2. REFERENCIAL TEÓRICO
Este capítulo tem por objetivo analisar as contribuições teóricas que serão utilizadas para a estruturação deste estudo. Neste sentido, ele está dividido em seis seções. Esta primeira seção relaciona o ordenamento do capítulo, encadeando os assuntos selecionados de acordo com o eixo que rege a pesquisa.
A segunda seção analisa as questões referentes à transferência de tecnologia. Inicialmente são apresentados e discutidos alguns conceitos que podem assumir os termos tecnologia e inovação tecnológica, bem como a importância destas para as empresas no contexto atual. Em seguida discorre-se sobre o processo de transferência de tecnologia entre os países desenvolvidos e os novos países industrializados, destacando alguns problemas observados, a partir de desajustes de adaptação da tecnologia ao contexto do país importador. Um caminho de análise e busca de solução para estas questões é a utilização da Ergonomia, ampliado pela Antropotecnologia.
A terceira seção apresenta a Ergonomia, analisando algumas definições, suas principais características e os pressupostos básicos de ação, através das etapas da Análise Ergonômica do Trabalho. Como os processo que envolvem transferência de tecnologia são, geralmente, concebidos como projetos industriais, são feitas algumas colocações sobre a importância da intervenção ergonômica quando do desenvolvimento e implantação desses. A parte final desta seção apresenta, ainda, argumentações consideradas importantes acerca da relação entre a ergonomia e a inovação tecnológica.
A quarta seção compila as informações e discussão sobre Antropotecnologia. Assim, a apresentação começa com enfoques sobre a origem do termo e sua definição, bem como sobre as ilhas antropotecnológicas. Para melhor situar esta abordagem, alguns exemplos de estudos antropotecnológicos e seus principais resultados são apresentados. A partir destes estudos discorre-se, então, sobre uma classificação sugerida para análise de anomalias da transferência de organização. A metodologia da abordagem antropotecnológica é apresentada a seguir, com o encadeamento de suas diversas etapas. Ao final da seção são levantadas algumas considerações gerais sobre esta abordagem, destacando-se a importância da análise dos aspectos organizacionais do trabalho e da empresa quando da realização de estudos de cunho antropotecnológico.
A quinta seção refere-se às contribuições teóricas consideradas relevantes para enriquecer a análise dos processos de transferência de tecnologia através da abordagem antropotecnológica, com ênfase aos aspectos organizacionais. Inicialmente, trabalha-se com a definição conceitual de organização da empresa e do trabalho, seguindo-se a discussão das dimensões através das quais se pode analisar uma organização. A evolução da análise organizacional é explicitada a partir da consideração da empresa como sistema fechado e como sistema aberto. São trabalhados os pressupostos da Teoria da Contingência, explicitando as colaborações das principais pesquisas que analisam a questão da tecnologia e do ambiente nas empresas. Com relação especificamente ao ambiente, são destacados conceitos, perspectivas de análise da adaptação organizacional e dimensões da análise ambiental.
Finalmente, na sexta seção são elaborados argumentos
sobre o referencial teórico analisado, envolvendo a delimitação
das contribuições da literatura ao presente estudo, destacados
com a finalidade de representar as considerações conclusivas
do capítulo.
2.2. TRANSFERÊNCIA DE TECNOLOGIA
2.2.1. Tecnologia e inovação tecnológica
- definições e considerações gerais
Através dos tempos, o homem tem buscado métodos e processos de trabalho que minimizem o esforço e aperfeiçoem o resultado na produção dos bens que necessita. Assim, se no início da atividade laboral o trabalho era executado com as mãos, a evolução ocorreu no sentido da utilização de ferramentas, máquinas de acionamento mecânico e, atualmente, equipamentos automatizados. A tecnologia pode ser considerada, então, como uma potente força no sentido de poder estender as capacidades humanas. Capacidades físicas, com a revolução industrial, e capacidades mentais, com a revolução da informática (Gonçalves et all, 1993, p. 109).
Para Rodrigues et all (1987, p. 26) na sociedade industrializada o progresso técnico apresenta pelo menos três metas básicas que já foram enfocadas na discussão anterior, quais sejam, a redução do esforço de trabalho; o aumento da produtividade e a melhoria da qualidade do produto. Em quaisquer das metas citadas torna-se evidente não só a forte vinculação entre tecnologia e trabalho, aparecendo a primeira como determinante do modo de execução e organização do segundo, como também o objetivo de melhorar a eficácia da empresa.
A tecnologia pode ser definida como "o saber relativo aos meios servindo à realização de diversos fins que se propõem à atividade econômica, saber portanto, sobre as técnicas materiais mais diversas" (Guegan et all, 1987, p. 33). Perrow (1976, p. 101) considera que tecnologia são os meios de transformar as matérias-primas (sejam humanas, simbólicas ou materiais) em bens ou serviços desejáveis e Robbins (1994, p. 529) a encara simplesmente como "a forma com que a organização transforma insumos em produtos".
Para Perrin (1984, p. 6) ela é o "conjunto de informações utilizadas pelos homens para transformar a matéria e para organizar sua participação nesta transformação ao nível de uma fábrica, de um setor industrial, de uma nação ou entre nações". Já Sabato apud Rodrigues (1984, p. 65) analisa a tecnologia como sendo "o conjunto ordenado de conhecimentos, empregados na produção e comercialização de bens e serviços, e que está integrada não só por conhecimentos científicos - provenientes das ciências sociais, humanas etc... mas igualmente por conhecimentos empíricos, que resultam de observações, experiências, atitudes específicas, tradição oral ou escrita...".
Como pôde ser observado, as definições para o termo tecnologia são quase tão numerosas quanto os autores que discutem este assunto. Algumas são bastante restritivas, associadas diretamente a questões materiais, físicas e concretas, sendo inerentes aos equipamentos utilizados na produção de bens, tal como a primeira definição a ser citada. Outras apresentam-se mais abrangentes, envolvendo também fatores conceituais e abstratos, e relacionando todos estes aspectos na interação com o homem. Para o entendimento e discussão deste tema, analisa-se que algumas outras observações são importantes.
Chiavenato (1982, p. 132) salienta que a tecnologia apresenta uma ampla área de conhecimentos intencionais, cujo conteúdo pode advir de diversas ciências. A distinção entre tecnologia e ciência pode ser feita na consideração de que a tecnologia pode ignorar as causas dos fenômenos que utiliza e encontra-se estreitamente ligada a preocupações de ordem econômica.
Rosenthal et all (1992, p. 147) destacam dois pontos interessantes. O primeiro envolve a consideração de que tecnologia é antes de tudo conhecimento, mais especificamente, conhecimento útil no sentido a ser aplicado, ou aplicável, às atividades humanas - especialmente, mas não exclusivamente àquelas ligadas aos processos de produção, distribuição e utilização de bens e serviços - e de contribuir para a elevação quantitativa e/ou qualitativa dos resultados de tais atividades e processos. O segundo diz respeito à origem destes conhecimentos, que pode ser em grande medida científica, mas que abrange também uma importante parcela de experiências e conhecimentos práticos, adquiridos e acumulados no exercício da atividade à qual a tecnologia se refere.
Habert (1992, p. 67) cita a definição da antropologia na qual a tecnologia é um bem cultural que você pode desenvolver através da habilidade e do treino, ou seja, a ligação entre o homem e a língua, entre o homem e a técnica, significando que não se pode desligar a tecnologia do homem e da cultura. Nesse sentido, pode-se evoluir para o emfoque de Perrin (1984, p.10) de que a tecnologia pode ser considerada como uma mercadoria, quando é comercializada por aqueles que a detêm, ou como resultado de um sistema econômico, social, político e cultural particular, quando esta comercialização prevê uma necessária adaptação.
Assim, considerando esta perspectiva mais ampla, Wisner (1992c, p. 40) ressalva que a tecnologia não é somente uma questão de máquinas ou de ciências aplicadas, sendo, essencialmente, um intermediário na interação do homem com seu ambiente, uma ferramenta que, por sua vez, o ajuda na conquista da natureza e tem um efeito direto na sua vida em sociedade.
Para o atendimento dos objetivos deste estudo, considera-se mais adequado o conceito expandido de sistema tecnológico definido como "a unidade de meios técnicos (hadware) mas também de princípios e métodos (software) e, sobretudo, de organizações específicas (orgware)". Esta última representa "a componente estrutural do sistema tecnológico, especialmente concebida para integrar o homem e suas competências profissionais e assegurar o funcionamento do hardware e do software do sistema, assim como a interação dos mesmos com outros elementos e outros sistemas de natureza diferente "(Dobrov apud Jacot, 1987, p. 8).
Assim, pode-se subdividir as tecnologias em tecnologias sociais, aquelas ligadas aos modos de organização, e tecnologias materiais, relacionadas aos processos de conversão e modos de produção. No primeiro caso, pode-se exemplificar com as técnicas gerenciais, os modelos de organização, o desenvolvimento gerencial e os estudos de motivação. No segundo, os equipamentos e ferramentas utilizados na realização do trabalho (Varswsky, 1976, p. 16-17).
Wisner (1981, p. 154) reforça esta conceituação através da discussão da noção de dispositivo técnico. Para este autor, esta concepção deve incluir não somente as máquinas e as instalações físicas, mais também a organização e as condições de atividade e formação dos indivíduos que operam este sistema.
A tecnologia é dinâmica e apresenta uma evolução constante, sendo considerada um aspecto importante no desenvolvimento de uma empresa, de um setor industrial e de uma nação. Stewart Jr. et all (1987, p. 1) a focalizam como o novo e melhor caminho para alcançar objetivos econômicos e permitir o crescimento e desenvolvimento econômico. Neste sentido, analisada a importância da tecnologia, parte-se para a definição do que seja inovação tecnológica ou nova tecnologia.
Para Browne (1985, p. 8) "as mudanças nos processos de produção e nos modelos dos produtos que sejam a base do progresso tecnológico constituem inovações. Uma distinção importante é aquela entre invenção e inovação. A invenção é a descoberta das relações científicas ou técnicas que tornam possível o novo modo de fazer coisas, a inovação é sua aplicação comercial".
Rosenthal et all (1992, p. 155) definem a inovação tecnológica como "a aplicação de um novo conjunto de conhecimentos ao processo produtivo, que resulta em um novo produto, em alterações em algum atributo do produto antigo e/ou no grau de aceitação do produto pelo mercado, traduzindo-se, em geral, em uma elevação do nível de lucratividade e/ou posição da empresa no mercado".
Gonçalves et all (1993, p. 109) salientam que uma nova tecnologia não é, necessariamente, uma tecnologia completamente inédita, mas sempre é a tecnologia que é nova para a empresa em questão, mesmo que não seja nova para o mercado. Este aspecto é reforçado por Rodrigues et all (1987, p. 26) ao definirem inovação tecnológica como investimentos que implicam em mudanças no processo de produção de produtos e serviços, referindo-se tanto à modernização quanto à adoção de uma tecnologia completamente diferente.
Guegan et all (1987, p. 40) consideram que as novas tecnologias são
as técnicas com alto conteúdo científico, cuja novidade
se manifesta essencialmente pela sua utilização. Normalmente,
elas tendem a modificar as relações do homem com sua ferramenta
e seu objeto de trabalho. Este aspecto modificador da tecnologia em relação
ao trabalho e sua organização constitui-se em ponto importante
para o estudo em questão, uma vez que se busca justamente o entendimento
da adaptação do trabalho em casos de transferência
de tecnologia.
2.2.2. Transferência de tecnologia
A busca constante por inovações tecnológicas determina uma relação entre aqueles que desenvolvem e/ou detêm a tecnologia e aqueles que vão utilizá-la em um processo denominado transferência de tecnologia. Este termo é definido por Ong (1991, p. 799) como o processo de introduzir um conhecimento tecnológico já existente, onde ele não foi concebido e/ou executado. Este processo pode ocorrer em diversas esferas, por exemplo, entre laboratórios de pesquisa e empresas, entre unidades do mesmo setor produtivo ou entre países (Villar, 1993, p. 25).
Neste estudo o interesse volta-se a processos do último tipo citado, definido pela OIT (1988, p. 4) como a exportação de tecnologia de um país a outro segundo diversas modalidades, tais como, construção de fábricas e plantas industriais completas, importação de equipamentos e componentes, financiamento de projetos de industrialização e infra- estrutura, envio de especialistas estrangeiros como consultores e formadores de pessoal local.
Neste sentido, a transferência de tecnologia ocorre entre países industrializados (PI) e novos países industrializados (NPI), designando a exportação de meios de utilização das técnicas elaboradas nos países industrializados. Corresponde assim, como citado, à venda dos direitos de utilização dos conhecimentos, à venda de informações tecnológicas, e também à venda de bens e equipamentos industriais (Perrin, 1984, p. 15-17).
Analisando a tecnologia como um conceito expandido, destaca-se que a transferência engloba não somente as máquinas, mas também sua combinação - sistemas de produção - assim como a colocação em marcha. Envolve tudo o que vai do modo de utilização à organização do trabalho, incluindo a manutenção, o controle de qualidade, a formação do pessoal e sua condição de vida no trabalho e fora dele (alojamento, transporte, alimentação, serviços de saúde, etc.).
Ong (1991, p. 799, 801, 806) considera que para os NPIs o caminho mais rápido e apropriado na busca pelo desenvolvimento é a aquisição de tecnologia diretamente na sua fonte, através da transferência de tecnologia. Ressalta porém que, embora este processo tenda a melhorar a competitividade nos mercados interno e externo, é influenciado por diversos fatores do país importador, tais como, a infra-estrutura básica, as condições econômicas, as condições de vida, trabalho e experiência laboral dos operadores.
Stewart Jr. et all (1987, p. 2-3) concordam com esta colocação ao destacar que a transferência de tecnologia entre países com diferentes níveis de desenvolvimento industrial é a utilização de uma técnica existente em uma instância onde não foi previsto que ela fosse usada, pressupondo, então, a questão da difusão e da adaptação da tecnologia ao novo país. Ressaltam a importância da consideração dos fatores relacionados, tanto aos recursos humanos como às questões sócio-culturais.
A transferência de tecnologia constitui-se numa atividade que remonta dos primórdios da humanidade. Assim, durante muito tempo ocorreu no sentido leste-oeste (da Índia e da China para os países europeus) e sul-norte (do mundo islâmico para a Europa) antes de sofrer as inversões dos séculos recentes. Nos séculos XVIII e XIX países como os Estados Unidos, a França, a Alemanha, a Polônia ativaram seus processos de industrialização, importando técnicas desenvolvidas pela Inglaterra. Durante os primeiros decênios deste século o Japão operou massivamente com transferências de tecnologia desenvolvidas nos países ocidentais. Após a Revolução Russa, os países socialistas do bloco soviético transferiram tecnologias elaboradas nos países capitalistas industrializados (Perrin, 1984, p. 5,6,17,18).
Destaca-se, assim, que alguns dos países que hoje estão agrupados como NPI, tais como China, Índia e México, foram o berço de importantes técnicas utilizadas atualmente. É este o sentido da afirmação de que o desenvolvimento cultural não representa, necessariamente, desenvolvimento econômico e industrial.
Outra questão refere-se à classificação dos países segundo o Produto Nacional Bruto (PNB), largamente utilizada pelos organismos internacionais, como índice de sucesso econômico e social. O agrupamento de países segundo este conceito tende a formar conjuntos desequilibrados, na medida em que não são consideradas as características próprias de cada um deles. A mesma razão justifica o insucesso da preconização do seguimento das estratégias dos países melhores posicionados, recomendados como modelo, sem considerar as diversas dimensões de cada país (Wisner, 1981, p. 136).
Em nossos dias, as tecnologias não se transferem mais assim tão facilmente quanto em outras épocas, Perrin (1984, p. 6) enfatiza que os obstáculos para a transferência de tecnologia para os NPI apresenta origens diversas:
Além das questões acima citadas, a transferência de tecnologia no sentido norte-sul, processo intensificado nos últimos trinta anos, pode resultar em sistemas de produção que apresentam um funcionamento aquém do esperado. Os efeitos negativos constatados situam-se, simultaneamente, nos campos econômico, financeiro e da saúde. O sucesso econômico do empreendimento pode ser ameaçado por diversas causas (Wisner, 1981, p. 128, 141, 152; Wisner, 1984a, p. 84):
A partir destas questões ligadas à produção pode ocorrer o comprometimento de aspectos financeiros do empreendimento resultando que (Wisner, 1984a, p. 84-5):
Já uma relação desfavorável ou inapropriada entre o dispositivo técnico (em sua acepção mais ampla, incluindo localização, funcionamento e problemas de produção) e os operadores pode determinar que a saúde destes últimos seja atingida de várias maneiras (Wisner, 1981, p. 105, 110-1; Wisner et all, 1992a, p. 16):
Como estes fatores não são normalmente observados no ambiente de origem da tecnologia, ou seja, as regiões dos países industrializados onde os equipamentos e os sistemas de produção foram concebidos e construídos, deduz-se que a anormalidade deve estar na recepção e adaptação da tecnologia ao país ou região importadora.
Com efeito, estes aspectos negativos originam-se de uma produção identificada, a partir de diversos estudos, como modo degradado de funcionamento (Wisner et all, 1988; Kerbal, 1990; Aw, Sahbi, Abrahão, Santos, Meckassoua apud Wisner, 1992a e 1994b). Nesta situação, por razões diversas de inadequação da transferência de tecnologia, os sistemas de automação e regulação são alterados, a utilização das máquinas ocorre em condições diferentes daquelas previstas pelo construtor, a manutenção é negligenciada, o pessoal é insuficiente em número, qualificação e experiência. Pode ocorrer um volume aceitável de produção, porém a atividade dos operadores não é suficiente para substituir os sistemas de controle e automação, não assegurando o funcionamento ótimo do sistema, com produção estável e de boa qualidade.
Em situações deste tipo como a produção, de alguma maneira, é mantida, observa-se que o prejuízo maior desta tensão entre a tecnologia importada e a realidade do país importador ocorre para os operadores, com as conseqüências já analisadas. Estes autores destacam também que, embora seja mais comumente identificado em NPIs, o modo degradado de produção não se constitui em uma exclusividade destes, podendo também ser encontrado em países industrializados, a partir da transferência de tecnologia entre regiões com níveis diferentes de industrialização. Nestes últimos, porém, a extensão da deterioração costuma ser bem menor, visto que ocorrem pressões sociais e econômicas rigorosas e as facilidades de prevenção costumam ser maiores.
Assim, tanto as colocações feitas por Perrin (1984), Stewart Jr et all (1987), OIT (1988), Ong (1991) e Shahnavaz (1994) como aquelas de Wisner (1981, p. 113, 125, 136; Wisner et all, 1982a, p. 27; Wisner, 1992a, p. 22) em diversos momentos, demonstram que a transferência de tecnologia terá maiores chances de apresentar sucesso se for proposta como um processo ativo e adaptado, com a participação do governo, administradores e trabalhadores. Neste sentido, o país importador ao invés de tentar criar artificialmente uma situação similar àquela do país exportador, busca a consciência da sua identidade geográfica, econômica e cultural procurando inserir o sistema nesta realidade.
Outra questão importante nesta adaptação é a consideração das estratégias que os trabalhadores do país de origem da tecnologia utilizam para viabilizar o funcionamento do sistema produtivo, para além dos mecanismos prescritos em instruções formalizadas. Constitui-se no denominado trabalho real, que somente pode ser apreendido a partir de observações dos operadores em ação. Parte-se do princípio de que os insucessos, quando da transferência de tecnologia, podem estar ligados não só à desconsideração dos fatores geográficos, econômicos e antropológicos, citados acima, mas também ao desconhecimento deste trabalho real.
Quando da transferência, os aspectos visíveis como máquinas e equipamentos e os prescritos, como manuais, podem ser mais facilmente transferíveis do que os aspectos de serviços de apoio, manutenção e aqueles ligados à organização do sistema produtivo. Esta diferenciação entre trabalho real e trabalho prescrito é considerada como uma das colaborações mais importantes da ergonomia à compreensão das relações entre o homem e o trabalho. Considera-se, então, que a utilização dos preceitos ergonômicos pode colaborar de maneira significativa para a compreensão de processos de transferência de tecnologia.
No âmbito deste estudo, o interesse coloca-se justamente nas dificuldades
de adaptação de uma tecnologia transferida à nova
realidade, levando-se em consideração as diversas dimensões
do empreendimento para a garantia dos resultados esperados sem, contudo,
degradar as condições de vida e trabalho dos operadores do
sistema. A viabilização desta análise será
feita a partir dos princípios propostos pela Ergonomia, ampliados
pela Antropotecnologia.
2.3.1. Definições e características
A Ergonomia é definida por Laville (1977, p. 1 ) como "o conjunto de conhecimentos a respeito do desempenho do homem em atividade, a fim de aplicá-los à concepção de tarefas, dos instrumentos, das máquinas e dos sistemas de produção".
Para Wisner (1987, p.12, 26), a Ergonomia baseia-se em conhecimentos no campo das ciências do homem (antropometria, fisiologia, psicologia, economia) com seus resultados traduzidos no dispositivo técnico (arte da engenharia). O mesmo autor assevera que, embora os contornos da prática ergonômica variem entre países e até entre grupos, quatro aspectos são constantes, quais sejam:
Noulin (1992, p. 25) observa que o objetivo da Ergonomia é contribuir para a concepção ou à transformação das situações de trabalho, tanto com relação aos seus aspectos técnicos como sócio-organizacionais, a fim de que o trabalho possa ser realizado respeitando a saúde e segurança dos homens e com o máximo de conforto e eficácia.
Com relação às diferentes modalidades de utilização dos dados ergonômicos é habitual a distinção entre a ergonomia de correção, que age sobre as transformações limitadas da situação de trabalho; a ergonomia de racionalização, que se beneficia de um investimento prévio para introduzir as transformações necessárias no posto de trabalho; e a ergonomia de concepção, que se relaciona à concepção de uma nova situação de trabalho. Guerin et all (1991, p. 217) salientam, porém, que esta diferenciação não retrata a realidade de intervenção, pois existem três pontos essenciais que são comuns a todos os processos de transformação, quais sejam:
As transformações da situação de trabalho vão introduzir modificações da atividade dos operadores, que podem ter efeitos favoráveis ou não sobre a saúde e a produção. Esses efeitos não podem ser diretamente deduzidos da análise da situação de trabalho atual, sendo necessário encontrar meios de prever a atividade futura possível dos operadores.
Os aspectos relativos à concepção do posto de trabalho não são independentes daqueles relativos à construção, à organização do trabalho ou à formação dos operadores.
Os processos de transformação envolvem diferentes atores, dos quais a atividade profissional comporta etapas, processos obrigatórios.
Quéinnec et all (1992, p. 8) destacam que, inicialmente, a necessidade de reunir conhecimentos sobre o funcionamento do homem conduziu os primeiros especialistas do trabalho a direcionar suas metodologias à anatomia, à fisiologia e à psicologia. No momento atual, embora persista esta necessidade, outras especificidades da ergonomia alteraram os métodos originais. Assim, a corrente higienista, preocupada com a proteção da saúde, e a corrente produtivista, envolvida pela procura de técnicas mais produtivas, começam a convergir. Esta fusão é caracterizada por uma centralização sobre a relação homem-trabalho e não mais sobre cada um dos termos separadamente.
Esta mudança de perspectiva acompanha-se, logicamente, de uma
abordagem de situações reais de trabalho, com o trabalhador,
objeto de estudo, mudando seu estatuto, ele é agora o ator, parceiro
ou sujeito. Paralelamente, a forte demanda social em matéria de
condições de trabalho coloca a necessidade de discussão
sobre ferramentas e métodos de pesquisa. O desenvolvimento dos conhecimentos
ergonômicos, então, passa a ser baseado numa intervenção
sobre o local de trabalho, denominada análise ergonômica do
trabalho, visando a apreender a particularidade de cada situação
antes de proceder às generalizações possíveis.
2.3.2. Análise Ergonômica do Trabalho
Para Montmollin (1982, p. 119, 121) a análise ergonômica do trabalho permite não somente categorizar as atividades dos trabalhadores como também estabelecer a narração dessas atividades permitindo, conseqüentemente, modificar o trabalho ao modificar a tarefa. Para este autor, o fato da análise ser realizada no próprio local de trabalho, em oposição às análises de laboratório, permite a apreensão dos fatores que caracterizam uma situação de trabalho real, envolvendo aspectos como organização do trabalho e relações sociais.
Guerin et all (1991, p. 17, 22) reforçam o exposto ao afirmar que transformar o trabalho é a finalidade primeira da intervenção ergonômica, sendo que tal transformação deve ser realizada visando a dois objetivos, quais sejam:
Os autores consideram que esses objetivos podem ser complementares, contanto que se utilize uma intervenção que trabalhe com a interação entre duas lógicas, uma centrada no social e outra na produção.
A intervenção ergonômica pode ser assim considerada posto que, como enfatiza Noulin (1992, p. 28), mobiliza o conjunto de atores envolvidos, nos diferentes níveis, nos projetos de transformação do trabalho. Essa modificação ocorre, de um lado, porque o conhecimento da atividade real de trabalho não pode ser elaborada senão com a participação dos trabalhadores, pois somente eles podem exprimir a maneira como vivem e adaptam-se às situações de trabalho. Por outro lado, as escolhas sobre a natureza e os meios das modificações a serem sugeridas também devem ser validados pelos operadores. Essas devem ser a expressão do compromisso entre as exigências da atividade dos operadores, o funcionamento do serviço e a política geral da empresa.
A prática da metodologia de análise ergonômica do trabalho envolve a delimitação do objeto de estudo, a situação de trabalho a ser analisada, e sua decomposição pois, segundo Wisner (1987 p. 47) para que os modelos oriundos da intervenção ergonômica possam ser submetidos à verificação da experimentação e da observação científica, é indispensável examinar os subsistemas que os compõem. Envolve também a recomposição cuidadosa da situação, utilizando o denominado princípio da globalidade, para permitir as conclusões do estudo.
Guerin et all (1991, p. 110) reforçam essa explicação ao salientarem que a análise ergonômica do trabalho deve ser desenvolvida levando em conta a necessidade de escolher um nível de análise pertinente à compreensão dos problemas, bem como manter preocupação permanente com a globalidade da situação.
Laville (197_, p. I-2) destava que a metodologia geral da ergonomia comporta:
a. Um diagnóstico baseado na:
b. Um projeto construído a partir:
c. Uma verificação dos efeitos das modificações resultantes.
Assim, as etapas desta metodologia envolvem, ordenadamente, como mostrado
na figura 2.1, a análise da demanda, análise da tarefa e
análise da atividade, cujos conteúdos específicos
serão explicitados abaixo. Cada uma dessas etapas resulta em hipóteses
que vão subsidiar a etapa posterior e resultarão no diagnóstico,
recomendações, execução, avaliação
e validação das alterações propostas.
Figura 2.1. Esquema geral da metodologia de análise ergonômica do trabalho
Fonte: Adaptado de Santos et all (1995, p. 39)
Guerin et all (1991, p. 108, 117) analisam que a demanda pela intervenção pode recobrir-se de múltiplos aspectos. Nesse sentido a mesma pode advir:
Os mesmos autores alertam para a distinção entre dois grandes tipos de demanda. O primeiro caso se refere àquelas originadas de um projeto de concepção que opere uma transformação fundamental no trabalho dos operadores da empresa. O processo de concepção deve integrar-se aos conhecimentos relativos à atividade de trabalho para fazer evoluir os dados do projeto. Neste caso, o campo de abrangência da intervenção apresenta-se, normalmente, bastante grande.
O segundo tipo de demanda ocorre no interior de um quadro de evolução permanente da empresa. Elas têm por objeto o tratamento de questões que se mantiveram estáveis por muito tempo e que atingem progressivamente um nível de importância tal que seu tratamento torna-se indispensável. As questões que originam essas demandas são, freqüentemente, pontuais. Ocorrem casos em que a evolução da legislação apresenta-se como origem da demanda que tem, então, objetivos relativamente claros, já que são impostos.
Wisner (1994a, p. 145) considera que esta é a fase de familiarização com a empresa, o sistema de produção e seus critérios de bom funcionamento e, particularmente, com aqueles critérios que não são alcançados e justificam a intervenção. É preciso conhecer a ou as situações de trabalho que parecem estar na origem das dificuldades e, se possível, a distribuição temporal dos problemas.
Assim, a análise dos fatores econômicos, sociais e técnico-organizacionais
gerará as hipóteses iniciais. Essas últimas exprimem
a relação entre as variáveis consideradas e servirão
para delimitar as condicionantes e as determinantes da situação
de trabalho.
Laville (197_, p. 11-13 ) define tarefa como o objetivo que o operador tem a atingir, para o qual são atribuídos meios (máquinas e equipamentos) e condições (tempos, paradas, ordem de operação, espaço e ambiente físicos, regulamentos).
Nesse sentido, Moraes (1992, p. III.26) coloca a análise da tarefa como sendo a descrição do conjunto dos elementos que compõem a situação de trabalho a ser analisada e das interações entre esses elementos, incluindo eventuais disfunções. A mesma autora cita também a definição de Drury, para quem análise da tarefa corresponde a um processo de identificar e descrever unidades de trabalho e de analisar os recursos necessários para um desempenho de trabalho bem sucedido.
Para Guerin et all (1991, p. 56, 57) a definição da tarefa corresponde, num primeiro plano, a um modo de apreensão concreta do trabalho, tendo por objetivos reduzir ao máximo o trabalho improdutivo otimizando o trabalho produtivo, eliminar as formas nocivas de trabalhar e pesquisar os métodos mais eficientes permitindo, assim, o atendimento dos objetivos. Num outro plano, a tarefa é um princípio que impõe um modo de definição do trabalho com relação ao tempo. Estabelece, conseqüentemente, métodos de gestão que permitem definir e medir a produtividade decorrente da relação entre os gestos dos operadores e os meios mecânicos de produção.
Os mesmos autores destacam que a tarefa corresponde a um conjunto de objetivos designados aos operadores e um conjunto de prescrições, definidas pela empresa para atender a seus objetivos particulares. Essa constitui-se a característica principal do processo de elaboração da tarefa, a sua exterioridade em relação aos operadores envolvidos. Conseqüentemente, a tarefa tende, com freqüência, a não levar em conta as particularidades dos operadores e as suas opiniões sobre as escolhas realizadas e impostas pela empresa.
Assim, na metodologia de análise ergonômica do trabalho, as hipóteses geradas na etapa anterior servirão para a escolha da ou das situações de trabalho que devem ser avaliadas para responder às questões propostas. A profundidade da delimitação da situação escolhida depende dos objetivos do estudo, que servirão para fixar prioridades e, eventualmente, estabelecer uma hierarquia. Após esse procedimento, procede-se a uma descrição da tarefa (Moraes, 1992, p. III.29).
Noulin (1992, p. 158) cita os elementos para uma descrição da tarefa como sendo:
A autora enfatiza serem as inter-relações entre esses diferentes elementos que permitem a definição das exigências ou limitações, físicas e mentais da tarefa.
Nesse sentido, Guerin et all (1991, p. 114) salientam que é nesta
etapa, através de documentos, medidas e contatos com os operadores
e demais envolvidos, que o ergonomista procurará compreender os
processos técnicos e as tarefas confiadas aos operadores.
Para realizar a tarefa, com os meios disponíveis e nas condições definidas, o operador desenvolve uma atividade. Para Leplat et all (1977), a atividade é a resposta do indivíduo ao conjunto desses meios e condições, caracterizada pelos comportamentos reais do mesmo em seu local de trabalho. Os comportamentos podem ser físicos, tais como gestos e posturas, ou mentais, representados por competências, conhecimentos e raciocínios que guiam os procedimentos realmente seguidos.
É importante salientar o explicitado por Wisner (1987, p. 28) de que a abordagem ergonômica das condições de trabalho não mais considera o homem de um lado e o dispositivo de trabalho de outro e sim a sua inter-relação na qual "o homem e sua máquina estão ligados, de um modo determinante, a conjuntos mais vastos, em diversos níveis". Estuda-se, assim, o conjunto formado pelo trabalhador e seu posto de trabalho, ou vários trabalhadores e o dispositivo técnico considerando as estruturas técnicas, econômicas e sociais que os envolvem.
Nesse sentido, torna-se extremamente importante a participação dos trabalhadores pois os mesmos possuem, como diz Daniellou (1992, p. 101), conhecimentos específicos sobre a situação de trabalho e seus efeitos sobre a saúde. Esses conhecimentos são técnicos, profissionais, também fisiológicos e psicológicos; no último caso, geralmente empíricos, adquiridos pela experiência, pela repetição cotidiana da ação do organismo.
Assim, a análise evolui pela observação da situação de trabalho e pela consideração do que o operador diz sobre a mesma. Guerin et all (1991, p. 21) sugerem levar em conta as informações que os operadores detectam no meio ambiente, a maneira como eles tratam essas informações, as razões enfocadas para a tomada de decisões e suas opiniões sobre gestos, posturas e esforços feitos durante a atividade de trabalho.
Os mesmos autores (p. 58) consideram que a atividade de trabalho é o elemento central organizador e estruturante das componentes da situação de trabalho. Ela representa uma resposta às condicionantes determinadas exteriormente ao operador e, simultaneamente, é suscetível de transformá-las. As determinantes da atividade de trabalho são analisadas enquanto fatores internos próprios de cada operador e fatores externos ao mesmo.
Os fatores internos podem ser representados por sexo, idade, estado de saúde, estado momentâneo (ritmos biológicos, fadiga), formação inicial, formação profissional contínua e vida profissional. Já os fatores externos podem ser os objetivos a atingir; os meios técnicos; a organização do trabalho; as regras e instruções; os meios humanos; as normas quantitativas, qualitativas e de segurança; o espaço de trabalho e o contrato de trabalho.
O esquema contido na figura 2.2 permite a descrição dessas determinantes da atividade de trabalho. De um lado, está o trabalhador com suas características específicas, de outro, a empresa com suas regras de funcionamento e seu quadro de realização do trabalho. Ao centro, coloca-se o que contribui para a organização entre os dois conjuntos, representado pelo contrato de trabalho e salário, objeto de negociação; a tarefa, conjunto de objetivos e prescrições definidos exteriormente ao trabalhador; e a atividade de trabalho, a maneira com a qual o trabalhador atende aos objetivos que lhe são fixados.
Os autores enfatizam que os operadores, durante a realização
da atividade de trabalho, elaboram um compromisso entre a definição
dos objetivos de produção; suas características próprias
e capacidades de atender aos objetivos fixados; e o reconhecimento social
de uma qualificação e sua negociação sobre
a forma do contrato de trabalho. Por outro lado, os resultados da atividade
de trabalho são colocados em relação à produção,
do ponto de vista qualitativo e quantitativo, bem como das conseqüências
sobre os trabalhadores. Estas conseqüências podem ser positivas,
tais como aquisição de novos conhecimentos e qualificação,
ou negativas, representadas por alteração da saúde
física, psíquica e social.
Figura 2.2. Esquema de descrição das determinantes da atividade de trabalho
Fonte: Guerin et all (1991, p. 59)
Noulin (1992, p. 161) salienta que a análise ergonômica do trabalho, por ser uma abordagem global, relaciona o conjunto de elementos, objetivos e subjetivos, que constituem a situação de trabalho construindo, então, uma representação da atividade que permite uma compreeensão do trabalho e do custo que ele representa. Revela assim os recursos, as disfunções e as perspectivas de evolução da situação de trabalho analisada.
Assim, como afirmam Guerin et all (1991, p. 62) a análise da atividade, em particular a variabilidade dos modos operatórios das condicionantes, revela as relações entre a estrutura econômica da empresa, as escolhas comerciais que daí resultam, os meios técnicos postos em ação e as dificuldades dos operadores para regular a variação da produção e os riscos decorrentes. A análise permite também rever o funcionamento da empresa de um outro ponto de vista, ajudando a elaborar novas escolhas econômicas, técnicas e organizacionais visando a garantir qualidade e quantidade de produção.
Como os processos que envolvem transferência de tecnologia são
concebidos como projetos industriais, considera-se importante salientar
a importância da intervênção ergonômica
quando do desenvolvimento e implantação dos mesmos.
2.3.3. Relação entre a ergonomia
e a gestão de projetos industriais
Projetos industriais representam um conjunto de atividades inter-disciplinares, finitas e não repetitivas que visam a alcançar um determinado objetivo com cronograma e orçamento preestabelecidos (Casarotto Filho et all, 1992, p. 10). Os conceitos embutidos nessa definição pressupõem o envolvimento, num processo dinâmico, de especialistas em várias áreas do conhecimento humano, com atividades desenvolvendo-se em uma relação que pode ser linear e/ou paralela.
Destaca-se existir uma grande diversidade de projetos industriais. Alguns referem-se à construção, resultando em instalações completamente novas, outros constituem-se na renovação total ou parcial de máquinas e equipamentos. Há, ainda, aqueles que dizem respeito a somente um dos vários aspectos da administração, tais como, centralização, automatização ou informatização, sem modificar as instalações (Maire et all, 1988, p. 22). No âmbito desta discussão, o interesse centra-se em projetos que envolvam algum tipo de transferência de tecnologia.
Um projeto industrial conta com vários atores que representam desde o empreendedor, que define os objetivos e controla todo o processo; a engenharia consultiva, responsável pela condução do mesmo; e os serviços de produção, processo de fabricação, manutenção, segurança do trabalho e gestão de pessoal do local que vai acolher o empreendimento. Dentre os envolvidos externos à empresa podem ser citados os fornecedores de serviços e equipamentos, os órgãos de controle que verificam as especificações dos equipamentos, e os diversos órgãos públicos que controlam aspectos pertinentes ao setor produtivo do empreendimento ( Maire et all, 1988, p. 24).
O desenvolvimento de um projeto industrial é feito através de várias etapas, quais sejam, Estudos preliminares ou Anteprojeto; Estudos de base ou Engenharia Básica; Estudos de Detalhe ou Engenharia de Detalhamento; Engenharia de Compras; Montagem e implantação do projeto: o canteiro de obras; Operação Piloto: os ensaios e a colocação em marcha; e o Projeto Organizacional.
Santos (1992, p. 21), define algumas características comuns à maioria dos projetos industriais, que serão explicitadas a seguir. A primeira questão refere-se aos objetivos definidos pelo empreendedor que são, essencialmente, de natureza técnica e econômica, tais como, relação custo/benefício, normas de produção e qualidade. Por outro lado, poucas referências ocorrem envolvendo aspectos como organização do trabalho ou relações sociais esperadas quando da implantação do empreendimento. Da mesma maneira, o empreendedor impõe as soluções técnicas desejadas reduzindo, assim, as possibilidades tecnológicas e organizacionais ao alcance da Engenharia Consultiva.
Outra questão refere-se ao papel da Engenharia Consultiva que é definido como sendo assumir a concepção dos materiais e dos locais de trabalho. No entanto, nem sempre fica clara a responsabilidade pela organização do trabalho e pela formação.
Lapeyrière (1987, p.125-126) enumera algumas características dos projetos industriais por ela consideradas como obstáculos ao bom andamento do mesmo. Salienta que os diferentes atores envolvidos podem apresentar interesses diferentes, convergentes ou divergentes, levando a escolhas que desconsiderem os futuros usuários. Outra questão citada refere-se ao recorte temporal e à segmentação do projeto. A repartição de papéis entre os atores pode levar ao trabalho isolado de cada um, dificultando a comunicação entre os mesmos e a conseqüente validação de cada etapa. A conseqüência pode ser a constatação tardia de problemas, quando a solução é impossível ou muito dispendiosa.
Maire et all (1988, p. 170) salientam que os métodos tradicionais de gerenciamento de projetos apresentam muitos méritos, porém falham porque sua abordagem não é global. Tratam somente de uma parte dos problemas colocados para um projeto, os problemas técnicos e econômicos. Argumentam, como exemplo, que de nada valem instalações técnicas perfeitas se elas não são adaptadas às características físicas e cognitivas dos operadores.
Os mesmos autores (p. 21) definem algumas características discutíveis dos projetos industriais, quais sejam:
Uma certa limitação nos objetivos dados à equipe responsável pelo projeto. Essa limitação refere-se à aplicação, especificando que o objetivo do projeto não pode reduzir-se a disposição das instalações teoricamente operacionais, mas compreender a atenção ao funcionamento nominal. Refere-se, também, à extensão, na qual a confiabilidade técnica é necessária, mas não suficiente para assegurar a capacidade real de produção da empresa.
Uma certa insuficiência de meios de análise e concepção, referindo-se à falta de consideração das características do trabalho que será realmente efetuado pelos operadores das futuras instalações.
Uma separação muito importante das funções de concepção e de operação, ao considerar uma repartição de papéis onde freqüentemente os futuros usuários não podem opinar na concepção das instalações. Os responsáveis pela concepção decidem sem o ponto de vista dos usuários e, normalmente, não têm o retorno das informações sobre o funcionamento, após o início do funcionamento.
Guerin et all (1991, p. 22) reforçam essa colocação pois encontram que os responsáveis pela concepção dos locais de trabalho apresentam uma concepção errônea do trabalho real dos operadores. Normalmente os mesmos são levados a minimizar a variabilidade dos sistemas técnicos, a diversidade e complexidade dos serviços a fazer, ou a acreditar que esta variabilidade é totalmente previsível e dominável.
É nesse contexto que os autores citados inserem a ergonomia, especificamente a metodologia da análise ergonômica do trabalho. Guerin et all (1991, p. 23) acreditam que "a análise do trabalho permitirá a retificação dessas representações redutoras do homem" na medida em que pode representar um instrumento de medida da distância entre trabalho prescrito e trabalho real. Já Lepeyrière (1987, p. 127) considera que a ergonomia pode favorecer o diálogo entre os diferentes atores envolvidos, trazendo um aporte de substância e coerência ao desenvolvimento de projetos industriais.
Para Christol (1990, p.5) a integração do ergonomista
no grupo de acompanhamento de um projeto industrial ajuda a melhor identificar
as possibilidades reais de escolha, a apresentar de maneira regular os
resultados e a maneira como os mesmos são obtidos, apresentando
pistas para a otimização. As interferências nas diversas
etapas abrem a possibilidade de concientização dos envolvidos,
de que os problemas de condições de trabalho são somente
um sintoma revelador de outros problemas que se referem diretamente aos
objetivos de eficiência e qualidade do projeto.
2.3.4. Ergonomia e inovação tecnológica
Sabe-se que as exigências econômicas implicam em uma modernização da empresa, objetivando a melhoria dos seus aspectos de competitividade. Esta questão se faz acompanhar normalmente de uma reestruturação e de modificações ao nível dos instrumentos de trabalho por influência das novas tecnologias. Observa-se, igualmente, uma evolução do conteúdo das tarefas e das competências necessárias para a sua execução. A ergonomia precisa, então, ter condições de rever, avaliar e considerar estas modificações, pois as relações entre ergonomia, trabalho e nível de competitividade devem levar à consideração deste contexto.
As relações destacadas entre a ergonomia e as inovações tecnológicas parecem evidentes na medida em que, quando se considera a evolução dos instrumentos e dos métodos de trabalho, pode-se analisar a evolução do próprio trabalho. Roulleault (1993, p. 12-3) frisa que as demandas da evolução no trabalho impõem à ergonomia a reflexão sobre as implicações com a saúde dos operadores, na medida em que se observa o desenvolvimento de afecções diversas em função do trabalho automatizado; o envelhecimento dos operadores, a fim de prevenir os riscos de exclusão no trabalho; os problemas de crescente carga mental que conduzem à reflexão entre prazer e sofrimento no trabalho. Destaca, assim, que normalmente a automatização, ponto mais visível de novas tecnologias em processos produtivos, permite a redução da carga física no trabalho, ao mesmo tempo em que novas patologias podem surgir. Coloca, ainda, as reações provocadas pelo temor de uma substituição completa do homem pela máquina.
Para introduzir a discussão da relação entre ergonomia e inovação tecnológica tem-se a destacar que a ergonomia, na medida em que apresenta uma preocupação centrada no trabalho humano, apresenta uma relação evidente com a tecnologia, que é o resultado deste trabalho. Recorda-se que as tecnologias, quer sejam elas novas ou antigas, são concebidas, operadas e controladas pelos homens e para os homens. Salienta-se que o termo homens é considerado aqui no seu sentido amplo, evoluindo desde indivíduo, grupo formal ou informal até organização. Assim, a este respeito, Leplat (1991, p.74-5) faz algumas colocações julgadas pertinentes que serão exploradas a seguir.
As tecnologias são concebidas pelos homens. Embora esta afirmação pareça evidente, em muitos momentos ela é esquecida. Assim, não é raro que, quando da exploração de incidentes e acidentes de produção, os denominados erros humanos, a classificação em termos de causas humanas e técnicas, as primeiras sendo concebidas como exclusivas em relação às segundas. Destaca-se que um analista não pode deixar de considerar que um erro humano não é, necessariamente ou somente, aquele do indivíduo que está operando o sistema. Pode ser também, aquele dos indivíduos que conceberam este material e estabeleceram as regras de gestão no interior da organização.
As tecnologias são operadas pelos homens. Uma tecnologia se insere em um contexto técnico, organizacional e social, sendo implantada e continuamente ajustada para atender a determinados objetivos. Considerando esta inserção da tecnologia em relação aos indivíduos são colocados problemas de diversos tipos: repartição de tarefas entre homens e entre homens e sistema técnico; organização, modo de gestão, recrutamento e formação das equipes de trabalho, entre outros. Além destes aspectos, a rápida evolução das tecnologias coloca a necessidade de repetidas adaptações ao longo da vida profissional, traduzidas por exigências de formação, tanto em nível de empresa como em nível nacional, e que apresentam conseqüências na concepção do ensino técnico e na previsão dos empregos e evolução das qualificações.
As tecnologias são controladas pelos homens. São os homens que acompanham sua evolução e podem fazer as necessárias adaptações aos objetivos que elas devem satisfazer. Neste sentido, são clássicas para a ergonomia as colocações de Faverge (1972) sobre a importância dos homens para minimizar as deficiências dos sistemas produtivos e o papel de regulação e recuperação que é colocado, mais ou menos explicitamente aos indivíduos e aos grupos nas organizações que gerenciam sistemas técnicos modernos.
Wild (1991) salienta que as mudanças tecnológicas desestruturam o trabalho ao nível micro, já que alteram a natureza dos elementos constitutivos das tarefas. Alguns destes elementos são eliminados ou absorvidos pela tecnologia, enquanto outros são diminuídos ou mesmo ampliados. De toda maneira, já que estes elementos são alterados, a tarefa também deve se alterar. Esta lógica tem a concordância de Rasmussem apud Leplat (1991, p. 75) ao citar que as novas tecnologias aportam, de uma maneira geral, uma instabilidade crescente das condições de execução que tornam especialmente difícil o estabelecimento de procedimentos capazes de tratar todos os casos possíveis; constata que a evolução rápida das técnicas que exige uma flexibilidade crescente dos operadores e uma capacidade de adaptação rápida às condições assim criadas.
Laville (1990, p. 350-1) ressalta que vários estudos ergonômicos por ele analisados mostram que os novos meios técnicos modificam bastante fortemente a atividade dos operadores. Por outro lado, a organização do trabalho não parece seguir sempre estas transformações e as tarefas que a elas estão relacionadas. As modificações são variadas, de acordo com o setor, pode-se observar um retorno às atividades bem parcializadas, enquanto outras apresentam seus conteúdos enriquecidos; os novos meios técnicos são utilizados para reforçar a regulamentação e a prescrição das modalidades de execução do trabalho, sem levar em conta os acontecimentos imprevisíveis ou variáveis; a organização do trabalho transferiria à técnica a escolha da repartição e das modalidades de execução das tarefas.
Neste sentido, Braise-Brisson et all (1991, p. 1006-7) acreditam que as mudanças tecnológicas são orientadas para a realização de unidades de produção flexíveis, com capacidade de adaptação rápida, com produção de alta qualidade. Esta orientação acarreta conseqüências no plano do funcionamento da produção e no plano de sua organização que constituem verdadeiras rupturas tecnológica e organizacional.
A ruptura tecnológica materializa-se quando os novos sistemas de produção postos em atividade modificam as tarefas da quase totalidade dos operadores. A mutação ocorre na passagem de um modelo de predominância mecânica ou eletromecânica a um modelo caracterizado pela onipresença da eletroeletrônica ou da informática. Esta ruptura apresenta por conseqüência um funcionamento da produção diferente do existente anteriormente. Este exige dos operadores uma mudança em suas competências, atividades e papéis. Normalmente é solicitada a todos uma qualificação mais elevada.
Já a ruptura organizacional exige, por parte dos operadores, adaptação e iniciativa para reagir rápida e eficazmente às eventualidades. Esta exigência impõe a necessidade de situar o homem no trabalho como um ator responsável e não mais como um elemento pacífico. Neste sentido Liu (1980, p. 171) afirma que a irrupção destes novos modos de organização demanda uma mudança de lógica e de comportamento no estado de concepção do trabalho. Esta deve, então, passar de uma concepção exaustiva, onde todos os parâmetros da organização futura devem ser fixados anteriormente, a uma concepção através da fixação de condições críticas mínimas de funcionamento.
Duraffourg (1989, p. 13) porém, faz algumas constatações, a partir da análise ergonômica de processos produtivos após a introdução de novas tecnologias, que refutam este aspecto necessariamente qualificante da evolução tecnológica. Relaciona o caráter diferencial das evoluções segundo cada setor, destacando que as tecnologias de ponta são utilizadas apenas em alguns setores mais avançados, apresentando, então, efeitos que afetam a uma parcela pequena de trabalhadores. Em outros setores, como, por exemplo, o agroalimentar e o de alimentação coletiva, referência deste estudo, a evolução tecnológica encontra-se em estágio menos avançado. Em alguns casos, inclusive, a novidade é a utilização de cadeias de montagem, sistema considerado como bastante comprometedor em termos de condições de trabalho.
Enfatiza que a utilização de novas técnicas implica, freqüentemente, na recomposição, à montante e à jusante do posto inovado, de postos de trabalho bastante repetitivos. O exemplo desta constatação são os diversos casos de alimentação e evacuação de linhas automatizadas. Destaca, ainda, o papel de postos de trabalho de condução e vigilância de sistemas ou partes de sistemas automatizados. São vários os casos de operadores com a ocupação de gestão de incidentes de forma totalmente repetitiva.
Como constatação final, observa existir uma subestimação quase sistemática do tempo necessário ao domínio de novos sistemas. Além deste erro sobre a duração, o conteúdo destes períodos de apropriação das novas ferramentas pelos operadores revela a necessidade de uma mobilização de experiências anteriores em condições que não foram previstas, seja nas etapas do projeto, dos planos industriais, da formação ou da posta em marcha. De uma maneira geral, mesmo nos sistemas mais evoluídos, o papel eminente do informal deve ser assinalado.
Posto que, como salientam Quéinnec et all (1992, p. 13) o trabalho é, geralmente, realizado por um grupo ao qual são designadas certas missões coletivas, as quais são realizadas à custa do estabelecimento de uma organização paralela, para além das prescrições formais. Assim, trabalhar não é somente realizar procedimentos previstos ou aplicar mecanicamente as regras; trabalhar é também inventar novos procedimentos quando se defronta com um novo problema, é adaptar os procedimentos existentes ao contexto preciso do trabalho.
A análise dos resultados de uma enquete que relaciona a opinião de operadores franceses de diversos setores produtivos, a respeito de seu próprio trabalho, após a introdução de novas tecnologias, citada por Léchevin et all (1993) ressalta alguns pontos interessantes. Salientam que, com as novas tecnologias, a noção da profissão se transforma e o conteúdo do trabalho muda. No cotidiano, os trabalhadores reconhecem possuir uma maior autonomia e se beneficiarem de uma maior iniciativa, contudo, a carga de trabalho aumenta e o ritmo de trabalho se intensifica. Sua relação com o produto pode ser mediada por interfaces informatizadas que demandam uma forte vigilância acentuada pelas exigências da demanda.
Por outro lado, os operadores entendem que poucas contrapartidas acompanham estas mudanças: os índices de remuneração permanecem quase idênticos, as competências adquiridas e os investimentos pessoais são pouco reconhecidos. Este não reconhecimento ligado ao aumento da carga de trabalho acarreta insatisfações, mas é considerado um preço a pagar para manter o seu emprego. No trabalho, prazer e medo se confundem: medo das cadências, das panes, dos acidentes, dos prazos; prazer em relação às mudanças e à aquisição de novos saberes. Todas estas transformações estão na origem de tensões onde o uso em si toma um lugar particular e contribui para redefinir pouco a pouco uma identidade em torno das novas tecnologias.
Outra questão, ligada à evolução tecnológica, que apresenta uma relação direta com a ergonomia, é aquela explicitada por Fourgous et all (1993, p. 113), qual seja, que os prazos entre a determinação e a realização de uma tarefa estão cada vez menores. Relata uma pesquisa cujos resultados demonstram que, na França, um terço dos trabalhadores são submetidos às normas de produção ou de prazos a respeitar pelo período de uma jornada de trabalho no máximo, sendo esta a realidade de dois terços dos operadores qualificados do tipo industrial. Alertam que a redução da duração de execução das tarefas pode implicar em um aumento correspondente do risco de erros.
Terssac et all (1981, p. 117) ao refletirem sobre as modificações do trabalho sobre a influência das novas tecnologias salientam dois pontos que serão analisados. De um lado, a existência de profundas transformações do conteúdo de trabalho e de sua organização espaço-temporal, mas também a aparição de mudanças das condições nas quais se desenrola a atividade de trabalho, condições que trazem à ergonomia novos problemas, os quais ela ainda não está acostumada a responder.
Por outro lado, a existência de uma margem de manobra ao nível da elaboração e da implantação de escolhas técnicas e organizacionais como se os efeitos do trabalho sobre os operadores fossem inevitáveis, como se as conseqüências nefastas para os trabalhadores fossem relativamente independentes de suas condições técnicas. A existência de graus de liberdade permite, então, entrever uma possibilidade para a ergonomia de contribuir na elaboração, na transformação e na correção destas escolhas, isto é, de emitir uma ou mais respostas aos problemas colocados.
Esta margem de manobra no que diz respeito às modalidades de
utilização, para além de certos modos de funcionamento
fixados pela tecnologia ou as condicionantes econômicas, levam Quéinnec
et all (1992, p. 10) a sugerir o papel da ergonomia em relação
à inovação tecnológica, como vislumbrado na
Figura 2.3.
Figura 2.3. Papel da ergonomia no processo de inovação tecnológica
Fonte: Adaptada de Quéinnec et all (1992, p.10).
Assim, a ergonomia pode assumir o papel de auxiliar nas escolhas técnico-organizacionais, na medida em que pode fornecer pontos de referência para a negociação das opções que conduzem a um ou outro tipo de organização. Para Roulleault (1993, p. 15) o aporte ascendente dos ergonomistas pode ajudar sobremaneira no entendimento sobrepondo as formalidades da organização prescrita e levando a uma melhor compreensão da organização real.
Neste sentido, Terssac et all (1981, p. 120-1) consideram que a abertura da ergonomia para analisar os sistemas de trabalho com inovações tecnológicas pode ser legitimada em, pelo menos, dois planos:
Destacam, ainda, que o aumento dos meios da tecnologia e seu caráter evolutivo colocam em sua base um problema científico e um problema político, que a ergonomia deve sempre considerar. A questão é científica, na medida em que as diferentes disciplinas podem dar à sociedade as possibilidades de escolha, a partir do acumular de novos conhecimentos e no elaborar de novos instrumentos de análise. Sempre visando a impelir as fronteiras do conhecimento e conduzir à explicação dos fenômenos mal conhecidos ou desconhecidos.
A questão é política, na medida em que as conseqüências da introdução de novas tecnologias não dependem somente de problemas científicos mal resolvidos, mas de solução política, envolvendo as questões econômicas. O domínio sempre provisório e parcial das técnicas supõe, em primeiro plano, que o conjunto das informações referentes ao funcionamento dos operadores e suas necessidades e aspirações é integrado na concepção dos sistemas. Assim, as condições de trabalho não se constituem um resíduo de eficácia do sistema mas à condição mesma de seu funcionamento e de sua confiabilidade. Enfim, Laville (1990, p. 351) salienta que o interesse pela evolução tecnológica leva a reforçar o debate de questões sempre consideradas como aquelas relacionadas aos erros e à confiabilidade humana como conceitos coerentes entre o ponto de vista ergonômico e operacional; os níveis de análise da atividade, relacionados tanto em transformar situações de trabalho como a conceber novas situações; e os limites das projeções sobre o futuro que podem ser feitas.
Expostas as questões relativas à definição
da ergonomia, da análise ergonômica do trabalho, da relevância
de sua utilização quando da condução de projetos
industriais e da sua relação com a inovação
tecnológica, pode-se discorrer sobre a antropotecnologia e a sua
metodologia para analisar as questões relativas à transferência
de tecnologia.
A importância da transferência de tecnologia entre PI e NPI, bem como a preocupação com alguns resultados insatisfatórios, geraram a necessidade de análise destes processos, a partir da realização de diversos estudos científicos. Interessa-nos, particularmente, os trabalhos realizados por elementos ligados ao CNAM (Conservatoire National de Arts et Métiers) de Paris, França, a partir da década de 80, sob a orientação do Professor Alain Wisner, considerando os preceitos da ergonomia e a sua evolução até a metodologia antropotecnológica.
Assim, em analogia à ergonomia que representa a adaptação do trabalho ao homem com o objetivo de buscar, simultaneamente, a produtividade do sistema e a saúde dos operadores, desenvolveu-se um novo campo de estudo denominado antropoteconologia que pode ser definida como a adaptação da tecnologia ao país importador, considerando a influência de fatores geográficos, demográficos, econômicos, sociológicos e antropológicos. Este termo foi criado com o intuito de aumentar a abrangência do campo de ação da ergonomia. A ergonomia busca usar e criar conhecimento sobre o homem, a partir das ciências já citadas, conhecimento este que torna possível a concepção e operação de sistemas técnicos. Já a antropotecnologia amplia esta busca, utilizando todas as ciências humanas com o mesmo objetivo de incrementar a busca de soluções às dificuldades e à melhora do trabalho e da produção (Wisner, 1981, p. 86, 126; Wisner, 1994b, p. 614).
Uma característica comum a ambas, ergonomia e antropotecnologia, é a orientação para o trabalho, para as atividades daqueles que produzem. A abordagem busca o levantamento das causas, baseadas nos seus efeitos sobre a situação de trabalho. A partir dos resultados da análise do trabalho pode-se conceber uma árvore de causas, que permite assinalar as anomalias críticas do processo de trabalho. A diferença coloca-se, então, no limite apresentado por esta análise de causas que, na ergonomia, é representado pela situação de trabalho e, na antropotecnologia, objetiva o alargamento desta questão para permitir o entendimento do sistema de trabalho e do ambiente em que o mesmo se encontra (Wisner, 1994a, p.140-2, 145-7).
A antropotecnologia desenvolveu-se, então, a partir de estudos de diversos processos de transferência de tecnologia, tanto do ponto de vista técnico, como do organizacional. Os processos analisados demonstraram que as determinantes de sucesso em introduções tecnológicas não ocorriam de maneira idêntica, variando de acordo com a localização em um mesmo país e nos diversos países entre si. O estudo aprofundado destas diferenças, envolvendo a busca de compreensão das causas complexas do fracasso de certos processos, e as recomendações específicas a cada região e tipo de projeto que podem advir deste estudo, constitui-se o campo da antropotecnologia (Wisner, 1981, p. 102, 126).
Wisner (1981, p. 126 e 1992b, p. 70) ressalta que não se trata de substituir a decisão de governantes e de empresas na escolha do tipo de produto a obter ou dos modos de produção a instalar, mas de sugerir as condições nas quais um projeto específico pode ter sucesso. Enfatiza que cada região, país ou grupo de países no mundo, dispõe de uma combinação de fatores favoráveis ou desfavoráveis, que faz com que ele seja obrigado a construir seu próprio modo de organização industrial. Neste sentido, uma boa organização é aquela que, mesmo tendo vindo de uma idéia externa, não foi simplesmente transferida e sim reconcebida, transformada em função dos instrumentos sociais disponíveis e do modo de funcionamento de uma dada sociedade.
Assim, os resultados de uma análise do tipo antropotecnológica
podem ser utilizados de duas maneiras. A primeira constitui-se em fornecer
aos vendedores e aos compradores de tecnologia alguns meios de reflexão
sobre suas estratégias econômicas, políticas e ideológicas,
entre outras. A segunda representa as condições que a antropotecnologia
apresenta de colaborar com o sucesso das transferências de tecnologia
graças à utilização de uma metodologia adaptada
a cada etapa do processo.
2.4.2. Identificação de casos
de transferência total - As Ilhas Antropotecnológicas
Durante muito tempo, a lógica de desenvolvimento industrial rápido através da transferência de tecnologia induziu os países menos desenvolvidos a importarem o máximo possível de máquinas e, tanto quanto possível, de fábricas elaboradas nos países que dispunham de tecnologia avançada. Juntamente com as máquinas e fábricas, eram importados igualmente a todos os aspectos organizacionais, incluindo organização do trabalho, os programas de seleção, de formação e de promoção de pessoal. Esta aquisição total, incluindo os aspectos organizacionais, parecia o meio mais rápido de obtenção da produção esperada, mesmo não tendo relação alguma com a situação e a cultura locais (Wisner, 1983, p. 43-4).
As realizações mais impressionantes deste período podem ser imputadas às empresas multinacionais. Estas consideram a homogeneidade de seus produtos fabricados em diversas partes do mundo como uma condição fundamental de sua imagem e de sua independência em relação à conjuntura socio-política local. Buscando este objetivo, as empresas reproduziram as fábricas de origem da tecnologia, não somente com máquinas e prédios análogos, mas com uma política de pessoal planejada para dispor de um pessoal com características próximas às originais. Trata-se das "ilhas antropotecnológicas", definidas por Wisner (1981, p. 43, 86, 103, 136; 1984a, p. 85) caracterizando-se por um funcionamento perfeito ou, ao menos, satisfatório de conjuntos técnicos complexos, localizados em diversos locais do mundo, utilizando pessoal local.
A partir de investimentos vultosos, estas empresas instalam um sistema produtivo idêntico àquele que existe no país de origem, contando com algumas modificações técnicas (climatização, tropicalização de circuitos eletrônicos, etc...) e estruturais ( gerador para manutenção do equilíbrio de fornecimento de energia elétrica, dispositivos de filtração e esterilização de água, manutenção de grandes estoques de peças de reposição). O pessoal local se beneficia de vantagens importantes, tais como, serviços sociais e médicos, moradia, alimentação, transporte, escolas e treinamento constante. Estas vantagens lhes permitem levar uma vida análoga àquela dos trabalhadores do país de origem e ter um comportamento de trabalho também bastante próximo deles.
Estes empreendimentos constituem-se, contudo, em verdadeiras ilhas sociológicas e culturais em relação ao meio onde estão inseridos. O seu pessoal representa um grupo totalmente distinto do restante da população, por dispor de condições de vida e trabalho estranhas ao local. A qualidade e custo dos produtos resultantes muitas vezes são inacessíveis aos consumidores da região. Assim, estas fábricas contribuem muito pouco para o desenvolvimento industrial geral e podem constituir-se em motivo de instabilidade para as sociedades nas quais estão inseridas.
É destacado ainda que, embora os resultados obtidos por este tipo de empreendimento, quais sejam, baixa taxa de acidentes, rotatividade e absenteísmo; ótimo nível de qualidade, possam ser considerados satisfatórios, observam-se nos operadores patologias operacionais também bastante próximas das que ocorrem no país de origem.
A questão que pode ser enfocada a partir identificação de empreendimentos do tipo ilhas antropotecnológicas é porque, em um mesmo país ou uma mesma cidade, os trabalhadores pertencentes a uma mesma população podem produzir com os resultados esperados nesses empreendimentos e apresentar resultados pouco satisfatórios em outras empresas de tecnologia transferida? A resposta habitual parte somente de abordagens sócio-culturais, negligenciando as imperfeições da transferência de organização e dando pouco espaço para os aspectos humanos considerados pela ergonomia e antropotecnologia (Wisner, 1984a, p. 86).
No entanto, considera-se evidente que o sucesso das ilhas antropotecnológicas
serve para comprovar que não existem diferenças cognitivas
fundamentais entre os diversos trabalhadores pertencentes a diferentes
povos e civilizações. Pode-se assim, reforçar a importância
de considerar-se a situação da tecnologia transferida sob
diversos aspectos, como é evidenciado nos estudos de base antropotecnológica
demonstrados a seguir.
2.4.3. Exemplos de estudos de antropotecnologia e seus principais resultados
Os estudos realizados a partir dos conceitos da antropotecnologia visam a demonstrar que a compreensão dos casos de transferência de tecnologia passa, necessariamente, por uma análise que transcenda a dimensão econômica normalmente utilizada. Torna-se importante, então, a consideração das dimensões ligadas aos aspectos humanos, geográficos, sociológicos e antropológicos, entre outros, na situação em questão. Visando a colaborar com o entendimento da abrangência da antropotecnologia, serão analisados alguns estudos já desenvolvidos na área, discorrendo sobre as suas principais colaborações.
Meckassoua (1986) analisou o funcionamento de duas fábricas de cerveja semelhantes, localizadas na Bélgica e em Bangui (República Centro Africana). Por razões de manutenção de emprego e simplificação de tecnologia, os sistemas automáticos utilizados para a manutenção de garrafas na Europa foram substituídos por trabalhadores na fábrica africana. Porém, após a substituição do mecanismo automatizado, não foi previsto o espaço necessário a tal trabalho, obrigando os operadores a atuarem de maneira rápida e incômoda . Outra questão envolve o calor na fábrica, que é minimizado com a rotação entre tarefas que exigem esforço físico e tarefas de inspeção. Mas as condições de vida e transporte dos operadores não permitem um perfeito repouso, e os mesmos apresentam sonolência nas tarefas mais sedentárias.
Considere-se, ainda, as imperfeições do dispositivo técnico: garrafas de dimensões designais, importadas de um país vizinho; qualidade da colagem de etiquetas sem correspondência com a temperatura ambiente, encaixotamento e desencaixotamento manuais realizados em más condições, controle visual deficiente das impurezas.
Assim, os aspectos de qualidade ficam difíceis de gerenciar e apresentam causas econômicas (custos das transformações necessárias), sociais (más condições de moradia e transporte) e antropológicas (vida noturna ativa devido ao calor, habitações abrigando diversos membros de uma família).
O pesquisador observou, contudo, que estas condições degradadas de funcionamento, aliadas às condições de vida do operador central da cervejaria (analfabetismo, cultura ligada à caça e pesca), permitiram que o mesmo desenvolvesse uma representação mental do funcionamento do sistema produtivo bem mais vasta e complexa que o seu correspondente europeu.
Abrahão (1986) compara o funcionamento de duas destilarias de álcool de cana de açúcar semelhantes, com a mesma capacidade nominal (150.000 l/dia), localizadas em diferentes regiões do Brasil, caracterizando que os problemas de adaptação de tecnologia podem ocorrer em um mesmo país.
A fábrica de Ribeirão Preto (SP) está localizada em uma região com cultura industrial, boa estrutura de transportes, próxima aos fornecedores de matéria prima, equipamentos e manutenção, bem como facilidade de recrutamento e formação de operadores. A direção é profissional, com uma política de pessoal que visa a manter funcionários estáveis, mesmo na entressafra da cana, quando os mesmos participam de programas de formação. As comunicações entre os diversos serviços são freqüentes e estimuladas, bem como a autonomia para definição de estratégias de emergência no caso de problemas. A média de tempo para a resolução de problemas usuais na destilação é de meia jornada de trabalho e a produção diária é de 180.000 litros.
A fábrica situada no interior de Goiás, encontra-se em uma região eminentemente agrícola, com péssimas condições para o transporte de matéria prima e peças de reposição, distante dos fornecedores de equipamentos e manutenção, bem como com dificuldades em recrutar, formar e manter operadores especializados. A diretora é um membro da família proprietária, sem experiência administrativa, auxiliada por um grupo diretivo com formação bastante desigual. A estrutura da empresa é vertical, burocrática, com pouca comunicação entre os diversos níveis, e um apego restrito às normas prescritas. Essas características resultam em poucas chances de crescimento por formação e na inexistência de estratégias eficientes em casos de emergência. Os problemas usuais de destilação levam, em média, uma semana para serem resolvidos, e a usina produz 110.000 litros de álcool por dia.
Este exemplo mostra como, embora dentro de um mesmo país, a situação geográfica, o tecido industrial e social, o modo de escolha e a personalidade do responsável podem conduzir a modelos de organização e, conseqüentemente, resultados bastante diferentes para uma mesma tecnologia.
Santos (1985) em pesquisa comparativa realizada entre controladores do tráfego de metrô no Rio de Janeiro e em Paris, demonstra, através da análise de movimentos de olhos e das comunicações em casos de incidentes, que a diferença de comportamento entre eles é determinada pela experiência anterior na condução de trens de metrô. Evidencia, ainda, a importância da aquisição de competência através da ascensão. Os operadores parisienses, antes de se tornarem controladores de tráfego, atuavam na função de condutores de trem. Isto lhes proporcionava uma ampla representação mental sobre todo o processo. Já os cariocas, por questões de salário e estabilidade, já eram recrutados para este nível, recebendo em treinamento teórico, diretamente na sala de controle.
Observa-se neste exemplo como a situação social e a estratégia da empresa em relação a ela, podem interferir na estabilidade do pessoal e na aquisição de competência, que é uma necessidade vital, não só na situação de trabalho atual, mas também nas anteriores.
Langa (1994) realizou seu estudo em fábricas de mistura de óleos de petróleo, com tecnologia semelhante e pertencentes ao mesmo grupo multinacional, localizadas no Zaire e na França. A AET (análise ergonômica do trabalho) teve como base o responsável por cada uma das unidades consideradas. Como a análise compreende uma atividade burocrática, dependente de explicações complexas, foram utilizadas 3 abordagens complementares: análise exaustiva da atividade, autoconfrontação e entrevista guiada pelos fatos. O pesquisador observou 8 jornadas de trabalho, descrevendo histórias, de conteúdo variável, que se desenrolaram simultaneamente. Constatou a variabilidade, comum a toda atividade de trabalho, que aumenta com o nível hierárquico na organização, sendo que uma das funções da estrutura organizacional é de reduzir esta variabilidade, a fim de assegurar o equilíbrio, em quantidade e qualidade, da produção.
A variabilidade tende a ser maior nos NPI, como observado neste exemplo, através de problemas de transporte ferroviário de insumos e produto acabado, e instabilidade nos trâmites de processos de importação. Estes aspectos colocam a necessidade de jornadas de trabalho irregulares pois dependem da constância do transporte. Os operadores aceitam este trabalho em horários imprevistos, devido à compreensão que a administração demonstra para com a necessidade ocasional de ausência por motivos familiares. Ocorre, também, a utilização de vias de comunicação informais externas à fábrica, principalmente sobre o andamento das questões referentes ao transporte, que auxiliam a antecipação mínima para evitar o colapso da produção.
Este estudo mostra que a cultura zairense, responsável em parte pelos problemas observados, permite também o encaminhamento das soluções utilizadas pelo chefe da unidade, para além da organização formal e burocrática.
Rubio (1990) apud Wisner (1994a) demonstrou em seu estudo como o tecido industrial e social das Filipinas proporcionou condições para que a companhia telefônica local adquirisse autonomia em relação à manutenção de material deteriorado. A população e os operadores da companhia desenvolveram o hábito de guardar peças usadas dos aparelhos telefônicos que, após algum tempo, constituíram um razoável estoque que começou a ser combinado para gerar peças de reposição. Paralelamente, organizaram-se cursos de formação para os operadores, primeiramente junto ao fornecedor no exterior, e após algum tempo, em centros de formação locais. O tecido social mostrou-se favorável, na medida em que o sistema escolar estimula competências individuais em informática e a sociedade demonstra um interesse conjunto pelo assunto.
Assim, a pesquisa demonstra como, analisando e explorando as diversas contingências, uma empresa pode trabalhar a questão tecnológica visando, inclusive, à autonomia em relação ao fornecedor.
Madi (1992) apud Wisner (1994a) discute a questão de conflitos de poder ao analisar o funcionamento de uma fábrica de cimento na Algéria. Os grupos de trabalho do local, a partir da aquisição de competência coletiva, apresentavam a tendência de reconhecer somente a autoridade do chefe imediato, rejeitando os engenheiros. Observa que a formação escolar dos engenheiros, sua alta rotatividade no local, bem como problemas ligados ao vocabulário (costume de tratar termos técnicos em língua estrangeira) dificultavam a comunicação entre estes e os operadores.
Este conflito de poder envolve os aspectos de ponto de vista (lógica de concepção e lógica de utilização), de classe social e de vinculação cultural, podendo ser observado nos mais diversos tipos de organização.
O desenvolvimento dos estudos citados pode demonstrar as condições
que a análise antropotecnológica apresenta de proporcionar
uma visão abrangente do funcionamento da organização
e, assim, colaborar com os processo de transferência de tecnologia.
2.4.4. Anomalias da transferência de organização
- Classificação a partir de estudos antropotecnológicos
Os estudos sobre transferência de tecnologia utilizando a abordagem
antropotecnológica citados anteriormente, resultaram, para além
das considerações já colocadas, em uma classificação
da transferência de organização. O estudo dos efeitos
das anomalias da organização sobre o modo de ação
dos operadores e os resultados desta produção, foram categorizados
segundo três modalidades principais de transferência: incompleta,
imperfeita e inadequada. Os aspectos organizacionais que se apresentaram
mais problemáticos, quais sejam, a manutenção e a
comunicação, serão utilizados para a definição
e explicitação destas categorias (Wisner, 1984a, p. 88-93
e 1985a, p. 1219-1220).
2.4.4.1. Organização da manutenção
Embora a manutenção de sistemas produtivos seja considerada essencial para o seu bom funcionamento, em alguns casos de transferência de tecnologia este item apresenta-se totalmente ausente do processo. O comprador parece considerar ser este um problema secundário, que será resolvido graças à engenhosidade de seus operadores e o vendedor, por sua vez, não dispõe de uma descrição sistemática da organização da manutenção que possa ser transferida. Observa-se que, mesmo em grandes empreendimentos, a manutenção é freqüentemente realizada por grupos de profissionais que apresentam uma qualificação independente, adquirida na atividade prática e não formalizada. A exceção a esta situação é encontrada na preocupação com itens de segurança apresentada por setores como navegação aérea, produção de energia nuclear e equipamentos de processamento de dados.
Em grande parte dos dispositivos técnicos transferidos, a ausência
de transferência da organização de manutenção
traduz-se por uma degradação bastante rápida do sistema
original. Esta degradação é freqüentemente atribuída
à mediocridade do pessoal e aos hábitos culturais do país
importador, resultando em explicações inexatas que não
conduzem à proposta alguma de melhoria.
Esta categoria representa aqueles casos nos quais a imperfeição da transferência é observada com relação ao idioma transferido. Pode ocorrer que as instruções de manutenção sejam enviadas em um idioma diferente daquele falado no país importador e, conseqüentemente, observam-se grandes dificuldades com relação à compreensão das mesmas. Em outra situação, geralmente por uma questão de economia, somente parte do manual de manutenção é traduzido, contendo apenas os aspectos gerais da atividade. Assim, os operadores serão privados de informações detalhadas sobre a organização da manutenção.
Uma questão mais específica refere-se à qualidade da tradução. Sinaiko et all apud Wisner (1984a, p. 89) demonstraram a existência de uma correlação expressiva entre o número e a importância dos erros de manutenção e a qualidade da tradução do manual de manutenção no idioma do país importador. Se esta qualidade apresenta-se boa, ocorrem poucas diferenças entre os operadores do país de origem e do país importador. Ao contrário, uma má qualidade de tradução leva os operadores do país importador a preferirem o manual no idioma original, assumindo as dificuldades e os riscos que esta decisão acarreta.
Acrescente-se ao já discutido as dificuldades inerentes à
diversidade de idiomas praticados em alguns países, nos quais a
utilização de dialetos para a comunicação dificulta
a compreensão do idioma oficial. A importância deste aspecto
é diretamente relacionada com a complexidade do texto, pois implica,
também, no entendimento de fatores técnicos, às vezes
completamente novos para a realidade do país importador. Assim,
em todos estes casos observa-se que as informações necessárias
à manutenção e operação do sistema não
se encontra tão disponível quanto o desejável, o que
levará, necessariamente, à improvisação e à
experimentação, muitas vezes com resultados desastrosos.
Considera-se evidente que as dificuldades de funcionamento de um sistema produtivo que exigem um controle de manutenção não são as mesmas em todos os locais. As fontes de diferença podem estar, por exemplo, em aspectos como clima, condições de transporte ou variações da tensão elétrica, que poderão determinar um maior desgaste do sistema e necessidades específicas com relação à manutenção.
A abordagem precisa do caráter inadequado da organização
da manutenção, tal como ela é transferida, explica
uma parte das panes constatadas no país importador. Observa-se que
o diagnóstico de panes é normalmente mais complexo, que a
distribuição diferente dos incidentes conduz a uma necessidade
de peças de reposição bastante distinta daquela apresentada
no país exportador. Nestes casos, a manutenção geralmente
apresenta um caráter que denota a improvisação, podendo,
muitas vezes, tornar-se a origem de novos incidentes.
2.4.4.2. Organização das Comunicações
A organização das comunicações representa,
a exemplo da manutenção, um elemento fundamental para o funcionamento
satisfatório dos sistemas produtivos. Sua transferência apresenta-se,
talvez, mais difícil e negligenciada em função de
seu caráter não material e das conotações culturais
das interações.
A característica incompleta da transferência da organização das comunicações representa aqueles casos em que somente os aspectos técnicos são transferidos, não sendo os aspectos organizacionais objetos de qualquer tipo de transmissão. Assim, as necessidades que o sistema produtivo apresenta para um bom funcionamento, referentes à troca de informações entre os diferentes setores, são negligenciadas em função do desconhecimento de sua importância.
Um outro caso envolve a diversidade de funcionamento observada no país
importador em função de elementos locais específicos,
representando situações pouco conhecidas no país exportador.
Os exemplos dos estudos de Meckassoua (1986) e Langa (1994), já
analisados, são representativos desta questão. Além
das deficiências de comunicação ligadas à falta
de conhecimento da sua necessidade, aspectos como a má qualidade
das garrafas e etiquetas no primeiro caso e dificuldades de transporte
e trâmites de importação no segundo são determinantes
no estabelecimento de esquemas de comunicação originais,
pois visam a solucionar problemas pouco representativos no país
de origem.
O caráter imperfeito da transferência de comunicações é considerado com relação aos problemas ligados à linguagem, principalmente quando da resolução de incidentes no sistema produtivo. A questão fundamental refere-se à relação entre o trabalho prescrito pelo serviço de métodos e o trabalho real necessário para que o sistema funcione. A distância entre o trabalho prescrito e o real já existe nas atividades repetitivas do trabalho parcelar, onde tudo é feito buscando a coincidência entre ambos. Quanto mais complexo torna-se o trabalho, maior é a necessidade de que o operador constitua uma imagem pessoal do funcionamento do dispositivo visando ao atendimento dos índices pertinentes, à tomada de decisões convenientes para a regulação do sistema e à recuperação de incidentes.
Como analisado anteriormente, geralmente a transferência ocorre
somente com relação ao trabalho prescrito por ser este o
aspecto conhecido pelos técnicos responsáveis pelo processo.
Ocorre porém que, na maior parte do tempo, os protocolos formais
de controle e ação não permitem um funcionamento eficaz
nos limites desejados. Assim, se nada é feito visando à transmissão
do modo real de trabalho, podem advir grandes dificuldades com o funcionamento
do dispositivo transferido. Em alguns casos, estas dificuldades podem resultar,
inclusive, no fechamento de empreendimentos onerosos. Em outros, os operadores
do país importador constituem o seu próprio esquema de comunicações
que não pode, contudo, ter o seu funcionamento prejudicado pelas
instruções formais.
A transferência inadequada da organização de comunicação
representa, a exemplo do explicitado para a manutenção, a
inadequação máxima entre as realidades da tecnologia
e a da situação local. São casos extremos nos quais
os dispositivos transferidos, por exemplo, instrumentos de salas de controle
de sistemas automatizados, emitem sinais sem significação
ou utilizam símbolos que não correspondem a indicações
realistas do estado do sistema e servem somente para induzir a erros os
operadores que não aprenderam a negligenciá-los.
2.4.5. Metodologia da abordagem antropotecnológica
Os parâmetros metodológicos para estudos sobre transferência de tecnologia com base na antropotecnologia são sugeridos por Wisner (1981; 1982b; 1984b; 1985a; 1992a e 1992b) e refinados por Daniellou (1985; 1988), este último com o objetivo específico de viabilizar a intervenção ergonômica na gestão e acompanhamento de projetos industriais.
A metodologia, a partir da reunião das contribuições dos dois autores citados, pode comportar quatro etapas: análise da situação do país comprador ou sobre o local de transferência; estudo sobre a tecnologia a ser transferida ou análise das situações de referência, projeção do quadro de trabalho futuro e reconstituição das atividades futuras prováveis. Destaca-se, ainda, as condições de participação a cada fase do processo de transferência, com contribuições ao melhor desenvolvimento da mesma. O esquema explicativo da metodologia encontra-se na figura 2.4.
Figura 2.4.Metodologia para abordagem antropotecnológica em transferência de tecnologia
Fonte: Adaptada a partir de Daniellou (1985, p. 75)
2.4.5.1. Análise do local de transferência
Esta etapa representa um reconhecimento inicial, a partir da análise de vários aspectos do país importador da tecnologia e, particularmente, do local de implantação do empreendimento. As informações podem advir de fontes de pesquisa locais, nacionais e mundiais. Wisner (1981, p. 46, 126-7) alerta para as dificuldades que podem surgir pela carência de dados, tanto de fontes acadêmicas como daquelas oficiais, resultando em um conhecimento normalmente insuficiente e, não raro, pouco operacional, que os países em desenvolvimento dispõem sobre si mesmos.
Recomenda-se que a análise dos diversos fatores que intervêm no processo de evolução da industrialização de um país seja feita considerando, minimamente, os aspectos referentes à nação, à empresa e à família. É assim que uma doença profissional, um acidente, um salário mais elevado, um melhor estado nutricional, um nível mais alto de competência técnica, relacionam-se de maneira diferente às três categorias, de acordo com o sistema fiscal e social do país (Wisner, 1981, p. 59).
Relaciona-se uma lista dos dados sobre o país comprador, que podem ser considerados em estudos de cunho antropotecnológico, destacando-se que estas são informações adicionais às análises econômicas normalmente realizadas (Wisner, 1981, p. 26, 44-5, 59, 60-2).
A. Dados político-econômicos: nível de renda média; tendência evolutiva de renda; repartição da renda nacional entre consumo, investimento local e remuneração do capital estrangeiro; distribuição entre as categorias da população da renda nacional consagrada ao consumo, políticas governamentais referentes aos setores produtivos e relações externas.
B. Dados sócio-culturais e antropológicos: grau de urbanização (cidades e aglomerações urbanas); nível de instrução (alfabetização, desenvolvimento do ensino técnico, secundário e superior); orientação de instrução para as formações técnicas e econômicas ou literárias e jurídicas; antigüidade das atividades artesanais do tipo moderno (eletricidade, motores, etc...) e da indústria; formação étnica da sociedade e seus costumes.
C. Dados geográficos e demográficos: geografia física (sismos, variações climáticas, regime de águas, topografia, condições do solo); geografia humana (dados antropométricos, índices de saúde e nutrição); geografia energética, dos transportes e das comunicações, geografia sanitária e geografia industrial.
D. Dados sobre as condições de trabalho:
No sentido restrito: segurança do trabalho, doenças profissionais, carga de trabalho físico e mental, condições de ambiente físico; relações entre o dispositivo técnico, a gerência e a direção da empresa; duração e horários de trabalho.
No sentido amplo: emprego e sua estabilidade; desemprego; salário bruto; salário social (seguridade social, aposentadoria, seguro desemprego, auxílios de moradia, transporte..); vantagens sociais relativas à empresa (auxílio moradia, refeições e alimentação familiares, medicina do trabalho e familiar, transporte, escolarização); liberdades sindicais e políticas.
A importância desta etapa pode ser reforçada, a partir da análise de alguns exemplos de influências externas à empresa coletados em estudos antropotecnológicos (Wisner 1992a, 1994a).
Os efeitos das condições geográficas e econômicas foram observados com relação a:
Os limites comerciais e financeiros, determinados pelas políticas que regem a transferência de tecnologia dos países envolvidos podem influir, por exemplo, em restrições a compras de peças no exterior, limite de remessa de divisas ou dificuldades de atualizar a tecnologia transferida.
A influência do tecido industrial é considerada evidente pois, quando os fornecedores e prestadores de serviços localizam-se próximos ao empreendimento, existem facilidades com relação a custos e atendimentos emergenciais. As falhas advindas de um tecido industrial pouco desenvolvido são, normalmente, compensadas pelo envolvimento intelectual dos operadores, por exemplo, a necessidade de desenvolvimento da capacidade de efetuar a manutenção emergencial dos equipamentos. Como normalmente a pouca densidade industrial ocorre em locais com menores opções em termos de qualidade de vida, observa-se, ainda, nestes casos, uma alta rotatividade de operadores especializados.
Com relação ao tecido social, a valorização e distinção do trabalho em certas empresas multinacionais podem atrair para elas os funcionários com melhor preparo na região, ocasionando, inclusive, uma qualidade dos produtos em nível inclusive mais alto do que a do país de origem. Outra questão, refere-se aos recursos públicos insuficientes para atender às necessidades da população (saúde, aposentadoria, desemprego, habitação) ocasionando serviços de má qualidade. Este fato pode resultar em casos nos quais a empresa assume, na vida do empregado, uma importância bem maior do que aquela encontrada nos países industrializados. Observa-se, inclusive, tolerâncias com relação às legislações trabalhistas, fruto de adaptações entre patrões e empregados.
Ainda relacionado à influência do tecido social, os hábitos e costumes regionais, muitas vezes de origem religiosa, podem interferir de maneira importante na produção. O exemplo do Ramadam entre os povos muçulmanos é bastante significativo. Nesta época, devido à necessidade de jejum durante o dia e com a alimentação sendo feita somente à noite, as condições físicas dos operadores são alteradas, com reflexos evidentes nos níveis de produção.
Assim, de uma maneira geral, a noção básica desta
etapa é a de que as situações desfavoráveis,
que poderão ser encontradas em estudos antropotecnológicos,
só poderão ser analisadas a partir do exame da empresa inserida
no seu ambiente regional e nacional, e de acordo com a conjuntura econômica
prevalente na época considerada. A heterogeneidade dos NPI, a diversidade
das situações conforme as regiões de um mesmo país,
as exigências particulares de cada ramo industrial, a tecnologia
escolhida, a história da empresa e de sua região são
fatores que se combinam de maneira diversa em cada caso. Neste sentido,
a metodologia de abordagem não é única, pois deve
ser proposta a partir de cada situação (Wisner, 1994a, p.
140).
2.4.5.2. Estudo das situações
de referência
Nesta etapa, torna-se evidente a utilização da ergonomia na medida em que se busca, através de análises ergonômicas do trabalho em situações análogas àquela estudada, evidenciar as dificuldades existentes para, então, otimizar a utilização dos recursos envolvidos e o funcionamento das instalações.
Daniellou (1992, p. 78) acredita que essas dificuldades advêm da fragilidade das hipóteses adotadas pelos projetistas para elaborar o novo sistema. Esse ponto, já discutido anteriormente, refere-se à falta de consideração das especificações das intervenções humanas. O mesmo autor (1988, p. 187) relaciona algumas dessas hipóteses, quais sejam:
Assim, a intervenção ergonômica deve modificar tais hipóteses, como salientam Guérin et all (1991, p. 57) ao afirmarem que o papel da ergonomia é de identificar e estruturar, partindo da análise das atividades atuais dos trabalhadores, ou realizando simulações da atividade futura, o conjunto de suas determinantes prováveis. Demonstrar, então, as incoerências e os riscos potenciais e manifestos relativos à saúde dos trabalhadores e às disfunções das instalações.
Laville et all (1989, p. 12) demonstram que a questão é evidenciar a inevitável variabilidade dos estados do processo e dos operadores humanos, para que esta variabilidade possa ser considerada numa concepção mais flexível dos meios e da organização do trabalho.
Leplat (1990, p. 359) ressalta que esta flexibilidade responde à dificuldade de prever com bastante precisão em uma situação nova, o papel da atividade do operador. As realizações devem poder adaptar-se às diferenças individuais, à evolução das condições de trabalho e à transformação da atividade, através do exercício prolongado. Pois, como assevera Wisner (1987, p. 64 ) a ergonomia não tem caráter prescritivo ou normativo, suas recomendações visam à definição de meios de trabalho que compreendem os graus de liberdade que permitam a sua adaptação à grande maioria dos trabalhadores.
Nesta fase, então, a partir da análise das dificuldades encontradas em estabelecimentos industriais similares, denominados situações de referência, compara-se, de maneira global e em nível de postos de trabalho, a atividade real e a atividade prescrita, e busca-se conhecer as razões de diferenças importantes entre o funcionamento real e o previsto.
A situação de referência deve, com a maior precisão possível, caracterizar em detalhes a atividade proposta. Seu objetivo é permitir uma descrição da variabilidade industrial, envolvendo variações de demanda, de fornecedores, de produtos, de aparelhos e suas conseqüências sobre a atividade (Daniellou, 1985, p. 11-12, Crespy, 1989, p. 270).
A escolha da situação, ou situações de referência, depende de critérios que envolvem a natureza do setor industrial em questão. Pode-se buscar a pesquisa de situações relativas à matéria prima e processos de fabricação, à tecnologia e à população que conduzirá o futuro sistema. Nesse sentido, Wisner (1981, p. 47-8; 1984b, p. 51-3) aponta três situações que podem ser consideradas: uma fábrica instalada no país vendedor, uma fábrica do mesmo tipo funcionando em outra região do país comprador, ou uma fábrica de tecnologia semelhante existente no país comprador.
A análise da fábrica localizada no país vendedor busca, além de evidenciar todas as condicionantes impostas pela tecnologia escolhida, a compreensão do funcionamento real do sistema produtivo, para além das instruções oficiais que, como já foi analisado, são as únicas normalmente transferidas. A falta de conhecimento por parte dos administradores das empresas de como os operadores agem para permitir o funcionamento dos dispositivos técnicos é considerado uma fonte de problemas nos PIs, que tende a agravar-se em casos de transferência. Deve-se, ainda, dedicar especial atenção à identificação de aspectos que possam estar comprometendo as condições de trabalho na situação analisada, a fim de permitir a sua correção na situação transferida.
Uma fábrica do mesmo tipo daquela a ser exportada e que funciona em uma outra região do mesmo país é, evidentemente, um modelo particularmente interessante mesmo se certos aspectos geográficos e antropológicos são diferentes. Poderá ser analisado em que medida o dispositivo técnico original e, sobretudo, seu modo de utilização foi transformado e quais são as conseqüências destas mudanças sobre a saúde dos trabalhadores, sua estabilidade, a quantidade e a qualidade da produção. É recomendável que este seja um estudo comparativo, realizado após a análise da situação no país vendedor.
No caso em que não exista no país comprador uma fábrica do mesmo tipo daquela a ser transferida, a análise de um sistema produtivo localizado, se possível, na mesma região do projeto, e que utilize uma tecnologia semelhante àquela prevista, pode fornecer informações importantes para o diagnóstico. Busca-se, nesta situação, observar de que maneira o meio original foi modificado pela instalação da fábrica e de seu sistema social, como são organizados e utilizados os sistemas de transporte, alojamento, serviços médicos, alimentação. Como ocorre na fábrica, não só o funcionamento, mas também a manutenção do sistema técnico e quais são as soluções que os responsáveis pelo sistema utilizam para assegurar a adaptação do dispositivo técnico ao local.
Daniellou (1985, p. 68) faz duas observações sobre a escolha da situação de referência. Se o projeto é de modernização, entende-se que os mesmos produtos serão fabricados com as mesmas matérias primas, pelos mesmos operadores, porém com um dispositivo técnico diferente. Nesse caso, torna-se necessário analisar a situação atual, antes da intervenção, e, se possível, outras unidades com características semelhantes ao esperado após a modernização. É oportuna a consideração a respeito de aspectos que desaparecerão, permanecerão e dos que, provavelmente, surgirão após as alterações.
No caso da criação de uma nova tecnologia de fabricação, a questão é um pouco mais complicada, por não existir uma situação similar já em funcionamento. Nesse caso, o autor sugere que se proceda à análise com os operadores que conduzem os ensaios de laboratório que geraram a nova tecnologia. Salienta, também, que raramente ocorre a transposição direta do laboratório à indústria, sendo usual a instalação de unidades piloto para testes e ensaios que servirão como situação de referência.
De forma mais específica, em qualquer dos casos, Maire et all (1989, p. 32-35) enfatizam a necessidade de analisar aspectos relativos a:
Ressaltam, em todos os casos, a utilização de referências complementares. Como essas apresentam semelhanças em somente alguns dos aspectos requeridos, os seus dados servirão para o enriquecimento da análise.
Os mesmos autores frisam que a exploração de uma situação de referência comporta dois estados. O primeiro envolve a análise, adequando as várias técnicas disponíveis de análise ergonômica do trabalho ao caso, da atividade real na situação escolhida. O segundo envolve a comparação técnica e organizacional entre a situação de referência e a situação transferida. As diferenças encontradas permitirão evidenciar aspectos como volume de emprego, organização do trabalho, qualificação e formação dos operadores, segurança, condições fisiológicas e psíquicas de trabalho.
Nesse ponto é interessante colocar que, como afirma Daniellou (1985, p. 69-70), a descrição da atividade estabelecida nestas situações não é transponível à situação futura. Um trabalho de abstração é necessário para destacar estes fatores determinantes da atividade e que são suscetíveis de estar presentes nas instalações projetadas: elementos de variabilidade de produtos e ferramentas, disfunções dos sistemas técnicos e certas características organizacionais. Esclarece que esta análise permite igualmente evidenciar as estratégias utilizadas pelos operadores, levando em conta estes fatores, fornecendo, em particular, informações sobre as competências requeridas que orientarão a reflexão sobre o plano de formação.
Assim, os resultados das análises de situações
de referência podem servir para enriquecer, talvez corrigir, as hipóteses
sobre o trabalho humano presentes no projeto de transferência. A
ergonomia contribui, então, na definição de objetivos
detalhados, a fim de permitir que a transferência de tecnologia proporcione,
além de benefícios econômicos, também boas condições
de trabalho e funcionamento. Esta contribuição ergonômica
envolve cinco domínios de concepção: dos espaços
e locais de trabalho, dos equipamentos materiais, das interfaces e softwares,
da organização do trabalho e da formação (Daniellou,
1988, p.190).
2.4.5.3. Projeção do quadro
de trabalho futuro
Para Daniellou (1985, p. 70-71) esta etapa consiste na previsão das determinantes da atividade futura, comportando duas descrições, das tarefas futuras e suas condições de execução, e da população futura e suas variações.
A descrição das tarefas futuras envolve os aspectos técnicos e organizacionais necessários para prever os objetivos a serem atendidos pelos operadores. Sua consecução origina-se de duas fontes principais, quais sejam, o conhecimento do trabalho real, a partir da análise do trabalho atual, e a descrição técnica do dispositivo previsto e dos procedimentos prescritos para a sua utilização.
Durante a análise das situações de referência pode-se evidenciar os objetivos que, eventualmente, não foram previstos nos procedimentos prescritos introduzindo-se, assim, questões sobre as atividades de recuperação das componentes do sistema. Esta descrição das tarefas futuras compreenderá, então, não somente uma categorização das mesmas, mas também, uma previsão das principais interferências possíveis para o funcionamento e manutenção do sistema.
Já a descrição da população futura
origina-se da análise do conteúdo de decisões denominadas
sociais relativas ao trabalho nas futuras instalações, entre
outras, número de trabalhadores, repartição de tarefas
e horários. Representa, também, o resultado da análise
das situações de referência, no sentido da identificação
das competências necessárias pelos sistemas analisados e das
competências disponíveis entre os operadores destinados ao
futuro sistema.
2.4.5.4. Reconstituição previsível
da atividade futura provável
A partir da identificação dos objetivos, vem a tentativa de prever a atividade que poderá ocorrer nas futuras instalações. Daniellou (1985, p. 72) salienta que esta previsão não tem caráter prescritivo, não visando à elaboração de um procedimento que será imposto aos operadores. O seu objetivo é destacar se existe ao menos um modo operatório que permita o atendimento dos objetivos, nas condições compatíveis com o funcionamento humano, levando em conta as variabilidades inter e intra individuais previsíveis.
Nesse sentido, a noção de atividade futura provável determina uma delimitação progressiva das formas possíveis de atividade futura, a partir das decisões relativas aos aspectos técnicos e organizacionais de produção tomadas no decorrer do projeto de transferência de tecnologia. Este espaço de formas possíveis de atividade real é condicionado por aspectos referentes (Daniellou, 1988, p. 188):
O mesmo autor (1988, p. 190-191) enfatiza que vários métodos podem ser utilizados em função, particularmente, dos meios técnicos disponíveis para configurar o futuro sistema. A base serão as recomendações ergonômicas gerais e as recomendações particulares, determinadas a partir das análises de situações de referência. Em certos casos, quando os elementos do sistema são inteiramente disponíveis, é possível proceder a uma experimentação. Em outros, um simulador pode substituir algumas situações e provocar reações a serem analisadas.
Em todos os casos, a linha básica desta reconstituição constitui-se em:
Wisner et all (1988, p. 249) destacam que esta antecipação das atividades futuras prováveis permite uma reconcepção, talvez um pouco limitada, porém com tendência a apresentar-se bastante eficaz na análise da tecnologia transferida.
A interação entre estas reconstituições
e o desenvolvimento do projeto industrial de transferência de tecnologia
pode representar uma situação bastante satisfatória
de intervenção, na qual o responsável pelo estudo
antropotecnológico participa da equipe de concepção
e acompanha cada das etapas do projeto, como explicitado a seguir. Nesses
casos, as inadaptações constatadas originam novos estudos
técnicos e organizacionais com novas soluções sendo
propostas, até a escolha da melhor opção.
2.4.5.5. A participação em cada
etapa da transferência de tecnologia
Cada caso de transferência de tecnologia constitui-se em um processo que apresenta, a exemplo do exemplificado para projetos industriais, fases que são analisadas por Wisner (1981, p. 48-51, 142-8; 1982b, p, 16-9; 1983, p. 41-3; 1984b, p. 53-5, 1987, p.145-153) como: a escolha da tecnologia, a escolha do tipo de construção, a compra das máquinas, a instalação das máquinas, a seleção e formação de pessoal e a ativação de todo o dispositivo produtivo. A contribuição da abordagem antropotecnológica em cada uma delas, bem como a colaboração eventual da metodologia para intervenção ergonômica em projetos industriais, serão explicitadas a seguir.
A escolha da tecnologia constitui uma etapa importante do projeto pois os diversos modos de produção diferem tanto no plano técnico e econômico como nas suas relações com o homem. Os mesmos podem comportar riscos reais (toxidade, explosões, incêndios) ou riscos potenciais de geração de condições inadequadas de trabalho. A OIT (1988, p. 9) salienta a necessidade de especial atenção a substâncias que são proibidas ou são objeto de rigorosa legislação de precaução nos países industrializados.
Além disso, são múltiplos os interesses que podem estar em consideração, envolvendo tanto os compradores como os vendedores. Como exemplo, cita-se a tendência que os representantes dos NPI, apresentam de valorizar somente as tecnologias que representam a novidade mais recente em termos de inovação, independente da sua aplicabilidade e conveniência à realidade local. Assim, observam-se empreendimentos ultra-modernos que se encontram parados ou subutilizados em função da inexistência de meios para manter pessoal especializado ou inadequação a algum aspecto geográfico.
Neste sentido, a OIT (1988, p. 10) recomenda que o estudo de uma tecnologia cuja transferência está sendo proposta deveria incluir um exame de outras tecnologias alternativas possíveis e disponíveis para o mesmo fim, visando a selecionar a que se apresentasse mais segura.
A escolha do tipo de construção pode colocar também problemas graves na medida em que as condições climáticas representam, muitas vezes, a causa principal de intolerância dos trabalhadores. Nesse sentido, as instalações concebidas para um clima temperado apresentam-se, na maioria das situações, inadequadas a climas tropicais sem a interferência de dispositivos de climatização normalmente onerosos. As soluções arquitetônicas devem, assim, adequar-se ao local proporcionando condições de trabalho com influências positivas sobre a saúde e produtividade dos operadores, bem como funcionamento satisfatório dos equipamentos.
As duas fases citadas correspondem, na definição das etapas de um projeto industrial, aos Estudos Preliminares e à Engenharia Básica. Nesse sentido, Maire et all (1989, p. 46-85) enfocam alguns pontos, referentes principalmente aos aspectos organizacionais, que podem ser analisados para respaldar as decisões, quais sejam:
Esse último ponto pode ser analisado a partir da reflexão sobre alguns aspectos, referentes principalmente ao tecido social e industrial da situação analisada, tais como, formação, tipo de tarefa, número de pessoas por equipe, as relações inter-individuais, a possibilidade de um correspondente privilegiado na equipe que faça os contatos externos e os acessos à sala de controle.
A compra das máquinas constitui um período crítico para a adaptação do trabalho ao homem, pois são muitos os problemas que podem daí advir, com conseqüências relativas à avaliação do custo do empreendimento, ao funcionamento do sistema e às condições de trabalho. Muitas vezes os dados de produtividade nominal de um equipamento, fornecidos pelo fabricante, dificilmente são atingidos nas condições normais de funcionamento, a produtividade real. A conseqüência disso é que, para que os dados de fabricação, quando da posta em marcha, correspondam ao esperado, é preciso forçar os fatos de produção a corresponder às previsões, com sobrecarga evidente para os operadores.
Pode ocorrer também a subestimação das dificuldades de encontrar, não só pessoal especializado para a empresa, como condições técnicas que permitam o funcionamento e manutenção satisfatórios. Os aspectos a considerar nesta fase vão desde as características antropométricas e formação dos operadores disponíveis, bem como a sua capacidade de entendimento aos sistemas de comunicação dos equipamentos, até as condições de alimentação básica dos equipamentos (água e energia elétrica, por exemplo) e a disponibilidade de operadores e peças de manutenção.
Esta fase está contida na etapa de desenvolvimento de projetos industriais denominada Engenharia de Detalhamento. Maire et all (1989, p. 90,92) ressaltam que a precisão requerida por esta fase permite um aprofundamento da análise da atividade futura provável, no sentido de integrar ao projeto os conhecimentos básicos de ergonomia, como posturas, esforços físicos e trabalho mental. Enfatizam que neste período podem, paralelamente, ocorrer as análises detalhadas de tipo e repartição das tarefas a cumprir, da organização do trabalho e da preparação dos operadores.
Na questão da organização do trabalho, ressaltam (p.140) que é nessa etapa que ocorrem os ajustes da organização. Eles referem-se, principalmente, ao quadro organizacional geral, envolvendo efetivos, qualificações, repartição de tarefas, polivalência, ritmos de trabalho, estrutura hierárquica, relações com outros serviços. Referem-se, também, às modalidades cotidianas de organização, tais como, meios de comunicação, instruções e procedimentos.
Este quadro organizacional geral deve ser posto à prova com o funcionamento das instalações que surgem durante os estudos detalhados. Já as modalidades cotidianas da organização, os autores consideram que são, nesta fase, estabelecidas pela primeira vez. Os procedimentos de trabalho são uma ferramenta essencial aos operadores, sendo, por isso, essencial que os mesmos participem da sua elaboração. Da mesma maneira, a reflexão sobre os meios necessários para assegurar a continuidade da informação, em todos os sentidos, deve ser iniciada, sempre associada aos futuros usuários.
A instalação das máquinas coloca, pela primeira vez, o confronto entre o que foi preparado no país vendedor e o que é realmente apresentado ao país comprador. Os cuidados referentes a um controle satisfatório do ambiente físico de trabalho (por exemplo, sonoro, luminoso, térmico, vibratório, toxicológico do ar, espaços de circulação e operação) devem ser completados com aqueles referentes à manutenção dos equipamentos. É recomendável a previsão de elementos de sistemas de detecção de panes que sejam simples e seguros, bem como a possibilidade de troca padronizada de elementos defeituosos. A importância desta questão é colocada na medida em que o tecido industrial e social da situação analisada possa ou não dispor de pessoal especializado e fornecedores de material de reposição.
A seleção do pessoal que atuará operando o empreendimento é uma fase que a metodologia de intervenção ergonômica em projetos industriais recomenda seja realizada o mais precocemente possível. Esta recomendação visa a permitir que os operadores possam ter a sua formação acompanhando e participando do desenrolar do projeto. Daniellou (1988, p. 191) enfatiza que durante a fase de realização das instalações o ergonomista, num trabalho conjunto com os futuros usuários, pode controlar se os objetivos definidos nos programas detalhados estão sendo cumpridos e sugerir algumas modificações possíveis. É evidente a interferência que o tecido social e industrial pode ter nesta questão de seleção e formação, posto que tanto as qualificações dos operadores quanto as suas condições de vida e saúde são primordiais no desenrolar destes processos.
Maire et all (1989, p. 153, 162) consideram também que o canteiro de obras, se bem utilizado, pode constituir-se num precioso suporte de formação. Recomendam visitas dos futuros usuários às instalações em construção para que os mesmos apreendam, progressivamente, todos os detalhes relativos aos seus futuros locais de trabalho. Enfatizam, ainda, que essas visitas podem vir a melhorar as condições em que se efetua a transferência de responsabilidade, a colocação das instalações à disposição dos usuários.
Realmente, é no momento da ativação do dispositivo produtivo, fase que compreende a Operação Piloto e a Produção Normal Estabilizada na tipologia de projetos industriais, que as inadequações entre o dispositivo técnico e o pessoal vão surgir. Wisner (1987, p. 149) assevera que, uma vez instalado todo o dispositivo técnico, o funcionamento ocorre progressivamente. Esse é o período crucial de observação, no qual as falhas do sistema aparecem, evidenciam-se os problemas de segurança e pode-se descobrir as dificuldades operacionais. O mesmo autor (1981, p. 51) alerta que nos NPI, a abundância de mão-de-obra disponível, sua juventude e, talvez, o seu bom nível geral de instrução podem vir a criar uma ilusão perigosa, aquela de que uma seleção severa do pessoal e um vasto plano de formação vão suplantar o que o dispositivo técnico tem de inadequado em relação à situação local.
Daniellou (1988, p. 191) ressalta a necessidade da análise do trabalho real dos operadores nessa etapa com o objetivo de:
Recomenda, também, (1985, p.74) uma análise do trabalho
quando da Produção Normal Estabilizada. Argumenta que esta
permitirá evoluir o grau de validade da previsão da atividade
efetuado durante a fase de concepção. A avaliação
dos desvios constatados permite o progresso dos conhecimentos em ergonomia
e dos métodos de previsão da atividade.
2.4.6. Considerações gerais sobre
a abordagem antropotecnológica
Wisner (1984b, p. 55) destaca a impossibilidade de realização de um estudo antropotecnológico sem uma contribuição importante de pesquisadores do país no qual a tecnologia será implantada. Estes reuniriam as condições necessárias para a interação com os operadores locais utilizando seu próprio idioma e segundo as perspectivas culturais que lhes são próprias.
Salienta-se que a antropotecnologia constitui um campo de pesquisa relativamente novo apresentando limitações, tanto com relação às referências teóricas quanto ao estágio de maturidade da metodologia proposta, na dependência evidente do número de estudos já realizados nesta abordagem. Destaca-se, porém, a sua ligação básica com a ergonomia que apresenta um referencial mais sedimentado cientificamente, apresentando um rápido desenvolvimento nas duas últimas décadas.
Wisner (1981, p. 86) evidencia que um estudo antropotecnológico incidirá mais sobre a organização do trabalho, o número e a formação dos operadores que sobre o dispositivo técnico. Justifica-se esta asserção com a evidência de que neste último campo, o do planejamento de condições físicas de trabalho, como analisado anteriormente, a colaboração da ergonomia encontra-se normatizada e bastante delimitada cientificamente. Tornam-se, portanto, bastante facilitados o acesso e a utilização destas normas pelos vários profissionais envolvidos em um projeto de transferência de tecnologia.
Ressalta-se, ainda, utilizando o argumento de Terssac et all (1981, p. 119, 121) de que o domínio da ergonomia expande-se no espaço, à medida em que as conseqüências do trabalho não se reduzem somente às manifestações no âmbito da empresa, e no tempo, posto que os efeitos do trabalho não aparecem senão a médio e longo termo, a necessidade de aprofundamento das questões organizacionais que interferem no trabalho. Pois, como afirma Montmollin (1980, p. 165) "se a ergonomia quer envolver-se na concepção, e não somente na correção, ela deve penetrar nos domínios da organização".
Assim, no caso de transferência de tecnologia, Wisner (1994a,
p. 130) acredita que "é indispensável o estudo da organização
da empresa e do trabalho com o objetivo de levantar questões essenciais
e inelutáveis e permitir a identificação de soluções
para dificuldades de importância crucial".
2.5. ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO E DA
EMPRESA
2.5.1. - Considerações iniciais
A organização da empresa (OE) refere-se à estruturação necessária ao funcionamento da mesma, no sentido de apreender e dirigir os diversos sistemas de fluxos e determinar os inter-relacionamentos entre as suas diferentes partes (Mintzberg, 1995, p. 17). Relaciona-se, então, a um nível macro, entrelaçando os diversos setores e buscando a coerência entre eles. Para Hall (1984, p. 38) esta estruturação atende a três funções básicas, quais sejam, realizar produtos e atingir metas; minimizar ou pelo menos regulamentar a influência das variações individuais sobre a organização; servir de contexto para o exercício do poder, a tomada de decisões e a execução de atividades.
Já a organização do trabalho (OT) pode ser definida como a "especificação do conteúdo, métodos e inter-relações entre os cargos, de modo a satisfazer os requisitos organizacionais e tecnológicos, assim como os requisitos sociais e individuais do ocupante do cargo" (Davis, apud Bresciani, 1991, p. 25). Billette et all (1992, p. 2) consideram a OT como sendo uma "tradição de práticas sócio-econômicas que englobam e determinam o encadeamento das pressões de trabalho".
A OT é explicada como a "maneira de conceber o conteúdo das tarefas convergentes à produção assim como a sua repartição entre os trabalhadores" (Pépin et all, 1984, p. 4). Já para Guillevic (1991, p. 78, 97) a OT refere-se ao conjunto de atores, os quais, através dos seus pontos de vista particulares, condicionam a coordenação dos meios e dos objetivos, pessoais e técnicos, da produção.
Assim, os diversos conceitos de OT e OE demonstram que as atividades com o objetivo de organizar o trabalho e a empresa envolvem a consideração de vários aspectos relacionados a cada situação. Assim, o surgimento de uma forma específica de organização do trabalho e da empresa é resultante de condicionantes políticas, econômicas, tecnológicas e sócioculturais. Enfatiza-se que a adoção e implantação dessas formas específicas passam a influenciar essas condicionantes, num processo dinâmico.
No âmbito deste estudo, a busca ocorre no sentido da identificação
de referenciais, que viabilizem o entendimento dos aspectos organizacionais
tanto do sistema produtivo no país de origem, como no país
importador.
2.5.2. As dimensões de análise
dos aspectos organizacionais da empresa
As estruturas organizacionais podem ser avaliadas a partir de três
dimensões, a centralização, a formalização
e a complexidade.
A complexidade está relacionada ao grau em que as atividades na organização se decompõem ou se diferenciam. Esta dimensão engloba três elementos, quais sejam, diferenciação horizontal, diferenciação vertical e diferenciação espacial.
A diferenciação horizontal diz respeito à subdivisão das tarefas desempenhadas pelas unidades organizacionais, baseada na orientação de seus membros, na sua educação e treinamento, bem como na natureza e resultado das tarefas. A divisão das tarefas pode ocorrer pela alocação de uma gama abrangente de atividades a especialistas ou pela subdivisão minuciosa das atividades, de forma que não especialistas possam desempenhá-las. Quanto maior apresenta-se a quantidade de ocupações diferentes que requerem conhecimentos e habilidades especiais, tanto mais complexa será esta estrutura organizacional no plano horizontal, pois as diferentes orientações podem dificultar a comunicação entre os membros e a coordenação das atividades.
A diferenciação vertical refere-se à profundidade da hierarquia da organização. Quanto maior o número de níveis hierárquicos apresentado entre a direção geral e os operadores, maior será a complexidade vertical desta estrutura organizacional, podendo levar a dificuldades de comunicação e controle, devido ao aumento da distância entre os membros. Este tipo de diferenciação está normalmente associado ao tamanho da empresa, pois, à medida em que o tamanho aumenta, o número de níveis hierárquicos costuma aumentar, porém em uma taxa mais lenta do que o aumento de tamanho.
A diferenciação espacial corresponde ao grau em que as
instalações físicas e o pessoal de uma empresa realizam
atividades dispersadas geograficamente. Este elemento pode ser analisado
como uma forma de diferenciação horizontal e vertical, pois
as atividades e o pessoal podem dispersar-se no espaço, conforme
suas funções horizontais e verticais, pela separação
dos centros de poder ou das tarefas. Conforme aumentam as diferenças
espaciais, aumenta também a complexidade pelas dificuldades de comunicação,
coordenação e controle de atividades em vários locais.
A formalização refere-se ao grau de precisão pelo qual as tarefas são definidas no interior da empresa. Quanto maior a formalização, maior o condicionamento da atividade do operador, pois este elemento está intimamente associado ao controle. A formalização pode ser obtida pelas características do trabalho, através de regras e procedimentos explícitos que determinam o que deve fazer o operador. Neste caso, ocorre a formalização através de um comportamento externalizado, decorrente de normas que são alheias ao indivíduo mas conduzem e regulam sua ação.
Por outro lado, pode ocorrer também um processo de pseudoformalização durante a formação do operador, fora do local de trabalho. Este é o caso dos operadores com maior qualificação, cujo comportamento é internalizado ou profissional, com os padrões de comportamento sendo adquiridos a partir de especialização social. Assim, a formalização e a profissionalização destinam-se a atingir o mesmo objetivo, qual seja, organizar e regularizar o comportamento dos membros da organização. Desta assertiva deduz-se que quanto maior a profissionalização dos operadores, menor a necessidade de formalização.
As técnicas mais freqüentes de formalização
envolvem a seleção que permite a escolha de indivíduos
que convêm à empresa; as regras de exigência para os
postos de trabalho; as políticas e os procedimentos de produção;
a formação e a obrigação de submeter-se a rituais
para provar capacidade, lealdade, compromisso com os objetivos do grupo.
A centralização é definida segundo o grau em que a autoridade formal, que exerce o poder de fazer escolhas, está concentrada em um indivíduo, unidade ou nível hierárquico. Habitualmente, este nível elevado de autoridade reduz ao mínimo a liberdade que dispõem os operadores de agir sobre o seu trabalho. Assim, quanto maior o nível de participação de um número maior de grupos numa organização, menor a centralização.
O grau de controle que dispõe um indivíduo sobre o processo de tomada de decisão definitiva pode ser analisado como medida de centralização. As etapas neste processo são: 1. reunir as informações acerca do que pode ser feito para comunicá-las ao decisor; 2. tratar e interpretar estas informações para apresentar um parecer sobre o que pode ser feito; 3. fazer a escolha do que deva ser feito; 4. autorizar o que deve ser feito; 5. executar a decisão. A tomada de decisão é muito centralizada quando quem decide controla todas estas etapas.
A centralização associa-se mais a controle de processo do que a decisões localizadas. Sugere alta concentração de decisões em uma só área da organização, na suposição de que esta área controla os pontos-chave dos processos mais relevantes. Destaca-se que a aparente transferência de autoridade para os níveis hierárquicos mais baixos pode não contemplar descentralização se, na prática, aquelas decisões forem restringidas por políticas organizacionais.
Tal como a formalização, o grau de centralização de uma organização indica a visão que a mesma tem dos seus membros. Quando altamente centralizada, não há confiança na qualificação dos operadores para permitir que os mesmos tomem decisões ou se auto-avaliem. Ao contrário, as situações menos centralizadas indicam maior disposição de permitir que os membros desempenhem suas atividades de maneira mais autônoma.
A centralização facilita o esforço coordenado em
vista de objetivos, preparação de tomadores de decisão,
análise e visão dos sistemas que formam a empresa, situando
as decisões em uma perspectiva mais ampla e podendo apresentar-se
mais eficaz. Por outro lado, a descentralização reduz a probabilidade
de sobrecarga informacional, facilita uma resposta rápida a novas
informações, produz mais elementos para a decisão,
pode promover a motivação, e representa um veículo
potencial para a formação de dirigentes ao desenvolver sua
capacidade de julgamento.
Robbins (1990, p.103,112-3) salienta que a relação entre formalização e complexidade, esta última referente especificamente à diferenciação horizontal, ocorre no sentido inverso. Assim, a complexidade associa-se à profissionalização, de maneira que especialistas vivenciam poucas regras organizacionais, pois, como já analisado, nestes casos a formalização equivaleria à redundância de controles, na medida em que a socialização daquelas atividades já prevê padrões internos de segurança. O inverso é demonstrado pela observação de que as tarefas repetitivas e rotineiras geram normas padronizadas e regras comportamentais em estruturas com alta formalização e baixa diferenciação horizontal.
A relação entre centralização e complexidade
também evidencia-se no sentido inverso. Através de uma explicação
semelhante à enfocada no item acima tem-se que quanto maior a complexidade,
relacionada ao crescimento do número de especialidades profissionais
na empresa, menor a centralização, pois a profissionalização
dos operadores permite uma maior autonomia nas atividades.
2.5.3. Considerações sobre a evolução
da organização da empresa e do trabalho
A sistematização das idéias sobre as atividades das organizações vem apresentando uma evolução significativa quanto à consideração de um maior número de variáveis que auxiliem o entendimento do seu funcionamento. Esta discussão pode evoluir no sentido do enquadramento das diversas contribuições, segundo a consideração das organizações como sistemas abertos ou fechados, englobando da Teoria Clássica até a Teoria Contingencial.
Da Abordagem Clássica até a Teoria da Burocracia, passando
pela Teoria das Relações Humanas, a organização
é concebida como um sistema fechado,
sem nenhuma conexão com o seu ambiente exterior. A preocupação
básica dos autores clássicos era encontrar a melhor maneira
("the best way") de organizar, válida para todo e qualquer
tipo de organização. Com esse enfoque delinearam-se teorias
com fundo normativo e prescritivo, com princípios e receitas para
todas as situações e, a partir da ênfase na tarefa
e na estrutura, resultou em um enfoque rígido e mecanicista.
Na medida dos avanços de estudos na área, surge a Teoria
Estruturalista que iniciou a caracterização das organizações
como sistema aberto,
considerando a interação das mesmas com o ambiente. Desenvolveram-se
análises comparativas das organizações, formulando-se
tipologias para facilitar identificações, dentro de uma abordagem
explicativa e descritiva.
Surgiram, então, estudos que revisavam as escolas já conhecidas
na tentativa de melhor explicar as ocorrências organizacionais. Mas
é somente com o surgimento do Enfoque Sistêmico que aparece
a preocupação fundamental com a construção
de modelos abertos mais ou menos definidos, que interagem dinamicamente
com o meio-ambiente, e, cujos subsistemas denotam uma complexa interação
igualmente externa e interna. A abordagem sistêmica desenvolveu uma
ampla visão do funcionamento organizacional, mas demasiado abstrata
para resolver problemas específicos da organização
e da administração, sendo então desenvolvida a Teoria
da Contingência, analisada no próximo tópico.
A Teoria da Contingência surge a partir do deslocamento da visualização de dentro para fora da organização, com a ênfase colocada no ambiente e na tecnologia organizacionais sem deixar de considerar os outros elementos, tais como, as tarefas, as pessoas e a estrutura. Salienta que a efetividade organizacional sucede do alcance de um ponto de equilíbrio interno - em termos de relações entre a estrutura organizacional; estilo administrativo; tecnologia empregada; necessidades, valores e habilidades dos operadores; - e externo, nas relações com o ambiente.
A abordagem contingencial destaca a importância das características ambientais no condicionamento das características organizacionais. Assim, como o ambiente é diverso para cada organização, essa abordagem considera que não se atinge a eficácia organizacional seguindo um único e exclusivo modelo.
Esta abordagem é colocada como eminentemente eclética e integrativa, manifestando uma tendência a absorver os conceitos das diversas teorias administrativas, cada qual criticando as demais, no sentido de alargar os horizontes e mostrar que nada é absoluto. A tese central da abordagem contingencial é de que não há um método ou técnica geralmente válidos, ótimos ou ideais para todas as situações. O que existe é uma variedade de alternativas de métodos ou técnicas proporcionados pelas diversas teorias administrativas, um dos quais poderá ser o mais apropriado para uma determinada situação.
As principais variáveis consideradas pela Teoria da Contingência, quais sejam, tecnologia e ambiente, serão discutidas nos tópicos seguintes, visando à análise da sua influência nos aspectos organizacionais da empresa e do trabalho.
De forma geral, como colocado por Katz et all (1976, p. 165), na evolução da teoria organizacional, tanto os teóricos das escolas tradicionais como os defensores das relações humanas no trabalho negligenciaram a tecnologia, posto que os princípios preconizados eram universalistas e aplicáveis independentemente de tecnologia específica.
Assim a tecnologia, que é resgatada pela teoria da contingência, sendo uma das variáveis consideradas neste enfoque, já foi abordada no início deste capítulo em sua definição e sua importância para o funcionamento da empresa. Neste sentido, esta subseção desenvolverá a discussão das principais pesquisas colocadas sobre a relação entre a tecnologia e os aspectos organizacionais.
O interesse na influência da tecnologia na estrutura e resultados
das empresas teve origem com a pesquisa de Woodward
(1977) que estudou uma amostra de empresas de diferentes ramos de atividade
industrial, situadas em uma área geográfica no sul da Inglaterra.
Os resultados da pesquisa demonstraram não haver uma associação
significativa entre os princípios administrativos clássicos,
que indicavam a existência de regras gerais válidas para todos
os sistemas de produção, e o êxito das empresas. Observou
que ao agrupar as empresas de acordo com as especificidades referentes
às tecnologias de produção, a relação
entre estrutura e melhor desempenho tornava-se aparente. Desenvolveu, então,
uma tipologia, segundo a qual, a tecnologia pode assumir três categorias
diferentes, com níveis crescentes de complexidade tecnológica,
relacionadas com configurações estruturais específicas,
conforme figura 2.5.
Figura 2.5. Relação entre tecnologia, estrutura e eficácia segundo a pesquisa de Woodward
As críticas ao trabalho de Woodward (1977) envolvem questões como a maneira de medir o sucesso organizacional e tecnologia, bem como abranger somente empresas do tipo industrial. Suas conclusões, contudo, indicam que a tecnologia influencia a estrutura e o comportamento organizacionais, bem como o estilo de administração, exigindo uma adequação para melhoria de desempenho. É o imperativo tecnológico, que é considerado um dos pilares da Teoria da Contingência.
Perrow (1976)
ampliou a visão de tecnologia, desenvolvendo uma tipologia que pode
ser utilizada em um sentido mais genérico, aplicando-se a todos
os tipos de produção. Baseando-se na tecnologia do conhecimento,
propõe a consideração da tecnologia em termos de duas
dimensões, quais sejam, variabilidade das atividades e análise
do problema. A partir desta base de conceitos, este autor classifica a
tecnologia em quatro dimensões, esquematizadas na figura 2.6.
Assim, na afirmação de Perrow (1976), os problemas enfrentados
no trabalho em cada subunidade da empresa determinariam a tecnologia, cuja
análise, por sua vez, indicaria os métodos de coordenação
e controle mais adequados. Quanto maior a rotina, mais padronizados os
métodos de coordenação e controle, com ênfase
na formalização e centralização. Por outro
lado, quanto menor a rotina, maior a necessidade de flexibilidade expressa
pela estrutura organizacional.
Figura 2.6.
As variáveis da tecnologia segundo Perrow
Thompson
(1976) demonstrou que o grau de interdependência criado por uma tecnologia
é um fator importante na determinação da estrutura
organizacional. Destaca que a tecnologia determina a seleção
de uma estratégia para a redução de incertezas e que
esta redução pode ser facilitada pela estrutura organizacional
adequada. Desenvolveu uma tipologia baseada em duas dimensões que,
de certa forma, também foram abordadas por Perrow (1976), quais
sejam: o grau em que os procedimentos de operações são
estabelecidos e o grau em que a matéria-prima é padronizada.
Identifica três tipos de tecnologia, conforme a figura 2.7, aplicáveis
a qualquer processo produtivo.
Figura 2.7. Classificação da tecnologia segundo Thompson
Fonte: Adaptado de Chiavenato (1983, p. 136-7) e Robbins
(1994, p. 533).
2.5.4.1.1. Avaliação da influência
da tecnologia nos fatores organizacionais
Inicialmente, destaca-se a diferenciação das categorizações acima expostas, com relação à sua abrangência. As tipologias propostas por Thompson (1976) e Perrow (1976) apresentam-se como bastante genéricas, podendo ser aplicadas a qualquer tipo de empresa. Já a classificação de Woodward (1977), considerando-se os aspectos já comentados de limitação de amostragem, somente podem ser aplicados a empresas do tipo industrial.
Robbins (1990, p. 195-201; 1994, p. 533-4) enfatiza, em uma avaliação das abordagens aqui consideradas, que o denominador comum das diversas classificações pode ser demonstrado como o grau de rotinização, na medida em que as tecnologias podem ser atividades rotineiras ou não rotineiras, como esquematizado na figura 2.8. A característica das primeiras são as operações automatizadas e padronizadas, opondo-se às segundas, que são realizadas na medida da necessidade.
Figura 2.8. Catalogação de tecnologias em rotina e não rotina.
Este autor, juntamente com Hall (1984, p. 66, 72-3, 83) destaca que, embora a relação entre a tecnologia e os aspectos organizacionais não disponha ainda de uma classificação que englobe todos os casos, encontra-se as atividades rotineiras geralmente ligadas a uma menor complexidade. A repetição e a intensa divisão do trabalho levariam à uma menor diferenciação vertical e, em oposição, a não rotina levaria a um aumento da diferenciação horizontal e vertical, conduzindo a estruturas mais altas e complexas.
A relação entre tecnologia e formalização apresenta-se mais evidente, na medida em que a rotina está ligada à presença de regulamentos, descrição de postos e outros documentos formais. O inverso também é verdadeiro, posto que as atividades não rotineiras requerem controle que permita grande flexibilidade.
Já a relação entre tecnologia e centralização apresenta-se menos clara. Considera-se lógica a dedução de que as tecnologias rotineiras estão ligadas a uma estrutura centralizada, enquanto as não rotineiras, que dependem mais dos conhecimentos de especialistas, caracterizam-se pela delegação da autoridade de decidir. Contudo, uma conclusão mais genérica é a de que esta relação é moderada pelo grau de formalização, ou seja, que os regulamentos formais e as decisões centralizadas são mecanismos de controle que podem substituir-se mutuamente. Assim, as tecnologias rotineiras estão ligadas a um controle centralizado quando existe um mínimo de regras e regulamentos, pois, na ocorrência de alto grau de formalização, podem apresentar-se acompanhadas de descentralização. Pode-se assim dizer que a rotina conduz à centralização quando a formalização é pequena.
Morgan (1989a, p. 71), Hall (1984, p. 47,83) e Robbins (1990, p. 198) assinalam ainda que a variabilidade de tarefas executadas em uma empresa significa essencialmente que a mesma tem tecnologias múltiplas e, desse modo, deve estruturar-se diferentemente de acordo com a subunidade considerada. Assim, podem ser observadas variações estruturais intra-organizacionais, vinculadas a estas tarefas diferentes e suas tecnologias diversificadas. Robbins (1990, p. 201) enfatiza, então, que, se o imperativo tecnológico existe, ele é caracterizado sobretudo por pesquisas ao nível das tarefas, aplicando-se, assim, somente às pequenas organizações e aos dispositivos estruturais que são a base ou próximos à base do sistema técnico.
Considerando as diversas contribuições analisadas sobre a influência da tecnologia nos fatores organizacionais, casos de análise de tecnologia semelhante em países diferentes, particularmente interessantes para analisar transferência de tecnologia, citados por Scott (1990, p. 116-7), encontraram relações entre tecnologia e aspectos organizacionais condizentes com as observações gerais colocadas. Destaca, porém, a questão da centralização que, por apresentar-se bastante díspare, leva à suposição de que esta é uma dimensão bastante influenciada pelas variações culturais e institucionais.
Child (1972, p. 6) assevera que a reorientação teórica provocada por estudos como os analisados, em direção à relação entre trabalho e sua organização, fazem com que uma associação entre condições ambientais e operações organizacionais torne-se mais inteligível. A tecnologia prevalente é agora conhecida como um produto da decisão, onde planos de trabalho, recursos e equipamentos marcam uma certa evolução da posição organizacional no seu ambiente.
Analisa este autor que uma dada configuração tecnológica (equipamentos, conhecimentos e técnicas...) pode exibir certa rigidez e talvez indivisibilidades, e poderá servir como limitação para a adoção de uma OT diferente. Contudo, ao mesmo tempo em que a tecnologia possui implicações com as estruturas organizacionais efetivas, uma associação entre as duas pode apurar as informações para a decisão dos controladores da organização, olhando as tarefas e sua relação com os recursos disponíveis e a performance esperada.
Neste sentido, como assinala Scott (1990, p. 125), as pesquisas aqui
citadas tratam a tecnologia de maneira objetiva, como medida empírica
do processo de trabalho, por exemplo, a uniformidade das entradas encontradas
ou a automaticidade das máquinas empregadas. A tendência,
utilizando e sobrepondo enfoques deste tipo, é a consideração
conjunta dos aspectos ambientais analisando também as definições
e interpretações dos envolvidos nas decisões, como
será abordado nos itens seguintes.
A conceituação
de ambiente é bastante discutida pelos autores que apresentam, porém,
uma convergência no sentido de considerá-lo como representando
todo o universo que envolve externamente uma empresa tomada como ponto
de referência. Na medida em que é do ambiente que as empresas
obtêm os recursos e informações necessários
para sua subsistência e funcionamento, e é no ambiente que
colocam o resultado das suas operações, a definição
"ambiente é representado por todos os elementos existentes
fora dos limites da organização, e que tenham potencial para
afetar a organização como um todo ou partes dela" (Daft,
apud Bowdich et all, p. 143) parece bastante adequada.
Uma primeira distinção analítica de ambiente é feita no sentido da caracterização de ambiente geral e ambiente específico ou de tarefa. O ambiente geral da organização é constituído por um conjunto amplo e complexo de condições, fatores e tendências externos que envolve e influencia todas as empresas. Inclui as condições tecnológicas, fatores sociais, interações políticas, condições econômicas, fatores demográficos, estrutura legal, sistema ecológico, fatores de mercado e condições culturais. É importante ressaltar que o ambiente geral se volta para as condições que, potencialmente, podem afetar as organizações, embora estas influências não sejam muito claras.
O ambiente específico ou da tarefa é a parte do ambiente geral mais imediato e próximo à empresa, enfocando os fatores e as condições externas que tenham relevância imediata para a mesma. Geralmente inclui os clientes, fornecedores, sindicatos, autoridades regulamentadoras, grupos de interesse público, associações de classe e outros públicos ou entidades relevantes à organização.
Destaca-se que, embora o ambiente geral seja semelhante para todas as empresas, o ambiente específico irá variar dependendo do domínio específico, do nicho escolhido para atuação da organização. A distinção entre o ambiente geral e o específico depende, portanto, das atividades centrais de uma dada empresa. Este conceito torna-se importante porque o domínio da organização determina os pontos de dependência que a mesma apresenta em relação ao ambiente específico.
Outra distinção, citada por Robbins (1990, p. 208-9) e Bowdich et all (1992, p. 146-7) relaciona o ambiente real versus o ambiente percebido. O ambiente real ou objetivo consiste das entidades, objetos e condições que existem fora da empresa. Cada organização tem um ambiente que é real, mensurável e externo à mesma, e essa realidade impõe algumas limitações ao modo de operar a empresa.
O ambiente percebido, por sua vez, reflete a interpretação subjetiva do ambiente real. Embora essas percepções também sejam eventos reais, elas ocorrem dentro da organização. Os citados autores apontam que, pesquisas experimentais mostraram que as correlações entre as medidas do real de uma organização e as medidas das características percebidas daquele ambiente não são muito altas. Assim, Chiavenato (1983, p. 92-3) destaca que a percepção ambiental é uma construção, um conjunto de informações selecionadas e estruturadas em função da experiência anterior, das necessidades e das intenções da empresa ou do subsistema diretamente implicado numa certa situação.
Child et all (1987, p. 570) discutindo esta questão, asseveram que as organizações vão construindo seus ambientes, tentando interferir naquelas condições que são percebidas como particularmente importantes para a empresa. Este aspecto também é salientado por Starbuck, apud Castro (1982, p. 170), ao destacar que uma organização seleciona os aspectos do ambiente com que irá lidar, sendo que este ambiente tanto pode ser seguro como inseguro, o fator-chave são as percepções que a organização tem disso e as ações delas resultantes.
Para Hall (1984, p. 68), o ambiente entra na organização como informação e, como toda informação, está sujeito aos problemas de comunicação e de processo decisório. Ressalta ainda, a dificuldade de definição das fronteiras entre o ambiente e a organização, sendo que esta limitação parece depender das prioridades do momento, bem como da posição do indivíduo que realiza a análise.
Em nível de aplicação torna-se interessante, contudo, a consideração destas duas últimas distinções de ambiente, pois, de acordo com Bowdich et all (1992, p. 147), trabalhos teóricos recentes nesta área enfatizam a importância da interação entre atributos ambientais objetivos e as percepções do grupo dirigente, entre outras variáveis não diretamente relacionadas ao ambiente.
Expostas as questões relativas à conceituação
de ambiente, faz-se agora a discussão das principais contribuições,
em termos de pesquisas científicas, sobre a relação
entre o ambiente e os aspectos organizacionais. Burns e Stalker
(1961) pesquisaram indústrias inglesas e escocesas para verificar
a relação existente entre as práticas administrativas
e estruturas organizacionais adotadas e as diferentes condições
ambientais. A partir dos resultados do estudo classificaram as estruturas
organizacionais em dois tipos conforme figura 2.9.
Figura 2.9.
Características das estruturas organizacionais mecânicas
e orgânicas segundo Burns e Stalker.
Estes autores reconhecem que os esquemas mecanísticos e orgânicos representam dois tipos ideais de organização que podem ser definidos num continuum, de acordo com a flexibilidade que a estrutura apresenta. Assim, de um modo geral, nenhuma organização é inteiramente mecanística ou orgânica, mas tende a apresentar mais características de um tipo ou de outro. Salientam que não existe uma estrutura preferível, pois encaram a forma organizacional como estando estreitamente vinculada ao ambiente em que estão inseridas as organizações.
Emery e Trist
(1965) formularam uma tipologia que ilustra diferentes velocidades de mudança
ambiental, variando de ambientes relativamente estáveis a outros
em mudança constante. O modelo é baseado na suposição
de que, à medida que os ambientes se desenvolvem, suas partes vão
se tornando interdependentes, aumentando a complexidade. São identificados
quatro tipos de contexto ambiental: plácido aleatório, plácido
agregado, perturbado reativo e campo turbulento, cada qual proporcionando
um comportamento empresarial que poderá influenciar ou realimentar
o contexto ambiental circundante, em um processo contínuo.
Embora os autores não tenham apresentado sugestões sobre o tipo de estrutura mais adequado para cada ambiente Robbins (1990, p. 214; 1994, p. 535) considera que a sua classificação pode ser enquadrada àquela proposta por Burns e Stalker, com os dois primeiros tipos enquadrando-se em estruturas mecanicistas e os dois ambientes dinâmicos, em estruturas orgânicas.
Lawrence e Lorsch
(1973), preocupados com as características que devem apresentar
as empresas para enfrentar com eficiência as diferentes condições
externas, tecnológicas e de mercado, desenvolveram um estudo comparando
empresas americanas de setores industriais diferentes e que apresentavam
condições ambientais distintas. A variabilidade foi analisada
com relação à freqüência das mudanças,
à qualidade da informação sobre as mudanças
e à rapidez do retorno de informação. Encontraram
que a estrutura organizacional pode ser analisada de acordo com duas dimensões,
a diferenciação e a integração.
Ambas as dimensões são antagônicas e opostas, pois, quanto mais diferenciada uma empresa, mais difícil é a solução de pontos de vista diferentes e conflitantes dos diversos departamentos, tornando-se dificultada também obter a conjugação de esforços e unidade de ação. Ao defrontar-se com as forças ambientais, a empresa vai se segmentando em unidades departamentais, cada qual com o objetivo de responder especificamente a uma parte das condições do ambiente, é a diferenciação. Porém, os diversos subsistemas precisam de um esforço convergente e unificado para atingir os objetivos da empresa, surgindo, então, o processo de integração.
A contribuição de Lawrence e Lorsch (1973) é salientada
no sentido de mostrar que o ambiente não apresenta características
uniformes, pois existem ambientes particulares múltiplos, com variados
graus de incerteza, para cada subsistema da empresa. Assim, a estrutura
organizacional eficaz é aquela que vai sendo adequada às
demandas ambientais, no sentido da busca do equilíbrio entre diferenciação
e integração.
2.5.4.2.1. Avaliação da influência
do ambiente nos aspectos organizacionais
Destaca-se que a análise das dimensões ambientais relaciona, em cada uma delas, um pólo no qual é maior a condição de incerteza. Assim, de uma maneira geral, quanto mais escasso, dinâmico e complexo apresenta-se o ambiente, tanto mais flexível deve apresentar-se a estrutura. Aceitando o inverso, quanto mais abundante, estável e simples é o ambiente, tanto mais adequada apresenta-se uma estrutura mecanicista (menos flexível).
Robbins (1990, p. 230-3) e Mintzberg (1989, p. 270-85; 1995, p. 139-46) demonstram que o efeito do ambiente sobre a organização apresenta-se em função do grau de dependência, levando um ambiente dinâmico a possuir mais influência sobre a estrutura organizacional do que um ambiente estático. Entendem que, para responder a um alto grau de incerteza ambiental, as organizações tendem a tornar-se mais diferenciadas, portanto, mais complexas.
Com relação à formalização, normalmente a previsão é no sentido de que ambientes estáveis levam à alta formalização, no sentido de padronização das respostas. Alertam, contudo, para o pressuposto de que ambientes dinâmicos induzem à baixa formalização. A tendência de minimizar as incertezas pode levar à baixa formalização apenas nas atividades diretamente relacionadas com o ambiente, sendo utilizada a formalização nos outros subsistemas.
A centralização é analisada no sentido de que quanto mais complexo o ambiente, mais descentralizada apresenta-se a estrutura organizacional. No entanto, da mesma maneira que para a formalização, a descentralização pode ocorrer seletivamente, ou seja, algumas subunidades centralizadas e outras não. Há evidências de que ambientes de extrema hostilidade dirigem as empresas, ainda que temporariamente, para a centralização, como uma reação para a manutenção do controle.
Ao final, pode-se considerar as assertivas de Hall (1984, p. 51) sobre a questão da direcionalidade entre o ambiente e os aspectos organizacionais, no sentido em que nenhum dos dois fatores podem ser encarados como determinantes um do outro, em um vínculo causal unidirecional. Além disso, a natureza do ambiente é percebida pelos responsáveis pelas decisões organizacionais, gerando ações, através do processo decisório.
Ranson et all (1980, p. 9-13) sugerem que as características ambientais são restrições às organizações, afetando-lhes a escala de operações e o modo de produção. Referem-se a fatores que são importantes para a antropotecnologia, especificamente, à infra-estrutura sócio-econômica em que se inserem as organizações. A situação demográfica, incluindo fatores como as misturas raciais e étnicas presentes, restringe as organizações tanto quanto os valores institucionalizados que as cercam. Assim, os responsáveis pelas decisões organizacionais vêem-se confrontados com a atribuição de tornar a estrutura organizacional compatível com as demandas que lhe são impostas.
Neste sentido, o ambiente não é algo que esteja fixo para
além das fronteiras da empresa mas, ao contrário, é
interpretado por indivíduos cujas percepções, por
seu turno, são influenciadas por sua posição na estrutura
organizacional. Este fato, por sua vez, se reflete novamente na organização
e contribui para a constituição da estrutura. Este ponto
será melhor discutido no item seguinte.
2.5.4.2.2. Adaptação organizacional
- Perspectiva da escolha estratégica
Os processos de adaptação são geralmente extremamente
complexos por englobarem uma grande variedade de decisões e comportamentos
diluídos por todos os níveis da organização.
Apesar disso, pode-se penetrar nesse processo procurando identificar justamente
padrões e comportamentos organizacionais. Considera-se que a perspectiva
da escolha estratégica
é a que proporciona um entendimento mais abrangente do processo
de ajustamento ou adaptação da organização
ao ambiente em que a mesma está inserida.
Esta perspectiva considera que a estrutura da organização é apenas parcialmente pré-ordenada por condições ambientais. Na verdade, ela põe elevada ênfase no papel da alta gerência, que serve como elo preliminar entre a organização e seu meio-ambiente. Esse conceito implica que uma decisão é tomada dentre o conjunto de alternativas possíveis para atuar em relação ao ambiente, baseando-se no pressuposto de que o ambiente não coloca uma organização em situações nas quais nenhuma escolha seja possível. A diversidade de escolhas enfatiza a questão de que não existe apenas uma estrutura ou curso de ação ótimos, pois esta perspectiva acentua a importância dos arranjos internos de poder na determinação das escolhas efetuadas.
Neste sentido, essa visão enfatiza o papel da escolha e aprendizagem no processo de adaptação organizacional. Destaca que as organizações complexas não apenas têm habilidade para alterar contingências, definidas por restrições e oportunidades, colocadas por seu ambiente, mas que elas podem exercer considerável influência sobre os ambientes nos quais operam.
Child (1972, p. 13-9) considera que essa perspectiva assume cinco importantes características, as quais podem ser definidas como coalizão dominante, percepções, segmentação, procura de atividades e restrições dinâmicas.
Na coalizão dominante argumenta que cada organização possui um grupo de tomadores de decisão, cuja influência sobre o sistema é bastante grande. Esse grupo de executivos tem responsabilidades tanto em identificar, como em solucionar os problemas, apresentando autonomia para escolher, entre as várias alternativas, aquela percebida como a mais viável em um dado momento. Hall (1984, p. 169) reforça este conceito ao citar que a postura específica adotada por uma organização decorre das escolhas que são feitas dentro dela. Este é um processo político, no sentido de que as opções disponíveis são apoiadas por diferentes grupos e a opção selecionada é uma conseqüência do poder dos mesmos.
Com relação às percepções, o autor frisa que a coalizão dominante cria o ambiente relevante da organização, ou seja, a organização responde fortemente àquilo que sua administração percebe. Os atores organizacionais definem a realidade em termos de seus próprios antecedentes e valores, sendo que aquelas condições ambientais que são deliberadamente ignoradas têm pouco efeito sobre as decisões e ações da administração. Como diferentes atores podem perceber, um mesmo fenômeno de modo bastante diverso, diferentes organizações podem agir de modo distinto, mesmo perante as mesmas condições ambientais.
O conceito de segmentação refere-se à partição do meio-ambiente, de acordo com a percepção da coalizão dominante. Esse parcelamento corresponderá a várias subunidades organizacionais, para as quais os recursos são alocados de acordo com suas respectivas importâncias estratégicas.
Na procura de atividades argumenta que a coalizão dominante é responsável pela avaliação daqueles elementos do meio-ambiente considerados como mais críticos pela organização. A análise das informações oriundas desses elementos determinará o tipo de ação a ser adotado pela organização, a saber, pró-ativa ou reativa.
Com relação às restrições dinâmicas, o autor enfatiza que as decisões adaptativas da coalizão dominante são restringidas pelas estratégias, estrutura e desempenhos passados e atuais da organização. Ressalta que as restrições existentes podem ser diminuídas ou removidas por alterações de estratégia, mas qualquer nova direção escolhida terá seu próprio conjunto de restrições.
A perspectiva da escolha estratégica é considerada importante,
porque serve como complemento às contribuições da
teoria da contingência com relação às influências,
principalmente da tecnologia e do ambiente, no que diz respeito aos aspectos
organizacionais. Como salienta Castro (1982, p. 172-3) esta perspectiva
redimensiona a importância destes fatores, alertando para o risco
da consideração somente do determinismo tecnológico
ou ambiental.
2.5.4.2.3. Dimensões da Análise
Ambiental
Para Aacker (1984, p. 93), a análise do ambiente externo preocupa-se com a identificação de oportunidades, ameaças e questões estratégicas que afetarão os fatores chave de sucesso da organização ou terão influência estratégica. O foco é nas ameaças e eventos ambientais, com o potencial de afetarem estrategicamente, direta ou indiretamente a organização. A análise ambiental deve identificar tais ameaças e eventos, estimando a probabilidade de ocorrência e seu impacto no meio organizacional.
O autor adverte para o fato de que, na prática, identifica-se a necessidade de restringir a análise a algumas áreas com relevância suficiente, que demonstrem ter impacto nas estratégias organizacionais. Nesse sentido, sugere que a análise ambiental pode ser desenvolvida considerando-se cinco dimensões, a saber, tecnológica, governamental, econômica, demográfica e cultural.
É importante salientar que a divisão acima citada é bastante semelhante à explicitada por Hall (1984, p. 161-6), com a denominação de identificação das dimensões ambientais, examinando o ambiente em termos de conteúdo, tendo praticamente os mesmos elementos. A diferença reside no fato de que a divisão de Hall (1984) considera, ao invés da dimensão governamental definida por Aacker (1984), a subdivisão dessa em dimensão política e legal. Por considerar-se essa diferença bastante reduzida, utilizar-se-á para a explicitação das diversas dimensões as observações contidas em ambas as referências, devidamente identificadas, acrescidas de contribuições destacadas por Chiavenato (1982, p. 93-100).
Cabe destacar a observação de Hall (1984, p. 161), de
que uma tarefa ainda mais difícil do que identificar e classificar
as diversas dimensões, é determinar a extensão em
que elas realmente afetam as organizações num sistema social.
Chiavenato (1983, p. 563-4), considerando a tecnologia dentro da conceituação abrangente que está sendo utilizada neste estudo, coloca que a mesma pode ser considerada, ao mesmo tempo, sob dois ângulos diferentes, quais sejam, como uma variável ambiental e externa e como uma variável organizacional e interna. A tecnologia como variável ambiental refere-se à mesma como um componente do ambiente, na medida em que as empresas adquirem, incorporam e absorvem as tecnologias criadas e desenvolvidas por outras organizações.
Já a tecnologia como variável organizacional considera-a um componente organizacional, na medida em que faça parte do sistema interno da organização, incorporada a ele, passando, assim, a influenciá-lo poderosamente e, com isto, influenciando também o seu ambiente tarefa. A dimensão tecnológica é considerada, então, na medida em que eventos tecnológicos podem apresentar o potencial de ter um impacto estratégico significante para a organização.
Como já analisado, quando da exposição de pesquisas sobre a influência da tecnologia nos aspectos organizacionais da empresa, as evidências encaminham no sentido de que as organizações que operam num ambiente tecnológico incerto e dinâmico exibem estruturas e processos internos diferentes das que operam numa situação tecnológica mais certa e imutável.
Além deste aspecto, Hall (1984, p. 162) ressalta a necessidade de atualização tecnológica ao salientar que um desenvolvimento tecnológico, em qualquer esfera de atividade, acaba por chegar às organizações com ele relacionadas. Assim, uma organização precisa manter-se atualizada com tais desenvolvimentos, em qualquer atividade que seja crucial para seu sucesso contínuo. Considera que um mecanismo importante parece ser a introdução de novo pessoal ou clientes que tenham contato com tecnologias alternativas e defendam seu uso na organização em questão. Nesse contexto, as organizações não reagem à mudança tecnológica através da absorção. Ao contrário, o processo político organizacional opera através da defesa da mudança ou da estabilidade.
Com relação à transição tecnológica,
Aacker (1984) sugere que a chave para administrar a transição
de uma tecnologia para a outra, é detectar quando a tecnologia original
está em sua fase de declínio, de acordo com a abordagem do
ciclo de vida da tecnologia.
Essa dimensão está relacionada com o conjunto de regulamentos, leis, impostos, bem como com a situação política, em todas as esferas político-organizacionais do poder constituído. Estas variáveis são decorrentes das políticas e critérios de decisão adotados pelos governos, em diversos níveis, nacionais ou internacionais, sempre que estas decisões exercerem influência relevante sobre as atividades da empresa.
Todas as organizações precisam conviver com leis federais, estaduais e municipais, como constantes em seus ambientes, posto que controlam, incentivam, ou restringem determinados tipos de comportamento organizacional. Chiavenato (1982, p. 98) ressalta que as variáveis legais dependem tanto do contexto político, quanto do econômico e social, mas, independente do seu fundamento, a legislação vigente representa quase sempre uma influência restritiva e impositiva ao comportamento da empresa. Assim, as leis limitações externas importantes para as organizações.
Hall (1984, p. 163) salienta que as leis dificilmente são aprovadas
sem que haja pressão para a sua aprovação, e que a
situação política provocadora do surgimento de novas
leis, conseqüentemente tem seus efeitos sobre as organizações.
Nesse sentido, é importante que as organizações, tanto
do setor público como do privado, mantenham-se sintonizadas com
o clima político. As públicas, principalmente porque sua
hierarquia pode ser drasticamente alterada pelos processos eleitorais.
Já as privadas, normalmente, vêem a necessidade de destinar
recursos para os processos de lobby.
Aacker (1984, p. 97) considera que a avaliação de algumas estratégias poderia ser afetada por julgamentos acerca de fatores econômicos, particularmente, a inflação, desemprego e crescimento econômico. Admite como elementos importantes na análise, a estabilidade econômica dos países e da indústria em questão, bem como as taxas a que está sujeito o setor.
Chiavenato (1982, p. 97-8) exemplifica estes elementos ao categorizar as variáveis econômicas nacionais em permanente e temporárias. As variáveis econômicas permanentes são o nível geral de atividade econômica do país, o nível de desenvolvimento econômico da região onde está a empresa, o grau de industrialização do país e da região, a distribuição de riqueza e renda per capita. Já dentre as variáveis econômicas temporais são destacados: o nível de atividade econômica local, tendências inflacionárias ou deflacionárias, balança de pagamentos do país e disponibilidade de divisas estrangeiras, política fiscal em determinados setores da atividade econômica.
Hall (1984, p. 163) analisa que as condições econômicas mutáveis atuam como restrições importantes para qualquer organização. Constituem-se, assim, excelentes indicadores das prioridades organizacionais. De fato, é em situações de crise econômica, quando impõe-se o racionamento de recursos, que se revelam os aspectos percebidos como mais importantes para a organização. O autor alerta para o risco de tais decisões pois, uma organização não pode ter certeza de, exatamente, qual contribuição cada uma de suas partes faz para o todo. Os critérios utilizados para essas avaliações constituem-se em variáveis-chave da percepção do que é importante.
Em se tratando de organizações públicas, Hall (1984,
p. 164) cita, ainda, que o que é menos evidente, porém igualmente
real, é a competição econômica entre e dentro
das organizações fora da esfera comercial. Observa a ocorrência
de competição acirrada entre orgãos governamentais
de diversos níveis, durante a época de preparo dos orçamentos,
devido ao fato dos recursos serem finitos.
Segundo Aacker (1984, p 98), as tendências demográficas podem representar uma força poderosa e fundamental no mercado. As variáveis demográficas incluem idade, sexo, renda, educação, formação familiar e localização geográfica.
Para Hall (1984, p. 164), o número de pessoas atendidas, assim como sua distribuição etária e por sexo faz uma grande diferença para todas as organizações. Considera que, via de regra, uma organização é capaz de prever seu mercado provável para o futuro, a partir dos dados demográficos disponíveis, mas as mudanças populacionais são menos previsíveis e tornam a organização mais vulnerável. Disso decorre que, eventualmente, as próprias organizações acabam por sofrer transições, às vezes dolorosas, à medida em que começam a aperceber-se de que sua clientela tornou-se diferente e elas, conseqüentemente, precisam se modificar.
Chiavenato (1982, p. 99) alerta para uma distinção, especialmente importante para a antropotecnologia, entre as variáveis demográficas externas e internas à empresa. As variáveis demográficas externas constituem-se em todos aqueles fatores demográficos que podem influenciar a empresa em termos de mercado, como analisado acima. Já as variáveis demográficas internas são aquelas que penetram na empresa através das pessoas que nela trabalham, passam a influenciar o comportamento organizacional e a ser influenciadas em um mecanismo recíproco.
Outro elemento da dimensão demográfica é constituído pela variável ecológica. Hall (1984, p. 165) relaciona a situação ecológica geral que cerca a organização, englobando o número de organizações com quem ela mantém contatos e relações, bem como o ambiente social em que está localizada.
Passando da ecologia social para o ambiente físico, o autor argumenta que as relações entre as organizações e as condições ecológicas tornam-se mais evidentes, em vista da recente preocupação com o sistema ecológico total.
Salienta que um aspecto mais sutil é que o ambiente afeta as
organizações. Fatores, tais como, o clima e a geografia estabelecem
limites sobre a forma como distribuem seus recursos, os custos de transporte
e comunicação se elevam quando a organização
está distante dos seus fornecedores ou clientes. Embora os elementos
ligados às condições climáticas sejam considerados
constantes, posto que apenas em condições incomuns ocorrem
mudanças significativas, essas condições devem ser
consideradas, principalmente em análises entre organizações
de contextos geográficos distintos, como é o caso das transferências
de tecnologia entre países.
Aacker (1984, p. 97) considera que as tendências culturais podem representar tanto ameaças como oportunidades para as organizações. Aponta como variáveis culturais o estilo de vida, a moda e as opiniões, caracterizando o que se costuma denominar como perfil do consumidor.
Chiavenato (1982, p. 98-9) relaciona as principais variáveis sociais que repercutem nas atividades da empresa, como sendo:
Destaca que dentre estas variáveis que influenciam a empresa, interna e externamente, está o clima social geral em que a mesma deve funcionar. As tradições com relação ao trabalho industrial ou agrícola de uma determinada região, bem como as expectativas da comunidade com relação à organização podem agir como incentivadores ou limitadores de sua atuação. Assim, as atitudes culturais mudam, a opinião pública sofre alterações e sua influência sobre as atividades organizacionais é evidente, seja facilitando ou dificultando a aceitação de um produto ou serviço, criando uma imagem favorável ou desfavorável às atividades da empresa.
Hall (1984, p. 165) alerta para o fato de que essa dimensão não
apresenta usualmente indicadores puros, sendo assim de difícil mensuração.
Cita, porém, que essas variáveis são relativamente
dinâmicas, de modo que os valores e normas se alteram à medida
que ocorrem acontecimentos que afetam a população em questão.
Relaciona, também, a influência dessa dimensão indicando
que quanto mais rotineira e padronizada é a tecnologia, menor parece
ser o impacto dos fatores culturais.
Este capítulo buscou, a partir da leitura e análise da literatura selecionada, formar um arcabouço teórico coerente para trabalhar as questões enfocadas neste estudo. Assim, discorreu-se sobre tecnologia e inovação tecnológica, ergonomia, antropotecnologia e aspectos organizacionais da empresa e do trabalho. Algumas inter-relações entre estes itens foram sendo discutidas na medida do desenvolvimento e encadeamento das subseções deste capítulo. Já as contribuições mais específicas, para a formação da base teórica do estudo, são analisadas nesta seção.
A transferência de tecnologia, principalmente entre os países industrializados (PI) e os novos países industrializados (NPI), como já analisado, é atualmente considerado um processo essencial na busca do desenvolvimento econômico e social destes últimos. Apesar deste fato, são inúmeros os problemas constatados com relação ao funcionamento e, conseqüentemente, aos resultados alcançados pelos sistemas produtivos transferidos. Na maioria das vezes, esta transferência representa a evolução do nível tecnológico dos sistemas, e o impacto da introdução das inovações tecnológicas representa alterações razoáveis nas condições de trabalho dos operadores.
O papel dos operadores na condução de sistemas produtivos reveste-se de importância na medida em que, como afirma Cooley apud Leplat (1991, p. 80) "os resultados de tentativas mal controladas que visam a substituir os homens por máquinas conduziram a sérias dificuldades, com sistemas dependentes de máquinas que são vulneráveis a perturbações e que carecem, freqüentemente, de flexibilidade e de resistência. Torna-se necessário, então, examinar as possibilidades de tecnologias ditas antropocêntricas, que reúnam a habilidade e engenhosidade dos homens às formas avançadas e bem escolhidas da tecnologia, dentro de uma verdadeira simbiose entre o trabalho e a tecnologia".
Nesta mesma ótica Shahnavaz (1994, p. 669) acredita que o novo desafio para o crescimento da competitividade das empresas é a alteração da centralização na tecnologia para a centralização no homem, nas abordagens ditas antropocêntricas, onde as pessoas são vistas como o centro das iniciativas de aprimoramento da manufatura. Salienta que este é um ponto considerado essencial na busca da competitividade e flexibilidade requerida para a sobrevivência das empresas.
Neste sentido, preconiza-se a necessidade de abordar os problemas relacionados ao trabalho e à tecnologia centrando-os no homem, pois, como enfatiza Alsène (1991, p.29), a partir da consideração de vários estudos, "um número crescente de responsáveis por mudanças tecnológicas apresentam-se sensíveis à noção de que este processo tem melhores chances de êxito quando sua gestão incorpora preocupações humanas".
Neste ponto ressalta-se a importância da ergonomia, desenvolvida com o objetivo de adaptar o trabalho ao homem. Para Noulin (1993, p.3) a ergonomia, através dos conhecimentos que desenvolve sobre o homem em atividade de trabalho, e das ações que dirige, responde bastante bem não só às exigências de eficácia e confiabilidade, mas também às exigências de conforto, segurança e satisfação dos operadores que asseguram o funcionamento dos sistemas produtivos. A ergonomia e suas ferramentas apresentam-se, então, bastante pertinentes para analisar os denominados aspectos organizacionais do trabalho, relativos à relação entre os operadores e a atividade realizada.
Destaca-se, contudo que, para analisar os complexos processos de transferência de tecnologia, especialmente àqueles envolvendo inovação tecnológica, a ergonomia e a metodologia desenvolvida pelos ergonomistas de idioma francês, a análise ergonômica do trabalho (AET), demonstraram apresentar limitações. Estas são representadas, principalmente, pelo fato da AET ser uma abordagem centrada na situação de trabalho, revelando dificuldades na evolução da análise até a consideração de todos os fatores intervenientes no funcionamento do sistema produtivo.
Wisner e um grupo de pesquisadores do CNAN, em Paris, desenvolvem então a antropotecnologia, uma abordagem global que, na busca da adaptação da tecnologia à realidade do local de transferência, amplia a análise da ergonomia com a consideração da influência de fatores geográficos, econômicos, sociológicos e antropológicos. São colocadas, no entanto, como já discutido no referencial teórico, dificuldades na evolução da metodologia com relação tanto à coleta destes dados ambientais, como à análise da influência dos mesmos nos aspectos organizacionais do trabalho e da empresa, e, conseqüentemente no funcionamento do sistema produtivo transferido.
Assim, como exposto na figura 2.10, esta é a limitação
da metodologia antropotecnológica que este estudo se propõe
a desenvolver, a partir da consideração dos pontos da Teoria
Organizacional expostos na seção 2.5 deste capítulo.
Figura 2.10. Representação esquemática do embasamento teórico deste estudo.
Esta preocupação da antropotecnologia, com a adaptação de uma tecnologia a uma dada população, parece ser coerente com a própria evolução dos conhecimentos relativos à organização da empresa e do trabalho. Abandonando uma visão fechada e mecânica das organizações, onde enfatizava-se, de forma restrita, apenas os seus aspectos internos, a antropotecnologia procura abordar a transferência de tecnologia, destacando que este fenômeno envolve questões relativas a pessoas, tarefas, ambiente, estrutura e tecnologia, que precisam ser consideradas na busca de um funcionamento satisfatório.
Neste sentido, a abordagem contingencial reveste-se de especial importância para a antropotecnologia, na medida em que permite relativizar uma empresa em seu contexto, auxiliando na análise, tanto o país importador como o exportador de tecnologia.
Considera-se que as dimensões da organização aceitas por vários autores (Hall, 1984; Robbins, 1990, 1994) podem apresentar-se adequadas para analisar os aspectos organizacionais relativos à empresa em situações de transferência de tecnologia. Com relação à complexidade, de uma maneira geral, quanto mais complexa uma organização, maiores as dificuldades de comunicação, coordenação e controle. Em casos de transferência de tecnologia, como discutido anteriormente, as questões relacionadas principalmente à comunicação podem tornar-se especialmente críticas, podendo sua análise ser facilitada, a partir da consideração desta dimensão.
Outra questão refere-se ao grau de profissionalização dos operadores, pois, quando estes apresentam uma formação adequada à tarefa, podem trabalhar de maneira mais autônoma, com menos supervisão, resultando em uma estrutura menos complexa. Em casos de transferência de tecnologia, as carências em nível de formação colocadas pelos tecidos industrial e cultural podem levar à adoção de estruturas mais complexas, através do aumento de níveis hierárquicos e da subdivisão extrema das tarefas, bem como o aumento da centralização e da formalização, devido à necessidade de maior supervisão e controle.
É na dimensão da formalização, embora revestida de uma aparente precisão e garantia de controle, que a questão da relação entre ergonomia, antropotecnologia e problemas em transferência de tecnologia torna-se bastante aparente. A ergonomia tem como base a análise da atividade, enfatizada na diferença entre o trabalho prescrito e o trabalho real. Neste sentido, como já analisado, em casos de transferência de tecnologia é a organização formal, descrita em manuais de procedimentos que é transferida, sendo a organização real, aquela que realmente permite o funcionamento do sistema, mantida no desconhecimento.
Wisner (1994, p.157) cita duas suposições para esta questão. A primeira envolve o valor jurídico da organização formal, que permite atribuir os problemas apresentados à falta de cumprimento dos procedimentos prescritos e responsabilizar a empresa compradora e seus operadores pelo mau funcionamento do sistema transferido. Já a segunda, evidenciada pela ergonomia, refere-se ao fato de que, para um mesmo sistema produtivo, não existe uma organização real mas várias, que variam de um estabelecimento para outro e, às vezes, de um turno para outro, no mesmo estabelecimento, de acordo com suas condições de funcionamento e as competências dos operadores.
A questão da centralização é evidenciada em alguns estudos de cunho antropotecnológico revelando que, em casos como os descritos por como Langa (1994) e Meckassoua (1986), a carência de qualificação de alguns membros do grupo leva à centralização. Observa-se que um só operador absorve atividades que não eram originalmente de sua competência, tonando-se essencial ao funcionamento do sistema. Wisner (1994, p. 158) alerta então para a necessidade de particular atenção ao valor individual das pessoas, quando da análise de aspectos de centralização.
As pesquisas enfocadas que relacionam o ambiente e a tecnologia das empresas com os seus aspectos organizacionais revestem-se de grande importância teórica ao demonstrar a inexistência de um único melhor caminho para a organização de uma estrutura produtiva, premissa básica da teoria da contingência.
Na análise apresentada por Perrow (1976), um ponto pode ser considerado essencial para a antropotecnologia em processos de transferência de tecnologia entre países. A evolução da classificação e enfoque dos sistemas produtivos para além das máquinas envolvidas no seu funcionamento, coloca a possibilidade de considerar o sistema transferido em outra categoria, de acordo com as suas condições de funcionamento.
Por exemplo, casos em que no país importador o sistema seja classificado como rotina, acomodando-se em alta formalização e centralização, ao serem transferidos podem apresentar-se funcionando de modo degradado, como analisado nos itens 2.2 e 2.4. Assim, um sistema produtivo comportando muita variabilidade na tarefa e poucas possibilidades de análise desta variabilidade caracterizam uma situação que evoca a necessidade de experiência e intuição, mais próximo da não rotina de Perrow (1976), necessitando de descentralização e baixa formalização para o funcionamento efetivo.
Relacionando as alterações ambientais, no sentido das transferências de tecnologia, considera-se que o ambiente em que atuam as empresas nos NPI apresenta-se, normalmente, mais instável e menos previsível do que o encontrado nos PDI, principalmente pela dificuldade dos primeiros em participar e dispor de informações das decisões políticas e econômicas em nível mundial. Apesar disto, nem sempre os aspectos organizacionais encontrados em organizações destes países são condizentes com estas características ambientais, salientando, então, a importância da influência do grupo dirigente na definição destes aspectos. Destaca-se, porém, que a percepção depende da perspectiva que é utilizada para esta avaliação.
A perspectiva da escolha estratégica, ao enfatizar o papel do grupo diretivo em servir como mediador entre a empresa e o ambiente, admite a existência de uma via de mão dupla entre ambos, coerente com a visão da empresa enquanto um sistema aberto. Neste sentido, insere-se a pertinência da utilização da perspectiva da escolha estratégica para analisar uma empresa, por proporcionar uma percepção mais ampla da realidade que a cerca.
A utilização do conceito de coalizão dominante (Child, 1972) pode demonstrar a importância da percepção dos indivíduos que dirigem a organização nas escolhas organizacionais, quer se trate de escolher a tecnologia, de determinar o modo de resposta ao ambiente, ou modificar ativamente este ambiente.
Partindo do pressuposto de que o meio-ambiente corresponde a uma configuração de fatores e elementos dinâmicos, e que esses fatores e elementos constituem, muitas vezes, algo meramente abstrato, é perfeitamente possível que essa configuração como um todo, ou parte dela, seja percebida, verificada e analisada de forma diferente pelos elementos da coalizão dominante.
Assim, a partir desta avaliação sobre meio-ambiente, coloca-se como complementar a perspectiva da escolha estratégica a definição de ambiente apresentada por Daft apud Bowdich et all (1992, p. 143), que engloba, entre outros, o aspecto de potencialidade que os fatores ambientais apresentam de afetarem a organização. Entende-se que o trabalho na perspectiva da escolha estratégica encaminha nessa direção, uma vez que esses fatores potenciais somente serão importantes se essa for a percepção da coalizão dominante.
Este estudo encaminha-se no sentido do explicitado por Bowdich et all (1992, p. 147) que enfatizam a importância de analisar o ambiente organizacional considerando a interação dos atributos ambientais objetivos, a partir do denominado ambiente real, com as percepções do grupo dirigente, o ambiente específico.
Destaca-se que em estudos antropotecnológicos já citados, tais como o de Langa (1994) e Abrahão (1985) é colocado claramente o papel dos dirigentes de empresas em NPIs na definição dos aspectos organizacionais dos sistemas produtivos transferidos. Estes autores analisam que, muitas vezes, o ambiente coloca situações bastante específicas, não observadas no país de origem, exigindo soluções originais para viabilizar o funcionamento da tecnologia transferida.
As dimensões do ambiente expostas por Aacker (1984) e Hall (1984) revestem-se de interesse, na medida em que podem facilitar a visualização e identificação dos diversos elementos que podem ser considerados no meio-ambiente analisado, possibilitando uma visão mais analítica do mesmo, quando da aplicação da metodologia antropotecnológica. Neste sentido, estas dimensões podem ser agrupadas para compor os diversos tecidos através dos quais a abordagem antropotecnológica procura sistematizar a análise ambiental.
Conclui-se, então, que este estudo, buscando um referencial coerente para embasar o alcance dos seus objetivos, é desenvolvido baseado na abordagem antropotecnológica, enriquecida pelas contribuições da Teoria Organizacional discutidas especificamente nesta seção.
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