promoveram mais ações são os
que, efetivamente, percebem com maior satisfação
a situação e as perspectivas de trabalho, enquanto,
no outro extremo, a empresa que promoveu menos intervenções
é também aquela em que os trabalhadores demonstram
menor satisfação.
Apresentam-se também as
verbalizações
dos entrevistados relativamente às características
positivas e negativas da atividade, aspectos marcantes do melhor
e do pior emprego na construção civil, assim como
sugestões para melhorar as condições de trabalho,
constatando-se que as manifestações relativas à
remuneração e benefícios não tem a
preponderância esperada, já que vários outros
fatores são considerados pelos operários tão
ou mais importantes do que o salário propriamente dito.
Em cada empresa alguns critérios
e dimensões destacaram-se favoravelmente mostrando a existência
de pontos fortes, reconhecidos pelos operários, os quais
podem ser devidamente explorados, visando a melhoria do desempenho.
De outra parte, como as médias indicam e as verbalizações
dos entrevistados enfatizam, existem também pontos fracos,
critérios ou dimensões que não foram considerados
até o momento, ou que carecem de aprimoramento para atingir
na integralidade os objetivos pretendidos. Com base nos resultados
numéricos obtidos e nas manifestações diretas
dos entrevistados, verifica-se que em cada uma das empresas há
um conjunto de intervenções que poderiam ser paulatinamente
adotadas, visando sanar ou atenuar as dificuldades, as quais contribuiriam
para aumentar o grau de satisfação dos operários
e com isto a própria QVT.
Empresa A:
- reestudar a política de recursos humanos, hoje centrada na subcontratação através de parceria com um empreiteiro exclusivo, o que, apesar de proporcionar flexibilidade à empresa, traz sensíveis reflexos em termos de satisfação do pessoal, que visualiza poucas chances de carreira e crescimento profissional, o que pode dificultar seu engajamento nas metas de qualidade que venham a ser estabelecidas;
- aprimorar a programação dos serviços que, na manifestação dos trabalhadores, deixa a desejar especialmente quanto à freqüência de interrupções de tarefas;
- revisar as melhorias introduzidas nas condições de trabalho, completando ou complementando-as, especialmente quanto à quantidade, higiene e salubridade das instalações de uso do pessoal, como sanitários e refeitórios;
- procurar, na medida do possível, estreitar os contatos do patrão com a obra e os operários, especialmente com os efetivos, que estão a muitos anos trabalhando e colaborando para o crescimento da empresa mas sentem-se pouco prestigiados pela direção, sendo latente sua insatisfação e descontentamento;
- rever a política salarial, visando corrigir as disparidades que ocorrem pelo uso simultâneo de pessoal próprio (que tem salário fixo) e pessoal de terceiros (que trabalha por tarefa), estabelecendo alguma forma de premiação para os que efetivamente determinam o ritmo do empreendimento, seja pelo cumprimento de prazos, de redução de desperdícios ou de metas de qualidade atingidas;
- aprofundar o diálogo com
os operários, ouvindo e analisando as sugestões
por eles apresentadas, o que não só pode trazer
benefícios diretos para a empresa, como também valorizar
a disposição do pessoal e engajá-los nos
objetivos.
Empresa B:
- definir uma política de
recursos humanos consistente e coerente com as metas de qualidade,
pois na empresa convive um grupo constituído de pessoal
próprio que com ela trabalha a alguns anos, um grupo de
operários que trabalha por tarefa e um terceiro grupo de
pessoas recrutadas através de empresas fornecedoras de
MO;
- estabelecer uma sistemática adequada para o recrutamento, seleção, admissão e integração de pessoal realmente capacitado, evitando a utilização de fornecedoras de mão-de-obra avulsa, reduzindo assim a possibilidade de ingresso de pessoas pouco interessadas e dispostas a trabalhar e que, com freqüência, vão prejudicar o ambiente de trabalho;
- homogeneizar a forma de remuneração em consonância com a política de pessoal, estabelecendo metas e consequentemente incentivos e prêmios extensivos a todos;
- observar detalhes quanto ao número e disposição das instalações de uso do pessoal pois haviam poucos chuveiros, estes eram junto com a bacia sanitária mas distante do vestiário, enquanto o refeitório foi construído quando a obra já estava nos acabamentos;
- agir de maneira coerente com um ambiente de gestão participativa, dando igualdade de participação, chances de carreira e crescimento profissional, incentivando a liberdade de manifestação, instituindo o efetivo constitucionalismo na empresa e, colocando em discussão as proposições dos operários, como a troca da cesta básica por almoço;
- preparar os escalões intermediários para dar retroinformação constante aos trabalhadores, mostrando-lhes a importância deste tipo de reconhecimento para quem julga ter cumprido adequadamente suas atribuições;
- mais atenção aos trabalhadores por parte do patrão que apesar de estar todo dia na obra só se reporta e dialoga com o mestre-de-obra, sem dirigir sequer um cumprimento mesmo aos operários efetivos e mais antigos;
- estudar alternativa de locomoção
mais favorável para o grupo de pessoal próprio que
trabalha a alguns anos na empresa e que, por residir em município
vizinho, dispende em torno de 5 horas por dia com deslocamento.
Na empresa C:
- rever a política de recursos
humanos, tornando-a coerente com os objetivos de qualidade, definindo
pelo menos um núcleo de pessoal próprio que, permanecendo
na empresa, tenha condições de assimilar e engajar-se
em metas de médio e longo prazo;
- instituir e praticar o efetivo constitucionalismo na empresa, não só cumprindo e fazendo o empreiteiro cumprir com as obrigações, mas também dando oportunidade ao pessoal de manifestar-se sem receio de represálias e melhorando o sistema de informações ao pessoal quanto a leis, direitos e deveres;
- através de mudança na política de recursos humanos, ampliar-se as oportunidades de continuidade de emprego, proporcionando igualmente chances de carreira e crescimento profissional aos operários e facilitando a adoção da gestão participativa;
- preparar as chefias para dar retroinformação aos operários, o que as médias indicam não acontecer; procurar mudar a postura caracterizadamente autoritária dos mestres-de-obra do empreiteiro;
- estabelecer uma política
salarial consistente com os objetivos de qualidade, fixando metas
em consonância com os operários e instituindo incentivos
e premiação pelo seu alcance, da qual devem participar
todos os colaboradores.
Empresa D:
O estágio mais avançado
desta empresa é corroborado por médias que indicam
a satisfação dos empregados. Verifica-se, no entanto,
que enquanto alguns aspectos básicos carecem de simples
aprimoramento, despontam outros de nível mais elevado,
já que as necessidades vão se redefinindo e evoluindo
continuamente.
- o pacote de benefícios necessitaria ser revisto, principalmente o referente a auxílio farmácia e assistência médica, pois não está atendendo adequadamente às necessidades do pessoal, invalidando os esforços da empresa para sua administração;
- as chefias devem ser alertadas para a importância da retroinformação como fonte de satisfação dos empregados e ferramenta útil na correção de problemas; a postura mais aberta dos mestres-de-obra é um facilitador que deve ser explorado;
- o fornecimento de cintos de segurança adequado para suportar queda de altura sem provocar danos físicos e o uso de materiais novos para a confecção de bandejas salva-vidas são aspectos igualmente importantes a serem observados, já que o nível de conscientização dos trabalhadores é maior e estas demandas específicas foram enfatizadas, apesar das dimensões segurança individual e coletiva terem atingido médias elevadas.
- aprimorar aspectos relativos às instalações de uso do pessoal, como colocar armários individuais, mais mesas para refeições, mais chuveiros com boa pressão de água e também destinar local para refeitório isolado do depósito de materiais;
- dar total atenção e transparência a aspectos relativos ao constitucionalismo, pagando os valores acordados como premiação por cumprimento de tarefa ou dando os necessários esclarecimentos a todos (não só aos mestres) se não houver valores pendentes;
- incentivar a participação de todos nas reuniões, a partir de discussões em grupos menores, para debate de problemas específicos;
- ampliar o nível do treinamento, abordando aspectos como leitura de planta e compatibilização de projetos;
- estabelecer sistemática
adequada, com critérios conhecidos de todos, para escolha
dos treinandos, evitando a indicação ao livre arbítrio
do mestre-de-obra.
Empresa E:
- estabelecer política de
recursos humanos, principalmente quanto à segurança
de emprego, coerente com a gestão participativa, procurando
dar tranqüilidade pelo menos ao pessoal que compõe
a equipe de qualidade e produtividade;
- associar a pretendida polivalência, que permite uma certa estabilização da MO, com critérios de remuneração que estimule este acréscimo de habilidades;
- estabelecer política salarial que contemple ganhos adicionais por atingimento de metas quanto a prazos, qualidade e redução de desperdícios;
- aproximar o patrão da obra e dos operários, ou instruir o engenheiro responsável a aceitar o diálogo com o trabalhador, abrindo mão do distanciamento que tem procurado manter, o que daria maior coerência a outras medidas de dignificação da MO que a empresa vem implementando;
- preparar e orientar as chefias intermediárias para a importância do feedback sistemático, não só para a satisfação do pessoal, mas também como ferramenta útil para a correção de falhas;
-
envolver
os próprios operários na definição
de prioridades e busca de soluções, fazendo desta
participação uma base segura para o comprometimento
de todos com as soluções adotadas e com as metas
estabelecidas;