O trabalho aqui relatado situa-se na confluência das seguintes grandes áreas de pesquisa: telemática educativa, ciência cognitiva e ergonomia de software. A temática abordada pelo mesmo é o aprendizado do uso de aplicações computacionais. Mais especificamente será enfocada a questão do desenvolvimento de condutas autônomas de aprendizado. A pesquisa pode ser enquadrada na categoria de uma pesquisa empírica exploratória, uma vez que intenta observar um experimento que incorpora na prática um conjunto de condições ou princípios (orientações pedagógicas e técnicas) que devem auxiliar o desenvolvimento de tais condutas.
Está o mundo vivendo um período revolucionário, ou seriam as mudanças já percebidas apenas decorrentes de uma evolução tecnológica normal? Uma revolução é uma transformação radical, caracterizada por mudanças rápidas em múltiplas dimensões. A evolução por sua vez caracteriza-se por um desenvolvimento progressivo e regular.
Os indícios de que o mundo começa a viver um período revolucionário são evidentes. Primeiro porque, não é difícil perceber o efeito, que a massificação do uso de inventos ampliadores da ação do homem, teve nas revoluções da história. Isso é verdadeiro, desde a invenção da roda até a invenção da máquina a vapor. A revolução industrial caracterizou-se pela expansão da capacidade motora da ação humana. As novas tecnologias disponíveis ampliam a sua capacidade lógico-dedutiva.
"A mutação das técnicas produtivas é acompanhada por novas formas de divisão do trabalho e, logo também, pelo surgimento de novas classes sociais, com o desaparecimento e a perda de poder das classes precedentes, por uma mudança da composição social e das próprias relações políticas." (Rossi apud Mussio, 1987:20)
Segundo, porque outro fator que contribui para o desencadear de mudanças revolucionárias no mundo, é a expansão do potencial de comunicação humana. A Revolução Industrial com certeza não teria ocorrido se os vários inventos da época não pudessem ter sido comunicados para o restante do mundo. Neste sentido, podem ser assinalados como revolucionários os períodos que se seguem aos da invenção da linguagem oral, da linguagem escrita e da imprensa. A telemática incrementa a capacidade de comunicação humana a níveis ainda não assimiláveis.
"Se algumas formas de ver e agir parecem ser compartilhadas durante muito tempo (ou seja, se existem culturas relativamente duráveis), isto se deve à estabilidade das instituições, de dispositivos de comunicação, de formas de fazer, de relações com o meio ambiente natural, de técnicas em geral, e a uma infinidade indeterminada de circunstâncias. Estes equilíbrios são frágeis....Basta que alguns grupos sociais disseminem um novo dispositivo de comunicação, e todo o equilíbrio das representações e das imagens será transformado, como vimos no caso da escrita, do alfabeto, da impressão, ou dos meios de comunicação e transporte modernos." (Lévy, 1995:16).
Uma revolução, pela dimensão das mudanças que produz, gera profundas crises e desequilíbrios. Como pode ser configurada e caracterizada a crise associada a revolução que ora se inicia?
A crise atual pode ser analisada segundo múltiplas dimensões. Ela tem componentes sociais e políticas, há o declínio do patriarcado, o fracasso do estilo de vida competitivo, a anulação da dicotomia capitalismo/comunismo.... A nível econômico há a ameaça de esgotamento das fontes de recursos naturais (declínio do combustível fóssil). A exploração indiscriminada destes recursos traz o perigo do desequilíbrio ecológico generalizado. Para Capra (1982), todos os aspectos desta crise são facetas de uma única crise básica, uma crise de percepção. Ou seja, no bojo de todas estas questões está a inadequação dos modelos científicos gerados a partir de um paradigma científico que precisa ser mudado.
"O paradigma ora em transformação dominou nossa cultura durante muitas centenas de anos, ao longo dos quais, modelou nossa moderna sociedade ocidental e influenciou significativamente o resto do mundo. Esse paradigma compreendeu um certo número de idéias e ... valores que estiveram associados a várias correntes da cultura ocidental, entre elas a revolução científica, o Iluminismo e a Revolução Industrial. Incluem a crença de que o método científico é a única abordagem válida do conhecimento; a concepção do universo como um sistema mecânico composto de unidades materiais elementares; a concepção da vida em sociedade como uma luta competitiva pela existência; e a crença do progresso material ilimitado, a ser alcançado através do crescimento econômico e tecnológico." (Capra, 1982:28)
Capra apresenta uma descrição muito interessante do processo histórico da construção do paradigma que está sendo ultrapassado. A seguir se apresenta uma síntese da descrição feita por Capra. Segundo ele, as bases do pensamento científico ocidental são lançadas na segunda metade deste milênio. Francis Bacon (1561-1626) elaborou a teoria do procedimento indutivo e o método empírico da ciência. Para Bacon o objetivo da ciência é dominar e controlar a natureza. Descartes (1596-1650), considerado o fundador da filosofia moderna, acreditava que a chave para a compreensão da natureza era a sua estrutura matemática.
"Não admito como verdadeiro o que não possa ser deduzido, com a clareza de uma demonstração matemática, de noções comuns de cuja verdade não podemos duvidar. Como todos os fenômenos da natureza podem ser explicados desse modo, penso que não há a necessidade de admitir outros princípios da física, nem que sejam desejáveis." (Descartes apud Capra, 1982:53)
O método proposto por Descartes é analítico e dedutivo, os pensamentos e problemas devem ser decompostos em suas partes componentes, numa ordem lógica. Sem dúvida o método de Descartes foi uma grande contribuição à ciência, mas a ênfase demasiada dada ao mesmo levou a uma fragmentação das disciplinas e do pensamento o que gerou o fenômeno chamado reducionismo. O reducionismo pode ser entendido como a crença em que todos os fenômenos, mesmo os mais complexos, podem ser entendidos através da análise das suas partes constituintes.
Isaac Newton (1642-1727) unificou o método experimental e indutivo de Bacon com o racional e dedutivo de Descartes, desenvolvendo uma completa formulação matemática da concepção mecanicista da natureza. A base filosófica do seu método, era a de que o mundo é um sistema mecânico que pode ser descrito de forma objetiva, sem necessidade de se fazer menção ao observador.
O sucesso do modelo mecanicista de Newton, que se consolida com as descobertas de John Dalton sobre o comportamento físico dos gases, e com a teoria da química atômica, desenvolvida no século XIX, faz com que os princípios do seu método sejam adotados por todas as ciências, inclusive as ciências humanas. As recém criadas ciências sociais, ainda no século XIX, chegaram a ser proclamadas como a "física social".
Foi John Locke (1632-1704) quem desenvolveu uma concepção atomística para a sociedade, reduzindo os padrões observados na mesma ao comportamento dos seus indivíduos: "tal como os átomos de um gás estabelecem um estado de equilíbrio, também os indivíduos ou seres humanos se estabilizariam numa sociedade." (Capra, 1982:64) Existem, portanto leis naturais na sociedade que se respeitadas, levarão a mesma ao equilíbrio. A descoberta e o respeito destas leis seria o papel dos governos. O Iluminismo fundado por Locke, influenciou o pensamento econômico e político do mundo, os seus ideais eram o direito à propriedade, a mercados livres e a governos representativos e, ainda, o direito ao individualismo, à liberdade e à igualdade.
A inadequação do modelo de Newton foi percebida só no século XIX quando do estudo dos fenômenos elétricos e magnéticos. O mundo era muito mais complexo do que Newton e Descartes haviam imaginado .O conceito de evolução de Darwin (1808-1882) também contribuiu nesta direção. Um novo pensamento científico começa então a ser esboçado.
A mecânica quântica, criada no século XX, além de reformular os conceitos de tempo, matéria, espaço, objeto e causa e efeito, descobriu a existência de partículas subatômicas com um aspecto dual (partícula - onda). Essa dualidade, na verdade, levou a descoberta de que "...nem o elétron nem qualquer outro objeto atômico possuem propriedades intrínsecas, independentes do meio ambiente" (Capra, 1982:73). O fato de todos esses conceitos serem fundamentais para os modos de perceber e vivenciar o mundo causou reações violentas à essa teoria. Os efeitos desta nova visão se fizeram sentir mais rapidamente na física que nas outras ciências, onde o choque só começou a ser sentido depois da segunda metade deste século.
Na nova física não se lida com coisas, lida-se com interconexões:
"É assim que a física moderna revela a unicidade básica do universo, mostra-nos que não podemos decompor o mundo em unidade infinitas, com existência independente. Quando penetramos na matéria, a natureza não nos mostra qualquer elemento básico isolado, mas apresenta-nos como uma teia complicada de relações entre as várias partes de um todo unificado." (Capra, 1982:75)
Dessa forma,
"...a separação das leis da natureza entre ciências diferentes é um artifício humano: a natureza é um todo integrado. E, nessa natureza, como vimos, a indeterminação, a irreversibilidade, a complexidade, a instabilidade são as leis." (Tiezzi, 1988:191)
Essa nova percepção do mundo foi denominada de sistêmica, ou holística, ou, ainda, orgânica. Nela, os sistemas são entendidos como totalidades integradas que não podem ser reduzidos, pois a redução descaracteriza os princípios básicos organizadores do próprio sistema que se quer descrever. A natureza do todo é diferente da mera soma das partes. Essa nova visão resgata a importância da síntese no pensamento, ou seja, o pensamento intuitivo não é mais dispensável.
"Os sistemas vivos são organizados de tal modo que formam estruturas de múltiplos níveis, cada nível dividido em subsistemas sendo cada um deles um 'todo' em relação as suas partes, e uma 'parte' em relação a todos maiores." (Capra, 1982:40)
"O pensamento racional e o pensamento intuitivo são modos complementares de funcionamento da mente humana. O pensamento racional é linear, concentrado, analítico. Pertence ao domínio do intelecto, cuja função é discriminar, medir, classificar. Assim, o conhecimento racional tende a ser fragmentado. O conhecimento intuitivo, por outro lado, baseia-se numa experiência direta, não intelectual, da realidade, em decorrência de um estado ampliado de percepção consciente. Tende a ser sintetizador, holístico e não linear." (Capra, 1982:35)
Nessa nova perspectiva o mundo está totalmente interligado. Os fenômenos biológicos, psicológicos, ambientais e sociais são totalmente interdependentes. Não é mais possível às ciências sociais desconhecerem a técnica, mas também não é mais possível o desenvolvimento da técnica com o desconhecimento das ciências sociais.
A informática é uma ciência que surgiu no seio dessa nova era. Donde, muitas vezes se associa a crise atual ao seu próprio surgimento. Fala-se mesmo em revolução da informática. Mas, de acordo com o novo paradigma, é preciso admitir que a informática é ao mesmo tempo resultado e razão das transformações percebidas. Na verdade, é mais importante perceber que a crise associada a revolução da informática ainda não se efetivou, tal revolução apenas começa a se manifestar. Apesar disso, o mundo não é mais o mesmo: todos os fazeres humanos estão mudando. Estas mudanças abrem um enorme espaço de possibilidades: centralização e controle ou acesso livre e democrático à informação? Absolutismo ou democracia participante como formas de governo? Eficiência econômica ou desemprego em massa? segurança pública ou instalação do terror? Subjetividade e respeito mútuo com justiça distributiva ou invasão da privacidade e massificação?
A respeito dos efeitos da tecnologia da informática na nossa sociedade, é preciso ultrapassar ambas as visões, a cética e a otimista, pois:
"...não há a informática em geral, nem essência congelada do computador, mas sim um campo de novas tecnologias intelectuais, aberto, conflituoso e parcialmente indeterminado. Nada está decidido a priori." (Lévy, 1993:9).
Lévy destaca que o surgimento de uma tecnodemocracia terá que ser inventado na prática, ao mesmo tempo que alerta para o grande distanciamento existente entre "a natureza dos problemas colocados à coletividade humana pela situação mundial da evolução técnica e o estado do debate coletivo sobre o assunto." (1995:7) Neste contexto surge a questão da massificação da alfabetização em informática. A alfabetização inevitavelmente ocorrerá, pois, da mesma forma que a imprensa, a informática só se viabiliza pela produção em massa. Isso pode parecer auspicioso por um lado, mas, por outro, não dá nenhuma garantia de acesso a todos os cidadãos à participação na produção efetiva do seu mundo (nem mesmo à imprensa todos tem acesso), nem garante o controle sobre o tipo de uso que se fará da nova tecnologia ( tal é, também o caso da imprensa).
Piero Mussio, abordando a questão da alfabetização tecnológica, destaca:
"Há dois níveis de compreensão de um instrumento tecnológico. O primeiro é o da compreensão técnica, típico dos especialistas que individualizam alguns princípios, algumas regras de derivação das reais proposições naquela linguagem, e sobre as quais constroem a disciplina com todos os seus mecanismos e procedimentos, mesmo experimentais....O segundo nível é o da compreensão do uso do instrumento por parte de quem delega ao especialista a compreensão específica do fato e aceita dele a garantia técnica....sendo capaz de avaliar, julgar o instrumento proposto não por seus mecanismos internos mas pelas suas funções (globais) externas." (Mussio, 1987:16)
Mussio lembra que com o passar do tempo, a diferença entre estes dois pontos de vista tende a se atenuar. A consciência do significado cultural do instrumento pode, então, se generalizar a tal ponto que a "delegação" dos usuários aos especialistas também é minimizada. Quando for este o caso, o erro de um especialista pode ser facilmente explicado por outro e, será também entendido, nas suas conseqüências imediatas, pela comunidade de usuários, que é, então, capaz de avaliar a sua gravidade. Por outro lado é claro que a vontade do usuário também influencia o especialista, ou seja, os usuários são também atores do projeto. Acontece que esta atuação para se tornar explícita exige um processo trabalhoso de aprendizado e de adaptação, donde muitos esquivam-se deixando de ter a participação que seria fundamental. A questão que Mussio levanta nesta problemática é: como permitir a quem quiser usar convenientemente um artefato tecnológico, informar-se, não para ser "civilizado" ou "alfabetizado" apenas, mas para melhorar a si mesmo, ativando funções críticas autônomas de avaliação de tais sistemas, por aquilo que fazem e pelo modo como fazem.
A questão que Mussio levanta é, em outras palavras, a do controle político e social dos meios de produção. Illich (1976) lembra que as próprias características técnicas dos meios de produção podem tornar impossível este controle. O conceito de ferramenta convivencial elaborado por Illich aborda esta questão: "a ferramenta é convivencial na medida em que cada um puder utilizá-la sem dificuldade, tão amiúde ou tão raramente quanto o deseje, para os fins que o próprio determine....Entre o homem e o mundo ela é um condutor de sentido, um tradutor de intencionalidade". (Illich, 1976:40) É bom destacar que, na visão de Illich, o caráter convivencial da ferramenta não depende totalmente do seu nível de complexidade, uma vez que fatores de controle social podem barrar o acesso à mesma. Mas, sem dúvida esse nível de complexidade é uma grande barreira. Esta pode ser vencida pela própria ciência, e aí abre-se uma área importante do fazer científico, ou seja, a ciência pode e deve ser usada para simplificar a instrumentação tecnológica.
O sentido que Illich atribui ao domínio das ferramentas, é muito mais abrangente do que apenas a aprendizagem do seu uso, ele significa a recuperação pessoal do sentido de aprender e de produzir, e mais, a possibilidade de definir conjuntamente o uso que se dará às habilidades conquistadas.
De tudo o que foi dito até aqui, deduz-se que é preciso desenvolver uma postura autônoma e crítica de aprendizado sobre a tecnologia. No caso da informática, essa postura deve estar implícita tanto nas metodologias de aprendizagem, quanto nos próprios instrumentos tecnológicos desde o seu projeto. Ela deve, portanto, ser considerada nas metodologias de engenharia de software, no projeto das interfaces e das funcionalidades dos sistemas de software e nas políticas de informatização das instituições.
Ao falar de aprendizado sobre o uso da tecnologia é preciso refletir como o aprendizado se dá? Ou, quais são os processos pelos quais o homem constrói o seu conhecimento? E, como o desenvolvimento da autonomia é possível? Esta reflexão deve orientar, em contra partida, a busca das respostas para as questões referentes ao uso que se dará à tecnologia no processo educacional.
Valente (1993) afirma que a principal razão para que a tecnologia da informática seja utilizada nos processos educativos é a de desenvolver o raciocínio das pessoas possibilitando-lhe a resolução de situações problemas. É claro que todo educador assume que esse é o papel da educação, mas passar daí à prática exige muito mais do que disposição. É preciso conhecer esse processo de raciocínio: qual é a sua dinâmica? quais são as forças que o animam?
A capacidade de resolver problemas, não diz respeito, em geral, às habilidade do tipo daquelas requeridas nas escolas. Diz respeito, no entanto, ao desenvolvimento de capacidade de crítica, de buscas de estratégias próprias de solução, da capacidade de problematizar o que já parecia resolvido, da capacidade de dialogar, de perceber múltiplas perspectivas, da capacidade de predição, e por fim da capacidade de construção de regras próprias na busca de soluções.
Na verdade a ciência ainda conhece muito pouco o processo de construção do intelecto humano. A psicologia como todas as ciências foi profundamente influenciada pela visão cartesiana e mecanicista do mundo. As suas duas principais escolas até o início do século XX, eram formadas pelos estruturalistas de um lado e os comportamentalistas do outro. Os primeiros concentraram-se no estudo da mente, tentando analisar a consciência através dos seus elementos básicos, ao passo que os comportamentalistas preocuparam-se exclusivamente com o comportamento observável, negando a própria existência da mente. Esta dicotomia mente versus comportamento que reflete a concepção newtoniana só foi questionada, em parte, pelos teóricos do gestaltismo (Max Wertheimer) e do funcionalismo (William James), em finais do século XIX.
Algumas escolas psicológicas que conseguiram respostas mais consistentes a estas questões ainda são contemporâneas, e alguns dos seus teóricos (das linhas cognitivistas-construtivista e humanistas) só na última década é que começaram a ser citados nos livros sobre teorias da aprendizagem (tais como Piaget, Ausubel, Vygotsky, Rogers, Bruner, Wallon, Maslow,..., dentre outros). Não se tem uma resposta simples e livre de contradições sobre como o homem aprende. Nesse contexto o conceito de autonomia, que está completamente imbricado com o conceito de aprendizagem, também não é de fácil compreensão.
Jean Piaget, na sua obra discute com muito cuidado a questão da autonomia e do seu desenvolvimento. Para Piaget a autonomia não está relacionada com isolamento (capacidade de aprender sozinho e respeito ao ritmo próprio - escola comportamentalista), na verdade entende Piaget que o florescer do pensamento autônomo e lógico operatório é paralelo ao surgimento da capacidade de estabelecer relações cooperativas. Quando os agrupamentos operatórios surgem com as articulações das intuições, a criança torna-se cada vez mais apta a agir cooperativamente.
".Na ordem da inteligência, a cooperação significa a discussão dirigida objetivamente (de onde a discussão interiorizada que é a deliberação ou reflexão), a colaboração no trabalho, a troca de idéias, o controle mútuo (fonte de necessidade de verificação e demonstração) etc. Claro, pois, que a cooperação é o ponto de partida de uma série de atitudes importantes para a constituição e o desenvolvimento da lógica.... Do ponto de vista psicológico, que é nosso, a própria lógica não consiste num sistema de operações livres: traduz-se ela por um conjunto de estados de consciência, de sentimentos intelectuais e de atitudes, todos caracterizados por certas obrigações, às quais é difícil contestar um caráter social que seja primário ou derivado". (Piaget, 1967:209).
A lógica é, neste sentido, uma moral do pensamento, imposta e sancionada pelos outros. A obrigação de não se contradizer, por exemplo, não é um imperativo hipotético, ou apenas uma regra do jogo operatório, ela é também um imperativo moral, exigido pelo intercâmbio intelectual e pela cooperação. "Também a objetividade, a necessidade de verificação, o imperativo de conservar-se o sentido das palavras e idéias etc., tanto são obrigações sociais como condição do pensamento operatório." (Piaget, 1967:209)
No entender de Piaget, portanto, ser autônomo significa estar apto a cooperativamente construir o sistema de regras morais e operatórias necessárias à manutenção de relações permeadas pelo respeito mútuo.
Do ponto de vista de um dos principais educadores humanistas, Paulo Freire, é preciso afastar qualquer possibilidade de manipulação no processo educacional, o homem não é um corpo com uma consciência vazia cujo preenchimento pode ser controlado de fora. O homem é um corpo consciente que intencionalmente se dirige para o mundo (ou para si mesmo), que se faz, então, mundo da consciência. Aí estaria o conceito de autonomia de Paulo Freire. Ainda, segundo a visão humanista de Freire, o homem é um ser de busca, pois sua consciência está sempre incompleta e contém elementos que não se tornam imediatamente presentes, mas, esta busca não pode jamais ser isolada, pois esta desumaniza e coisifica. É preciso que os homens estejam juntos e dialoguem (ou cooperem).
Uma nova dimensão para a compreensão do fenômeno do aprendizado e da autonomia é emprestada pela biologia, a partir da concepção sistêmica da vida:
"a plasticidade e flexibilidade dos sistemas vivos, cujo funcionamento é controlado mais por relações dinâmicas do que por rígidas estruturas mecânicas, dão origem a numerosas propriedades características que podem ser vistas como aspectos diferentes de um mesmo princípio dinâmico - o princípio da auto-organização...Um organismo vivo é um sistema auto-organizador, o que significa que sua ordem, estrutura e função não é imposta pelo meio ambiente, mas estabelecida pelo próprio sistema. Os sistemas auto-organizadores exibem um certo grau de autonomia...isto não significa que os seres vivos estejam isolados do seu meio ambiente; pelo contrário, interagem continuamente com ele, mas essa interação não determina a sua organização." (Capra, 1982:263)
Essa nova concepção da vida tem reflexos diretos na sociologia e na psicologia e chegou a dar origem a um novo termo, a 'sócio-biologia'. Paul Weiss, Humberto Maturana e Francisco Varela, são os seus estudiosos mais conhecidos na atualidade. Um dos principais fenômenos ligados a essa nova compreensão, tem implicações epistemológicas, uma vez que a mesma foi capaz de explicar como a consciência pode surgir a partir de um fenômeno biológico. O transcendental é, então, definido de forma realista, sem recursos ao solipsismo. "Essa capacidade de auto-transcendência faz com que os sistemas vivos sejam capazes de se dirigir criativamente para além das fronteiras físicas e mentais nos processos de aprendizagem, desenvolvimento e evolução." (Capra, 1982:263)
Da mesma forma que, para Piaget e Freire, a autonomia é paralela à capacidade de cooperação, e não significa, portanto, isolamento, a concepção sistêmica da vida entende a autonomia como um conceito relativo. Na medida que um sistema é auto-organizado ele é livre do ambiente, logo, autônomo; na medida em que interage com o ambiente, mais sua atividade será modelada por influências externas. A compreensão desta relatividade exige uma perspectiva nova sobre a velha questão filosófica do livre-arbítrio, o conceito do eu isolado deve ser ultrapassado até a tomada de consciência do eu como parte integrada num todo cooperativo.
A ciência hoje tem um grande valor social. Não sem razão é claro, pois, esta mesma ciência tem sido capaz de afastar do homem os seus grandes pavores - a fome, a morte, a dor, o frio. Por não compreendê-la, e sabendo-a capaz de tais proezas, o homem comum envolve-a numa aura de admiração que beira a adoração. Daí se poder dizer que um dos grandes totens do nosso tempo é a tecnologia, filha dileta da ciência. A admiração dirigida à ciência e à tecnologia conferem-lhe um grande poder sobre o imaginário popular, fazendo com que sejam desvalorizados todos os preceitos dela não oriundos. Corre-se aí o risco da perda de um valioso corpo de conhecimentos desenvolvido pelos povos de diferentes culturas, através de métodos não validados pela ciência. O abandono destes métodos de produção e disseminação de saber, é tão grave quanto a própria perda de tais conhecimentos, ou quanto ao decréscimo de valor social imposto àqueles que o perdem. As ciências não são ainda capazes de explicar os processos cognitivos diferenciados presentes na raça humana, mesmo assim os homens da ciência assumem, em geral, uma atitude prepotente. Esta prepotência está manifestada na sua linguagem e nos seus rituais ficando muito claro que tais homens se percebem como merecedores do sentimento de idolatria de que são objeto. Esta atitude valida e acirra a sensação de incapacidade que o homem comum sente quando tenta compreender o mundo para poder agir sobre ele.
Desta forma, cria-se um grande estigma envolvendo a tecnologia. Este estigma se manifesta na geração de relações heterônomas entre os detentores do conhecimento tecnológico e os não iniciados. Vista em nível macrocósmico, tem-se a dependência tecnológica internacional, na qual uma nação inteira não é capaz de se estruturar de forma a decidir autonomamente os seus destinos. A nível microcósmico esta dependência pode ser percebida nas instituições de toda ordem e até mesmo nas relações interpessoais.
O microcomputador é o mais mistificado produto da ciência na atualidade. A admiração que as pessoas lhe endereçam cresce na medida em que seja mais forte a imagem negativa que fazem de si mesmas. Admiração pelo outro e ausência de respeito por si mesmo são condicionantes para o surgimento de relações heterônomas (respeito unilateral), ou seja, o aprendiz respeita e admira a máquina e os instrutores, mas não respeita, ou melhor dizendo, não valoriza a si próprio. Isto faz com que um grande número de pessoas se sinta incapaz de aprender e mesmo de utilizar a informática para a solução de seus problemas. Acirra-se, desta forma, a relação dependência entre as pessoas que querem aprender a usar a informática e os técnicos ou entendidos. Esta dependência que é sentida em vários níveis de intensidade e manifesta-se sob diversas formas dentro da sociedade, impede o surgimento de relações autônomas.
A introdução ao uso da telemática feita dentro de uma perspectiva pedagógica cuja ênfase esteja no treinamento sem dar espaço para o desenvolvimento de uma postura autônoma de aprendizado é uma atitude que:
Enquanto não se conseguir gerar nas pessoas esta capacidade de aprender autônoma e cooperativamente, toda a promessa revolucionária que a tecnologia da informática gerou (promoção da inteligência do homem comum, eficiência no setor produtivo e econômico, maior segurança, mais democracia participante), não vai passar de um sonho, e a realidade pode piorar, na medida em que o desenvolvimento tecnológico acentue a distância cultural entre as pessoas.
As principais questões que se colocam dentro desta problemática são as seguintes:
Qual é a perspectiva pedagógica que propicia a geração de atitudes autônomas nos aprendizes? E quais os seus pressupostos psicopedagógicos ?
Quais são as principais componentes ou princípios desta perspectiva pedagógica na área do aprendizado do uso das ferramentas da informática e telemática?
As características dos ambientes computacionais a nível da sua funcionalidade e das suas interfaces podem induzir ou impedir a adoção de tal perspectiva? Neste caso quais são umas e outras?
As aplicações computacionais interativas podem gerar uma relação de cooperação entre o sistema e o sujeito que o utiliza? Quais características deve ter o ambiente computacional para que tal ocorra?
Respondidas as questões anteriores, ou seja se tal estratégia
pedagógica, auxiliada por ferramentas de software adequadas, é
conseguida e aplicada com sucesso, que repercussões isto terá
no desenvolvimento cognitivo das pessoas e, a partir daí, qual o impacto
sofrido pelas relações de poder que se estabelecem entre as
pessoas nos vários ambientes nos quais os seres humanos interagem
e constroem o seu mundo?
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