CAPÍTULO 5 - Proposta de Condução do Estudo
5.1. Proposta de Condução Teórico-Empírica
O presente estudo foi desenvolvido de acordo com uma orientação crítica (Thiollent, 1985 e Chanlat, 1989), ao invés da tradicional linha de condução empírico-analítica, comumente assumida nas pesquisas do campo técnico-organizacional. Essa perspectiva de encaminhamento que procura "regularidades e verificações objetivas, por meio da observação controlada ou da experimentação" (Thiollent, 1985, p.73) e seus desdobramentos naturais (representados pelo pragmatismo, comportamentalismo e funcionalismo), sob a égide inspiradora do positivismo, vem sendo alvo de críticas contundentes, devido à visão reducionista da Ciência como um tipo de atividade unívoca para todas as épocas e grupos humanos (Habermas, 1984; Thiollent, 1985; Demo, 1985; Luckesi et al., 1986; Chizzotti, 1991).
A orientação crítica, por sua vez, pressupõe uma condução epistemológica, teórica e metodológica "cuja característica comum consiste em oferecer perspectivas diferentes das precedentes e que corresponde a um interesse na mudança, na transformação da realidade existente mais do que na simples manutenção ou eficientização" (Thiollent, 1985, p.73). Nesse sentido, houve a intenção deliberada de aproximação com uma linha de condução dialética que privilegiasse a relação dinâmica entre sujeito e objeto e valorizasse as contradições entre os fatos observados e a atividade criadora dos sujeitos, entre o todo e a parte, entre o saber e o agir.
No sentido de manter-se um encaminhamento teórico coerente com a opção epistemológica, a escolha da Abordagem do Processo de Trabalho como referencial teórico-interpretativo da natureza das relações entre NTP-ME e Democracia Industrial, aconteceu como conseqüência natural. Para além da questão da coerência teórico-epistemológica (pois a APT insere-se na corrente crítica da análise organizacional), outros fatores foram considerados, conforme as justificativas apresentadas no Capítulo 4.
No entanto, cientes de algumas limitações da APT, procurou-se avançar um pouco mais, para além das fronteiras técnico-econômicas da produção e do controle sobre o processo de trabalho, aceitando a interferência de fatores sócio-políticos e estruturais, tais como a cultura, a estrutura organizacional e de poder, a capacidade de organização e resistência dos trabalhadores, como também, as políticas e estratégias definidas a nível micro e macroinstitucional. Nesse sentido, foram de grande valia as contribuições de Litter e Salaman (1982); Sorensen (1985); Friedman (1987, 1990); Adler e Borys (1987); Burawoy (1990); Knights e Wilmott (1990); Leite, M. (1990); Thompson (1990); Ramalho (1991); Mangabeira (1993).
Dessa forma, a perspectiva de análise que se propõe para o estudo da relação entre NTP-ME e DI, viabiliza uma síntese epistemológica, na qual um grupo diferenciado de fatores intervenientes é incluído, ampliando-se a base referencial teórica, originariamente fornecida pela APT.
A partir da proposta de condução teórica e epistemológica, delineou-se o encaminhamento metodológico do estudo. Para tanto, contribuiu a análise da metodologia assumida em estudos semelhantes, desenvolvidos tanto a nível internacional (tais como IDP, 1976; IDE, 1979, 1984; FITIM, 1984; Pateman, 1992), quanto nacional (Córdova e Trancoso, 1985; DIEESE, 1987) além de trabalhos de teses e dissertações (Connerley, 1974; Carvalho, 1987; Marques, 1987; Leite, M., 1990; Piacentini, 1991; Bresciani, 1991; Roese, 1992; Mangabeira, 1993; Pedreira Filho, 1994). Contudo, procura-se oferecer uma contribuição pessoal, sugerindo, em alguns pontos, um encaminhamento específico, devidamente justificado.
5.2.1. Tipo de Estudo e Etapas da Pesquisa
O estudo caracteriza-se como sendo teórico-empírico e, em função do tipo de condução epistemológica e metodológica, a pesquisa desenvolvida é predominantemente qualitativa. Contribuíram para a assunção dessa perspectiva, a natureza e a complexidade do tema/problema de pesquisa, o nível de profundidade que o estudo requer e o tipo de observações, informações e análises necessárias para as respostas às questões de pesquisa (Richardson, 1989; Chizzotti, 1991).
Trata-se, também, de uma pesquisa exploratório-descritiva, pois, a parte descritiva foi precedida por um estudo exploratório, que teve dois momentos distintos de utilização. No primeiro momento, a nível macroinstitucional, procedeu-se ao reconhecimento da situação geral da indústria mecânica de Santa Catarina, com relação à disseminação das NTP-ME. Para tanto,realizaram-se contatos e levantamentos de informações, através de entrevistas informais com especialistas e técnicos e da obtenção de documentos nas seguintes instituições: Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (FIESC); Banco Regional de Desenvolvimento Econômico do Extremo Sul (BRDE); Banco de Desenvolvimento do Estado de Santa Catarina (BADESC); Secretaria de Estado da Indústria, do Comércio e do Turismo, Serviço de Apoio à Pequena e Média Empresa (SEBRAE), Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI); Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e representantes comerciais dos maiores fornecedores nacionais de máquinas-ferramentas com CNC (Romi e Traubi).
Com base nas informaçõs obtidas, os critérios de seleção das empresas (casos) foram definidos. Com o assessoramento de pesquisadores e professores da UFSC que desenvolvem trabalhos junto à indústria mecânica (GRUCON, Grupo de Inovação Tecnológica e Coordenadoria de Estágios da Engenharia Mecânica), como também de técnicos do SENAI e dos representantes dos fornecedores de MFCNC, procedeu-se à seleção das cinco empresas, com base nos seguintes critérios:
pertencer ao subsetor mecânico;
ter introduzido NTP-ME (CNC e/ou CAD; CAM) há, pelo menos, um ano;
estar legalmente constituída como empresa de capital nacional;
apresentar processo de produção discreto, em lotes ou unitário;
não estar vivenciando crise financeira grave, nem racionalização do quadro de pessoal, acompanhada de índice de demissões acima do normal;
demonstrar, no contato prévio à seleção, interesse real na pesquisa e predisposição para fornecer os elementos necessários ao plano de trabalho.
apresentar uma relação CNC : número de trabalhadores não superior a 1 CNC : 20 trabalhadores.
O segundo momento do estudo exploratório corresponde à 'sondagem preliminar' da realidade, a nível microinstitucional (empresa), com vista a uma maior compreensão dos elementos necessários à condução da etapa descritiva, como também, à complementação ou reforço do problema/questões de pesquisa. Dessa forma, conseguiu-se delinear e delimitar mais claramente a pesquisa qualitativa, em conformidade com os encaminhamentos propostos por Rezende, A. (1983); Lüdke e André (1986) e Triviños (1987).
Durante a sondagem preliminar procedeu-se a reconhecimento das características gerais da empresa, iniciando-se com o resgate do seu histórico e evolução. De acordo com um roteiro pré-elaborado (Anexo 2) buscou-se informações gerais sobre a produção (incluindo-se as inovações introduzidas); o mercado; o pessoal empregado; a estrutura organizacional.
Uma visita a todos os setores das áreas industrial e administrativa e a apresentação formal da pesquisa, tanto para os representantes da direção quanto para os trabalhadores, encerrou este segundo momento da etapa exploratória.
Durante a apresentação e discussão da pesquisa, adotou-se seguir o procedimento sugerido por Gustavsen e Engelstad (1986), que privilegia o encaminhamento democrático da pesquisa, contemplando o "diálogo direto-informal" entre o pesquisador e os sujeitos da pesquisa. Esse contato prévio revelou-se de importância capital para a continuidade e o êxito do estudo. Um relato detalhado dos procedimentos assumidos durante a fase da apresentação, em cada empresa, encontra-se no Apêndice do presente trabalho.
A segunda etapa, relativa à pesquisa descritiva/avaliativa, iniciou-se com o levantamento das decisões típicas da empresa, nos três níveis: operacional, tático e estratégico, junto aos principais decisores. Através da aplicação de diferentes instrumentos de levantamento de dados, procurou-se as respostas às questões norteadoras para a compreensão da questão central da pesquisa. Ao contrário da etapa anterior, não acontece uma demarcação clara entre os dois momentos de descrição e avaliação, pois, na maioria das vezes, ocorriam simultaneamente, tanto por parte dos sujeitos da pesquisa quanto do pesquisador.
5.2.2. Questões de Pesquisa e Categorias Analíticas
Por se tratar de um estudo qualitativo de um tema complexo, sobre o qual inexistem conclusões generalizadas, privilegiou-se a utilização de questões de pesquisa, considerando as recomendações metodológicas (Lüdke e André, 1986; Trivinõs, 1987) e o encaminhamento usualmente assumido em estudos teórico-empíricos semelhantes (Leite, 1990; Mangabeira, 1993; Pedreira Filho, 1995). A questão central, identificada com o problema de pesquisa é a seguinte: qual a natureza das relações que se estabelecem entre as novas tecnologias de produção de base microeletrônica e o processo de democratização industrial ?
As demais questões de pesquisa, representadas pelas seguintes perguntas norteadoras, contribuíram para elucidar a questão central:
Qual a estratégia empresarial de introdução das NTP-ME ?
Como foi conduzido o processo decisório que antecedeu à introdução das NTP-ME?
Como são interpretadas as categorias: democracia industrial, administração participativa e qualidade de vida no trabalho pelos representantes da direção, pelos trabalhadores e por suas instâncias representativas (sindicatos; centrais e confederações) ?
Quais as mudanças observadas, a partir da introdução das NTP-ME, no processo e na organização do trabalho?
Como se expressam, historicamente, as relações de poder e de trabalho na empresa ?
Qual a natureza das transformações observadas com relação às formas de democracia industrial ou manifestações participacionistas a partir da introdução das NTP-ME ?
Qual a influência dos aspectos culturais na introdução das NTP-ME e no processo de democratização industrial?
Como têm sido tratadas as questões relativas à educação para as novas tecnologias e para a democratização industrial, pelas empresas e pelos órgãos de representação dos trabalhadores?
Que fatores micro e macroinstitucionais têm representado um papel significativo no processo de democratização da empresa?
Para sistematizar a análise dos dados, de tal forma que fossem contempladas as questões de pesquisa, definiu-se as seguintes categorias analíticas :
Estratégia de Introdução das NTP-ME.
Processo Decisório
Implantação das NTP-ME.
Organização do Trabalho
Democracia Industrial, Administração Participativa e Qualidade de Vida no Trabalho.
Padrões de Relações de Trabalho.
Estrutura de Decisão
Estrutura de Poder
Aspectos Culturais e Educacionais
5.2.3. Procedimento Metodológico
A seleção do procedimento metodológico recaiu sobre o estudo de casos considerando-se os seguintes aspectos:
o estudo de casos vem sendo destacado como um dos procedimentos mais adequados para o tipo de pesquisa qualitativa (Lüdke e André, 1986; Triviños, 1987; Richardson, 1989; Campomar, 1991).
a profundidade de análise requerida, inviabilizada nos estudos de agregados, torna-se privilegiada nesse tipo de estudo (Souto Maior, 1984);
a possibilidade de obter dados essencialmente qualitativos como indicadores do funcionamento de estruturas e de relações sociais (Croper, 1982);
permite analisar eficientemente uma situação complexa, sem perder de vista a riqueza das múltiplas relações e interações de seus componentes (Souto Maior, 1984);
durante o desenvolvimento do estudo permite a inclusão de muitos fatores e o questionamento sobre as suas interconexões (Croper, 1982; Campomar, 1991)
a principal vantagem relaciona-se com a ausência de estudos conclusivos sobre o problema de pesquisa (Croper, 1982; Lüdke e André, 1986; Yin, 1989).
Para enriquecer e ampliar as possibilidades conclusivas do estudo (além da preocupação com a sua validação externa), optou-se pelo 'estudo comparativo de casos', cuja prática é bastante comum em estudos semelhantes que versam sobre as implicações sociais das Novas Tecnologias de Produção, tais como os de Marques (1987); Carvalho (1987); Neder (1988); Leite, M., (1990); Bortolaia Silva (1991) e Roese (1992).
A decisão por um número maior de casos do que os registrados na literatura (especificamente tratando-se de estudos qualitativos) ocorreu em função da complexidade do tema, tornando indispensável a reaplicação do estudo em cinco casos, para obter conclusões que, além de mais consistentes, pudessem ser, de algum modo "analiticamente generalizadas para situações semelhantes" (Yin, 1989, p.38).
5.2.4. Métodos e Técnicas de Pesquisa
Conforme destacado, a pesquisa é predominantemente qualitativa e, portanto, assume métodos de investigação e análise qualitativos, objetivados através da análise microssociológica, de modo semelhante à desenvolvida nos trabalhos de Kuenzer (1985); Volpato (1989); Leite, M. (1990) e Mangabeira (1993). No entanto, partindo-se do pressuposto, defendido tanto por metodólogos (Richardson, 1989); Triviños, 1987) quanto por pesquisadores (Nina, 1976; Lüdke e André, 1986; Franco, 1986), de que a total dicotomia é praticamente impossível e considerada superada, no presente estudo a contribuição quantitativa representou um pequeno aporte. A utilização de um método de escalonamento denominado "escalograma Likert" (Richardson, 1989) fez-se presente na identificação do grau de envolvimento e participação dos trabalhadores nas decisões da empresa.
A exemplo de estudos anteriores (IDE, 1979; 1981), a escala de cinco pontos foi aplicada a um conjunto de decisões organizacionais, consideradas como típicas de cada empresa analisada, sendo cinco decisões de cada nível (operacional, tático e estratégico). A definição da escala, no entanto, é uma contribuição específica do presente estudo
O Anexo 5 apresenta o modelo do escalograma Likert aplicado e a escala correspondente. Observe-se que os trabalhadores avaliaram as situações propostas em dois momentos: antes e após a introdução das NTP-ME. O escalograma Likert foi aplicado após a conclusão de cada entrevista. Ao respondente eram prestadas as informações necessárias e apresentadas as decisões típicas da empresa nos três níveis decisórios, levantadas inicialmente junto aos decisores. Além do escalograma Likert, a pesquisa valeu-se dos seguintes instrumentos de levantamento de dados:
A) Análise documental
De grande valia para a obtenção de dados secundários, tratando-se da legislação específica (Constituição, Consolidação das Leis do Trabalho, medidas provisórias); convenções e acordos coletivos que regulam as relações de trabalho assinadas pelos Sindicatos da Indústria Mecânica de Santa Catarina, das bases regionais das empresas selecionadas; documentos de repercussão nacional publicados pela Central Única dos Trabalhadores e pelo DIEESE, sindicatos das bases regionais e demais instituições contatadas. Documentos internos das empresas, incluindo-se procedimentos, relatórios de atividades e de pessoal e informativos internos também contribuíram para a análise dos casos.
Em particular, destaca-se a contribuição dos informativos das empresas, existentes nas empresas Delta e Omega ou dos grupos empresariais a que pertenciam as empresas Alfa e Delta. Estes veículos de comunicação interna acrescentaram informações significativas relacionadas à introdução de inovações, relações de trabalho, formação e cultura organizacional, histórico das empresas, mercado e produção.
B) Entrevistas semi-estruturadas
As entrevistas semi-estruturadas, aplicadas não rigorosamente a partir de um esquema básico, permitiram uma margem de flexibilidade, tanto para o entrevistador quanto para o entrevistado, compatível com a natureza qualitativa do estudo. Este tipo de entrevista foi extremamente útil, tanto para o levantamento de dados primários (no âmbito das empresas, aplicadas aos representantes da direção e aos trabalhadores) quanto secundários (a nível macroinstitucional).
O roteiro básico das entrevistas foi elaborado a partir das categorias analíticas de pesquisa, conforme descritas anteriormente. Os Anexos 3 e 4 referem-se aos roteiros das entrevistas com os representantes da direção das empresas selecionadas e com os trabalhadores, respectivamente.
As entrevistas com os dirigentes sindicais e representante da CUT estadual não reproduzem o mesmo roteiro básico assumido nas entrevistas acima referenciadas, pois objetivavam a obtenção de informações específicas e complementares sobre as questões de pesquisa (Anexos 11 e 12).
Tratando-se dos representantes da direção, procurou-se, dentro das possibilidades, entrevistar todos aqueles que desempenhavam as funções de supervisão, chefias e gerências da área industrial e incluir o titular do órgão de pessoal (recursos humanos), sempre que possível.
Quanto aos trabalhadores, a proposta de condução democrática previa a seleção dos entrevistados pelos próprios trabalhadores, evitando a indicação das chefias, supervisores ou encarregados, prevenindo-se um direcionamento na seleção. No entanto, a seleção pautava-se em critérios, previamente definidos, os quais deveriam ser, preferivelmente, atendidos:
lotação nas seções/setores diretamente afetadas com a introdução das NTP-ME;
tempo de serviço anterior à introdução das NTP-ME, de modo a possibilitar uma avaliação comparativa (antes e após);
capacidade de contribuição efetiva para o esclarecimento das questões de pesquisa;
capacidade de comunicação e expressão;
disponibilidade de tempo para a entrevista.
voluntariedade e interesse na pesquisa.
Na seleção, orientava-se, também, no sentido de estarem representadas as principais funções ou categorias profissionais (convencionais e das CNC). A análise preliminar da relação de pessoal nos setores produtivos, serviu de referencial para a sugestão do número de selecionados por categoria.
No entanto, nem sempre houve a possibilidade de atender a todos os critérios. A realidade de cada empresa estabelecia os parâmetros e as limitações da seleção. É o caso do tempo de serviço, (observado na descrição dos resultados apreendidos a partir do escalograma Likert), onde, em quatro casos, nem todos os selecionados apresentavam tempo de serviço anterior à introdução das novas tecnologias. Todavia, o que à primeira vista pode parecer uma limitação à análise, na maioria das situações, acrescentou novos elementos para a interpretação das questões.
O procedimento adotado na seleção dos entrevistados, encontra respaldo nas orientações metodológicas de Triviños (1987) e Michelat (in Thiollent, 1987). Merece destaque o alerta de Trivinõs (ibid., p.144) no sentido de que "deve ficar claro, de todas as maneiras, que nunca o investigador terá informantes ideais, perfeitos. Por outro lado, devemos lembrar que a entrevista é um dos recursos que emprega o pesquisador qualitativo no estudo de um fenômeno social".
Nos cinco estudos de casos foram aplicadas 103 entrevistas, sendo 71 com representantes da direção e 32 com trabalhadores (Quadro I-2). O tempo dispendido à aplicação das entrevistas variava entre uma hora e duas horas, exceto no caso Delta onde a empresa limitou em 50 minutos a duração de cada entrevista
C) Depoimentos Diversos
A prática da pesquisa revelou que, em certos casos, a aplicação da entrevista, além de não ser factível (por problemas diversos), não era justificável, pois, demandava um conjunto específico de informações, relacionadas com uma ou outra categoria analítica, não com todas. Como p.e., informações complementares sobre a implantação das NTP-ME, organização do trabalho ou histórico e evolução da empresa.
Nessas situações, os depoimentos revelaram-se como um procedimento adequado. No total foram tomados 28 depoimentos: 13 de representantes da direção; 10 de trabalhadores da produção e 5 de técnicos da produção (Quadro I-2).
QUADRO I-6 - ESTUDO COMPARATIVO DE CASOS:ENTREVISTAS E DEPOIMENTOS REALIZADOS
D) Observação Direta e Diário de Campo
A observação direta (sistemática e assistemática) ocupou um lugar privilegiado, ao acrescentar novos elementos à pesquisa e confirmar informações obtidas por meio de documentos e/ou entrevistas. Especificamente, tratando-se das NTP-ME introduzidas, possibilitou um acompanhamento real da sua operação e controle, do desempenho dos operadores, das formas de organização do trabalho, das condições reais de trabalho, do ambiente de trabalho.
Na impossibilidade de desenvolver um estudo empírico na condição de participante total, o que demandaria um tempo substancialmente maior (além da questão ética do pesquisador inserir-se entre os trabalhadores sem ser identificado), optou-se por uma forma híbrida de observação direta, na expectativa de uma maior impregnação na realidade, ampliando o escopo de conhecimentos e da interpretação das informações sobre as questões de pesquisa. Nessa forma híbrida, o pesquisador assume um papel de "observador como participante" (Lüdke e André, 1986) ou seja, há situações em que o pesquisador participa, apresentando sugestões às chefias, gerências e trabalhadores sobre problemas e questões que são apresentadas.
Um elemento signficativo, para o levantamento de dados e confirmação de fatos através de situações reais, refere-se à utilização de um diário de campo, no qual, a partir das observações assistemáticas ou livres (Triviños, 1987), confirmava-se ou não as informações obtidas através de diferentes fontes ou instrumentos de pesquisa, como documentos internos e entrevistas semi-estruturadas. O diário de campo registrou o cotidiano da empresa, incluindo fatos inesperados e eventos especiais. Diversos desses fatos encontram-se descritos no Apênce do trabalho e, sem dúvidas, contribuíram, sensivelmente para a compreensão e as respostas das questões de pesquisa.
5.2.5. Registro, Análise e Interpretação dos Dados
A etapa de análise de dados, em conformidade com a dinâmica própria da pesquisa qualitativa, conforme já destacado, ocorreu, muitas vezes, simultaneamente à etapa descritiva. No entanto, a interpretação mais detalhada e recorrente à teoria e a outros estudos empíricos, deu-se a posteriori.
A decisão dos sujeitos da pesquisa, no sentido da não- gravação das entrevistas (uma atitude compreensível, de proteção pessoal) conduziu ao registro escrito das entrevistas e relatos, os quais eram complementados imediatamente após a saída do respondente.
Em determinados momentos, ao se tratar de questões nas quais o entrevistado, de alguma forma, expunha-se, ao avaliar e posicionar-se criticamente frente à situações ou pessoas (em função do receio natural de manifestar-se abertamente ao pesquisador), evitava-se o registro na sua presença. Símbolos mneumônicos eram utilizados para, após a sua saída, efetuar o registro do relato ou complementá-lo.
Durante o processo de condução da entrevista, o pesquisador procurou pautar o seu comportamento de acordo com as orientações de pesquisadores sociais ou metodólogos conceituados. Considera-se de fundamental relevância, as considerações e encaminhamentos propostos por Thiollent (1987); Ludke e André (1986); Maître (1987); Michelat (1987); Trivinõs (1987) e Bleger (1980) sobre a conduta do pesquisador durante a entrevista, o processo de condução e o registro das informações, as limitações, a seleção dos entrevistados, o tipo de análise e interpretação. O aconselhamento junto pesquisadores experientes foi fundamental, nessa etapa da pesquisa.
Na análise e interpretação das entrevistas foi adotado o procedimento recomendado por Michelat (1987): iniciou-se com a leitura vertical de cada entrevista e a sua releitura, até se conseguir "uma grande impregnação de seu conteúdo". A seguir foi efetuada uma leitura horizontal de cada questão, em todas as entrevistas, registrando-se as respostas.
A leitura horizontal desenvolveu-se de forma comparativa, para cada categoria analítica associada às questões de pesquisa, de forma que, além da análise comparativa entre as visões dos dois grupos distintos de entrevistados (representantes da direção e trabalhadores), era realizado o cotejo dos casos entre si. Simultaneamente, procedia-se à correlação com estudos de casos semelhantes, procedida à luz do referencial teórico assumido, a Abordagem do Processo de Trabalho, mantendo-se um movimento contínuo empiria - teoria.
Os depoimentos valeram-se do mesmo procedimento de análise, complementando e confirmando ou não, informações obtidas através de outras fontes. Quanto à análise documental, os tipos de documentos e o seu volume, não expressivo, não justificaram a utilização de técnicas mais sofisticadas de análise.
Com relação ao escalograma Likert, a consulta prévia aos orientadores, conduziu à opção pela análise integrada às entrevistas, especificamente, tratando-se das categorias analíticas: democracia industrial/administração participativa e estrutura de decisão. A descrição dos resultados obtidos através da aplicação do escalograma Likert, apresentados sob a forma comum de tabulação e histogramas de freqüência modal precederam a análise integrada (Anexos 15 a 23).
A identificação das manifestações e formas de democracia industrial foi facilitada pelo cotejo com o quadro de referência das tipologias de participação (Quadro I-5) elaborado a partir da revisão da literatura sobre o assunto, adaptado às reais condições da pesquisa após a sondagem preliminar. Deve-se deixar claro que o quadro proposto não teve a pretensão de enquadrar a realidade, mas trata-se apenas de um elemento referencial de análise.
5.2.6. Questões Éticas Relativas ao Encaminhamento da Pesquisa
A condução da pesquisa, pautada por um comportamento ético, assumido publicamente, facilitou a relação amistosa entre o pesquisador e os sujeitos da pesquisa. Desde o primeiro contato com a empresa, os objetivos da pesquisa, a metodologia de trabalho, a forma de divulgação dos resultados sempre foram revelados de modo transparente e publicamente. Não houve omissão de intenções e nem da identidade do pesquisador.
A garantia de anonimato dos informantes, como o não repasse de informações dos trabalhadores para a direção e vice-versa, durante o processo de levantamento de dados, garantiram o encaminhamento da pesquisa sem maiores conflitos. Os representantes da direção solicitaram o sigilo de suas identidades, apenas para efeito do relatório de atividades, que o pesquisador comprometera-se em enviar às empresas, após a conclusão de todos os casos. Também por motivos éticos, o levantamento de informações junto aos sindicatos e à Central Única dos Trabalhadores, somente aconteceu após a conclusão da pesquisa nas empresas.
5.2.7. Representatividade e Confiabilidade do Estudo
A partir da etapa exploratória, desenvolvida a nível macrossocial, pôde-se constatar a representatividade do número de casos em relação ao universo, considerando-se os critérios de seleção estabelecidos.
O levantamento preliminar realizado no pólo metal-mecânico (Joinville e Jaraguá do Sul) e os municípios do Médio e Alto Vale do Itajaí, revelou que, dentre as empresas utilizadoras de NTP-ME, apenas cinco cumpriam todos os critérios e estas foram as empresas selecionadas para o estudo comparativo de casos. Portanto, se não foram esgotadas as possibilidades, encontra-se uma situação muito próxima, respaldando a representatividade do estudo.
Além do que, o número total de entrevistas e depoimentos aplicados é de tal ordem que representa 25% do contingente de pessoal lotado nas áreas industriais das empresas selecionadas. Isto pode ser visualizado a partir do Quadro I-1, onde se observa a aplicação de um total de 131 respondentes entre um contingente de 492 pessoas vinculadas à área industrial.
Quanto à confiabilidade, estudos qualitativos remetem à discussão da questão da interferência da subjetividade e juízos de valor dos partícipes da pesquisa: o pesquisador e os entrevistados. A proposta que se apresenta em termos metodológicos, longe de ter a pretensão de demonstrar a objetividade do estudo, pretende destacar os procedimentos que foram adotados para o controle acurado dos efeitos dos julgamentos de valor. Um dos principais cuidados refere-se à adoção da técnica de triangulação dos dados através do levantamento de informações em fontes distintas, até a obtenção de uma opinião consensual entre os informantes (incluindo-se o pesquisador, através da observação direta).
O escalograma representa, também, um instrumento de apoio para o controle e a validação externa das informações, pela triangulação com os dados obtidos através das entrevistas (com os representantes da direção e os trabalhadores) e as observações diretas realizadas pelo pesquisador.
5.2.8. Realimentação da Teoria e Proposta de Intervenção Organizacional
Esta etapa caracteriza a contribuição real da pesquisa, em termos de realimentar a teoria, relacionando as descobertas da pesquisa com a teoria já consagrada. Em termos operacionais, a contribuição refere-se à proposta de uma estratégia de introdução das NTP-ME, inserida numa perspectiva ampla de democratização industrial, incluindo a participação plena dos trabalhadores e de suas instâncias representativas.
5.2.9. Dimensões de Análise e Delimitação da Pesquisa
O tema pode suscitar algumas expectativas frustradas, caso não se dimensione a análise e se delimite claramente o escopo da pesquisa. As dimensões a serem exploradas decorrem dos cortes pré-estabelecidos para a condução do estudo:
corte longitudinal: identifica a dimensão histórica do trabalho: o estudo do fenômeno histórico da democratização e da introdução das NTP-ME, nas organizações pesquisadas.
corte seccional: identifica uma dimensão 'local' do trabalho, ou seja, nos estudos de caso, privilegiou-se aqueles setores da produção onde foram introduzidas as NTP-ME.
Quanto aos aspectos delimitadores, devem ser destacados os seguintes:
por se tratar de um estudo comparativo de casos aplicado a cinco unidades industriais, selecionadas do subsetor mecânico de Santa Catarina, suas conclusões não deverão ser generalizadas para todo o complexo metal-mecânico, embora possa servir de referência a situações semelhantes.
não se trata de um estudo amplo sobre as implicações sociais das NTP-ME. Portanto, as questões relativas ao nível de emprego e qualificação dos trabalhadores, apenas foram analisadas com relação à influência sobre o processo de democratização da empresa, a partir da introdução das NTP-ME.
não houve a intenção de estudar em profundidade
as inovações sócio-organizacionais,
administração
participativa, programas de qualidade de vida no trabalho (QVT)
e sindicalismo, mas sim, as relações que estas categorias
estabelecem com o processo de democratização industrial.