2.1.7. Intencionalidade (continuação)

Um modo de resumir a explicação da intencionalidade, na versão que Searle (1995, p. 74) utiliza, é a apresentação do quadro comparativo 01 das características formais dos vários tipos de intencionalidade, como: a crença, o desejo e a percepção visual. Searle acrescenta a lembrança de acontecimentos do passado, uma vez que esta compartilha algumas características da percepção visual (tal como ver, lembrar e auto-referir) e algumas das crenças16 (tal como crer, lembrar é mais uma representação que uma apresentação).

Os verbos "ver" e "lembrar", diferentemente dos verbos "desejar" e "crer", implicam não apenas a presença de um conteúdo intencional, mas também que esse conteúdo seja satisfeito. Se uma pessoa vê um estado de coisas, condição de satisfação da experiência visual, deve haver algo mais que a experiência visual da pessoa; deve existir e deve causar a experiência. E se, realmente, uma pessoa lembra de algum acontecimento, este deve ter ocorrido e isto deve evocar a lembrança da pessoa.

Tem-se a inclinação de considerar que as percepções, puras e imaculadas, chegam às pessoas pela linguagem, e são rotulados através de definições ostensivas, os resultados dos encontros perceptivos. Tal imagem, no entanto, é falsa sob vários aspectos.

Em primeiro lugar, a percepção é uma função da expectativa e pelo menos as expectativas dos seres humanos costumam ser, normalmente, realizadas lingüisticamente. Portanto, a própria linguagem afeta o encontro perceptivo (ibid., p. 76).

Quadro 01: Uma comparação entre algumas das características formais da intencionalidade de ver, crer, desejar e lembrar

 
Ver
Crer
Desejar
Lembrar
Natureza do componente intencional 
Experiência visual
Crença
Desejo
Memória
Apresentação ou representação
Apresentação 
Representação
Representação
Representação
Casualmente autoreferente
Sim
Não
não 
Sim
Direção de ajuste
Mente-mundo
Mente-mundo
Mundo-mente
mente-mundo
Direção de causação 
Tal como determinada pelo conteúdo Intencional
Mundo-mente
Nenhuma
Nenhuma
mundo-mente
Fonte : Searle (1995, p. 75).

Em segundo lugar - e mais importante, segundo Searle (op. cit, ) - muitas das experiências visuais sequer são possíveis sem o domínio de certas capacidades de sustentação, entre as que figuram, com destaque, as lingüísticas. Um certo domínio conceitual constitui uma pré-condição para que se tenha uma experiência visual; e tais casos sugerem que a Intencionalidade da percepção visual esteja atada, de diversas maneiras, a outras formas de Intencionalidade, tais como a crença e a expectativa, e também com nosso sistemas de representação, sobretudo a linguagem. Tanto a rede de estados intencionais como o ‘pano de fundo’ (background) das capacidades mentais não-representacionais afetam a percepção.

Mas se a Rede e este ‘pano de fundo’ afetam a percepção, como podem as condições de satisfação serem determinadas pela experência visual? Há pelo menos três casos a seguir que precisam ser discutidos:

Nestes dois últimos exemplos não se tem a menor inclinação a pensar que qualquer coisa é diferente no mundo real correspondente às diferenças das experiências.

Existem, portanto, diversos modos pelos quais a Rede e o Background da intencionalidade estão relacionados ao caráter da experiência visual, e tal caráter está relacionado às suas condições de satisfação.

A abordagem de intencionalidade argumentada por Searle é absolutamente naturalista: o autor pensa nos estados, processos e eventos intencionais como parte da história da vida biológica da unidade autopoiética humana, do mesmo modo como a digestão, o crescimento e a secreção de bílis fazem parte da história da vida biológica. De um ponto de vista evolucionário, da mesma forma como há uma ordem de prioridade no desenvolvimento de outros processos biológicos, há uma ordem de prioridade no desenvolvimento dos fenômenos intencionais. Nesse desenvolvimento, a linguagem e o significado, ao menos no sentido que lhes é atribuído pelos seres humanos, surgiram bem tardiamente. Muitas espécies além da humana têm crenças, desejos e intenções, mas muito poucas espécies, talvez apenas a humana, têm uma forma de intencionalidade não só peculiar, como também biologicamente baseada, que é associada à linguagem e ao significado.

A intencionalidade difere de outros tipos de fenômenos biológicos por ter uma estrutura lógica e, assim como há prioridades evolucionárias, há também prioridades lógicas. Uma conseqüência natural da abordagem biológica advogada é considerar o significado, no sentido em que os falantes significam alguma coisa por suas emissões, como um desenvolvimento especial de formas mais primitivas de intencionalidade.

A capacidade dos atos de fala para representar objetos e estados de coisas no mundo é uma extensão das capacidades mais biologicamente fundamentais da mente (ou do cérebro) para relacionar o organismo ao mundo por meio de estados mentais como crença e desejo, em especial através da ação e da percepção. Contudo, alguns embaraços apresentam-se quando se reflete sobre as seguintes considerações (ibid., p. 321): os objetos não são dados anteriormente ao sistema de representação; o que é tido como um único ou mesmo objeto é função do modo como dividimos o mundo. O mundo não chega às unidades autopoiéticas dividido já em objetos; compete a cada unidade dividi-lo; e o modo como é dividido é de competência do sistema de representação e, nesse sentido, é de sua competência, ainda que se trate de um sistema biológico, cultural ou lingüisticamente configurado. Ademais, para que alguém possa atribuir um nome a determinado objeto ou saber que determinado nome é o nome de tal objeto, é necessário que a unidade disponha de alguma outra representação daquele objeto, independentemente da simples posse do nome.

Dado que os objetos de conhecimento não são dados e fixados a priori, mas repetidamente levados adiante via operação de distinção humana, suas fronteiras não são definidas. conseqüentemente, a linguagem usada para coordenar ações derivadas do conhecimento deve aparecer como "imprecisa e difusa" sob qualquer que seja a perspectiva de processamento de informação. Em realidade, a linguagem difusa é não somente adequada, efetiva e "precisa" para os propósitos de ação e coordenação, mas necessária (Zeleny, 1991., p. 110).

O conhecimento para o observador é a distinção de "objetos" (conjuntos ou unidades) através das quais produz comunicação da experiência a um conjunto coerente e auto-consistente de ações coordenadas (ibid., p. 109). Através da operação (ou processo de distinção), peças de dados e informações individuais (componentes, conceitos) ficam conectadas com os outros (ex. organizados) em uma rede de relações. O conhecimento está contido em um padrão organizacional global da rede e não de alguns componentes separados (não em uma simples agregação ou coleção). Assim, a rede de relações emergentes, em vez de determinar o que e como adicionar componentes, é levada adiante ("produzida", interpretada), a partir do background. A organização da rede é necessariamente circular (organizacionalmente fechada), auto-mantida e auto-produzida. Estes componentes são sujeitos a perturbações estruturais externas (e internas) e "excitam" ou "inibem" os outros de uma maneira simultânea ou paralela (Rumelhart, Zeleny apud Zeleny, 1991).

Portanto, o conhecimento é um sistema autopoiético(auto-produzido) (Zeleni, op.cit., p. 109).

Uma vez que os atos de fala são um tipo de ação humana e a capacidade da fala para representar objetos e estados de coisas faz parte de uma capacidade mais geral da mente para relacionar o organismo ao mundo, qualquer explicação completa da fala e da linguagem exige uma explicação de como a mente/cérebro relaciona o organismo com a realidade. Porém, sejam quais forem os princípios para fornecer uma interpretação adequada do cérebro, terão de reconhecer a realidade da intencionalidade do cérebro e explicar suas capacidades causais (Kripke, Donnellan apud Searle op. cit, p. 325).

2.2. Desenvolvimento humano

Neste ponto será realizada uma análise dos princípios gerais do desenvolvimento humano. Serão examinadas também as idéias dos grandes teóricos do desenvolvimento cognitivo de maior influência, a saber, Jean Piaget e Lev Vigotsky.

2.2.1. Desenvolvimento

No sentido psicológico mais geral, o termo desenvolvimento refere-se a certas mudanças que ocorrem nos seres humanos (ou animais) desde a concepção até a morte. O termo não se aplica a todas as mudanças, mas àquelas que se dão de forma ordenada e permanecem por um período de tempo razoável. Entretanto, uma mudança temporal, como resultado de uma enfermidade breve não é considerada como parte do desenvolvimento. Alguns psicólogos sugerem os tipos de mudanças que podem ser qualificados como desenvolvimento: as mudanças, pelo menos as que acontecem no começo da vida, são para o bem e resultam em uma conduta mais adaptativa, organizada, efetiva e complexa (Mussen, Conger, Kagan apud Woolfolk, 1996, p. 26).

Os psicólogos discutem três aspectos destas mudanças (Good, Brophy, 1997, p. 27): seqüência, a ordem em que ocorrem as mudanças; ritmo, a velocidade com que ocorrem as mudanças, e forma, aspecto ou aparência da entidade que se desenvolve em qualquer ponto do tempo.

Pode-se dividir o desenvolvimento humano em vários aspectos (Woolfolk, 1996, p. 26): físico, referente às mudanças corporais; pessoal, o termo que geralmente se utiliza para referir-se às mudanças da personalidade de um indivíduo; social, referente às formas de inter-relacionamento entre os indivíduos17; cognitivo, referente às mudanças ocorridas no pensamento.

É útil distinguir crescimento e desenvolvimento quando se analisam mudanças físicas. Crescimento refere-se a incrementos em estatura, peso e tamanho físico. Desenvolvimento é um termo que pode referir-se tanto à mente e às emoções, quanto ao corpo, é uma progressão ordenada em níveis cada vez mais altos, tanto de diferenciação como de integração dos componentes de um sistema (Good, Brophy, 1997, p. 27).

Muitas mudanças ocorridas durante o desenvolvimento são somente resultado do crescimento e do amadurecimento, que referem-se às mudanças ocorridas de maneira natural e espontânea, em grande medida programadas a nível genético. Tais mudanças se apresentam com o tempo e a influência que o entorno tem sobre elas é relativamente baixa, com exceção dos casos de desnutrição ou enfermidades graves. Grande parte do desenvolvimento físico de uma pessoa cai nesta categoria. Outras mudanças são conseqüência da aprendizagem18, adquirida na interação dos indivíduos com seu meio. Tais mudanças constituem uma grande parte do desenvolvimento social de uma pessoa. A maioria dos psicólogos concorda que, na área do desenvolvimento do pensamento e da personalidade, tanto o amadurecimento como a interação com o entorno (natural ou adquirido, como ocasionalmente são denominados) são importantes, mas difere a respeito da importância que deve ser atribuída a cada uma.

Além das controvérsias sobre os aspectos que compõem o desenvolvimento e o modo como acontecem, são poucos os princípios gerais que contam com o respaldo de quase todos os teóricos (Woolfolk, 1996, p. 26), a saber:

2.2.2. Desenvolvimento cognitivo

O psicólogo Piaget idealizou um modelo que descreve como os humanos dão sentido ao seu mundo, extraindo e organizando informação. A seguir serão analisadas as teorias de Piaget, já que oferecem uma explicação do desenvolvimento do pensamento desde a infância até a idade adulta.

Para Piaget (Good, Brophy, 1997, p. 29), os seres humanos nascem como processadores de informação ativos e exploratórios, e constroem o seu conhecimento em lugar de adquiri-lo já pronto em resposta à experiência ou à instrução. Ele via os humanos em luta constante para adaptar-se ao seu ambiente, construir conhecimento que lhes permita perceber o significado e exercer o controle por meio de mecanismos adaptativos.

A maior parte da teoria e investigação de Piaget foi centrada na investigação das operações cognitivas implicadas no pensamento e na solução de problemas. O autor acreditava que estas operações cognitivas se desenvolviam originalmente como reconstruções mentais das operações conductuais que os bebês e as crianças construíam no processo de explorar o ambiente e solucionar os problemas que ali encontravam . Freqüentemente se referia ao pensamento como ação internalizada (Wood apudibid.).

Como resultado de suas primeiras investigações sobre biologia, o autor concluiu em que todas as espécies herdam duas tendências básicas ou "funções invariáveis".A primeira destas tendências é para a organização; combinar, ordenar, voltar a combinar e voltar a ordenar condutas e pensamentos em sistemas coerentes. A segunda tendência é para a adaptação ou ajuste ao entorno (Woolfolk, 1996, p. 30). A seguir, serão estudadas estas tendências:

Piaget designou a estas estruturas de esquemas, que são os marcos de referência cognitiva, verbal e condutual que se desenvolvem para organizar a aprendizagem e para guiar o comportamento (Good, Brophy, 1997, p. 30). Com o desenvolvimento, o conhecimento a respeito do ambiente e a maneira de responder a ele é codificado e armazenado em forma de esquemas, que são aperfeiçoados de maneira contínua. É útil distinguir os diferentes tipos de esquemas: O desenvolvimento cognitivo ocorre não somente através da construção de novos esquemas, mas também, da diferenciação e integração dos esquemas existentes. Conforme o conhecimento se desenvolve em um domínio particular, os esquemas existentes se coordenam com outros mais complexos que integram construções inicialmente separadas.

A seqüência de aquisição de esquemas é universal, mas os ritmos com os quais se desenvolvem e as formas que adotam dependem das diferenças individuais na maturação, nas experiências ambientais, na aquisição de conhecimento por meio da interação social e fatores de equilíbrio únicos. O desenvolvimento de esquemas procede através de quatro períodos (etapas) qualitativamente distintos, como mostrado no quadro 02.

Quadro 02: Períodos e níveis para o pensamento infantil.
  Períodos                    Idades19 Características
Períodos preparatórios, pré-lógicos
Sensoriomotor do nascimento Até 2 anos

Pré-operatório de 2 a 7 anos 

Coordenação de movimentos físicos, pré-representacional e pré-verbal.

Habilidade para representar-se a ação mediante ao pensamento e à linguagem; pré-lógico.

Períodos avançados, pensamento lógico
Operações de 7 a 11 anos
Concretas

Operações de 11 a 15 anos
Formais 

Pensamento lógico, mas limitado à realidade física.
 

Pensamento lógico abstrato e ilimitado.

Fonte: Labinowicks (1987, p. 60).

Piaget viu o desenvolvimento de esquemas como universal, seqüencial, variável em ritmo e , de maneira considerável, em forma. As diferenças de ritmo e forma são atribuídas a quatro fatores, a saber (Good, Brophy, op. cit. p. 31): maturação, experiência individual, interação social (socialização e educação formais e informais) e equilibrio (autodireção e regulação internas).

De maneira breve, o processo de equilíbrio opera assim: caso seja aplicado um esquema particular a um evento ou situação e este funcionar, então haverá equilíbrio. Se o esquema não produzir um resultado satisfatório, então haverá desequilíbrio e a pessoa sentir-se-á incomodada. Isto motivará a busca de uma solução mediante a assimilação e acomodação e, portanto, o pensamento muda e progride. Com o objetivo de se manter um equilíbrio entre os esquemas para compreender o mundo e os dados que este proporciona, assimila-se continuamente nova informação, utilizando-se esquemas existentes e acomoda-se o pensamento. Sempre que as tentativas para assimilar sejam infrutuosas, o desequilíbrio será gerado.

A abordagem sugerida por Piaget para o estudo da equilíbrio dos sistemas cognitivos envolve três problemas centrais, a saber (Wazlawick, 1995, p. 6): os tipos de equilíbrio, a razão dos desequilíbrios e os mecanismos dos reequilíbrios.

Segundo Giusta (1985):

Piaget nega que sua teoria seja uma teoria de aprendizagem, classificando-a como uma teoria do desenvolvimento. Admite, porém, que ela possa ser vista também como uma teoria da aprendizagem, desde que esta tenha o seu conceito ampliado de maneira a incorporar os processos de equilibração, que são internos e não hereditários. 2.2.3. Pensamento e linguagem

O desenvolvimento da linguagem inclui aspectos tanto estruturais como funcionais. Os aspectos estruturais incluem conhecimento dos elementos das orações (gramática) e da forma de combinar estes elementos em seqüências, que constituem as exigências estruturais da linguagem (sintaxe). Os aspectos funcionais referem-se à capacidade de usar a linguagem para comunicar-se, pensar e resolver problemas. Diferentes fatores influem no desenvolvimento destes dois aspectos da linguagem.

De maneira tradicional, os teóricos da aprendizagem têm explicado o desenvolvimento da linguagem usando conceitos, tais como exposição (modelamento), repetição e reforço.

Chomsky (apud Good, Brophy, 1997, p. 61) e outros nativistas são teóricos que explicam as características ou capacidades, referindo-se à estrutura genética das espécies ou do indivíduo, em vez da aprendizagem adquirida através da experiência. Acreditam que a capacidade para gerar linguagem de acordo com regras gramaticais é inerente ao cérebro e às funções humanas, e não requer instrução ou reforço sistemáticos. Chomsky postulou um mecanismo inato de aquisição da linguagem que permite a todos os humanos apreender a linguagem simplesmente pela exposição a ela. A linguagem também pode ser apreendida pela instrução sistemática, mas para Chomsky, esta não é a maneira típica.

É verdade que a linguagem e o pensamento interagem e que a linguagem pode influir no pensamento, embora não pareça certo a regra geral de que a linguagem estruture o pensamento (Gelman, Byrnes, apud ibid. p. 63). Em vez disso , parece que as culturas centram sua atenção em certos aspectos do ambiente devido a sua importância para a adaptação ou para as tradições culturais (Moll apud ibid. p. 63).

É provável que a relação entre pensamento e linguagem tenha sido melhor expressada por Vigotsky (apud Woolfolk, op. cit., p. 31). Este autor mostrou que na etapa sensoriomotora e no início da etapa pré-operacional o pensamento e a linguagem se desenvolvem de maneira independente (apud Good, Brophy, 1997, p. 63). O pensamento é pré-lingüístico e a linguagem é pré-inteletual. O pensamento, em sua maior parte, implica esquemas sensoriomotores e cognitivos não verbais. As crianças pensam, mas em formas intuitivas que não implicam muito o uso da linguagem. Portanto, a linguagem se desenvolve e funciona, principalmente, como uma forma de expressar necessidades pessoais, emoções, e sentimentos. A linguagem é usada como um meio de comunicação durante estes primeiros anos, mas não, ordinariamente, como expressão do pensamento.

Conforme as crianças começam a tornar-se operacionais, o pensamento e a linguagem se relacionam. As crianças tornam-se cada vez mais capazes de expressar pensamentos através da linguagem, de usar a linguagem para comunicar conceitos e de pensar e solucionar problemas de maneira verbal. Devido a isto, parece, também mudam de formas inferiores de resposta a problemas de transposição a formas superiores, e vencem as deficiências mediadoras e de produção. Em resumo, uma confluência de desenvolvimentos cria mudanças qualitativas nas estruturas cognitivas das crianças e nas formas como funcionam estas estruturas, especialmente em situações novas que requerem acomodação ou solução de problemas.

Vygotsky enfatizou muito mais que Piaget o papel da linguagem no desenvolvimento cognitivo. De fato, Vygotsky acreditava que a linguagem em forma de discurso pessoal (Woolfolk, op. cit., p. 47) ou discurso egocêntrico (Good, Brophy, 1997, p. 65) guia o desenvolvimento cognitivo.

Os resultados de muitos estudos sugerem que o discurso egocêntrico é funcional e que as mudanças que ocorrem nele, conforme a criança se torna operacional, são parte do processo de vinculação do pensamento à linguagem (Diaz, Berk; Frauenglass, Diaz; Wesrtsch; Zivin apud ibid., p. 64).

A linguagem desempenha outro importante papel no desenvolvimento; para Vygotsky o desenvolvimento cognitivo ocorre através das conversações e interações da criança com pessoas mais capazes de sua cultura, ou adultos e companheiros com maior habilidade. Estas pessoas servem como guias e professores, ao proporcionar à criança as informações e apoio necessários para que cresça intelectualmente.

Para este autor, a interação e a assistência sociais mais que métodos de ensino, foram a origem dos processos mentais superiores como a solução de problemas. Supôs que a noção da função mental pode-se aplicar de maneira adequada a formas de atividades em grupo, assim como individuais (Wertsch apud Woolfolk, op. cit., p. 49).

De acordo com Vygotsky, em qualquer nível de desenvolvimento existem certos problemas que uma criança está a ponto de resolver. A criança somente requer algumas estruturas, chaves, e recordações que a ajudem a recordar detalhes ou passos, que a encorajem a seguir tentando sucessivamente. É evidente que alguns problemas ultrapassam as capacidades da criança, ainda assim se explica cada passo com clareza. Zona Desenvolvimento Próximo, esta é a área na qual o ensino pode ter êxito, já que é onde a aprendizagem real é possível.

A exposição do conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal – ZDP, (Zone of Proximal Development – ZPD) (Vygotsky apud Tharp, Gallimore, 1988), em ‘Mind in Society’, afirma que as crianças seguem os exemplos dos adultos e gradualmente desenvolvem suas habilidades para fazer certas tarefas sem ajuda ou assistência. O autor denomina ZPD a diferença entre o que a criança pode e não pode fazer fora de orientação. É a área na qual a criança não pode resolver um problema por si mesma, mas pode ter sucesso com a orientação de um adulto, ou a colaboração dos companheiros mais avançados (Wertsch, apud Woolfolk, op. cit., p. 51). A abordagem whole-language para ensinar a ler e escrever é influenciada por esta idéia.

Enquanto a criança joga e interatua com outros em casa e na escola, ela desenvolve modelos específicos de comunicação, expressão e explicação. Goddman e Goddman (apud Tharp e Gallimore, 1988) acreditam que o uso das formas da linguagem é a base para a alfabetização. Tharp e Gallimore (1988) usam o modelo ZPD para mostrar como a criança desenvolve a faculdade da fala e da linguagem. Vários pesquisadores como Newman, Griffin e Cole (apud ibid.) sugerem que as atividades incluídas no modelo acima refletem os antecedentes culturais do aprendiz. Os quatro estágios do ZPD são mostrados na figura 02.

Uma implicação da ZPD de Vygotsky é que se deve expor os estudantes a situações que precisam ser compreendidas, mas onde também esteja disponível a ajuda de outros estudantes ou do professor. Em algumas ocasiões, o melhor professor é outro estudante que acaba de compreender o problema, já que é provável que este aluno esteja operando na ZPD daquele estudante. A teoria de Vygotsky sugere que os professores devem preocupar-se não somente em dispor o entorno, senão de condicionar o ambiente de maneira que os estudantes possam descobrir o problema por si mesmos. Deve-se guiar os alunos com explicações, demonstrações e exercícios em parceria com outros estudantes20 – oportunidades para a aprendizagem cooperativa –. Deve-se fomentar nos estudantes o uso da linguagem para organização de seus pensamentos, para que assim consigam falar a respeito dos passos necessários para a resolução dos problemas.

Fig. 02: Modelo ZPD de 4 estágios
Fonte: Tharp & Gallimore (1988):
http://www.ncrel.org/sdrs/areas/issues/students/learning/lr1zpd.htm

A seguir, definir-se-á a aprendizagem, identificando-se os seus diferentes tipos e os seus diferentes enfoques.

2.3. Aprendizagem

Para Wittrock (apud Good, Brophy, 1997, p. 109), a aprendizagem é o processo de adquirir mudanças relativamente permanentes no entendimento, na atitude, no conhecimento, na informação, na capacidade e na habilidade através da experiência. A mudança pode ser deliberada ou involuntária, para melhorar ou piorar (Woolfolk, 1996, p. 197). A aprendizagem é um evento cognitivo interno. Cria o potencial para mudanças na conduta observável, mas a ação potencial adquirida através da aprendizagem não é a mesma que sua aplicação em uma execução observável. Ademais, as relações entre aprendizagem anterior e o desempenho subseqüente são imperfeitas. A ausência de uma conduta particular não significa que a pessoa não conheça nada sobre ela e o desaparecimento de uma conduta observada no passado não significa que a capacidade para executá-la tenha se perdido.

Aprendizagem não é o mesmo que pensamento, ainda que estes dois processos se apóiem de maneira mútua. Pensamento refere-se ao uso de habilidades cognitivas, tais como formular e responder perguntas, procurar na memória, processar informação ou avaliar soluções potenciais para problemas (Good, Brophy, op. cit., p. 109). O pensamento pode produzir aprendizagem, seja quando as habilidades cognitivas forem usadas para processar entradas novas, ou quando a reflexão sobre experiências anteriores produzir conhecimentos internos novos.

Em resumo, a aprendizagem é uma mudança relativamente permanente na capacidade de execução, adquirida pela experiência. A experiência pode implicar interação aberta com o ambiente externo, mas também pode implicar processos cognitivos fechados.

Algumas distinções qualitativas e tipologias que têm provado ser úteis para conceituar a aprendizagem e a instrução são resumidas a seguir:

Segundo (Good, Brophy, op. cit., p. 110), as pessoas possuem conhecimentos proposicionais e procedurais e podem integrá-los em conceitos de aplicação apropriados. O conhecimento proposicional sem o correspondente conhecimento procedural é inerte – simples conhecimento verbal, inacessível quando sua aplicação for útil . O conhecimento procedural sem o correspondente conhecimento proposicional é inflexível – uma rotina condutual dominada de memória sem considerações sobre princípios regentes, de modo que esta rotina não possa ser adaptada com facilidade a condições mutantes. Quando se procura aprender de maneira ativa, a atenção centra-se de maneira intencional no material que será apreendido, mas ocorre também alguma aprendizagem incidental. Ex. observar os maneirismos e os atributos dos professores na sala de aula. A aprendizagem significativa é retida por mais tempo do que a aprendizagem memorística. Ausubel e Robinson (ibid.) mostraram que a aprendizagem pela descoberta não é, necessariamente, superior à aprendizagem receptiva. A instrução expositiva e a aprendizagem receptiva podem ser ineficazes, por suposto, caso abordem um conteúdo inapropriado (fatos isolados sem princípios gerais organizadores) ou, forem usadas em excesso, de maneira que os estudantes adquiram o "conhecimento do quê" mas não o "conhecimento do como" (ibid.).

Os teóricos do campo têm desenvolvido tipologias que distinguem aprendizagens de acordo com diferenças no que se está aprendendo. Como as distinções qualitativas descritas anteriormente, estas tipologias são úteis como organizadoras para o planejamento da instrução. As mais relevantes, segundo Good e Brophy (op. cit., p. 111), são a taxonomia de objetivos cognitivos24de Bloom et. al. e a tipologia da aprendizagem25 de Gagné e Briggs. Estes últimos autores ofereceram

também lineamentos a respeito das formas diferentes de instrução requeridas para cada tipo de aprendizagem, como pode ser revisado em Good e Brophy (op. cit. p. 114).

2.3.1. Perspectivas condutuais da aprendizagem

Neste ponto serão descritas as contribuições dos teóricos da aprendizagem conhecidos como "condutuais", enfocando os processos a seguir:

A contigüidade desempenha uma função em uma parte da aprendizagem, na escola, como por ex. fazer tarefas de ortografia, praticar as tabelas de multiplicação, etc., que são exemplos de formar associações. A contigüidade também desempenha uma função importante em outros processos de aprendizagem melhor conhecidos como condicionamento clássico. O condicionamento clássico refere-se somente a situações onde as ações reflexas respondem aos estímulos condicionados, mas também aos estímulos incondicionados que as produzem de forma normal. Esse termo é usado também de maneira mais ampla para referir-se a qualquer aprendizagem de substituição de estímulos ou aprendizagem de sinais, onde a contigüidade e a repetição são usadas para induzir os aprendizes a generalizar uma conexão estímulo-resposta, já existente a algum estímulo novo. Este tipo de condicionamento pode ser usado no ensino do vocabulário, por exemplo, mostrando desenhos junto aos seus nomes impressos, mostrando palavras em português ao lado de suas equivalentes em inglês. O mecanismo primário para conseguir o modelamento da conduta é o reforço contingente, que implica em reforçar a execução da conduta alvo, administrando reforços somente quando a conduta tiver sido executada, conforme algum critério. Skinner definiu um reforço como uma "recompensa". Um reforço é qualquer conseqüência que fortalece a conduta que o segue. Assim, por definição, as condutas reforçadas desenvolvem-se ou pela freqüência ou duração. Sempre que uma conduta persiste ou desenvolve-se com o tempo, supõe-se que as conseqüências dessa conduta são reforços para o indivíduo. Quando as pessoas estão aprendendo uma conduta nova, têm mais sucesso se são reforçadas cada vez que dão uma resposta correta. Este é um programa de reforço contínuo (Woolfolk, op. cit., p. 205). Depois, quando dominam uma nova conduta, a manterão melhor se forem reforçadas de maneira intermitente em vez de sê-lo em todas as ocasiões. Um programa de reforço intermitente27 ajuda os estudantes manterem as habilidades sem esperar o reforço contínuo.

Em resumo, o enfoque skinneriano da instrução implica formar associações estímulo-resposta, indicando aos aprendizes a natureza da resposta desejada e logo proporcionando retroalimentação imediata a respeito das respostas produzidas corretamente, de maneira que sejam reforçadam e as incorretas, extintas. Quando necessário, os programas são seqüenciados para mover os aprendizes, através de aproximações sucessivas, em direção a respostas alvo finais. Skinner também aplicou princípios de condicionamento operante para desenvolver tecnologias para a condução das aulas e realização de instrução. As máquinas de ensino, a instrução programada e a instrução computadorizada estão, entre as tecnologias desenvolvidas, ao menos em parte, baseadas nas suas idéias.

2.3.2. Teoria da aprendizagem social

Nos anos recentes, os psicólogos condutistas vêm acreditando que o condicionamento operante oferece uma explicação muito limitada da aprendizagem. Eles vêm ampliando a perspectiva da aprendizagem para incluir o estudo de processos cognitivos, que não podem de ser observados de maneira direta, como as expectativas, os pensamentos e as crenças. Estes psicólogos dão, somente, uma explicação parcial da aprendizagem e não se atêm a alguns outros aspectos importantes do assunto, como as influências sociais28 da aprendizagem29.

A seguir, serão estudados alguns autores que defendem esta teoria:

Em todo caso, o papel do professor ou tutor é propor um modo de representação que permita a memorização e utilização efetiva do modelo. O aluno pode ter atrito com o modelo, aproximar-se ou afastar-se do modelo, em relação ao comportamento visado. A imitação, a realização do comportamento visado, são para ele as únicas fontes de reforço. O reforço exterior (a recompensa, sob qualquer forma que seja), é contudo, freqüentemente uma condição da realização efetiva dos comportamentos aprendidos (em relação à distinção performance/aquisição), (Gaonac’h, 1995, p. 49). A criança nasce para o psiquismo devido à emoção, que tem como função inicial a comunhão com o outro, a união entre os indivíduos em virtude das suas reações orgânicas, de sua fragilidade. No princípio, essa convivência é indistinta, mas engendrará as oposições e os desdobramentos que gradualmente vão dando origem às estruturas da consciência. A primeira expressão da emoção é o movimento, que é, ao mesmo tempo, o seu substrato. A motricidade é o tecido comum e original de onde procedem as realizações da vida psíquica. Essa primeira fase das trocas entre indivíduos e com o mundo em geral corresponde a um tipo de inteligência denominada por Wallon de inteligência das situações, de onde emerge a inteligência discursiva, cuja manifestação inicial é a representação. A imitação é o elemento responsável pela superação de um tipo de inteligência pelo outro (inteligência das situações e inteligência discursiva).

Ao tratar das origens do pensamento, entendido como inteligência discursiva, Wallon se volta para uma descrição psicológica de crianças de 5 a 7 anos, pois todas as etapas anteriores tinham sido já estudadas exaustivamente nas obras precedentes. E ele privilegia, nessa descrição, os obstáculos com os quais as crianças se deparam para explicar seu pensamento e as contradições entre o instituído e suas experiências, entre o formalismo da linguagem e a fluidez dos dados empíricos em si mesmos contraditórios; em última análise, entre o real e sua representação.

Em toda a extensão da obra de Wallon, encontra-se a preocupação de concentrar suas análises em processos, por considerar que é o confronto do indivíduo com a sociedade que leva à construção da inteligência. A afirmação a seguir é basilar para confirmar isso:

Jamais pude dissociar o biológico do social, não porque os creia redutíveis um ao outro, mas porque me parecem, no homem, tão estreitamente complementares desde o nascimento que é impossível encarar a vida psíquica de outro modo que não seja sob a forma de suas relações recíprocas (Wallon apud Giusta, 1985, p. 30). Ao conceito intelectualista de educação, nós opomos a nossa pedagogia realista que exige para a formação das crianças tanta solicitude, no plano material como financeiro, como a que se aplica à fabricação de panelas ou de automóveis, na reconstituição das reservas de gado, ou na preparação para guerra (Freinet,1945, Apud Freinet, 1969, p. 470). Na opinião de Freinet (1988, p. 24), nenhuma técnica conseguirá preparar melhor do que aquela que incita as crianças a se exprimirem pela palavra, pela escrita, pelo desenho e pela gravura. A tentativa experimental34, segundo o autor, faz-se por patamares: em cada patamar a criança consolida a sua experiência até automatizá-la (Freinet, 1977, p. 46).

Quanto à aprendizagem do desenho, a abordagem do autor (ibid., p. 48) considera: "é o mesmo processo de tentativa experimental que iremos encontrar ao longo de toda a aprendizagem do desenho: grafismo atingido, repetição mecânica desse grafismo para automatizá-lo, início de uma nova etapa a partir do primeiro patamar, novo triunfo, nova repetição, etc." O autor também tratou aspectos relativos à aprendizagem da escrita35.

O trabalho de Freinet (1945), ao mesmo tempo que traçou o programa dos esforços cooperativos, traçou um verdadeiro plano de ensino36.

Nas palavras de Freinet (1989, p. 28), a "pedagogia behaviorista permaneceu a meio caminho de suas próprias descobertas. Completamo-las pela tentativa experimental de que fizemos a base de nossos métodos naturais que são a própria manifestação dos processos da vida". Finalmente, segundo o autor (1988, p. 7), a educação não é uma fórmula de escola, mas sim uma obra de vida.

2.3.3. Perspectiva socio-cultural da educação (continua)