O paradigma construtivista (Jean Piaget), a teoria socio-biológica de Maturana e Varela bem como o trabalho de Paulo Freire fornecem a base teórico-pedagógica deste trabalho. Será possível, a partir desta base teórica definir uma abordagem de introdução à telemática capaz de impulsionar a geração de atitudes de aprendizado autônomo e cooperativo. Para tal, é preciso traduzir os princípios gerais presentes nestas teorias, para o caso específico do aprendizado do uso de aplicações computacionais.
Esta tradução foi feita e gerou um conjunto de hipóteses que são norteadoras do presente trabalho, as mesmas foram divididas segundo duas componentes chamadas de sócio-pedagógica e técnica.
A tradução dos princípios teóricos segundo a componente sócio-pedagógica gera as seguintes hipóteses:
Hipótese 1. A introdução à telemática deve ser feita a partir de um interesse específico do sujeito que aprende. Esse interesse pode ser, lúdico, estético ou pragmático. O aprendizado portanto se dá com o uso efetivo do computador para a realização de uma tarefa. Conforme Piaget, o conhecimento se constrói na ação efetiva, seja esta a ação que se realiza sobre os objetos ou na interação com os outros sujeitos.
Atender a um interesse específico do sujeito que aprende, pressupõe um respeito efetivo à individualidade deste sujeito, pressupõe também a inserção do processo do aprendizado na realidade e no contexto da vida dos aprendizes. Neste caso a aprendizagem tem a mesma perspectiva proposta por Maturana e Varela, ou seja, a aprendizagem é entendida como um processo de transformação do comportamento, através da experiência, de uma maneira que, direta ou indiretamente, esta ligada à manutenção da sua autopoiesis.
Hipótese 2. O conhecimento das características técnicas do hardware e do software deve ocorrer na medida em que o uso do equipamento progride, ou seja na medida em que a necessidade desse conhecimento se impõe ao sujeito que aprende. Desta forma, a carga de conhecimentos técnicos repassados inicialmente deve se reduzir ao mínimo necessário para operação do ambiente. Isto propiciará a redução da taxa de admiração e de respeito unilateral que alimenta a mística da máquina. Aqui, cabe a exploração da metáfora que compara o uso do computador ao uso de uma outra ferramenta qualquer. Na verdade, o computador nada mais é do que uma ferramenta. Uma ferramenta sofisticada, com certeza, já que é capaz de simular muitas outras. Mas, como toda ferramenta, para usá-lo, é preciso ter um certo conhecimento sobre o seu funcionamento. Tal conhecimento, no entanto, deve ser restrito ao contexto da sua utilização ( não é obrigatoriamente necessário conhecer a madeira pela qual foi feito o cabo do martelo, ou como foi fundido o ferro que lhe dá a forma, para que seja possível a sua utilização).
É claro que um computador é uma ferramenta muito mais sofisticada do que um martelo e exige para a sua manipulação uma carga de habilidades cognitivas muito diferentes daquelas necessárias à utilização de um martelo. Mas estas habilidades, com certeza, não são desenvolvidas com cursos teóricos sobre os diferentes computadores existentes, nem sobre a história da construção do computador ou sobre suas características técnicas. Quando se exagera na dosagem do repasse de tais tipos de informações o que se consegue é exacerbar a dependência entre os que buscam aprender e os seus mestres. Além disso, na medida que evoluem os produtos de software, ficando cada vez mais interativos, aumenta a necessidade do desenvolvimento de uma forte dose de saber procedural (ação concreta), pois, interação só se aprende interagindo, e diminui a necessidade do conhecimento específico sobre características técnicas da própria ferramenta.
O exagero no repasse de conteúdos técnicos inicialmente, apenas fecha ainda mais a malha do véu do mistério que envolve a utilização dos computadores.
A tal da mística sobre os computadores se manifesta segundo duas faces opostas e complementares. Existem pessoas que não tem coragem de começar a usar os computadores porque pensam que precisam fazer alguns anos de cursos antes de conseguir algum resultado efetivo. Nesse caso não tem nem coragem de começar. Outras pessoas pensam que o computador é tão potente que é capaz de fazer qualquer coisa em seu lugar. Não é raro ver professores universitários procurando auxílio nos Departamentos de Informática e Estatística, imaginando que é só "colocar os dados no computador e esperar que ele faça a análise". Estas últimas conferem ao computador super-poderes, imaginando que não é nem necessário informar o computador sobre o que analisar.
A questão da quantificação da dosagem inicial de conhecimento técnicos necessários não é fácil, a princípio. A hipótese que aqui se coloca é a de que estes conhecimentos só devem ser apresentados no momento em que a sua necessidade se impuser pelo uso.
Um usuário eficiente de uma ferramenta não precisa ter o mesmo conhecimento que o seu construtor tem sobre ela, mas com certeza precisa saber o que é possível fazer com ela, ou para que ela foi construída, e como ela pode ser operada. E isso só se aprende usando.
Neste caso é novamente muito simples perceber a concordância com os teóricos citados. É o princípio do aprendizado na ação que está presente de novo e que nega o repasse declarativo de enunciados e afirmações como significativo ao aprendizado. Ou ainda o fato destacado por Piaget que algo só é assimilável quando já há uma pré-estrutura assimiladora construída.
Hipótese 3. O aprendizado autônomo pressupõe relações de cooperação entre os aprendizes. Paulo Freire nos diz que ninguém educa ninguém, que ninguém tampouco se educa sozinho e que os homens se educam entre si mediados pelo mundo. A concepção de Freire, recusa os depósitos, a mera dissertação ou narração de fragmentos isolados da realidade e realiza-se através de uma constante problematização do homem-mundo, propugnando que é necessário superar a contradição educador-educando. Esta necessidade é imposta à medida que se encara o homem como um ser de opções, cujo ponto de decisão deve estar nele, ou em suas relações com o mundo e com os outros. Tal superação para Freire se dá através do diálogo e da comunicação. Piaget esclareceu bem esta questão da cooperação e do surgimento da autonomia. São justamente as interações sociais cooperativas que forçam a aparecimento da autonomia. Já Maturana e Varela entendem a vida como um fenômeno cooperativo em sua essência, donde, o fenômeno cognitivo, como um fenômeno da vida, herda as suas características.
Piaget, ao analisar os tipos de relações humanas e a construção das regras morais, concluiu que relações autônomas só podem emergir das relações cooperativas, nas quais está presente o respeito mútuo. Uma das hipóteses que será considerada neste trabalho é a de que o respeito mútuo abrange uma dimensão que Piaget esboçou apenas de forma implícita. Nas suas reflexões Piaget não explicita a necessidade do respeito a si próprio. Piaget refere-se sempre as dimensões de respeito indicadas no diagrama abaixo.
Ou seja, refere-se sempre aos respeitos que ambos os parceiros de uma relação devem endereçar ao outro para que o respeito mútuo possa realmente existir. Mas o exemplo citado pelo próprio Piaget, o da relação pai e filho, impõe a necessidade da consideração de outras dimensões do respeito. Na relação pai e filho, o filho respeita e admira o pai, mas é também respeitado pelo pai, porque então Piaget fala em respeito unilateral?
O respeito é definido por Piaget como uma valoração que se destina às pessoas e não aos objetos ou serviços, e o respeito só se concretiza pelo reconhecimento da escala de valores do indivíduo respeitado, reconhecimento não significando aqui a adoção, mas sim, a atribuição de valor.
Ainda, no exemplo da relação pai e filho, todas as condições levantadas explicitamente pelo próprio Piaget para a existência do respeito mútuo, são respeitadas. Como se explicar então a heteronomia indicada pelo mesmo Piaget nestas relações? Aqui se considerará que, mesmo que as duas dimensões do respeito já citadas por Piaget estejam equilibradas pode permanecer ainda um desequilíbrio num outro nível. O desequilíbrio pode se estabelecer entre o respeito que o filho tem pelo pai e o respeito que ele tem por si mesmo, ou seja, ele respeita mais o pai do que a si mesmo, daí a heteronomia e a tendência para considerar como imutáveis as regras ditadas pelo pai. A hipótese que se estabelece aqui é que uma relação de respeito mútuo pressupõe, portanto, a existência de equilíbrio em quatro níveis de respeito, indicados pelas setas no diagrama abaixo.
Estas duas novas dimensões referem-se ao respeito que cada indivíduo deve nutrir por si mesmo. Cada uma das quatros dimensões de respeito citada envolveria múltiplas componentes, abrangendo desde os aspectos afetivos ate os intelectuais, a própria busca da coerência/equilibração nas crenças e saberes do sistema cognitivo pessoal seria um aspecto deste auto-respeito imanente ao mútuo.
A metáfora da ferramenta e da oficina pode sintetizar os três princípios explicitados acima: "o melhor lugar para o aprendizado do uso de uma ferramenta é a 'oficina' onde o aprendizado se dá com o uso cooperativo da mesma. Na oficina a pessoa usa a ferramenta para a realização de alguma tarefa que quer aprender a realizar ou que quer executar cooperativamente, enquanto que o conhecimento sobre a ferramenta ocorre paralelo à sua utilização.
Os princípios ou hipóteses citados a nível sócio-pedagógico serão muito mais facilmente concretizados se os mesmos estiverem também subjacentes à própria construção do artefato tecnológico, ou seja no caso da informática o software a ser utilizado deve ter atributos (ergonômicos e de funcionalidade) que propiciem ou mesmo incentivem o desenvolvimento de posturas autônomas de aprendizado. É preciso identificar que atributos são estes. O já tradicional e conhecido conceito de interface amigável deve ser revisto a partir de tais hipóteses. As hipóteses construídas na dimensão pedagógica, podem agora ser analisadas da perspectiva técnica.
A primeira hipótese afirma que a introdução à telemática deve ser feita a partir de um interesse específico do sujeito que aprende ou que o aprendizado se dá com o uso efetivo do computador para a realização de uma tarefa que o sujeito queira realizar. Ou seja, a tarefa que o usuário vai realizar deve ser prioritária na definição da interface. É, portanto, o princípio da interface centrada no usuário que está subjacente a esta hipótese. Esta perspectiva é compartilhada por Norman (1990) quando considera que o foco do projeto de interfaces deve se desviar da própria interface para a tarefa que o usuário quer desempenhar.
Já a segunda hipótese, sustenta que o conhecimento das características técnicas do hardware e do software deve ocorrer na medida em que o uso do equipamento progride, ou seja, na medida em que a necessidade desse conhecimento se impõe ao sujeito que aprende. No âmbito do projeto de interfaces tal hipótese está relacionada com o princípio geral, pelo qual, deve-se minimizar a carga de conhecimentos externos ao domínio da realização da tarefa, necessários à operação do ambiente. Norman afirma que a interface deveria ser quase imperceptível, não porque ela não existisse, mas porque ela estaria tão harmoniosamente integrada com a tarefa que ela chegaria a desaparecer da consciência.
A análise da terceira hipótese na abrangência das características técnicas da ferramenta não é tão simples. Esta hipótese fixa que o aprendizado autônomo pressupõe relações de cooperação entre os aprendizes. Ora, a nível técnico a implementação de sistemas que permitam o trabalho cooperativo entre vários usuários tem, por excelência, sido buscada com a tecnologia de redes de computadores, com os sistemas que permitem o compartilhamento de tarefas como a construção distribuída de base de dados (por exemplo). Mas essa possibilidade de cooperação pode ser buscada também nas aplicações mono-usuários em duas dimensões: uma diz respeito a possibilidade de que, quando requerido, duas ou mais pessoas cooperem numa mesma sessão de uso da aplicação, ou mesmo em sessões distintas.
A outra dimensão faz referência à própria relação entre a máquina e o usuário, ela pode ser também uma relação cooperativa, uma vez que o computador incorpora aspectos do processo de cognição humana: poder decisório, capacidade de reconhecimento e adequação à contextos, etc.
Colaborar (co-laborar) pressupõe cooperar (co-operar). Para Piaget, cooperar implica a existência de respeito mútuo, que exige a adoção de escalas de valores comuns ou compartilhamento de objetivos e metas; implica ainda, a presença da reversibilidade operatória em ambos os parceiros, só desta forma é que as ações podem ser empreendidas em comum. Na cooperação cada parceiro precisa compreender o outro, ou precisa poder colocar-se no lugar do outro. Isso exige o desenvolvimento de técnicas poderosas e sofisticadas de inteligência artificial.
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