CAPÍTULO 4 - Tecnologia e Democracia Industrial: Abordagens Teóricas Referenciais
A revisão da literatura até aqui realizada, contemplou as três categorias fundamentais para o desenvolvimento do presente estudo, quais sejam: tecnologia, trabalho e democracia industrial. A revisão apresentar-se-ia incompleta se não fossem incluídas as abordagens teóricas que analisam as relações entre tecnologia e democracia industrial.
Optou-se por estudar mais detalhadamente 'abordagens referenciais', em virtude do caráter teórico-empírico do estudo, sem, entretanto, relegar as suas teorias de base originárias. Como será observado, abordagens diferentes podem originar-se do mesmo paradigma básico, termo utilizado no sentido de uma base teórica comum (Kovács, 1987b).
Serão apresentadas três abordagens: a Sócio-Técnica, a Contingencial e a do Processo de Trabalho, analisando-se as suas origens e principais características; a relação que estabelecem entre tecnologia e democracia, concluindo-se com avaliação crítica individual, destacando as coerências e limitações teórico-conceituais, objetos de estudo e aplicações experimentais. Justifica-se a adoção da expressão 'abordagens,' porque não se trata efetivamente de 'teorias,' conforme a conotação mais adequada do termo.
4.1. Abordagem Sócio-Técnica (AST)
A) Origens e Principais Características da AST
O surgimento da abordagem Sócio-Técnica, está associada de forma atávica, ao Instituto de Relações Humanas de Londres, em especial, a equipe de pesquisadores, sociólogos e psicólogos, formada por Trist, Emery, Rice, Jacques, Hall e Bramfort.
A sua ampla difusão deve-se aos trabalhos de consultoria que foram sendo desenvolvidos pelo Tavistock, com base em modelos conceituais importados das mais diferentes fontes, tais como, a psicanálise freudiana, a psicologia gestáltica, a antropologia funcional, a teoria de campo de Kurt Lewin e a teoria dos sistemas abertos (Sorensen, 1985). Podem ser considerados também como influentes os trabalhos de Bion (dinâmica de gupos), Lewin (grupos de auto-formação), Selznick (liderança organizacional) e Argyris (conflitos entre personalidade e organização). O modelo de Hawthorne, de acordo com Burrel & Morgan (1979) representou uma influência primordial no início dos trabalhos sócio-técnicos.
Portanto, como pode ser constatado, as contribuições teóricas para a gênese e difusão da abordagem sócio-técnica apresentam-se de tal forma diversificadas que Pasmore et al. (1982, p.1181) a interpretam como "tão eclética a ponto de resultar num arranjo amplo de teorias e técnicas das Ciências Comportamentais" ou seja, uma síntese original e complexa, cujo objetivo central é desvendar os requisitos principais de qualquer sistema tecnológico e as possíveis influências destes sobre o desempenho dos sistema social (Garcia, 1980).
Como principais focos difusores da abordagem sócio-técnica, além do Tavistock, na Inglaterra merecem destaque o Programa de Democratização Industrial (IDP), na Noruega e a corrente denominada 'Job Design', nos EUA, liderada por Louis Davis (1957) da Universidade de Los Angeles. No Brasil esta corrente é conhecida como análise e delineamento de cargos (Fleury, 1978; Garcia, 1980).
Dentre as principais características da Abordagem Sócio-Técnica, podem ser destacadas:
ênfase na interrelação entre o funcionamento dos seus sub-sistemas social (formado pelos indivíduos, as relações pessoais, inter e intra grupais, as relações sociais no trabalho, a cultura) e técnico (composto pela tecnologia, máquinas e equipamentos, procedimentos e tarefas), como também as relações entre a organização como um todo e o meio ambiente em que ela opera. A tecnologia foi incluída como o elemento mais importante pelos limites que impõe às possibilidades de adaptação do sistema, como também do equilíbrio entre as satisfações pessoais e as relações sociais no trabalho. (Emery e Thorsrud, 1976; Bolweg, 1976; Trist, 198l; Pasmore, 1982; Ortsman, 1984)
defesa do princípio da otimização conjunta, ou seja, a organização somente funcionará de forma otimizada se os sub-sistemas social e técnico estão projetados para se adaptar às demandas mútuas e ambientais. De acordo com esta abordagem torna-se inviável o aumento da eficácia organizacional enfatizando-se, exclusivamente, um dos sub-sistemas. Portanto, as técnicas que atuam unicamente no subsistema social, como o enriquecimento de cargos (proposto por Herzberg), não podem ser confundidas com a intervenção sócio-técnica (Pasmore et al., 1982).
a questão da escolha organizacional de acordo com a qual existem vários caminhos de projetar as organizações, para atingirem determinados objetivos e mais de um meio para atingir-se um fim específico (Pasmore et al., 1982). Segundo este princípio, não há determinismo tecnológico: existem escolhas quanto à concepção e adoção do desenho técnico, como também quanto à organização do trabalho. Mesmo utilizando a mesma tecnologia, há alternativas em relação às modalidades da organização do trabalho (Emery e Trist, 1965).
desenvolvimento de trabalho em grupo, através dos grupos semi-autônomos de produção (GSA), os quais controlam as suas póprias atividades e mantêm um certo grau de autonomia, no âmbito de suas tarefas. Para Sorensen (1985, p.144), esta é a maior inovação da abordagem sócio-técnica e que se tornou a sua principal característica: uma proposta de reorganização do trabalho, "uma estratégia prática de intervenção nas organizações, combinada com o pretexto de que a tecnologia de produção é muito prejudicial para estabelecer formas efetivas e saudáveis de organização do trabalho".
a preocupação com a evolução e o aprendizado contínuo dos projetistas e membros da organização, porque as organizações projetadas socio-tecnicamente, enquanto sistemas abertos, precisam estar continuamente preparadas para responderem, eficazmente, às contínuas demandas do ambiente.
B) Relação entre Tecnologia e Democracia de acordo com a AST
Para analisar como os sócio-técnicos interpretam a relação existente entre democracia e tecnologia, tem-se dois encaminhamentos distintos: conhecer os princípios norteadores da AST, especificamente relativos a estes dois conceitos e constatar, através dos relatos de seus experimentos, como os aplicaram e relacionaram empiricamente.
Inicialmente, tratando-se da democracia industrial foram os pesquisadores do IDP da Noruega, que constataram na implementação do Programa, vários problemas relacionados com a democratização nos locais de trabalho e, dentre estes, uma ausência de interesse nos sistemas de representação existentes e um baixo nível de participação dos empregados no seu trabalho cotidiano (Emery e Thorsrud, 1976; Ortsman, 1984; Sorensen, 1985). O IDP, então, centrou a sua atenção na democratizacão através da participação socio-técnica, no local de trabalho, com um duplo objetivo de fortalecer as bases de futuros sistemas de representação e, ao mesmo tempo, aumentar a produtividade.
Para o desenvolvimento da Democracia Industrial, o IDP procurou reorganizar as Empresas e instituiu o sistema de grupos semi-autônomos (GSA), como uma inovação organizacional no trabalho" (Thorsrud, 1981; Melo, 1985; Grootings, 1986; Fleury, 1987; Moniz, 1987a). O esquema de grupos semi-autônomos objetivou a confirmação da participação sócio-técnica no local de trabalho, fortalecendo a cooperação institucional, o sentimento de convivência, a identidade e a confiança mútua do trabalhador com o seu grupo e a satisfação psicossocial com o trabalho (Emery e Thorsrud, 1976). Portanto, com relação à democracia, os grupos autônomos foram a expressão concreta da abordagem sócio-técnica, atuando sobre a organização do trabalho.
No que se refere à tecnologia, para o IDP significava "um sistema de maquinaria que dava origem a tarefas com maior ou menor freqüência de manifestação" (Sorensen, 1985, p.145).
O problema era organizar de tal modo essas tarefas, de forma que conduzissem a melhoria das condições psicossociais do trabalho. Observa-se, pois, um conceito de tecnologia essencialmente mecanístico, sendo que o trabalho conjunto IDP/Tavistock não conduziu a uma avaliação da natureza social da tecnologia. Na realidade, a tecnologia, suas interrelações e distribuição espaço-temporal foram aceitas como dadas e fora do conjunto das ações intervenientes à disposição dos pesquisadores.
Constata-se, nesta forma de tratar a tecnologia, uma contradição entre a teoria e a prática sócio-técnica: dentre os princípios teóricos assumidos, há o princípio da escolha organizacional, sem a imposição da tecnologia sobre os rearranjos organizacionais, enquanto que, na prática (p.e., nos estudos de Trist e Bamforth nas minas de carvão inglesas), as conclusões apontaram para um certo determinismo tecnológico. Nas palavras de Ortsman (1984, p.145), conseguiram demonstrar que "o sistema técnico [no caso, a nova tecnologia mecanizada introduzida] determina as relações sociais, os comportamentos individuais, os conjuntos de estruturas sociais do local de trabalho".
E, apesar das colocações um tanto obscuras com relação à mudança tecnológica, muitos pesquisadores preferiram concordar com Davis (1957), assumindo que as novas tecnologias oferecem inúmeras oportunidades para desenvolver novas formas organizacionais e conduzir à qualidade de vida no trabalho, desde que os cargos sejam projetados e delineados de acordo com a abordagem sócio-técnica e não com os princípios da administração científica.
Para que se possa compreender melhor como os sócio-técnicos
analisaram as relações entre tecnologia e democracia,
Sorensen (1985) propõe o modelo a seguir:
FIGURA I-1 - MODELO SÓCIO-TÉCNICO
DE RELAÇÃO ENTRE TECNOLOGIA E DEMOCRACIA
A análise ampla do modelo da Figura I-2 destaca a tecnologia
como um sistema físico/mecânico, caracterizada como
um objeto socialmente neutro, sob a influência de fatores
ambientais, cuja discriminação Sorensen não
deixa claro. Evidencia, também, que a tecnologia não
apresenta um impacto direto, mas afeta a democratização
do local de trabalho, através da influência exercida
sobre as tarefas, limitando as possibilidades de aplicação
do delineamento de cargos, que visa atender às necessidades
psicológicas do trabalhador com relação ao
cargo.
A influência da Teoria dos Sistemas Abertos é bastante perceptível nesse esquema, pois os fatores ambientais afetam tanto a escolha da tecnologia e dos consultores externos à empresa, quanto a definição das tarefas e seleção dos princípios para o delineamento e a otimização conjunta dos subsistemas.
Quanto à organização do trabalho, depreende-se do modelo, que decorre tanto da definição das tarefas, quanto do delineamento dos cargos e dos objetivos da otimização conjunta. Desta forma, a distribuição das tarefas entre os trabalhadores, o grau de organização formal dos grupos e sua autonomia, estão de acordo com os pressupostos socio-técnicos da escolha organizacional e da otimização conjunta. De acordo com o que prevê o modelo, a organização do trabalho, através de formas inovadoras (dentre as quais a proposta dos GSAs) não só conduz à satisfação das necessidades psicológicas do trabalho, como apresenta o leque de possibilidades de participação dos trabalhadores a nível de 'chão de fábrica', através de representação.
Torna-se bastante evidente que o modelo sócio-técnico de relação entre tecnologia e democracia trata a participação dos trabalhadores como restrita ao nível sócio-técnico das tarefas, papéis de trabalho e necessidades psicológicas do cargo, negligenciando os aspectos políticos e culturais. Dentre estes, há uma lacuna quanto à interpretação do papel dos sindicatos e dos coletivos informais dos trabalhadores. As formas de resistência dos trabalhadores e os conflitos entre eles e a administração não são evidenciados, transmitindo uma noção falha de harmonia e cooperação.
O modelo deixa transparecer, também, que os trabalhadores estão capacitados a influir na escolha organizacional e na definição dos objetivos de otimização conjunta, tanto através da participação sócio-técnica direta, como pela representação.
C) Avaliação Crítica da Abordagem Sócio-Técnica
Apesar de ser reconhecida como um avanço em termos da teoria organizacional e contribuição efetiva à melhoria de condições e qualidade de vida no trabalho, a abordagem sócio-técnica da organização vem sendo alvo de muitas críticas, no sentido de suas limitações e incoerências teóricas e empíricas, como as apresentadas por Garcia (1980); Palloix (1982); Pasmore (1982); Ortsman (1984); Demo (1985); Sorensen (1985); Motta (1986a); Storch (1987).
Na avaliação de Garcia (1980), as possíveis limitações da abordagem sócio-técnica estão relacionadas com algumas áreas problemáticas que poderiam conduzir à redução dos horizontes existenciais dos membros individuais da organização. Partindo do objetivo principal da abordagem sócio-técnica, a otimização conjunta, o autor alerta que para atingi-la, torna-se necessária a análise e modificação da estrutura das tarefas produtivas, o que conduz a uma redefinição dos papéis sociais a fim de neutralizar as variações fundamentais que, eventualmente, possam ocorrer na produção. Esta forma de conduzir a análise, implica em duas áreas problemáticas: a primeira, decorrente da própria natureza do processo tecnológico e, a segunda, da ambivalência dos processos grupais.
Tratando-se da primeira área problemática, verifica-se que a estrutura das tarefas passa a ser intencionalmente delineada de forma abrangente. A partir daí, em função do delineamento de cargos, é que se analisa a constituição dos grupos sociais. "Isto significa colocar sob controle fatores como proximidade física dos membros individuais, nível de habilidade profissional requerida, fluxo de informações, interdependência e amplitude das tarefas requeridas" (Garcia, 1980, p.75). Sabendo-se que esses fatores são altamente significativos para o surgimento e a manutenção dos processos grupais, pode-se inferir que há uma determinação intencional de utilizar os grupos sociais como amortecedores de conflitos e toda a espécie de pressão externa. Implícita nessa interpretação, constata-se uma preocupação com a harmonia, contida na teoria do equilíbrio da organização (Burrel e Morgan, 1979).
Não se observa, portanto, uma prática de ação - reflexão, nem processos de denúncia - proposta, com vista à transformação de uma realidade. A situação de conflito entre o capital e o trabalho e a questão da dominação é mascarada em pról da idéia de integração e cooperação: "tudo se passa como se não houvesse, de fato, dirigentes e dirigidos, mas apenas supersistemas, sistemas e subsistemas a serem integrados [e otimizados] (Motta, 1986a, p.88).
O que realmente ocorre, parece ser um paradoxo às propostas da AST: ao serem reestruturados os cargos e as tarefas, em função da inovação tecnológica, observa-se que o controle intrínseco da tecnologia sobre as ações individuais expande-se amplamente. Isto contribui para tornar a tecnologia um instrumento de maior controle da gerência sobre os trabalhadores (Garcia, 1980).
Com relação à segunda área problemática, a ambivalência, a que se refere Garcia, deve-se ao aspecto contraditório da atuação do grupo de trabalho como fator de socialização, aumento do nível cultural e participação de seus membros, mas ao mesmo tempo, como limitação a uma futura emancipação do indivíduo, além de interpor-se como mediação inautêntica entre ele e o interesse geral dos demais trabalhadores. Dessa forma, se o delineamento de cargos não considera a natureza política das tecnologias e o caráter ambivalente dos processos grupais, provavelmente originará uma redução na capacidade individual dos membros participantes para a interpretação de problemas existenciais mais amplos.
A forma como é conduzida a otimização conjunta pelos sócio-técnicos, que sugerem a busca de um 'ótimo', tratando-se de ambos os sub-sistemas, técnico e social, é suscetível à críticas. Pois, "ao adotarem um conceito matemático de otimização estabelecem algo impossível, ou seja, empreender um processo de otimização utilizando duas variáveis dependentes, com dois sistemas diferentes de valores: a produtividade (em termos da percepção monetária dos trabalhadores) e a satisfação no cargo" (Sorensen, 1985, p.146).
No entanto, é evidente, em todos os trabalhos desenvolvidos de acordo com a Abordagem Sócio-Técnica, que não são admitidas soluções que conduzam a uma redução de eficiência. (Emery e Thorsrud, 1976, Ortsman, 1984). Para Garcia (1980, p.75) a abordagem sócio-técnica, na busca de otimização conjunta, releva uma carência de "um modelo autodeterminado da ação humana", ou seja, os valores humanos, que são considerados, são aqueles relacionados com a situação de tarefas produtivas e aos papéis sociais a serem desempenhados.
Ao assumirem uma concepção mecanicista da tecnologia os sócio-técnicos relegam a avaliação social da tecnologia, restringindo a sua análise ao âmbito das tarefas e cargos e conduzindo-a de tal modo que o sistema técnico determina os graus de liberdade presentes no projeto de delineamento dos cargos. Essa ausência de concepção política e social da tecnologia "conduz a uma insensibilidade com relação às conseqüencias sociais da pesquisa e desenvolvimento da tecnologia" (Sorensen, 1985, p.149), como também aos problemas de distribuição do poder e de controle social (Garcia, 1980).
Quando a AST assegura que a tecnologia oferece possibilidades inerentes para novas e mais saudáveis formas de organização do trabalho, é muito vaga ao descrever sob quais condições sociais as novas tecnologias podem apresentar os resultados desejados.
As críticas, com relação ao embasamento teórico da abordagem sócio-técnica e suas incoerências lógico-conceituais, não são menos severas para Sorensen (1985), quando avalia as falhas decorrentes da utilização da teoria dos sistemas abertos para descrever as organizações. Segundo o autor, em primeiro lugar, a abertura dessa teoria é mais pragmática do que real. Na prática, a AST negligencia muitas influências externas sobre a organização do trabalho, como por exemplo, o ambiente político da comunidade adjacente, histórico de vida dos trabalhadores, as flutuações econômicas e políticas da sociedade em geral, ou seja, "a Teoria dos Sistemas Abertos é bastante fechada para sensibilizar-se com questões transistêmicas" (ibid., p.148). Além do que, contrariamente à abertura teórica propalada, a AST procura explicar o sucesso ou o fracasso do empreendimento, sempre através de situações internas, a nível de chão de fábrica, desconsiderando as causas externas.
Em segundo lugar, para o mesmo autor, a concepção sócio-técnica de 'ordem social' de uma organização é simplista demais, insuficiente para uma verdadeira interpretação da organização de modo geral, tendendo a relegar o aspecto político e cultural da organização ao se concentrar demasiadamente nas tarefas, papéis de trabalho, necessidades psicológicas do cargo.
Desse modo, tornou-se difícil comprovar, praticamente, através dos experimentos do IDP, a declarada conexão entre participação sócio-técnica e democratização através de representação dos trabalhadores (Emery e Thorsrud, 1976). Provavelmente, isto é conseqüência da compreensão sócio-técnica da participação dos trabalhadores como fundamentalmete integrativa e não conflitual. Por isto o papel representado pelos coletivos informais de influência dos trabalhadores e sindicatos, não foi enfatizado. Justo estes sistemas de representação que historicamente têm sido o principal canal de participação de trabalhadores nas decisões.
Refletindo sobre o conceito restrito de participação sócio-técnica, Storch (1987) observa que se limita à situação imediata de trabalho, não prevendo um escopo mais amplo de participação política, no que se refere às decisões estratégicas da empresa. Aliás, a ausência de atenção às relações políticas que acontecem em uma organização é uma das falhas mais graves da abordagem sócio-técnica, pois dificulta o estudo da dinâmica interna das negociações formais e informais, da resistência dos trabalhadores e da participação formal.
Para concluir a avaliação crítica da abordagem sócio-técnica, é interessante refletir sobre o modelo de ciência em que se assentam os princípios dessa abordagem. Pela forma como são enfocadas as questões da tecnologia, da organização e dos comportamentos individuais e grupais é bastante perceptível a influência de pressupostos positivistas (Garcia, 1980; Sorensen, 1985). Além do que, ao estabelecer, como um dos seus referenciais básicos de análise, a teoria dos sistemas abertos, a abordagem sócio-técnica sofre influência do pragmatismo da sociologia norte-americana, em particular, quando se trata da problemática do aperfeiçoamento dos sistemas (Motta, 1980). Esse aperfeiçoamento constante, pode originar um dirigismo, expresso nas estratégias de controle social, que visam identificar os conflitos organizacionais com o objetivo de canalizá-los para a eficiência do sistema.
Nesse sentido, Palloix (1982), um dos críticos mais contundentes da AST, a avalia negativamente, por considerá-la como mais uma estratégia gerencial para impôr um controle global do processo de trabalho, através de uma relativa autonomia concedida ao trabalhador, somente sobre as suas tarefas imediatas. Porém, ao contrário das abordagens mecanicista e de relações humanas/comportamentalista, alguns críticos reconhecem que "há no entanto, no caso do modelo sócio-técnico, algo que foge um pouco à questão da manipulação eficientista, na medida em que se sugere, timidamente, vantagens da organização lateral" (Motta, 1986a, p.90). Reconhecem, também, que representou um avanço em termos do entendimento da atuação operária nos locais de trabalho, abrindo perspectivas de participação dos trabalhadores e contribuindo para uma melhor compreensão das relações existentes entre tecnologia e organização do trabalho.
A) Origens e Principais Características
A abordagem contingencial da organização surgiu em decorrência de diversos estudos teórico-empíricos desenvolvidos a partir da década de 50, que procuraram demonstrar a relação entre variáveis ambientais (contextuais) e diferentes formas estruturais e processos organizacionais.
Sobre as suas origens observa-se uma certa confusão principalmente com relação a abordagem sócio-técnica, com a qual mantém pontos referenciais comuns (Loveridge, 1980; Trist, 198O; Motta, 1986; Chiavenato,1987; Kelley, 1990). No entanto, há uma tendência geral em considerar que as origens da abordagem contingencial remontam a uma série de estudos, desenvolvidos nas décadas de 50 e 60, que procuraram explicar as variações no funcionamento e nas estruturas das organizações, de acordo com os seus ambientes operacionais.
Dentre os trabalhos originais destacam-se as pesquisas de Woodward (tecnologia e estrutura); Burns e Stalker (modelo organizacional e ambiente); Perrow (tecnologia e estrutura); Lawrence e Lorsch (organização e ambiente). Perrow, semelhantemente a de Woodward, procurou estabelecer um link entre tecnologia e estrutura, identificando a tecnologia de produção como o principal fator de definição do tipo de estrutura.
Por sua vez, Burns e Stalker (1961) constataram na sua pesquisa o surgimento de um novo modelo organizacional, que denominaram 'orgânico', dotado de grande flexibilidade, descentralização e desburocratização, em contraposição ao modelo mecanístico, cuja ênfase assentava-se nos princípios universais da administração científica. A predominância de um ou outro modelo gerencial ocorria em função do tipo de variação ou da estabilidade ambiental: o modelo mecanístico, prevalecia quando as empresas operavam em ambientes relativamente estáveis e o modelo orgânico, quando o ambiente apresentava-se em constantes mutações e condições instáveis.
Estes estudos contingencialistas foram amplamente interpretados (não necessáriamente por seus autores) como confirmando um determinismo tecnológico (Trist, 1980; Motta, 1986a; Kovács, 1987b; Bortolaia Silva, 1991). Na avaliação de Kovács (1987b, p.39) tanto para Woodward quanto para Perrow, a tecnologia representa "a mais importante contingência para as empresas". Porém, a literatura corrente não aponta para um consenso neste sentido. Loveridge (1980), todavia, defende que muitos autores contingencialistas atuais, contrariamente a literatura determinística dos anos 50, assumem um quadro interpretativo amplo.
Com relação as suas origens paradigmáticas, Burrel e Morgan (1979) interpretam o contingencialismo (que eles preferem denominar 'Teoria da Contingência') como uma síntese contemporânea de três vertentes referenciais: a Teoria dos Sistemas Abertos, a Abordagem Estrutural-Funcionalista da Organização e os estudos empíricos objetivistas, sobre motivação no trabalho, estilo de liderança, estrutura organizacional, tecnologia e muitas outras variáveis organizacionais que passaram a ser interpretadas com relação às diversas contingências ambientais. Estes autores destacam a obra de Lawrence e Lorsch, "As Empresas e o Ambiente", apresentada em 1967, como um marco referencial para a difusão da abordagem contingencial, por terem os autores concluído (após estudarem dez empresas operando em condições ambientais variáveis) que princípios organizacionais diferentes são apropriados a diferentes circunstâncias ambientais e, sem dúvida, em partes diferentes da mesma organização.
Assim como Burrel e Morgan, Chiavenato descreve o contingencialismo como uma síntese de diversas influências e contribuições teóricas de todas as teorias administrativas/organizacionais, desde a Teoria da Administração Científica à Teoria Geral dos Sistemas e Cibernética. De acordo com o esquema da Figura I-3, adaptado de Hicks e Gullet (1975), Chiavenato apresenta as contribuições das diversas teorias organizacionais ao contingencialismo, que ele denomina Teoria da Contingência.
Como sua principal característica, a abordagem contingencial parte do pressuposto que não há nada de absoluto nas organizações ou na teoria administrativa, mas tudo é relativo às contingências impostas pelo ambiente e pela tecnologia. Ou seja, não há uma única 'melhor maneira' (the one best way).
FIGURA I-2 - A CONTRIBUIÇÃO
DAS DIVERSAS TEORIAS
DA ORGANIZAÇÃO À TEORIA DA CONTINGÊNCIA
Outras características da abordagem contingencial são apontadas por Burrel & Morgan (1979) tais como:
A organização e o seu funcionamento são interpretados de acordo com a Teoria Geral dos Sistemas (o que equivale dizer, princípios que se aplicam aos organismos biológicos);
A organização é, então, vista como existindo em um contexto ambiental amplo, onde um estado de influência e interdependência mútua se estabelece. De acordo com este ponto de vista, a organização é um subsistema de um sistema social mais amplo, do qual o ambiente faz parte;
Há uma preocupação em interpretar e representar as relações que se estabelecem entre a organização e o seu ambiente, que são vitais para a sobrevivência organizacional;
A organização é analisada como sendo formada por diversos subsistemas funcionais, cada qual interagindo com elementos do ambiente externo. Estes subsistemas, juntamente com o ambiente, dão origem às contingências que atuam sobre a organização.
As organizações contemporâneas são interpretadas como localizadas em ambiente turbulento e incerto, no qual mudanças políticas, econômicas, sociais, técnicas e mercadológicas acontecem muito rapidamente. De acordo com esta interpretação, a era do ambiente organizacional estável e certo já foi ultrapassada (Burrel e Morgan, 1979).
B) Relação entre Tecnologia e Democracia segundo a Abordagem Contingencial
A literatura contingencialista não trate de forma tão enfática e objetiva a questão da relação entre tecnologia e democracia, da mesma forma que as duas abordagens anteriores, mas oferece indicativos para a sua interpretação, pois a tecnologia tem sido privilegiada dentre as diversas contingências, muitas vezes associada com a participação dos trabalhadores e/ou a organização do trabalho. É o caso dos estudos de Loveridge (1980); Wallace (1989) e Keley (1990).
Loveridge (1980) analisa as contingências ambientais (dentre as quais destaca a tecnologia), como influenciadoras, mas não determinantes, da configuração dos sistemas de controle dos locais de trabalho. Segundo este autor, as condições de participação estão diretamente relacionadas com duas variáveis: o potencial de participação, decorrente das condições estruturais que facilitam ou impedem a interação entre trabalhadores e gerência; e a propensão dos atores para participar, considerada como "a habilidade (conhecimento ou qualificação) para compartilharem da tomada de decisão e o desejo de fazê-lo" (ibid., p.298).
Refletindo sobre as condições necessárias ao potencial de participação, Loveridge entende que a tecnologia estabelece limites para o compartilhamento de poder, que devem ser considerados conjuntamente com as variáveis organizacionais tamanho e estrutura. Por sua vez, o autor reconhece a existência de interdependências tanto da estrutura quanto da tecnologia de produção com o ambiente externo, o estilo gerencial e a filosofia de relações industriais. Porém, acrescenta, "diversas características da estrutura organizacional, particularmente que têm consequências sobre a participação, são de algum modo, configuradas pela tecnologia" (ibid., p.303).
Já Wallace (1989) reconhece que as pesquisas passadas são inconclusivas a respeito dos efeitos da mudança tecnológica sobre a satisfação no trabalho, a alienação do trabalhador e autonomia. Ele advoga uma abordagem contingencial na análise dos efeitos da mudança tecnológica sobre a qualidade de vida no trabalho, entendida como um conceito amplo que inclui as possibilidades de autonomia no trabalho, aumento do grau de responsabilidade e participação nas decisões.
De acordo com esta perspectiva, os efeitos da tecnologia não seguem uniformemente a mesma direção, tratando-se de diferentes indústrias, com diversidade de processos intra-organizacionais e dependem do grau de participação dos trabalhadores nas decisões sobre as novas tecnologias. Wallace (ibid., p.387) defende que "a mudança tecnológica constante poderá criar um clima de caos organizacional, se os trabalhadores não forem consultados e envolvidos na sua implementação" (ibid., p.387).
Por sua vez, Kelley (1990), em sua pesquisa, procura interpretar as implicações da introdução de inovação tecnológica (no caso máquinas CNC) sobre as relações de trabalho, no que se refere à autonomia, poder e controle, e, apesar de não abordar diretamente a questão 'tecnologia e democracia', oferece pistas e dá margem a interpretações correlatas.
Particularmente, sobre a participação dos trabalhadores e a questão das novas tecnologias, a pesquisa concluiu que nas empresas de menor porte e de menor complexidade organizacional, onde as estruturas organizacionais eram simples e não havia controle burocrático (formal), as relações informais entre operários e supervisores eram facilitadas. Nelas, os trabalhadores que atuavam em pontos fundamentais do processo de produção, operando as novas máquinas CNC, adquiriram maior autonomia e responsabilidade na tomada de decisão.
Portanto, estas pequenas firmas, tendiam a oferecer maiores oportunidades de democratização do local de trabalho, com a introdução das novas tecnologias, independentemente das condições técnico-econômicas. Ao contrário, nas organizações maiores e mais complexas, onde a burocratização e a formalização de procedimentos eram maiores, as relações hierárquicas eram mais autoritárias e as relações industriais vigentes não ofereciam condições de participação dos trabalhadores nas decisões, nem aumento de qualificação com a introdução da automação microeletrônica.
Curiosamente, em função de suas observações, Kelley concluiu que, com relação à democratização do trabalho, a presença dos sindicatos representava um fator prejudicial, contrariando as conclusões de diversos autores no sentido de representam um elemento significativo no combate às conseqüências negativas dos processos de automação (Emery e Thorsrud, 1976; Marques, 1986; Neder, 1988b; Leite, 1987,1990,1992; Bresciani, 1990). Segundo a autora, isto acontece, porque nos EUA a presença dos sindicatos é vista como uma ameaça e os empresários relutam em compartilhar poder e controle com os operários sindicalizados.
C) Avaliação Crítica da Abordagem Contingencial
Apesar de ter o mérito de desmistificar os princípios universais da Administração Científica, incluindo a melhor maneira de se organizar, alertar sobre os fatores contingenciais diversos que atuam sobre as organizações e as relações funcionais que se estabelecem entre eles e as práticas administrativas, a abordagem contingencial é alvo de inúmeras críticas.
Os críticos apontam a pluridiversidade paradigmática como o maior problema, pois invibializa a sua coerência conceitual e estabelecimento como uma verdadeira teoria organizacional. Daí a polêmica entre os que assumem o contingencialismo como sendo apenas uma das abordagens sistêmicas (Koontz, 198O; Wallace, 1989; Kelley, 1990) e os que lhe atribuem o caráter de 'teoria' (Burrel e Morgan, 1979; Loveridge, 1980; Motta, 1986a; Chiavenato, 1987; Kovács, 1987b).
Tendo como matriz paradigmática mais significativa a Teoria Sistêmica, a abordagem contingencial padece das mesmas fragilidades e incoerências de que o sistemismo é alvo, enquanto modelo de ciência que reproduz (o positivismo) e a teoria social com que se identifica, baseada no eficientismo e na colaboração entre as classes. Nem sempre de forma explícita, o contingencialismo tenta reproduzir a ideologia da manutenção do equilíbrio, uma contradição para uma abordagem que defende a dinâmica ambiental, a ação contingencial das variáveis ambientais e a necessidade de uma resposta organizacional também contingente. Mudam os níveis de equilíbrio, mas a homeostase é um objetivo permanente, ou, nas palavras de Motta (1986a, p.85) "mudar para de fato não mudar".
Na busca do equilíbrio, objetiva-se a integração dos dominados, numa sociedade burocrática de consenso. Desta forma, o tipo de conflito que oculta é o conflito contingencial (relativo aos métodos de administração, à tecnologia e ao processo de trabalho), não se aceitando o conflito político permanente entre capital e trabalho. Esta maneira de avaliar o conflito, confirma a identificação da abordagem contingencial com as abordagens do tipo gerencialista, que adotam uma visão despolitizada das organizações, como sistemas normativamente integrados (Bastos e Seidel, 1992).
Nessa perspectiva, a participação dos trabalhadores é avaliada de forma reducionista como um meio para incrementar o desempenho organizacional e atingir a eficiência/eficácia, seja através do aumento da produtividade, seja através da capacidade de adaptação às mudanças (Storch, 1987).
Na avaliação de Motta (1986a), similarmente à abordagem sócio-técnica, o contingencialismo escamoteia as questões do poder e da dominação na idéia de integração e, conseqüentemente, o conflito entre a parte (indivíduo) e o todo (organização) aparece como uma disfunção na medida que tudo é pensado em termos de equilíbrio, harmonia e cooperação, de acordo com a ideologia das relações humanas.
Além disso, apesar de evidenciar o papel das contingências, a abordagem contingencial não trata a reação operária, as suas formas de organização, lutas e resistência como uma contingência a ser interpretada. Observa-se a valorização exacerbada de duas variáveis contingenciais: a tecnologia e o ambiente, funcionando na maioria das interpretações como verdadeiros imperativos ou determinantes de certos aspectos organizacionais, como p.e. a estrutura e a organização do trabalho. (Woodward, 1977; Perrow, 1981). Isto justifica as críticas aos contingencialistas como defensores do determinismo tecnológico (Trist, 1981; Chiavenato, 1987).
Da mesma forma que a AST, a abordagem contingencial também não discute a natureza social da tecnologia e isto representa uma limitação conceitual significativa, principalmente para o estabelecimento de relação entre a democratização industrial e a introdução de novas tecnologias de produção. Como também, pelo fato de se constitituir numa abordagem gerencial de cunho eficientista, interpreta a qualidade de vida no trabalho, a participação dos trabalhadores nas decisões e a democratização industrial unicamente como meios para o atingimento da eficácia organizacional. E, para concluir, considerando o seu caráter eclético e integrativo, a abordagem contingencial pressupõe que nenhuma das teorias administrativas está superada, sendo que cada uma delas é válida para uma dada situação, dentro da qual funciona adequadamente, despojada de qualquer valoração política e social.
4.3. Abordagem do Processo de Trabalho (APT)
A) Origens e Principais Características da APT
A Abordagem do Processo de Trabalho é considerada como uma das abordagens marxistas, desenvolvida principalmente nos meios acadêmicos, a partir da década de 70, utilizando encaminhamentos distintos, de tal forma que seria impossível, e, até mesmo sem significado, falar-se sobre 'a teoria' ou 'a abordagem marxista'.
As interpretações das obras de Marx, em especial o Capital e Grundisse, foram as fontes originárias de todas as diversas abordagens marxistas, algumas eminentemente ortodoxas e outras, fruto de uma releitura e reinterpretação de Marx à luz de novas contribuições teórico-conceituais, consideradas, por esse motivo, como heterodoxas. Dentre essas últimas, situa-se a Abordagem do Processo de Trabalho.
Para Erber (1982), a fonte de inspiração teórica na obra de Marx é perfeitamente explicável, devido à inquestionável minúcia e o interesse profundo com que o autor analisa o processo e a organização de trabalho, as relações que se estabelecem entre os trabalhadores, destes com as máquinas e com os patrões. De acordo com o mesmo autor, Marx procurou estabelecer um link entre a tecnologia e os processos de produção e do trabalho, concedendo ênfase especial ao estudo do progresso técnico. Apresentou, também, previsões surpreendentes acerca dos impactos sócio-econômicos da automação, muitas das quais confirmaram-se, quase um século após (Marx, 1980).
O descaso a que ficou relegado o estudo do processo de trabalho, durante mais de meio século, deve-se, em parte, ao longo período de predomínio do paradigma econômico neoclássico, que interpretava o progresso técnico como um dado para a empresa e a sociedade, sendo que a escolha das tecnologias deveria ocorrer, exclusivamente, com base em critérios de racionalidade técnico-econômica desprovida de considerações políticas" (Erber, 1982; Feldman, 1988).
Diversos fatores contribuíram para que os estudos sobre o processo de trabalho ficassem relegados durante tanto tempo, tais como, o interesse dos teóricos marxistas por outras questões como a política, a economia, a cultura na nova forma do capitalismo monopolista, os direitos humanos e as guerras (Buroway, 1990; Zimbalist, 1979). Na realidade, o que está implícito às explicações é a questão da paz (aparente e temporária) entre o capital e o trabalho, pelo menos nos países líderes do capitalismo. Não ocorrendo o problema, não existia razão para que os teóricos marxistas se fixassem no assunto.
Entretanto, à situação de estagnação e marasmo intelectual descrita, sucedeu-se um momento de ruptura radical, a partir do final da década de 60. Nesse período, um conjunto de episódios e fatos marcantes fizeram eclodir uma nova postura social de rejeição do processo e das formas organizacionais do trabalho no capitalismo. Essas turbulências político-sociais, reverteram uma situação favorável ao capitalismo na obtenção de eficácia e produtividade, culminando com a crise geral das economias capitalistas e o avanço do socialismo no mundo e foram fundamentais para o ressurgimento do interesse pela análise do processo de trabalho e das formas sob as quais ele é organizado (Erber, 1982, Sorensen, 1985, Braverman, 1987).
Na avaliação de Sorensen (1985) é, principalmente, a partir da revolta dos estudantes no final dos anos 60, que as teorias marxistas heterodoxas ganharam espaço e popularidade crescente como base da pesquisa social. Há um certo exagero na sua avaliação, pois, ainda que pese a importância desse fato, é preciso compreender que o descompasso e a ruptura da 'harmonia' começou nas fábricas, com um eclodir contínuo de rebeliões, sabotagens, paralizações e greves (Marglin, 1981; Fraser, 1983; Vieira, 1989).
O reestabelecimento da abordagem do processo de trabalho, como fundamentação teórica de prestígio decorreu tanto da incapacidade das teorias não marxistas de interpretarem e ofecerem propostas de soluções aos problemas sócio-econômicos, quanto das críticas à ortodoxia e rigidez do modelo soviético. Com isto, facilitou-se o surgimento de um neo-marxismo que empreendia novos enfoques dos problemas do capitalismo e do socialismo, destacando as abordagens que privilegiavam a interação entre capital, processo de trabalho, tecnologia e trabalhadores. Dentre essas, a que mais contempla a interrelação entre tecnologia e democracia, é sem dúvida a APT, além de ser a mais difundida entre os países de língua inglesa (Sorensen, 1985).
Para compreender os pressupostos básicos da APT, é preciso discorrer, inicialmente, acerca da interpretação do processo de trabalho e compreender que, embora os estudos sobre o processo de trabalho situem-se em um espaço de investigação interdisciplinar (que inclui a sociologia e a economia do trabalho, a engenharia de produção, a antropologia social, a administração e a história), mantêm um ponto comum de referência, que é a análise marxista no contexto do modo de produção capitalista (Erber, 1982; Ferreira, 1984).
Partindo-se da análise marxista, inicialmente é necessário compreender os elementos componentes do processo de trabalho, quais sejam: a atividade adequada a um fim (o próprio trabalho); a matéria a que se aplica o trabalho (ou o seu objeto) e os meios de trabalho (o instrumental utilizado). A matéria e os meios constituem-se em formas de produção e, dentre os meios, Marx enfatiza a tecnologia. O trabalhador ao ser introduzido no processo de trabalho, depara-se com os objetos de trabalho (matérias-primas) e com os meios de trabalho. Se estes objetos e meios de trabalho (meios de produção) pertencem a um conjunto de trabalhadores ou a um proprietário, em nada afeta a essência do processo de trabalho. Isto indica, entretanto, diferentes relações de produção (Faria, 1992).
Portanto, segundo o próprio Marx (1983, p.l53) em seus elementos simples e abstratos,
"o processo de trabalho é uma atividade orientada a um fim para produzir valores de uso, apropriação do natural para satisfazer as necessidades humanas; condição universal do metabolismo entre o homem e a natureza, condição natural eterna da vida humana e independente de qualquer forma dessa vida, sendo antes igualmente comum a todas as suas formas sociais".
Especificamente, considerando-se a perspectiva de análise marxista do processo de trabalho no modo de produção capitalista, a ênfase recai na questão fundamental, relacionada com o processo de valorização do capital que foi investido na produção (Marx, 1983; Faria, 1992; Roese, 1992). Marx denominava "processo de trabalho capitalista, aquele em que o processo de trabalho e o processo de valorização são um único processo" (ibid., p.162).
No modo de produção capitalista, o trabalhador trabalha sob o controle do capitalista, a quem pertence o seu trabalho e o produto final não é propriedade do produtor imediato (trabalhador). Os trabalhadores perderam, portanto, o domínio/controle sobre o processo de trabalho e "concomitantemente o capital transformou os instrumentos de trabalho em armas necessárias para o seu processo de acumulação" (Buzanello e Cário, 1984, p.20). A acumulação não é, pois, uma alternativa, mas sim uma imposição, a própria essência do capitalismo.
Como um meio eficaz de acumulação, o capitalista utiliza o processo de trabalho como uma forma de valorização do capital investido, através da geração da mais-valia. Ou seja, a elevação do tempo de trabalho suplementar, além do domínio exercido sobre o processo de trabalho, representa a forma do capitalista ampliar os seus lucros, pois, intensificando-se o processo, reduz-se o tempo efetivamente necessário à produção dos bens.
O progresso técnico facilita a acumulação do capital, pois, ao racionalizar de tal forma o processo de produção faz com que o tempo efetivamente necessário passe a ser cada vez menor, aumentando portanto a parcela do tempo de trabalho suplementar, ou seja, a mais-valia. Além do que, o processo sofre uma transformação, no sentido de que se reduz o trabalho vivo (realizado pelo trabalhador) e aumenta o trabalho morto (realizado pelas máquinas e tecnologias). Portanto, através da análise marxista do processo de trabalho torna-se claramente evidenciada a forma com que o capitalismo busca a sua valorização através do trabalho excedente.
A partir do entendimento do processo de trabalho, é possível resgatar as origens referenciais da APT. A sua mais significativa fonte referencial, inegavelmente, encontra-se na obra de Braverman, "Trabalho e Capital Monopolista", publicada nos EUA em 1974, inspirada tanto numa controvérsia teórica sobre o tema, quanto em estudos empíricos, que, juntos, constituíram a APT (Sorensen, 1985).
Braverman apresenta um estudo panorâmico do desenvolvimento do trabalho no capitalismo monopolista, concentrando-se nos processos de trabalho, no modo específico pelo qual eles são constituídos pelas relações de propriedade, conduzindo a sua crescente degradação no século XX. Ao contrário do que se pressupunha, com a elevação do grau de automatização, os trabalhadores denunciavam maior parcelização das tarefas, aumento da monotonia, do 'stress' e da alienação. A contribuição de Braverman passa a ser, então, de primordial relevância para a explicação do fenômeno contraditório relativo à qualidade de vida no trabalho e às novas tecnologias de produção.
Além da obra de Braverman, podem ser citados outros estudos de grande valia para o despertar da análise do processo de trabalho. Entre eles, Erber (1982) destaca a influência dos intelectuais italianos de esquerda, dentre os quais Panzieri e Bologna (1982), cujas publicações se opuseram à linha assumida pelo PCI, colaboradores e divulgadores da obra "Processo de Trabalho e Estratégias de Classe" ("The Labour Process and Class Strategies"), em conjunto com Palloix (França) e Sohn-Rethel (Alemanha).
Nos EUA, destaca-se a contribuição do economista Andrew Zimbalist (1979), organizador de uma coletânea de estudos de casos na indústria norte-americana, que se tornou um marco de referência teórico-empírica na divulgação da APT, inspirada na obra de Braverman. É inegável também a influência exercida pelos estudos de Noble, em especial através de obra "Forces of Production: a social history of industrial automation", publicada em 1986, onde denuncia o caráter político-ideológico das tecnologias de produção, tratando, especificamente, das razões do projeto e difusão do comando numérico.
Na França, um referencial de inquestionável influência é a afamada publicação de André Gorz, "Critique de la Division du Travail", editada em 1973 com a colaboração de Pignon e Querzola. Embora o foco central de questionamento da obra esteja relacionado com a natureza e a superação da divisão capitalista do trabalho, a análise do processo de trabalho, utilizando Marx como quadro teórico referencial, perpassa todo o trabalho de Gorz. Como contribuições significativas, dentre a produção francesa, deve-se incluir os trabalhos de Coriat (1976) e Freyssenet (1977).
Para Chanlat (1989, p.389), de acordo com análise sociológica das organizações, a Abordagem do Processo de Trabalho insere-se no que ele denomina 'corrente crítica', cujos representantes "rejeitam a concepção estrutural-funcionalista da organização e privilegiam certas dimensões como a divisão do trabalho, o poder e a ideologia", além de analisarem o poder sob o ângulo da dominação e denunciarem o caráter ideológico das filosofias gerencialistas e da teoria das organizações. No plano teórico, a corrente crítica assume uma concepção dialética das organizações.
Na América Latina, particularmente no Brasil, essa abordagem desfrutou de crescente 'status' nos meios acadêmicos, a partir da década de 70, por ser extremamente adequada à análise das relações capitalistas de produção, específicas destes países, onde as mazelas e as contradições do capitalismo se revelam na sua forma mais cruel e contundente (Littler e Salaman, 1982). A sua influência é perceptível nos trabalhos de Kuenzer (1985); Faria (1985, 1987, 1992); Espíndola (1985); Bruno e Saccardo (1986); Vieira (1989), Mangabeira (1993), dentre outros.
Analisando-se os trabalhos publicados de acordo com a APT observa-se que apresentam características comuns, gravitando em torno da tese central de Braverman, segundo a qual a degradação cada vez maior do trabalho no século XX ocorre em função da crescente subsunção do processo de trabalho ao capital e a perda de poder e controle dos trabalhadores sobre ele. Disto decorre uma redução da democratização no local de trabalho, que acontece paralelamente às mudanças tecnológicas como resultante do modo capitalista específico de empregar tecnologia.
A APT denuncia um aumento da 'taylorização' no trabalho, um conceito utilizado por Braverman (1987) como significando:
dissociação entre o processo de trabalho e a qualificação do saber operário;
separação entre a concepção e a execução do trabalho e
utilização, por parte da gerência, do monopólio do saber, para controlar cada passo do processo de trabalho e a sua execução.
Sempre atendo-se à interação entre tecnologia e o processo de trabalho, a APT interpreta que a taylorização não resulta necessáriamente do desenvolvimento tecnológico no processo de produção. Ela surge como uma forma específica de implementar as novas tecnologias com o objetivo de assegurar ao capitalista maior controle sobre o processo de trabalho e, ao mesmo tempo, extrair dele o maior lucro possível. A tecnologia, por si mesma, não apresenta tais consequências (Noble, 1986).
Ainda, de acordo com esta perspectiva de interpretação, as novas tecnologias dão origem a trabalhos mais rotineiros nas bases organizacionais (bottom level), enquanto concentram maiores responsabilidades em poucas funções especializadas, principalmente situadas nos níveis hierárquicos mais altos (top level). Como consequência deste fenômeno, observa-se uma maior concentração de poder nos níveis superiores, às custas da perda de autonomia dos trabalhadores nos níveis mais baixos.
Como se pode observar, o foco da atenção e o locus da análise, de acordo com a APT, é o próprio processo de trabalho, entendendo-se que, na produção reproduzem-se as condições determinadas pelas relações capitalistas. Depreende-se daí, que a APT é muito mais integrada numa teoria geral da sociedade do que a AST, embora às vezes, esta evidência não seja muito aparente, quando ocorre uma atenção demasiada no processo individual de trabalho.
A própria produção da tecnologia é analisada como sendo afetada pelas relações capitalistas de produção (Noble, 1979; 1986) e a APT procura desmascarar e explicar a verdadeira razão para a utilização de determinadas tecnologias, no sistema de produção capitalista. Na sua avaliação, os motivos estão relacionados tanto com o lucro, quanto com o controle do processo de trabalho e é evidente a conexão desses motivos com o processo de acumulação do capital e a reprodução da hegemonia burguesa na sociedade. Porém, o que é muito significativo, segundo a APT, é a luta do capitalista pelo controle, que emerge como a motivação maior à introdução de novas tecnologias (Noble, 1986, Sorensen, 1985).
Outra característica marcante da APT é a utilização dos métodos histórico e dialético, o que, ao contrário das abordagens anteriores, torna possível uma prática de ação-reflexão e denúncia-proposta, visando a transformação da realidade analisada. Também, diferentemente da abordagem sócio-técnica a APT, não foi divulgada através de experiências, nem se engajou em intervenções clínicas (Sorensen, 1985). Ao contrário, houve uma certa limitação da difusão, restrita aos meios acadêmicos e intelectuais que impediu a sua popularidade.
No que se refere à participação, a APT considera que "as demandas por participação dos trabalhadores, controle e democracia industrial, baseados apenas em esquemas ou estruturas formais de representação, de acordo com a organização existente, é decepcionante", na opinião de Braverman (1987 p.376). Segundo o mesmo autor, a organização do trabalho precisa ser reformulada de modo que o operário recupere o conhecimento técnico e o controle sobre o trabalho, sem o que, permanecerá na dependência dos técnicos da produção. A possibilidade de eleger representantes, por si só, não vai alterar essa dependência.
B) Relação entre Tecnologia e Democracia de acordo com a APT
Conforme já destacado, a abordagem que analisa mais profundamente a relação entre tecnologia e democracia, é sem dúvida, a APT (Sorensen, 1985). Inicialmente, importa ressaltar a concepção de tecnologia assumida pela APT, não apenas como um sistema físico e mecânico (maquinaria), mas imbuída de natureza social, política-ideológica, além de sua natureza econômica.
Originalmente, os defensores da APT, corroborando a interpretação de Braverman, a partir de Marx, concluíram que a tecnologia é uma forma específica que o capitalismo lança mão para ampliar o controle sobre o processo de trabalho e sobre os trabalhadores e, ao mesmo tempo, aumentar, os lucros (através do incremento da mais valia-relativa). Como decorrência desta forma específica de ação, constata-se uma perda efetiva na democratização no local de trabalho, em função da perda do controle do trabalhador sobre o processo de trabalho. Em outras palavras, a tecnologia é uma forma de dominação social (Rattner, 1982; 1985). Adotando a mesma linha de raciocínio, Espíndola (1985, p.80 ) analisa as novas tecnologias "como um elemento da estratégia global da crise do capitalismo".
Entretanto, a APT evoluiu a partir de diversas críticas à unilateralidade da avaliação de Braverman, visando resguardá-la de uma total 'bravermania'. Surgiram contribuições ampliadas decorrentes da introdução do conceito de "resistência dos trabalhadores aos esforços capitalistas para reestruturar o processo de trabalho" (Sorensen, 1985, p.15l). Esses estudos procuram demonstrar que os trabalhadores têm sido, historicamente, bem sucedidos na sua forma de resistência à estratégia de ampliação do poder do capital, via inovação tecnológica. Eles não permaneceram passivos, à mercê das consequências danosas da tecnologia (Littler e Salaman, 1982, Burawoy, 1990; Leite, M., 1990).
O desenvolvimento atual da APT, deixa transparecer a importância
do detalhe histórico para a interpretação
das relações entre tecnologia e democracia, alertando
sobre a impropriedade da construção de modelos genéricos
e abstratos. Todavia, apesar de considerar válida esta
recomendação, Sorensen (1985) propõe o seguinte
modelo para representar as relações entre tecnologia
e a democratização industrial, de acordo com os
pressupostos gerais da APT (Figura I-3).
Analisando-se o modelo da APT representado na Figura I-3 e comparando-se com o modelo da AST (Figura I-2) constata-se que diferem substancialmente e que estas diferenças são, sobretudo, de natureza conceitual. Em primeiro lugar, a APT apresenta a tecnologia não de forma restrita, como o faz a AST, mas numa percepção ampla, como um instrumento de estratégia política e social e um objeto das luta de classe. Observa-se, também, de acordo com o modelo da APT, que a tecnologia representa um desafio, (ao invés de uma oportunidade) para a posição, o poder e o controle que os trabalhadores mantém na empresa e contra o qual eles mesmos têm que se organizar e defender-se.
Tanto a tecnologia quanto a mudança tecnológica são interpretadas pela APT, como conduzidas pelo capital (embora não explícitamente), com o objetivo de aumentar o lucro e o controle sobre o processo de trabalho. Para tanto, ocorre uma escolha planejada de tecnologia por parte do capital, que conduza ao aumento da produtividade, à redução dos custos com a mão de obra e ao aumento do controle sobre a execução das tarefas (Noble, 1986).
A fim de realizar os seus objetivos, o capital sugere novas formas de organização do trabalho e sistemas de controle, que atuam sobre o 'locus' de produção, à medida que acontecem a implementação das mudanças técnicas e organizacionais. Nesta etapa, faz-se sentir a influência dos trabalhadores e a sua capacidade de resistência, ocorrendo uma verdadeira batalha entre a administração e os trabalhadores. Em função da correlação de forças, ocorrerão mudanças na forma de controle exercido pelos trabalhadores sobre as suas tarefas, nas possibilidades de exercerem influência e também nas suas qualificações.
Conseqüentemente, tanto poderá acontecer um crescimento da democratização industrial ou, ao contrário, um retrocesso, ampliando-se o autoritarismo e o controle sobre os trabalhadores. Observa-se, também, uma dupla intervenção dos trabalhadores quanto à implementação das mudanças técnicas e organizacionais: diretamente ou indiretamente, através dos sistemas representativos.
Portanto, de acordo com esse modo de interpretar a democratização através da participação, surgem possibilidades que podem ser exploradas tanto pela administração, quanto pelos trabalhadores. Como o modelo de Sorensen representa a organização como uma arena de conflitos, "quem sairá vencedor depende da correlação de forças, da capacidade de resistência e pressão de cada uma das partes" (ibid., p.152).
C) Avaliação Crítica da APT
Embora a maioria das críticas à APT tenham sido dirigidas exclusivamente à obra de Braverman, deve-se ter claro que ela não se resume a esta contribuição, apesar de ser reconhecida como sua fonte originária (Sorensen, 1985), tendo o mérito de recolocar o processo de trabalho numa posição privilegiada para a teorização e o debate sociológico.
Dentre os críticos da APT encontram-se Littler & Salaman (1982, p.265), que discordam da análise unilateral de Braverman com relação ao controle, assumido quase como uma condicionante sobre o processo de trabalho no capitalismo monopolista. Para eles "os capitalistas não estão, acima de tudo, (apesar da insistência de alguns autores recentes), interessados no controle por si só, mas a prioridade máxima do capitalismo é a acumulação. O controle só se torna uma preocupação, quando a produtividade está ameaçada".
Esta é uma das teses mais polêmicas acerca da APT, com encaminhamentos diferenciados, destacando-se a contribuição de Edwards (1979), no sentido da defesa do controle como o elemento mais significativo para o processo capitalista de acumulação. De acordo com a sua interpretação, mais controle do que mais eficiência é que conduz a maiores lucros. Apontam nessa perspectiva, os estudos de Marglin (1987) e, recentemente, Vieira (1995), no sentido de atribuir ao controle e ao disciplinamento da força de trabalho um papel preponderante frente às opções organizacionais e tecnológicas dos capitalistas.
Por outro lado, há que se considerar a contribuição de Friedman (1977) quanto ao controle, repensando-o em termos de duas estratégias gerenciais distintas: a do controle direto e a da autonomia responsável. O controle direto corresponde ao processo de desqualificação em Braverman, enquanto que a autonomia responsável atrela os operários aos interesses do capital, permitindo-lhes operar um controle limitado sobre as tarefas e uma unidade, também limitada, entre concepção e execução. A primeira estratégia, assume mecanismos de coerção direta e autoritarismo explícito. A segunda, mais sutil, utiliza o envolvimento e a cooptação dos trabalhadores, para controlá-los valendo-se de formas implícitas de autoritarismo. Ambas, porém, visam atingir os mesmos objetivos: "estender e manter a autoridade gerencial sobre as pessoas que são livres, mas alienaram a sua força de trabalho" (Ramalho, 1991, p.34).
Burawoy (1990) corrobora a concepção de controle gerencial de Friedman, acrescentando que a sua utilização está condicionada à capacidade de resistência operária. No seu entendimento, no período inicial do capitalismo, a autonomia responsável era vista como um legado do passado, relacionada com o sistema artesanal e assumiu a forma de controle direto sobre o ofício, enquanto que, na etapa monopolista, passa a ser uma estratégia gerencial consciente de prevenção contra a resistência dos operários. Para o autor, reforçado em suas colocações por Adler e Borys (1987), se interpretado dentro de uma avaliação mais ampla, o processo de produção não se restringe ao processo de trabalho, mas inclui também os aparelhos políticos ou regimes fabris, considerados como seu modo de regulação e as políticas de produção. Em outras palavras, o processo de produção contém tanto elementos políticos e ideológicos quanto a dimensão puramente econômica.
Além do papel do Estado, como delimitador direto dos métodos de dominação e controle gerencial, Burawoy acrescenta na sua análise, elementos subjetivos do controle, relacionados com os domínios políticos e ideológicos do trabalho. Entretanto, a análise que desenvolve sobre os elementos subjetivos é motivo de diversas críticas por teóricos recentes da APT (Thompson, 1990; Clawson e Fantasia, 1983), principalmente sobre a forma de condução dos seus estudos. Ao defender o consentimento como algo independente de fatores externos e das condições de mercado, Burawoy revela uma visão a-histórica e a-dialética do trabalho.
Sorensen (1985) admite que teóricos pós-Braverman evoluíram, no sentido de considerar como importante a análise dos aspectos políticos, culturais e ideológicos das empresas capitalistas, além dos aspectos técnico-econômicos. É o caso da capacidade de organização e resistência dos trabalhadores, em parte menosprezada pelos teóricos mais radicais da APT (na linha de Braverman), que subestimaram a capacidade de organização e resistência da classe trabalhadora (Sorensen,1985; Adler e Borys, 1987). De acordo com Sorensen (ibid., p.155),
"em primeiro lugar, há uma questão de estrutura versus ação humana - althusserianismo versus historicismo ou humanismo - a qual requer clarificação. Em segundo lugar, é duvidoso se o conceito de resistência de fato permite-nos compreender apropriadamente as lutas de classe na fábrica."
Estratégias puramente defensivas podem ser assumidas pelos trabalhadores e sindicatos, como forma de reagirem às tentativas gerenciais de reestruturação do processo de trabalho. Porém encontram-se inúmeras experiências de utilização de estratégias ofensivas na tentativa de modificação do projeto de novas tecnologias (como p.e., o caso da Fiat italiana, com relação às novas tecnologias). E, mesmo considerada como indicativo de fragilidade, uma estratégia defensiva pode ser assumida temporáriamente e de forma consciente pela classe trabalhadora, como a que irá otimizar, a longo prazo, as suas expectativas. Nesse sentido, o modelo da APT deixa algumas lacunas ao tentar explicar as bases da influência dos trabalhadores, a dinâmica do poder e o controle fabril, temas complexos por excelência (Adler e Borys, 1987).
Pode-se concluir a avaliação crítica da APT, reconhecendo a necessidade de encontrar um balanceamento no foco de sua atenção: por um lado, o locus de produção e o processo de trabalho e por outro, as influências externas sobre as políticas de produção (Littler e Salaman, 1982; Sorensen, 1985; Burawoy, 199O).
Todavia, apesar das críticas apresentadas, debates recentes, como em Knights e Wilmott (1990); Ramalho (1991); Mangabeira (1993) concluem pela validade atual da APT, enquanto "um importante conjunto de refexões sobre a organização do trabalho nas sociedades capitalistas e que, portanto, deve servir de base para uma construção teórica mais complexa sobre as questões referentes ao controle do processo de trabalho. (Ramalho, 1991, p.46).
Portanto, a literatura, revista e analisada, indica a predominânca de dois paradigmas básicos, enquanto referenciais teóricos comuns para a questão da relação entre tecnologia e democracia industrial: o paradigma sistêmico, sustentando as Abordagens Sócio-Técnica e Contingencial e a análise marxista como base da Abordagem do Processo de Trabalho.
As duas primeiras abordagens tentam realizar um 'mix seletivo' que as tornam mais vulneráveis do que ecléticas e, além disso, dissociadas de uma perspectiva de avaliação histórica, engajadas numa teoria mais ampla de sociedade. Por sua vez, a Abordagem do Processo de Trabalho é muito mais integrada em uma Teoria Social da sociedade capitalista e apresenta ambições teóricas mais consistentes do que as demais (Sorensen, 1985; Thompson, 1990; Ramalho, 1991). Todavia, a par das diferenças, um aspecto comum perpassa as três abordagens: a tecnologia, seja qual for a interpretação que lhe atribuem, é um elemento significativo, para a explicação do processo de democratização industrial.
Dessa forma, analisadas as diferentes perspectivas de encaminhamento teórico e avaliadas as implicações político-ideológicas imanentes a cada uma delas, a opção recaiu sobre a Abordagem do Processo de Trabalho, como referencial teórico-explicativo da natureza das relações entre NTP-ME e Democracia Industrial. Além da questão da coerência teórico -epistemológica, pois a APT insere-se na corrente crítica da análise sociológica das organizações (que representa o encaminhamento epistemológico do estudo), as razões arroladas a seguir, influenciaram, sobremaneira, a escolha:
Trata-se da abordagem que analisa em maior profundidade a questão da relação entre tecnologia e democracia.
A APT interpreta a tecnologia numa concepção multidimensional, não restrita aos sistemas físico e mecânico, mas imbuída de natureza social, política e ideológica, além da sua natureza científica e econômica.
Rejeita o caráter determinista da tecnologia e a interpreta como um desafio à posição que os trabalhadores ocupam nas organizações.
Analisa a organização como uma arena de conflitos (entre trabalhadores e dirigentes) e, com relação às NTP-ME, dependendo do jogo de forças e da capacidade de resistência dos trabalhadores haverá um avanço ou um retrocesso na democratização industrial.
Privilegia a análise histórica e dialética como métodos de interpretação das relações entre tecnologia e democracia.
No entanto, cientes de algumas limitações da APT, procura-se avançar um pouco mais, para além das fronteiras técnico-econômicas da produção e do controle sobre o processo de trabalho, aceitando-se a interferência de fatores sócio-políticos e estruturais, tais como a cultura, a estrutura organizacional e de poder, a capacidade de organização e resistência dos trabalhadores, como também, as políticas e estratégias definidas a nível micro e macroinstitucional. Neste sentido, foram de grande valia as contribuições de Friedman (1987; 1990); Sorensen (1985); Litter e Salaman (1982); Adler e Borys (1987); Burawoy (1990); Leite, M., (1990); Knights e Wilmott (1990); Ramalho (1991); Mangabeira (1993).
Dessa forma, a perspectiva de análise que se propõe
para o estudo da relação entre NTP-ME e DI, viabiliza
uma síntese epistemológica, na qual um grupo diferenciado
de fatores intervenientes é incluído, ampliando-se
a base referencial teórica, originariamente fornecida
pela APT.