CAPÍTULO 6 - A ESTRUTURA DAS INDÚSTRIAS BRASILEIRAS DE CARNE SUÍNA E AVÍCOLA

Neste capítulo foi caracterizada a estrutura das indústrias de carnes suína e avícola, com base no modelo das cinco forças competitivas de PORTER (1986). Procurou-se mostrar a evolução da estrutura das indústrias nas últimas três décadas, apesar da falta de informações para algumas variáveis na década de 70.

6.1. A COMPETIÇÃO ENTRE AS EMPRESAS DA INDÚSTRIA

A rivalidade entre as empresas de uma indústria pode se dar mediante a concorrência de preços, batalhas de publicidade, introdução de novos produtos e aumento dos serviços ou garantia ao cliente. A rivalidade provém do desejo de firmas de preservarem ou melhorarem a sua posição, o que tende a provocar a reação dos concorrentes. Verificamos o nível da rivalidade entre as firmas da indústria suinícola e avícola de carnes, através do comportamento dos seguintes fatores:

Número e Tamanho dos Concorrentes

Uma importante variável que pode ser utilizada para se verificar a estrutura da indústrias suinícola e avícola brasileiras é o abate realizado sob inspeção federal.

No ano de 1977, nos estados de Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul, São Paulo e Minas Gerais foram realizados 96% do abate de suínos sob Inspeção Federal, efetivado por 107 empresas. As oito maiores empresas destes estados foram responsáveis por 37 % do total de abates realizado no país no anos de 1973 e 1977. Quanto à participação das quatro maiores no total abatido, observou-se um percentual de 21,44% para 1973 e de 23% para 1977 (CEPA, 1978).

Apesar do elevado número de empresas que compunha a indústria suinícola brasileira em 1977, havia também, uma grande disparidade no tamanho das mesmas. As duas empresas líderes, Sadia Concórdia e Frigobrás (ambas faziam parte do Grupo Sadia) abateram mais de 400 mil cabeças de suínos cada uma, 13 empresas apresentaram um abate entre 100 mil e 200 mil cabeças, 4 empresas foram responsáveis por abates entre 200 mil e 300 mil cabeças, e 56 empresas haviam abatido menos de 50.000 cabeças. Havia ainda um grande número de empresas que atuavam na indústria, mas cujos abates não sofriam fiscalização, o que torna muito dificil a aferição de seu número.

Portanto, já em 1977, verificava-se na indústria suinícola, a presença de algumas empresa líderes convivendo com outras de menor porte. As duas empresas líderes, a Sadia Concórdia e a Frigobrás, pertenciam ao mesmo grupo, o que fazia com que o seu abate representasse três vezes o abate da empresa situada na terceira posição.

Tabela 2 - As principais empresas da indústria suinícola brasileira, segundo o abate realizado, 1977
EMPRESA
CABEÇAS ABATIDAS
Sadia Concórdia
413.294
Frigobrás
400.240
Cia. de Alimentos do Brasil - Comabra
268.793
Damo S.A. Ind.Com.Imp..Exp
250.953
Perdigão S.A.
230.532
Darfrigo 
220.000
S.A. Ind. Com. Chapecó
199.629
Frigorifico Santarrosense S.A.
186.295
Fonte: CEPA (1978).Diagnóstico da Suinocultura Nacional

Observa-se ainda na tabela 3, que a empresa Sadia manteve no decorrer da década de 80, a liderança da indústria com uma certa folga em relação à Perdigão, empresa posicionada em segundo lugar, a qual também apresentou um nível de abate bem superior à terceira colocada. Cabe ainda destacar a mudança de posições na liderança no período 1977/85, quando três empresas presentes no início do período saíram das cinco primeiras posições dando lugar a outras em 1985, as quais permaceram nas mesmas posições em 1990.

Portanto, na década de 80, a liderança absoluta da Sadia manteve a situação observada no ano de 1977, de possibilidade de esta empresa coordenar a indústria, tendo como conseqüência uma rivalidade pouco intensa na indústria.

Tabela 3 - As dez maiores empresas da indústria suinícola, segundo o abate realizado - 1980/1990.
Empresas 1980  Empresas 1985  Empresas 1990 
Sadia 1423785 Sadia  1436449 Sadia 1800000 
Perdigão 753070 Perdigão 945891 Perdigão  1121978
Santarrosense 360000 Coopercentral 578032 Coopercentral  643000
Chapecó 348836 Ceval/Seara 468964 Ceval  666250
Damo 316940 Chapecó  420406 Chapecó 523179
Coopercentral 312066 Santarrosense 261009 Prenda  342637
Ceval/Seara 207898 Comabra  219726 Coop.Sudoeste 327797
Comabra 203757 Damo  216644 Coop.Lat.Paraná  231243
Ideal 194349 Coop.Sudoeste  194421 Riosulense 209241 
Sarandi 164692 Sul Catarinense  153512 Damo 201588 
Fonte: Elaborado a partir de dados contidos em IPARDES (1994)

Quanto à indústria produtora de carne de aves, a década de 70 representou o momento de sua arrancada, quando ocorreu a implantação de um elevado número de empresas. Durante os anos 70, foram criadas 80 unidades produtivas, sendo 32 em São Paulo, 13 no Rio Grande do Sul, 9 em Santa Catarina, 8 no Paraná (RIZZI, 1993). No ano de 1977, existiam 89 abatedouros de aves sob inspeção federal no Brasil, sendo 42 em São Paulo, 10 em Santa Catarina, 8 no Paraná, 7 no Rio Grande do Sul, 7 em Minas Gerais (INSTITUTO DE ECONOMIA AGRÍCOLA, 1977).

Dentre as principais empresas abatedouras de aves no país, verifica-se uma disparidade em seus tamanhos relativos, quando se observa os dados sobre as suas capacidades de abate. No ano de 1978, a capacidade de abate da Sadia era de 12 milhões de cabeças/mês, a da Perdigão 5,9 milhões, a Granja Rezende 5,2 milhões, enquanto que a Cargill, o Abatedouro Louveira, a Pena Branca e a Rio Branco podiam, cada uma, abater até 2 milhões de cabeça por mês (tabela 4). Portanto, observa-se uma disparidade no tamanho relativo das empresa, visto que a capacidade de abate da líder equivale ao dobro da capacidade da segunda colocada e a 6 vezes a capacidade de abate das empresas situadas na terceira posição.
 
 

Tabela 4 - Capacidade de abate das principais firmas de aves do Brasil - 1978

( Em milhões de cabeças / mês)
Empresa 
Capacidade de Abate
Cargill (SP)
2
Granja Betinha (SP)
1,5
Abatedouro Louveira (SP)
2
Granjas ITO (SP)
1,2
Cooperativa Cotia (SP)
3
Só Frango (DF)
0,535
Sadia (SC)
6
Perdigão (SC)
5,9
Frigorifico Seara (SC)
1
Pena Branca (RS)
2
Coopave (RS)
1,4
Minuano (RS)
1,4
Rio Branco (MG)
2
Granjas Rezende (MG)
5,2
Fonte: Extraído de LIMA (1984)

Na década de 80, observa-se a continuidade da liderança da Sadia na indústria avícola brasileira, com abates de frangos que representaram o dobro da empresa posicionada na segunda posição (tabela 5). Portanto, na indústria avícola, tem-se uma situação semelhante àquela observada na indústria suinícola, isto é, uma firma detendo a liderança absoluta, o que pode resultar numa rivalidade pouco intensa na indústria.

Tabela 5 - Empresas líderes no abate de aves no Brasil

(Em milhares de cabeças abatidas)
Empresa 1980  Empresa 1985  Empresa 1990  Empresa 1993 
Sadia 82,6  Sadia 194,6  Sadia 228,5  Sadia 294,8 
Perdigão 38,5  Perdigão 93,1  Perdigão 133,8  Perdigão 139,5 
Coop.Vale Taquari 26,2  Chapecó 50,4  Ceval 73,3  Ceval 92,8 
Chapecó 14,1  Seara 32,8  Chapecó 71,8  Frangosul 92,4 
Seara 11,1  Frangosul 23,9  Frangosul 63,0  Avipal 73,5 
Frangosul 10,7  Avipal 20,9  Avipal 50,3  Chapecó 59,9 
Coop.Lat. Paraná  10,3 Minuano  16,7 Coopercentral  25,7 Da Granja  44,2
Jaeger Araújo 9,4 Coop.Lat.Paraná  15,2 Pena Branca  25,1 Coopercentral  34,8
Ind.Avic. Caxias 9,1  Borela 14,7  Sertanejo 22,6  Minuano 31,8 
Pena Branca 8,1  Guapiaçú  13,2 Minuano  21,9 Batavo  23,4
Fonte: Associação Nacional dos Abatedouros Avícolas

Crescimento da Indústria

Quando a indústria apresenta uma baixa taxa de crescimento, as empresas tendem a se mostrar mais dispostas a lutar por parcela de mercado para atender os seus objetivos de expansão. Já numa situação em que se observa rápido crescimento da indústria, as empresas encontram menores resistências ao seu crescimento, o que reduz a possibilidade de ocorrência de lutas por parcela de mercado.

Tabela 6 - Consumo por habitante e produção de carnes no Brasil - 1970 - 1994
Ano 
Consumo de carne suína
Kg / hab
Consumo de
carne de aves
Kg / hab
Produção de carne suína
(1000 t )
Produção de
carne de aves (1000t)
1970
8,1
2,3
705
217
1975
7,2
4,9
943
519
1980
8,2
8,9
1150
1200
1985
6,9
8,9
966
1483
1990
7,0
13,4
1050
2356
1991
7,0
15
1105
2627
1992
7,3
16
1200
2872
1993
7,6
17
1225
3144
1994
7,7
18
1260
3464
Fonte: Consumo percapta de carne de frango e de suínos e produção de carne de frango, Aves & Ovos, fev. 1995

Produção de carne suína: até 1985, extraído de GIROTO & alli (1992). Para o período de 1990 a 1994, SUINOCULTURA INDUSTRIAL, dez. 1995.

No decorrer da década de 70, foi constatado um crescimento na indústria nacional de carne suína, já que a produção que havia sido de 705 mil toneladas em 1970, atingiu 1150 mil em 1980, o que representou uma taxa média de crescimento de 5% no período. Porém, este crescimento não foi constante no decorrer da década, tendo sido observado recuo da produção em alguns anos em relação ao ano anterior. Na indústria de carne de aves, foi verificado também um crescimento, porém com maiores proporções e constante, pois da produção de 217 mil toneladas obtidas em 1970, foi alcançada uma produção de 1200 mil toneladas em 1980, o que significou um crescimento médio anual de 18,7% ao ano.

Na década de 80, observou-se uma estagnação na indústria de carne suína, tendo ocorrido, inclusive, uma redução da produção nos anos de 1990 e 1985 em relação a 1980. Já a indústria de carne de aves apresentou um resultado favorável, apesar de não ter repetido as elevadíssimas taxas de crescimento da década de 70. A produção de 1990 representou quase o dobro daquela de 1980, o que resultou numa taxa anual média de crescimento da ordem de 7%.

A década de 90, nos seus quatro primeiros anos, mostra-se favorável a ambas as indústrias, que apresentam um crescimento em todos estes anos. Na indústria de carne suína, a taxa anual média de crescimento foi de 5,5%, ao passo que a obtida na indústria de carne de frango foi de 10,1%.

Pelo que foi visto acima, a indústria avícola tem mostrado um elevado grau de dinamismo nos últimos 24 anos. A indústria suinícola apresentou comportamentos diferentes no período enfocado, pois se na década de 70 apresentou satisfatórias taxas de crescimento, na década seguinte foi presenciada uma estagnação, e no início da década de 90 volta a crescer. Portanto, a indústria suinícola pode ter colocado restrições ao crescimento das empresas devido à instabilidade do seu crescimento em alguns momentos e mesmo ausência do mesmo em outros, enquanto que a indústria avícola, ao apresentar uma expansão continuada e forte, teria facilitado às empresas a implantação de seus projetos de crescimento.

Grau de Diferenciação dos Produtos

A diferenciação de produtos proporciona às empresas que a praticam, a lealdade de parcela dos consumidores, reduzindo desta forma, a sua exposição à luta competitiva.

Na indústria suinícola, no decorrer da década de 70, observou-se uma alteração na estrutura de oferta, com o aumento da participação dos produtos congelados e dos embutidos, sendo que estes últimos são produtos de maior processamento industrial, ao passo em que ocorreu uma redução da importância dos salgados e gorduras (CEPA, 1978). Mas mesmo assim, os produtos industrializados representavam apenas cerca de 50% da produção interna.

Na década de 80, ocorreu a introdução de novos produtos, tais como hamburguer e almôndega de carne suína e no final da década verificou-se uma expansão da linha de produtos tradicionais (presunto, salame, mortadelas) e o surgimento de produtos compostos, nos quais é utilizada a carne suína misturada com a carne bovina ou avícola (salsichas, mortadelas, fiambres). Estima-se que no início dos anos 90, 70% da carne suína era consumida sob a forma de produtos processados.

Esta crescente industrialização da carne suína pode ainda ser visualizada pela evolução da produção de produtos elaborados e da carne congelada ou resfriada em Santa Catarina na década de 80. Os produtos industrializados tiveram um aumento de 211% na sua produção, ao passo que para as carnes congeladas e resfriadas o incremento observado foi de 22% (MIOR, 1992). Tal comportamento pode ser, em parte, explicado pela maior adequabilidade deste tipo carne à industrialização em relação aos outros tipos. Deve ainda ser destacada a busca das empresas líderes da indústria de melhorar a qualidade da matéria-prima animal através da realização da atividade de melhoramento genético, o que tem resultado no aumento do rendimento de carne no suíno, bem como na expansão da qualidade da mesma, o que facilita o lançamento de novos produtos.

O aumento da produção de produtos com maior grau de elaboração conduziu a um aumento no nível da diferenciação dos produtos, visto que ocorreu uma ampliação da linha de produtos oferecidos no mercado, principalmente das maiores empresas. Além disto, muitos destes produtos tendiam a ser vendidos pelas empresas de maior porte, nos estabelecimentos comerciais em embalagens contendo a logomarca do fabricante.

Na indústria avícola, o grande salto na produção observada na década de 70 ocorreu com a comercialização do frango inteiro, resfriado ou congelado. A produção de frangos em partes ainda era bastante limitada nesta década. O frango inteiro, ao requerer baixo nível de processamento industrial, oferecia poucas possibilidades para a realização da diferenciação de produto, já que todas as empresas podiam oferecer ao mercado um produto com características semelhantes aquele dos concorrentes. Desta forma, a imagem de marca parecia não ser suficiente para dotar o produto da lealdade dos consumidores às empresas. Assim, por se tratar de um produto relativamente homogêneo, a competição entre as empresas tendia a ocorrer via preço ou serviços relacionados ao produto (prazo de pagamento, periodicidade da entrega).

No final da década de 70, mais especificamente no ano de 1979, a venda de frangos em cortes representava 8% da produção, situação que viria a sofrer modificações mais visíveis a partir de meados dos anos 80, quando as maiores empresas procuraram atender uma demanda crescente por este tipo de produto no mercado internacional, e passaram a vender o produto também no mercado interno. Em 1989, os cortes de frango já representavam 38% da produção (43% em 1992). A mudança na composição da produção de derivados de frango pode ser ainda visualizada através da evolução do abate e da produção de cortes no período 1980 a 1989. Enquanto que o abate teve um incremento de 114%, o frango em partes apresentou uma expansão de 1320% na sua produção (MIOR, 1992). Um passo mais adiante na agregação de valor à carne de frango é a industrialização que se configura na produção de hamburguer, salsicha, nugget, presunto, frangos defumados e temperados, almôndegas, cortes empanados, salames, patês.

Deve ser ressaltado que as maiores empresas procuraram cada vez mais realizar a diferenciação de produto através da agregação de valor ao frango, inicialmente mediante a produção de cortes simples com osso, cortes especiais e, num segundo momento, a elaboração de produtos industrializados. Já no caso das médias e pequenas empresas, a diferenciação de produto foi efetivada via produção de cortes simples com osso.

Ainda no que se refere à diferenciação de produto relacionada à inovação de produtos, tem-se observado na última década uma preocupação das empresas de maior porte de atender às novas demandas decorrentes de mudanças de hábitos de consumo no país, que se traduziram pelo aumento da realização de refeições fora do lar, do desejo de reduzir o tempo despendido com a preparação de refeições, da preocupação de consumir alimentos mais saudáveis, além do aumento do número de famílias pequenas ( com um ou dois membros). As empresas procuraram responder a estas demandas, mediante o lançamento de produtos de preparo rápido e práticos, produtos com baixo teor de gordura, embalagens com diferentes quantidades de produto e, em alguns casos, trazendo informações sobre a especificação dos mesmos. As maiores empresas procuraram ainda atingir os chamados mercados institucionais (hospitais, restaurantes, redes de fast-food) comercializando seus produtos em embalagens adequadas às necessidades destes clientes. Muitas vezes, os produtos precisaram sofrer modificações na sua composição para atender as especificações determinadas pelas redes de fast-food.

Mesmo para o frango inteiro, foi verificado o esforço de diferenciação. No mercado interno, a preferência do consumidor é pelo frango de cerca de 1,3 kg, os arábes preferem frangos pequenos com cerca de 950 gramas, ao passo que os argentinos querem frangos grandes com mais de 2 kg e mais amarelados. Mesmo no mercado interno, empresas de porte médio procuram diferenciar o frango inteiro, vendendo com maior peso, mais amarelado e resfriado, para atender segmento dos consumidores que preferem o produtos com estas características.

Se antigamente, as empresas buscaram a tecnologia de produto nos países europeus, a partir dos anos 80, verifica-se nas grandes empresas da indústria a realização de gastos com pesquisa e desenvolvimento de produtos.

Uma forma de diferenciação de produto que as empresas de maior porte vem utilizando desde a década de 70 é o fortalecimento da imagem da marca, o que tem sido feito mediante o recurso à publicidade. Porém, a expansão das linhas de produtos das grandes empresas, principalmente a partir do final dos anos 80, requereu por parte destas uma expansão nos gastos com publicidade para tornar conhecidos do público os novos produtos que eram criados.

Deve ser ainda destacado que a diferenciação de produto teve suas possibilidades ampliadas com as inovações em termos de equipamentos e processos de produção, o que fez com que a possibilidade de entrada de novas empresas na indústria ficasse restrita aos segmentos de mercado dos produtos mais simples. Isto porque a elaboração dos produtos industrializados está associada à capacitação tecnológica das empresas, à sua capacidade financeira.

Custos de Armazenamento

Quando estes custos são elevados, as empresas se vêem compelidas a utilizarem ao máximo a sua capacidade, o que pode conduzi-las a reduzir seus preços quando da ocorrência de excesso de capacidade.

A maioria dos produtos das indústrias suinícola e avícola são perecíveis, necessitando para a sua conservação o armazenamento e o transporte em câmaras frias. Sendo o custo da estocagem a frio elevado, em momentos de produção excessiva em relação à demanda, as empresas tendem a reduzir o preço para desovar os estoques, visto que uma armazenagem prolongada não seria lucrativa. Associado a isto, tem-se o elevado investimento em equipamentos de refrigeração e condicionamento de ar que pode superar os custos dos equipamentos de abate, que requerem uma ampla utilização no decorrer do período para que cada unidade de produto apresente custos fixos unitários mais baixos.

Concorrentes Divergentes

A presença de concorrentes divergentes, no tocante às estratégias e origens, dificulta às empresas da indústria, a compreensão das intenções dos outros rivais e, consequentemente, coloca obstáculos para o estabelecimento de acordo entre as firmas sobre "as regras do jogo" para a indústria.

A indústria brasileira de carne é composta por empresas que apresentam diferenças no que se refere às estratégias adotadas, o que se reflete na existência de mais de um grupo estratégico, como é visto no capítulo 8. Essas diferenças referem-se a aspectos tais como mercados atendidos, tipos de produtos oferecidos, canais de distribuição utilizados, política de marcas, qualidade dos produtos.

Ao mesmo tempo em que tem sido constatada a divergência entre as empresas da indústria quanto aos aspectos acima mencionados, tem-se verificado também que conjuntos de empresas apresentam comportamentos estratégicos semelhantes. Desta forma, algumas empresas atendem a mercados geográficos mais amplos, oferecem uma linha de produtos mais extensa, composta por produtos mais simples e produtos mais sofisticados, distribuem seus produtos através das grandes redes de supermercados, realizam elevados gastos com publicidade para fortalecer a imagem de marca, e os produtos apresentam alto nível de qualidade. Já outras empresas atuam em mercados geográficos mais restritos (regionalizados), com uma linha de produtos restrita composta por produtos com menor agregação de valor que são vendidos em estabelecimentos comerciais de menor porte, pouco gastam (ou não gastam nada) com publicidade, e a qualidade de seus produtos é variável .

Portanto, numa análise superficial , verifica-se que as empresas componentes de cada grupo adotam estratégias semelhantes, ao passo que as firmas pertencentes a diferentes grupos competem com estratégias divergentes. Tal fato facilita às empresas de cada grupo decifrar as intenções dos outros concorrentes e chegar a um acordo sobre as "regras do jogo" para a competição dentro do grupo. Considerando que as empresas de menor porte são competidoras das maiores somente nos produtos mais simples, pode-se inferir que é nos segmentos de mercado atendidos por estes produtos é que se daria as maiores dificuldades para as firmas firmarem acordos sobre as "regras do jogo", devido às diferentes estratégias praticadas pelas firmas dos dois grupos, o que conduziria à uma alta rivalidade no segmento.

A princípio, poder-se-ia supor que as maiores firmas, em função de menores custos de produção provenientes das economias de escala auferidas e do maior grau de tecnologia utilizado, poderiam exercer o papel de líderes de preço na indústria para os produtos mais simples. Mas para o frango inteiro, o que se verifica é que as empresas de menor porte, seja através da sonegação de impostos ou mesmo ao evitar os custos relacionados às normas higiênico-sanitárias estabelecidas pelo Serviço de Inspeção Federal, e ainda devido aos menores custos de distribuição, conseguem compensar as suas desvantagens nos custos de produção em relação às grandes empresas. Isto as permitiu cobrar preços mais baixos, o que conduziu à retração da margem de lucros das maiores empresas (FARINA, 1995).
 
 

Grandes Interesses Estratégicos

Quando a obtenção do sucesso na indústria é muito importante para o desempenho global de algumas empresas, isto tende a resultar em elevado nível na rivalidade da indústria.

As empresas líderes que atuam nas indústrias de carnes suína e avícola possuem grandes interesses estratégicos nestas indústrias, em decorrência do fato de que parte substancial de seus faturamentos provém daí. No quadro abaixo, onde tem-se a composição do faturamento da Sadia, verifica-se que a participação dos segmentos de aves, suínos e industrializados passa de 50% em 1980 para 69% em 1991. Para a Perdigão, a participação dos segmentos suínos e aves que eram de 51% em 1980, passam para 90,2% em 1994. O mesmo acontece com as outras grandes empresas da indústria. Tal fato faz com que estas empresas sacrifiquem sua lucratividade para aumentar as suas parcelas de mercado naqueles segmentos.

Já para as empresas de menor porte, a dependência em relação a um dos dois segmentos acima mencionados é ainda maior, pois, em geral, atuam em somente com um tipo de carne, o que as conduz a trabalhar com baixas margens de lucro para sobreviverem.

Tabela 7 - Composição do faturamento da Sadia e da Perdigão em anos selecionados

(Em %)
SADIA
PERDIGÃO
Atividade / Ano
1980
1989
1991
1980
1993
1994
Suínos
30
6,7
5
28
40
41,7
Aves
20
31,3
30
27
43,7
49,5
Rações
19
7,4
6,0
Complexo Soja
15
16,6
13
industrializados
--
22,1
34
Outros
16
15,9
--
Fonte: Dados oriundos das empresas

Concluindo, quanto às fontes da força competitiva "rivalidade na indústria", foi constatada a seguinte situação:

* o crescimento do mercado para a indústria avícola foi elevado na maioria dos anos, ao passo que para a indústria suinícola, seu mercado apresentou um crescimento instável e de reduzida magnitude.

* A diferenciação de produto em ambas as indústrias deu-se através do lançamento de produtos com maior grau de elaboração, associado com elevados gastos em publicidade. Porém, para os produtos básicos (frango inteiro e cortes de suínos), a imagem da marca não foi suficiente para impedir a ocorrência de alta competição entre as firmas das indústrias, refletida em alta concorrência via preço.

* Os custos de armazenamento dos produtos são altos, o que faz com que em períodos de estoques elevados, as empresas reduzam seus preços para escoar os produtos.

* Tanto as pequenas como as grandes empresas tem grandes interesses estratégicos nas indústrias em que atuam.

Portanto, com base nestes fatores, pode-se inferir que as indústrias avícola e suinícola são propensas à ocorrência de acirrada rivalidade entre os concorrentes.
 
 
 
 
 
 
 

6.2. AMEAÇA DE NOVOS ENTRANTES NA INDÚSTRIA

A entrada de novas empresas na indústria depende do nível das barreiras à entrada aí vigentes. Nesta pesquisa, as barreiras de entrada enfocadas foram a extensão das economias de escala, a diferenciação de produto, o montante de capital necessário para ingressar e o acesso aos canais de distribuição.

As Economias de Escala

Com relação às economias de escala decorrentes de indivisibilidade dos equipamentos, pode-se afirmar que as mesmas não tem representado uma significativa barreira à entrada na indústria, devido à existência no mercado de equipamentos para plantas com várias capacidades de produção. Na indústria de carne avícola, uma reportagem publicada na revista Avicultura Brasileira em 1973 informava que, na época, já existia a produção de linhas de abate e frigorificação, que incluíam equipamentos com capacidade para 600 a 4000 aves por hora. Na publicação Avicultura Industrial de 1982, em uma outra reportagem, um fabricante brasileiro de equipamentos mencionava a possibilidade de produzir abatedouros com capacidade para 500 aves/hora, 2 mil, 3,6 mil, 5 mil, 6 mil, 7,2 mil, 10 e 12 mil. A divisibilidade dos equipamentos permite ainda que menores empresas combinem equipamentos modernos com antigos.

As economias entre-estabelecimentos provenientes da multiplicação do número de estabelecimentos parecem estar norteando a localização geográfica de unidades produtivas das maiores empresas da indústria de carnes. As empresas líderes, no decorrer de sua evolução, tem procurado situar unidades de armazenamento e de abate em locais onde as matérias-primas animal e vegetal sejam abundantes e próximas aos principais mercados consumidores, com o intuito de reduzir o custo de transporte. Desta forma, verifica-se a presença de silos de armazenamento de soja e milho, bem como de fábricas de ração nas principais regiões produtoras. Unidades de abate são situadas nas regiões onde há, além da disponibilidade daqueles cereais, produtores que possam fornecer os animais para as empresas criados conforme especificação destas. Em algumas empresas, verifica-se a especialização das unidades produtivas, no sentido de que as unidades que fabricam produtos mais industrializados e que ficam situadas nos principais mercados consumidores tenham o seu abastecimento da matéria-prima carne feito por unidades localizadas próximas às matérias primas. Deve ser ainda destacado que o deslocamento das empresas em direção às novas fontes de matéria-prima vegetal localizadas na região centro-oeste, mediante a montagem de unidades de abate, em detrimento da simples aquisição dos grãos, é fundamentada numa lógica de redução de custo de transporte, visto que a carga transportada incorpora uma maior agregação de valor (carnes e subprodutos).

Quanto às economias de substituição, provenientes da maior possibilidade de substituição de trabalho por capital para as empresas de maior porte, verifica-se que as mesmas são as maiores absorvedoras de equipamentos de tecnologia mais moderna, que, por permitirem o alcance de maior produtividade, conduzem a custos unitários de produção mais baixos. Dentre estes equipamentos , pode-se citar os automatizados, tais como balanças para classificação e pesagem de produtos, os túneis de congelamento contínuo, a evisceradora. Outro equipamento utilizado somente pelas maiores empresas é a pistola de medição da espessura de toicinho usada para a tipificação de carcaça suína. A não utilização pelas empresas de menor porte deste equipamentos deve-se ao elevado preço dos mesmos e o baixo nível de produção destas empresas que as impede de os utilizar de maneira economicamente eficiente.

As economias da integração vertical são significativas na indústria de carnes . Dentro da cadeia produtiva de carne, as empresas líderes atuam em vários segmentos, tais como a produção de ração, matrizes de aves e suínos, pintos de um dia, além de manterem acordos de cooperação com produtores para a engorda dos animais até a idade de abate. A incorporação destas atividades permite às empresas a realização da programação da produção nas diferentes etapas do processo produtivo e o controle sobre os tipos de tecnologias utilizadas. Portanto, a partir de uma expectativa sobre o nível de demanda para os produtos fabricados, as empresas líderes estabelecem a quantidade necessária dos insumos. Por exemplo, tem-se a situação na avicultura, em que a demanda esperada de produtos derivados vai requerer uma certa produção de frangos que, por sua vez, vai exigir uma dada produção de ração, pintos de um dia e matrizes. Na engorda dos animais, apesar de a empresa não realizar a integração convencional desta atividade, a existência de acordo com os produtores agrícolas para que estes assumam esta atividade, caracteriza uma quase-integração, visto que a criação deve ser efetuada de acordo com as especificações estabelecidas pelas empresas, no que se refere à construção das pocilgas e aviários, bem como no manejo e alimentação. Além disso, as empresas se encarregam de fornecer os pintos de um dia, os leitões, a ração ou o concentrado, além de prestarem assistência veterinária. Portanto, as empresas exercem um controle rigoroso na criação dos animais, repassando aos criadores, as tecnologias mais modernas, sejam aquelas embutidas nos animais, como aqueles relacionadas à alimentação.

Desta forma, as empresas que atuam integradas verticalmente, tem menores custos de produção devido:

a) à maior produtividade obtida na criação dos animais pelos criadores integrados;

b) à redução de estoques e do tempo ocioso dos ativos, possibilitados pela programação da produção;

c) à eliminação dos custos de transações realizadas no mercado, tais como custos de venda, de compras e de negociações.

As economias de escopo provém da utilização de ativos ou fatores de produção para produzir bens diferentes. Na indústria de carnes, elas se mostram presentes na utilização dos mesmos canais de distribuição , na utilização de um mesmo know-how e marcas para vários produtos nas maiores empresas. A maioria dos produtos elaborados nesta indústria exigem que o seu transporte seja realizado com veículos frigorificados, os quais podem ser usados para os produtos derivados dos diferentes tipos de carne (avícola, suinícola e bovina). Muitos produtos podem utilizar os mesmos processos de produção ou processos semelhantes para a sua produção, como é o caso da produção de salsichas ou de hamburguer, que podem ser elaborados com diferentes tipos de carne. O mesmo ocorre com a marca, que é utilizada em vários produtos e que dispensa a necessidade de realização de nova publicidade, como aconteceria no caso de o lançamento de um novo produto vir acompanhado de uma nova marca.

Quanto às economias monetárias, estas são observadas nas compras de matéria-prima vegetal (soja e milho), que são efetivadas com menores preços devido às grandes quantidades adquiridas, e na obtenção de empréstimos. No que refere a este ítem, as empresas líderes da indústria foram as maiores beneficiadas do crédito rural abundante e barato da década de 70. Deve ser ainda destacado que estas empresas na presente década tem usufruído do crédito de longo prazo com taxas atrativas fornecido pelo Banco Mundial, o qual não está disponível às pequenas empresas. Outra forma de crédito de baixo custo, que as maiores firmas tem tido acesso no decorrer das últimas duas décadas provém dos programas de desenvolvimento industrial de governos estaduais, que permitem que as empresas que apresentam projetos de novos investimentos paguem durante alguns anos somente parcela do ICM devido, podendo o restante ser pago a partir de um determinado ano.

Existem ainda as economias relativas às atividades de Pesquisa & Desenvolvimento. Na indústria de carnes, a atividade de pesquisa tem se concentrado no melhoramento genético dos animais, com o intuito de obter uma melhor adaptação das raças e linhagens de aves e suínos desenvolvidas no exterior às condições de criação existentes em nosso país. Porém, tal atividade ao requer instalações e pessoal especializados, além de outros insumos de elevado preço, resultam em custos bastante elevados, e estando ainda associada a riscos que lhe são inerentes, dificultam a sua realização por parte das empresas de menor porte.

Diferenciação de Produto

A diferenciação como barreira à entrada de novas empresas na indústria baseia-se no reconhecimento das marcas das empresas estabelecidas pelos seus clientes que possuem um sentimento de lealdade em relação às mesmas.

Na indústria brasileira de carnes, no segmento de carne suína, as principais empresas tinham uma forte imagem de marca já nos anos 70 em decorrência do reconhecimento por parte dos consumidores da qualidade do produto e pela realização de campanhas publicitárias e de promoção de vendas. No decorrer dos anos 80, a expansão das linhas de produto veio acompanhada do lançamento de produtos com marcas diferentes com o intuito de atingir diferentes segmentos de mercado. Desta forma, as versões mais simples dos produtos que são direcionadas aos consumidores de renda mais baixa são comercializados com uma marca, ao passo que a versão mais sofisticada do mesmo produto que é dirigida aos consumidores de maior renda é vendida com outra marca. Como geralmente o produto apresenta diferenças de qualidade segundo o segmento de mercado para o qual é direcionado, a utilização de mais de uma marca permite que não haja perda do prestígio da empresa no que se refere à qualidade de seus produtos. O mesmo acontece quando o produto pode ser direcionado aos consumidores finais ou aos consumidores institucionais.

Nos anos 80, verificou-se ainda um aumento nos gastos com publicidade nas empresas líderes da indústria para fortalecer o nome das empresas bem como das marcas com que comercializam seus produtos. Quanto a isto, a própria ampliação das linhas de produtos destas empresas faz com que haja necessidade de anunciar ao consumidor a existência dos mesmos, sendo a propaganda o principal meio utilizado para tal. Porém, como a divulgação constante de todos os produtos iria exigir gastos elevadíssimos, estas empresas tem utilizado a propaganda para comunicar sobre o lançamento do produto, e privilegiado as campanhas institucionais para fortalecer a imagem das marcas e do nome da empresa.

Esta diferenciação de produto baseada na imagem da marca, conseguida pelas empresas de maior porte veio fortalecer a sua atuação nos canais de distribuição que atendem os consumidores de renda mais elevada, que são os supermercados. Segundo uma reportagem publicada no jornal Folha de São Paulo no ano de 1991, no Brasil 70% do fornecimento de produtos derivados de carne para os supermercados é realizado pelas três maiores empresas da indústria que são a Sadia, a Perdigão e a Ceval. Portanto, os 30% restantes são disputados por outras empresas de grande e médio porte.

Necessidades de Capital

As necessidades de capital para entrar na indústria de carnes são relativamente elevados. Devido ao fato de se trabalhar com produtos perecíveis nesta indústria, o retardamento de sua degeneração requer que os mesmos sejam armazenados sob baixíssimas temperaturas. Porém, os equipamentos de refrigeração e congelamento, que possibilitam uma maior vida útil aos produtos são caros, podendo, inclusive superar os custos dos equipamentos de abate.

Como vimos anteriormente, as maiores empresas da indústria são integradas verticalmente, o que significa a presença em diversos segmentos da cadeia de produção, cujos benefícios são a obtenção de menores custos de produção e a produção de uma matéria-prima com a qualidade requerida para a elaboração dos produtos finais. Considerando que as empresas mais competitivas da indústria são aquelas que adotam a integração vertical de atividades, tem-se que os entrantes potenciais deveriam ingressar na indústria também de forma integrada. Porém, quanto maior o número de atividades incorporadas pela empresa, maior será a necessidade de capital para capital fixo e capital de giro.

Uma das necessidade de capital de giro para uma empresa integrada mostra-se presente na relação estabelecida entre a empresa e os produtores integrados, segundo a qual aquela fornece a estes o pinto de um dia, matriz suína ou leitão, ração, medicamentos, e assistência técnica, no decorrer do processo de engorda dos animais e vai descontar o custo destes insumos no momento de recebimento dos lotes de animais com idade para abate. Portanto, há por parte das empresas a concessão de um financiamento aos produtores no decorrer de um período que vai até cerca de 50 dias para aves e entre 90 e 100 dias para suínos.

Acesso aos Canais de Distribuição

Após produzir, a firma deve procurar os melhores canais de distribuição para a comercialização de seus produtos, os quais podem estar sendo atendidos pelas firmas atuantes na indústria. Nesta a situação, a firma entrante deverá convencer aqueles canais a aceitarem seus produtos, o que pode exigir a concessão de vantagens aos mesmos.

Para se ter uma idéia do acesso de entrantes potenciais aos canais de distribuição dos produtos da indústria de carnes, é interessante conhecer o local de compras dos consumidores desses produtos.

Para a indústria suínicola, ALTMANN (1979) mostra a partir de dados oriundos da FIBGE, referentes ao perído de agosto de 1974 a agosto de 1975, que os locais de compra variam entre estados no país, em decorrência de hábitos regionais de consumo, do grau de urbanização e do produto consumido (tabelas 8 e 9). A nível de país como um todo, esse autor indica que a maior parte da venda de carne "in natura" era realizada por açougues, ao passo que os embutidos tinham parte considerável de sua comercialização realizada nos armazéns e quitandas.

Para as diferentes regiões, o autor verificou que aquelas onde o grau de urbanização era maior, os supermercados constituiam um importante canal de escoamento da produção, enquanto que nas regiões onde a população rural predominava e nas pequenas e médias cidades, os açougues detinham uma participação elevada nas vendas. Para a carne in natura, nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, os supermercados respondiam por, respectivamente, 39% e 16%, e os açougues por 32% e 69%; nos estados de Paraná, , Minas Gerais, Santa Catarina e Espirito Santo, os principais pontos de venda eram os açougues seguidos pelas armazéns e quitandas. Já para o Distrito Federal e estados do norte e centro-oeste, predominavam as vendas nos açougues.

Para a venda de embutidos, as maiores vendas aconteciam nos supermercados nos estados de Rio de Janeiro e no distrito federal, ao passo que nas demais regiões os armazéns e quitandas predominavam.

Tabela 8 - Lugar de compra de carne in natura de suíno, segundo regiões do Brasil, 1974 - 1975

(Em %)
Lugar de Compra / 

Região 

Supermercado
Feira
Armazém
Quitanda
Vendas 
Ambulantes
Açougue
Rio de Janeiro
39
7
16
6
32
São Paulo
16
4
9
2
69
Paraná e SC
10
6
30
2
52
MG e ES
3
13
34
1
49
Distrito Federal
29
4
9
1
57
Norte e Centro-oeste
4
12
4
2
78
Fonte: Extraído de ALTMANN (1979)

Tabela 9 - Lugar de compra de embutidos de carne suína, segundo as regiões do Brasil, 1974 - 1975

(Em %)
Lugar de Compra 

/ Região 

Supermercado Feira  Armazém 

Quitanda 

Vendas Ambulantes Açougue 
Rio de Janeiro 51 32 2 14
São Paulo 31 38 1 23
PR, SC e RS 27 54 1 17
MG e ES 21 41 1 34
DF 58 1 23 2 16
Norte e Centro- Oeste 24 3 36 2 35 
Fonte: Extraído de ALTMANN (1979)

Tabela 10 - Local de compra de produtos industrializados de carne suína em São Paulo, nos anos 70

(Em %)
Lugar de Compra / 

Produto 

Supermercado
Feira
Armazém
Padaria
Bar
linguiça
43
32
25
--
--
salsicha
35
35
30
--
--
presunto
35
13
29
23
--
mortadela
21
7
46
18
8
Fonte: Extraído de CYRILLO (1987)

Portanto, verifica-se que naquela período (1974-75), os supermercados detinham maior participação na venda de embutidos do que na comercialização de carne in natura. Mas, as décadas de 70 e 80 testemunharam um grande desenvolvimento das lojas de auto-serviço (supermercados e hipermercados) no país. Segundo ARAÚJO et alli (1992), em 1970, o setor tradicional (mercearias, feiras, mercados etc) era responsável por 70% do volume de venda de alimentos, contra 30% para as lojas de auto-serviço. No final dos anos 80 a situação havia se alterado radicalmente, pois os super e hipermercados detinham 80% do volume das vendas. Estes mesmos autores ainda destacam que as feiras e os mercados ainda desempenham um importante papel nas pequenas e médias cidades do interior.

Além disso, constata-se também um aumento na proporção da carne suína que é vendida sob a forma de produto industrializado. Em meados da década de 70, os produtos industrializados eram responsáveis por 50% da produção da indústria suinícola (CEPA, 1978), tendo alcançado cerca de 75% no início dos anos 90.

Portanto, ao se considerar que os produtos industrializados tendem a ter maior proporção de suas vendas nas lojas de auto-serviço, e que estas expandiram a sua participação nas vendas de alimentos no decorrer das últimas duas décadas, chega-se à conclusão de que as lojas de auto-serviço se tornaram o principal canal de distribuição dos produtos da indústria suinícola, principalmente para os maiores centros urbanos. Mas, como foi dito acima, estabelecimentos tradicionais de venda de alimentos (feiras, quitandas) continuam a ter um papel importante nas pequenas e médias cidades do interior.

Os super e hipermercados tendem a preferir vender os produtos das empresas de maior porte da indústria, as quais tem as suas marcas já conhecidas pelos consumidores. Como foi citado anteriormente, uma reportagem do jornal Folha de São Paulo de 1991 afirmava que 70% das vendas de derivados de carne nos supermercados provém das três maiores empresas da indústria. Portanto, este tipo de canal de distribuição tem o acesso dificultado para novas empresas na indústria. Já os canais de distribuição tradicionais, presentes nas pequenas e médias cidades do interior, e mesmo nas periferias dos grandes centros urbanos, podem representar um canal de escoamento da produção de novos entrantes na indústria.

Para a indústria avícola, o acesso aos canais de distribuição parece ser maior do que para a indústria suinícola, devido ao comportamento de compra dos consumidores. Até o início da década de 70, cerca de metade das vendas eram de aves vivas para abate na residência do consumidor e o restante era adquirido já abatido, sendo que a maior parte dessas compras era feita em avícolas, açougues e feiras (AVICULTURA BRASILEIRA, 1973a). No início da década de 90, observa-se a um aumento na participação dos supermercados na distribuição de frango, mas os mercados tradicionais de venda do produto (avícolas, açougues, feiras, mercados municipais e granjas) ainda respondem pela maior parcela. Dados oriundos da FIPE, relativos ao início da década de 80, mostram que da compra de frango em São Paulo, 20% ocorria nos supermercados, 22% nas feiras, 21% nos armazéns e 37% nas avícolas (CYRILLO, 1987). No ano de 1993, dados referentes ao estado de São Paulo (tabela 11) indicam que os supermercados foram responsáveis por 35 a 40% das vendas de frango, ao passo que os mercados tradicionais detinham o restante. Portanto, verificou-se um aumento na participação dos supermercados na comercialização do frango.

Pode-se inferir que os demais estados apresentem participações dos mercados tradicionais na distribuição de frangos semelhantes ou até mesmo superiores àquela verificada em São Paulo. Deve ser ainda ressaltado que os mercados tradicionais são mais presentes nas pequenas e médias cidades do interior, devido ao maior interesse das maiores redes de supermercados de abrir lojas, preferencialmente, em cidades com população elevada e nível de renda adequado.

Desta forma, apesar da expansão dos supermercados nos grandes centros urbanos, que ocorreu no decorrer das últimas três décadas, o acesso aos canais de distribuição de novas empresas na indústria de frangos , tem sido relativamente fácil, devido ao comportamento de compra de parcela considerável de consumidores que realizavam suas compras nos distribuidores tradicionais.

Tabela 11 - Participação dos segmentos de distribuição no mercado de frangos no estado de São Paulo em 1993

(Em %)
Local de compra de frangos Participação estimada 
Supermercados 35 a 40
Avícolas 20 a 25
Açougues 20 a 25
Feiras e sacolões 15 
Mercados municipais e granjas
Fonte: Extraído de Aves e Ovos, setembro de 1993

Por conseguinte, no tocante à força competitiva "ameaça de entrada na indústria", foi verificada a seguinte situação nas indústrias estudadas:

* As economias de escala marcantes nas indústrias são aquelas associadas à operação com multiplantas, à substituição de trabalho por capital, as de integração vertical, as economias de escopo e as economias pecuniárias. Portanto, o entrante potencial para obter baixos custo, deveria entrar com elevado nível de produção.

* As empresas líderes das indústrias detém marcas com forte imagem junto aos consumidores, o que exigiria do entrante potencial a realização de gastos maciços com publicidade para superar a lealdade de consumidores a algumas firmas atuantes nas indústrias.

* O montante de capital necessário para uma firma ingressar de forma competitiva na indústria é relativamente elevado, devido aos custos dos equipamentos modernos, às despesas iniciais com publicidade, e a montagem de instalações em vários segmentos das cadeias de produção (para a firma integrada) e para o capital de giro.

* O acesso ao principal canal de distribuição de alimentos que são os supermercados, é dificil para o entrante potencial, visto que as firmas líderes das indústrias avícola e suinícola são seus principais fornecedores.

As barreiras de entrada, acima listadas, apesar de representarem um empecilho, não configuraram uma impossibilidade para o ingresso de novas firmas nas indústrias. Empresas de pequeno porte entram na indústria e aí sobrevivem, utilizando as seguintes estratégias:

* muitas delas não sofrem a inspeção das suas instalações de produção pelos orgãos oficiais, e não pagam os impostos devidos, por atuarem na clandestinidade;

* distribuem seus produtos em pequenos estabelecimentos da periferia, que não despertam o interesse das empresas de maior porte de atendê-los, devido às pequenas quantidades adquiridas.

* atuam com os produtos mais simples, que não necessitam de equipamentos sofisticados para a sua produção.

* muitas firmas oferecem o produto resfriado, o que as dispensa de adquirir os equipamentos de congelamento.

Estes fatores explicam a elevada rivalidade existente nos segmentos de produtos mais simples das indústrias, que são o frango inteiro, os cortes e alguns produtos de menor elaboração de carne suína, ao passo que para os produtos mais sofisticados a concorrência é bem menor.
 

6.3. PODER DE NEGOCIAÇÃO DOS CLIENTES

Na indústria alimentar, as empresas após efetivar a produção de mercadorias, devem se preocupar com os canais que utilizarão para comercializá-las. Na indústria de carnes, os principais meios utilizados pela indústria para a venda de seus produtos são os seguintes:

a) a venda do produto para atacadistas, em uma transação convencional de mercado. Estes revenderiam o produto aos varejistas;

b) a utilização de representantes exclusivos ou não, que ficariam encarregados de fazer o produto chegar aos pontos de venda do varejo;

c) venda direta aos varejistas.

A distribuição de alimentos no Brasil sofreu grandes modificações desde a década de 30 do presente século até os dias atuais. Na década de 30, o comércio de alimentos era concentrado nas mãos dos atacadistas especializados por linhas de produtos, que se responsabilizavam pela distribuição para uma rede varejista atomizada, a qual era composta por lojas especializadas. Nas décadas de 40 e 50, o atacado diversificado conquistou importante participação na distribuição de produtos alimentícios. A partir daí, observou-se uma gradual perda de importância dos atacadistas em favor do varejo, pois o aumento da escala de produção da indústria alimentar, associada à grande variedade de produtos e marcas requeriam uma nova forma de distribuição, que veio se concretizar com o surgimento das lojas de auto-serviço (os supermercados).

O surgimento e a expansão dos supermercados conduziram à redução da participação dos estabelecimentos especializados na venda de alimentos. Em 1970, os supermercados eram responsáveis por 20% das receitas do varejo, vindo atingir 52% em 1980, segundo dados dos Censos do Comércio. De acordo com dados da empresa de pesquisa de mercado Nielsen, a expansão do varejo diversificado continua nos anos 80, pois em 1982 a sua participação no varejo de alimentos atinge 76%, vindo a subir para 79,4% em 1985.

Durante a década de 70, o processo de expansão dos supermercados foi marcado pela construção de unidades de grande porte , pela aquisição de lojas de outras empresas e ainda pela busca de novos mercados. A entrada do grupo francês Carrefour no mercado em 1975 significou uma mudança na forma de competição no setor, pois o mesmo pautou sua atuação no giro rápido de estoques, estabelecendo preços baixos para os produtos básicos e margens de lucro mais elevadas para os demais, estratégia que passou a ser seguida pelas grandes redes (ROCHA DOS SANTOS, 1993). No início dos anos 80, para responder à crise pela qual passava a economia brasileira, com aumento do nível de desemprego, da inflação e queda da renda nacional, as grandes redes do varejo criaram lojas de sortimento limitado e desaceleraram os investimentos em lojas de maior escala e sofisticação como os hipermercados. Porém, a preferência dos consumidores reconduziu as redes a privilegiar a construção de lojas de grande porte a partir de meados da década.

O surgimento e a posterior expansão dos supermercados resultou na elevação da concentração no setor do varejo alimentar, visto que uma das características deste equipamento de distribuição é a grande escala de operação para poder alcançar economias de escala, principalmente aquelas oriundas do alto poder de barganha que pode ser exercido sobre os fornecedores em decorrência das grandes quantidades de produtos que são adquiridas. Outros fatos que resultaram na maior concentração do setor, foram as aquisições de lojas de concorrentes e o fechamento de muitas lojas do varejo tradicional, incapazes de competir com os preços praticados pelos supermercados.

Alguns dados podem ilustrar o processo de concentração observado no varejo de alimentos no Brasil. Segundo a Nielsen, 2% das lojas eram responsáveis por cerca de 50% das vendas do setor em 1978, subindo para 55% em 1981, e 54% em 1984. Para o ano de 1985, 20% do total das lojas realizavam 87% das vendas totais (CYRILLO, 1987).

Tabela 12 - Número e tamanho médio das lojas das 20 maiores empresas do setor de supermercados, no período de 1987 a 1991
ANO
1987
1988
1989
1990
1991
Numero de lojas
1954
1562
1547
1429
1098
Área média das lojas (m2) 
1073
1352
1425
1539
1786
Fonte: Extraído de ROCHA DOS SANTOS (1993)

Tab 13 - Estrutura do setor de distribuição varejista de alimentos no Brasil no período de 1989 a 1991

(Em %)
Especificação
Número de lojas
Volume de vendas
1989
1990
1991
1989
1990
1991
10 e mais check-outs 0,6  0,6 0,6 28,9 31,1  37,3
5 a 9 check-outs 1,6  1,6 1,5 18,1 17,6  18,9
Até 4 check-outs 12,4  12,4 12,5 31,1  29,9 27,4 
Tradicionais 85,4 85,4 85,3 21,8  21,4 16,3 
Fonte: ABIA (1993)

As tabelas acima mostram a continuidade do processo de concentração no varejo de alimentos. Na tabela 11, observa-se que no período de 1987 a 1991, o número de lojas das 20 maiores empresas de supermercados diminuiu, mas o tamanho médio das mesmas aumentou. Na tabela 12, verifica-se que, no varejo como um todo, as lojas maiores (com 10 ou mais check-outs) mantiveram entre 1989 e 1991 a sua participação no número de lojas em 0,6%, mas aumentaram sua participação de 28,9% para 37,3% no período considerado. Já as pequenas lojas de auto-serviço e as lojas tradicionais, apesar de terem mantido a participação no número de lojas, experimentaram uma redução na participação no volume de vendas. Tais resultado decorrem principalmente do incremento do número de hipermercados, como pode ser visualizado na tabela 15.

Tabela 14 - Hipermercados - número de lojas. Anos selecionados
Ano
1974
1980
1985
1990
1991
Numero de lojas
62
67
113
183
196
Fonte: Adaptado de ABIA (1993)

Nota: Pelo critério da Nielsen, os hipermercados são lojas com área de venda superior a 2500 metros quadrados.

Portanto, pelo que foi apresentado acima, constata-se ter ocorrido no sistema de distribuição de alimentos um processo de concentração. Porém, para se avaliar o poder de negociação dos clientes com a indústria de carnes, outras informações sobre os mesmos se fazem necessárias, tais como:

* volume adquirido pelo grupo de clientes em relação às vendas da indústria;

* representatividade dos produtos adquiridos da indústria nos custos ou compras do grupo comprador;

* tipo de produto adquirido da indústria: homogêneo ou diferenciado;

* nível dos lucros conseguidos pelo grupo comprador (baixo ou elevado);

* a importância dos produtos da indústria para a qualidade dos produtos ou serviços do grupo comprador.

As maiores empresas da indústria de carnes direcionam parcela considerável da sua produção para redes de supermercados ou grandes atacadistas, mas a participação dos pequenos varejistas não é nada desprezível, podendo em algumas empresas ser semelhante a dos supermercados. A empresa Perdigão comercializa 44% da sua produção via varejistas, e 43% através dos supermercados, cabendo 11% ao atacado. Já a líder, a Sadia, destina a maior parte da sua produção aos supermercados. As pequenas e médias empresas da indústria distribuem a maior parte de sua produção via pequenos varejistas. Portanto, estes dados indicam que as grandes empresas da indústria ao terem proporção elevada de sua produção vendida aos supermercados, poderiam ficar fragilizadas nas negociações realizadas com este canal de distribuição.

Quanto à representatividade dos produtos adquiridos da indústria nos custos do grupo comprador, as informações disponíveis referem-se somente à carne de frango e mostram que a mesma representa 3,7% das vendas dos supermercados (AVES E OVOS, 1993). Esta mesma publicação ressalta que, em média, a seção carnes e aves, representa cerca de 12% das vendas de um supermercado, mas provavelmente, os produtos incluídos nesta seção, são aqueles não industrializados. Como já foi citado anteriormente, cerca de 75% da carne suína é comercializada no Brasil na forma de produtos industrializados, os quais são posicionados nos supermercados na seção de frios, o que nos impede de utilizar este dado para obter a participação dos produtos da indústria suinícola na renda dos supermercados. Porém, pode-se imaginar que esta participação não deve ficar muito distante daquela da carne de frango. Portanto, pode-se considerar que os produtos derivados da indústria de carne não possuem uma grande representatividade no faturamento dos supermercados, situação que não os conduziria a ser rigorosos nas negociações com a indústria de carnes.

Os produtos adquiridos pelos distribuidores à indústria de carnes apresentam diferentes graus de homogeneidade. O frango inteiro pode ser classificado como homogêneo, a ponto de imagem da marca do produtor não ser suficiente para garantir a preferência do varejista e do consumidor final, que compra o produto com base no seu preço (caso do frango inteiro). Nos produtos com maior valor agregado, as empresas líderes e mesmo algumas empresas de médio porte, por possuírem produtos de maior qualidade e terem marcas já reconhecidas pelos consumidores, em decorrência da adoção de intensas campanhas de publicidade, conseguem diferenciar seus produtos aos olhos do consumidor. Deve-se atentar ainda que as empresas líderes realizam ainda a diferenciação de produto através da apresentação de linhas de produto mais extensas. Como exemplo, pode-se citar a Sadia, que comercializa diversos tipos de presunto, tais como o cozido (com ou sem capa de gordura), defumado, o parma.

Quanto ao nível de lucros alcançado pelos compradores, o principal canal de distribuição de alimentos, que são os supermercados obtém uma margem de lucro de cerca de 2%, sendo que a lucratividade (taxa de lucro) está associada à diferença entre o prazo de venda e o prazo de pagamento dos produtos.

No último ítem, a importância dos produtos da indústria para a qualidade do produto ou do serviço dos clientes, é inegável para os produtos de maior valor agregado a preferência dos consumidores por aqueles fabricados pelas empresas líderes da indústria de carnes. Além disso, para os produtos mais industrializados o número de fornecedores alternativos é bem mais restrito, o que leva as empresas supermercadistas a desejar comercializar os produtos das grandes empresas da indústria.

Resumindo o que foi visto acima para este ítem, tem-se a seguinte situação:

* o grupo dos compradores dos produtos da indústria experimentou uma expansão da concentração no decorrer das últimas duas décadas;

* os produtos adquiridos da indústria detém uma participação reduzida no faturamento dos compradores;

* os produtos da indústria apresentam um razoável grau de diferenciação, devido à qualidade dos produtos de certas empresas da indústria, bem como devido às intensas campanhas publicitárias adotadas por estas firmas, as quais ainda apresentam extensas linhas de produto, o que as permite atender às diferenças de gosto dos consumidores.

* a principal forma de distribuição dos produtos da indústria, os supermercados, obtém baixas margens de lucro, o que os conduz a ser rigorosos nas suas negociações com as empresas da indústria, tanto no que se refere a preços como a prazos de pagamento;

* os supermercados (pelo menos os maiores) tendem a desejar comercializar os produtos fabricados pelas empresas líderes da indústria, que possuem marcas prestigiadas pelos consumidores.

Portanto, mesmo que seja verificada a presença de fatores que indicam um alto poder de barganha dos principais compradores dos produtos das indústrias, a forte imagem de marca detida por algumas empresas, bem como a qualidade reconhecida de seus produtos, agem no sentido de reduzir aquele poder.

6.4. PODER DE NEGOCIAÇÃO DOS FORNECEDORES

Para se ter uma idéia dos principais insumos consumidos pelas indústrias de carne avícola e suinícola, basta observar-se a composição dos seus custos industriais. Conforme mostra a tabela 14, a matéria-prima é responsável por 73% do custo de produção do frango, e por 67,24 % para o suíno.

Tabela 15 - Composição do custo de produção de um quilo de frango e de suíno na indústria

(Em %)
Ítem / Tipo de carne
Frango
Suíno
Matéria-prima
73
67,24
Mão-de-obra direta
12
11,03
Materiais secundários
7
16,14
Custos indiretos de fabricação 
8
5,59
TOTAL
100
100
Fonte: CHAPECÓ (95) - Perfil Empresarial

Porém, deve-se ter em mente que, crescentemente, o abastecimento da matéria-prima para as empresas da indústria, principalmente nas líderes, tem ocorrido através do sistema de integração entre as empresas da indústria e avicultores e suinocultores. Segundo este sistema, a empresa entrega aos produtores agrícolas, pintos de um dia, matrizes de suíno ou leitões, ração, medicamentos e presta assistência técnica, ao passo que os produtores após um determinado período devem entregar à empresa leitões ou suínos e frangos na idade de abate.

No custo de produção da matéria-prima animal, a alimentação é responsável por 70% para o frango (MALHEIROS, 1991), assim como para o suíno (BORGES, 1993). Medicamentos e produtos veterinários representam menos de 2% dos custos. Tendo em vista que, no sistema de integração, a ração que é repassada aos integrados é elaborada pelas empresas, para se conhecer o grau de concorrência que as empresas da indústria mantém com seus fornecedores, é fundamental ter-se o conhecimento da importância dos componentes da ração em termos dos custos de produção da mesma, bem como se dá o fornecimento dos mesmos para a indústria.

As empresas integradoras, que em 1988, respondiam por 50% do fornecimento de ração para aves de corte e 40% para a suinocultura no país (SANSON & SOUZA, 1993), produzem dois tipos de ração, a completa e o concentrado. A ração completa é composta pela mistura de produtos de origem vegetal e animal. Os principais componentes de origem vegetal são o milho, o farelo de soja e o farelo de algodão, aos quais é adicionado o núcleo (composto de cálcio, fósforo, sódio e magnésio), aditivos e farinha de carne. Os concentrados tem uma constituição semelhante à da ração, com a diferença de não conter milho, o qual lhe é adicionado na propriedade agrícola. (LAZZARINI & alli, 1996).

No sistema integrado, na avicultura parcela substancial da ração direcionada aos produtores pelas empresas é a completa, ao passo que na suinocultura predomina o fornecimento do concentrado, o qual é misturado ao milho produzido na própria propriedade do integrado (WEDEKIN, 1995)

No que se refere à participação no custo de produção da ração, o milho é responsável por 40 a 45% , e o farelo de soja contribui com 25 a 30% (LAZZARINI & alli, 1996). Já o premix detém uma participação de 5%, e os produtos veterinários 1,2% (BORGES,1993).

Da produção brasileira total de milho, 33,6% é utilizada como insumo na avicultura e 17% na suinocultura. As empresas integradoras compram pequena parcela das suas necessidades de milho diretamente de seus integrados, e a maior parte de atacadistas, cooperativas, produtores independentes, ou mesmo do governo (CFP).

O preço do milho é estabelecido no mercado, através da interação entre a oferta e a demanda, devido às características do produto e da sua produção. O milho é um produto homogêneo, o que significa que o comprador é indiferente quanto ao seu vendedor, e a sua produção é realizada por grande número de produtores. O fato de as empresas integradoras adquirirem a maior parte das necessidades de milho de agentes comerciantes de maior porte, tais como atacadistas, cooperativas e o próprio governo, não altera o fato de que o principal elemento determinador das cotações do produto sejam as condições de oferta e demanda pelo mesmo em determinado momento.

A soja, que é o segundo mais importante insumo no custo da ração, tem 80% da sua produção adquirida pela agroindústria e cooperativas agroindustriais, que a comercializam na forma de grãos ou a esmagam para obter farelo ou óleo. Da parcela de farelo de soja que não é exportada, a maior parte é direcionada para a fabricação de ração.

As três empresas líderes da indústria de carnes que elaboram a ração que é passada aos produtores integrados, ainda fabricam elas mesmas o farelo de soja que consomem na produção de ração, além de realizarem a produção de óleo bruto degomado, óleo refinado, margarinas e cremes vegetais.

As empresas que não fabricam o farelo de soja, o adquirem no mercado, seja de empresas comerciais que produzem ração ou mesmo dos concorrentes que o fabricam. Portanto, para as empresas integradas que fabricam ração, tem-se duas situações nas suas relações com os fornecedores de soja ou farelo de soja. Para as empresas que elaboram o farelo de soja, a sua preocupação relaciona-se à aquisição da soja em grão, ao passo que para as empresas que não fabricam o farelo, o seu relacionamento é com os produtores do mesmo. Porém, sendo a soja em grão e o farelo produtos homogêneos, comercializados no mercado internacional, eles tem os seus preços no mercado interno altamente influenciados pelas cotações estabelecidas na Bolsa de Mercadoria de Chicago.

Para se conhecer a pressão de custo na indústria de carne, observar-se-á a evolução do consumo, da produção e dos preços da soja em grão, do farelo de soja e do milho.
 
 
 
 
 
 

Tabela 16 - Evolução dos índices de preços do suíno, frango, milho e farelo de soja, 1985 a 1995
Produto / Ano 1985  1986 1987 1988 1989 1990  1991 1992 1993 1994 1995 
Pernil de suíno 100 104 96 117 196 169 148 112 139 169 217
Milho 100 109  82 108 118  133 121 100  111 116 108 
Frango 100 118  125 126 171  190 135 129  134 152 156 
Soja 100 96  100 136 125  100 107 112  116 119 119 
Farelo 100 127  140 180 147  120 120 127  113 113 96 
Nota: Milho: Preço da saca no atacado em Chapecó.

Soja: Preço da saca no atacado em Santa Catarina

Farelo de soja: Preço da saca no atacado em Santa Catarina

Pernil: Preço do kg do pernil no atacado em Chapecó (SC)

Frango: Preço do kg no atacado em Chapecó.(SC)

Fonte: Elaboração do autor a partir de dados do ICEPA/SC

Pela tabela 16, na qual constam a evolução dos índices de preços, observa-se que o preços do frango e do pernil de suíno apresentaram evoluções no mesmo sentido que o preço do milho na maioria dos anos, o que acontece somente em alguns anos em relação aos preços da soja em grão e o farelo de soja, o que é coerente, já que o milho é o insumo que detém maior participação no custo de produção dos animais. No período enfocado, 1985 a 1995, parece ter ocorrido um ganho para a indústria, no sentido desta ter melhorado a sua situação no que se refere a evolução dos preços de seus produtos em comparação com os preços dos principais insumos. Tal suposição é confirmada pelos dados da tabela 17, onde tem-se as relações entre os preços de alguns produtos da indústria (pernil de suíno e frango) e dos principais insumos (milho, soja em grão e farelo de soja). Nos primeiros anos da segunda metade década de 80, o preço de um kilo de pernil de suíno correspondia a menos de 15 kg de milho, ao passo que a partir de 1989, essa relação supera em quase todos os anos a 18. As relações preço do pernil de suíno/soja ou farelo de soja, apresentam evolução semelhante.

No que se refere ao frango, a relação entre seu preço e o do milho apresenta uma evolução oscilante. Porém, a relação de preços entre o frango e a soja em grão e o farelo de soja, caracteriza-se por pequenas variações em torno de um valor médio.
 
 

Tabela 17 - Relações de preços entre alguns produtos finais da indústria e os principais insumos, 1985 a 1994
Produto 

/ Ano 

1985 1986 1987 1988 1989  1990 1991 1992 1993 1994  1995
Pernil/milho 14,67 14,14  17,24 15,91 24,25  18,66 18,06 16,45  18,40 21,37 29,31 
Frango/milho 7,19 7,84  11,03 8,43 10,40  10,28 8,07 9,25  8,65 9,43 10,34 
Pernil/farelo 10,46 8,63  7,14 6,78 14  14,72 12,94 9,26  12,88 15,59 24,29 

Frango/soja

4,53 5,58 5,65 4,18  6,19 8,59 5,78  5,21 5,23 5,52  5,94
Frango/farelo 5,13 4,79  4,57 3,59 8,11 5,78 5,21  6,06 6,88 8,57 
Pernil/soja 9,23 10,06  8,82 7,08 14,46  15,59 12,94 9,26  11,12 12,5 16,83 
Fonte: Tabela elaborada pelo autor a partir de dados da tabela 16

Portanto, pelo exposto acima, verifica-se que a indústria integradora não sofreu pressões de custo no período acima enfocado. Deve ser ainda relembrado, que as empresas líderes da indústria possuem várias alternativas para a compra dos cereais, optando por aqueles fornecedores que tiverem os preços mais baixos. Para as empresas que adquirem o farelo no mercado, mesmo que a produção deste ocorra em uma indústria com elevado grau de concentração, a homogeneidade do produto reduz o poder de barganha das empresas desta última.

Porém, não deve ser esquecido que parcela das produções de derivados de carnes de frango e de suínos ocorre em empresas independentes, cujo abastecimento da matéria-prima animal realiza-se no mercado, seja diretamente junto aos produtores rurais ou junto a atacadistas ou intermediários. Em função do número relativamente alto de fornecedores dos animais, e da indiferença das empresas independentes quanto ao vendedor, tem-se uma situação em que o poder dos fornecedores configura-se como moderado.

6.5. PRODUTOS SUBSTITUTOS

A população brasileira procura suprir a maior parte das suas necessidades de proteína animal através do consumo de carnes bovina, suína e de aves, sendo o consumo de outros tipos de carne menor (peixe, ovino), seja devido a hábitos há muito enraizados, ou mesmo à maior disponibilidade das mesmas. Portanto, pode-se afirmar que as carnes suína, avícola e bovina são substitutas entre si.

A evolução do consumo de carne no Brasil é semelhante àquela observada nos Estados Unidos e na Europa. Naquelas regiões, no pós-guerra, os avanços tecnológicos nas áreas da genética e da nutrição, conduziram a elevados ganhos de produtividade das aves, superiores aos obtidos para os outros tipos de carnes. A consequente redução do preço da carne de aves, associada à preocupação com a saúde ou a estética, resultou em alterações substanciais no consumo de carnes. Nos Estados Unidos, o consumo de aves, que em 1960 havia sido de 15,5 kg per capita, atingiu 41,1 kg em 1990, ao passo que para a carne bovina, a evolução foi de 60,5 kg para 54,5 kg nos dois anos considerados. Na Comunidade Econômica Européia, entre 1980 e 1990, o consumo de carne bovina reduziu-se de 6.135 milhões de toneladas para 5.842, enquanto que o consumo de frango aumentou de 3.708 mihões para 4.957 milhões (WILKINSON, 1993).

No Brasil, em 1970 o consumo per capita de carne de frango correspondia a 6,9% do consumo total dos três tipos de carnes, contra 68,7% para a carne bovina e 24,4% para a carne suína. No ano de 1980, o consumo de carne de frango havia atingido uma participaçãode 18%, ao passo que a de bovinos e de suínos alcançaram, respectivamente, 65,5% e 16,6%. Para 1993, as participações no consumo total percapita dos três principais tipos de carne foram de 35,2% para a de frango, 49,1 % para a bovinos e de 15,7% para a de suínos.

Tabela 18 - Participação das carnes de frango, suíno e bovino no consumo total destes três tipos de carne

(Em %)
Tipos de Carnes /Ano
1970
1975
1980
1985
1990
1993
Frangos
6,9
11,7 
18
23,1
30,5
35,2
Bovinos
68,7
71,1
65,5
59,1
53,6
49,1
Suínos
24,4
17,2
16,6
17,9
15,9
15,7
Fonte: Elaborada pelo autor a partir de dados de Aves e Ovos, fev. 1995

Durante a década de 70, o consumo per capita de frango aumentou em 287%, enquanto que o de bovinos e suínos, apresentaram incrementos da ordem de, respectivamente, 42% e 1,2%. Já para a década de 80, observou-se um aumento de 50,6% para a carne de frango, contra reduções de 27,2% e 14,6% no consumo per capita das carnes bovina e suína (tabela 19).

Tabela 19 - Evolução do consumo per capita de carne de frango, bovino e suínos nas décadas de 70 e 80

(Em%)
Tipo de carne / Ano Década de 70  Década de 80
Frangos
287,0
50,6
Bovinos
42,0
-27,2
Suínos
1,2
-14,6
Fonte: Elaborada pelo autor a partir de dados de Aves e Ovos, fev. 95

Portanto, a estrutura de consumo de carnes no Brasil sofre modificações, no sentido da expansão do consumo de carne de frango em detrimento do consumo das outras duas carnes. A tabela 19, onde são apresentados os preços reais de carcaça de suíno e do frango, ambos no atacado em Chapecó, nos permite verificar que os dois produtos sofreram queda nos seus preços no período de 1985 a 1995. Porém, para a carne de suíno, isto não conduziu a um aumento no consumo per capita, por dois motivos. O primeiro refere-se ao fato de que cerca de 75% da carne suína comercializada no país ocorre na forma de produtos industrializados, cujos preços impediriam o seu consumo por parcela considerável da população. O segundo motivo relaciona-se à existência de preconceitos por parte dos consumidores em relação à carne suína "in natura", baseados na crença de que o consumo deste tipo de carne pode trazer problemas de saúde, em decorrência de elevada taxa de colesterol que a mesma conteria, e da imagem de que o suíno, por estar frequentemente "enlameado", estaria sujeito a doenças que poderiam ser transmitidas aos consumidores, através do consumo da carne.

Porém, um fator que deve ser associado aos anteriores, para explicar a estagnação do consumo de carne suína é a relação de preço entre os produtos disponíveis no varejo para o consumidor. Nos supermercados, em geral, a carne suína "in natura" apresenta-se na forma de lombo, pernil, costela/paleta. Comparando-se o preço da costela/paleta com o do frango inteiro, tem-se uma vantagem nítida em favor do último (tabela 20)

Tabela 20 - Preço real no atacado em Chapecó da carcaça de suíno e do frango (Em reais)
Carne / Ano 1985  1986 1987 1988 1989 1990  1991 1992 1993 1994 1995 
Carcaça suína 4,1  4,14 2,96 2,93  3,83 2,33 2,31  1,95 2,09 1,9  1,93
Frango 2,1 2,26  2,12 1,84 1,92  1,71 1,44 1,43  1,34 1,22 1,14 
Nota: Carcaça suína: preços do kg, no atacado em Chapecó, corrigido pelo IGP-DI

Frango congelado: preço do kg no atacado em Chapecó, corrigido pelo IGP-DI

Fonte: ICEPA

A relação de preço entre a carne de frango e a carne bovina auxilia na explicação do crescimento do consumo da primeira. De acordo com a tabela 21, no período 1989 a 1994, ocorreu uma diminuição no preço do frango em relação ao preço do acém no varejo, fato que provavelmente também ocorreu em períodos anteriores, e que teria conduzido os consumidores de carne a ampliarem o consumo da carne de aves.

Tabela 21 - Preço do frango em relação ao acém no varejo, no período de 1989 a 1994
Tipo de carne / Ano
1989
1990
1991
1992
1993
1994
Frango
1,80
1,98
1,36
1,24
1,22
1,45
Acém
2,12
1,75
1,99
2,01
2,10
3,42
Preço frango / Preço do acém 
0,85
1,13
0,68
0,62
0,58
0,42
Frango:resfriado, no varejo, US$/kg

Acém: no varejo, US$/kg

Fonte: Aves e Ovos, fev 95

Concluindo, os produtos das duas indústrias enfocadas nesta parte da pesquisa são substitutos entre si e com a carne bovina. O grande desenvolvimento experimentado pela avicultura nacional a partir da década de 70, baseada na incorporação de avançada tecnologia, resultou na redução dos custos de produção e dos preços e em elevadas taxas de crescimento da produção e do consumo de frangos. Tal fato tornou a carne de frango mais competitiva perante as carnes consideradas substitutas, principalmente em relação à bovina. Já para a carne suína, deve ser lembrado que somente cerca de 25% da sua produção é comercializada in natura e que a estagnação no seu consumo deve-se não somente à uma questão de preço relativo, mas também a preconceitos da população. Portanto, ao se pensar sobre os produtos substitutos para aqueles da indústria suinícola, devem ser considerados, prioritariamente, aqueles que poderiam substituir na preferência do consumidor os industrializados de carnes suína, o que só viria a acontecer no final da década de 80, com o lançamento pela indústria de carne avícola, de produtos industrializados, tais como presunto, linguiça, salsicha, hamburguer e outros.

As empresas líderes da indústria de carnes enfocadas nesta pesquisa iniciaram as suas atividades no segmento de carnes suínas, e entraram no segmento de carne avícola ao perceberem o potencial de crescimento oferecido pelo mesmo. Algumas delas atuam também na fabricação de produtos derivados de carne bovina. Desta forma, estas empresas, bem como outras de porte médio da indústria, possuem maior flexibilidade para responder às alterações na rentabilidade oferecida nas duas indústrias. Além disto, atualmente vários produtos utilizam na sua composição os três tipos de carne.

6.6. CONCLUSÃO DO CAPÍTULO

Neste capítulo foi caracterizada a estrutura das indústrias de carne avícola e suinícola, bem como a sua evolução, através do levantamento do comportamento das cinco forças competitivas, o qual será exposto a seguir.

Inicialmente, foi verificado que existe uma tendência de ocorrência de acirrada concorrência nas indústrias, devido às baixas taxas de crescimento do mercado para os produtos derivados de carne suína, os elevados custos de armazenamento dos produtos e a grande importância destas indústrias no faturamento das suas empresas e a ausência de diferenciação para os produtos básicos.

Foi também constatado a ocorrência de fatores que poderiam caracterizar a existência de elevadas barreiras de entrada nas indústrias, tais como economias de escala, forte imagem das marcas das empresas líderes para alguns segmentos de mercado, elevado montante de capital necessário para a firma ingressar de forma competitiva nas indústrias, e o difícil acesso ao principal canal de distribuição de alimentos (os supermercados). Porém, tais fatores não impediram o ingresso de firmas de pequeno porte que sobrevivem seja atuando na clandestinidade e/ou produzindo produtos mais simples que são distribuídos para pequenos estabelecimentos varejistas da periferia. Porém, não se pode se negar que nos segmentos de mercado que englobam produtos mais elaborados, as dificuldades de entrada são elevadas devido aos fatores acima citados.

O principal cliente dos produtos das indústrias enfocadas neste estudo são os supermercados, os quais possuem elevado poder de negociação frente às empresas da indústria devido a fatores, tais como a elevada concentração do setor, a reduzida participação dos produtos da indústria de carnes em seu faturamento, as baixas margens de lucro. Por outro lado, em relação às firmas líderes da indústria de carnes, o poder de negociação dos supermercados é menor devido à forte imagem de marca e à reconhecida qualidade dos produtos daquelas firmas.

Para as indústrias avícola e suinícola, os principais insumos são o milho e a soja (farelo ou grão). Devido à homogeneidade destes cereais, o poder de barganha de seus fornecedores é moderado.

No que se refere à ameaça dos produtos substitutos, têm-se que os produtos das duas indústrias enfocadas neste estudo são substitutos entre si, e que seus produtos básicos (a carne in natura) sofrem a concorrência da carne bovina. As empresas líderes ao atuarem com o processamento dos três tipos de carne não sofrem a concorrência dos produtos substitutos. O mesmo não se pode dizer das firmas que atuam sómente no segmento de carne suína "in natura" que estão sujeitas à concorrência com as firmas que atuam na indústria avícola e bovina.