O objetivo aqui é delinear as contribuições deste trabalho, destacando os aspectos de originalidade e relevância dos resultados por ele alcançados. Portanto, não se trata mais de repetir as conclusões já apresentadas nos capítulos anteriores. Além dos aspectos de originalidade e relevância, cabe salientar as possibilidades de continuidade do trabalho que foi realizado, destacando os resultados que seriam então esperados. Esta análise final foi dividida em três eixos: o eixo da análise pedagógica que foi realizada; o eixo da análise ergonômica e também as relações que foram percebidas entre os mesmos.
Tudo isto condiz com o entendimento de que a autonomia é a vocação (a qual Freire diz ser ontológica) que o ser humano tem de transformar o mundo ou o ambiente em que vive. É claro que para transformar é necessário antes ter a habilidade cognitiva de conceber a transformação pretendida e, portanto, de entender primeiro a realidade a ser transformada.
Mas, conceber não é suficiente, uma vez que a transcendência precisa ser exercitada na prática. Daí que, nas relações de opressão há a morte do processo cognitivo, donde, só há autonomia nas relações cooperativas. A cooperação, a autonomia, e o desenvolvimento cognitivo são aspectos de um processo único.
A relação entre a autonomia e a cooperação também pode ser observada no fato de que o exercício da transcendência, seja ele o enfrentamento entre sujeito e objeto, ou a promoção de mudança ética, gera crise e ansiedade, e que esta crise é muito mais facilmente superada nas relações cooperativas.
Autonomia então não significa isolamento. Autonomia é, pelo contrário, a capacidade de superação dos pontos de vistas, de compartilhamento de escalas de valores e de sistemas simbólicos, de estabelecimento conjunto de metas e estratégias, que está presente nas relações cooperativas.
Piaget com muita sabedoria demonstrou que nas relações cooperativas, o respeito mútuo é uma exigência. Para ele, o respeito mútuo se dá no equilíbrio entre os respeitos que os parceiros endereçam um ao outro na troca inter-individual. O trabalho que aqui se relata, contribuiu para estabelecer também a importância de considerar novas dimensões de respeito. Além do equilíbrio percebido por Piaget, é necessário também considerar a existência de um outro, este refere-se à equivalência entre a intensidade do respeito endereçado ao parceiro e do respeito endereçado a si próprio. Os resultados da situação experimental investigada mostraram com muita clareza que as atitudes autônomas emergiam em paralelo ao estabelecimento de melhores níveis de equilíbrio nesta nova dimensão de respeito.
Fortes sentimentos de auto-estima podem descambar em relações de opressão e coação, como as freqüentemente presentes nos ambientes muito competitivos. Para que tal não ocorra, os sentimentos de auto-estima precisam ser contrabalançados por níveis equivalentes de respeito endereçado aos outros. Por outro lado, o desequilíbrio provocado por fortes sentimentos de auto-desvalia, produzirá resultados semelhantes, pois estes também predispõem ao surgimento de relações de opressão.
A compreensão construída sobre o desenvolvimento de condutas autônomas de aprendizado foi traduzida para as situações de aprendizagem sobre a telemática. Nessa tradução, os resultados teóricos foram convertidos em critérios e indicadores que permitiram a diferenciação em categorias distintas e consistentes, das diversas situações práticas de aprendizagem encontradas nas variáveis observadas. A identificação destes critérios é sem dúvida uma das contribuições deste trabalho que merece ser destacada. Os mesmos podem servir como ponto de partida para a avaliação de outras situações de aprendizagem similares. Desta forma, será possível alargar o campo de compreensão sobre o fenômeno estudado, ultrapassando a abordagem exploratória que ainda foi utilizada neste trabalho.
Na prática, a continuidade destes estudos vai contribuir para definir as estratégias e atitudes pedagógicas a serem adotadas nas situações em que a aprendizagem do uso da tecnologia venha a ser requerida, sejam as escolas, as universidades ou a formação dos recursos humanos já incorporados ao processo produtivo.
Outra questão de pesquisa que pode se beneficiar dos resultados aqui apresentados, diz respeito à identificação dos efeitos que a telemática produzirá nas estruturas decisórias e políticas dos ambientes e instituições que incorporarem o seu uso. Isto porque como foi percebido, processos de aprendizado do uso destes recursos podem afetar os sentimentos de auto-estima das pessoas, e isto reequilibra as relações interpessoais que são mediadas pela tecnologia. A necessidade da construção de um novo equilíbrio se configura então, quando as pessoas começam a conceber a possibilidade de transformações na sua realidade. Então seria importante observar até que ponto os sujeitos são capazes de se articular e se organizar para intervir de forma a realizar os inéditos viáveis que foram capazes de perceber coletivamente.
Os resultados observados mostraram, na prática, o fato de que esta compreensão crítica pressupõe a superação dos sentimentos de auto-desvalia. Na presença destes sentimentos o sujeito facilmente é induzido a acreditar que a compreensão que ele precisa desenvolver é a mesma compreensão tida pelos técnicos e projetistas destas ferramentas. Daí que, por não se sentirem capazes de apreender no seu modelo explicativo toda a complexidade dos sistemas técnicos que precisam manipular, acabam desistindo de compreendê-los. Nesse sentido a compreensão crítica corresponde também à percepção que, como usuários, precisam construir apenas um modelo lacônico e simplificado da ferramenta. Este modelo lacônico guarda do modelo técnico apenas aqueles aspectos e propriedades que são fundamentais para o domínio da realização da tarefa. Ou seja, os usuários precisam apenas compreender os princípios básicos de funcionamento que lhe garantirão a habilidade de decidir como melhor explorar o potencial da ferramenta. Na verdade, o sentimento de auto-desvalia o impede de perceber que cada usuário deve ser capaz de participar da decisão a respeito de qual nível de compreensão precisa atingir, uma vez que é ele que deve decidir as suas demandas relativas à tecnologia.
Neste sentido, o trabalho também contribuiu para concluir que, na utilização das atuais ferramentas de telemática o modelo lacônico inicial que precisa ser construído pelo usuário, deve incluir primeiramente a compreensão de estruturas hierárquicas, uma vez que estas compõem o paradigma de organização presente na maioria dos modelos de interface e dos sistemas operacionais, bem como nos servidores gophers. É preciso também que o usuário seja capaz de construir um modelo para o paradigma da organização física da rede. Tal modelo deve incorporar: aspectos da transmissão de dados, tais como limites de velocidades; hierarquia dos endereçamentos; limite de capacidade dos servidores; aspectos de administração relativo ao controle dos servidores, etc.
Para finalizar, este trabalho relata e avalia uma experiência que sem
dúvida é uma contribuição genuína para
a definição de um novo conceito de educação à
distância. O projeto hiperNet é uma experiência pioneira,
um processo alternativo de educação a distância, que
procura radicalmente implementar um novo paradigma educacional. A
descrição e análise dos seus resultados foi uma
experiência rica e valiosa, sobretudo no que diz respeito à
formação continuada de recursos humanos (life long
learning) que será necessária nessa nova era da sociedade
da informação. Desta forma o trabalho colaborou para esclarecer
o papel político e pedagógico das novas tecnologias de
telemática.
A experiência prática realizada contribuiu também para identificar uma lacuna presente em ambas as propostas. Trata-se da necessidade de construir uma representação formal do próprio objeto que está sendo manipulado. Isto porque os objetos manipulados nas aplicações de software são em geral objetos abstratos e bastante complexos. Eles precisam pois ser descritos de uma forma mais eficiente nas metodologias de análise ergonômica.
Não foi possível experimentar a ferramenta de suporte computadorizada que Diaper já desenvolveu para o seu método. O seu autor promete que esta ferramenta traz mais dinamismo, com redução de quase 70% do tempo de realização da metodologia. A mesma permite a representação automática no formato KRG (knowledge representation grammar) das hierarquias de ações, objetos e seqüências de ações. A representação no formato KRG, segundo o autor, possibilita manipular as hierarquias com muita facilidade, mudando a centralidade dos atributos, e isolando desta maneira aqueles mais importantes para a identificação dos níveis mais genéricos de ações, de objetos e de processos. Dessa forma a ferramenta previne o problema da viscosidade do método, ou seja, previne contra a crescente dificuldade de realizar mudanças nas etapas iniciais à medida que a análise progride.
Esta ferramenta computadorizada, que o autor chama de LUTAKD - Liverpool University Task Analysis Knowledge Descriptions - (Diaper 1996), permite também o cálculo automático das freqüências das ações e seqüências de ações. Esses cálculos são fundamentais para a determinação dos diferentes perfis de usuários, o que é determinante no processo de decisões pertinentes à fase do projeto da aplicação.
O custo de fazer manualmente a tradução para a representação no formato KRG e de fazer os cálculos das freqüências pareceu ser tão alto que não era justificado. Conforme Diaper: "fica difícil saber se análise da tarefa pode justificar tais dificuldades" (1995:10) Por isso a ferramenta computadorizada proposta parece realmente ser de grande colaboração na análise ergonômica de software, principalmente se aliada a processos também automatizados de coleta de dados.
A importância deste tipo de ferramenta também se sobressai quando se percebe que análise ergonômica precisa acompanhar o dinamismo das novas metodologias de desenvolvimento de software que já permitem bastante rapidez na prototipação dos ambientes. É claro que se a análise ergonômica for muito lenta, ela passa a ser naturalmente descartada pela equipe de desenvolvimento. Nesse aspecto pode-se dizer que, após realizada para uma versão da aplicação, a análise ergonômica das próximas versões será sem dúvida efetuada com muito menor dispêndio de tempo e trabalho, o que é um ponto positivo bastante importante da mesma.
Os resultados já obtidos com a análise permitem também antever que a concepção e a implementação dos sistemas de ajuda do ambiente estão já delineadas nos mesmos e que podem, portanto, ser implementadas sem grandes dificuldades.
De maneira geral, o relatório e as representações produzidos foram avaliados como bastante legíveis pela equipe de desenvolvimento da hiperNet. O responsável pela implementação da versão analisada manifestou que a hierarquia de classes de objetos que foi detectada na análise correspondeu bem à hierarquia que ele havia concebido para a ferramenta, e lhe permitiu alguns insights importantes. Contudo ele questionou se tal dispêndio de tempo e energia se justificava uma vez que reproduzia em parte o que ele já havia concebido. Como contra-argumento lhe foi sugerido que este fato, talvez, indique sim a adequação da metodologia em representar as classes de objetos que são efetivamente utilizadas na realização da uma tarefa, e que se a análise ergonômica fosse realizada já na fase do projeto da aplicação, ela poderia ser de grande auxílio para a modelagem conceptual da ferramenta. Esta é a velha questão do custo/benefício, é claro que ela é pertinente e precisa ser constantemente refletida.
Outro resultado que sobressaiu na experiência realizada disse respeito à forma da coleta dos dados. Os dados foram coletados no ambiente normal de trabalho, e não foi realizada nenhuma intervenção além das que naturalmente ocorreriam no ambiente de aprendizagem projetado. Ou seja, não foram propostas atividades específicas para a análise e também não se realizou nenhum tipo de indução especial à verbalização. O que se quer salientar é que na análise de ambientes interativos, como é o caso das atuais aplicações computadorizadas, esta forma de coleta mostrou-se perfeitamente adequada. Isto porque, o próprio registro da interação em vídeo permitiu analisar as intenções e razões da ação do usuário, detectando as hipóteses que permaneciam subjacentes à sua ação. O método de observação usado poderia, desta forma, ser chamado de uma adaptação do método clínico piagetiano, onde as intervenções do investigador foram bastante reduzidas pelo tipo de resposta e pela complexidade do objeto manipulado. Isto é promissor no sentido de que é possível no caso da avaliação ergonômica de ambientes computadorizados, realizar processos de observação que não sejam intrusos à realidade que se quer analisar.
As vantagens percebidas com a metodologia realizada, sugerem que sejam continuados os esforços de investigação para torná-la mais eficiente. No momento já foram identificadas algumas direções que são relatadas aqui como sugestões para futuras pesquisas. Diaper sugere algumas formas de representação e diz que as mesmas são bastante adequadas para descrever os domínios de conhecimento analisados na sua metodologia. O trabalho aqui relatado expande e adapta a proposta de Diaper, os acréscimos feitos revelaram a necessidade da descrição de novos domínios relativos à tarefa analisada. Uma destas descrições corresponde aos procedimentos ou operações (nodos terminais da hierarquia de ações) e a mesma deve considerar: as etapas visíveis na interface durante a realização da operação, ou os aspectos lingüísticos da interação, os problemas relacionados com cada operação, os aspectos do desencadeamento (sincronismo, precedências, pós operações).
Outro domínio que precisa ser descrito é o dos objetos manipulados durante a realização da tarefa. Nesse sentido já foi construída uma descrição hierárquica das classes, mas isto não foi suficiente e ficou clara a necessidade ainda da realização de uma descrição semântica para aqueles objetos. De modo geral, a investigação de formas de representação adequadas é uma necessidade ainda não satisfeita nesta área, e promete ainda exigir muito trabalho, principalmente, como já foi salientado, devido ao dinamismo que o processo de desenvolvimento de software requer e que é motivado pela constante evolução tecnológica da área.
Para finalizar cabe salientar que a metodologia praticada aponta para uma integração bastante desejada entre a ergonomia e a engenharia de software. Diaper (1996) identifica a sua metodologia como adequada ao paradigma de projeto orientado à objetos (OOD - object oriented design). No seu trabalho mais recente e ainda não publicado, ele salienta que a metodologia de análise ergonômica por ele desenvolvida se constitui num método de análise e concepção de sistemas interativos que é condizente com o paradigma de orientação à objetos. Ele demonstra que o método TAKD (Task Analysis Knowledge Description) pode suportar a etapa de "modelagem de entidades" presente nalgumas metodologias OOD, e exemplifica como, utilizando especificamente a metodologia SSADM (Structured System Analysis and Design Method).
Esta possibilidade de integração foi também percebida pela equipe de desenvolvimento do projeto hiperNet. Mas para que esta integração venha a ser realmente viável, é preciso ainda avançar muito com o trabalho de experimentação metodológica.
Um outro aspecto importante deste trabalho, reside no fato de que foi praticada aqui uma perspectiva que não é muito usual na análise ergonômica. Realizou-se uma experiência concreta de análise fora da empresa , saindo portanto do contexto do trabalho técnico e invadindo os ambientes educacionais. Mesmo a relação trabalho/trabalhador foi ultrapassada, pois o contexto da educação que se analisou era muito mais amplo do que o da "educação para o trabalho" e envolvia a "educação para a cidadania". Tentou-se perceber a questão da construção de interfaces nas suas implicações políticas e pedagógicas, à medida em que se analisou a necessidade da construção de interfaces para grandes populações.
Ambientes cooperativos precisam promover as possibilidades de atuação autônoma e é nos ambientes cooperativos que os processos de aprendizado autônomo vicejam com mais vigor. Esta foi a lição principal deste trabalho.
A construção da consciência crítica que Freire propõe exige primeiro a apropriação do objeto de conhecimento e depois a sua problematização dialógica. Illich propõe, que é preciso que a ciência colabore simplificando a instrumentação tecnológica, única forma de que a delegação de competência seja diminuída na relação usuário/especialista, como quer Rossi. Então, é preciso trazer boa parte das funções que hoje são terreno específico dos especialistas administradores das redes para o nível da manipulação direta das interfaces das aplicações clientes.
O projeto hiperNet trabalha com esta perspectiva, e na sua versão atual a mesma se concretiza com a possibilidade de edição remota e cooperativa do repositório gopher. A análise ergonômica realizada identificou a necessidade de expandir o direito de edição e e isto leva justamente a invadir o terreno dos especialistas, com criação de áreas de debates, de links para outros repositórios de dados, inscrição de novos participantes, etc.
A simplificação precisa atingir um tal nível que a instalação de um servidor passe a ser um processo tão fácil que os usuários possam autonomamente transformar cada uma das suas estações de trabalho num servidor. No estágio atual a propalada arquitetura anárquica da internet ainda é utópica, uma vez que a grande e imensa maioria dos seus usuários ainda não tem condições de compreender a sua estrutura de modo a garantir a participação dos mesmos no debate político que acompanha a sua manutenção e expansão.
Outro avanço importante a ser promovido nas interfaces diz respeito a necessidade de tornar muito mais transparente para o usuário a organização física e lógica da rede. A interface pode auxiliar o usuário na construção dos modelos lacônicos (econômicos) sobre o que é a rede - como ele pode utilizá-la - quais os recursos que estão sendo usados cooperativamente etc.
Neste trabalho se analisou a possibilidade do surgimento de relações cooperativas mediadas por um tipo especial de tecnologia. Mas, é importante que o conceito de cooperação se transforme num paradigma para a reflexão sobre a forma como as relações humanas ocorrem em vários níveis. Como já vem acontecendo, por exemplo, com a relação homem/máquina a partir do conceito de agentes de interface, com as propostas de projeto participante no qual todos os afetados por um artefato tecnológico devem ter condições de participar efetivamente do seu projeto, etc...
A tecnologia da informática permite um novo e rico filão de
investigação transdisciplinar. É verdade que já
há muitas vertentes de pesquisa tecnológica que têm buscado
apoio nas áreas de ciências humanas. A ergonomia há muito
tempo se serve da psicologia. Mas o contrário também pode ser
verdade, a psicologia tem muito a ganhar da ergonomia, e este trabalho é
um exemplo. Talvez, dentre as muitas surpresas boas que esta era da
informática reserva, esteja a possibilidade concreta de que o homem
venha compreender melhor a si mesmo.