5. AMBIENTES INTELIGENTES DE APRENDIZAGEM
 

Os chamados ambientes inteligentes de aprendizagem (Intelligent Learning Environments - ILE's) (Costa, apud Oliveira, 1994) podem ser entendidos como o resultado da aproximação entre os sistemas tutores inteligentes e os insights da Inteligência Artificial Distribuída (Sichman, Demazeau, Boissier, apud ibid.): a interação tutor-aluno passa a ser vista como um caso particular de interação entre agentes inteligentes (Costa, apud ibid.). Entretanto, para que esta visão tenha reflexos concretos, é necessário aumentar as capacidades de adaptação e autocrítica do sistema tutor, incluindo 2 requisitos:

O segundo requisito exige que o sistema possua, além de técnicas de aprendizagem automática, um conjunto de crenças e processos de inferência sobre essas técnicas, possibilitando avaliá-las e comparti-las. A fim de caracterizar este fato, Oliveira (1994) adota o termo teoria de aprendizagem em vez de módulo. Uma das principais utilidades de uma teoria de aprendizagem, dentro de um sistema tutor inteligente, está na "resolução de conflitos cognitivos". Situações de conflito surgem quando há discrepância entre as crenças do sistema tutor e as crenças do aluno sobre um ou mais aspectos do domínio, para as quais podem-se imaginar quatro possíveis situações: o aluno está errado; o sistema está errado; ambos estão errados; ninguém está errado, sendo a divergência devida apenas a visões diferentes, mas não opostas. Os esforços de pesquisa concentrados até agora, no primeiro caso, resultam em diversas técnicas de representação, diagnose e tratamento de concepções incorretas. Este é o único caso de conflito que pode ser resolvido, em algum grau, sem a aplicação de aprendizagem automática. O tratamento dos outros casos implica um aumento nas capacidades adaptativas do sistema tutor. Desse modo, uma teoria de aprendizagem (implícita ou explicitamente manifesta na arquitetura do sistema) surge como forma natural de atacar esses problemas. A seguir, apresentar-se-á a arquitetura clássica dos STI, outros trabalhos nessa linha, e propostas baseadas no paradigma da IA construtivista.

5.1. Sistemas Tutoriais Inteligentes - STI

As pesquisas na construção de Ambientes Inteligentes para a Aprendizagem Assistida por Computador, também conhecidos como STI, tiveram início aproximadamente nos anos 70. Alguns autores como Carbonell e Sleeman começaram a observar que os programas de CAI possuíam estrutura de transmissão de conhecimento de caráter seqüencial, previamente determinadas e, por conseqüência, com incapacidade de adaptação real às necessidades e estilo individual dos alunos. Estes autores propuseram um sistema que incorporava técnicas de IA a fim de tentar criar um ambiente que levasse em consideração os diversos estilos cognitivos de cada aluno que utilizasse o programa. A este tipo de software denominaram de Tutores Inteligentes ou Sistemas Tutores Inteligentes (Giraffa, 1997, p. 23).

Os CAI e os STI situam-se, aparentemente, em um tipo similar de aplicação em educação. Para salientar as diferenças e pontos em comum, apresentar-se-á o quadro 09.

Quadro 09: CAI x ICAI ou STI

Aspecto CAI STI
Origem Educação. Ciência da Computação.
Bases Teóricas Skinner(behaviorista). Psicologia Cognitivista.
Estruturação e Funções Uma única estrutura algoritmicamente pré-definida, onde o aluno não influi na seqüenciação. Estrutura subdividida em módulos, cuja seqüenciação se dá em função das resposta do aluno.
Estruturação do Conhecimento Algorítmica. Heurística.
Modelagem do Aluno Avaliam a última resposta1. Tentam avaliar todas as respostas do aluno durante a interação.
Modalidades Tutorial, exercício e prática, simulação e jogos educativos. Socrático2, ambiente interativo3 diálogo bidirecional4 e guia5.
Fonte : Giraffa (1997, p. 19).

No segundo estágio dos STI, na segunda metade da década de 80, as pesquisas se concentraram em verificar as questões envolvendo o aspecto pedagógico, ou seja, o seu valor instrucional. Nesta etapa, a equipe de trabalho começou a contar com a colaboração de especialistas em Educação, especificamente em instrução via-computador, os PC já estavam começando a se disseminar e as linguagens sofreram evolução para se adaptarem aos novos ambientes de hardware. Com a explosão dos microcomputadores PC, começa uma nova concepção a nível de pesquisa de ferramentas (software) e utilização de linguagens para a implementação dos STI. Neste período, os STI apresentaram um grande avanço no que diz respeito á eficácia instrucional.

O terceiro estágio compreende a década dos anos 90, onde os pesquisadores estão explorando ambientes e variáveis instrucionais específicas, utilizando equipes interdisciplinares para realizar atividades multidisciplinares. Isto se faz necessário devido ao avanço das ciências afins tais como: IA, Psicologia Cognitiva, Neurofisiologia, Neuropsicopedagogia e a própria Ciência da Computação que disponibilizou as tecnologias de hipermídia e poderosas linguagens nos paradigmas de Programação Orientada a Objetos – POO e agentes.

Segundo Costa (apud ibid., p. 23) a contribuição deste estágio deve ser o desenvolvimento de novas teorias e estratégias instrucionais, posição que se vê reforçada pelos trabalhos implementados até hoje a nível de STI , onde as estratégias de ensino (módulo tutor do STI) são fixas e em número reduzido, na maioria restringindo-se somente a uma.

Burns (apud ibid.) salienta que a pesquisa em STI, especialmente envolvendo as teorias de ensino-aprendizagem, devem contemplar as estratégias de ensino (levando em conta as diferenças individuais). Estas pesquisas incluem trabalhos bastante conhecidos como o Guidon de Clancey, et. al. (apud Giraffa, 1997, p. 30) e suas revisões, o PROUST de Soloway e Johnson (apud ibid.), os tutores ACT de Anderson, Boyle e Yost (apud Guine, 1991), ETOILE de Dillenbourg et. al. (1993) e muitos outros, que mostraram as características dos STI e suas habilidades para diagnosticar concepções erradas do aprendiz durante o processo de ensino e baseados nesses diagnósticos, fornecer ensino subsidiário aos estudantes. Contudo, muitas questões psicológicas subjacentes à aprendizagem, ao ensino e à compreensão não têm sido respondidas convincentemente. Adicionalmente, existem dificuldades enormes na representação exata dos estágios da aprendizagem do estudante e na identificação das possíveis concepções erradas, fatos que contribuem para uma diversificação das pesquisas nos STI. Muito se argumenta sobre a importância da avaliação de semelhantes sistemas.

Apesar das dificuldades das pesquisas existentes em STI, acredita-se que o ensino por computador é uma alternativa atrativa para tutores humanos, no fornecimento de assistência para os instrutores que são responsáveis pelo aprendizado dos estudantes e para os estudantes que pretendem aprender de forma autônoma, especialmente quando os tutores humanos não estão disponíveis ou não estão dispostos a investir mais tempo (Wu, 1995b, p. 2).

Um STI pode ser descrito como um software que envolve (Djamen, Frasson, Kaltenbach, 1996, p. 1):

· um computador que codifica domínios pedagógicos e conhecimento de professores humanos (trainer) como um bom mecanismo para comunicá-los a outros humanos;

· um aprendiz humano (trainee) que inter-atua com o computador para adquirir algumas habilidades nesses domínios.

Para Dede (1995, p. vi), os Sistemas Tutoriais e Treinadores Inteligentes (STI), também denominados Intelligent Computer-Aided Instruction (ICAI), fornecem para a tecnologia educacional as características das habilidades cognitivas do professor. As estratégias situadas sob esses tipos de aplicações educacionais estão baseadas nas idéias do campo da Inteligência Artificial. Aplicações STI/ICAI contém, idealmente, modelos dinâmicos do aprendiz, nos quais o conhecimento pode ser falado e discutido pedagogicamente. O sistema compreende quem, o quê e como ensinar. Em um STI full-fledged, o material apresentado para o aprendiz é interativamente formado por esses modelos dinâmicos, gerados pelo sistema em tempo real (em contraste aos Computer Based Training - CBT ou Computer Assisted Instruction - CAI, que se ramificam através de um repertório pré-programado de janelas). Segundo Wu (1995a): Quando o ensino é realizado por professores humanos ou STIs, os fatores psicológicos dos estudantes desempenham papéis predominantes no desempenho do processo de ensino. Porque a motivação ou o estado emocional do estudante são usualmente imprevisíveis, enquanto as capacidades intelectuais são mais mensuráveis e previsíveis, nós adiamos nossa preocupação com os primeiros dois fatores (motivação e estado emocional). Em vez disso, nós nos concentramos na predição das diferenças individuais das capacidades intelectuais (cognitivas), possibilitando sobres estas bases a adaptabilidade dos STIs aos vários estudantes. Como foi descrito em Wenger (1987), a maior perspectiva de domínio de conhecimento requerido em um STI inclui a causality (modelo mental e raciocínio qualitativo), a estrutura (relações estruturais entre tarefas), a funcionalidade (modelo de rol de agentes e fatores na transição entre estados) teleology (metas), constraint (dificuldades para completar a meta e limitações dos meios disponíveis) e a semântica (clarificação de definições de conceitos).

Para algumas extensões, todas essas perspectivas podem estar fundadas em diferentes desenvolvimentos ainda distantes de STIs. Payne (1988), por exemplo, argumenta que, considerando o equipamento e a necessidade de separar a parte do funcionamento do sistema das intenções de um determinado usuário, a fixação dos dispositivos para realização dessas tarefas requereria, no mínimo, a manutenção simultânea dos dois espaços seguintes:

Contudo, a problemática e as possibilidades dessas perspectivas não foram ainda esclarecidas. Como resultado, a construção de programas STI demanda ainda o investimento de muito tempo e esforço, porquanto uma análise exata do raciocínio do estudante é ainda problemático na instrução automatizada.

Por outro lado, a IA construtivista, sendo antes de tudo IA, pode aproximar a informática da educação as técnicas, linguagens e sistemas de IA, mas de um modo crítico, permeado pela perspectiva da epistemologia e da psicologia genéticas, vistos como verdadeiros instrumentos de experimentação dos alunos e não produtos a serem consumidos passivamente por eles (Costa, 1994, s/p).

A seguir, serão analisadas algumas arquiteturas de STIs, que podem ter utilidade para a formulação do modelo.

5.2. Arquitetura clássica de STI

As arquiteturas de Sistemas Tutores Inteligentes variam de uma implementação para outra. Numerosos STIs foram implementados entre meados da década de 70 e na década do 80 por Clancey(1979), Johnson(1985), Anderson (1985), Viccari (1990) entre outros. As arquiteturas desenvolvidas durante esta fase sustentavam que um sistema STI/ICAI devia incluir os seguintes elementos funcionais:

A estrutura de um sistema com as características anteriores exige o desenvolvimento de programa tutorial composto pelos módulos mostrados na figura 40.

Figura 40: Arquitetura clássica de um STI
Fonte: Giraffa(1997, p. 41).

5.2.1. Base de conhecimento do domínio

O modelo de domínio é o componente especialista do tutor, o especialista que trata e manipula o conhecimento da matéria (Corredor,1989, p. 44), constituído pelo material instrucional, por uma sistemática geração de exemplos, pela formulação de diagnósticos e pelos processos de simulação. Contém o conhecimento sobre o domínio que se deseja ensinar ao estudante.

Um ponto a ser estudado em Matética Computacional6, e que refletiria em um nível concreto a vinculação conceitual entre aprendizagem e ensino por computador, é a inclusão, na arquitetura básica de um tutor inteligente, de um módulo de aprendizagem(Viccari, apud Oliveira, 1994, p. 8). Este módulo teria a função de permitir a alteração/ampliação/adaptação das duas principais bases de conhecimento componentes do tutor: a base do domínio e o modelo do aluno. A inclusão de capacidades de aprendizagem no sistema tutor implica um estilo de arquitetura baseado não em bases de conhecimento, mas sim em bases de crenças.

Vários modelos de representação de conhecimento podem ser usados aqui: redes semânticas7, frames, scripts, regras de produção, Programação Orientada a Objetos-POO, entre outras. A escolha deve recair sobre aquele método que melhor e mais facilmente atenda aos requisitos de representação e manipulação do raciocínio. Segundo Hassegawa e Nunes (apud Giraffa, 1997, p. 41), uma escolha inadequada pode comprometer todo o desempenho do sistema, uma vez que este módulo deve ser capaz de determinar, entre outras coisas, a complexidade e consequentemente a forma de apresentação dos conceitos da área de conhecimento em questão. Um resumo das características de tipos de representações e conhecimento é apresentado no quadro 10.

Quadro 10: Resumo das caraterísticas de tipos de representações de conhecimento
Representações  Características  Limitações
Alguns Campos de Aplicação
· Lógica dos predicados · Facilidade de manipular novos fatos a partir de fatos conhecidos  · Independência do processamento em relação ao conhecimento utilizado · Sistemas de dedução natural
· Linguagens de programação declarativas
· Regras de produção · Parecida com o modo das pessoas falarem sobre como resolvem seus problemas · Sistemas Especialistas baseados em regras não podem exigir um nível de conhecimento especialista
· Deficiência individual de autocontrole necessário.
· Sistemas especialistas 

· Engenharia de Conhecimento

· Redes Semânticas · São orientadas semanticamente. Simulam o modelo psicológico de memória associativa humana. · As mesmas da lógica dos predicados · Processamento de linguagem natural 
· Quadros e Roteiros
(Frames e Scripts)
· Estrutura de dados para representar um conceito o uma situação dada.
· Apropriada na interpretação de uma seqüência específica de acontecimentos
· Permite indicar como os acontecimentos se relacionam entre si
· Formalização e metodologia ainda em fase de consolidação · Interpretação visual
· Compreensão de fala
· Situações estereotipadas
· Alógrafos · Possui relações morfosintáticas simples que abarcam a maioria dos casos que se apresentam na realidade
· Permite normalizar outros tipos de representações
· Formalização e metodologia ainda em fase de consolidação · Formalismo através do qual podem ser deduzidas outras formas de representação
· Objetos · Bastante aproximada da forma de raciocínio humano · Formalização e metodologia ainda em fase de consolidação · Aplicações em docência
· Aplicações em sistemas computacionais.
Fonte: Casas ((1994, p. 124), adaptado de WAH, B.W; GUO-JIE, LT, LI, 1989).

O material instrucional é organizado, geralmente, numa taxonomia que prevê níveis crescentes de complexidade. As tarefas são organizadas utilizando uma estrutura de árvore e formadas dinamicamente, de acordo com a interação e o trabalho do aluno (Giraffa, 1997, p. 41).

A estratégia de ensino a ser utilizada vai depender do modelo do aluno definido.

A base de conhecimentos do domínio é um componente chave do STI; ali está representado o material instrucional - ou seja, o conteúdo que o tutor deverá ministrar. O fato desse conteúdo ser armazenado em uma base de conhecimento - e não em uma base de dados convencional - é um dos fatores que determinam a diferença entre um STI e um CAI convencional (Oliveira, 1994). A base de conhecimentos deve facultar ao sistema a possibilidade de raciocinar sobre a estrutura do conteúdo a ser ministrado, permitindo-lhe então ser mais do que um simples virador de página eletrônico.

Uma conseqüência evidente desta importância funcional é que a representação de conhecimento utilizada determina fortemente o comportamento do sistema tutor. Como em todos os sistemas baseados em conhecimento, a forma de representação dependerá, via de regra, do domínio de aplicação considerado. Por outro lado, o tipo de manipulação a ser efetuada pelo sistema tutor também influencia a forma de representação do conhecimento. Baseado nessa afirmação, Woolf (apud Giraffa, op. cit., p. 42). estabelece uma distinção entre sistemas tutores fortes e fracos. Um sistema tutor fraco deve ser capaz de ministrar o conteúdo, propor questões a serem resolvidas pelo aluno e reconhecer/corrigir erros. Um sistema tutor forte deve, além disto, ser capaz de resolver as mesmas questões que propõe ao aluno - ou seja, deve ser capaz de, além de ministrar o conteúdo, utilizá-lo na resolução de problemas. A decisão de construir um sistema tutor forte ou fraco influencia a representação do conhecimento do domínio.

Tipicamente, nos casos em que o domínio é de natureza descritiva e teórica (por exemplo, geografia ou física), a representação utilizada é declarativa (em geral redes semânticas ou linguagens de frames). Já nos casos em que o domínio é orientado a uma tarefa (por exemplo, programação Pascal), a representação tende a ser procedural - tipicamente regras de produção. Woolf (apud Giraffa op. cit.) denomina essas duas categorias de conhecimento declarativo ou conceitual e conhecimento procedural8 e acrescenta uma terceira categoria chamada conhecimento heurístico. O conhecimento heurístico descreve maneiras de utilizar o conhecimento (procedural ou declarativo) na resolução de problemas. Pode-se dizer que a sua presença distingue o sistema tutor forte do fraco.

O embasamento cognitivo da representação utilizada na base de conhecimento do domínio e no modelo do aluno reflete o caráter multidisciplinar dos sistemas tutores inteligentes enquanto área de pesquisa. Autores como Ohlsson., Clancey e Self (apud ibid.)., apontam a necessidade de buscar premissas psicológicas, epistemológicas e pedagógicas para a construção de sistemas tutores inteligentes. A teoria cognitiva utilizada por Anderson pode parecer simplista ao advogar modelos mentais totalmente embasados em regras de produção, no entanto, é um dos poucos trabalhos a explicitar seu embasamento psicológico.

5.2.2. Modelo do aluno

É o especialista em técnicas de ensino que seleciona os conceitos, fixa os níveis de dificuldade do ensino e controla o processo de aprendizagem (Corredor, 1989, p. 44). O modelo do aluno contém as informações relevantes, do ponto de vista do tutor, a respeito do aluno. É a presença deste modelo que permite ao sistema tutor adaptar-se a cada estudante, individualizando a instrução. Este módulo representa o conhecimento e as habilidades cognitivas do aluno em um dado momento (Oliveira, 1994). É constituído por dados estáticos e dados dinâmicos que serão de fundamental importância para o tutor poder comprovar hipóteses a respeito do aluno (Giraffa, op. cit., p. 42). Contém uma representação do estado do conhecimento do aluno no momento que interage com o STI. A partir desse modelo e do conteúdo a ser ensinado, o sistema deve ser capaz de inferir a melhor estratégia de ensino a ser utilizada em seguida. Um modelo realista do aluno implica numa atualização dinâmica, à medida que o sistema avalia o desempenho do estudante.

Os dados dinâmicos referem-se ao desempenho do aluno face a questões formuladas pelo tutor e confrontadas com as hipóteses elaboradas pelo aluno, face ao uso que o aluno faz do sistema e face aos novos conhecimentos que o aluno pode vir a ensinar ao tutor.

Muitas técnicas são utilizadas para construir o modelo do aluno, como por exemplo (Giraffa, op. cit., p. 43):

O modelo do aluno, segundo Costa e Werneck (1996), pode ser representado apoiando-se em alguns modelos de descrição, a saber:
Figura 41: Modelo de overlay
Fonte: Giraffa (1997, p. 43)
5.2.3. Estratégias de ensino

Uma estratégia é um plano, ou seja, uma estrutura de ação visando atingir determinados objetivos. As estratégias de ensino podem ser vistas como esquemas de planos que definem formas de apresentar o material instrucional ao aluno. Autores como Ohlsson e Breuker (apud Giraffa, 1997, p. 46) conceitualizam dois níveis de planejamento da ação para um tutor: o nível das táticas de ensino e o nível das estratégias propriamente dito. A noção de tática de ensino é explicada por Ohlsson:

"A diagnose cognitiva e a análise da matéria geram as 'entradas' para um sistema tutor, cujas informações formam a base para as decisões tutoriais. As táticas de ensino (...), por outro lado, representam sua 'saída', ou seja, seu comportamento frente ao estudante." (Ohlsson apud ibid.).

As estratégias constituem conhecimento sobre como ensinar, ou seja, sobre como gerar, a partir das informações de diagnóstico, monitoração e análise, uma seqüência de táticas de ensino capazes de apresentar com sucesso um determinado tópico a um determinado estudante. Segundo Breuker (apud ibid.), a maioria dos autores concorda em que uma estratégia de ensino deve questionar:

a) seleção do(s) tópico(s) a serem apresentado(s);

b) ordenação dos tópicos, se houver mais de um.

A seguir serão exploradas duas estratégias cooperativas, comparadas com a primeira aproximação usada nos STIs, onde o tutor supervisiona diretamente o aprendiz. Como alternativas para a estratégia um-a-um, as estratégias cooperativas incorporam um elemento adicional, denominado interação par (peer). Sistemas de aprendizagem cooperativa, chamados também sistemas de aprendizagem social, adotam uma abordagem construtivista, baseada no uso dos computadores, que atua no processo de transferência de conhecimento como um parceiro, não como um professor (Aimeur, Frasson, 1996). Agentes múltiplos, que são seres humanos ou simulações por computador, podem trabalhar no mesmo computador ou compartilhar uma rede de computadores. Supõe-se que o co-aprendiz passou pelos mesmos problemas de compreensão e por isso está mais informado do nível de explicação e dos detalhes para a resolução de um problema dado. O nível de conhecimento de um co-aprendiz é ligeiramente mais alto que do aprendiz. Chan e Baskin (apud ibid.) propuseram três agentes de situações de aprendizagem, que consistem na cooperação entre um aprendiz humano e um colega simulado que aprendem juntos sob a guia de um professor. O aprendiz e o co-aprendiz (o colega) executam a mesma tarefa e se não acharam uma solução trocam idéias a respeito do problema.

O papel do professor é, então, apresentar alternativamente problemas e críticas às soluções dos aprendizes. O processo é gradual, no sentido de que cada aprendiz produz uma solução que verifica a outra solução. Finalmente, o professor verifica a solução que lhe é submetida, com a finalidade de corrigir qualquer erro remanescente. O companheiro e o aprendiz possuem níveis de conhecimento similares, enquanto o tutor possui um nível mais alto.

Esta nova estratégia sugere que o computador possa simular dois agentes: o professor e o criador de perturbações (troublemaker), que pode ter distintos comportamentos: dar uma resposta errada a um problema para forçar o aprendiz a reagir e a propor uma solução correta, ou esperar pela solução do aprendiz e dar uma sugestão ou solução erradas, ou exemplo contraposto. O aprendiz explica ao troublemaker, controlado pelo professor. Se o aprendiz não está capacitado para a dar uma solução correta, o professor a dará.

O interesse pedagógico desta abordagem está no fato de que o troublemaker pode, algumas vezes, fornecer recomendações errôneas, apontando algumas sutilezas que podem estar escondidas. Essa atitude pode também provocar os aprendizes para forçá-lhos a utilizar e demonstrar a conexão de seus conhecimentos e autoconfiança na defesa das suas opiniões.

Os resultados dos experimentos realizados por Aimeur e Frasson (1996, p. 126) demonstraram que o treinamento pode ser melhorado com aprendizagem pela perturbação, de acordo com certas condições:

· se as pessoas possuem um bom conhecimento da matéria (do assunto) e parece ser perigoso para pessoas com conhecimento fraco;

· o acompanhamento é mais eficiente para aprendizes deficientes.

Aimeur e Frasson (1996) adiantam algumas interpretações a respeito do quê a aprendizagem pela perturbação parece útil para os aprendizes bons e ineficaz para os deficientes: · o processo de memorização é melhor ativado nas falhas do que em casos bem sucedidos (Gilmore, Self apud ibid.), especialmente para aprendizes bons;

· intensifica a atenção do aprendiz, acrescenta a percepção de detalhes e provê o significado (Flores, Winograd, 1989, p. 91) para argumentação e memorização;

· os bons aprendizes são mais motivados por situações competitivas, enquanto os aprendizes menos sucedidos aspiram receber ajuda antes de serem perturbados. Não existe a competição na estratégia de acompanhamento, mas sim cooperação;

· tem a vantagem de ressaltar a atenção do aprendiz, as sutilezas de algumas questões que poderiam ter sido escondidas.

Como pode-se ver, cada método requer um diálogo entre o aprendiz e o sistema e as explicações são fundamentais. O aprendiz pode pedir uma explicação para justificar sua opinião, propor uma solução alternativa, ajudar outro usuário a formular suas questões, reconhecer as interpretações erradas e compreender a motivações dos seus colegas de aprendizado.

A evolução das estratégias de aprendizagem, em ambientes inteligentes de ensino, avança com o objetivo de obter uma maior participação do aprendiz no processo de aquisição de conhecimento. De qualquer modo, existe necessidade de testar a autoconfiança do aprendiz para introduzir novas formas de motivação, para incrementar o grau de estimulação e para fixar o conhecimento no aprendiz. A abordagem dos ambientes inteligentes para a aprendizagem evoluiu de uma atitude passiva para uma forma mais ativa do aprendiz. Os diferentes graus de implicação são ilustrados na Fig. 42.

Um método muito utilizado pelos tutores de um modo geral, é o chamado método socrático, em que, partindo de conhecimentos que o aluno já domina, o tutor ensina através de perguntas e diálogos, levando o aluno a tirar suas próprias conclusões, sendo este seu grande ganho em relação aos CAI tradicionais, onde as conclusões são apresentadas ao aluno e ele as recebe de forma passiva, mesmo que as mesmas sejam apresentadas com sofisticados recursos Multimídia.

Outro modelo teórico empregado em STI é o coaching (treinamento), que emprega atividades de entretenimento, como jogos para transmitir conceitos relacionados. A aprendizagem é uma conseqüência indireta da atuação nessa simulação (Werneck apud Giraffa, op. cit. p. 46).

Utiliza-se ainda as estratégias pedagógicas de orientação (o sistema é explicitamente chamado pelo aluno quando este requisita palpites, expansões ou críticas) e cooperação utilizadas na abordagem de agentes.

Fig. 42: Evolução de estratégias de aprendizagem
Fonte: Aimeur, Frasson (1996, p. 120).

Um terceiro modelo surgiu com a utilização de hipertextos (Concklin apud Giraffa, op. cit. p. 47), onde o estudante navega numa estrutura de hipertexto e explora o conteúdo a partir dos seus interesses e pré-requisitos. Este documento está organizado de tal maneira que cada subdivisão lógica do assunto está ligada ao documento, através de diversos tipos de ligações, possibilitando que o aluno navegue por diferentes alternativas para explorar o domínio.

O modelo de hipertexto abre excelentes perspectivas para a construção de STIs, uma vez que pode abrigar, no mesmo documento, diferentes formas de representação de conhecimento. Além disto, o aluno pode trabalhar de forma mais participativa e dinâmica, podendo ser orientado no aspecto pedagógico de forma diferente a que ocorre num STI tradicional. O aluno pode controlar dinamicamente as informações, refletindo sua lógica pessoal que pode (e na maioria das vezes é) ser diferenciada da lógica do autor do sistema. Com as atuais tecnologias de acesso em rede, podemos pensar na possibilidade de acessos às informações simultáneamente, por vários usuários.

Tutores humanos ou máquinas, segundo Halff (apud Giraffa, op. cit. p. 50 ), podem usar muitas formas técnicas instrucionais diferentes para a interação tutorial com o aluno; entretanto, elas são conduzidas de três maneiras:

Tanto tutores humanos, quanto computacionais (máquinas) possuem modelos muito fracos para uma ou duas destas funções e, no entanto, qualquer metodologia e suas conseqüentes estratégias de ensino devem incluir uma abordagem de cada uma destas três maneiras, sob pena de não ter resultados satisfatórios no trabalho junto ao aluno.

Existe uma certa mistura de conceitos quando se trata de currículo e instrução. Por currículo se entende a seleção e sequenciação do material a ser apresentado ao aluno. Por instrução será a efetiva apresentação deste material para o aluno, ou seja, a forma como este conteúdo organizado no currículo será trabalhado com o aluno, implicando, assim, o que chamamos de metodologias de ensino que utilizarão técnicas de ensino para sua efetivação.

5.2.3.1. Métodos e Técnicas de ensino

É o especialista que analisa as respostas do aprendiz, procurando achar conceitos desconhecidos, o nível de assimilação e motivação (Corredor, 1989, p. 44). Os métodos e as técnicas de ensino, segundo Eusébio (apud Giraffa, op. cit., p. 50), são muito variados. Um método de ensino representa um caminho no sentido de um dado objetivo de ensino. Uma técnica de ensino diz respeito a uma habilidade que recorre a determinadas regras para conseguir certos fins.

Para cada aspecto levado em consideração e alguns aspectos importantes no processo de ensino-aprendizagem, ter-se-á um respectivo método, que mais se adequa à situação. Os métodos serão brevemente descritos a seguir (Giraffa, op.cit., p. 50):

Existem muitas técnicas de ensino, das quais destacam-se as seguintes: 5.2.3.2. Currículo e instrução

O problema em se desenvolver um currículo e instruções para um sistema tutor é desenvolver métodos de seleção e seqüenciação do material e métodos de apresentação deste material de maneira a levar em consideração os diferentes tipos de alunos que podem usar o mesmo ambiente, tendo os mesmos ou distintos objetivos.

Os STIs devem levar em consideração, no seu design, a natureza da aprendizagem e o paradigma educacional onde está baseado, a natureza do ensino (decorrente deste paradigma) e a natureza do assunto que está sendo abordado..

As instruções ou estratégias de ensino se referem aos métodos instrucionais que um tutor autômata pode usar para distribuição do currículo. Estes métodos devem cobrir uma apresentação inicial do material, meios para responder às questões dos alunos e condições e conteúdos para uma eventual intervenção.

O problema do currículo pode ser dividido em duas partes: formular uma representação do material e a seleção e sequenciação dos conceitos a partir de sua representação. Em STI a representação do conhecimento envolve o uso adequado de um módulo especialista onde se armazena o conhecimento.

Os métodos usados para apresentar este material depende do conteúdo e dos objetivos instrucionais. Tutores expositivos usam diálogos estruturados para fazer sua apresentação. Tutores orientados para trabalhar com habilidades procedurais usam exemplos e exercícios de treinamento para desenvolver estas habilidades.

Os métodos usados para apresentar o material dependem do objetivo, do tipo do conteúdo e objetivos pedagógicos que se pretende atingir. Os métodos mais utilizados em STI são (Giraffa, 1997, p. 54):

Ex.: SCHOLAR, SOPHIE, SOPHIE I, SOPHIE II podem responder questões através de palavras-chave onde se podem identificar problemas na compreensão do assunto envolvido. Existem duas abordagens para tratar a questão da intervenção tutorial: a Model Tracing (rastreamento do modelo), intervenção utilizada sempre que o estudante estiver perdido da solução conhecida do problema e Issue-based tutoring (tutoramento baseado em resultado), intervenção ativada apenas quando o tutor pode fazer uma identificação positiva de uma ocasião em particular para a intervenção.

Ex.: os tutores Anderson, Brown, Boyle e Gentner utilizam estes princípios de decisão para intervisem nos seus STIs.

Quando um tutor decide fazer uma intervenção, ele deve formular o seu conteúdo. Não existe, na literatura, uma abordagem uniforme para o conteúdo da intervenção entre os treinamentos feitos por computador.

A estratégia conhecida como estratégia de generalização aplicada ao domínio particular do ensino de programação para iniciantes, caracteriza-se por pegar os erros de estrutura, sintaxe e semântica, mostrá-los ao aluno e dizer onde e por que os erros aconteceram e depois iniciar as correções (Chang, Chiao, Hsiao apud Giraffa, op. cit. p. 57). Entretanto, esta estratégia mostra seus inconvenientes, pois o aluno iniciante pode ter uma atitude depressiva e frustada ao começar a fazer seu programa e se deparar com uma grande coleção de erros. Além do inconveniente de que a solução apresentada pelo sistema geralmente se reduz a apenas uma, desconsiderando outras possibilidades de resolução do problema.

Para evitar estes problemas está sendo usada a estratégia de acabamento proposta por Van Merrienboer (apud Giraffa op.cit. p. 57), onde é apresentado um programa incompleto, mas muito bem projetado para o aluno poder fazer acabamentos, modificações e extensões.

Outra estratégia utilizada em STI é a aplicação da crença de aprender-fazendo, onde a aprendizagem é produzida por compromissos dos alunos na realização de atividades cognitivas complexas, que envolvem colegas, especialistas, professores e STIs como parceiros. Esta estratégia pode auxiliar muito no aprendizado de ambientes exploratórios, onde alunos e seus colegas, utilizam parecerias com professores fazendo com que estes sistemas sejam uma base para aprendizagens futuras, pois permitem descobrir como os alunos usam os recursos de treinamento que o sistema dispõe para eles.

5.2.4. Módulo de controle (continua)