4 RESULTADOS E DISCUSSÕES

4.1 INDICADORES DOS CUSTOS DA MÁ QUALIDADE

A avaliação dos custos da má qualidade através da metodologia utilizada permite a obtenção de resultados bem próximos da realidade, pois utiliza um mínimo de aproximações para a avaliação dos custos, fator importante para a credibilidade do sistema. Da mesma forma, as bases de referência utilizadas correspondem ao funcionamento da linha dito normal, sem a influência de interferências ocasionais.

Para efetuar a análise do custo da má qualidade, o conjunto de custos da má qualidade suportado pela empresa foi considerado na forma de índices. Estes resultados estão representados no quadro 4.

QUADRO 4 - CUSTO DA MÁ QUALIDADE EM PROPORÇÕES

Proporções/ Mês - 1995  JAN FEV  MAR ABR  MAI JUN  Média 
Custo má qualidade / VN (%)  68 56  51 71  46 55  58
Custo má qualidade / VA (%)  201 170  191 149  130 131  162
Custo má qualidade / EF(FF/hom.)  75 550 59 422  58 575 78 381  58 419 72 328  67 112
Onde :

VN = volume de negócios
VA = valor agregado
EF(FF/hom.) = efetivo (franco-francês por homem ; 1 FF 5 reais)

As observações efetuadas sobre um período de seis meses de produção, mostram que, em média, 58% % do volume de negócios é absorvido pelo custo da má qualidade. Estas cifras estão acima da média encontrada na maior parte das empresas americanas cujos CMQ situam-se em torno de 30 % do volume de negócios. Na realidade, os especialistas recomendam que os custos da má qualidade devem situar-se entre 2% e 6 % do volume de negócios da empresa (HARRINGTON, 1990).

É preciso considerar que a indústria madeireira apresenta uma evolução, em termos tecnológicos e de gestão, muito mais lenta que outros tipos de indústrias como o ramo da informática, da eletrônica e da mecânica. Resultados com valores altos de CMQ eram esperados neste caso, pois a empresa não tem um sistema de gerenciamento da qualidade e a produção é centrada no volume e não na qualidade. Além disto, mesmo empresas de grande porte, proveniente de um setor que apresenta uma estrutura relativamente organizada, como a IBM, no início de seu programa de melhoria da qualidade viram seus CMQ atingir 40 % do volume de negócios (HARRINGTON, 1990).

Uma melhor visualização da proporção custo da má qualidade/volume de negócios é apresentada a seguir, através da figura 17 que mostra a variação da proporção da má qualidade em relação ao volume de negócios.
 

FIGURA 17 - CUSTO DA MÁ QUALIDADE EM RELAÇÃO AO VOLUME DE NEGÓCIOS
Os valores extremamente elevados encontrados dos CMQ/volume de negócios (VN), principalmente no mês de abril onde atingem cifras da ordem de 70 %, representam perdas importantes para a empresa. Nota-se que os picos dos custos resultantes coincidem com os picos de produção, o que leva a crer que quando a produção é feita sob pressão, são geradas mais anomalias em virtude de um relaxamento nas inspeções em prol de um volume maior de produção. Este desprezo pela qualidade tem um forte efeito nos níveis dos custos da má qualidade.
 

4.2 CUSTOS DIRETOS

Os custos diretos da má qualidade, obtidos através de dados do livro contábil, de relatórios de produção e do serviço de vendas, estão apresentados, resumidamente, no quadro 5. Os Anexos 2A, 2B, 3A e 3C fornecem maiores detalhes na determinação destes custos.

QUADRO 5 - QUADRO RESUMO DOS CUSTOS DA MÁ QUALIDADE

NÃO CONFORMIDADE  JAN  

FF 

FEV  

FF 

MAR  

FF 

ABR  

FF 

MAI  

FF 

JUN  

FF 

TOTAL  

FF 

%
1. CUSTOS RESULTANTES  4 956 441  3 870 617  3 754 500  5 149 194  3 654 502  4 676 033  26 061 287  80,9 
1.1. Anomalias internas  4 935 659  3 870 617  3 752 510  5 147 871  3 654 502  4 676 033  26 037 192  80,8
1.2. Anomalias externas  20 782 0 1 990  1 323 0 0  24 095 0,1
2. CUSTOS CONTROLÁVEIS  1 087 539  883 143  931 494  1 121 307  1 018 989  1 110 171  6 152 643  19,1 
2.1. Detecção  1 087 539  883 143 931 494 1 121 307  1 018 989  1 110 171  6 152 643  19,1
2.2. Prevenção  0 0  0 0  0 0  0 0 
TOTAL GERAL  6 043 980  4 753 760  4 685 994  6 270 501  4 673 491  5 786 204  32 213 930  100 
Onde :

FF = franco-francês
1FF 5 reais

O desequilíbrio entre os custos resultantes e os custos controláveis apresentados no quadro 5 pode ser observado na figura 18, a qual demonstra estes citados custos, o volume de negócios, o valor agregado e o custo total da má qualidade.

FIGURA 18 - RELAÇÃO ENTRE OS CUSTOS DIRETOS E OS INDICADORES DOS CMQ
O gráfico da figura 18 mostra que os custos da má qualidade podem atingir em torno de 50% do volume de negócios (meses de janeiro, abril e junho) e que eles ultrapassam, em todos os meses, o valor agregado ao produto. Este fator é decorrente do grande número de não-conformidades detectadas nestes meses, conforme demonstram os valores apresentados pelos custos resultantes. Este resultado é interessante, pois significa que as anomalias internas estão absorvendo a valorização efetuada no produto.

Por outro lado, proporcionalmente, os custos controláveis representam uma porção muito pequena com relação ao volume de negócios da empresa.

A diferença entre os custos resultantes e controláveis podem ser melhor visualizadas na figura 19 que demonstra a evolução mensal destes custos.

FIGURA 19 - INTERAÇÃO ENTRE OS CUSTOS RESULTANTES E CONTROLÁVEIS
MFF = FF * 106.

O gráfico obtido demonstra que o processo não tem evoluído em direção a uma melhoria da qualidade. Observa-se uma tendência de variação no mesmo sentido nos dois custos discutidos, o que demonstra que está sendo realizada apenas a detecção das anomalias e que nenhuma medida corretiva eficaz está sendo aplicada com relação a esta constatação da existência de não-conformidades.

As tendências apresentadas na figura 19 não permitem obter curvas que delimitem as três zonas características na curva de custos da má qualidade, conforme proposto por VANDEVILLE (1985). A definição destas três zonas permite saber até que ponto é economicamente viável realizar o controle, determinando-se o chamado ponto de eficácia apresentado pela literatura (JURAN, 1980, HARRINGTON, 1990, ROBLES JUNIOR, 1994). Além disto, o gráfico é um indicador de melhoria do processo na medida em que mostra uma curva ascendente para os custos controláveis e descendente para os custos resultantes. Segundo estes autores a descoberta deste ponto é necessária para a minimização dos custos e maximização dos investimentos.

De acordo com SHANK e GOVINDARANJAN (1995), os especialistas em qualidade DEMING e CROSBY são contra a determinação contínua deste ponto de eficácia como uma ferramenta de controle de gestão, porém estão de acordo com a sua determinação para o planejamento de um sistema de gerenciamento de qualidade. OAKLAND (1995) também é contra, pois afirma que um processo deve procurar sempre a melhoria contínua, portanto não existe um limite para a aplicação de medidas de prevenção. Pelos resultados obtidos, acredita-se que a determinação dos custos da má qualidade e de seu ponto de eficácia são necessários até que o sistema de qualidade esteja implantado e sedimentado, pois em um processo produtivo onde existem muitas variáveis em questão, as ações de melhorias podem provocar efeitos inesperados e, mesmo, anti-econômicos. Além disto não se deve esquecer que para produzir com qualidade deve-se satisfazer o cliente, os recursos envolvidos no processo e, também, a empresa que produz. Aliás, a determinação dos custos da má qualidade faz parte da escalada em direção à Qualidade Total.

Os custos resultantes e os custos controláveis da má qualidade estão discriminados na figura 20, em termos qualitativos e quantitativos no que diz respeito às causas do efeito Custo da Má Qualidade.

A decomposição dos elementos que exerceram maior efeito sobre os Custos da Má Qualidade pode ser observada na figura 20. A discussão desta decomposição está apresentada nas páginas a seguir.

FIGURA 20 - DIAGRAMA CAUSA-EFEITO DO CUSTO DA MÁ QUALIDADE
 

4.2.1 Custos Resultantes

No quadro 5 pode-se constatar que os custos resultantes representam cerca de 81 % do total das falhas detectadas. Estes valores extremamente elevados são devidos às falhas internas, principalmente, à desclassificação, aos estoques intermediários e aos rejeitos/perdas sobre o formato, como pode ser observado na figura22. Dados semelhantes foram encontrados em DRUMOND e QUINTÃO (1993) que relatam que na Siderúrgica Acesita 68,7% dos custos da qualidade são devidos à falhas internas e somente 1,9% devidos às falhas externas. Este resultado é esperado em indústrias que não apresentam um sistema de melhoria da qualidade.

As causas destas anomalias serão discutidas separadamente, em virtude dos variados fatores que influenciam estas atividades. Para o caso estudado esta característica de custos resultantes elevados e custos controláveis baixos, está de acordo com a literatura, pois empresas que não possuem um sistema de gerenciamento da qualidade, normalmente são caracterizadas por elevados custos de falhas internas. De fato, na empresa as anomalias internas são apenas detectadas, seja na linha de produção ou na expedição, e isto caracteriza que existe apenas a aplicação de medidas corretivas sem uma procura e análise que possam levar à prevenção de não-conformidades.
 

FIGURA 22 - CUSTOS DAS ANOMALIAS INTERNAS

 FF = FF*103
 

4.2.1.1 Custos devido a desclassificação

Todos os produtos que foram retrabalhados e/ou desclassificados, ou, ainda, rejeitados, sofreram uma desclassificação no setor triagem. Esta desclassificação é muito importante, pois se for evitada poderá evitar uma série de atividades onerosas como retrabalhos, retriagem, entre outras. Considerou-se nos cálculos, que tudo o que não for de primeira qualidade, no setor triagem, é tratado como CMQ. Através desta escolha, obteu-se que 33% dos CMQ são devido as desclassificações. Esta forma de cálculo foi considerada na discussão, apresentada a seguir, e evidenciam o quanto a empresa perde por não produzir corretamente desde a primeira vez.

Na empresa estudada, existem dois pontos principais de desclassificação dos produtos: no setor de triagem e no setor de expedição.

A partir da primeira triagem, onde são separados os painéis bons dos ruins, os custos começam uma escalada que pode atingir cifras significativas, dependendo do número de operações de retrabalhos ou retriagem, aos quais os painéis são submetidos.

a) Desclassificação no setor triagem:

O setor de triagem apresenta-se como o mais importante, em termos percentuais de Custos da Má Qualidade: 31,8% dos CMQ contra 1,0 % do setor de expedição. É importante ressaltar que no setor de expedição a detecção destas não conformidades é realizada através da inspeção por amostragem e no setor de triagem a inspeção é realizada em 100 % dos painéis.

De acordo com a Estatística, o aumento do tamanho da amostra poderá resultar na detecção de um número maior de não conformidades, visto que mais peças são inspecionadas.

A figura 23 mostra a classificação, em porcentual, do setor triagem no período de janeiro a dezembro de 1995.

FIGURA 23 - CLASSIFICAÇÃO EM PORCENTUAL DO SETOR TRIAGEM

As principais não conformidades encontradas no setor triagem são apresentadas, em percentual sobre o total produzido, no gráfico demonstrado na figura 24.

Estas não conformidades apresentadas no referido gráfico são perfeitamente controláveis, porém, como já foi discutido anteriormente, a empresa utiliza e despreza a prevenção de anomalias. Esta forma de gerenciamento conduz à produção de painéis defeituosos e paradas contínuas do processo produtivo para a aplicação destas medidas corretivas.

FIGURA 24 - NÃO CONFORMIDADES DO SETOR TRIAGEM

As causas das não conformidades que desclassificam os painéis são listadas no quadro 6, bem como as ações corretivas que são atualmente utilizadas pela empresa. A principal causa de desclassificação dos painéis encontrada no quadro 6 são as manchas, e sua ocorrência é devida a condensação provocada pelos vapores que são exalados da prensa e que, devido à falta de um bom sistema de exaustão, se condensam e caem sobre os painéis provocando as manchas que irão desclassificar o produto.

A segunda causa mais importante é a poeira acumulada na prensa que cai sobre o colchão de fibras antes da prensagem, formando áreas de texturas diferentes na superfície do painel. Neste caso, o problema é originário na falta de limpezas frequentes na prensa.

Raciocinando em termos de ganhos potenciais no setor triagem, pode-se concluir que se as manchas forem controladas tem-se uma economia de aproximadamente 42 % do total das anomalias constatadas na desclassificação :

seja (10.240.416* x 0,42)/6 meses = 716.829 FF/mês.

onde : 10.240.416 FF obtido do Anexo 2B, item 1.3, a.

Este valor pode servir de base para a análise de um investimento em um melhor sistema de exaustão e aeração dentro da fábrica. É preciso considerar, também, que um ambiente de trabalho menos sufocante conduzirá os trabalhadores a um melhor desempenho, aumentando ainda mais o retorno do investimento.

A seguir, são apresentadas as causas e as medidas corretivas utilizadas pela empresa no caso da ocorrência de não conformidades.

QUADRO 6 - CAUSAS E MEDIDAS CORRETIVAS PARA AS NÃO CONFORMIDA-DES CONSTATADAS NA PRENSA

NÃO CONFORMIDADES
CAUSAS
AÇÕES CORRETIVAS
UTILIZADAS
Manchas Condensação provocada pelos vapores da prensa  

Sujeiras que caem das prateleiras da prensa. 

Esquentar o ar sobre a prensa. 

Limpeza das telas da prensa. 

Quebrados Desregulagem do transporte do painel.  Regulagem dos roletes da esteira transportadora.  

Regulagem da posição do painel. 

Cascas Qualidade da pasta.  Utilização de matéria-prima homogênea. 
Poeiras Poeiras e detritos entre a tela e o prato da prensa.  Limpeza dos componentes da prensa.
Molhados Fogo na câmara de tratamento, o que dispara o sistema anti-fogo.  Controle da temperatura da câmara de tratamento térmico. 
Inchados Tratamento térmico insuficiente.  Prolongar o tempo de prensagem.
Garfos Desregulagem do transporte do painel.  Regulagem dos roletes transportadores.

Os resultados deste quadro, obtido na ocasião da coleta de dados na fábrica, demonstra que os operários poderiam tomar medidas preventivas sobre as causas das não-conformidades, pois eles tem conhecimento dos problemas do processo e de suas causas. Porém, como a produção tem metas de volume a atingir, estes operários não encontram tempo para aplicar medidas corretivas que possam melhorar a qualidade. Uma produção menor com um número reduzido de defeitos pode ser mais produtiva, desde que os funcionários tenham liberdade e tempo para aplicar a sua experiência.

b) Desclassificação no setor expedição:

Visando quantificar com maior precisão a importância dos CMQ no processo produtivo, realizou-se o cálculo do custo da desclassificação por tonelada nos setores triagem e expedição, cujos resultados são apresentados no quadro 7 . Desta maneira pode-se demonstrar que os custos de desclassificação de painéis não conformes no setor expedição (2,65 FF/t) são mais elevados que no setor triagem (0,37 FF/t). Na realidade, é a quantidade de painéis desclassificados, muito maior no setor triagem, que faz a grande diferença, contra o setor expedição, em termos percentuais do CMQ.

Portanto, mesmo que em termos percentuais em relação ao custo total da má qualidade o setor de triagem represente 32 % contra 1% do setor expedição, o custo unitário deste último é mais significativo.

QUADRO 7 - CUSTO DA DESCLASSIFICAÇÃO/t NOS SETORES TRIAGEM E EXPEDIÇÃO

Designação
Custo da não conformidade
Volume controlado
Custo da desclassificação
Unidade kFF %  t FF/t 
Triagem 10 240 32  27 639 0,37
Expedição  336 1  127 2,65
Onde :

kFF = franco-francês *1000

FF/t = franco-francês/tonelada

t= tonelada

O setor expedição não deveria apresentar produtos não conformes, uma vez que existe um sistema de detecção de defeitos na linha de produção. Portanto, é natural que o custo por tonelada da desclassificação no setor expedição seja maior que no setor triagem, pois a empresa dispensou recursos para a detecção em linha, realização de retrabalhos e, ainda, acumulou as despesas da detecção na expedição. Esta falha no sistema é muito difícil de ser corretamente quantificada em virtude da inexistência de rastreabilidade no processo, mas suas conseqüências podem ser desastrosas para a empresa.

Os principais defeitos encontrados na expedição estão relacionados no Quadro 8 :

QUADRO 8 - NÃO CONFORMIDADES - EXPEDIÇÃO

NÃO  Custos 
CONFORMIDADE  FF 
Muito espesso  87025
Entelhamento  74283
Pouco espesso  62025
Espessura forte nos bordos  52025
Encanoados  25545
Desvio na altura  25486
Larguras 17188
Cavidades  5434
Massa específica  4030
Substituídos  2866
Sem cobertura  2703
Quebrado 2676
Palete defeituoso  1922
Giro das pilhas  1710
Sem palete  969
Medidas 809
Fita de empacotamento  612
Ensaio cobertura  204
Cobertura molhada  153
A refazer  102
Comprimentos irregul.  102
Tirar a pintura  60
Mau aspecto  51
Manchas pneus/graxas  0
Painéis excedentes  0
Painéis faltantes  0
Pilha inclinada  0
Etiqueta 0
Pilhas desalinhadas  0
 

Pode-se observar entre os resultados encontrados no quadro 8, o qual apresenta as não conformidades em franco-francês, e a figura 25, a qual considera os custos resultantes destas não conformidades, que nem sempre o defeito mais freqüente é o causador do maior prejuízo. Estes dados de não conformidades devem ser analisados com cuidado para não incorrer no erro de atacar causas que são menos importantes no resultado final contábil, apesar de serem mais freqüentes.

FIGURA 25 - CUSTO DAS NÃO CONFORMIDADES NO SETOR EXPEDIÇÃO
 

Entre as não conformidades encontradas na expedição, destacam-se :

Vale remarcar que na figura 21 estas não-conformidades foram agrupadas sob o nome de substituir.

Nas inspeções realizadas na expedição encontrou-se um forte problema de variação na espessura dos painéis. Este problema é devido à irregularidades na formação do painel e pode ter três causas principais :

A primeira causa é mais fácil e mais rápida de ser controlada: o balanceamento da entrada de mais ou menos pasta pode ser controlado pelo operador da máquina. Este controle é realizado de maneira eficaz, pois a empresa utiliza sistemas informatizados para o controle do balanceamento e distribuição da pasta no colchão que irá formar o painel após a prensagem. Porém, como a madeira é um material heterogêneo, existem variações intrínsecas do processo, ou seja, variações aleatórias.

As duas últimas causas são relacionadas a concepção da máquina e necessitaria de tempo e investimentos para uma regularização. Estas causas são provocadas pelo sistema e só poderiam ser eliminadas com a troca do equipamento ou através da compra de peças que permitam a regulagem da pressão da prensa e da distribuição da pasta de maneira mais eficaz.

Para uma melhor compreensão deste problema, foi realizado um mapeamento da variações dos parâmetros dos painéis na saída da prensa (chamado de cartografia da prensa), em um total de trinta painéis, onde foram avaliadas a dispersão da massa específica e a dispersão da espessura do painel. As especificações do painel são apresentadas no quadro 9:

QUADRO 9 - ESPECIFICAÇÕES DO PAINEL

Parâmetro 
Média
Tolerância
mensurado
esperada
Máxima Mínima 
Massa específica (kg/m3) 1060 1120 1000 
Espessura (mm) 3,2 3,4  3,0

Os resultados obtidos são apresentados no quadro 10 :

QUADRO 10 - RESULTADOS DA CARTOGRAFIA DA PRENSA

Parâmetro mensurado Média  Máximo Mínimo  Desvio-padrão
Massa específica (kg/m3) 1054 1135 940 24
Espessura (mm) 3,14 3,53  2,90 0,08

Para estudar o comportamento do processo de prensagem foram calculadas as cartas de controle considerando-se como parâmetros a massa específica e a espessura do painel na saída da prensa.

b.1) Cálculo dos limites das cartas de controles

Os cálculos a seguir referem-se a 30 amostras de tamanho 20.

- Massa específica
Dados:
x = 1054 kg/m3
R = 127

- Média
LCS = 1054 + 127 x 0,180
LCS = 1077 kg/m3
LCI = 1054 - 127 x 0,180
LCI = 1031 kg/m3

- Amplitude
LCS = 127 x 1,585
LCS = 201
LCI = 127 x 0
LCI = 0

A carta de controle para as médias da massa específica apresentada na figura 26 mostra que o processo está sob controle estatístico em virtude das seguintes considerações :

- não existem pontos fora dos limites de controle;

- os dados distribuem-se acima e abaixo da linha das médias. Apesar desta distribuição não estar homogênea, ainda não existe a formação de tendências que caracterizam a falta do controle.

FIGURA 26 - CARTA DE CONTROLE PARA AS MÉDIAS - MASSA ESPECÍFICA

A literatura cita que sete ou mais pontos acima ou abaixo da média caracterizam uma tendência do processo a sair de controle. No caso, existem seqüências de até seis pontos acima, abaixo e, mesmo, muito próximos da média. Portanto, considera-se o processo sob controle. Os pontos que encontram-se muito próximos da média podem levar à uma conclusão precipitada, e até errônea de que os mesmos indicam uma redução da variabilidade da máquina, pois estes pontos muito próximos da média podem ser devidos à formação de tendências, ou ainda, devidos a erros na medição da amostra. Mesmo que exista a redução da variabilidade da máquina, deve-se analisar a possibilidade de modificação de especificações de acordo com o processo. Porém, é necessário muita cautela e, ainda a tomada de novas amostras, antes de qualquer tipo de decisão.

Estudando a variação dentro de cada amostra poderemos encontrar os pontos extremos muito distantes, e este fator é devido à má distribuição da pasta ao longo do painel. Como já foi comentado anteriormente, o equipamento antiquado não permite resolver definitivamente este problema mesmo com regulagens constantes.

FIGURA 27 - CARTA DE CONTROLE PARA A AMPLITUDE - MASSA ESPECÍFICA

Da mesma forma que para a carta de controle das médias, a carta de controle para as amplitudes, figura 27, encontra-se sob controle estatístico.

Espessura
x = 3,14 mm
R = 0,38

Média
LCS = 3,14 + 0,38 x 0,180
LCS = 3,21 mm
LCI = 3,14 - 0,38 x 0,180
LCI = 3,07 mm

Amplitude
LCS = 0,38 x 1,585
LCS = 0,602
LCI = 0,38 x 0
LCI = 0

Os resultados obtidos acima estão representados na carta de controle apresentada na figura 28.

Essa carta de controle para as médias da espessura, confirma a variação encontrada na carta traçada para a massa específica, ou seja, o processo está sob controle estatístico.

FIGURA 28 - CARTA DE CONTROLE PARA AS MÉDIAS - ESPESSURA
 
A tendência do gráfico, mostrado na figura 28, que apresenta-se no sentido inverso da carta da massa específica, era perfeitamente esperada, pois, como já foi discutido anteriormente, uma menor espessura resulta em maior massa específica, para uma mesma quantidade de pasta. Ou seja, a matéria foi mais compactada na prensa gerando um painel de espessura mais fina, porém mais denso .

A figura 29, apresentada a seguir, mostra o gráfico das amplitudes para a espessura, o qual também encontra-se sob controle estatístico.

FIGURA 29 - CARTA DE CONTROLE DE AMPLITUDES - ESPESSURA 

Optou-se pelo cálculo da capacidade da máquina e da verificação da possibilidade de fabricar-se painéis fora das especificações, através do cálculo de probabilidades devido a dois fatores básicos :

Estes cálculos foram utilizados visando obter melhores dados para a discussão das causas dos custos da má qualidade.

b.2) Cálculo da capacidade da máquina

A capacidade da máquina foi avaliada através de dois índices: seu potencial e seu desempenho, que são apresentados a seguir:

b.2.1) Para a massa específica

Cm mv = 0,83  1,67

O resultado obtido Cmmv  1,67, mostra que a máquina não é capaz de produzir painéis dentro das especificações de massa específica.

Cmk = 0,75  1,67

O desempenho da máquina de valor 0,75 leva à conclusão de que a máquina necessita de regulagem para a centralização da curva. A descentralização da curva pode ser observada na figura 30.

FIGURA 30 - CAPACIDADE DA MÁQUINA - MASSA ESPECÍFICA 

b.2.2) Para a espessura

Cm e = 0,83  1,67

O potencial da máquina menor que 1,67 evidencia que a mesma não é capaz de produzir de acordo com as especificações. Este valor explica porque a espessura apresentou-se como a maior fonte de CMQ na desclassificação do setor expedição.

Cmk = 0,58  1,33
 

Continuação do Capítulo 4