2.3.3. Perspectiva socio-cultural da educação (continuação) Falar de método, no caso de Paulo Freire, é perigoso, pois método lembra receitas, prescrições. As experiências e os métodos que Freire usou não eram transplantados de um lugar para outro. O método usado num lugar era descrito, discutido e criticamente compreendido pelo grupo que estava exercendo a prática. Não havia nem fechamento a um método já utilizado, nem sua utilização de forma ingênua (Ramos, 1996, p. 94). Segundo Ramos (1995, p. 89), toda teoria pedagógica é, no entender de Freire, subjacente a um conceito de homem e de mundo. Não há portanto uma educação neutra.

Segundo Silva e McLaren (1993, p. 85):

"A política pedagógica de Paulo Freire, se protegida das práticas reducionistas dos educadores liberais para transformá-la em um método, pode servir como uma praxes onde os negros e latinos, longe de temores e regulações do controle do poder branco, onde vínculos sentimentais e redes de obrigações sociais possam ser formadas entre as pessoas oprimidas, onde a resistência possa capacitar as escolas a tornarem-se mais do que instrumentos de réplica social, onde contrastando os estilos culturais e capitais culturais entre os grupos cessem de manter os símbolos de alienação que separam os grupos, provocando-os a se conduzirem impetuosamente como viajantes sob um sono social provocador". A teoria pedagógica37 de Freire propõe uma educação construída sobre a idéia de um diálogo entre educador e educando, onde exista sempre partes de cada um no outro, que não poderia começar com o educador trazendo pronto do seu mundo, do seu saber, o seu método de ensino e o material para as suas aulas baseados na sua cultura e valores. Dentro desta concepção é que um dos pressupostos do método se fundamenta na idéia de que ninguém educa ninguém e ninguém se educa sozinho. Segundo Shor (1993, p. 25): "a pedagogia social de Freire define a educação como um espaço onde se constrói o individual e o social, onde a ação social pode também fortalecer ou fazer os estudantes submissos. Nas aulas livres sugeridas por Freire, o professor propõe problemas derivados da vida do estudante, dos aspectos sociais, de assuntos acadêmicos em um diálogo mutuamente criado." Este método auxilia o processo de escolha do repertório das palavras38 do trabalho criativo de aprender a ler. Desta forma, observa-se que as palavras são a menor unidade da pesquisa, assim como os fonemas das palavras são a menor unidade do método. Sob este enfoque, as palavras não são só um instrumento de leitura da língua39; são consideradas instrumentos de releitura coletiva da realidade social onde os alunos estão ambientados. Compreende-se, portanto, que as palavras apresentam um papel de extrema relevância. Dentro desta abordagem, considera-se a melhor palavra geradora aquela que reunir em si a maior porcentagem possível de critérios sintáticos, semânticos e pragmáticos. Os critérios sintáticos significam a possibilidade ou riqueza fonêmica, grau de dificuldade fonêmica complexa, de manipulação dos conjuntos de sinais, as sílabas, etc.; enquanto o semântico significa a maior ou menor intensidade do vínculo e da adequação entre a palavra e "o ser" que designa; já o pragmático significa o maior ou menor teor de conscientização que a palavra traz em potencial, ou conjunto de relações sócio-culturais que a palavra gera na pessoa ou grupo que a utiliza.

Para Freire e Shor (1987, p. 123):

Ao comunicarmos, no processo de conhecimento da realidade que transformamos, comunicamos e sabemos socialmente, apesar de o processo de comunicação, de conhecimento, de mudança, ter uma dimensão individual. Mas o aspecto individual não é suficiente para explicar o processo. É um evento social, ainda que com dimensões individuais. O método de alfabetização de adultos não representa mais do que uma fase inicial de um longo processo de um sistema de educação40. É assim que Paulo Freire propõe uma linguagem político-pedagógica, absolutamente nova, progressista e renovadora para a época. O autor também abordou a importância dos "conteúdos programáticos", que deveriam ser democraticamente escolhidos pelas partes interessadas no ato de alfabetizar, dentro de uma proposta mais ampla de educar (Freire, 1993 p. 241). Ao contrário da concepção tradicional de escola, que se apóia em métodos centrados na autoridade do professor; Paulo Freire comprovou que os métodos novos, em que os alunos e professores aprendem juntos, são mais eficientes (Gadotti, 1989, p. 34).

Segundo Bimbi (apud Gadotti, 1989. P. 32), a originalidade do método Paulo Freire não reside apenas na eficácia dos métodos de alfabetização, mas sobretudo, na novidade de seus conteúdos para ‘conscientizar’ [ ...] .

2.3.4. Perspectivas cognitivas e construtivistas da aprendizagem

Os teóricos cognitivos concentram-se na aprendizagem humana, em especial na aprendizagem significativa da informação e das habilidades intelectuais mediadas pela linguagem. Com a recente consciência de que a aprendizagem é um processo mental ativo, os psicólogos passaram a interessar-se pela maneira como os humanos pensam, aprendem conceitos e solucionam problemas (Ausebel; Bruner, Goodnow, Austin apud Woolfolk, 1996). Os modelos construtivistas são modelos de aprendizagem que enfatizam o desenvolvimento do conhecimento novo nos estudantes através dos processos de construção ativa que vinculam o conhecimento novo ao conhecimento prévio (Good, Brophy, 1997, p. 156). Em lugar de receber de maneira passiva ou apenas copiar a informação dos professores ou dos livros de texto, os alunos mediam de maneira ativa a entrada de informação, tratando de dar-lhe sentido e de relacionar-lhe com o conhecimento prévio que possuem do tema em questão. Este processo de construção é importante devido ao fato de que se os estudantes não construírem representações da nova aprendizagem, "tornando-a sua" ao parafrasear-lhe e considerando seus significados e implicações, a aprendizagem será retida somente como lembranças mecânicas relativamente carentes de significado e inertes41. Para desenvolver conhecimento gerativo42, os estudantes precisam explicar e questionar o que se lhes diz, examinar o conteúdo novo em relação ao conteúdo familiar e construir estruturas de conhecimento novo (Resnick, Klopfer, apud Good, Brphy, op. cit., p. 157).

A seguir serão consideradas algumas perspectivas cognitivas e construtivistas da aprendizagem.

A Psicologia da Gestalt43. Teóricos como German Wertheimer, Koffka e Köhler, rejeitaram a suposição prematura de que a organização perceptiva era produto das relações de aprendizagem (associações), cujos elementos constituintes foram chamados de sensações simples. Embora os Gestaltistas concordassem que uma simples sensação lógica pudesse ser subentendida para a compreensão da percepção organizada, eles argumentavam que as mesmas percepções eram básicas para a experiência (Dember, 1980, p. 481). Sem contestar a participação da aprendizagem na percepção, muitos teóricos tomaram a posição de que essa organização perceptiva reflete propriedades inatas da mente. Realmente, o funcionamento da percepção e da mente foram considerados como formalmente idênticas (ou isomórficas).

Pesquisas contemporâneas sobre percepção são dirigidas para a inferência das características especificas das funções da mente, como comportamentos semelhantes aos ocorridos quando se citam relatos (introspeção) fornecidos pelas pessoas a respeito das suas experiências sensoriais (Dember, 1980, p. 482). Muitas dessas inferências são satisfatoriamente combinadas com observações fisiológicas da mesma mente.

Köehler (apud Good, Brophy, 1997, p. 157), em seus célebres trabalhos, sobre a inteligência dos símios superiores, coloca em relevo o fato de que a estruturação de uma situação se faz bruscamente: o insight é uma compreensão direta da situação, resultando da organização interna e espontânea de uma percepção ou de uma representação44. Os fatores que podem explicar a memorização de um material ou aprendizagem dependem, sobretudo, da forma deste material. Este princípio pode ser ilustrado pelo efeito von Restorff: Um elemento isolado é melhor memorizado quando ele está situado num conjunto de outros elementos homogêneos, que estão misturados a elementos heterogêneos (Gaonac’h, 1995, p. 43).

Para que as atividades mentais de um sujeito cheguem a estruturar uma situação, é preciso ainda que elas sejam estruturáveis. A análise behaviorista preconizava a apresentação, em cada etapa de um processo de aprendizagem, dos elementos estritamente necessários ao cumprimento dessa etapa. O ponto de vista gestaltista insiste sobre a necessidade de fornecimento ao aprendiz de situações suficientemente ricas para que ele possa fazer suas escolhas, estabelecer relações entre os elementos, tendendo a uma estruturação eficaz.

Dizem ainda os gestaltistas, ser raro a execução de algo de maneira exatamente idêntica duas vezes seguidas: na "repetição" de um gesto, ou de um discurso, as variantes mais ou menos fortes observadas em uma tentativa à outra, revelam um acaso mal controlado, ou ao contrário, a necessidade de introduzir uma variação útil ao aprendizado. Em resumo, a aprendizagem não ocorre sobre os elementos de uma situação, mas sobre a maneira com estes elementos se organizam. É uma atividade mental do sujeito que chega à constituição de uma organização. Essa atividade traduz-se, freqüentemente, pela brusca descoberta do princípio mais eficaz de organização.

A Gestalt opõe-se ao behaviorismo por possuir um fundamento epistemológico de tipo racionalista, ou mais precisamente, por pressupor que todo conhecimento é anterior à experiência, sendo fruto de todo exercício de estruturas racionais, pré-formadas no sujeito (Giusta, 1985, p. 25).

A psicologia da Gestalt trata, ainda, mais da percepção do que da aprendizagem. Wertheimer utilizou-a para formular linhas para a instrução, dando origem ao nascente campo da Psicologia Educativa. Ausubel e Bruner (apud Good, Brophy, p. 158) basearam-se na ênfase dada pelos psicólogos da Gestalt sobre a consciência dos aprendizes a respeito da estrutura do conteúdo que vai a ser aprendido e das relações entre seu elementos. Bruner (apud ibid.), também baseou-se na noção da aprendizagem pela descoberta.

Mayer (apud ibid.) ampliou as idéias de Ausubel desenvolvendo técnicas de assinalação45, que enfatizam a estrutura conceitual ou organizacional de uma passagem, para chamar a atenção dos aprendizes para as características estruturais das apresentações.

Ausubel (apud ibid.) propôs apresentar organizadores avançados46: conceitos superordenados dentro dos quais os aprendizes podem incluir o material novo e relacioná-lo com o material já conhecido. Estes organizadores são úteis, em especial, quando o material não está bem organizado e os aprendizes carecem do conhecimento necessário para organizá-lo bem por si mesmos. Vários investigadores que compartilham a preocupação de Ausubel têm estudado outros fatores, tais como analogias47, metáforas, exemplos e modelos concretos que ajudam os aprendizes a vincular conceitos novos com os familiares para desenvolver referentes concretos para os conceitos abstratos.

Ausubel enfatizou que a aprendizagem devia estar disponível para a transferência48 a contextos novos. Além de ser capazes de recordá-lo e aplicá-lo dentro do contexto em que foi aprendido originalmente, os estudantes devem ser capazes de generalizar a aprendizagem a contextos de aplicação relevantes e aceder a ele e basear-se nele quando estendem seu aprendizagem a áreas novas. A transferencia do conhecimento existente a situações novas simplifica a tarefa da aprendizagem nessas situações novas.

Em geral, os fatores de estruturação do texto enfatizados por Ausubel parecem ser importantes, em especial, para assegurar que os estudantes compreendam as idéias principais em uma apresentação e sejam capazes de transferi-las e aplicá-las depois. Encaixam bem com as idéias enfatizadas na atualidade a respeito do ensino de matérias escolares para a compreensão e uso do conhecimento.

De acordo com Bruner, a chave para o êxito do ensino disciplinar53 é traduzi-lo de maneira que os estudantes possam entender, pois crianças em diferentes etapas de desenvolvimento possuem formas características de ver e explicar o mundo. O autor propôs o curriculum em espiral54.

Para Bruner, a aprendizagem mais significativa é a desenvolvida por métodos de descoberta orientada, que implicam proporcionar aos estudantes oportunidades55 de manipulação de objetos em forma ativa para transformá-los pela ação direta, assim como por atividades que os animem a procurar, explorar, analisar ou processar, de alguma outra maneira, a informação que recebem, em vez de somente respondê-la. Por outro lado, ainda que os dados sobre a questão sejam irregulares (Ausubel, Robinson, Breaux, Hermann, Strike apud Good, Brophy, op. cit. p. 165), a aprendizagem por descoberta parece ser boa e útil, quando os estudantes tiverem motivação e as habilidades necessárias. A aprendizagem pela descoberta é essencial para objetivos que impliquem solução de problemas ou criatividade, pois na medida em que os estudantes trabalhem sozinhos, é importante selecionar atividades que lhes interessem ou que os estimulem para a realização das atividades planejadas. Esperando-se que os estudantes trabalhem de maneira colaborativa, é importante que estejam preparados para colaborar de forma produtiva.

2.3.5. Perspectiva humanista da educação

Alguns educadores (Rogers, Rogers e Freiberg, Maslow e Arts Combs apud Woolfolk, 1996, p. 493) procuraram o ensino centrado no estudante. Não se identificavam sempre como construtivistas, apesar de desenvolverem filosofia e abordagem construtivistas. Entre os princípios básicos da abordagem humanista, acredita-se que cada pessoa cria sua própria realidade. O que cada um percebe como real e importante é a realidade para esse indivíduo e uma pessoa não pode conhecer completamente a realidade da outra. As interpretações humanistas sobre motivação56 enfatizam suas fontes intrínsecas.

As abordagens humanistas sobre a educação enfatizam a importância dos sentimentos, a livre comunicação e os valores de cada estudante. A educação humanista é uma filosofia57, mais que uma recompilação de estratégias. Purkey e Novak58(apud ibid.) mencionam muitas ações que os professores podem levar a cabo para apoiar a auto-estima e fazer da escola um lugar atrativo. Uma abordagem associada à educação humanista é das escolas abertas59, cuja investigação geral demonstra que estes ambientes promovem a criatividade, a cooperação, a auto-estima e a adaptação social, mas o rendimento acadêmico não é maior que o das aulas tradicionais (Giaconia, Hedges, Rothemberg apud ibid.).
 

2.3.6. Perspectiva do ensino na biologia do amor60

Para Maturana (1994, p. 231):

organismo e meio mudam necessariamente de maneira harmoniosa enquanto o organismo viva; e se o meio for outro ser humano, dois seres vivos em interações recorrentes mudam juntos de maneira harmoniosa (...). Aquilo a que fazemos referência quando falamos de aprender, é o resultado de uma história de transformação harmoniosa, de dois ou mais sistemas que interatuam recorrentemente, visto da perspectiva dos distintos momento desta história. Para Verden-Zöller (1994, p. 111): cada criança percorre na sua infância um caminho de transformação, que vai de sua orientação para a mãe, ritmicamente regulada pela biologia própria da simbiose básica da relação materno-infantil, via intimidade e confiança do jogo corporal, passando pela consciência operacional corporal e pela construção do tempo e do espaço como um meio diferente do da mãe, à orientação para si mesmos na construção de um eu, que ocorre com a crescente e confiante independência da mãe, que surge com a construção do tempo e do espaço próprios e chega até o desenvolvimento da consciência social e o respeito pelo outro, que ocorre com a aceitação dos outros através da confiança em si mesmo, que surge no manejo do espaço e do tempo em uma relação de mútuo respeito e confiança com uma mãe independente. Muitas das distintas formas de dinâmicas corporais, que emergiram com a história evolutiva que deu origem à humanidade, reaparecem na ontogenia do desenvolvimento físico e mental da criança. O jogo livre das crianças, ao surgir sem influência dos adultos, organiza-se espontaneamente com base nas formas inatas de ações, movimentos e percepções, que provêm da história evolutiva humana ou filogenia. Assim, as formas de jogo livre das crianças não são arbitrárias; são formas de dinâmicas corporais que se vinculam a territórios condutuais ancestrais, a expressões e a conexões entre o ser vivo e seu meio, cujas formas atuais são apenas transformações de formas arcaicas Verden-Zöller (1994, p. 111). O futuro de um organismo nunca está determinado na sua origem (Maturana,1992a, p. 26). É partindo dessas concepções que se deve compreender e considerar a educação e o educar.

Para Maturana (ibid.):

o educar constitui-se em um processo no qual a criança ou adulto convive com o outro e nessa convivência com o outro, transforma-se espontaneamente, de maneira que seu modo de viver se faz progressivamente mais harmônico com o outro no espaço de convivência. O educar ocorre, portanto, todo o tempo; de maneira recíproca, como uma transformação estrutural contingente a uma história no conviver resultando que as pessoas aprendam a viver de uma maneira configurada segundo o conviver da comunidade onde vivem. A educação como "sistema educacional" configura um mundo e os educandos confirman em seu viver, o mundo que viveram em sua educação. Os educadores, por sua vez, confirmam o mundo em que viveram ao ser educados no educar. Segundo estes autores, a tarefa de formação humana é o fundamento de todo processo educativo, já que só assim, a criança pode viver como um ser responsável e livre, capaz de ver e corrigir erros, cooperar e viver uma conduta ética, para que desse modo a criança não se perca nas suas relações com os outros, não seja arrastada pelas drogas, ou pelo crime, pelo fato de não depender da opinião dos outros, nem precisar buscar sua identidade em coisas fora de si mesma.

A capacitação é um instrumento ou caminho na realização da tarefa educacional.

Uma criança que cresce respeitando-se pode aprender qualquer coisa, e adquirir qualquer habilidade que desejar. O normal é não existir limitação da inteligência como capacidade de consensualidade; todos os seres humanos, salvo situações extremas de alterações neurológicas, somente pelo fato comunicar-se através da linguagem são igualmente inteligentes. As dificuldades da inteligência surgem ou resultam, (se não existe dano neurológico de qualquer origem), de interferências na biologia do amor.

Para Maturana e Nisis (op. cit., p. 25), todos os seres humanos são especialistas na biologia do amor que consiste precisamente em que o professor ou a professora aceite a legitimidade dos seus alunos como seres válidos no presente, corrigindo somente seu fazer e não seu ser.

Para que isto seja possível, o professor tem que respeitar-se, aceitar que não precisa justificar sua existência, o seu fazer, ainda que explique sua natureza ou os motivos para levá-los a cabo. A implementação do ensino na biologia do amor exige, por um lado, maior atenção na formação humana dos professores, por outro, a ampliação e o aprofundamento da sua capacitação, dos seus afazeres e da reflexão sobre o que ensinam. Por isto é tão importante um maior compromisso do estado na conservação da dignidade dos professores, que necessitam de condições para poderem conservar o respeito por si mesmos e sua autonomia criativa.

2.3.7. Comparação das diferentes abordagens da educação

As diferenças entre as diversas perspectivas são sintetizadas no quadro 03.

Quadro 03: comparação das teorias X metodologias X ensino-aprendizagem

Paradigma
Metodologia
Ensino-aprendizagem
Comportamentalista
(Teoria de Skinner e seguidores)
Aula expositiva.
Demonstrações do professor à classe.
Aplicação da tecnologia educacional, especialmente os módulos instrucionais.
Uma mudança relativamente permanente em uma tendência comportamental e/ou na vida mental do indivíduo, resultantes de uma prática reforçada.
Humanista
(Teoria de Rogers e seguidores)
As estratégias e técnicas de ensino assumem importância secundária.
Relação pedagógica com clima favorável ao desenvolvimento da pessoa e com liberdade para aprender.
Ensino centrado na pessoa (primado no sujeito, no aluno)
Cognitivista
(Teoria de Piaget e seguidores)
Não existe modelo pedagógico piagetiano. As atividades principais seriam : jogos de pensamento para o corpo e sentidos, jogos de pensamento lógico, atividades sociais para o pensamento (teatro, excursões), ler e escrever, aritmética, ciência, arte e ofícios, música e educação física. Uso da aprendizagem por descoberta. Assimilar o objeto e associá-lo aos esquemas mentais.
Baseado no ensaio-erro, na pesquisa, na investigação e na solução de problemas.
Sócio-cultural
(Teoria de Paulo Freire e seguidores)
Método de alfabetização que permite que alunos e professores utilizem elementos que realizam um distanciamento do objeto cognoscível. Educação problematizadora ou conscientizadora.
Superação da relação opressor-oprimido.
Fonte: Giraffa (1997, p. 53).

As perspectivas cognitivas e condutuais diferem nas suas suposições a respeito das maneiras de aprender. Na perspectiva cognitiva, o conhecimento é aprendido e suas mudanças tornam possíveis as mudanças na conduta. Na perspectiva condutual, as novas condutas são aprendidas como tais (Shuell apud Woolfolk, 1996, p. 241). Tanto os teóricos condutuais, como os cognitivos consideram o reforço importante no conhecimento, mas possuem razões distintas. A perspectiva condutual estrita afirma que o reforço fortalece as repostas; os teóricos cognitivos consideram o reforço uma fonte de retroalimentação sobre o que é provável que aconteça, caso sejam repetidas as condutas.

A perspectiva cognitiva vê as pessoas como indivíduos ativos que aprendem, iniciam experiências, procuram informação para solucionar problemas e reorganizam o que já sabem para conseguir novos discernimentos. Em vez de estar sob uma influência passiva dos acontecimentos do entorno, as pessoas, ativamente, selecionam, praticam, prestam atenção, ignoram e tomam decisões diferentes, conformes a suas metas. As perspectivas cognitivas mais antigas enfatizavam a aquisição do conhecimento, mas as abordagens mais recentes destacam a construção do mesmo (Mayer apud ibid.).

Também é possível apreciar diferenças entre as perspectivas condutual e cognitiva nos métodos que cada grupo emprega para estudar a aprendizagem. Grande parte do trabalho sobre os princípios de aprendizagem condutual realizam-se com animais em condições controladas de laboratório. A meta é identificar umas quantas leis gerais da aprendizagem que se apliquem a todos os organismos superiores (isto é, aos humanos, sem importar idade, inteligência ou outras diferenças individuais). Por outro lado, os psicólogos cognitivistas estudam uma ampla variedade de situações de aprendizagem. Dado seu enfoque nas diferenças individuais e do contexto do conhecimento, não se procuram leis gerais da aprendizagem. Esta é uma das razões pelas que não existe um modelo cognitivo ou teoria da aprendizagem particular que represente toda a área.

2.4. Processamento, recordação e reestruturação do aprendizado

Os teóricos do processamento da informação têm demonstrado que a aprendizagem implica no processamento, armazenamento e recuperação ativos da informação e que o ensino implica ajudar os aprendizes a desenvolver suas habilidades de processamento da informação e a aplicá-las de maneira sistemática quando dominam um assunto.

A seguir considerar-se-á o nível micro da investigações dos processos implicados na aprendizagem e na memória.

2.4.1. Abordagens associacionista e construtivista da memória

As teorias associacionistas61 da aprendizagem e da memória assumem que a retenção da aprendizagem nova depende da natureza e da intensidade das associações entre a aprendizagem nova e a aprendizagem prévia armazenada na memória ( Good, Brophy, 1997, p. 177). Grande parte das investigações que apóiam as teorias associacionistas têm implicado aprendizagem decorada de informação de entrada, relativamente carente de significado e desconexa. Investigações mais recentes conduzem a teorias construtivistas62, nas quais os aprendizes são vistos, não apenas acessando associações, mas também construindo significados mediante o processamento das novas informações de entrada, através de estruturas cognitivas existentes e logo transferindo-a para a memória de longo prazo, onde pode experimentar maior processamento e possível reconstrução (ibid.). Para os construtivistas, o material armazenado na memória pode ser, não apenas elaborado ou distorcido, mas também retido tal como é, ou, em caso contrário, esquecido. Segundo Bartlett, quando se lêem histórias, empreende-se um "esforço em busca de significado", procurando compreendê-las, conectando-as às estruturas cognitivas existentes denominadas esquemas63. Dessa maneira, constrói-se um significado plausível e consistente, ainda que não seja o pretendido pelo autor. Pode haver distorção na aprendizagem original, em especial se a história contém elementos desconhecidos, apenas parcialmente compreendido (filtrando-os através de esquemas familiares). Além disso, as histórias construídas originalmente podem experimentar uma posterior reconstrução, caso ocorram mudanças nos esquemas com os quais foram conectadas. A maior parte das pesquisas que apóiam as teorias construtivistas implicam na aprendizagem significativa do discurso coerente, tipicamente o "esforço em busca de significado" na prosa escrita.

2.4.2. Modelos de processamento de informação.

Existem várias teorias da memória, estando entre as mais comuns as explicações do processamento de informação, onde se incluem as abordagens mais recentes das redes neurais ou com base conexionista64 (Varela, 1996, p. 57). Os modelos de processamento de informação envolvem, freqüentemente, diferenças a respeito das distintas classes de conhecimento.

Segundo Tulving (apud Good, Brophy, op. cit. p. 179) atinge-se a memória semântica65 por meio de sistemas de codificação, armazenamento e recuperação e é diferente da memória episódica66, rica em detalhes concretos e armazenada em forma de seqüências de eventos, ocorridos em lugares e momentos particulares, enquanto a memória semântica67 caracteriza-se por ser mais abstrata e armazenada em termos de conceitos e princípios relacionados de maneira lógica, é codificada e armazenada em forma de abstrações verbais (definições de conceitos e declarações de regras e princípios), com imagens associadas ou vinculadas com experiências particulares.

A maioria dos teóricos da aprendizagem aceita um modelo geral com três etapas de processamento de informação humana, desenvolvido com a incorporação de alguns conceitos tomados emprestados das ciências da computação. O modelo em versões diferentes (Atkinson e Shifrin, Kintsch, Klatsky e Loftus apud Good, Brophy, 1997, p. 181) propõe que a entrada de informação passa primeiro por um registrador sensorial, depois é processada na memória de curto prazo e então transferida para a memória de longo prazo e enfim, para seu armazenamento e recuperação potencial. Essas três etapas são vistas como sub-partes integradas de um sistema maior, que transforma a informação sensorial crua em formas mais apropriadas para a integração com o conhecimento prévio. Todo isto ocorre sob o controle da pessoa, cuja atenção determina quais aspectos da entrada, disponíveis em qualquer momento, serão processados pelo sistema, que possui uma capacidade limitada. Um dos modelos mais clássicos da memória é o proposto por Atkinson e Shifrin (apud Woolfolk, op. cit., p. 244), que a despeito de alguns aspectos contestados, é útil para se compreender as concepções atuais da memória; "este modelo distingue três registros diferentes" (Gaonac’h, Passerault, 1995, p. 50):

A memória de futuro é utilizada para a realização de atividades, como por exemplo a emissão de uma frase, cujas características a serem ditas em seguida precisam ser estruturadas na memória antecipadamente, mesmo que este futuro seja de apenas alguns segundos.

A figura 02 mostra uma representação gráfica da memória, tratada como três sistemas conforme proposto por Varela e o quadro 04 mostra os registros e dimensões do modelo de Atkinson e Shifrin.

Fig. 02: Três sistemas de memória
Fonte: Varela (1997, p. 134).

Quadro 04 : Resumo do modelo: três registros, quatro dimensões

  Memória Sensorial Memória curto termo  Memória longo termo
Capacidade Grande quantidade de elementos Muito limitada
(poucos elementos)
Ilimitada
 
Duração de manutenção das informações Muito curta (de ordem de segundos) Alguns segundos
(por mais tempo se a atenção é mantida)
Permanente

 

Perda de informações

 

Declínio espontâneo  Trocado por outras 
Informações
Acesso impossível ou
Difícil (reconhecimento Possível)
Natureza do código das informações  Código sensorial, conforme a modalidade de apresentação Principalmente fonético;
Códigos visuais e semânticos possíveis
Principalmente semântica
e conceptual
Fonte : Gaonac’h e Passerault (1995, p. 50).

Do ponto de vista do funcionamento cognitivo, a diferença entre conhecimento e representação reside no fato de os conhecimentos necessitarem de ativação para serem eficientes, enquanto as representações já são eficientes, por que constituem o conteúdo da memória operacional, a saber, as informações gravadas na memória de trabalho e as informações ativas da memória de longo termo81. Os conhecimentos, ao contrário, são gravados na Memória de Longo Termo (MLT). Nem todas as informações da MLT estão disponíveis; só as que possuem um nível de ativação suficiente ou que sejam objeto de uma busca bem sucedida da memória.

A arquitetura funcional do sistema cognitivo é uma descrição estática de suas diferentes funções e das relações entre estes elementos, e pode ser encontrada em Richard ( 1990).

2.4.3. Metacognição, autoregulação e diferenças individuais

Os processos de controle executivo são também conhecidos como habilidades metacognoscitivas. Metacognição82 significa, literalmente, conhecimento sobre cognição. Para Meichembaum, et. al. (apud Woolfolk, op. cit., p. 261) a metacognição é a "consciência" das pessoas "de sua própria maquinaria cognitiva e da maneira como esta funciona". Já que as pessoas diferem nos seus conhecimentos e aptidões metacognitivas, diferem na qualidade e rapidez da aprendizagem. Algumas diferenças nas habilidades metacognitivas se devem ao desenvolvimento. Conforme as crianças crescem são mais capazes de exercer controle executivo e usar estratégias83. As crianças mais velhas usam automaticamente técnicas mais eficientes84 que as crianças mais novas para memorizar informação (Flavey, Presley apud ibidem.). Nem todas as diferenças nas habilidades metacognitivas estão relacionadas com a idade ou o amadurecimento. Existe uma grande variabilidade ainda entre estudantes com o mesmo nível de desenvolvimento. Algumas dessas diferenças são conseqüência, talvez, das diferenças biológicas ou das variações nas experiências de aprendizagem, como por ex., a variação no grau de concentração sobre as informações do meio. A atenção também recebe a influência das habilidades e preferências de aprendizagem, estilos cognitivos e antecedentes culturais. A seguir serão analisadas algumas das diferenças individuais nas habilidades metacognitivas que afetam as memórias a curto e longo prazo:

2.5. Conclusões

Maturana e Varela (1972) propõem que os organismos vivos, incluindo os humanos, não tomam, simplesmente, informações do exterior; antes, reagem às "perturbações" do meio ambiente através das adaptações das estruturas interiores. A interação com o meio ambiente não efetua adição direta de "ingredientes" na estrutura física de um organismo e nem símbolos na sua estrutura mental, mas causa trocas qualitativas e quantitativas nestas estruturas já existentes. A habilidade para detectar as perturbações e a classe de troca estrutural que elas produzem é determinada pela filogenia das espécies e pela história das adaptações individuais ou ontogenia (Maturana, Varela, 1992). A interpretação e a representação (simbolização) do mundo dependem das adaptações estruturais, em função da interação com as perturbações de um meio simbólico e real. Os humanos se comunicam, usualmente, com quaisquer outros, de maneira simbólica. A comunicação se torna possível através do que Maturana e Varela (1992) chamam de "acoplamento estrutural". Os organismos de espécies semelhantes possuem, basicamente, aparelhos semelhantes para detectar perturbações e adaptar-se a elas. Além disso, eles habitam meio-ambientes semelhantes e provavelmente estão propensos a encontrar perturbações semelhantes. Como resultado, a história de suas adaptações estruturais podem ser similares. Suas estruturas são "acopladas", por isso é possível a comunicação com outros seres humanos. Segundo Wygotsky (1994), para tornar a comunicação possível, deve-se ter uma aproximação a respeito dos significados dos símbolos. A negociação entre membros de um grupo sobre um significado se estabelece mediante um compromisso (Flores, Winograd, 1989) e pode resultar em concordâncias somente temporárias. Searle (1995), tendo proposto o problema do significado, volta-se para a estrutura dos atos da linguagem. Ao fazê-lo, aponta a teoria do ato da fala, como desenvolvida por Austin (apud Flores, Winnograd, 1989).

A perspectivas condutuais da aprendizagem contribuíram no desenvolvimento de tecnologias para a condução das aulas e realização da instrução. As máquinas de ensino, a instrução programada e a instrução computadorizada estão entre as tecnologias desenvolvidas, ao menos em parte, baseadas nestas idéias.

Existe, atualmente, um grande desafio para a perspectiva do processamento de informação – perspectiva construtivista –. Os trabalhos dos psicólogos da Gestalt, Piaget, Vygotsky, Bruner Bartlett e Dewey, enfatizam a construção ativa do significado por parte do indivíduo. Este enfoque, ao contrário de postular a memorização da informação, postula a criação de significado e construção de conhecimento. Muitas perspectivas construtivistas também consideram o contexto social como um dos fatores fundamentais do saber que as pessoas adquirem a respeito de si mesmas e do mundo.

Analisada a explicação do processamento de informação, da representação do conhecimento na memória, e finalmente, das diferenças individuais dos estudantes, podem-se fazer a seguintes interrogações: como é que os ambientes de aprendizagem podem ajudar os estudantes a aprender e recordar melhor?. Como podem os ambientes de aprendizagem apoiar o desenvolvimento dos conhecimentos e habilidades dos estudantes?.