6.1 Conclusões
Finais
Em decorrência do reconhecimento
por parte das empresas engajadas em programas de qualidade e produtividade
quanto à importância do trabalhador no atingimento
de seus objetivos, não foram colocadas dificuldades para
a realização da pesquisa, contrariando a afirmativa
corrente de que o subsetor é fechado e rejeita intervenções
externas.
Constatou-se também o interesse
dos trabalhadores em participar de uma enquete sobre a situação
de trabalho na construção de edificações,
não só procurando responder às perguntas
formuladas, mas o que é importante, verbalizando de forma
incisiva os aspectos favoráveis e desfavoráveis
da atividade e tecendo comentários e reparos às
iniciativas de melhorias introduzidas pelas respectivas empresas.
Neste sentido a pesquisa através de entrevista não
estruturada mostrou-se plenamente satisfatória, pois permitiu
ao entrevistador formular os quesitos de acordo com as nuances
que permeavam cada situação. Mesmo nas questões
onde houve maior dificuldade de interpretação e
de formulação de resposta por parte do operário,
constatou-se tanto a disposição do mesmo em participar
como, principalmente, a adequação do método
adotado.
Os aspectos levantados mostram que
muito pode ser feito para melhorar a situação de
trabalho na construção de edificações,
sem representar necessariamente aumento de despesas ou custos
diretos para as empresas, mas simples mudança de postura
na gestão dos recursos humanos. Conforme as verbalizações
dos operários, assim como é importante melhorar
as compensações e benefícios, a higiene e
limpeza, a disponibilidade e qualidade dos materiais e equipamentos,
também é de grande importância a melhoria
das formas de comunicação e programação
dos serviços, a redução da rotatividade entre
obras, o aumento das chances de progredir, a melhoria nas relações
interpessoais, assim como o feedback sistemático.
Ficaram caracterizadas as vantagens
que podem ser obtidas com a realização de uma enquete
desta natureza, quando a empresa está interessada ou já
promovendo iniciativas de melhorias quer sobre as condições,
a organização ou as próprias relações
de trabalho. Com os dados coletados a empresa pode estabelecer
seu plano de ação, aprimorar a iniciativa ou redirecionar
seu foco a medida que outras melhorias se mostrem mais importantes
para o trabalhador, além do que a participação
dos operários na proposição de ações
a serem implementadas faz com que estes se engajem decisivamente
no seu sucesso.
Constatou-se no entanto ser importante
que a enquete inicial seja realizada por pessoal externo, principalmente
quando a liberdade de manifestação e discordância
ainda não está sedimentada, podendo haver desconfiança
dos trabalhadores quanto aos reais propósitos da empresa.
Com a assimilação natural das críticas e
discordâncias manifestadas na primeira pesquisa, sem resquícios
de autoritarismo ou represálias e a implementação,
com a participação dos operários, das sugestões
julgadas exeqüíveis, a confiança tenderá
a estabelecer-se e difundir-se, viabilizando a realização
das pesquisas subsequentes por pessoal próprio das empresas.
Além disto, a pesquisa inicial
deve ter um enfoque mais abrangente, pois tem como um de seus
objetivos a própria definição dos fatores
que merecem ser pesquisados, hierarquizando-os conforme a importância
atribuída pelo pessoal. A partir dos resultados obtidos
e à medida que as dificuldades mais prementes e causas
maiores de insatisfação, forem removidas, outras
necessidades e anseios irão aflorar, num processo natural
de crescimento do trabalhador.
É importante portanto que
a pesquisa sobre QVT seja realizada periódica e sistematicamente,
buscando determinar os benefícios resultantes das medidas
adotadas, monitorando os resultados obtidos, detectando outros
aspectos que carecem de solução, decorrentes em
muitos casos do crescimento da expectativa dos trabalhadores.
Para tanto o instrumento de coleta de informações
deve ser simples, facilitando não só sua aplicação
mas também a posterior ponderação, análise,
avaliação e definição das medidas
necessárias para corrigir pontos desfavoráveis.
Considerando que a implementação
dos modernos programas de qualidade depende da participação
dos envolvidos, e dada a dificuldade para a manutenção
de todo o efetivo próprio, em função das
peculiaridades da construção e da necessidade cada
vez maior de flexibilidade, é imprescindível que
as empresas disponham de uma equipe básica de pessoal permanente,
esclarecido, treinado e comprometido com os resultados destes
programas. Quatro das empresas pesquisadas trabalham a partir
deste núcleo disseminador da cultura da qualidade e, mesmo
naquela em que a maior parcela do pessoal é terceirizado,
o trabalho num sistema de parceria, com envolvimento do empreiteiro
no programa, vem apresentando resultados positivos.
Os resultados obtidos demonstram
que os operários estão percebendo as ações
que vêm sendo implementadas pelas respectivas empresas,
o que ficou demonstrado pelos resultados obtidos. Nas construtoras
que introduziram mais iniciativas de melhoria, caso das empresas
D e E (esta mais concentrada em ítens relacionados à
dignificação da mão de obra), as médias
foram significativamente mais elevadas do que nas construtoras
que estão ainda na fase inicial do processo, como a C.
Pode-se deduzir pelas médias obtidas que a administração
das empresas foi sensível às necessidades mais prementes
do pessoal que trabalha nos canteiros de obra, promovendo iniciativas
pertinentes, talvez porque as carências sejam muito evidentes.
Verificou-se, porém, que
independente do acerto da maior parte das iniciativas, torna-se
extremamente importante ouvir sistematicamente o trabalhador,
seja com o objetivo de focalizar mais adequadamente seus anseios,
de corrigir eventuais anomalias ou falhas que estejam ocorrendo
e que impedem a obtenção da integralidade do benefício
que a ação deveria proporcionar, seja também
com o objetivo de envolver e conseguir a adesão do pessoal.
As verbalizações constituem a contribuição
potencial que os trabalhadores podem oferecer, referentes não
só às suas necessidades pessoais, mas também
a aspectos pontuais das rotinas de trabalho, materiais, equipamentos
e processos.
6.2 As Recomendações
para Estudos Futuros
Ao longo da revisão bibliográfica,
das respostas obtidas na pesquisa de campo e da sua posterior
análise, afloraram diversos aspectos que mereceriam ser
aprofundados, os quais são aqui colocados na forma de problemas
de pesquisa, como sugestões para estudos futuros.
- Qual o verdadeiro papel do mestre-de-obra
na implementação de programas participativos de
gestão, diante de sua eventual perda de poder? É
um obstáculo efetivo à introdução
de melhorias na organização e de avanços
nas relações do trabalho, ou poderá ser um
agente facilitador deste processo de mudança?
- O desenvolvimento de parcerias
estáveis com empreiteiros de mão de obra é
uma alternativa suficiente para compatibilizar a implantação
de programas de qualidade com a desejada flexibilidade pretendida
pelas empresas ou, ao contrário, torna-se indispensável
a contratação de expressivo contingente de pessoal
próprio para que estes programas tenham sucesso?
- Qual a efetiva importância
das formas de comunicação, a nível de canteiro
de obra, entre o mestre e os trabalhadores, sobre a incidência
de retrabalhos e desperdícios na construção
de edificações?
- Qual a importância da carência
de formação administrativa do engenheiro civil sobre
as dificuldades enfrentadas pelo subsetor para evoluir organizacionalmente?
- A mudança da estrutura
de ofícios que existe na construção de
edificações,
através da polivalência dos operários, é
uma alternativa possível e suficiente para proporcionar
chances de crescimento, reduzir a rotatividade e despertar interesse
dos trabalhadores em ingressar e manter-se no subsetor?
- A implementação
de programas de qualidade nas pequenas empresas de construção
de edificações pode ser efetivada simplesmente a
partir da vontade firme dos seus dirigentes, em geral assoberbados
com as tarefas rotineiras ou, ao contrário, faz-se necessária
a montagem de uma estrutura com formação de uma
equipe ou a nomeação de um líder para o
processo?