Neste capítulo se procurará descrever a situação de aprendizagem que foi investigada: a primeira rodada de oficinas públicas da rede hiperNet. Além disto serão contempladas questões relativas à escolha dos sujeitos observados, tais como, o perfil profissional dos mesmos e que tipo de contatos anteriores estes já haviam tido com a tecnologia de informática e de redes de telemática.
Serão descritos também os procedimentos de observação e de registro dos dados que foram utilizados.
O universo no qual se realizou a investigação constituiu-se da primeira edição das oficinas públicas da rede hiperNet, ocorrida nos últimos três meses do ano de 1995, mais precisamente entre os dias 01/10 e 15/12. Nestas oficinas, a participação esteve aberta gratuitamente aos professores das redes públicas municipais de ensino nas cidades de Florianópolis e Brusque (locais onde já existem NET's instalados) e também aos professores das Escola Técnica Federal de Santa Catarina - ETFSC, e aos alunos da primeira fase do curso de Licenciatura em Matemática da UFSC
Nos NET's, além de contar com os recursos computacionais da rede hiperNet (mais especificamente os ambientes eduFórum e AABC), que lhes permitiu utilizar programas de fácil manejo, voltados para usuários iniciantes e na língua portuguesa, os participantes receberam apoio de pessoal orientado para atuar de forma a atender os pressupostos pedagógicos que aqui foram formulados.
Cada participante dispôs de quatro horas semanais, daí que cada
estação de trabalho garantiu a participação de
10 pessoas nas oficinas, no caso de dois turnos de atendimento (40
horas/semana/estação), ou de 15 pessoas no caso de três
turnos de atendimento (60 horas/semana/estação). Levando-se
em conta os NET's que efetivamente conseguiram estar operando durante o
período analisado, houve uma oferta de aproximadamente 175 vagas assim
distribuídas:
Nesta primeira edição das oficinas o convite à participação voluntária encaminhado aos professores especificava uma temática geradora inicial para os debates: "o uso da informática e da telemática na educação comunitária". Este convite efetivou-se a partir da elaboração de um folder que era levado pessoalmente até as escolas e distribuído ao professores após uma breve explanação sobre os objetivos e as características das oficinas. Além disso, informava-se também a possibilidade de experimentação de um software educacional o AABC- Ambiente de Aprendizagem Baseado em Computador.
A escolha de um tema gerador para compor esta primeira etapa de participação pública nos fóruns da hiperNet deveu-se à disponibilidade de pessoal e de recursos existentes na equipe. A princípio, esses recursos não são suficientes, para permitir a realização de uma investigação de demanda temática como seria o desejado. Mas, o tema proposto serviu como tema codificador de investigação (Freire, 1987).
A temática escolhida tinha caráter bastante central, como é conveniente aos temas usados como codificadores de investigação. Na verdade, ao se discutir informática educativa, discute-se a própria cultura. Esse é para Freire um tema indispensável.
"Na proporção que discutem o mundo da cultura vão explicitando o seu nível de consciência da realidade, no qual estão vários temas. /.../... bem discutido o conceito de cultura, em todas ou em grande parte de suas dimensões, nos pode proporcionar vários aspectos de um programa educativo." (Freire, 1987:119)
Como era de se esperar, pouco tempo após ter sido constituído o relacionamento horizontal entre a equipe mediadora do projeto e os participantes das oficinas, os sujeitos começaram a estabelecer de forma livre os temas que desejavam debater.
Outra questão que levou a propor um tema gerador, foi o fato de que a intervenção pedagógica proposta nesta primeira edição das oficinas públicas, se deu em comunidades que ainda não tiveram, na sua grande maioria, nenhum experiência direta com o uso da informática. A informação que essas comunidades têm, em geral, é mitificada. Esse fato, leva a que essas pessoas não consigam participar de um processo de investigação da sua demanda de temas, por não conhecerem que tipo de uso poderão fazer com o ferramental que irão ter à disposição.
O fato da participação ser voluntária, garantiu, a princípio, o atendimento ao primeiro pressuposto formulado. Se alguma forma de coação à participação fosse exercida, não estariam sendo respeitados os interesses do sujeitos já neste primeiro momento.
É também interessante, tentar definir aqui um cenário do que foi uma sessão de participação de um integrante num fórum. O participante vinha até um dos NET's -Núcleos de Experimentação/Aprendizagem de Telemática - duas vezes por semana. No NET ele tinha disponível uma estação de trabalho durante duas horas (em cada sessão).
Ali, o participante tomava conhecimento de toda a correspondência que circulou no Fórum desde sua última sessão e emitia a sua própria correspondência. Ele também podia fazer pesquisas nos repositórios de documentos e, quando era o caso, podia levar cópias impressas, ou em disquetes, do material que lhe interessasse para estudos posteriores. Ele algumas vezes também trazia novos materiais para agregar ao repositório de informações. Nesse caso, antes ele o editava e depois o transferia para o repositório no servidor central da rede, tornando-o assim disponível para todos os outros integrantes.
Além disso, a partir do dia 15 de novembro, ele podia também fazer contatos diretos com os outros participantes que estivessem ocupando estações da rede no mesmo horário (no eduMOO).
No contato inicial com o ambiente o sujeito recebia uma breve
demonstração do que era o ambiente e do que era possível
fazer nele. Em seguida, os sujeitos eram deixados livres para explorarem
e experimentarem a vontade no mesmo. O trabalho dos mediadores consistia
basicamente de auxiliar os sujeitos quando estes solicitassem ajuda. Se fosse
necessário e também se fosse desejado pelo sujeito, os mediadores
também atuavam buscando definir junto com o mesmo que uso ele poderia
ou gostaria de dar à ferramenta.
O NET_ETFSC e o NET_MTM não puderam iniciar o seu funcionamento na data marcada, donde os casos escolhidos para observação se restringiram aos participantes do NET_Brusque e NET_PraçaXV. Por isso, todos os sujeitos observados eram professores das escolas públicas municipais de Brusque e Florianópolis.
As oficinas tiveram a duração de onze semanas e o planejamento inicial era acompanhar quinze sujeitos durante todo esse período observando e registrando 45 minutos de trabalho semanal de cada um deles. Na verdade não foi possível registrar o número previsto de sessões por várias razões. Dentre elas: houve vários feriados no intervalo registrado, os sujeitos faltavam as sessões, e também alguns sujeitos desistiram de participar. Dentre os quinze sujeitos inicialmente escolhidos, seis deixaram de comparecer às oficinas, o que exigiu a escolha de novos casos de estudo já após algumas semanas do início das atividades.
As tabelas 8 e 9 apresentam os dados relativos às sessões registradas por sujeito. Percebe-se nas mesmas que foram registradas um total de 92 sessões sendo que destas apenas 81 foram efetivamente utilizadas no estudo. Apesar de ter ocorrido uma quantidade menor de registros do que o que foi previsto isto não chegou a afetar o resultado final obtido.
Tabela 8. Histórico dos registros dos sujeitos que desistiram do fórum ou declinaram da aceitação inicial de participar da observação
Tabela 9. Números de sessões registradas por sujeito
Um ponto importante no convite feito aos sujeitos da pesquisa, foi a forma como se deu a abordagem das pessoas que participaram como casos de estudo. Foram adotadas algumas das considerações feitas por Gomoll (1990), que são descritas a seguir.
Deixou-se claro desde o início o caráter voluntário da colaboração. Neste sentido, foi explicado que a qualquer momento, e por qualquer razão, eles podiam se sentir livres para declinar da aceitação que fizeram em participar do estudo, podendo continuar a participar das atividades de discussão da hiperNet livremente.
Os voluntários foram informados com clareza dos objetivos do estudo, e tinham a garantia que nenhuma forma de identificação pessoal seria utilizada nos relatórios da investigação.
Esclareceu-se também o fato de que o que estava sendo testado era uma metodologia ou uma abordagem para o aprendizagem e o uso de um tipo de tecnologia, bem como a própria tecnologia. Não eram os voluntários do estudo que estavam sob investigação. Enfatizava-se que com a cooperação deles, com a observação dos seus problemas e dificuldades, seria possível melhorar tanto o software quanto a própria metodologia de realização dos fóruns, buscando-se uma maneira melhor de utilizar os recursos tecnológicos disponíveis.
Todo o equipamento utilizado foi mostrado inicialmente (gravadores, câmeras filmadoras), bem como foi explicada a sua função no experimento.
Por último, foi fundamental explicar o papel do investigador durante as sessões que eram registradas. Foram explicadas também as características dos procedimentos de coleta dos dados, e como o voluntário poderia ajudar. Esclareceu-se o caráter das intervenções do investigador, e o fato de que, muitas vezes, ele não responderia imediatamente às perguntas porque precisaria conhecer a natureza da dúvida, mas que sempre o faria, em seguida e num momento oportuno. Ao final, a colaboração era já antecipadamente agradecida.
Um dado importante sobre os sujeitos investigados foi o fato de que todos eles eram do sexo feminino. Isto primeiramente porque este foi o sexo predominante entre os professores que se inscreveram para participar. Mas, houve outra razão. Dentre os quinze sujeitos escolhidos inicialmente para realizar o estudo, três eram, na verdade, do sexo masculino (Art, Smu e Svo). No entanto, não foi possível continuar a investigação com os mesmos pois, dois deles (Art e Smu) desistiram de participar das oficinas. O outro (Svo) pediu para não mais ser observado pois se sentia muito constrangido. Interessante observar que cem por cento dos homens escolhidos desistiram, enquanto que entre as mulheres este percentual foi apenas de 25%. Aqui insinua-se a hipótese de que para os homens o constrangimento impingido pela observação seja maior do que para as mulheres.
A grande maioria dos sujeitos investigados tinha praticamente nenhum contato com os computadores. Um deles já tinha computador em casa (um XT), e o utilizava para edição de textos; um outro tinha um PC, mas nunca o utilizava; e, havia ainda um outro, que era o responsável pelo único computador existente na sua escola, e já o usava diariamente para edição de textos e de planilhas de dados, no ambiente operacional Windows. Todos eles, sem exceção, nunca haviam tido antes contato com o uso de redes de telemática.
O planejamento inicial realizado em função dos objetivos estipulados, apontava para a necessidade de registro de muitas variáveis, desdobráveis em vários indicadores com características bastante distintas. As variáveis e os indicadores identificados neste momento inicial são descritos a seguir, segundo as duas dimensões de investigação desta pesquisa: a dimensão sócio-pedagógica e a dimensão técnica da análise ergonômica.
A reflexão que acompanhou o início da análise dos dados gerou uma redefinição dos indicadores que foram inicialmente planejados. Os novos critérios e indicadores definidos são relatados nos capítulos que descrevem tais análises.
Nesta dimensão da análise a observação se delineia a partir de cinco variáveis, quais sejam:
Para a identificação destas variáveis foram inicialmente propostos os indicadores listados a seguir.
A presença do respeito unilateral pela tecnologia e pelos instrutores, pode ser designada a partir dos indicadores que seguem:
A capacidade de adaptar-se ao trabalho cooperativo pode ser revelada no:
Quanto à dimensão técnica, as variáveis mais globais a serem registradas eram:
Para registrá-las foram escolhidos os seguintes indicadores:
Aqui se buscará descrever todos os procedimentos de coleta e de registro que foram efetivamente utilizados, indicando a relação dos mesmos com as variáveis observadas e com os seus indicadores. Serão também relatados os métodos utilizados nos procedimentos de transcrição final do material coletado, tais como, os tipos de códigos utilizados na transcrição e ainda considerações gerais sobre os mesmos.
Os indicadores inicialmente selecionados para as variáveis a serem observadas no experimento apontavam para a necessidade de vários procedimentos de observação. Os procedimentos previstos e as adaptações sofridas pelos mesmos durante o processo de coleta dos dados são descritos a seguir.
Numa entrevista semi estruturada são preparadas algumas questões orientadoras, de caráter bastante genérico. Isto garante que as respostas dadas não sejam já de antemão induzidas pelas perguntas, fato que pode ocorrer, principalmente na presença de sentimentos de auto-desvalia em que os sujeitos podem querer agradar o entrevistador. O caráter genérico e aberto das questões produz quase que um discurso livre, e na medida em que o mesmo vai se efetuando, de forma dinâmica novas questões e considerações são formuladas. Estas entrevistas foram realizadas nos momentos inicial e final do processo de observação. Todas elas foram gravadas em fitas cassete e depois transcritas na íntegra para análise.
Na primeira entrevista as questões norteadoras iniciais foram:
Na segunda entrevista as questões eram:
Para a análise ergonômica das aplicações de software que compõe o eduFórum, bem como para a maioria dos identificadores ligados as variáveis da componente pedagógica, planejou-se inicialmente utilizar a técnica chamada de protocolos verbais concorrentes (Diaper, 1989a). Ela é uma técnica de observação participante, muito usada na análise ergonômica, que teoricamente, envolve o usuário explanando o que ele está fazendo enquanto ele faz. É, portanto, muito importante para identificar as expectativas que o usuário tem para as conseqüências de suas próprias ações, e as hipóteses que ele elabora quando tais expectativas não se efetivam.
Alguns autores a denominam 'thinking aloud' (Lewis, 1994), ou 'pensando em voz alta'. Ou seja, procura-se fazer que o usuário da aplicação de software, verbalize ao máximo a sua relação com a aplicação, para poder compreendê-la melhor. Ela pressupõe uma participação efetiva do investigador, na instigação dessa verbalização.
Como proceder nesta participação de forma a instigar corretamente a avaliação é um problema sério. Intervenções nos momentos errados são uma intrusão, acabam alterando demasiadamente a própria realização do trabalho e falsificando o resultado da análise. A grande desvantagem reside no fato de que o esforço cognitivo exigido para que uma pessoa fale, interfere e muito no desempenho da pessoa em realizar a tarefa.
Uma alternativa à tal técnica propõe que nenhuma intervenção seja realizada durante a sessão, devendo a mesma apenas ser registrada em vídeo. Logo ao final da sessão, o investigador e o usuário devem assistir à fita gravada e analisá-la, quando então o usuário verbaliza e explica o porque dos procedimentos que adotou. Esta sessão de conversação com o usuário é também gravada em vídeo se configurando no registro da pesquisa. Essa técnica, que já foi descrita anteriormente sob o nome de 'post-task walkthrough' é também chamada de "protocolo consecutivo". Ela não é viável para a situação de pesquisa deste projeto, pois exige tempo em demasia, cada sessão gravada exige duas vezes o seu tempo no "post-task", e os voluntários da pesquisa eram professores das redes públicas de educação, com uma agenda lotada de horas-aulas semanais. Daí a escolha de realizar-se protocolos verbais concorrentes, apesar dos inconvenientes já citados.
Outra questão, que a situação de experimentação contrapôs às orientações tradicionais da análise ergonômica era a relativa à solicitação ou ao fornecimento de uma lista de tarefas específicas para que o usuário realizasse. Fazer isso seria interferir no processo de livre experimentação que era proposto aos sujeitos, e, portanto, não estar atendendo ao primeiro pressuposto pedagógico formulado, ou seja, à hipótese de que, para o surgimento de posturas autônomas de aprendizado, o sujeito deve estar realizando atividades que lhe sejam significativas e que digam respeito diretamente à sua demanda de interesses. O problema que se poderia ter desta forma, ocorreria se algumas ações possíveis com a aplicação não fossem utilizadas e, portanto, não pudessem ter os seus aspectos ergonômicos analisados. Considerou-se que este fosse um mal necessário que provavelmente não fosse enfrentado dado ao grande número de horas de observação realizado.
Também era claro, já de início que a adoção de atitudes de investigação corretas, com menores níveis de intrusão e mais elucidativas, poderiam ser obtidas sob orientação do método clínico piagetiano (Carraher, 1989; Ramos, 1993). Ou seja, que o "thinking aloud" dos protocolos concorrentes deveria ser orientado segundo as recomendações gerais de tal método. No âmbito da investigação que Piaget realizou, tal método situava-se a meio termo entre os tradicionais testes de inteligência (totalmente rígidos) e o estudo de observação pura (sem nenhuma interferência do observador), que ocupavam, portanto, os dois extremos da intervenção do examinador.
O método clínico piagetiano é baseado na experimentação, a partir da conversação livre dirigida pelo investigador que segue os rastros das ações do sujeito, lhe pedindo que explique, que justifique, fazendo contra sugestões. O investigador a partir da ação concreta e observável do sujeito tenta diagnosticar o seu pensamento.
A grande desvantagem deste método é a dificuldade em praticá-lo corretamente. Dolle (1987), alerta que é preciso estar atento para não sugerir ao sujeito tudo que se deseja saber, e também para nada sugerir, o que é comum quando não se sabe o que investigar objetivamente.
A saída para esta escaramuça é ter bem claros os objetivos da investigação. Outro ponto importante é a linguagem a ser utilizada na interação com o usuário. Sempre que possível deve-se usar o próprio vocabulário do usuário (por exemplo se ele usa a palavra tela ao invés de monitor, então o investigador deve também usá-la).
Carraher (1989) apresenta algumas recomendações para o uso do método clínico que serão aqui sintetizadas:
Apesar de ser uma técnica de observação participante, ou seja, a princípio considerava-se que o observador estaria interferindo no processo, era preciso ter cuidado para que tal interferência não constrangesse em demasia o sujeito, era preciso que ele se sentisse livre para executar as ações que ele decidisse realizar. Isto inicialmente por uma questão ética, e também porque era necessário observar a intensidade de atitudes autônomas na interação com o ambiente computacional. Nesse sentido buscou-se interferir e mediar o processo da mesma forma que era feito com todos os outros participantes. Ou seja, a intervenção do examinador só ocorria em duas situações muito claras: quando solicitada pelo sujeito, ou quando o examinador percebesse de forma flagrante que o sujeito havia desistido de buscar autonomamente uma solução ao mesmo tempo em que relutava em pedir ajuda por constrangimento.
Logo de início foi percebido também que a presença constante do examinador ao lado do sujeito investigado, era um fator que interferia em demasia na sua atividade. Deste momento em diante, optou-se por deixá-lo trabalhando sozinho e a aproximação só passou a ocorrer nos momentos das intervenções. Nesse caso, para poder identificar as situações em que o sujeito precisava de ajuda e não solicitava, procurava-se observá-lo com discrição mantendo certa distância e, sempre assegurando-se antes de interferir, se ele desejava a intervenção ou se precisava de alguma ajuda.
Mas, a dinâmica dos próprios locais onde os NET's estavam funcionando muitas vezes dificultava a realização de tais procedimentos, pois o examinador, era constantemente requisitado para ajudar outros participantes nas dificuldades que os mesmos enfrentavam. Por isso, em muitos momentos da observação, o sujeito acabou trabalhando sozinho, sem nenhuma mediação do examinador. Nesses momentos registrou-se interações com os seus colegas, com os outros mediadores e declarações espontâneas que o mesmo fazia sobre o seu trabalho. O que de início parecia ser um problema, acabou sendo de grande valia, pois se por um lado, era importante a intervenção do examinador para poder identificar os processos de reflexão que o sujeitos estava construindo, por outro lado, o trabalho livre revelou aspectos fundamentais relativos às posturas de aprendizado autônomas que o sujeito apresentava, bem como relativos ao tipo de respeito que estava presente nas relações que o sujeito estabelecia e que eram mediadas pela tecnologia.
As sessões de observação foram registradas em fitas de vídeo. Nestas fitas o rosto do sujeito observado não era focalizado, a câmara revelava apenas a tela do monitor. Todas as interações verbais do sujeito com os colegas, os mediadores e o examinador eram também registradas, pois a câmera ficava afixada sobre um tripé, logo por sobre o ombro do sujeito, em local que não se constituía um entrave para o bom andamento dos trabalhos. Além disso o microfone era de muito boa qualidade e captava com precisão todos os sons do ambiente do NET.
O fato de saber que seus rostos não apareceriam nas gravações, e da câmera não ser visível, permitia que a presença da mesma fosse logo esquecida. Em pouco tempo os sujeitos se acostumaram com a presença da filmadora, e passaram a trabalhar de forma mais natural durante os registros. Alguns chegaram a se esquecer totalmente que estavam sendo filmados, como demonstrou o teor de alguns de seus comentários.
Todas as sessões registradas foram transcritas na sua totalidade, pois, percebeu-se que a realização da análise com a manipulação direta das fitas de vídeo consumiria um tempo muitas vezes superior ao tempo gasto nas transcrições. Para a transcrição de aproximadamente 65 horas de fitas de vídeo e aproximadamente 20 horas de entrevistas, foram consumidas 13 semanas inteiras de trabalho.
Nas transcrições das fitas, todos os diálogos foram
mantidos na íntegra. Durante as transcrições algumas
ações mais freqüentes de manipulação direta
da interface foram associadas a códigos de forma a facilitar o trabalho.
O apêndice I contém os esquemas de códigos utilizados
e contém também um trecho de uma transcrição.
Lá pode se observar que já no momento em que a
transcrição foi sendo efetuada, foram sendo apontadas e demarcadas,
com códigos apropriados, algumas situações que já
eram identificadas como determinantes para a análise que seria feita
em seguida.
Uma fonte de informações muito rica para a investigação aqui realizada foi, sem dúvida, o próprio material produzido pelos participantes durante a realização desta primeira rodada de oficinas públicas de fóruns da hiperNet.
O material resultante da evolução do conteúdo dos repositórios públicos e da comunicação assíncrona nas listas de discussões e nas áreas de correspondência pessoal foi todo analisado. Como este material é de acesso público na rede, a análise do mesmo não se constituiu numa invasão de privacidade.
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