SEGUNDA PARTE - O QUADRO TEÓRICO DO MODELO


CAPÍTULO 2 . O QUADRO TEÓRICO

1. Introdução.

O quadro teórico do modelo repousa em grande parte na teoria da cognição desenvolvida por Schank (1982): uma teoria da lembrança e aprendizagem. O quadro teórico proposto por Schank é principalmente orientado à solução de problemas por meio de analogias usando problemas (histórias ou exemplos práticos transformados em casos) previamente resolvidos. Isto envolve organizar, armazenar e recuperar informação da memória para, posteriormente, por meio de regras estratégicas, reconstruí-las.

A similaridade (de objetivos, por exemplo) tem um papel importante nesta teoria de resolução de problemas humanos. Esta teoria resolve problemas reunindo as características específicas de experiências passadas. Assim, um problema chega a ter uma solução quando suas características são reconhecidas como similares às características de um problema conhecido, de forma que, uma nova solução é encontrada ou gerada.

O objetivo deste capítulo é apresentar e explicar alguns conceitos teóricos básicos, que posteriormente serão utilizados e que justificam o desenvolvimento do trabalho. Estes conceitos consideram a atividade cognitiva do operador numa situação complexa de trabalho. Eles são desenvolvidos segundo o que entendemos por atividade e mais precisamente, como atividade cognitiva, situação e complexidade de trabalho.

Por outro lado, descrevemos as considerações em situações de supervisão de sistemas, as características, os fatores e os tipos de tarefas que o operador possivelmente encontra num ambiente de trabalho. Por último, fazemos uma ampla abordagem da teoria integrada do raciocínio baseado em casos e suas múltiplas aplicações.

2. A atividade humana.

O propósito desta seção é focalizar a atividade humana em uma situação de trabalho. Mais precisamente, aborda os aspectos cognitivos da atividade humana. Isto é, as atividades em termos de compreensão, raciocínio, resolução de problemas, etc. que são tratadas pelos mecanismos cognitivos do operador.

A curto termo, este trabalho reside na produção de conhecimentos suscetíveis de melhorar as condições do trabalho cognitivo do operador. Este é o campo de ação da Ergonomia Cognitiva (Hoc, 1990).

A Psicologia Cognitiva estuda os mecanismos subjacentes no comportamento humano. Tiberghein (1986) verificou isto, tratando os comportamentos como ponto de partida para atingir certas realidades inobserváveis e hipotéticas que têm por nome: representação, organização, conhecimento, etc.

2.1 A atividade cognitiva: definição e conceitos.

A tarefa segundo Leontiev (1972), pode ser definida como um objetivo a ser atingido, em condições fixadas e, a atividade como a sua realização. Ela depende das características do operador (aptidão) e de sua natureza (como é relatada e explicada).

Na realização de uma tarefa de controle de processo, o operador encontra dois tipos de problemas:

(1) Na indução de estrutura. Neste tipo de problema o operador identifica os diferentes índices de numa situação determinada, numa atividade de diagnóstico, para dar sentido a suas observações.

(2) Na transformação de estados. Neste tipo de problemas o operador parte de um estado inicial e deve alcançar um estado objetivo, ou um estado final, deslocando um certo número de operadores para atingir o novo estado.

Em Psicologia Behaviorista, a atividade é concebida pelas ações observáveis (conduta e comportamento) partindo do paradigma,

um ESTÍMULO -> uma RESPOSTA

De fato, a atividade faz referência as ações inobserváveis. Assim, a preocupação da Psicologia Cognitiva é abrir a "Caixa Preta" para pesquisar, o que existe entre um estímulo e uma resposta.

Para desenvolver esta questão, que é parte de nossa pesquisa, será necessário considerar os modelos metafóricos de processamento e de tratamento da informação que um operador produz dentro de sua memória, e quais são os métodos ou procedimentos que ele utiliza para dar solução a uma situação determinada. Deve-se considerar, que a capacidade de solucionar um problema difícil, reside na capacidade de cindi-lo (dividi-lo), ou transformá-lo em problemas de ordem de inferior dificuldade (Newell & Simon, 1972). Fazer isto, sem total confiança na sorte, requer certo conhecimento da situação. Devemos ser capazes de deduzir ou imaginar, suficientemente, as conseqüências das características do problema para poder montar modelos mais simples da situação do problema (Vergara, 1990B).

Não basta captar dados brutos. Precisamos discriminar, reconhecer e identificar operações mentais que dependem de experiências passadas (casos ou histórias). Precisamos registrar temporariamente ou permanentemente a informação na mente, compreender seu significado, transformá-la de modo a ajustá-la às estruturas cognitivas preexistentes. Realizamos mentalmente operações lógicas, estabelecemos relações, fazemos inferências, analisamos e reestruturamos nossas representações mentais, formulamos hipóteses e planos de ação, toma-mos decisões, valemo-nos de diferentes procedimentos para resolver problemas. Estes e outros trabalhos da mente recebem a denominação de "processamento de informação".

Segundo o parágrafo anterior, as diferentes representações mentais de um operador podem ser simplificadas (na análise da situação) e, diversas atividades cognitivas poderão ser construídas: interpretação, diagnóstico, etc. Assim, alguns mecanismos de metaconhecimento e os elementos de ação serão modelados e agrupados em um conjunto de módulos que identificariam uma determinada atividade dentro de um processo.

As atividades cognitivas de um indivíduo não são uma soma de funções. O funcionamento cognitivo dele é análogo ao funcionamento de um sistema (Richard & George, 1986). Isto é, a atividade é abordada pelo tipo de atividades desenvolvidas (por exemplo, resolução de problemas), e não pelos tipos de funções cognitivas colocadas em prática.

O funcionamento cognitivo de uma pessoa, é uma descrição das atividades que iniciam estas funções e, estas são atividades mentais (Richard, 1990).

O desenvolvimento de nossa Simulação Cognitiva está apoiada sobre a avaliação, a resolução de problemas e a aprendizagem numa situação complexa.

As atividades cognitivas são definidas a partir de seus componentes (seus produtos, os objetos na qual atuam e, o início deles ou seus modos de realização) e correspondem a três questões: qual é o objetivo ? a partir de que ? e quais são os meios utilizados ?

Nesta concepção consideramos que existem três classes de atividades mentais:

compreensão, raciocínio e avaliação.

(1) A Compreensão: construir interpretações.

O produto desta atividade é uma representação de uma situação de trabalho e, a partir daí tratamentos posteriores podem ser realizados como: a abstração e organização dos conhecimentos, a elaboração de hipóteses de ação e de tomada de decisão, etc.

Na compreensão podemos distinguir dois tipos de atividades:

i) Compreender para aprender. Nesta atividade é preciso construir uma rede de

relações em vista a restituir ou modificar os conhecimentos existentes (reestruturação e enriquecimento).

ii) Compreender para agir. Nesta atividade é preciso construir uni procedimento de ação para atingir um objetivo de uma atividade determinada.

O produto da interpretação é a explicação da união das características de uma situação. A identificação dos diferentes elementos de significação é produto da unificação das representações semânticas da memória com os elementos resultantes da interpretação.

Os objetos destas atividades são elementos fornecidos pela situação física. Estes podem representar o estado atual ou o estado objetivo de uma atividade particular.

Os meios a partir da qual construímos as interpretações são:

i) As estruturas de conhecimento existentes na memória que servem de base interpretativa.

ii) As interferências concernentes à existência dos objetos, as propriedades destes, a existência das relações entre eles e a realização dos planos de ação.

iii) As atividades de avaliação que permitem verificar as ações realizadas nas tarefas.

A compreensão pode ser particularizada por um cenário. Este pode ser construído por uma rede relacionar utilizando conhecimentos muitos gerais, concernentes às diferentes classes de situações a tratar. Eles contém diferentes tipos de informações e restrições, que são necessárias para construir uma determinada interpretação de um problema.

(2) O Raciocínio é produzido pelas inferências. A natureza destes produtos permitem distinguir duas classes de raciocínios do ponto de vista de sua finalidade: os raciocínios epistemológicos e os pragmáticos. Os resultados dos primeiros são utilizados para construir interpretações (diagnósticos, planificações, pesquisa de causas, identificação de responsabilidades, etc.), os resultados dos segundos são utilizados para deduzir os objetivos de ação, definir planos de ação e produzir urna seqüência de ações (Hoc, 1987; Richard, 1990).

Os elementos de informação, necessários para produzir o raciocínio são, de uma parte, as informações contidas na representação de uma situação e, de outra parte, os conhecimentos armazenados na memória. O estado de uma representação é o conjunto das informações no curso da construção de uma atividade.

Os raciocínios produzem inferências, de um lado, pelas regras que definem as condições de passagens de uma informação para outra e, de outro lado, na utilização dos conhecimentos compactados e armazenados na memória. Isto é, os cenários ou modelos de raciocínio.

O raciocínio por analogia é um modo de construção por assimilação e correção de conhecimentos na memória. Estes podem ser (representados em cenários ou regras) generalizados para criar um campo de conhecimento.

A analogia utiliza os conhecimentos que são generalizados. Estes são representados em cenários ou em marcos específicos que tratam situações particulares ("script").

A analogia trabalha, na solução de problemas, quando uma determinada situação não apresenta as condições exatas para a aplicação de um determinado cenário ou domínio de conhecimento, mas as condições apresentadas são semelhantes a uma situação acontecida. Isto é, em ausência de um apropriado conhecimento para um determinado problema, a analogia utiliza o conhecimento de situações passadas, de forma a propor uma solução ao problema ou realizar as correções necessárias.

De uma forma ou outra, é possível modelar o raciocínio analógico de maneira que seu funcionamento possa ser realizado em tratamento paralelo ou seqüencial. Uma possibilidade é que a extração de analogias se realize pela soma das ativações dos múltiplos elementos distribuídos. Os modelos cognitivos concebidos desta forma (modelo de Anderson, 1983) utilizam os mecanismos de ativação distribuídos. As características de uma situação servem como índices na pesquisa de informações na memória. As ativações produzidas pelas múltiplas características comuns se agrupam e, quando um nível de ativação de uma representação excede um limite (por exemplo, usando a similaridade métrica na avaliação dos fatos), esta representação disponível para tratamentos posteriores.

Segundo Decortis (1988), Holyoak e Koh em 1987 teorizaram que o mecanismo que ativa os elementos das representações da memória usa as características comuns e superficiais e, utiliza pouco as similaridades profundas e estruturais.

Estas hipóteses são extremamente interessantes ao observar um operador quando controla um sistema complexo e resolve problemas pouco definidos. Estes problemas demandam manipulações finas do processo e, sendo assim os operadores utilizam analogias entre os problemas com certas similaridades. Para investigar as condições na qual o operador extrai uma base análoga de sua memória (por exemplo, um acidente passado na qual o operador conhece sua solução) e mostrar sua conveniência em relação a um problema novo (um acidente na qual o operador não conhece sua solução, por exemplo), é necessário testar os diferentes tipos de similaridades. Estas manipulações demandam uma análise do processo de resolução de problemas por analogia, da seguinte forma:

i) Uma decomposição das analogias em características elementares e uma definição do nível de abstração destas características. Por exemplo, no nível de abstração baixo, dois acidentes dividem uma variedade de detalhes similares que não alteram a realização do objetivo geral. Num nível mais abstrato, os dois acidentes dividem similaridades estruturais e funcionais que colocam em jogo as relações causais mais profundas.

ii) Uma decomposição das propriedades e relações do problema objetivo e base. Por exemplo, os objetivos, os meios e suas restrições.

Finalmente, a coleta e análise dos dados permitirá extrair:

- como os operadores representam suas relações analógicas;

- quais são as características (objetivos, propriedades e relações) em correspondência;

- qual é o nível de abstração destas características;

- age o operador de características específicas e detalhadas ou de características que atingem mais a estrutura profunda do problema;

- como o operador utiliza a analogia para gerar uma solução a um problema objetivo.

A analogia é uma forma de raciocínio que pode ser tratada de diferentes formas, mas do ponto de vista da psicologia se caracteriza por (Schank, 1982; Kolodner, 1983B; Richard, 1990; Hoc, 1990):

i) Uma heurística geral de fazer hipóteses para posteriormente testá-las;

ii) Pelas estratégias utilizadas na realização de uma atividade;

iii) Pela transferência de um domínio de conhecimento conhecido a situações similares e, eventualmente, ajustar estes procedimentos em função aos resultados de sua aplicação à situação apresentada (processo de compreensão), e

iv) Pela transferência de um procedimento conhecido de urna situação ou de um

conjunto de situações, à uma situação similar, cujos atributos não são todos identificados no domínio.

A analogia é um processo que reforça o processo de aprendizagem pela retroalimentação das informações que se reconstroem por assimilação de novos fatos. A aprendizagem constitue uma tarefa de compreensão finalizada por uma tarefa de memorização e, a aprendizagem pela ação é o resultado das atividades de memorização e de raciocino, que consiste em formar hipóteses, testá-las, generalizá-las e, modificar as representações existentes (Schank, 1982; Kolodner, 1983A/B; Hoc, 1990; Richard, 1990).

3) As atividades de avaliação.

Os produtos das atividades de avaliação são os julgamentos que determinam como se situa um objeto ou uma situação sobre uma norma.

As informações utilizadas pelas atividades de avaliação são as informações dos objetos ou das situações e, de outra parte, as normas ou os critérios considerados na avaliação.

Um aspecto importante desta atividade é a "detecção dos incidentes" e a 'a detecção de impasses". Em efeito, a detecção dos incidentes permite diagnosticar um erro por meio de um procedimento e, levantar o processo de correção. A detecção de impasses é a base da entrega das representações, na medida em que ela manifesta que o estado na qual nós encontramos é um estado pesquisado e, realmente não temos progredido na solução do problema.

A função de controle, na memória, é realizada por uma grande quantidade de atividades. Não existe um mecanismo geral de controle que faz a tarefa de supervisar (Hoc, 1987; Richard, 1990). No tratamento de uma atividade, o controle apresenta dois componentes: os conhecimentos gerais sobre as diferentes classes de situações e os elementos de informação próprios da tarefa para saber os objetivos e os planos de ação. O primeiro levanta a recuperação dos conhecimentos e mantém as informações na memória e o segundo realizam a atividade de compreensão e raciocínio.

2.2 Os processos cognitivos no controle de tarefas: a noção de procedimentos e de estratégias.


A natureza de uma situação é determinada pela confrontação do sistema cognitivo de um operador na realização de sua tarefa. A classificação de Rasmussen (1976), constitue um bom auxílio no estudo dos processos cognitivos. No entanto, é consciente utilizá-lo com certa flexibilidade.

Em efeito, a interação entre os processos cognitivos do operador e as características de uma tarefa podem dar lugar a toda uma continuidade de situações. Isto é, entre a execução de uma tarefa e a elaboração de uma estratégia de resolução de problema, se situa todo um conjunto de situações e, coerentes tipos de atividades se combinam.

O objetivo da atividade de um operador, em uma tarefa determinada, é aplicar um procedimento adequado a fim de poder realizá-la.

Hoc (1987) definiu um procedimento como um conjunto de operações prontas para atingir um objetivo determinado. Três tipos de operações integram um procedimento:

(I) As transformações que fazem passar os objetivos de um estado para outro;

(2) As propriedades dos estados, que têm por objetivo reconhecer um estado

particular para realizar uma ação, e

(3) A seleção dos tratamentos que permitem determinar em todo momento qual será o seguinte passo a executar.

A importância de cada uma destas operações varia segundo seu procedimento e a execução deles é feita por uma estrutura de controle.

Quando um operador realiza uma tarefa e não conta com um procedimento adequado, ele ativa seus mecanismos cognitivos da memória e desenvolve toda uma atividade de resolução de problemas. Esta atividade compreenderia dois aspectos essenciais:

- a compreensão da tarefa para construir sua representação;

- a elaboração de um procedimento para orientar uma estratégia de resolução de problemas.

Na compreensão de uma tarefa, o operador representa o problema segundo as características do problema e sua estrutura de conhecimento. Isto é, ele caracteriza o problema em três categorias de elementos que definem o problema:

(1) O estado inicial;

(2) O estado final ou o objetivo a atingir e,

(3) As transformações ou os operadores de estados.

Segundo Newell e Simon (1972), a partir de um nível mínimo de compreensão, corresponde uma simples definição do estado inicial do problema. Esta representação é construída pelas reestruturações sucessivas de fatos até interpretar as três categorias de elementos do problema.

Esta representação constitue o espaço do problema (Newell & Simon, 1972) que o operador exploraria até identificar uma solução para o problema. Este espaço

pode ser observado como um gráfico, que representa um conjunto de estados e uma ou várias soluções podem ser encontradas (informação detalhada em Vergara, 1990B).

Normalmente, um procedimento inclue uma porção de estratégias de resolução de problemas, porque elas agem de heurísticas e utilizam meta operações que são desenvolvidas para orientar a pesquisa de uma solução. Assim, podemos distinguir dois tipos de categorias de estratégias:

As estratégias de produção de resultados e as estratégias de produção de programas. As primeiras, são baseadas na satisfação de um objetivo determinado e, as segundas, baseadas na concepção de um procedimento.

(2) As estratégias ascendentes e as estratégias descendentes. As primeiras são dirigidas pelos fatos e, as segundas, pelos conhecimentos esquematizados.

A natureza destas estratégias depende do tipo de compreensão e de representação do problema que o operador tem sobre ele. No entanto, podemos distinguir outros tipos de categorias de estratégias em controle de processos. Estas são identificadas nos problemas de indução de estruturas, nos problemas de transformação de estados e, nas estratégias de tipo de meios e fins.

A união destes processos cognitivos necessitam dos recursos dos conhecimentos concernentes as propriedades dos objetos e de seus procedimentos. Estes conhecimentos armazenados constituem as estruturas cognitivas que posteriormente, de forma sintética, serão abordadas.


2.3 A lembrança no processo de resolução de problemas.

A memória dos especialistas não só está organizada corno um sistema de regras. Elas são bibliotecas de experiências. Além disso, estas bibliotecas são adaptáveis a certas situações. Por exemplo, quando uma nova experiência aparece, esta não pode ser simplesmente adicionada para a memória como uma exponencial simples. Uma experiência nova pode modificar, substituir, ampliar ou produzir perturbações nas experiências alocadas na memória. Aprender da experiência significa mudar, o que ,você conhece, para alocar um novo conhecimento dentro de sua memória.

Um fenômeno que espalha muita luz dentro da comunidade de pesquisadores é o problema da recuperação de fatos e nossa habilidade para aprender, a partir do fenômeno da lembrança (Riesbeck & Schank, 1989). A lembrança é um aspecto crucial na pesquisa do funcionamento da memória humana e, realmente, esta tem recebido pouca atenção pelos pesquisadores neste domínio. As pessoas lembram de uma pessoa para outra, de urna construção para outra e assim por diante. Mas, um aspecto significante dentro do processo da lembrança é que este ocorre através de diferentes situações. Por exemplo, um objeto pode fazer você lembrar de outro.

Por que isto acontece ? Lembrança é o caminho de como entendemos e este é a rota de como aprendemos. A lembrança diz acerca da natureza e organização de nossas experiências. Entender alguma coisa nova, significa encontrar algo em memória para descrevê-la. As pessoas não entendem do vazio. Entendemos de museus em termos de outros museus que temos visitado. Também, entendemos de eventos passados, quando recuperamos uma informação que foi perdida por outros eventos com similares características. Num processo normal, entender uma situação, etc significa encontrar pelo menos algum evento que descreva esta situação em memória para poder processá-la. A organização da memória de um sistema depende do entendimento de novas situações em termos de situações previamente processadas.

Uma experiência que permite você lembrar de outra experiência é de muita importância para alguma teoria do processo de entendimento humano e de memória. Quando as pessoas lembram de coisas, durante o curso natural de uma conversação, ou quando lêem, ou quando vêem alguma coisa, elas primeiramente processam as entradas ou características do evento. Mas, isto acontece quando chegamos a um evento lembrado (uma experiência) semelhante de forma racional ou acidental. Em ambos casos, a lembrança mostra alguma coisa significativa acerca da natureza da estrutura da memória e do processo de entendimento.

Logo:

- quando encontramos um episódio na memória, devemos perguntar-nos como sabemos da existência deste episódio e,

- quando uma explicação de uma lembrança vai acidentalmente na direção de um episódio, nos perguntamos, porque ele aconteceu e se ela tem uma relevância sobre nosso sistema de processamento de informação.

A união destas duas explicações fornecem um método pela qual a lembrança ocorre. Durante o processamento de uma informação, não observamos conscientemente um episódio particular em memória, porque não conhecemos explicitamente sua existência. Para processar uma nova experiência, devemos encontrar as estruturas da memória que armazenam as experiências que tenham uma forte relação com esta nova experiência. Assim a lembrança acontece quando encontramos a estrutura mais apropriada na memória, que nos ajuda na compreensão da situação apresentada.

Um fato óbvio, no processo de lembrar, é que o conhecimento mais específico de uma situação produzirá uma forte lembrança no curso de processamento de novos fatos desta situação (Riesbeck & Schank, 1989). Por isso, especialistas em domínios específicos podem lembrar situações passadas, porque estas estão diretamente ligadas com suas experiências.

Por exemplo, por que algumas pessoas lembram corretamente o procedimento de preparar um prato de comida e outras não ? A resposta, obviamente, é que nem todas as pessoas têm os conhecimentos dos especialistas em arte culinária. Isto faz pensar algumas coisas importantes acerca da memória: "usamos o que conhecemos para ajudar-nos a processar o que recebemos". Neste sentido, esperamos que um especialista tenha categorizado suas experiências, de tal forma, que elas estão disponíveis no processamento de novas experiências.

Um especialista está constantemente recebendo novas informações e entendendo-as em termos de informações previamente processadas. Entendemos em termos do que já compreendemos. Mas, esta visão de entendimento tem sido vista superficialmente por psicólogos interessados na cognição humana ou, por pesquisadores de LA. em sistemas especialistas ou de apoio à decisão. Por exemplo, para construir um sistema especialista colocamos o conhecimento compilado de um especialista, Isto é, as regras que ele usa quando realiza sua tomada de decisão que reflete sua experiência. Esta abordagem tem a vantagem de ser metódica e ordenada e, sua desvantagem é que ela não permite reconhecer o que ele conheceu. Concluindo, esta situação provoca uma dificuldade na aprendizagem, O processo de resolução de problemas das pessoas é muito mais complexo.

Uma alternativa de solução seria tentar modelar a memória bruta do especialista. Neste sentido necessita-se criar um conjunto de categorias de subdomínios no campo de conhecimento do especialista com regras para realizar as modificações automáticas destas categorias. Tal sistema processaria novas experiências em termos de um relacionamento estreito com as experiências passadas disponíveis. Neste contexto, encontrar um episódio, dentro da memória, com fortes ligações superficiais ou estruturais de uma situação inicial, provocaria uma lembrança. Assim, o novo episódio será indexado na memória em termos do velho episódio e novas categorias de conhecimento serão construídas, porque as velhas categorias são inúteis ou de pouco uso, ou porque as expectativas contidas dentro deles são incorretas.

Um especialista é uma pessoa que lembra experiências passadas no processamento de novas experiências. Neste sentido, todos somos especialistas e, especialistas de nossas experiências. Todas as pessoas devem utilizar algum sistema de categorias e de regras para modificá-las na interpretação de uma situação.

Uma importante conseqüência do fenômeno de lembrança é que ele altera nossa visão do que significa entendimento. Por exemplo, quando pela primeira vez visitamos um supermercado havendo visitado antes um outro supermercado observamos que somos confrontados com uma nova situação na qual tentamos entender. Dizemos que uma pessoa entende urna exponencial quando ela fala "Ali! Eu visitei este supermercado; ele é exatamente igual ao outro que conhecia". Assim, ele usa sua informação acerca de um supermercado para auxiliar na busca da informação que por ventura encontrará em outro supermercado.

Colocando esta teoria de outra forma podemos esperar que uma compra realizada, ou oferta encontrada em um supermercado, pode induzir a pessoa a lembrar de outro supermercado. Assim, entender, significa lembrar um certo evento muito relacionado com uma experiência previamente acontecida. Desta forma o processo de lembrança não é um processo aleatório (Schank, 1982), porque as estruturas que estamos usando para processar uma nova experiência, são as mesmas estruturas que estamos usando para organizar a memória.

Encontrar uma experiência específica para explicar uma outra é o que denotamos por entendimento. Isto significa que as estruturas da memória episódica e processamento de estruturas são a mesma coisa ? A resposta é sim (Riesbeck & Schank, 1989). Nesta visão, os scripts, os planos de ação e outras estruturas que são de uso no entendimento são úteis no armazenamento e na organização da memória. Estas estruturas existem para ajudar-nos a dar sentido do que temos visto e vamos ver. Assim, as estruturas da memória para armazenamento e o processamento de estruturas, na análises de informações do exterior, são exatamente as mesmas estruturas.

Segundo esta visão, é possível lembrarmos de eventos similares. Considerando-se que memória e processamento de estruturas são a mesma coisa. Colocar um evento num lugar relevante na memória para processá-lo será a exponencial mais adequada para tratar outra. Assim, a descoberta de um conjunto coerente de princípios (o que é igual a lembrar) é um passo crucial na construção de um perito em sistemas de apoio à decisão.

Nesta perspectiva duas questões podem ser levantadas:

(I) Quais são as categorias ou classes de estruturas da memória.

(2) Como são formados e usados os índices na organização de uma memória

dentro de uma estruturo.

Uma terceira questão poderíamos adicionar, porque nem toda lembrança é limitada dentro de urna determinada estrutura de memória num determinado contexto (por exemplo: museus, restaurantes). Algumas lembranças podem acontecer através de tais estruturas. Assim, a questão é:

(3) Como uma memória organizada pode Permitir a lembrança de alguma coisa que deveria naturalmente ser classificada numa estrutura diferente ?

No estudo da lembrança examinamos como uma memória relevante pode ser trazida no processamento de estruturas. Neste sentido, a lembrança ocorre, desta forma: quando queremos fazer um conjunto de predições sobre uma determinada situação, uma estrutura relevante é trazida da memória para sua interpretação. Assim, um casamento de fatos deve produzir-se na base de uma identidade, entre a estrutura ativa e a originalmente usada para processar o episódio lembrado.

Finalmente, a questão é, podemos sempre alcançar a lembrança de alguma coisa que não faz urna ligação de fatos numa estrutura Idêntica ? A resposta é óbvia, as pessoas podem lembrar eventos através de estruturas contextuais limítrofes.

Existe um número variado de cruzamentos de informações entre entidades contextuais e cada uma delas pode levar-nos a uma lembrança. Por exemplo, a lembrança baseada em objetivos, ou em planos de ação, ou através de múltiplos contextos, etc.

O processo de pesquisar informações numa memória depende do conjunto de estruturas que, adequadamente, descrevam o conteúdo de uma memória e, do conjunto de índices que apontem as características mais usuais desta estrutura.

Lembrança, então, é um fenômeno significativo que tem muito a ver com a natureza da memória. Por exemplo, como ela esta organizada e corno se dá seu processo de aprendizagem e generalização de estruturas. Uma memória tem um

conjunto de estruturas que identificam um conhecimento específico e estas não são fixas. Assim, novos conhecimentos podem ser assimilados.

2.4 As estruturas cognitivas: o conceito de esquema.

Diferentes modelos de estruturas de conhecimentos foram desenvolvidos e cada uma delas resultou de grande importância nos diferentes domínios de estudo:

- os scripts de Schank e Abelson (1977), para a compreensão de textos;

- os frames de Minsky, Winston (1975), para o reconhecimento de formas;

- os esquemas de Rumelhart, Norman e Bobrow (1975), para a compreensão da linguagem;

- os MOPs (Memory Organization Packages) de Schank (1982), aplicado a bases de conhecimento que mudam dinamicamente e,

- os TOPs (Thematic Organization Points) de Schank (1982), aplicado, também, a bases de conhecimento que mudam dinamicamente.

Estas estruturas dividem numerosos aspectos em comum. Mas, atualmente, os esquemas são o pilar da estrutura do conhecimento.

O conceito foi definido por Bartlett em 1932 e, a partir desta definição, outros autores nos anos 1970 desenvolveram novas teorias, dentro eles Piaget (1947).

Para Piaget (1947), o desenvolvimento e começo da inteligência partem do processo de assimilação/acomodação de fatos na memória. Isto é, uma ação real necessitaria de uma assimilação de um esquema existente e sua apreensão seria dirigida por um sistema de es era. Assim, toda aquisição de conhecimento se traduziria na acomodação de uma informação a um esquema anteriormente construído, dando lugar a uma nova situação.

Em geral, os esquemas podem ser definidos como uma estrutura de dados que permitem representar os conceitos armazenados na memória. Em outras palavras, eles têm um conjunto de estruturas de informação generalizadas que descrevem como e onde um conjunto de ações tomam lugar. Também eles têm uma configuração de sabedoria, derivada da experiência e que servem para interpretar novas realidades. Especificamente, eles têm duas características importantes:

(1) A informação das atividades que acontecem e,

(2) A informação física sobre o cenário.